(In) quebrável
7 Capítulo 6
Notas iniciais
Não sabia o motivo para a apreensão que rondara seu peito durante todo aquele longo dia solitário, não exatamente “não tinha o direito de”, mas simplesmente não tinha motivos para se preocupar tanto com o moreno que repentinamente o deixou sozinho. Ambos eram homens, adultos, centrados, e ainda por cima, heróis profissionais; ambos sabiam se virar perfeitamente sozinhos, mas algo não estava certo. Todos os sentidos de Hizashi o diziam que algo ruim iria acontecer aquele dia, não sabia o que, nem a quem, mas sabia que tinha grandes chances de ser com Aizawa.
Mesmo sabendo que não receberia respostas, acabou enviando várias mensagens para o celular do moreno. Tentando de alguma forma acalentar o tornado em sue coração.
Se ele visualizar as mensagens, significa que está em casa e espero que bem... –Pensa encarando a conversa pela tela de seu celular.
—Onde você foi se meter, Shouta? –Sussurra para si mesmo. A cada segundo encarava a tela do celular, averiguando se o moreno visualizara suas mensagens. Quando isso finalmente acontece, faz algo que se arrepende logo que; após correr para o mesmo lugar no qual praticamente acabara de sair; toca a campainha do apartamento de Aizawa. Ele sabia que iria pra lá.
Não entendia o motivo para o afastamento exagerado, pela primeira vez desde que conhecera o moreno, Mic se sentia mais maduro. Tinham que resolver aquilo mais cedo ou mais tarde, e como mães sempre dizem: “Não deixe para amanhã o que você pode fazer hoje”.
Aizawa não abre a porta, obviamente.
—Aizawa, você tá aí? –Não obtém resposta.
—Se estiver aí, só faz qualquer barulho, por favor. Não precisa responder, só me deixa falar. –Não recebe nenhuma resposta. Mic se sentia literalmente um idiota conversando com uma porta. Ele suspira antes de continuar.
—Eu sempre fui um idiota, isso não é nenhuma novidade. Mas Shouta, não faz sentido o que você está fazendo, fica fugindo de mim como se a culpa fosse minha, como se eu fosse alguém que vai te fazer mal, como se... como se eu fosse um son of a bit. Mas eu não sou, você sabe disso. Pelo menos eu espero que saiba. –Finalmente desiste de conversar sozinho com um objeto de madeira, mas definitivamente não deixaria de ver o moreno depois daquela tarde toda preocupado.
Ele precisa dar apenas dois passos para bater na porta do apartamento ao lado com cara de poucos amigos, ouve uma gritaria incompreensível entre um casal e depois de alguns segundos a porta é aberta por um homem de sobrancelhas franzidas e a famosa “cara de buldogue”, com grandes bochechas. Era baixo, sua cabeça batia no pescoço do loiro e a calvície aflorava no topo de sua cabeça redonda.
—Que caralho você quer?! –Pergunta rudemente, Hizashi não se deixa abalar, mas antes que pudesse responder com um curto sorriso no rosto, a mulher que estava sentada no sofá, de pernas sobre a mesa de centro e assistindo a algum programa o corta em um quase grito.
—Se for algum vizinho você manda pro inferno!
—Preciso usar a sua janela por um segundo. –Responde da maneira mais amável que poderia naquele momento, onde o que mais tinha era pressa e o que menos via era praticidade.
—Ãn? Acha que tá aonde meu amigão? Na casa da mãe Joana?! –Ele tenta bater a porta, mas Mic a segura firmemente com apenas uma das mãos e a abre de novo sem dificuldades. –Mas o q-? –Tem sua fala cortada pelo loiro, que decide deixar de ser amigável mais cedo que o costume e o encara com os olhos amedrontadores, típicos não de um herói, mas de um vilão enlouquecido.
—Acho que fui bem claro, não? É só por um segundo. –Amedrontado pelo loiro alto a sua frente, o calvo dá espaço pra sua passagem. A mulher reclama alto, mas nenhum deles dá atenção.
Hizashi desvia de vários móveis entulhados sem um padrão correto ou qualquer arrumação, chegando com dificuldade na janela onde precisava chegar. A abre, recebendo de bom grado um vento fresco no rosto, tão diferente daquele apartamento apertado e fechado, com cheiro de mofo e suor. Coloca um dos pés sobre o parapeito e logo o outro, estava do lado de fora agarrando-se firmemente nas grades acima da janela para se equilibrar.
—Ótimo, veio usar a MINHA janela para se matar, sério? Podia ter ido até o terraço, sei lá, mas... –Ele ignora a fala do homem, simplesmente dando um grande passo, conseguindo se firmar onde era a janela do apartamento de Aizawa e leva o resto do corpo rapidamente, sabia que tinha deixado a janela aberta, e torcia para o moreno não tê-la fechado. Estava certo. Com muita dificuldade consegue adentrar o apartamento escuro.
Ele tateia as paredes até chegar onde é o interruptor. Não parecia ter ninguém ali. Ele procura nos cômodos e não encontra nada, apenas um gatinho raivoso que se arrepia todo quando o vê, encarando-o atento e desconfiado. Com certeza Aizawa devia tê-lo pego naquela tarde.
Algo o chama a atenção, ao lado do interruptor, na porta de entrada da sala, estava as chaves. Aizawa tinha dado algum jeito de sair sem as chaves, logo percebe algo óbvio. Vira-se para trás e encara a janela aberta, do outro lado da rua tinha um prédio um andar mais alto que aquele em que estava, o moreno tinha saído por ali quando disse que iria vê-lo. Mic estala a língua em raiva, mas logo sua raiva se torna mais preocupação, ainda sentia que algo ruim aconteceria, e esse sentimento agora estava mais forte.
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—Agradeço. –Ele pega o kit de banho novo de Toshinori. Mas logo o loiro percebe, dessa vez melhor que antes, as marcas por todo o corpo pálido do outro, afinal, agora com a luz do apartamento conseguia enxergar mais do que algumas simples marcas. Todo o corpo do moreno estava ferido de arranhões, inchado pelos socos e chutes, percebe um filete de sangue escorrer pela testa alheia e ele parecia mancar ao andar.
Logo sua dúvida é sanada, no meio do caminho para o banheiro, Aizawa não consegue mais disfarçar a dor gritante em sua cabeça e na perna direita, não se lembrava do que tinha ferido sua perna, mas a cabeça lembrava perfeitamente, dela sendo socada contra a parede, receber chutes, socos, não tinha como esquecer. Ele para no meio do corredor e segura a cabeça com as mãos, precisava dormir, muito, sentia que se dormisse naquele momento era capaz de nunca mais acordar. Sente algo escorrer em sua nuca, leva a mão até lá e sente algo já em temperatura ambiente, era o sangue que tinha escorrido quando sua cabeça foi batida contra a parede de pedra, já estava mais gosmento que sangue fresco.
—Aqui. –De novo, All Might, já de volta à sua forma magricela, lhe oferece ajuda, já sabendo que não tinha a opção de “não aceitar” Aizawa passa o braço direito pelo ombro do loiro, que o ajuda a chegar ao chuveiro. Conseguiam sentir o coração um do outro bater graças a proximidade entre eles, a calmaria era tamanha naquele momento que, mesmo que não admitissem, gostariam de manter aquele contato por mais tempo do que seria considerado normal. Chegando ao chuveiro, o moreno desabotoa a larga camisa social que Toshinori tinha usado para cobri-lo.
Já completamente sem roupas, All Might quase deixa uma exclamação escapar. Os ferimentos do outro, agora já passado algum tempo, estavam roxos em várias partes, seu corpo normalmente pálido, agora estava completamente marcado de tons de rosa, vermelho e roxo, espalhados por toda parte. Aizawa solta um grunhido de dor ao deslizar a camisa pelas costas, estas estavam extremamente marcadas por linhas perfeitamente visíveis de arranhados recentes.
Eraser se encara no espelho, sua expressão se torce em um misto de nojo e dor, ele abaixa a cabeça, tampando a visão de seu reflexo com o cabelo, não queria ver o estado no qual se encontrava, mas por mais que não quisesse ver a si próprio, ele sente um par de mãos grossas o rodearem. Por instinto, ele encara os olhos daquele que repentinamente o abraçara, um abraço calmo e leve, de alguém preocupado em não machuca-lo mais do que já estava.
—Está... tudo bem em chorar se quiser. Só não faz esse olhar, por favor. –Olhar? A que All Might se referia? Aizawa não se dera conta, mas seus olhos novamente ganharam aquele tom opaco, sem qualquer brilho de emoção que o loiro tanto temia.
—Eu não vou chorar, All Might, que papo é esse? –Afirma se afastando do contato. –Só preciso de um banho.
Se apoiando onde conseguia, Aizawa se põe sob o chuveiro, mesmo estando frio, ele abre apenas a água gelada, sente ao menos minimamente o vazio dentro de si ser aliviado pela dor que passa a sentir graças a água batendo contra todo seu corpo ferido, o frio que passa a sentir também contribui com este fato. All Might não sabia o que fazer, não podia obrigar o outro a nada, mas queria ajuda-lo de alguma forma. Com os olhos de um azul elétrico, o loiro varre o cômodo, não havia nada ali que o outro poderia usar para se ferir intencionalmente enquanto ele fosse buscar a toalha.
—Vou buscar uma toalha ali do lado, qualquer coisa pode me chamar, tudo bem? –O moreno assente com a cabeça, ensaboando os fios negros.
Com isso ele o deixa sozinho por alguns instantes para que pudesse buscar a toalha, aproveita e procura por outro presente que tinha ganhado há pouco tempo, algumas cuecas novas. Checa com o olhar todas elas, tentando julgar qual ficaria menos larga no outro, em seguida pega uma calça de moletom azul para que o outro não precisasse ficar andando nu pelo seu apartamento. O motivo para ter tantos presentes ainda sem uso, era por causa não apenas de ter uma agenda deveras atarefada, mas, graças à ser um símbolo para tantas pessoas, recebia muitos presentes em seu aniversário, que tinha se passado há apenas um mês.
Quando retorna, se arrepende por tê-lo deixado sozinho. Aizawa estava no chão do box com a cabeça entre os joelhos, baixos soluçares eram ouvidos pelo herói número um. De repente um grito, All Might recua um passo pelo susto, mas logo; sem se preocupar se molharia as roupas que trajava; se põe sob o chuveiro e o abraça, o moreno tremia em seus braços, percebe no mesmo instante a água gelada na qual o outro se banhava, mas assume que não era esse o motivo para a tremedeira. Os olhos negros estavam arregalados, ele estava apavorado. O loiro fecha a água, apaziguando pelo menos minimamente a tremedeira do outro.
—Aizawa! Está tudo bem, o que aconteceu? –Pergunta fazendo um afago nos cabelos escuros, logo percebe que atrás da cabeça do moreno, filetes de sangue voltaram a escorrer, seus braços estavam ainda mais vermelhos que antes, as linhas de arranhados ainda mais recentes de sobrepunham aos outros. Pega com cuidado uma das mãos do outro e encara suas unhas, havia pele sob todas elas. –Não é culpa sua, está tudo bem agora.
—Você não entende nada, All Might! –Ele empurra o loiro com mais força do que imaginava. –Eu sou repugnante, olha pra isso. –Diz mostrando todo o próprio corpo. –Ele mesmo disse... Logo ele. –Quando lágrimas repentinamente voltam a correr pelos olhos negros, o loiro se aproxima novamente.
—Quem disse isso pra você? –Questiona calmamente, sabia que o moreno não saberia dizer o nome do loiro aleatório que o estuprara naquele beco escuro. Aizawa pigarreia e respira fundo algumas vezes antes de finalmente responder, uma resposta que o loiro nunca imaginou que receberia.
—Hizashi. Ele me odeia, me acha repugnante, um estorvo, literalmente um merda. –A tristeza e a sinceridade na fala do moreno eram o suficiente para convencer o outro de suas palavras, mesmo que fosse difícil para qualquer um acreditar que o loiro faria algo assim. De repente uma gargalhada alta, nos lábios de Aizawa aquela gargalhada histérica em nada combinava. –Como eu nunca percebi?
—Ãn? –Podia jurar que ouvira errado, não tinha como aquilo ser verdade, quando aquilo tinha acontecido? E por quê? Ambos sempre foram tão amigos, até suspeitava que o moreno que chorava nos seus braços era apaixonado pelo outro loiro, então como aquilo seria possível? Ao mesmo tempo em que queria entender aquela história, All Might não queria bombardear Aizawa com perguntas que muito provavelmente não queria responder, decide então por apenas deixa-lo descansar e pergunta-lo tudo sobre aquilo uma outra hora.
Vendo que se não perguntasse nada, o assunto realmente morreria ali, o loiro permite que isso ocorra. Ajuda o moreno a se levantar e o incentiva a terminar o banho, –dessa vez com uma água morna, para acalmá-lo. –observando-o a todo tempo, impedindo que fizesse mais alguma coisa que ferisse a si próprio.
Eraser não consegue evitar se sentir constrangido com o olhar atento do herói número um sobre si, na verdade, se sentia extremamente constrangido com o cuidado excessivo que o outro tinha para consigo. Quando já estava a vestir-se da cueca e calça trazidas para si e ir deitar em qualquer lugar que fosse para dormir, –pelo menos esse era o plano do moreno, mas antes disso, seria obrigado pelo loiro a ser enfaixado por completo e tomar vários remédios– eles ouvem um som rouco e alto, era o estômago de Aizawa que não tinha comido nada o dia inteiro. Toshinori deixa escapar uma risada anasalada.
—Vou preparar alguma coisa pra você comer já já, mas antes disso, vem aqui comigo. –Não sabia se o loiro tinha percebido isso, mas segura em sua mão e o acompanha até a cozinha, onde em uma das várias gavetas, estava guardado o kit de primeiros socorros. Só quando tenta pegar a gaze com a mão esquerda, é que All Might percebe que estiveram de mãos dadas por todo o percurso, dirigindo um sorriso amável ao dono dos olhos negros.
Em pouco tempo, todas as feridas do moreno estão encobertas pelos vários curativos até que bem feitos pelo loiro. Definitivamente chamaria a Recovery Girl para visita-lo talvez no dia seguinte, enquanto isso teria de ficar com as bandagens.
—Eu deixei o gato sozinho, encontrei ele hoje e já deixei o pobrezinho sozinho de novo. –Diz fora de contexto enquanto o loiro colava um curativo no seu rosto.
—Nós vamos lá amanhã buscar umas roupas e o gatinho, tudo bem? –Ele assente com a cabeça.
Enquanto preparava o jantar, All Might é surpreendido pelo som do toque de seu celular. Aizawa não consegue impedir um curto sorriso de surgir em seus lábios ao ouvir o toque, era a mesma música irritante que se lembrava. O loiro limpa as mãos e pega o aparelho que estava no bolso de sua calça, seus olhos se arregalam no mesmo instante, era Presente Mic o ligando.
Não sabia como o moreno poderia reagir ao falar que era uma ligação daquele loiro, ele ainda não entendia perfeitamente a situação, mas sabia que daria problema. Aizawa percebe sua apreensão, encarando-o com uma sobrancelha erguida.
—Não vai atender?
All Might engole em seco antes de atender aquela ligação que nunca imaginou receber ainda naquele dia.
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Já era tarde da noite, Hizashi caminhava pelas ruas ligando para todos os amigos, averiguando se algum deles sabia onde estava Aizawa e pedindo-os para avisá-lo se ficassem sabendo de algo. 13, Mid Night, Cementoss, Snipe e o diretor foram as vitimas dos telefonemas desesperados de Present Mic. Não tinha explicado toda a situação para eles, por motivos óbvios, apenas perguntou, da forma mais calma que podia naquele momento, se sabiam onde estava Eraser Head.
Não queria ter que ligar pro All Might-san... Tarde assim, ele deve estar exausto. –Mic estala a língua, não fazia mal dar apenas uma ligada descompromissada. Ouve o bip uma, duas, três vezes; o outro não o atendia, sabia, ele já devia estar dormindo neste horário.
—Alô. –De repente ele atende, surpreendendo o dono dos olhos esverdeados. Não havia qualquer resquício de sono na voz, aliviando de certa forma aquele que pensava estar incomodando. Mic cerra os dentes, a sensação ruim que antes sentia estava ainda maior naquele instante.
—Hello! All Might-san! Que bom que ainda está acordado, preciso te fazer uma pergunta... –Não sabia bem o que dizer, não era muito próximo ao outro loiro, na verdade costumava ser um grande fã.
—Claro... O que deseja? –A voz exalava preocupação, Mic pensava ser devido à sua inesperada ligação, mas na verdade, era por causa do moreno há poucos passos de si que ouvia atentamente o que estava dizendo, temia dar qualquer brecha que pudesse fazê-lo pensar que estava se comunicando com Present Mic.
—Você por acaso sabe onde está o Eraser? –Por instinto, Toshinori se vira para onde estava o moreno, sentado na sua bancada observando algumas embalagens de tempero. Aizawa sente ser observado, percebendo logo o olhar preocupado que o loiro exibia, All Might desvia o olhar, pensando no que diria para o outro sobre isso.
—Sim, –Hizashi abre um grande sorriso, e solta um suspiro de alívio, naquele momento sente como se todo o ar; que nem ao menos percebeu que perdera; retornasse aos seus pulmões. –mas nós temos que conversar melhor outra hora sobre isso.
Hizashi era um idiota, todos sabiam disso, até mesmo ele próprio; mas não era burro. Naquele momento ele entende o que acontecia, All Might que sempre tivera o costume de falar o nome das pessoas no fim das frases, se conterá para não fazê-lo. Em nenhum momento citou seu nome ou seu codinome, muito provavelmente o moreno estava com ele naquele momento, e mais provavelmente ainda, extremamente triste ou com raiva de si, tendo em vista nem ao menos seu nome poder ser citado.
—Certo, obrigado All Might-san. Era tudo o que eu queria saber. –Mesmo que agora soubesse que o moreno estava de fato irritado consigo, se aliviara ao saber que este estava com All Might, não tinha como algo acontecer com ele. –Ele está bem? –Pergunta mais por cordialidade que de fato preocupação, mas ao ouvir aquelas palavras como resposta do outro loiro, Mic arregala os olhos e sente seu peito gelar por completo.
—Nós temos que conversar. –Apenas isso, e os bips dizendo que a ligação foi encerrada, é só isso que Hizashi ouve antes de, incrédulo, levar a mão ao rosto e cerrar os dentes. O que diabos teria acontecido?
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—Quem era? –Pergunta o moreno finalmente saindo de cima do balcão e se sentando agora na mesa já posta pelo loiro.
—Tsukauchi, era sobre trabalho. –Desconversa encarando aquele que provava sua comida.
Não estava de tudo ruim, mas também passa longe de ser considerada boa. Por algum motivo, mesmo estando de barriga vazia por não ter comido nada o dia inteiro, o moreno não sentia fome, a comida a sua frente seria perfeita para qualquer um com fome, mas para ele, estava difícil de comer.
Ele se força a comer um pouco, mas devia estar nítido em seus olhos seu desgosto graças a fala daquele que o observava atentamente.
—Está ruim? Não sou lá um cozinheiro muito bom, desculpe. Não precisa comer se não quiser. –O moreno o encara, diferente do que pensava, não havia um mínimo resquício de raiva nos olhos do loiro, só o que presenciava naqueles olhos azulados, era a mesma preocupação na qual o observava aquele noite inteira. Preocupação e carinho, apenas isso conseguia extrair daqueles olhos.
—Não, está ótimo na verdade. Desculpe All Might, estou sem fome. –Ele apoia a cabeça nas mãos, e os cotovelos doloridos na mesa. Não podia acreditar que estava sendo tão dependente de uma hora pra outra, por isso queria acabar tudo naquela hora, aquela maldita hora que o loiro o encontrou. –Por quê? –Pergunta sem qualquer contexto, seus olhos ganham novamente aquela coloração vermelha de choro.
—A-Aizawa?! O que foi? –Toshinori se assusta com mudança repentina de expressão do outro.
—Por que você tinha que aparecer ali? Estava tudo bem, eles iam acabar, eu ia subir no prédio e ia... Ia estar tudo certo, tudo acabado. Mas não! Você tinha que ser o “salvador do dia” como sempre. –As lágrimas se tornam impossíveis de segurar, sem que percebesse sua garganta fecha e esteva soluçando. De repete, pela segunda vez naquele dia, sente um par de mãos quentes o envolverem em um abraço apertado. Ao invés de acalentar, isso apenas intensifica a tristeza que o moreno sentia, pois percebe o quanto estava dando pouco valor à preocupação e caridade daquele que chegava apenas a ser um recente amigo. Em contrapartida, como sempre, All Might consegue apaziguar o desespero no coração daqueles perto de si.
—E como aquele gatinho ia ficar? Ele depende de você agora, Aizawa. –O loiro estava certo, sabia disso, mas ainda assim, aquele sentimento egoísta e ignorar o único ser que dependia de si e dar um fim àquilo tudo gritava forte demais dentro de si. Toshinori encerra o abraço minimamente, continuando bem próximo ao outro. –Eu estou aqui, Shouta. –Parecia extremamente estranho para ele chamar o amigo pelo primeiro nome, mas se força a isso, sem saber ao certo o motivo. –Eu vou te ajudar, sempre, okay? –O moreno percebe as bochechas finas ganharem um tom rosado, o loiro fica constrangido antes de dar um leve beijo na testa alheia.
Com aquele simples contato carinhoso, Aizawa volta a pensar racionalmente pelo menos por um momento. Não era um covarde para se matar apenas com aquilo, era um herói formado na UA afinal, preparado há anos no quesito “levar porrada do mundo”. Se não soubesse a dor terrível que sentiria com isso, queria bater em si mesmo, não acreditava no quanto estava sendo infantil, logo ele que sempre foi considerado, por qualquer um que o conhece, tão centrado e racional. Aquilo foi realmente tão ruim assim? Era o que se perguntava. Logo um flash, apenas um flash do que aconteceu é o suficiente para fazê-lo ter ânsia, se tivesse algo em seu estômago definitivamente teria saído naquele momento, ele encara as próprias mãos, logo os braços, em seguida puxa a blusa para fitar o próprio peito, todas as marcas estavam ali, algumas talvez nunca saíssem, lembrando-o para sempre o quanto foi sujado por aquelas pessoas; sujaram tudo em si, seu corpo, suas memórias, sua mente, tudo se tornara um turbilhão de sentimentos sufocantes.
All Might o acompanha até o quarto, onde o moreno dormiria. Deita-o na cama e deseja boa noite, mas não sem antes ter certeza de guardar à chaves tudo o que Aizawa poderia usar para ferir-se.
—All Might.
—Pode me chamar de Toshinori, Shouta-kun. –Afirma com um sorriso doce nos lábios, ele já estava de pé ao lado do interruptor, prestes a apagar as luzes.
—Toshinori, –Ele abaixa o olhar, envergonhado. A cama era grande demais, provavelmente por causa da época em que o loiro era o tempo todo musculoso, ocupando assim um grande espaço. –se você quiser pode dormir aqui. –Ele mostra o grande espaço sobrando, de fato tinha uma queda pelo loiro, mas não era isso o que pesava pela sua mente naquele momento, não queria obrigar o outro a dormir no sofá ou no chão por culpa sua.
—O quê?! –A face corada que passa a exibir, somado aos olhos arregalados e o queixo caído, revelava o que o loiro tinha entendido com a fala do moreno. Inúmeras coisas impróprias passam por sua mente.
—Não é pra isso, seu idiota! –Sua face também ganha uma coloração avermelhada. Diz isso ao mesmo tempo em que gesticula com o braço, logo se arrependendo por este estar doendo em demasia. –Não precisa dormir onde não é confortável por culpa minha. –De fato o moreno se sentia culpado por isso, grandes olheiras se destacavam no rosto do loiro, este devia estar exausto depois de um dia de trabalho, mas mesmo assim estava ali, de bom grado o ajudando.
—E você não precisa se preocupar com outras coisas agora fora você mesmo. –Diz em um tom de “irmão mais velho” que pela primeira vez era presenciado pelo moreno.
Após uma longa discussão, –pelo menos foi longa ao ver dos dois homens exaustos– ambos decidem que All Might dormiria também ali no quarto, porém não na cama, mas sim no colchonete logo ao lado. Toshinori, ainda durante a discussão, percebe como seria melhor se dormissem no mesmo quarto, não tinha um sono pesado, logo se o outro se levantasse durante a noite, tinha mais chances de acordar e ver o que ele queria, ou evitar que fizesse algo perigoso.
Aizawa encara a lua pela janela ao seu lado, o orbe luminoso já estava distante no céu então, não sabia ao certo quanto, mas estava bem tarde. Eles se deitam para dormir, como estavam exaustos, um logo pensa que o outro dormiu, mas ambos estavam enganados, o moreno não conseguia parar de pensar em tudo o que se passou apenas naquele dia em questão, vendo em flashes todos os acontecimentos em sua mente; enquanto All Might, escondendo sob os lençóis, mexia no celular, mais especificamente mandava mensagens de texto para outro loiro.
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Hizashi tinha decidido aceitar o que All Might tinha dito “Nós temos que conversar”, muito provavelmente o outro o chamaria de algum modo, então finalmente se dirige até a própria casa, onde finalmente poderia trocar aquela muda de roupas. Ele toma um banho rápido e se veste apenas com uma calça de moletom, ao sair do banheiro logo percebe que o celular vibrava sobre a cama. O loiro praticamente se joga sobre a superfície macia para agarrar o aparelho, e começa a ler as mensagens.
Yagi Might (03:49): Present Mic, está aí?
Yagi Might (03:50): … Certo; assim que ler isso gostaria que me dissesse o que diabos fez com Eraser.
O quê? –É só o que Hizashi tem tempo de pensar antes de ser enviado para ele o que mais temia.
Yagi Might (03:50): Acredito que Aizawa-kun gostaria de não vê-lo por um tempo.
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