Incubus Love
29 Forgiveness
Notas iniciais
Se existia uma coisa que Sanji sabia não ser, era burro. Ele conseguia compreender o clima pesado que estava pairando entre os dois. Eles mal estavam trocando palavras, Zoro sequer tentava ser sutil enquanto o evitava, ficando sempre enfurnado na igreja, mesmo nas horas que o loiro sabia não ter mais ninguém lá. Mas, quando estava voltando para o único lugar que poderia chamar de casa, ele se iludiu achando que tudo ficaria bem e conseguiriam resolver seus problemas.
Estava completamente errado. Sua presença ali não era nada bem-vinda e a cada dia que se passava, parecia que os dois estavam ficando mais e mais distantes. Por mais que ele não estivesse fazendo nada para aproximá-los outra vez, percebia que não era da vontade do padre que fizessem as pazes, então nada mais natural do que ir embora definitivamente.
Infelizmente, ele não queria isso, não de novo. Se tivesse lembrado de sua promessa da última vez, nada disso teria acontecido. Mas, se fosse embora novamente, sentia que não haveria mais nenhuma forma de reconciliação. Sua promessa naquele instante parecia vazia e não ter mais nenhum significado, Zoro mal olhava para ele e nas raras vezes em que olhava, estava carregado de dor e talvez até ódio, ao menos na visão de Sanji. Deveria ser mais simples.
Em compensação, o loiro passava praticamente todo momento observando-o de longe, desejando abraçá-lo e confortar o homem que amava, mesmo que achasse que ele fosse a última pessoa de que Zoro desejava ter algum conforto naquele momento.
E Sanji estava certo em achar isso. Porque Zoro não conseguia perdoá-lo tão fácil, não conseguia deixar-se se aproximar de Sanji novamente e cair em tentação depois de tudo. Ele ainda estava magoado, ainda não estava disposto a fingir que nada havia acontecido, a esquecer o ano inteiro que passou sozinho. Não iria expulsar o demônio, mas também não fazia questão de se dirigir a ele, não se importando se isso frustrava o outro ou não.
Todos os dias, eles tinham uma espécie de rotina muda, Sanji fazia o jantar e Zoro lavava os pratos, mas nenhum dos dois falava uma palavra e Zoro, é claro, evitava ficar muito tempo próximo do íncubo. Eles eram bons em conviver sem muita comunicação, haviam se tornado especialistas em decifrar os gestos um do outro afinal, mesmo que isso fosse há tanto tempo. Então era natural que caíssem nesse tipo de rotina, como acontecia naquele momento em que Zoro lavava todos os pratos que os dois haviam acabado de usar no jantar.
O que incomodava o padre, no entanto, era o fato de sentir em suas costas os olhos de Sanji o seguindo em cada movimento, o encarando tão atentamente que já estava o deixando irritado. Ele preferia esquecer da existência dele naquela casa na maior parte do tempo, mas o loiro não parecia que facilitaria seu trabalho, quase fazendo buracos em suas costas de tanto olhar para elas enquanto Zoro esfregava os pratos com irritação.
— O que é que você quer? — Ele cedeu, perguntando num tom impaciente, embora ainda um tanto contido e indiferente.
Sanji moveu a boca para responder, mas percebendo o ódio na intimação do outro, preferiu se calar, cravando as pequenas presas profundamente em seus lábios tão forte que sentia o gosto de sangue invadindo a língua. Antes que desabasse na frente do outro, resolveu sair e se trancou no banheiro, passando a noite escondido e sozinho. Zoro não facilitava, mesmo que tentasse constantemente uma aproximação, ele conseguia perceber que não era isso que o outro desejava, voltar tudo como era antes.
Mais uma vez ele fugiu de uma conversa sem ter coragem de encarar as palavras duras que sabia que ouviria. Zoro sabia ser cruel e ele sabia merecer aquele tratamento. Sanji havia perdido as contas de quantas vezes foi colocado contra a parede daquela forma e correu como um cão amedrontado.
Os dias passavam e estava tudo acontecendo o contrário do previsto. Eles não estavam se aproximando de forma alguma, pareciam cada vez mais distantes, como se o vínculo que antes possuíam não existisse mais.
Desde que voltou Sanji estava dormindo no sofá, não por Zoro não permitir que fosse para a cama, já que sabia que se pedisse o moreno não se importaria de trocarem de lugar, mas ele não se sentia bem. Era a casa de Zoro, afinal, ele era quem não pertencia àquele lugar.
Na verdade, sequer havia entrado no quarto desde que voltou. Até aquele dia em que o moreno o deixou aberto logo que saiu e ele não resistiu a invadir o local. Estava mais bagunçado do que nunca, porém, não pensou em arrumar, apenas queria sentir o calor daquela cama outra vez, infestada com o cheiro viciante do moreno. Há muitos dias que sua cabeça não pensava em nada indecente e nem mesmo naquele momento conseguia ter algum pensamento devasso, ele só queria sentir o calor do padre, abraçá-lo da mesma forma que fazia com o travesseiro dele e se enrolava nas cobertas. Ele sentia falta de ser tocado, de poder se aproximar.
Quando Zoro voltou da igreja, estranhou não encontrar o íncubo pela casa. Chegou a cogitar que finalmente tivesse desistido e se acovardado de vez, fugindo dali como sempre fazia. Ele só não esperava encontrá-lo em seu próprio quarto.
Era estranho que aquilo fosse algo fora do normal agora, quando antigamente era a coisa mais cotidiana do mundo. Sanji costumava dormir ali com ele, afinal. Mas, desde que voltou, o loiro jamais havia tentado fazê-lo. Zoro achava que Sanji parecia um mosquito irritante que ficava apenas zanzando pela casa o dia inteiro e o seguindo sem fazer nada, sem tentar se aproximar nem sequer assumir a responsabilidade pelos seus erros. Um covarde. E Zoro odiava covardes.
Para a surpresa de Sanji, Zoro havia voltado antes do normal e isso o fez notar que, não só havia passado horas naquele quarto, como estava chorando enquanto se agarrava nos pertences do padre.
— Ah... Eu não... — Sanji tentou formar alguma desculpa, mas sua mente não funcionava ao ser encarado pelo outro. Só restou fugir outra vez, passando de cabeça baixa ao lado do moreno que se encontrava na porta e só parou ao ter o braço segurado com força pelo outro.
— Ir embora, sumir, se esquivar, é tudo a mesma coisa. — Zoro disse olhando diretamente para Sanji, embora o íncubo continuasse com a cabeça baixa. — Você só foge o tempo todo.
Talvez sua mão estivesse segurando o braço de Sanji com mais força do que precisava naquele momento. Um gesto inconsciente, sem raciocínio, e inútil. Zoro sabia muito bem que se Sanji realmente quisesse sumir como tantas vezes já havia feito, ele apenas evaporaria. Segurá-lo com ou sem força não faria a menor diferença. Mesmo assim seus dedos calejados se enterravam na pele branca, implorando, como ele havia se prometido que jamais faria novamente com palavras, não depois de ter sua confiança quebrada.
— Eu precisava... — Sanji respondeu com a cabeça baixa, tentando se acalmar e parar de pateticamente chorar sem nenhum controle. Ele sabia que estava errado, mas Zoro não era o único sofrendo ali. Assim como ele, também passou todo o tempo sozinho e perdido, sem saber o que fazer, sem nenhuma esperança. Desconfiando do amor do outro, de seu próprio amor. — Estava com medo, Zoro. Você não sabe o que é isso.
Ainda chorando, ele levantou o rosto e encarou o moreno em um quase desespero. Era vergonhoso mostrar aquele lado para um humano, talvez estivesse quebrando todas as regras do inferno ao se demonstrar tão frágil na frente de uma pessoa, mas não se importava. Não mais.
— Você é forte. Nunca vai entender o que é ser fraco, não ter poder para entender seus próprios sentimentos, achar que a qualquer momento tudo pode desabar nas costas de alguém que você ama por sua culpa. — Sanji segurou o braço do moreno gentilmente, quase de forma desesperada para que apenas uma vez o compreendesse. — Eu só queria te proteger, mas fiz isso da forma errada.
Zoro não conseguia se manter completamente indiferente e apático diante da demonstração de vulnerabilidade de Sanji. Seu muro começava a rachar, impulsionado pelas lágrimas que maculavam o rosto bonito do loiro, pela súplica evidente em cada palavra que Sanji pronunciava.
Mas o que se escondia atrás da apatia talvez fosse pior que ela, era amargura e tristeza. E as coisas que ouviu Sanji dizer apenas perfuravam ainda mais suas feridas.
— Eu sou forte? Eu não sei o que é ter medo? — Zoro ouviu sua própria voz vacilar enquanto cuspia de volta as mesmas palavras que Sanji usou.
Eram tão absurdas que ele poderia ter rido em escárnio. Zoro não era grande fã de expôr sua própria fraqueza, mas ele precisava tirar aquilo do peito.
— Eu te esperei. — Por tanto tempo que achei que ia enlouquecer. Como um fraco. Patético. Idiota. — E eu tinha pavor da ideia de não te ver nunca mais. Pavor. Você é quem não sabe o que é isso.
— Eu não queria. Eu não... — Por mais que aquelas palavras o machucassem profundamente, Sanji precisava ouvi-las. Compreender que Zoro se importava de verdade com ele, porque só assim ele deixaria de duvidar e aceitaria a verdade, os sentimentos que o padre direcionou a ele por tanto tempo. — ...Não queria ir...
Em uma coisa Zoro estava certo. Sanji o abandonou, mas ele voltou várias vezes, o viu novamente e poderia vê-lo quantas vezes desejasse. Não acontecia o mesmo com o moreno. Ele se imaginou em um segundo com as posições trocadas e isso o fez se derramar ainda mais em lágrimas, chegando a se desesperar.
— Desculpe, Zoro... Desculpe... — Ele continuou repetindo a mesma palavra, suplicando o perdão do padre, enquanto no segundo que a mão que segurava seu braço vacilou, ele mesmo se soltou e agarrou com força a batina, todo o medo e desespero estampado em seus olhos azuis, o pavor que Zoro havia afirmado ter sentido. Sanji compreendeu o quão difícil foi. — Sinto muito... Eu não queria te machucar.
— Eu sei que não. — Não existia possibilidade de Zoro não saber disso, era óbvio que não havia sido de propósito, premeditado para fazê-lo sofrer, principalmente porque Sanji também estava sofrendo. Só que mesmo não sendo por querer, ainda havia machucado, ele ainda precisava cicatrizar para completamente perdoá-lo.
As mãos de Sanji estavam tremendo tanto que mal conseguiam prender o tecido que seguravam. Então ele abaixou a cabeça e a encostou no peitoral do maior, molhando sua veste, enquanto sussurrou um quase inaudível e solitário Eu te amo.
Zoro sentia sua roupa ficando umedecida pelo choro de Sanji, e era como um déjà vu porque ele se lembrava dessa cena antes, de ter Sanji completamente quebrado em seus braços, molhando-o com lágrimas salgadas e soluçando. Zoro não gostava disso. Vê-lo assim era horrível, por mais que ainda não estivessem nos melhores termos. Ele era apenas muito fraco por Sanji, pelo seu corpo encostando minimamente no seu e o calor que era transmitido naquele ponto.
— Durma aqui hoje. — Ele falou baixinho, a mão afagando hesitantemente os cabelos dourados. Não tinha coragem de se despedir dele e deixá-lo dormir sozinho nesse estado.
Sanji olhou para cima e abriu seu enorme sorriso encantador. O coração completamente acelerado e as lágrimas aos poucos se tornando de felicidade. Apenas concordou com a cabeça e voltou a se afundar no corpo moreno, como se o contato que tivera estava longe de ser o suficiente.
Talvez com o tempo Zoro o perdoasse de verdade.
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