Incógnita
9 8. Dissonâncias Aqui e Ali
Notas iniciais
O som de uma discussão do lado de fora do meu quarto foi o que me acordou pela manhã, e o horário de me levantar já se aproximava, por isso permaneci acordada. No entanto, não conseguiria voltar a dormir com os clamores que vinham do corredor.
– Você não pode deixar uma desconhecida hospedada em nossa casa. – reclamou uma voz que eu desconhecia.
– Filha, eu não podia deixa-la simplesmente largada na rua sem família. Ela sofreu muito, querida. – manifestou Irina com a sua voz serena.
– E se ela fosse uma assassina?!
– Mas ela não é.
– E como você sabe disso? – pergunta a voz, contudo, não recebe resposta alguma. – Não sabe explicar, não é mamãe? Mas você é quem sabe. Não irei me intrometer.
Esperei alguns segundos e o corredor permaneceu-se silencioso. Com um sentimento de languidez crescente, decidi ir tomar o meu banho. Mas infelizmente, Irina e a filha dela continuavam no corredor.
– Ah, desculpe. Eu pensei que vocês já tivessem terminado. – tentei explicar sentindo o calor subir o meu rosto. – Eu só vou tomar banho para ir para a escola.
– Não, Ava. Você que me desculpe. – interrompeu Irina, me olhando com grandes olhos azuis cheios de pena. – Nos desculpe por acorda-la com essa conversa tão desagradável.
Atrás dela, uma mulher de cabelos castanhos claros e olhos grandes e azuis como os de Irina, me observava, com certa vergonha pela situação em que fora submetida.
– Ava, está é a minha filha, Anne. Lembra-se que eu lhe falei dela?
– Claro que me lembro. Olá Anne, tudo bom? – ela não respondeu. – Bem, vou tomar o meu banho, antes que me atrase.
Enquanto me lavava não pude deixar de concordar com Anne. Em seu lugar faria o mesmo: nunca que permitiria um estranho em minha casa, mas se não fosse pela bondade de Irina eu não teria onde ficar, e provavelmente estaria sofrendo. Se não tivesse Irina, não teria ninguém.
Quando terminei, vesti uma calça jeans, uma blusa verde musgo, com estampa clara, que combinava muito com a minha pele, e peguei a mochila.
Na sala, encontrei Irina e Anne sentadas no sofá conversando.
– Você não vai tomar café? – perguntou Irina quando viu que eu já estava saindo.
– Não. Estou sem fome. No colégio como algum lanche.
– Certo. E Ava, quando chegar nós iremos conversar. – e isso foi tudo o que ela pôde dizer antes que eu fechasse a porta.
Fui sozinha para o colégio, como de costume. E já estava ficando acostumada mesmo. Eu estava sozinha naquela cidade. Senti-me novamente como no dia em que acordei no descampado. Sozinha.
– Que cara é essa? – perguntou Ísis quando cheguei ao colégio e encontrei ela e Jasmine.
– Nada. Só bobagem. Então, como foram as compras?
– Ótimas. Só faltou você.
– E eu consegui comprar o meu vestido. – comemorou Jasmine com um largo sorriso no rosto.
– Que bom. – nesse momento o sinal para a primeira aula tocou, e eu e Ísis fomos para a sala de História.
***
– Harrison não para de olhar para você. – cochichou Jasmine em meu ouvido.
Nós estávamos sentadas na nossa mesa, com um pessoal do grupo de teatro e o refeitório estava cheio. Assim que o sinal tocou para o almoço corri, pois não aguentava mais a minha barriga que roncava vazia desde o café da manhã.
– É mesmo, Ava. – confirmou Ísis do meu outro lado. – Mal chegou e já está arrasando corações, hein? – zombou ela.
– Há-há-há. Muito engraçadas vocês duas. Ele é um grosso idiota. Vocês acreditam que ontem ele foi ao restaurante e ficou me atormentando?!
– Claro. – disse Ísis.
– Aham. – concordou Jasmine.
– Ah! Agora vocês que vão implicar comigo. – reclamei sentindo o rosto enrubescer. – COM LICENÇA! – disse eufórica enquanto saía da mesa levando a minha mochila para jogar os restos do meu almoço no lixo.
Péssima escolha a de sair da mesa. Logo escutei os passos lentos e precisos que vinham atrás de mim, e em algum lugar da minha mente pude escutar os risinhos de Ísis e Jasmine enquanto me observavam.
– Como você está nervosa hoje.
– Só faltava essa de você aparecer. – virei-me para responder ao garoto de cabelos encaracolados que tinha um sorriso maroto nos lábios. Quando reparei no sorriso dele, quase pude ouvir o meu coração parar, mas então respirei fundo e fiz o pequeno órgão dentro de mim se acalmar.
– Desculpe. – disse enquanto levantava os braços em gesto de rendição – Só ia perguntar se você gostaria de companhia para a sala de aula.
– Eu sei, muito bem, onde fica a sala de Inglês. Não precisa me acompanhar.
– Mas como você é novata, pensei que seria melhor se tivesse uma companhia. Para não perder-se nos corredores. – explicou-se.
– Eu não vou me perder. Obrigada pela preocupação.
– Não há de quê.
Comecei a caminhar, e parei quando percebi que continuava a ser seguida. Virei-me para encara-lo:
– Só estou conferindo.
Aquele garoto realmente não desistiria nem tão cedo. Voltei a caminhar sem me importar com quem vinha atrás de mim.
Quando o sinal tocou para a aula de Inglês eu já estava sentada em meu lugar, terminando de ler as últimas páginas do livro que a professora havia mandado ler.
– Vejo que você arrumou companhia para vir à classe. – disse Jasmine enquanto se sentava em seu lugar habitual.
Se eu fosse um daqueles bonequinhos de desenhos animados a minha cabeça estaria flamejando agora.
– Bom dia, alunos. – disse a professora quando entrou na sala, fazendo todos se calarem, inclusive a Jasmine, para o meu alívio. – Hoje, concluiremos com o nosso livro e então teremos um momento de leitura. Trouxe algumas poesias e gostaria que vocês lessem para a classe. Bem vamos começar com o debate...
***
No fim das aulas eu estava exausta pelo esforço durante a aula de educação física. Poderia, muito bem, dizer que naquela matéria eu era a pior aluna.
– Como foi a aula de inglês? – perguntou Ísis com um tom muito curioso.
– Normal.
– No meu palpite, Harrison está afim de você. E você deveria dar uma chance para ele.
– Concordo – disse Jasmine, e as duas mergulharam em uma conversa sobre os garotos da escola enquanto caminhávamos para a entrada do colégio. Onde para a minha surpresa uma pessoa me aguardava. Despedi-me das meninas e fui ao encontro da mulher que me esperava.
– Olá, Ava.
– Olá, Anne.
– Desculpe-me por hoje de manhã.
– Não. Tudo bem. Eu entendo e respeito a sua opinião.
– Que bom. – disse aliviada. – Então o que acha de irmos lanchar alguma coisa? Para nos conhecermos?
– Uma ótima ideia. – suspirei. – Porém, hoje às quatro horas eu preciso estar no restaurante.
– Tudo bem. Ainda temos tempo. – disse enquanto conferia o relógio dourado e entrava no carro preto.
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