Notas iniciais
Luke 15:32 It was meet that we should make merry, and be glad: for this thy brother was dead, and is alive again; and was lost, and is found. (The Parable of the Prodigal Son) Capa: allbluechase no tumblr

Nos primeiros dias em que passou sozinho, Zoro ainda esperava inocentemente que Sanji voltasse. Claro, ele gostaria mais do que queria admitir de que o loiro tivesse voltado o mais rápido possível, mas uma semana não era tanto tempo assim, ele poderia esperar. Enquanto isso poderia utilizar esse tempo para pensar em como resolver seus assuntos pendentes. O padre ficou envergonhado com a mensagem de voz que havia recebido e planejava se retirar do cargo para que pudessem arrumar alguém novo e os fiéis não ficassem sem um guia na igreja.

Entretanto, as semanas passaram e Zoro não viu nem sinal de Sanji. Sua ansiedade pouco a pouco se transformou em desapontamento. E o desapontamento rapidamente foi substituído por raiva.

Com um mês do ocorrido, Zoro perdeu completamente qualquer fiapo de esperança que ainda existia e apenas resolveu voltar à igreja. Afinal era a única vida que ele conhecia. Pensar que quase abandonou tudo por um desejo idiota fazia seu sangue borbulhar de ódio. Achara, como um tolo, que se entregar a prazeres que não levavam a nada faria bem a ele, até conseguiu se convencer de que aquilo estava o ajudando, agora apenas se arrependia amargamente de tudo isso.

Sua concentração estava pior do que nunca, se perdia constantemente no roteiro das missas, quase não conseguia meditar e estava rendendo muito menos do que deveria em seus treinos diários.

Para piorar, voltou a ter sonhos. Desta vez, bem mais horríveis do que aqueles dos quais não se lembrava. Podia ver vividamente o causador da sua raiva neles, brincando consigo e o provocando, o que fazia o padre acordar suando e completamente excitado.

Cada vez que aquilo acontecia apenas deixava o padre mais puto ainda. Porque parecia exatamente o que o demônio queria, desde a primeira vez. Queria corrompê-lo, queria profaná-lo e queria vê-lo escravo dos seus desejos.

E o que Zoro fez? Pateticamente deixou que o fizesse, quis que ele gostasse daquilo também como um imbecil, se entregou para aquela criatura como se não tivesse nenhum orgulho. Talvez tenha sido por isso que foi embora. Já havia alcançado seu objetivo, já havia brincado o suficiente com Zoro. Esse pensamento o enojava. Eram os únicos momentos em que conseguia treinar decentemente ultimamente. Momentos em que estava com tanta raiva que poderia levantar quantos quilos fossem precisos, apenas com a força desse ódio.

Mais de dois meses se passaram e Sanji nunca mais retornou até a casa de Zoro, não existia motivos para ir até lá, então ele apenas se afastou e não tinha nenhum plano de retornar. A energia sexual do padre nem era mais tão boa quanto na primeira vez, estava bem semelhante a de qualquer humano que se relacionara durante esse período em que estavam afastados e o íncubo estava mais do que satisfeito…

Ou era isso que queria se convencer. Por ser um demônio, estava crente de que não nutria nenhum sentimento romântico ou afeto por Zoro e mesmo assim seu corpo sempre o arrastava para muito perto do local em que o humano morava e passava horas observando aquele lugar, como um maldito stalker. Felizmente, estava sendo forte durante todo esse tempo, contendo seus instintos e mantendo-se afastado como deveria ser. Ele viu quando Zoro reabriu a igreja, assim como estava vendo os fiéis deixando aquele recinto sagrado após o culto da semana. O demônio sentia uma dor inexplicável que não conseguia entender sempre que via, de longe, Zoro abrindo a capela.

Durante o tempo em que ele ainda não havia retomado a batina, Sanji jurou que estava só exagerando e que talvez o padre se importava minimamente com ele, mas não demorou para ele retomar a rotina e vê-lo com aquela vestimenta era torturante. O padre havia escolhido seu caminho e Sanji não estava incluído nessa escolha.

Estava com um doloroso nó na garganta. Ver o moreno seguindo a vida normalmente e agindo como se nunca tivesse se deitado com um demônio o entristecia, Sanji no fim era só uma diversão, um buraco de porra que estava sendo usado para satisfazer o homem. E a tristeza se tornou ódio. Ele estava irritado. Pela primeira vez sentia vontade de matar um humano, logo ele que era considerado um demônio pateticamente gentil.

Riu de suas próprias atitudes, no fim era realmente patético, assim como todos os demônios diziam, assim como sua família insistia em afirmar. Estavam todos certos. Sanji era desprezível. Seus irmãos que assim como todos os demônios começaram no mesmo degrau que ele, atualmente estavam no topo da casta e Sanji continuava lá embaixo, como o lixo que era. Seria engraçado se não fosse trágico. Estava cansado.

Com o desejo de subir a casta do inferno e deixar de ser patético, ele andou até aquela igreja e a invadiu assim que todos os humanos deixaram o local. Sua aparência demoníaca e horrenda, tornou-se delicada e bela, apenas o fazendo pensar no quanto amava tomar o corpo daquele loiro que provavelmente nunca saberia quem é e o que significava para Zoro. Bom, levando em consideração o quanto o padre não se importou com seu sumiço, provavelmente era só algum pedaço de carne que ele desejava comer.

Seu estômago embrulhou, estava enjoado, odiava estar perto de Zoro e ter sensibilidade igual a um humano patético, ele odiava aquele homem. Mas, hoje, tudo acabaria. Os sentimentos que pensou poder ter, toda aquela fantasia e ilusão que sua mente insana inventou, não existiria mais, assim como a vida do padre. Iria matá-lo e tomar sua alma, assim sendo permitido a subir um degrau rumo ao topo.

As vestes sem cor transformaram-se em um suéter branco e puro, deixando-o com uma aparência angelical e inocente. A peça caiu por seus ombros, as mangas eram longas e escondiam metade de suas mãos pequenas e delicadas. Olhando seu reflexo no teto, Sanji novamente sentiu aquela sensação estranha de que desejava permanecer com aquela aparência para sempre, como se aquilo fosse quem ele realmente era. O loiro suspirou e se enfiou no confessionário, sabendo que Zoro estava ali fazendo sabe-se lá deus o quê.

— Desculpe, padre, eu fui um mau garoto. — Sanji disse com a voz banhada em luxúria e totalmente provocante. Era a primeira vez que entrava na pequena capela e até que não era de tão ruim. Zoro jamais imaginaria que ele poderia entrar ali, afinal, era um local sagrado e demônios deveriam ser afastados automaticamente, mas as regras não eram bem assim que funcionavam.

Zoro havia acabado de ouvir a confissão de um penitente quando sentiu outro sentando no banquinho ao seu lado. Mas, assim que ouviu a voz dizendo aquelas palavras ridículas não poderia confundi-la jamais. Com muito esforço, Zoro conseguiu se lembrar de onde estavam e de que não poderia xingá-lo de todos os piores nomes naquele momento, muito menos assassiná-lo, então se limitou a engolir em seco e evitar ao máximo olhar para a tela que o separava do íncubo.

— Como você se atreve... — Zoro disse, os punhos tremendo de raiva. — Eu te dou cinco segundos para você sumir daqui antes que eu perca minha paciência, demônio.

Ele estava muito melhor com a ideia de que Sanji jamais voltaria. De que simplesmente havia enjoado do seu novo brinquedo e o abandonado. Se fosse o caso, Zoro eventualmente apenas se acalmaria, mais uns meses e com certeza tudo voltaria ao normal, como sempre foi, e ele poderia esquecer aquela raiva e aquele loiro. O fato de ele ter voltado só o deixava mais puto. Como se não fosse permitido nem esquecer em paz, como se seu objetivo fosse realmente enlouquecê-lo de vez.

Aguardou pacientemente e tudo que ouviu foi uma maldita risada debochada, que o fez perder completamente qualquer paciência que ainda tivesse. Se levantou decidido a expulsá-lo dali, já que não podia matá-lo ali dentro. Forçou o outro a se levantar puxando o colarinho daquele suéter, ainda se recusando a olhar diretamente nos olhos do infeliz.

Quando Sanji sentiu a força do padre puxando sua roupa, ele sentiu todo seu corpo arrepiar. Sim, queria sentir o ódio do outro em sua própria pele, queria ser espancado e humilhado, como o demônio sujo e patético que era. Zoro estava tão irritado que ficou mais que claro que o moreno não se importava com ele realmente, Sanji era apenas alguém que o outro poderia descontar sua raiva e frustrações. Sentia-se patético por apenas um segundo ter cogitado que Zoro se importava, que Zoro queria ficar com ele, queria ser seu amigo e ainda mais patético por uma única vez ter desejado ter aquele tipo de relação com o padre. Sanji era só um demônio que o padre podia descontar suas frustrações sem ninguém saber, apenas isso. Que ele poderia foder em segredo.

Ver Zoro tão de perto, sentir seu calor em contato com sua pele, era doloroso. Sanji gostava dele… Droga, Sanji gostava dele mais do que deveria e aquilo machucava. Não enxergava mais Zoro apenas como uma presa, ele havia se tornado mais, quase como um amigo e ser tratado com tanto ódio, tanta violência, só mostrava que era aquilo que um demônio merecia, exatamente aquele tratamento. Ele era só um lixo. Deveria matar aquele homem, mas não conseguia, quem estava tentando enganar? Era fraco, não de força física e sim de força mental. Olhando nos olhos cheios de ódio do outro, ele sorriu triste e sumiu de suas mãos. Voltar ali fora totalmente um erro, ainda não havia superado o que passaram, o que viveram, não seria só ele se alimentando como normalmente fazia, significaria alguma coisa.

Com um semblante triste, o loiro se deitou na cama do padre, agarrando-se nos lençóis que continham o cheiro delicioso do moreno. Sentia falta dele, do sexo, dos toques, dos beijos… E dos carinhos que trocaram. Por que ele tinha que ser um demônio? Por que ele sempre era enxergado apenas como um receptáculo de sêmen? Ele não queria ser mais isso, mas… Se não fosse, morreria… Naquele momento a morte não parecia tão ruim assim.

Zoro nem conseguia pôr em palavras a raiva que sentira quando o demônio, exatamente como naquele dia, apenas desapareceu entre seus dedos como fumaça. Era o pior hábito que ele tinha, desde que se conheceram, mas agora era demais para o padre conseguir aguentar. Estava tão puto ao sair da igreja que quase não conseguia colocar a chave na fechadura de casa, suas mãos tremendo demais para isso.

Sanji notou o moreno se aproximando outra vez, afinal, aquela era a casa dele e decidiu o que faria. Seria usado, enquanto usava o padre, aproveitando-se de seu calor, de seus toques, de sua energia sexual, apenas para se satisfazer física e mentalmente. E se fosse para ele ser apenas um buraco, então aceitaria seu destino.

Ainda com o sorriso triste nos lábios, ele colocou-se de quatro, empinado na beirada da cama e afundou o rosto em um travesseiro com o perfume do homem que tanto desejava. O cheiro de Zoro era tão bom que machucava cada célula de seu corpo. Ele suspirou e aceitou seu destino, fazendo a calça sumir e expondo seu cuzinho molhado escorrendo com a lubrificação natural. Era isso que Zoro queria, era para isso que Sanji servia, apenas isso.

— Claro que é isso que você quer. — O padre disse ao chegar no quarto e se deparar com o loiro se exibindo na cama.

Se aquela cena tivesse acontecido há mais tempo, ele não poderia ter sido mais feliz. Era tudo que ele esperava, tudo com que sonhava. Agora, ele só sentia muito desprezo. Como se o íncubo achasse que podia resolver tudo com aquilo, mesmo depois de deixá-lo e provocá-lo.

Mais ainda, Zoro sentia muita raiva de si mesmo. Raiva de desejá-lo tão imensamente ainda agora. Raiva por ter sido tão patético durante todo esse tempo. Eles realmente não tinham nada, nenhuma obrigação e nenhum laço. O único motivo pelo qual havia ficado puto foi porque criou expectativas fantasiosas, porque se apegou demais.

Mesmo agora, seu corpo o arrastava magneticamente até o loiro que se oferecia na cama, como alguém que passou muito tempo faminto e estava diante de uma refeição perfeita. Zoro deveria estar com raiva demais para aquilo, mas aparentemente ainda era um escravo da carne, então só se livrou dos tecidos que o separavam daquele corpo pequeno e se enfiou lá dentro de uma vez com força, a mesma força que usava quando estava treinando com ódio.

Havia tanta raiva nublando sua visão, mas o prazer ainda foi grande o suficiente para fazê-lo morder os lábios com força ao meter com facilidade no cuzinho molhado. Era tão bom quanto se lembrava, quanto esperava que fosse quando ele voltasse, embora nunca achou que as circunstâncias seriam essas. Não estava nem vendo o outro, tudo que conseguia enxergar era a cabeleira dourada afundada em sua cama e a bunda desnuda que se empinava em sua direção, como se ele fosse apenas aquilo, um boneco que servia apenas para ser fodido.

Se odiava por achar que de alguma forma era diferente com ele, porque Sanji sentia, porque gostava daquilo e gostava dele. Queria se bater por pensar que ainda gostaria de ver seu rosto lindo cheio de prazer, de fazê-lo sentir-se bem mais do que se sentir bem ele próprio. Levantou um pouco o suéter que o outro usava, o suficiente para ver as costas branquinhas do loiro, enquanto o pegava por baixo para se apoiar melhor, embora o que queria mesmo era tocar todo aquele corpo macio e um pouco mais musculoso do que antes, pelo que havia percebido.

Tentava a todo instante voltar a pensar nele como apenas um demônio, voltava a chamá-lo assim para se convencer, mas era completamente diferente de antes. De quando mal o conhecia e nem sabia seu nome. Agora ele não era um demônio, era Sanji e não era assim que queria tratá-lo.

Seu corpo se movia de acordo com a sua frustração e fazia o crucifixo que carregava no pescoço balançar, cada estocada carregando todo o peso de tudo que sentia, mas não estava realmente gostando daquilo. Deveria ser perfeito, com Sanji sempre foi perfeito, mas parecia uma versão quebrada daquilo. Seu corpo com certeza estava gostando, a umidade e a pressão perfeitas como sempre. Sua mente, no entanto, parecia ter outra opinião sobre aquilo. Cada movimento cheio de raiva era torturante e os gemidos falsos e escandalosos abaixo de si faziam seu estômago embrulhar.

Depois daquela reação do padre, Sanji só concluiu, tendo a certeza de que ele realmente não significava nada para aquele homem. Era triste e doloroso, mas não é como se já não estivesse acostumado. Ele era uma puta e servia unicamente para sexo, só estava muito carente e acabou se apegando mais do que deveria ao humano. Zoro era diferente dos outros… Ou foi assim que ele achou por um tempo, iludindo-se que algum humano um dia poderia ter o mínimo de gentileza para se importar com um demônio sórdido e sujo, patético e que não merecia nenhum respeito. Sanji precisava aceitar seu destino e aceitar quem era.

As investidas do moreno eram deliciosas, seu corpo sensível amava senti-las, ao menos algo não mudara. Sexo com o padre era bom, ser sensível era gostoso, tudo seria ainda melhor se pudesse vê-lo sentindo prazer, a expressão linda naquele rosto, o suor escorrendo, aquela respiração ofegante. Queria olhar para o marimo e sorrir para ele, mas não podia e nem iria, não mais.

As mãos de Sanji apertaram com força os lençóis e ele se enfiou mais contra o travesseiro, o prazer do outro era indescritível, mesmo que fosse diferente das outras vezes, parecia que tinha voltado para as primeiras vezes que Sanji apareceu ali e o prazer era unicamente por estar despejando seu ódio em seu corpo. Não notava, mas estava com um sorriso triste e vazio. O travesseiro estava molhado e molhava ainda mais a cada gemido que soltava, mas não eram gemidos de prazer, não dele, apenas do demônio que era, o monstro horrível que sugava energia sexual de humanos e sentia prazer. Queria se aproveitar da deliciosa energia do outro, mas nem mesmo isso estava igual.

As estocadas intensas estavam machucando seu corpo, como se isso fosse possível. Parecia que seria quebrado ao meio e o padre tentava picotar seu interior e estraçalhá-lo, como ele merecia. Era dolorido e sentia que morrer seria melhor. O loiro não entendia aqueles sentimentos, nada fazia sentido e parecia que não era para estar ali e realmente não deveria. Sua mente voltou a si, ele não deveria ter voltado, seu orgulho estava em jogo naquele momento, então, ele resolveu fugir outra vez, como sempre fazia ao ter medo de alguma coisa.

No entanto, quando ia desaparecer no meio do sexo, o moreno abaixou minimamente o corpo acima de suas costas e a reação seguinte do demônio foi gritar. A dor mais desesperadora e lacerante o atingiu, queimando sua pele e afundando-se em suas costas, atingindo seu corpo real de monstro. Ele urrava de dor, seus olhos se enchiam de lágrimas que escapavam facilmente e escorriam pelo rosto bonito.

Não entendia o que acontecia, nunca sentiu seu corpo queimar daquela forma e aquela dor era diferente de tudo que já experimentara. Sanji caiu de bruços na cama, não conseguindo mais manter seu corpo de quatro, consequentemente obrigando o padre a se retirar de seu interior e o que restou ao pobre demônio foi se contorcer de dor e chorar pateticamente, assemelhando-se a um humano que tinha ferro quente pressionado contra o corpo.

Zoro demorou alguns segundos para entender o que estava acontecendo. Tudo que conseguia processar era que estava em cima de Sanji em um segundo e no outro o loiro estava agonizando de dor. Quando colocou seus dois neurônios para funcionar, percebeu que ao se abaixar havia encostado o crucifixo que usava na pele pálida.

Não sabia que aquilo poderia acontecer. O íncubo havia entrado dentro da igreja mais cedo e não aconteceu absolutamente nada, mas um simples objeto sagrado era suficiente para causar tanta dor? Mas não tinha tempo para refletir sobre isso naquele momento.

A única coisa que foi capaz de fazer assim que conseguiu entender o que acontecia foi arrebentar a corrente que prendia o objeto em seu pescoço e arremessá-lo longe. Em seguida, Zoro se abaixou e envolveu o corpo menor com o seu, observando a mácula que o colar havia deixado. Bem no meio das costas brancas havia uma marca horrível no formato da cruz, como se tivesse sido feita com brasa naquela pele tão alva.

Seu rosto estava horrorizado ao olhar aquilo, toda a cor havia sumido da pele morena e toda a raiva que sentia foi substituída por uma grande angústia. Zoro nunca havia visto Sanji daquele jeito, o corpo pequeno tremia debaixo de si e ele escutava os soluços que embrulhavam mais seu estômago que os gemidos falsos de anteriormente.

Seu corpo queimava, Sanji não aguentava mais aquela dor. Seja lá o que aconteceu em suas costas, o que caiu ali, atravessou a camada de pele falsa e entrou em contato com seu corpo real, era uma dor desesperadora e mortal, se o padre não tivesse tirado o objeto de perto de si imediatamente, era bem provável que morresse agonizando na mais torturante dor.

Zoro aproximou as mãos trêmulas do corpo de Sanji e o acariciou hesitante, enquanto colocava os lábios próximos da pele machucada e beijava o local delicadamente como uma súplica. Ele queria ser perdoado, queria absolvição, mesmo que não merecesse. Não conseguia raciocinar que não era sua culpa, tudo que importava era que havia machucado Sanji e aquilo também o machucava por dentro. O pesar começava a corroê-lo e Sanji não parecia ter se acalmado nem um pouco depois do carinho, pelo contrário, agora soluçava mais alto do que antes.

— Eu não queria te machucar. — Zoro falou, mesmo nem tendo certeza de que ainda tinha alguma voz naquele momento. Ele nem sabia direito o que falar, portanto se limitou a essas palavras e a continuar beijando as costas de Sanji, como se aquilo fosse apagar o que fizera.

Se antes Sanji chorava pela dor, agora as lágrimas não eram apenas por isso, a mistura dos sentimentos que o demônio não entendia, não fazia ideia de que poderia sentir, juntamente a mágoa de ser trocado pela igreja e o ódio de estar sendo tocado pelo homem que desejava. Não se entendia, mas ele não queria ser tocado daquela forma, não merecia um toque gentil, só desejava o ódio, nojo e desprezo de antes.

— Pare... — Sua voz saiu falha e fraca, implorando em meio às lágrimas e soluços irritantes. Como sempre odiava aquele corpo humano, em seu corpo real jamais agiria de forma tão patética. — Não toque em mim...

No entanto, aqueles pedidos não pareciam em nada sinceros. Quanto mais pedia para o outro parar, não tocá-lo e se afastar, mais ficava claro que seu desejo era exatamente o oposto e Sanji queria e precisava do toque de Zoro. Não do padre, não do humano, só de Zoro, o seu Zoro.

O toque do marimo era quente e parecia que se importava. Ele não tinha o direito de tocá-lo assim, não podia tocá-lo, mas as lágrimas que escorriam do rosto delicado imploravam por aqueles toques e saber que Zoro se importava o deixava feliz, mais do que nunca. Zoro o beijava com tanto carinho, tanta delicadeza, parecia que até mesmo ouvia os batimentos do coração dele tão próximos. Sanji gostava tanto dele e era um sentimento tão estranho. Sabia que não foi machucado de propósito e os toques do outro mostraram o quanto ele se importava. Aquela constatação deveria fazê-lo parar de chorar e só o fez chorar mais ainda.

Zoro terminou de beijá-lo e abaixou novamente o suéter quase tão branco quanto a própria pele com a maior delicadeza que conseguiu, cobrindo aquela marca para a qual não desejava olhar. Em seguida tirou rudemente a batina que ainda cobria seu próprio corpo, deixando o tecido negro afastado dos dois na cama.

Estava tão espantado que não sabia direito o que fazer. Só havia visto aquele loiro absolutamente confiante e esbanjando força anteriormente. Mesmo em momentos em que ele estava mais vulnerável, mesmo enquanto sentia muito prazer, nada se comparava a seu estado agora. O corpo tremia em seus braços e Zoro se sentia segurando uma criança indefesa e quebradiça.

Suas mãos grandes, geralmente um tanto rudes e indelicadas, tentavam segurar o corpo menor com cuidado, o embalando e acariciando em cada ponto que encostavam nele. Sempre tomando cuidado de não pressionar muito, como se ele fosse quebrar se apertasse muito forte.

— Marimo… — Sanji se esforçou para virar minimamente o rosto e olhar para o moreno, para o rosto que tanto admirava, que o fazia sentir coisas estranhas. Os olhos azuis estavam brilhando e ele sabia que o outro entenderia o que precisava naquele momento só com um olhar. Só precisava de carinho, de alguém que se importasse e não o visse apenas como um monstro. E esse alguém era Zoro.

— Kokku... — Era a primeira vez que se referia a ele assim em tanto tempo, mas o apelido parecia certo em sua boca. Zoro olhou aquele azul profundo que o encarava com expectativa e não conseguiu evitar suas ações.

Sanji fechou os olhos ao ouvir aquele apelido estranho saindo dos lábios que tanto amava. Seu corpo todo se arrepiou e automaticamente se encolheu nos braços do maior. O desejo de cozinhar para ele retornava e isso acalmava um pouco seus nervos.

Mesmo que Zoro sentisse como se o corpo do loiro fosse feito de cristal naquele momento, não pôde deixar de puxá-lo para um abraço forte. Trouxe o loiro até seu colo e o abraçou encaixando o torso moreno naquele corpo branco. Sentia as lágrimas molhando seu ombro e as mãos magras de Sanji o apertavam como âncoras.

Zoro estava o tratando tão bem, com tanto carinho, parecia até que aquela era a razão da existência do demônio. Sanji não conseguia parar de chorar, então apenas deixava suas lágrimas molharem o ombro largo do moreno e suas mãos grudaram no corpo grande como se nunca mais fossem largá-lo... E talvez fosse realmente esse seu desejo, estar sempre naqueles braços, junto com aquele homem.

Zoro afundou o rosto nos fios loiros e sentiu o perfume percorrer todo seu corpo, tão familiar que nem parecia que havia ficado mais de dois meses inteiros sem senti-lo. Gostaria que essa tivesse sido a primeira coisa que tivessem feito quando se reencontraram. Talvez se ele não estivesse com tanta raiva de si mesmo teria feito isso. Ainda sentia vontade de perguntar o motivo de tê-lo deixado, ainda se sentia abandonado em algum nível, mas nada disso parecia ter mais muita importância, não quando Sanji agia daquele jeito em seus braços.

— Ei. Uh... — Ele sentia o tórax de Sanji se expandir e diminuir numa velocidade acelerada, a respiração pesada misturada ao choro em seu ouvido. Não queria vê-lo assim, mas também não sabia o que fazer para confortá-lo. — Você está me molhando...

As palavras de Zoro fizeram o loiro rir baixinho e se desgrudar. Palavras definitivamente não eram o forte de Zoro, ele preferia sempre que as ações falassem por si. Sanji se desgrudou de si e o encarava, os olhos inchados e vermelhos, deixando o azul ainda mais vivo, embora muito triste para o gosto de Zoro. Ele levou a ponta dos dedos até a pele molhada do outro enxugando um pouco daquele oceano de lágrimas, fazendo Sanji sorrir igual um anjo ao sentir o toque em seu rosto sensível.

— Dorme um pouco comigo. — Zoro disse na voz mais baixa que pôde, diretamente no ouvido do loiro, depositando um beijo casto na cartilagem avermelhada em seguida.

Esse pedido... Droga, por que Sanji sempre se sentia tão bem quando estava com aquele humano? O que Zoro tinha de diferente de todos os outros bilhões? O que era aquela sensação quente e confortante que sentia em seu peito? Sanji não entendia e provavelmente nunca entenderia, mas não desgostava.

Ele concordou com a cabeça e antes que Zoro se afastasse, segurou sua mão e beijou a pontinha de seus dedos grossos, fechando os olhos ao fazer. Era sua retribuição pelo beijo em sua orelha, pelo carinho e amor que recebia do outro. Antes que o moreno pudesse movê-los, Sanji o empurrou pelo peitoral e o fez deitar, lentamente, na cama, para então se deitar por cima e abraçá-lo. Ele puxou os braços do outro para cima de seu corpo e o obrigou a abraçá-lo. Estava carente e queria carinho, só daquele homem.

Sanji viu quando Zoro dormiu, seus olhinhos azuis não pararam de encarar aquele que deveria ser apenas seu objeto de desejo e ele se perguntou o tempo todo o que Zoro tinha de diferente dos outros e não conseguiu chegar a uma conclusão antes de acabar dormindo por acidente.