Incontado

9 A Declaração


Regina levantou cedo e colocou seu novo hobby , olhou para o corpo adormecido de Emma e suspirou. Ela conseguia já reconhece o cheiro da loira que inundava o ambiente. Precisava sair dali. E foi o que ela fez. Saiu pelo terreno do motel, andando sem rumo, até que ouviu uma voz atrás de si:

─Bom dia. (Alex chamou a morena.)
─Hey. (Ela respondeu sem ânimo.)
─Acordou do lado errado da cama hoje? (Ela brincou com a nítida impaciência da outra.)
─Só estou preocupada com meu filho. (Regina disse tentando disfarçar, mas causando mais questionamentos.)
─Eu ia perguntar sobre isso ontem, mas acabou me escapado... Cadê o filho de vocês?
─Viajando com os avós. (Ela responde de imediato.)
─Seus pais?
─Não os de Emma.

Alex olhou confusa e cruzou os braços:

─Emma é órfã.

Regina ficou sem saber como consertar o que tinha falado mas por sorte uma voz mais do que conhecida lhe salvou:

─Eu achei meu pais com a ajuda de Henry, ele queria conhecer os avós, usou o mesmo site que tinha usado para me encontrar.
─Nossa Emma! Desculpa, eu nunca imaginei que os encontraria depois de tanto tempo. Que bom!
─Nem eu, mas enfim, eles são legais, principalmente com o Henry, mas Regina é super protetora, ele não pode ficar uma semana longe que ela já se preocupa não é querida?

Emma surgiu a abraçando por trás. Regina sentiu o coração disparar com aquele contato. A loira apoiou o queixo em seu ombro e colou seus corpos.

─Alex, Regina é a melhor mãe do mundo, tem que ver quando estamos com o nosso filho, eu sou totalmente o pai da relação, sempre estragando o garoto.

As três riram, Regina ainda um pouco tensa.

─Regina, vamos tomar um banho vem? (A loira disse puxando a morena constrangida dali.) Depois voltamos Alex.

As duas voltaram para dentro do quarto, a morena estava com a pele totalmente rubra pelo jeito que Emma havia a envolvido. Quando fecharam a porta a duas se encararam sem jeito. Os olhos se cruzaram, os rostos se aproximaram .

─Essa foi por pouco. (A loira disse quebrando o contato.)Só espero que Alex não me peça uma foto dos meus pais, ou eu vou ter que mostrar uma foto do Gepeto e da Granny ao invés do David e Mary.

Regina não conseguiu rir. Estava frustrada, novamente. Era como se Emma estivesse a tentando só para ter o prazer de negar.

─Vamos logo trocar esse maldito carro e dar o fora daqui? (Pergunto seca.)
─Hey! O que houve? (A loira perguntou segurando a outra deforma delicada pelos ombros.)
─Fingir que sou sua sei lá o quê, não está funcionando Emma!
─Fala sério Regina! É só um disfarce!
─Sim! E é exatamente por isso! Eu não quero fingir que não sinto... (Regina cortou a própria frase ao notar o que estava falando.)
─Como? (A loira perguntou mudando a expressão.)
─Esquece Emma, e-eu só não acho que isso vá funcionar por muito tempo, eu quase estraguei tudo ainda agora.
─Regina é só relaxar, ontem você conseguiu se sair super bem, de qualquer forma só temos que aguentar até amanhã, Piper disse que tem um carro chegando para trocar comigo, ficaremos com um Santana.
─Enfim um carro minimamente decente? (A morena perguntou surpresa.)
─Sabia que iria gostar. (Emma disse com um sorriso fofo) Só dessa vez ok? Se você se sentir mal com alguma coisa é só me falar.

Regina deu um sorriso amarelo em resposta, Emma não entenderia nunca o motivo de seu desconforto. Era completamente desconcertante fingir que gosta de alguém que você gosta sem transparecer que realmente gosta. Ela respirou fundo e se concentrou: “É só mais um dia”, depois isso elas voltavam a se comportar como amigas. A morena estava com uma sensação dúbia, queria que o tempo voasse e que aquela tortura acabasse, ao mesmo tempo não queria voltar a tratar Emma só como amiga.
Na hora do almoço uma das atendentes do Motel estava quase devorando a loira com os olhos, Regina sentiu-se bem podendo intervir enlaçando a cintura da outra marcando território.

_Eu disse que você se sai muito bem nisso quando relaxa... (Emma disse alisando o rosto da outra de forma delicada encarando os olhos castanhos de uma forma mais intensa que o comum. )

A morena desviou imediatamente o olhar um tanto constrangida e soltou o aperto tentando se recompor.

_Não precisa ter medo Regina. (Ela disse dando espaço para a morena.) Eu não vou confundir as coisas se é disso que você tem medo, estamos atuando aqui está bem?

A cada palavra Regina ficava mais frustrada. Então ela simplesmente levantou e disse:

_Emma, diz para as suas amigas que eu estou passando mal ou qualquer coisa assim, eu não estou confortável com isso tudo, eu vou pro quarto.
─Mas... (Ela tentou contra argumentar, mas a morena foi mais rápida.)

Ela deixou Emma para trás mais uma vez e foi para o quarto sozinha. Ela se jogou na cama e deixou as lágrimas escorrerem. Seu filho estava longe e ela não podia tê-lo por isso, Emma estava perto, mas ela não podia suportar a indiferença da loira. Ela nunca havia sido rejeitada, sempre teve quem ela queria, Daniel e ela tinham tido um romance intenso e correspondido, Graham fazia o que ela queria, mesmo sabendo que não era de todo espontâneo ela se satisfazia em poder dominá-lo. Já Emma era algo fora do comum, ela é quem ditava as regras e se a loira via aquilo de forma tão irreal ao ponto de usar meramente como um disfarce, não havia nada que ela pudesse fazer. Enquanto ainda estava se recompondo ouviu uma batida na porta do quarto.

_Me deixa em paz Emma! (Ela respondeu secando as lágrimas que escorriam por sua face.)

Mas a porta se abriu revelando uma curiosa Alex ao invés de Emma.

_Hey, desculpa, mas eu vim ver se você está bem.
─Não vê que estou ótima? (Regina perguntou irônica tentando desesperadamente parar o choro.)
─Eu soube que você ficou aqui o dia inteiro e não parecia nada bem quando veio para cá, agora parece pior ainda.

Detestava que a vissem daquela forma, mas agora o estrago já estava feito. Alex entrou no quarto e sentou do lado de Regina pegando sua mão.

_Olha eu sei que a gente se conhece há pouco tempo e que eu não tenho nada a ver com a sua vida com a Emma, mas... Eu tenho experiência sabe? Eu e a Piper também passamos por momentos terríveis, mas com o tempo ficou tudo certo.

Era só o que lhe faltava, receber conselhos sobre seu namoro lésbico de fachada.

_Me diz o que houve talvez eu possa ajudar.
_Não, você não pode, ninguém pode. (Regina disse seca se levantando.)
_Tente pelo menos. Conte-me o que foi que aconteceu e se eu não tiver nada para te dizer ou ajudar, eu prometo nunca mais me intrometer.

Regina revirou os olhos, mas acabou cedendo:

_Emma me colocou numa posição... “Complicada” e ela não vê que isso me faz mal e eu não consigo falar com ela. Quero dizer eu falo, mas ela não dá a devida importância e eu acabo voltando a fazer o que ela quer. E então parece um ciclo vicioso e eu não posso falar a verdade e...
_Espera. (Alex interrompeu confusa.) Vamos por partes. Que situação que a Emma tem te colocado?

Ela agora se via em um dilema: como contar que estava apaixonada por Emma e que estava se sentindo mal por ter que fingir ser sua namorada, ao mesmo tempo que fingia que isso não a afetava, sem contar que Emma e ela não tinham um relacionamento de verdade?

_Eu não posso contar para você, prometi a ela que não falaria.
_Mas se ela está te deixando nessa situação não seria justo você se abrir com alguém para tentar resolver? (Ela perguntou ajeitando os óculos)

Regina mordeu os lábios tentando se conter e então viu uma forma de contornar aquilo e inventou uma situação semelhante para ilustrar:

_Emma às vezes brinca que quer ter um novo filho comigo. E eu não ligava dela fazer essa brincadeira a princípio, mas ela trata como se fosse algo completamente irreal entende? E eu sou completamente louca pela ideia de termos outro filho. Ao mesmo tempo eu não quero forçar a barra com ela entende? Eu queria que ela ou parasse de brincar ou levasse a sério de uma vez.

Alex sorriu ao ver a confissão da outra e disse:

_Nesse caso Regina você não tem que se preocupar em forçar a barra porque quem está forçando é ela, mesmo que sem saber. Você tem que contar a ela como se sente. É só deixar claro que é sem pretensões, que você não quer forçar nada, mas que ela brincar com isso é algo que machuca você.
_Você está certa. (Ela disse em um suspiro.) Eu deveria contar a ela.
_Nada é melhor que a verdade. (Alex disse dando um abraço em Regina que ficou meio sem reação.) Vai dar tudo certo você vai ver.
_Obrigada. (Regina disse se desvencilhando do corpo da outra.)

Alex saiu do quarto sorrindo e Regina passou o resto da tarde ensaiando mil formas de contar tudo para a loira. Estava deitada na cama ensaiando e quase pegando no sono.

_“Eu sei que você vê isso só como uma amizade mas eu...” Não Droga! “Eu tenho que te falar a verdade porque eu não aguento mais esconder o que eu realmente sinto...” Não... Eu não sei fazer isso!

Regina falava com a parede quando ouviu uma voz atrás de si que a surpreendeu.

_Não sabe fazer o quê? (Emma perguntou arqueando a sobrancelha.)

Regina se aproximou pronta para contar o que estava lhe afligindo, a garganta parecia prender sua voz e o suor frio escorria em suas mãos.

_Eu... (Ela disse encarando os olhos verdes da outra.) Eu preciso falar com você.
_Fale. (Emma disse segurando delicadamente no ombro da morena que a olhava intensamente.)

Regina deixou seu rosto se aproximar do de Emma enquanto tentava falar algo. Mas ela se sentia muda. O único som que ela parecia ser capaz de emitir era o rufar de seu coração disparado em seu peito.

_Regina? (Emma perguntou num ar intrigado, mas não impediu a aproximação.)
_Eu...

A morena começou a falar, mas se interrompeu virando o rosto e completou atrapalhadamente:

_Eu nunca beijei uma garota.

Emma olhou intrigada e Regina levou a mão à testa constrangida por ter falado aquilo.

_Eu imaginei que na Terra Encantada não fossem tão liberais assim, mas o que tem isso?

Regina revirou os olhos e disse:

─Droga Emma! Dá para levar a sério só para variar?
─Desculpa, mas não da para levar a sério você pirando com algo tão bobo! Você é tão careta assim? Regina deixa de ser chata e ficar de “mimimi coisa lésbica.”
─Deixa você de ser uma anta que não enxerga um palmo diante do seu nariz! (A morena disse se levantando irritada. )

Ela já estava quase saindo do local quando a loira a segurou pelo braço e aproximou o rosto do seu. Ela sentiu seu corpo inteiro tremer com aproximação dos lábios da loira, quando fechou seus olhos à espera do contato ouvi a voz de Emma ecoar.

_Se não é caretice é o que então Regina? Curiosidade? (A loira perguntou com um ar triunfante.)

A morena fraquejou em seus braços, mas ao invés de prosseguir Emma vacilou como se não estivesse acreditando que ela havia baixado as guardas. Regina então empurrou a loira para longe e saiu do quarto antes que fosse tarde de mais. Mal pôs os pés para fora do quarto e já estava se xingando internamente de burra. Porque diabos ela havia fugido? Nem ela conseguia entender e o rufar das batidas do seu coração não estavam a ajudando em nada. Ela ouvia a voz de Emma ecoando atrás de si e ia em direção ao carro sem se importar. Quando alcançou a maçaneta do veículo sentiu seu corpo ser bruscamente virado e prensado contra o carro. Não conseguia mais raciocinar, só conseguia aproveitar cada sensação. Sentiu os braços firmes de Emma puxarem-na pela cintura, os lábios macios tocando em sua boca, a língua quente invadi-la e as mãos deslizarem pelo seu corpo.

Ela estava inteiramente quente quando a loira chamou pelo seu nome delicadamente:

─Regina...

Era como música em seus ouvidos.

─Regina.

Aquela voz a enlouquecia.

─Regina acorda!

A loira por fim estragou o sonho perfeito da morena. Se sentia estúpida e com vontade de voltar para o sonho. Tinha adormecido enquanto ensaiava sua declaração e de tanto pensar naquilo acabou sonhando.

─Droga Emma! Porque você faz isso?
─O que? (A loira perguntou sem entender.)
─Estraga a melhor parte do sonho!
─Você estava tendo um sonho erótico Regina? (Ela perguntou de forma indiscreta.)
─Claro que não! Da onde você tira essas ideias? (A morena disse fingindo indignação.)
─Bom seus gemidos me fizeram inicialmente achar que era outro pesadelo, mas como estava “na parte boa” imagino que algo erótico se encaixe melhor.

Regina ficou completamente rubra com a insinuação, mas não deixou transparecer. Levantou-se de imediato e disse:

─Me diz que o carro novo já chegou, por favor!
─Sim, chegou. (Emma disse sorrido) Yay!
─Graças! Então podemos partir ainda hoje?
─Se você quiser ir dirigindo sim. (Emma disse se jogando na cama.) Eu preciso dormir, seja em uma cama macia ou no banco de couro do Santana, tanto faz, só preciso descansar.
─Perfeito. Eu dirijo. (Regina disse começando a arrumar as malas.)

Não demorou muito para elas se despediram de Alex e Piper e seguiram para a estrada. A próxima parada seria no Kansas, onde elas conheceriam o tal ilusionista.

─Acha mesmo que isso vai dar certo? (A morena perguntou antes que a outra caísse no sono.)
─Não sei. (Ela disse transparecendo preocupação.) Mas vamos tentar, temos que achar um jeito de voltar para a Terra Encantada e a não ser que você descubra como fez o carro parar magicamente aquela noite, precisamos encontrar alguém que possa nos ajudar a descobrir.

Regina concordou com a cabeça e manteve os olhos fixos na estrada. Fez-se silêncio e quando ela achou que Emma já havia adormecido uma pergunta veio a tona:

─Alex me falou que você queria ter um filho comigo.

Regina freiou bruscamente ao ouvir a frase.

─O que?
─Hey! Não nos mate por favor! (Emma disse assustada se ajeitando no banco.) Eu também não entendi o que ela quis dizer, mas fiquei curiosa, que diabos de história você contou para ela?
─Já não me bastava Snow se fofoqueira tinha que arrumar mais uma linguaruda! (Ela disse mais para si própria do que para Emma.)

Ela sentiu suas mãos soarem no volante com a pergunta, mas conseguiu se manter calma o suficiente para dizer:

─Fazia parte do disfarce.
─Sei. (A loira disse com ar de quem não havia engolido a história.)
─Ok Emma. É o seguinte... (Ela disse criando coragem para falar sobre aquilo que estava lhe sufocando.) Eu precisava falar com alguém sobre o que estava sentindo, mas eu não podia falar exatamente o que era. Então criei uma história para ilustrar.
─Ok, mas ainda continuo sem entender. O que você está sentindo?

Ela encarou os olhos verdes pronta para se declarar, mas antes que alasse qualquer palavra percebeu que dois carros começavam a lhe fechar.

─Droga! (Ela disse acelerando.)
─Regina não foge do assunto! (Emma disse sem perceber o que estava acontecendo.)
─Se segura Emma! (Ela disse pisando fundo no acelerador.)

Só então a loira se atentou para os carros pretos que estavam cada um de um lado da estrada.

─Que diabos é isso?
─Parece a polícia para você? (A morena pergunto assustada.)
─Definitivamente não. (Ela respondeu temerosa.)
─Malditos Believers. (Regina disse zapeando com o carro quando um dos perseguidores encostou na lateral.) Como nos acharam?
─Não tenho ideia, mas vão se arrepender. (A outra disse indo para o banco traseiro.)

Antes que a prefeita pudesse perguntar qualquer coisa Emma já estava com uma escopeta nas mãos e abaixando os vidros do carro. Atirou na roda do que estava na esquerda primeiro e em troca receberam uma saraivada de tiros.

─Se abaixe (Emma disse instintivamente.)
─Se eu me abaixar não vejo para onde estamos indo idiota! (A morena disse mantendo o controle do carro que acabava de ser atingido na lateral direita.)

A loira acertou mais dois tiros no segundo carro, mas nenhum atingiu a roda.

─Quer fazer o favor de mirar direito?
─Quer fazer o favor de calar a boca e parar de ziguezaguear com o carro?

Um dos tiros acertou o ombro de Emma, mas ainda assim ela conseguiu acertar a roda do segundo carro.

─Toma essa Tamara! (A loira disse comemorando seu acerto.)
─Você conseguiu! (A outra respondeu aliviada.)
─Nós conseguimos.

Só quando ela passou novamente para o banco da frente Regina viu que estava ferida.

─Emma! Você está sangrando! (Ela falou em desespero.)
─Eu estou bem, não pare de dirigir. Eu aguento.
─Mas você precisa de um hospital!
─Chegar num hospital com uma bala no corpo? Você quer mesmo que sejamos presas? (A loira ironizou.)

Regina não sabia o que fazer. Só sabia que não podia deixar Emma daquele jeito. Procurava alguma bifurcação onde pudesse sair da estrada para pelo menos checar o ferimento.

─Nem pense em parar esse carro. Eu estou ferida, eu sei, mas estaremos mortas se esses caras nos pegarem.

Mal concluiu a frase e no horizonte apareceu uma barricada de carros do mesmo estilo que elas haviam acabado de deixar para trás. Era uma emboscada.

─Merda. (Foi tudo o que Emma conseguiu dizer ao ver o que lhes esperava mais a frente.)

O coração de Regina batia a mil. Ela não podia deixar aquilo acabar daquele jeito ao invés de seguir para o inevitável ela parou o carro de imediato e soltou o volante. A loira a encarou confusa e então ela segurou com delicadeza o rosto de sua salvadora.

─Eu não imaginava te contar desse jeito. Mas não posso pensar na possiblidade de morrer sem dizer isso.
─Regina! Não desiste dirige essa droga! (Ela falava em desespero.) Nós temos que tentar!
─Emma! Por favor! (Ela disse com os olhos lacrimejados.) Não tem como, você sabe disso!

Mesmo que ela não pronunciasse nem uma palavra naquele momento, provavelmente Emma entenderia pelo seu olhar o significado daquilo, mas ela não fraquejaria. Não dessa vez:

─Eu amo você.