Incontado

5 A confiança


Incontado 5


Elas estavam há algum tempo andando por ali sozinhas mas nada de encontrar nem mesmo uma gruta que pudesse servir de abrigo e a noite já estava quase caindo. Elas chegaram a uma nova clareira dessa vez. Regina não suportava mais andar, mas não queria chatear Emma que parecia estar bem irritada com o fato de não encontrarem lugar nenhum para descansarem. Como se pudesse ler os pensamentos da morena ela disse:



_Fique aqui, e grite se tiver qualquer problema.
_Aonde você vai? (A outra perguntou.)
_Vou montar uma barraca,


Regina a viu entrar mata adentro ainda incrédula. Nunca imaginou que Emma soubesse montar uma barraca no meio da mata e ainda mais sem muitos utensílios. Em pouco tempo a loira voltou cheia de troncos e cipós.

_Uma pequena ajuda? (Ele perguntou nitidamente enrolada com os objetos em sua mão.)
_Não sabia que você sabia montar uma barraca com galhos!
_Bem... (A loira disse balançando a cabeça de um jeito divertido.) Só fiz isso uma vez e foi trágico, mas agora eu tenho o dobro de tamanho, força e espero que de sorte também.
_Quando foi isso? (A morena perguntou curiosa)
_Acampamento da colônia de férias, fiquei numa casa onde ao “pais” iam viajar sozinhos e sempre largavam a gente numa das piores colônias de férias que já vi na vida, eles nem barracas tinham. Quase agradeci quando me devolveram para o sistema de adoção.


Regina baixou o olhar sentindo o peso daquela história cair sobre seus ombros. Elas estavam usando os cipós para amarrarem os troncos uns nos outros criando uma estrutura. A morena tentava se distrair no ofício, mas logo teve de perguntar:



_Foi por isso que ficou em storybrooke?
_Como? (A loira perguntou sem entender.)
_Ficou para saber se eu era daquele tipo de “pais”.



Emma então balançou a cabeça furtivamente.



_Não. Eu sempre soube que você era uma boa mãe. Quer dizer, no primeiro dia que te vi chegando desesperada e indo abraçá-lo. Não tive dúvidas.
_Mas você me perguntou se eu o amava. (A morena perguntou confusa.)
_Sim...



Emma falou enquanto amarrava um dos cipós da estrutura. Queria disfarçar, mas optou por olhar a prefeita nos olhos e criou coragem para assumir:



_Eu queria me enganar, eu queria um motivo para ficar, mas eu sabia que não tinha. Eu só queria nunca tê-lo dado, mas seria injusto com você. Eu queria tê-lo de volta, mas Henry estava bem e com uma boa mãe.



Regina estava chocada. Não com o fato de Emma querer Henry de volta, mas com o fato dela achar que era injusto tirar Henry dela.



_Você acha que sou uma boa mãe? (Regina perguntou sentindo seu coração se aquecer.)
_Eu tenho certeza. (A loira disse fazendo um leve carinho na face da outra.)



Regina se assustou com o carinho e se coloco para trás, mais por reflexo do qe por rejeição. Emma porém recuou aparentando estar assustada com o gesto que ela mesma havia feito.



_Me desculpe.



A morena simplesmente não conseguia reagir. Ela tinha acabado de receber um carinho de Emma. Ela mal podia se lembrar da ultima vez que havia recebido um carinho que não fosse o de Henry. Levou a própria mão à bochecha tentando eternizar aquela sensação e sentindo-se quase feliz por estar perdida na selva com Emma Swan.
Terminaram de montar a barraca em silêncio. Parecia que estavam em uma tensão interminável, nenhuma das duas conseguia se encarar. Por fim elas terminaram a armação da barraca.



_Vou buscar algo que sirva de cobertura. Procure galhos secos para uma fogueira...
_Fogueira? (A morena não gostou da ideia.) Isso não pode nos denunciar?
_Bom, pode nos denunciar para aqueles caras, mas espantaria os animais. (A loira ponderou.)
_Ok! Prefiro os animais, nada de fogueira. (Regina disse encerrando a questão.)
_Sentiremos frio... (Emma a alertou.)
_Eu aguento.



Ela arrumaram a estrutura de madeira entre duas arvores e a amarraram com cipós para fazer uma espécie de telha e depois cobriram o gradeado com palha e folhas largas.



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A loira tirou a echarpe do pescoço. Ela era bem grossa , tinha várias camadas. Pegou um canivete que tinha no bolso e a abriu, pegou as tiras e estendeu no chão da barraca para forrar.depois pegaram alguns galhos e fecharam as laterais da barraca improvisada.



_Terminamos. (Emma disse suspirando exausta.) Acho que vou tomar um banho.



Regina se assustou ao ver Emma começar a se despir sem nenhum pudor. Ficou paralisada e boquiaberta observando aquela pintura que era Emma se despindo enquanto o sol se punha e entrando no riacho.



_Você não vem? (A loira perguntou convidativamente.)



Regina saiu do transe, mas, não conseguia responder, simplesmente imitou a loira e se despiu entrando no rio. Estava rubra de vergonha por estarem ambas nuas e tão próximas.



_Temos que sair desse lugar. (Emma disse quebrando a ilusão de perfeição que estava se formando na mente da morena.) Estamos sem comida e em breve isso vai pesar... Temos que conseguir sair daqui amanha.



Regina não respondeu, mas compartilhava da mesma preocupação que a loira. Não tinham achado nenhum fruto que parecesse comestível, no Maximo pinhas secas que teriam de ser cozidas. Mas não podiam cozinhar sem chamar a atenção dos Believers, fumaça era um grande sinalizador e tudo o que elas não queriam era serem achadas.
Elas ficaram na água por um tempo. Regina a encarava às vezes, tentando criar forças para dizer algo, para se aproximar, mas era tão difícil agir...


Ela não tinha dificuldades em seduzir as pessoas, mas Emma a causava um receio incomodo que a faziam parecer boba. Talvez tão boba quanto na época que estava com Daniel. Sentiu-se frágil ao pensar nisso e acabou por balançar a cabeça negativamente e sair da água. Emma a encarou sem entender. Ela então escorreu os cabelos e começou a se vestir ainda molhada.

_Devia esperar a água escorrer um pouco. (Emma disse saindo da água também e torcendo o cabelo.)
_Estou com frio. (Ela disse revirando os olhos.)
_Vai sentir mais frio ainda de madrugada. (A loira avisou dando ombros, ainda nua.)


Regina terminou de se vestir e entro na barraca. Não estava gostando do se olhar se perdendo por entre as curvas da xerife. Ela não podia deixar Emma saber o efeito que lhe causava, então fugiu daquela visão. Não demorou muito e a loira também entrou dentro da barraca. O sol já havia ido embora.



_Ta apertado aqui heim? (Emma falou ficando de lado, quase de conchinha com a morena.)



Emma não parava de se mexer, Regina olhou para trás de rabo de olho e viu que Emma não sabia bem o que fazer com o seu braço que não se encaixa em lugar algum. Vendo como a loira estava perdida a morena puxou a sua mão e colocou sobre seu corpo.


_Melhor agora? (Regina perguntou agradecendo aos céus por estar escuro e não dar pra perceber seu rubor.)
_Sim... (Ela respondeu com voz de espanto.)

Regina sentiu seu coração acelerado e seus lábios abriram um sorriso involuntário.


_É tão estranho dormir abraçada com você. (Emma disse escorando a cabeça no ombro da outra.)



Aquelas palavras quase partiram o coração de Regina em dois.




_Se não está satisfeita durma com a mão pra cima! (Ela disse irritada com o comentário.)
_Não é isso... Esta confortável. (A loira começou a se explicar.) É só que eu nunca imaginei nós duas dormindo num mesmo espaço juntas, quem dirá abraçadas!
_Não temos outra opção não é? (A morena falou sentindo-se incomodada com aquele assunto.)
_Parece que não. (Emma disse se aninhando mais no corpo da morena e ficando calada.)


Aquilo era torturante. Regina quase sentiu saudades de trocar farpas com a loira o tempo todo. Tê-la tão próxima de si e não poder fazer nada era pior do que a distância que elas tinham brigando a todo o tempo. Sem muita opção fechou os olhos e se concentrou na difícil tarefa de adormecer.
A noite não estava tão fria assim, talvez pela proximidade dos corpos. Por incrível que pareça, no embalo da respiração da xerife Regina acabou adormecendo facilmente.

A morena caiu em um sonho confuso com a loira. Emma estava de véu e grinalda pronta para se casar com alguém que não era ela. Ela sofria vendo a loira se aproximar do altar. Henry veio atrás carregando as alianças.
A cidade inteira parecia estar êxtase, mas eles não estavam em Storybrooke, estavam no Reino. Foi então que o padre disse o “fale agora ou cale-se para sempre.” Regina tentava gritar, mas sua voz simplesmente não saia. Ela foi correndo até os pés de Emma e tentou falar algo que a pudesse impedir, mas novamente sua voz não funcionava.
Ela começou a chorar nos pés da noiva sem saber o que fazer. Henry gritava para ela não atrapalhar, que Emma merecia ter o seu final feliz. Ela queria dizer que sim, mas que ela queria ser a pessoa com quem a loira seria feliz. Sua voz não saia de forma alguma. Ela estava em desespero, além de perder Emma estava perdendo seu filho.

Sentiu braços a arrastarem para longe da noiva. Ela esperneava, tentava gritar, mas não saia nem um mero som de sua boca. Quando estava quase sendo retirada da igreja, o noivo no altar se virou para ela. Só então ela pôde o reconhecer quando ele disse:

_Eu estou vivo e ela sempre será minha.

O horror tomou conta de Regina ao se deparar com o rosto de Neal. Ela tentou gritar novamente, mas tudo o que conseguiu foi acordar gritando sozinha dentro da barraca


_O que houve? (Emma perguntou entrando na barraca em desespero.) Você esta bem?
_E-estou... Foi só um pesadelo. (Regina disse assustada tanto com o fato de Emma ter vindo correndo para ver se estava bem quanto com o sonho que tinha tido.)



Emma então suspirou e disse:


_Você me assustou Regina! Achei que aqueles loucos estavam aqui. Não faça mais isso!
_Eu não posso controlar meus sonhos Miss Swan!


A loira suspirou e então disse:



_Certo. Desculpa ok? Você quer falar sobre o sonho?
_Não. (Regina disse amedrontada só com a ideia de Emma imaginar o que ela havia sonhado.)
_Ok... (Ela disse balançando a cabeça de em tom de reprovação.) Então vem aqui pra fora, eu trouxe comida.



Emma tinha conseguido favos de mel e cenouras. Estava em Maio, finalzinho da primavera, era uma das épocas que se encontrava poucos alimentos nas florestas temperadas, mas já dava para não morrer de fome.
Emma tinha lavado e descascado as cenouras e colocou os favos em cima de uma folha grande que havia encontrado por ali. Regina sorriu ao ver que ela tinha arrumado tudo em cima da pedra como se fosse um banquete. Em instantes toda a tensão causada pelo sonho sumiu.



_Sei que não é muito, mas foi tudo o que eu achei, mas já estamos melhor que ontem né?
_Está ótimo Emma! (Regina disse lançando um olhar carinhoso para a outra e se aproximando da comida.)



O Mel estava delicioso e Regina, por incrível que pareça, sempre gostou de cenoura crua. É claro que não era como comer panquecas ou waffles ou maçãs... Mas ainda assim estava muito bom para quem estava completamente perdida no meio de uma mata.
Depois do café elas seguiram em caminhada. Algumas horas depois encontraram uma estrada de terra e foram seguindo por ela. Em pouco tempo avistaram ao longe uma pequena cidade.



_Enfim civilização! (Regina disse com os pés calejados de tanto afundar os saltos no barro.)
_Enfim! (Emma comemorou.)
_O que vamos fazer quando chegarmos lá? (A morena perguntou receosa.)
_Como assim? (A loira perguntou sem entender muito bem.)
_Não tenho nada aqui... Quer dizer, estamos sem roupas extras, sem dinheiro, sem documento...


A loira então coçou a cabeça e deu um sorriso constrangido.

_Eu darei um jeito pode deixar. (Ela disse fazendo uma cara engraçada.)
_Acho que devemos dizer que fomos sequestradas e que não fazemos ideia da onde estamos.
_Nem pensar... (A loira descartou a ideia.) Eles logo nos perguntariam telefones de parentes e coisas do tipo. Estamos sozinhas nesse mundo se lembra? Ninguém sequestra quem não tem ninguém. Não iria colar!
_Você ta certa, mas então o que faremos? (A morena perguntou se assustando quando a ideia de acabar como uma moradora de rua lhe passou pela mente.)
_Eu sei alguns truques. Nesse mundo não é preciso de magia para conseguir as coisas magicamente. (Emma disse soltando um longo suspiro.)
_Que truques? (A outra perguntou desconfiada.)
_Regina, para sairmos dessa precisarei que confie totalmente em mim.


A morena a fitou e então balançou a cabeça em sinal positivo. Ao ver a afirmativa a loira então disse:



_Você vai conhecer um pouco do meu passado, que não é bem bonito, mas é o único jeito que sei que pode dar certo por enquanto.
_Ok... Mas você pode me contar o que exatamente nós duas faremos. (A morena disse apertando o ombro da outra em tom de confiança.)
_Você faz basicamente o que eu mandar. E eu vou fazer o que eu sei fazer de melhor e que não é ser xerife ou salvadora.



Regina bufou ao vê-la fugir da resposta de novo perguntou mais incisiva:



_E o que seria?
_Ser uma ladra (Emma confessou dando à Regina um olhar cúmplice.)



A morena chegou a abrir a boca para contra argumentar, mas simplesmente não tinha nenhuma ideia do que fazer se não o que a loira estava propondo. Frustrada ela só soube dizer:



_Eu sabia que você tinha sido presa, mas eu jurava que tinha sido uma cilada!
_E ainda assim usou aqueles arquivos da minha prisão contra mim.



A loira disse irônica, mas ao ver o olhar de censura da outra continuou a se explicar:



_Foi realmente uma cilada, mas isso não quer dizer que eu não era uma ladra de verdade.
_Você não tem cara de ladra... (Regina disse fazendo uma careta.)
_Nem você de rainha má. (Emma zombou.)
_Deixa sua mãe descobrir que você era uma ladra... (A morena botou pilha.)
_Nem pense em contar isso pra Mary!
_Estou ofendida! (A rainha disse colocando a mão no peito cinicamente.) Ta achando que sou fofoqueira como a Snow?
_Aaa... Qual é! Sem implicar com ela! (Emma disse dando um soquinho no ombro da morena)



E assim elas foram caminhando em direção à cidade, quase que brincando com o passado delas.