(In) quebrável
3 Capítulo 2
Notas iniciais

Mesmo que estivesse escuro, estava claro. Aquela cidade movimentada, mesmo tarde da noite, esbanjava suas luzes aos poucos ainda acordados para observá-las. Porém, isso acontece apenas às ruas movimentadas.
Nos becos estre casas de festa e baladas, ou restaurantes e shoppings, a escuridão se escondia da luz. Reinando eternamente naqueles lugares onde ninguém em sã consciência se arriscava a passar durante a noite, pois desde sempre, o ser humano sabe: “Coisas ruins acontecem no escuro”.
Desse modo, Aizawa não se surpreende quando repentinamente ouve uma gritaria nas ruas atrás de si, apenas se vira na direção do som, sendo tirado de seus devaneios que há muito se perdera. Ele não espera outro grito para agir, corre até o lado oposto do prédio, pulando para sua parte mais alta, com a ajuda das faixas brancas em seu pescoço, para conseguir enxergar o outro lado do prédio.
O moreno usa algumas das faixas para se segurar na base do para raio, de modo que não o derrubasse com seu peso. A garota gritava a plenos pulmões com apenas um vislumbre de esperança, os marmanjos puxavam despudoradamente suas roupas, rasgando-as em vários pedaços.
—Socorro... –Suas preces já não estavam escandalosas como antes, as lágrimas incessantes junto ao nojo, formando uma sensação ruim em sua garganta. Não tinha mais forças para lutar, o que antes apenas excitava ainda mais ou homens.
—Não há nenhuma agência nas redondezas, princesa. Não podia ter escolhido lugar e horário melhor! –Exclama o loiro oxigenado de queixo largo, era o mais alto de ambos, seu porte físico podia ser comparado ao de All Might ou Endeavor. Ele segura o rosto da jovem com ambas as mãos e lambe sua bochecha enquanto a fitava nos olhos, o mais puro medo podia ser visto nos olhos da menina.
Repentinamente, o loiro se sente ser esmagado por algo que caíra sobre si. Aquele que estava atrás da garota, se assusta com o som alto, ele ergue o olhar para onde viera o estrondo, recebendo um chute certeiro no maxilar.
—Mas que merda...? –O loiro oxidado questiona sem saber o que o atingiu, o forte impacto que recebera teria sido o suficiente para desmaiar um humano normal. Aizawa ativa sua habilidade, impedindo que qualquer um de ambos pudesse fazer algo, seus cabelos ficam para cima, assim como as faixas de seu pescoço, que usa para prender os dois marginais.
Tudo acontece em um instante, o loiro e o mais magro, não tiveram tempo para sequer pensar em reagir. No meio da confusão, a jovem, sem saber ao certo o que acontecia, sente seus joelhos cederem, se permitindo ficar ali caída no chão imundo daquele beco, tentando acompanhar com os olhos o que acontecia. Quando tudo termina, apenas então consegue visualizar com perfeição a imagem negra que antes era apenas um vulto pulando de um lado para o outro, acertando golpes certeiros e sem exageros. Era um homem de roupas completamente negras, assim como seus cabelos que apontavam aos céus enquanto encarava os desertores, não conseguia enxergar seus olhos, pois aquele que a salvara estava ainda de costas para si, e também graças ao óculos amarelo que esconde seu rosto.
Aquele que levara um chute no queixo estava desacordado há alguns metros da jovem, enquanto o outro, devolvia o olhar ameaçador que sabia ser direcionado a si pela figura de vestes negras. A menina não sabia o que fazer, não sabia se corria ou agradecia, se perguntava seu nome ou gritava; se limitando a continuar observando ao que acontecia a sua frente.
—Olá. –Diz repentinamente o loiro. –Posso saber o nome do herói que me derrotou? Nunca ouvi falar de alguém suspeito como você. –Sua fala era tranquila demais naquela situação, onde geralmente os aprisionados buscavam de todas as formas serem soltos, na marra, ou na conversa, até mesmo propina. Mas aquele homem apenas o encarava complacente enquanto falava consigo.
—Você não tem vergonha de fazer algo assim? Ainda mais a uma jovem com idade pra ser sua filha? –Aizawa ignora a fala do outro ao mesmo tempo que desativa sua habilidade, não aguentava mais ficar com os olhos abertos, andando até a jovem assustada. Pelo que o moreno julgou ser instinto, a colegial se afasta de si o tanto que se aproximou.
—O quê? –Ele julga ter entendido errado, aquele herói tinha mesmo ignorado sua pergunta? A figura negra retira seus óculos, fitando a jovem que tivera suas roupas rasgadas, ele próprio põe-se a tirar o macacão negro que sempre traja no trabalho. Ela se afasta ainda mais e com os olhos arregalados, tendo uma ideia errada do que ele faria. Aizawa joga a roupa para a menina, que o encara desentendida, ficando agora apenas com uma regata negra e a calça que usava.
—Vista-se, não pode andar por aí assim. –Ela nem se lembrava do estado que se encontravam suas roupas, olhando a si mesma, sente as lágrimas ameaçarem cair de seus olhos. Estava toda à amostra, apenas filetes do que um dia foi seu uniforme ainda a cobriam, além de sua roupa íntima. No mesmo instante ela se veste do macacão que obviamente ficara grande demais em si, tendo que dobrar várias vezes a barra da calça e das mangas. –Ótimo, agora vai pedir ajuda. –Assim ela o faz. Se levanta em um sobressalto, correndo para longe dali.
—Acho que me enganei. –Começa a recitar o loiro quando Eraser se dirige ao desmaiado, verificando se de fato estava inconsciente. –Te conheço sim, te conheço bem demais na verdade. Aizawa Shouta. –Seu nome é dito de forma provocativa, ninguém que o conhecia como herói sabia seu verdadeiro nome, fora pessoas específicas. Na verdade não costumam conhecer nem mesmo seu nome de herói. –Ou deveria te chamar de Eraser Head, já que está no trabalho? –O olhar de estranhamento lançado a si o faz soltar uma gargalhada alta. Sua voz intensa parecia ecoar naquele espaço apertado.
Aquela figura escandalosa e atlética o lembrava vagamente de alguém, mas por algum motivo, não sabia ao certo quem. Definitivamente não via aquela pessoa há muitos anos, talvez até uma década, então como diabos ele o reconhecera?
—Infelizmente não vamos poder conversar muito.
Aizawa sente uma aproximação às suas costas, devia ter visto se o mais magro ainda estava desmaiado, mas sua dúvida acabara de ser sanada. Ele se vira para trás ao mesmo tempo que ativa sua habilidade, esperando ver obviamente o companheiro daquele que fora amarrado por si, talvez prestes a ataca-lo, mas ali, bem próximo a si, encarando-o com os olhos esverdeados exalando decepção, estava Hizashi Yamada. O herói ergue uma sobrancelha, desconfiado, Mic não podia estar ali. No entanto, no mesmo lugar que caíra quando o acertara com um chute, estava o mais baixo, inconsciente.
Uma ilusão? —Se pergunta Eraser. Seus poderes não funcionariam ali, se aquele loiro de fato o conhecia, já devia tê-lo vendado, impedindo-o de usar sua habilidade mesmo que inconscientemente na “realidade”.
—Shouta, –A forma fria, completamente inibida de sentimentos na voz daquele que ainda o encarava com seus olhos verdes opacos, dá um calafrio na espinha do moreno. –você é nojento. –Aizawa forma uma parede em volta do coração, sabia que nada daquilo era verdade, Hizashi nunca falaria consigo daquela maneira. –Fingiu ser meu amigo for all this time, why?
—Nunca fingi ser seu amigo. –Se vê respondendo, ele estala e morde a língua, devia apenas ignorar, ilusões não duram muito tempo.
De repente, um soco certeiro na boca de seu estômago. Fora mais rápido do que conseguiria desviar, com o impacto violento, o moreno se afasta abraçando a barriga, sentia que podia vomitar a qualquer momento, mas luta contra isso. Uma gargalhada se faz presente novamente atrás de si, o outro loiro voltara a rir.
—Eu lembro de como você sempre foi coleguinha do Hizashi. Mas fingir ter sido amigo dele esses anos todos quando na verdade o via com outros olhos? Cruel, cara. –O sorriso sádico em seu rosto somado a sua fala autoexplicativa, faz Aizawa lembrar. Eram da mesma turma na UA no primeiro ano, pois no segundo o outro foi expulso da escola ao ter quase matado outro aluno, não se dera o trabalho de gravar o nome deste.
—Como isso pode ser considerado cruel? –Ele lança suas faixas naquele que ainda sorria, tampando sua boca para que não mais o enlouquecesse.
—Você ficou ao meu lado esses anos todos, fingindo ser meu amigo, fingindo me ajudar, nós nos chamávamos de irmãos. E você tem esse sentimento nojento por um irmão? –O moreno percebe o soco que seria direcionado ao seu rosto, desviando para baixo ao mesmo tempo que dá uma rasteira no loiro, fazendo-o quase cair, equilibrando-se pelos cotovelos.
Aquilo tinha que ser uma ilusão, tinha que ser uma ilusão. Mas Aizawa se via começando a concordar com o que dizia. O loiro se levanta em silêncio, voltando a se aproximar do moreno com um olhar amoroso, contrastando com a imagem rude que exibia há poucos segundos. Aquele falso Mic em tanto se assemelhava àquele que ainda amava, que mal poderia diferenciá-los, ainda mais com o olhar carinhoso que agora exibia para si.
A passos calmos, ele fica a apenas um palmo de distância, Eraser se mantém atento aos movimentos do outro. Sabia que a qualquer momento seria atingido pelo outro, mas isso não acontece, sabia que voltaria a dizer coisas horríveis para si, mas isso não acontece; repentinamente o loiro que estava em suas vestes casuais, beija sua testa.
O moreno sente seu peito amolecer, o loiro sempre fazia isso durante a escola quando ficava nervoso. Aquela ilusão não estava sendo tão ruim apesar de tudo, já ouvira falar de pessoas que saíram completamente traumatizadas após serem presas em ilusões pesadas, não seria seu caso, ou pelo menos é o que achava.
Hizashi segura seu rosto de forma carinhosa, com as duas mãos, depositando um beijo calmo em seus lábios. Sabia que devia se afastar, sabia que nada daquilo era verdade, mas o simples sentimento de ter aquele que ama, a corresponder seus sentimentos, era demais para alguém apaixonado. Se deixando levar pelo momento, Aizawa o abraça pelos ombros, como resposta, Mic aperta sua cintura e o empurra de encontro à parede, sem deixar de beijá-lo. Beijo esse que deixara de ser um contato inocente, um mero selar, e passara a ser um encontro de línguas desesperadas.
A mão antes carinhosa para com seu corpo, passara a arranhá-lo com mais força que o necessário, fazendo sua pele arder onde começaram a surgir linhas avermelhadas, algumas até mesmo ameaçavam sangrar. De repente, um soco, logo abaixo de seu olho esquerdo, mas antes que pudesse dizer algo, tem seus lábios capturados novamente. A mão do outro passa a explorar cada pedaço de seu peito, despudoradamente.
Com a mesma velocidade com a qual se aproximou, Mic se afasta com uma expressão do mais puro e único nojo.
—Você fede, nojento. –Aizawa cerra as sobrancelhas, agora definitivamente estava irritado. Ainda buscando recuperar o ar que lhe faltara, ouve uma voz antes silenciada atrás de si.
—Não era isso que você queria? –O cinismo da voz era palpável. –Trocar saliva com Hizashi Yamada, não era isso que você queria? –Repete enquanto se aproximava, as faixas que antes o prendiam estavam rasgadas ao chão e seus braços reluziam com a luz branca de algum poste ali perto; individualidade de fortificação, isso seria um problema.
Repentinamente o loiro que não se lembrava o nome avança na sua direção com a mão em punho, porém, quando ia desviar tem seus braços presos para trás por Mic que voltara a encará-lo de forma fria, como quando chegara. O soco na sua cabeça foi forte demais, seus sentidos apagam por um instante, achava que ia desmaiar. Os dois loiros aproveitam o tempo que teriam que o moreno não poderia reagir para prendê-lo com as faixas brancas de seu pescoço.
Com múrmuros incompreensíveis tentava dizer algo, talvez para que parassem, nem ele próprio sabia ao certo o que pretendia, óbvio que não iam parar.
—_______________________________________________
Aizawa acorda, sua cabeça doía como se a tivesse batido contra uma parede, definitivamente não devia ter bebido tanto. Ele coça os olhos e levanta minimamente a cabeça do travesseiro, logo percebendo que não teria forças para levantar naquele momento. Decidido a dormir por mais algumas horas, vira para o lado, se surpreendendo ao encontrar certo loiro de frente a si há poucos centímetros de distância.
O moreno se afasta em um solavanco, o que eles tinham feito? Não se lembrava de quase nada daquela noite. Ele levanta a coberta, logo soltando um suspiro aliviado, não estava nu, pelo menos não por completo. Certamente se tivessem feito algo teria dormido da mesma forma que acabassem: Imundo, fedendo a gozo e completamente nu.
Logo percebe que suas roupas de cama estavam úmidas, se lembrando de que deitara logo após o banho, sem se secar adequadamente. Agira como um jovem inconsequente, podia ter ficado doente por dormir daquele jeito em uma noite fria, mas naquele momento, mal se importava.
Aquele que estava apaixonado há tempos estava bem ao seu lado, ressonando baixo com um ar tranquilo pairando sobre si. Apenas então se lembra do motivo pelo qual tinham saído, não podia crer que ficaram tão alterados que se esqueceram do mais importante. Queria acordá-lo, naquele instante mesmo, obriga-lo a colocar para fora o que tanto queria dizer, e ele próprio tanto queria ouvir, mas se o outro não estivesse também de ressaca, e falasse com seu tom de voz costumeiro, definitivamente o expulsaria de sua casa.
Resolve por fim por deixa-lo dormir, deixa a superfície aconchegante e quente, rumando ao banheiro, precisava colocar para fora o álcool ingerido. Quando terminada sua higiene matinal e finalmente veste uma roupa confortável para ficar em casa naquele frio, e pós o ritual da ressaca, –que consistia basicamente em tomar dois remédios para dor de cabeça e colocar o café para fazer. –ele se senta no sofá da sala, com apenas a caneca cheia do líquido negro e quente, sem qualquer açúcar ou adoçante, como companhia.
Não saberia precisar por quanto tempo ficou ali, perdido em pensamentos que variam desde o loiro no quarto ao lado aos alunos de sua classe, que esperava que estivessem aproveitando as férias depois daquele ano terrível no colégio. Por algum motivo, sua mente chega à All Might.
Depois dos vários problemas que rondaram os alunos, eles que ambos achavam que nunca poderiam se dar bem, passaram a ser bons amigos. Esperava que o loiro estivesse bem, muito provavelmente, durante as férias, voltara ao seu trabalho de símbolo da paz, sendo reconhecido e admirado por todos, o famoso herói número um. Deixa um sorriso escapar, não entendia como se pode querer ser famoso, ter que lidar com a mídia e o público era uma dor de cabeça para ele, mal podia imaginar para os heróis famosos.
—Sorrindo assim do nada, tá pensando in me por acaso, Eraser? –Por estar perdido em seus pensamentos, nem percebe quando o outro chega à sala. Sua voz estava baixa, Aizawa agradecia aos céus por isso, seus olhos estavam semicerrados e o rosto torcido em uma expressão de dor, também devia estar com dor de cabeça.
—Tem dorflex na cozinha, convencido. –O loiro vai até a cozinha procurar aquilo que o salvaria da dor. –E não, estava pensando em outro loiro. –Toma a última golada do seu café, que agora já estava morno.
Hizashi volta da cozinha com o remédio e um copo com água na mão, antes de toma-lo ele faz um muxoxo de desagrado.
—Vou ficar com ciúmes assim.
—Cala a boca. –Sua resposta irritadiça faz o outro voltar a rir, ele finalmente toma o remédio e vai devolver o copo à cozinha.
Quando o loiro some de sua visão, o moreno se permite cobrir o rosto com as mãos. Sentia a face quente e sua respiração estava pesada. Definitivamente odiava o poder de Present Mic sobre si.
Fale com o autor