Incubus Love
5 Hallowed by thy name
Notas iniciais

Zoro amanheceu confusamente relaxado e bem humorado. Só se deu conta de que estava assim quando se pegou sorrindo sozinho enquanto tomava seu sakê matinal, o que para alguém que mantinha uma expressão indiferente vinte e quatro horas por dia era bastante suspeito. Principalmente nas circunstâncias em que se encontrava. Havia fodido novamente o demônio, perdido o controle, feito tudo o que jurou não fazer de novo. Só de lembrar ele deveria logicamente se martirizar. Mas, diferentemente das outras vezes nas quais acabou frustrado e puto com ele e consigo mesmo, estava surpreendentemente calmo.
O que também era surpreendente era o fato de ainda não ter tido nenhuma ereção pensando no acontecido de ontem, mas talvez fosse porque seu cérebro não estivesse tão focado nisso quanto das últimas vezes. Sim, inevitavelmente também estava pensando nas partes pervertidas, porém o que era mais vívido em sua mente era aquele beijo. Zoro dormiu quase imediatamente depois do peso do corpo de Sanji sumir do seu próprio corpo, não se importando em arrumar a bagunça naquela hora obviamente, e a primeira coisa da qual se lembrava ao acordar eram os lábios macios do loiro nos seus. Geralmente quando o loiro o beijava era algo provocante e ele não conseguia resistir já que sempre estava excitado demais para isso. Entretanto, este não era o caso daquele pequeno selinho que ele prontamente retribuiu. Zoro o beijou porque não resistiu àquele sorriso, e talvez isso fosse mais preocupante que não resistir aos prazeres da carne, não que ele fosse se atentar para isso no momento.
Depois que treinou, com muita relutância, finalmente resolveu arrumar a bagunça no quarto. Precisou trocar seus lençóis que estavam destruídos e apenas ignorou o colchão rasgado, colocando um forro por cima dele como se nada tivesse acontecido. Malditas garras de demônio. Falando nelas, ele usava uma regata e mal notou que ela convenientemente deixava a mostra justamente as marcas dessas mesmas garras que havia levado em seu pescoço e nos seus ombros na noite anterior.
Já que havia levantado a bunda da cadeira para arrumar algo, o padre pensou que talvez fosse uma boa hora para criar coragem de arrumar outra coisa. E foi assim que Zoro terminou com a sua batina rasgada na mesa e um enorme ponto de interrogação acima da cabeça. Ele já havia tentado de todas as formas possíveis e imagináveis costurar a bendita, mas a agulha simplesmente parecia que não o obedecia. Talvez ele apenas não percebesse que estava dando o ponto para esquerda quando deveria dar para direita, entre milhares de outros erros esdrúxulos que apenas aquele padre de cabelos verdes cometeria. Depois de falhar tantas vezes, tentava pateticamente juntar os pedaços rasgados com uma fita isolante que achou perdida em suas coisas. Será que ia ter que apelar para pedir ajuda divina?
Sanji estava intrigado. Depois da noite incrível que partilhara com o padre... Zoro... Ele ainda se sentia nas nuvens, mesmo que houvesse se passado horas o suficiente para não restar nenhum vestígio de prazer em seu corpo, mas parecia que ainda podia sentir perfeitamente cada toque daquele homem. Zoro era de tirar o fôlego, não só na aparência como também na atitude dele. Era impressionante como uma pessoa basicamente virgem conseguia dar tanto prazer para um íncubo que já provara milhares de energias sexuais diferentes.
Tudo estava indo bem até contar para seu amigo íncubo Kid que havia pela primeira vez sentido prazer como um humano patético. Se o amigo não tivesse dito que o padre sequer sabia seu nome e que ele provavelmente só era uma pessoa muito boa que não queria que Sanji ficasse sem sentir prazer, não teria implicado com a situação. Obviamente que ignorara totalmente a segunda parte e sua mente de louco focou apenas no ponto de ele saber o nome de Zoro, mas Zoro não sabia seu nome ainda. Durante horas aquilo ficou batucando na sua cabeça, até que Sanji desistiu de tentar esquecer o fato e simplesmente surgiu no quarto do moreno outra vez obstinado a falar seu nome para aquele humano.
Surpreendeu-se ao ver a cama arrumada, pelo pouco tempo que o outro teve não se surpreenderia que ainda estivesse dormindo. Virou-se na direção do padre ao ouvir um barulho estranho e viu ele tentando colar um tecido com... Fita isolante? Aquilo estava errado em proporções astronômicas. Com a maior cara de pau, ele se aproximou e apoiou as mãos no ombro de Zoro.
— Oi, padre. — Naquele momento era para ter falado o nome dele, aparentemente não havia saído como o planejado. — O que está fazendo? — Perguntou com um enorme sorriso em seu rosto, deixando a curiosidade falar mais alto que o bom senso... Não que tivesse algum, era um demônio, afinal.
Certamente não era nesse tipo de ajuda que ele estava pensando. Zoro apenas soltou um grunhido ininteligível como resposta ao cumprimento do demônio, que ainda insistia em chamá-lo de padre. Percebendo que o outro continuava apoiado em si e provavelmente não se contentaria até receber uma resposta, ele se virou para Sanji que se vestia surpreendentemente bem, com um terno escuro bastante elegante.
— Ah, então finalmente resolveu colocar roupas? — Zoro falou arqueando a sobrancelha ao observar o corpo do outro, por mais tempo do que gostaria de admitir, até se virar novamente para encarar sua batina. — De qualquer forma pode ir dando meia volta daqui com suas intenções pervertidas, estou ocupado remendando seu estrago.
Aquilo definitivamente era estranho. Ele nunca demorou menos de uma semana para voltar e agora não fazia nem vinte e quatro horas e já estava em seu quarto novamente. O irritando, como de costume, claro. Zoro não estava mais encarando o íncubo mas poderia até escutar o sorrisinho de merda que o outro tinha grudado em seu rosto, só não sabia o que diabos era tão engraçado assim.
— Por quê? Me prefere sem elas? — Sanji sorria pervertido e lambeu os lábios de forma extremamente sensual. Não estava ali para provocar o outro, mas não podia ver uma oportunidade que já ativava sua vontade de encher o saco dele até ser jogado contra a cama e... Não estava ali para transar também!
Ele ficou olhando muito interessado o homem passando a fita na batina, e aquilo com toda certeza não daria certo. Era a ideia mais idiota que o demônio já havia presenciado. Se lembrava bem quando fizera aqueles rasgos e no quão boa fora sua primeira noite com Zoro. Seu corpo estremecia ao lembrar de todo o prazer acumulado no corpo daquele humano. Ele era tão apetitoso que o deixava arrepiado. Porém, novamente e infelizmente, não estava ali para sexo!
— Eu não vim transar de novo, seu padre pervertido. — Não que ele fosse negar se o outro desejasse transar bem gostoso... Não, definitivamente negaria sim! Sanji tentava se convencer que não estava perdidamente louco para ser devorado outra vez, mesmo que ainda estivesse morto pelo acontecido de menos de um dia atrás.
Ver o humano se matando para conseguir fazer um remendo estava o agoniando. Como alguém podia ser tão burro e ter tão pouca habilidade com as mãos? Hmm... Até que não era totalmente sem habilidade, lembrava-se bem da punheta gostosa da noite anterior... As lembranças o deixavam excitado e só fazia com que desejasse ainda mais aquele homem. Como uma tentativa de afastar qualquer perversão da mente, Sanji tomou primeiramente a fita das mãos do padre e roubou a batina juntamente a agulha e linha, e abandonou Zoro para ir se sentar confortavelmente na cama.
— Deixa que eu faço isso, você é péssimo com as mãos. — O demônio falou em forma de provocação, não que fosse a total verdade. Poderia simplesmente usar seus poderes e consertar aquilo em um segundo? Obviamente, mas qual seria a graça?
O padre odiava aquela insinuação de que era pior em algo do que aquele demônio, mas não iria exatamente reclamar se ele quisesse fazer aquela tarefa extremamente enfadonha no lugar dele. Zoro tentava entender o porquê dele ter aparecido e de estar fazendo isso afinal. Ele até cogitou questionar, mas acabou decidindo que a resposta mais simples possível era verdadeira, o demônio só queria irritá-lo, como sempre, não era algo tão difícil assim de compreender. Embora fosse um pouco irritante que ele tivesse falado em sexo sem o demônio nem ter mencionado tal coisa, o que injustamente o deixava parecendo alguém libidinoso, principalmente quando o loiro se referia a ele pelo seu título religioso daquela forma.
Ele se levantou após um longo suspiro e levou a cadeira até a frente da cama, sentando ao contrário com os braços apoiados nas costas dela observando com certa curiosidade o loiro costurar sua batina.
O loiro movia as mãos com tanta destreza que parecia que havia nascido sabendo fazer aquilo, os dedos longos passando a linha na agulha com delicadeza e costurando com maestria os botões que outrora estavam soltos. As mãos quase translúcidas de tão pálidas eram magras e elegantes e Zoro não conseguia fazer seu olho parar de segui-las. Eram absurdamente lindas.
Aquela tarefa para Sanji era extremamente fácil. Na verdade, qualquer tarefa humana não dava problemas para um demônio. Mesmo que não estivesse usando seus poderes e nunca tivesse costurado algo, parecia que suas mãos se moviam automaticamente. Ele apenas sabia como fazer e era muito simples. Sentia-se observado e aquilo o agradava, amava ser o centro das atenções.
— Você parece uma dona de casa. — Era a mais pura verdade, era esquisito o quanto o demônio parecia uma esposinha dedicada fazendo aquilo. Olhando aquela cena poderia facilmente imaginá-lo fazendo atividades domésticas, limpando a casa, cozinhando...O pensamento fez sua barriga roncar vergonhosamente alto. Talvez não fosse a melhor ideia do mundo trocar o café da manhã por bebida.
— Está me pedindo em casamento? — Sanji corou com o pensamento, mas estava sorrindo daquele jeito odioso que Zoro com certeza detestava com todas as forças, indicando que aquele rosto vermelho era a coisa mais falsa do mundo. — Nós mal nos conhecemos! — O loiro continuou a provocar, cutucando o tigre com vara curta. Talvez estivesse levemente envergonhado de verdade, por não estar esperando um elogio vindo do outro e só com o pensamento de que o padre sentia alguma empatia por um ser tão sujo e desprezível como ele.
Zoro revirou os olhos com exasperação, irritado com a idiotice do íncubo e ao mesmo tempo irritado com seu próprio corpo por traí-lo e fazer o sangue se acumular de leve em suas bochechas como se fosse um adolescente idiota. Zoro estava velho demais para isso.
O íncubo apenas continuou a costurar a batina até estar totalmente remendada, de forma tão perfeita que mal parecia que algum dia existiu um rasgo ali. Era uma situação justa, ele havia danificado, então tinha que arrumar. Quando entregou a batina perfeita ao outro, ouviu a barriga dele roncando novamente e não conseguiu segurar o riso. Humanos como sempre muito fracos.
— Com fome, padre? Eu posso cozinhar se você pedir com jeitinho. — Por que estava fazendo tudo aquilo para o humano? Apenas estava ali para dizer seu nome, não para ficar fazendo favores. O que estava acontecendo com o demônio? Parecia até que não tinha nada melhor para fazer... Não que tivesse.
— Eu sei me virar sozinho, demônio. — O que não era de todo mentira, já que Zoro morava só há mais de quinze anos. Sim, ele sabia se virar sozinho...ele só não era particularmente bom nisso. Claro, já houve vezes em que ele precisou comer umas óstias por falta de comida em casa, mas isto era apenas um mero detalhe. Ele fazia refeições simples para acompanhar seu regime de treino, que consistiam em alguma proteína grelhada com algum tubérculo cozido e era basicamente tudo que ele comia.
Zoro era fofo. Sanji achava isso mais a cada segundo que passava ao lado dele. A forma como ele ficava envergonhado o deixava o cara mais fofo do mundo e se não estivesse ali apenas para dizer seu nome e ir embora, com certeza apertaria aquelas bochechas coradas e o irritaria durante horas por ser tão fofo. Ele tentava parecer tão independente e solitário que chegava a ser ridículo como era péssimo naquelas coisas. O padre deveria realmente contratar alguém para cuidar dele, senão acabaria morrendo em breve e era muito jovem para isso ainda, apesar que comparado com o demônio qualquer um era muito jovem.
Zoro apenas deixou a batina recém-remendada em qualquer canto e saiu em direção à cozinha, não surpreso ao perceber que o loiro havia apenas levantado e o seguido pela casa até o outro cômodo, que deveria ser a cozinha, mas acabou sendo o banheiro graças ao seu exímio senso de direção. O íncubo não conseguiu segurar o riso quando viu o humano se perder dentro de sua própria casa, aquilo com certeza era um recorde de falta de senso de direção e a casa nem era grande para isso acontecer. Sua mente só conseguia pensar que ele era ainda mais fofo quando se perdia e se continuasse com esses pensamentos indevidos seria ele a estar perdido.
Quando finalmente chegaram à cozinha, Zoro olhou para a geladeira vazia e automaticamente se lembrou o motivo de não ter comido nada pela manhã. Era suposto ele ter ido ao mercado após o treino de ontem, mas acabou ficando ocupado graças a certo alguém.
— Ah...Preciso fazer compras. — Ele não estava particularmente afim de sair no momento, como sempre, mas o fato de ter verificado agora que a bebida também havia acabado, já que tomou a última garrafa de sakê pela manhã, o fez pensar com muito mais urgência em ir ao mercado.
Sanji olhou a geladeira e realmente não tinha nada além de garrafas d’água, e água não era comida, especialmente para um cara grande que deveria viver de frango e batata doce.
— Eu sei que você queria muito me levar para um encontro hoje, mas não vim aqui preparado para um encontro, nem mesmo trouxe uma roupa elegante. — Sanji falou provocando enquanto fazia surgir diversos alimentos dentro da geladeira, que ele pegava e levava até a mesa e começava a prepará-los com uma facilidade invejável. Não realmente sabia o que estava fazendo, nunca havia cozinhado, mas era só usar a lógica. Sabia como refeições funcionavam, era só juntar as coisas, temperar, fritar, assar, cozinhar ou grelhar, qualquer imbecil sabia fazer aquilo. — Nós teremos muito tempo para ter um encontro, já que somos noivos agora.
Não conseguia se manter calado, então precisava sempre provocar o outro, abusando da brincadeira do casamento de antes. E Zoro não pôde deixar de ficar boquiaberto. O loiro fez sua geladeira ficar cheia em um segundo, num passe de mágica, com as mais diversas coisas, tinha certeza de que muitas ele sequer sabia o que eram. Zoro às vezes se esquecia dos poderes sobrenaturais do outro. Sua aparência era completamente humana na maioria do tempo e ele chegava a ignorar o fato de que ele era um demônio.
— Eu já sou casado. Com a igreja. — Ele respondeu meio baixo, quase como se não realmente quisesse dizer aquilo. O demônio parecia entretido demais com os ingredientes que ele mesmo havia materializado para notar, de qualquer forma. A provocação do outro dava a entender que aquilo havia se tornado praticamente uma rotina, por mais que fosse apenas uma brincadeira ardilosa para irritá-lo, e Zoro não sabia muito bem como se sentia em relação a isso, então não contestou essa parte.
Ficou apenas observando calado o loiro, que surpreendentemente também se calou, enquanto ele preparava a refeição. Suas mãos se moviam com tanta destreza quanto antes e ele sorria para si mesmo como se estivesse realmente gostando de fazer aquilo. Seu olhar tinha um brilho que era estranhamente inocente para ele e o demônio testava as combinações de sabor uma atrás da outra, certamente aprendendo por tentativa e erro.
Sanji ficou em silêncio concentrado e um leve sorriso podia ser notado no canto de seus lábios e seus olhos estavam brilhando. Por que ele estava gostando tanto de fazer aquela tarefa pateticamente humana? Não entendia, só queria fazer seu melhor para dar um gosto bom e agradar o padre. Um avental rosa havia surgido por cima de seu terno, não que fosse um problema sujar a roupa, já que nem mesmo existia, só queria ficar de acordo com a situação.
Não demorou para o aroma invadir a casa e era terrivelmente bom. Nunca que o loiro achou que conseguiria preparar algo com um cheiro tão bom e provavelmente o gosto também era incrível. Ao começar a inalar o perfume dos temperos e cozimentos a barriga de Zoro roncou outra vez ansiosa, embora o outro parecesse concentrado demais para perceber e zoá-lo novamente.
Assim que a comida ficou pronta ele foi servido tão bem quanto seria num restaurante fino. Em menos de meia hora Sanji serviu um prato lindo e aromático e fez aparecer duas taças e uma garrafa de vinho da melhor qualidade em sua mão, para a alegria do padre. Então serviu os dois, sentou-se na mesa e sorriu.
— O que achou, padre? — Nem mesmo havia provado, só sabia que estava perfeito, era um demônio, não podia errar... Se bem que isso só se aplicava quando fazia as coisas aparecerem prontas, e se perguntava por que não fez aquilo logo no início.
Zoro já estava impaciente para provar aquele prato que tinha uma aparência inacreditavelmente boa, e logo que foi servido já começou a comer. Ele nem sabia quanto tempo fazia que não comia algo tão bem temperado. Com sabores de verdade, profundos e marcantes, com leveza, acidez, e todas as coisas que fazem um prato ser irresistível e das quais Zoro não tinha conhecimento algum, mas a única coisa que sabia era que adorava aquela comida.
— Eu já disse que meu nome é Zoro. — Ele disse com a boca cheia em meio às garfadas um pouco desesperadas demais para seu gosto, mas com alguma sorte o loiro apenas confundiria aquilo com falta de modos e não com uma apreciação exagerada pela sua comida.
Sanji revirou os olhos ao ser corrigido, chamá-lo de Zoro não teria nenhuma graça, o ponto mesmo era irritar a todo instante. Então só resolveu apreciar a própria comida, surpreendendo-se com o quão boa estava. Para sua primeira vez cozinhando, havia não só gostado mais do que deveria do ato em si, como também do resultado. Estava de parabéns.
Percebendo que o loiro ainda tinha os olhos grudados em si, como se esperasse uma resposta, como se precisasse realmente saber, o padre resolveu ceder.
— É um pouco salgado. — O que, justiça fosse feita, provavelmente era parcialmente por causa que tudo que Zoro comia era sempre pouco temperado, então estava acostumado com o sal abaixo da média. — Mas, de resto dá para comer.
O que disse acabou não saindo exatamente como um elogio, mas queria pelo menos dizer o que achou. Afinal, o loiro simplesmente havia o alimentado de bom grado quando ele estava com fome, embora seus propósitos ainda o confundissem muito. Não via sentido naquela aparição tão cedo do outro. Antes, parecia que queria apenas irritá-lo, mas depois acabou basicamente o ajudando e fazendo tudo por ele. Talvez existisse algum propósito maligno por trás disso e Zoro apenas não tivesse se dado conta ainda.
— Não sei se meu paladar é igual ao seu, mas para mim parece perfeito. — Sanji disse sincero, sem querer se gabar de que o que fizera era maravilhoso, não podia afirmar para o outro talvez estivesse um desastre e só achava bom porque tinha o paladar de um demônio.
O outro parecia comer timidamente sua própria comida, com uma curiosidade engraçada. Zoro se perguntava se aquela criatura havia colocado comida humana na boca algum dia em sua existência, pelas suas reações peculiares. Logo, ambos haviam acabado de comer, Zoro bem mais rápido que o demônio por comer como um ogro apressado, e as taças estavam vazias. O demônio as encheu automaticamente com seus poderes, sem mover um dedo.
Sanji se condenava por passar longos minutos observando o moreno e sorrindo bobamente para ele, quase como se estivesse gostando de estar ali com ele. Por um lado, era bom porque isso irritava Zoro, mas pelo outro poderia ser um indício de que estava se envolvendo mais do que deveria com o humano. Sanji não percebia que havia arrumado a batina do padre e feito um almoço impecável, era como se sua mente estivesse bloqueando qualquer empatia pelo outro. Kid iria esfregar esses detalhes na sua cara e ele definitivamente iria apenas negar tudo.
Isso, juntamente com a pergunta do padre, o fez acordar e sair daquele conto de fadas. Onde estava com a cabeça para perder tanto tempo cozinhando? Poderia ter apenas feito aparecer tudo pronto!
— Por que veio aqui hoje? — Zoro perguntou enquanto observava o líquido vermelho que havia aparecido repentinamente na taça que tinha em mãos.
— Eu só vim dizer meu nome. — O íncubo disse meio constrangido, sem saber como agir depois de brincarem de casinha. De fato, estava ali apenas para dizer o nome, mas o ponto era falar quando chegou e ir embora logo em seguida. — Sanji...
Ele desviou o olhar e quis apenas desaparecer naquele momento, o que poderia facilmente fazer. Mas, algo o impedia, sentia que não havia completado seu objetivo ainda…
Zoro bebeu o que restava em sua taça e pausou por um tempo, fitando o rosto de...Sanji. Parecia extremamente improvável que seu objetivo em ter ido até ali fosse realmente aquele, mas se fosse outro com certeza o loiro contaria uma mentira melhor que aquela. Parando para pensar, fizera questão de ser chamado pelo próprio nome, então nada mais justo que o outro também o informasse o seu, já que não fez questão de perguntar. Nem passou pela cabeça de Zoro que ele sequer tinha um nome, se acostumou a se referir a ele como demônio e não tinha certeza se uma criatura possuía um nome, pensamento pelo qual se envergonhou por um momento.
Sanji estava sentindo algo estranho naquele momento... Humanos chamavam de insegurança, mas por ser um demônio ele não sentia isso, definitivamente não, era apenas algo de sua mente e na realidade não estava sentindo nada. O silêncio que surgiu entre os dois se tornou estranho, o que não era comum, durante o tempo que cozinhava permaneceu em silêncio pelo tempo todo e até mesmo enquanto comiam e foi bastante natural, mas agora pelo loiro estar agindo daquela forma estava estragando totalmente o clima agradável que surgia entre os dois.
— Posso te beijar? — A finalização de sua insegurança apenas o fez pedir algo completamente idiota para se envergonhar. Desde quando um demônio precisava pedir? Se ele queria beijar, ele iria e beijaria. Pior ainda, porque ele queria tanto beijar o humano? O silêncio estava o deixando agoniado, aquilo não era saudável para um demônio. Não conseguia nem mesmo encarar aquele homem.
Zoro ficou em silêncio novamente, aquilo era muito estranho. Aquele loiro nunca havia pedido antes de fazer nada consigo, na verdade era exatamente o oposto. Quando se conheceram ele literalmente começou a abusá-lo enquanto dormia e todas as vezes em que o havia beijado o fez sem dar a mínima para qualquer tentativa de protesto de Zoro. O padre olhou para Sanji e ele parecia desconfortável consigo mesmo por ter perguntado, o olhar que era sempre confiante agora estava fixo no chão.
— Uhn. — Ele falou, antes que o outro achasse que seu silêncio era uma negativa. Se surpreendeu consigo mesmo por ter dado uma resposta tão sincera e nada evasiva, mas havia acordado realmente calmo e sem preocupações hoje, por algum motivo estava varrendo suas barreiras morais para debaixo do tapete.
Zoro se manteve parado enquanto o loiro parecia processar sua resposta e se aproximava hesitantemente. Sentiu os lábios nos seus, o gosto alcoólico do vinho ainda muito presente, e fechou os olhos se deixando derreter naquele beijo calmo.
Sanji se surpreendeu quando Zoro acatou seu pedido. E mais ainda o quão rápido, mesmo ainda cheio de dúvidas, o loiro foi para cima dele, quase como se aquilo fosse o que mais desejava. Diferente do esperado, o beijo não era sem controle e desejoso, muito pelo contrário, se beijavam lentamente como se aquela fosse a primeira vez que seus lábios se tocavam. O loiro sorriu em meio ao beijo e aos poucos foi se afastando, ainda mantendo aquele sorriso idiota no rosto. Suas mãos apertavam o colarinho da camiseta do padre como se não quisesse que ele fugisse, que se arrependesse de ter concordado. Mesmo após encerrar o beijo, ele ainda os colou outra vez em um selinho extremamente rápido e vergonhoso.
— Zoro, eu... — Ele começou a falar, mas a insegurança gritou o fazendo se interromper. Sentiu um toque do outro em seu braço e aquilo era o que precisava para continuar. — Vou voltar...
Não era bem o que ia falar, queria perguntar se podia, mas estava satisfeito com aquelas palavras. Felizmente o padre concordou com a cabeça e o demônio sentiu todo seu rosto esquentando de vergonha. Por que estava tendo aquelas reações? E por que só aconteciam quando estava junto ao padre? Ele nunca ia saber...
Zoro não sabia exatamente a partir de que momento havia mudado de comportamento, mas se continuasse nesse ritmo logo se acostumaria a apenas aceitar o que ele dizia, a beijá-lo despreocupadamente sem tentar resistir, sem nem mesmo ter qualquer desculpa de tentação sexual para tal.
Ele apenas concordou de leve com a cabeça, novamente não sentindo qualquer vontade de negar aquela afirmação. Antes, seus instintos e seu orgulho o diziam para correr daquilo, para negar, afastá-lo de si. Agora, ele apenas não queria lutar. Claro, não estava pensando nem um pouco nas consequências disso, mas por enquanto não iria fazê-lo.
Então, Sanji roubou mais um selinho dos lábios do humano e com um sorriso lindo ele sumiu quase como se nos braços fortes do moreno nunca houvesse havido alguém.
O demônio sorriu e Zoro achou que seu rosto parecia muito diferente de antes, não era provocativo ou debochado, se Zoro não soubesse acharia que aquele loiro estava realmente gostando daquilo, sem nenhuma intenção oculta de irritá-lo e enlouquecê-lo. Mas, seus pensamentos não estavam mais tão confusos e perturbados como costumavam ser, e, embora Sanji ainda continuasse sendo extremamente irritante e inconveniente, não sentia como se quisesse mais direcionar alguma raiva ou culpa em cima dele.
Zoro ficou alguns segundos parados, processando o vazio em seus braços, nunca iria se acostumar com essa coisa de sumir com mágica. Ele pegou a garrafa de vinho e bebeu o resto que faltava direto do gargalo, coisa que não havia feito antes para não ser amolado pelo outro com coisas estúpidas como modos ou degustação. Ele tinha uma bagunça para arrumar, coisa que geralmente o irritaria bastante, mas por algum motivo não parecia ser tão problemático no momento.
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