(In) quebrável
6 Capítulo 5
Notas iniciais

Aizawa deixa o apartamento, querendo não apenas fugir do clima tenso que deixara para trás, como também fugira do nível que poderia chegar aquela discussão. Tinha plena consciência de estar agindo como um adolescente impulsivo, e não havia nada que odiava mais do que pessoas agindo desse mesmo modo, decidindo então por dar uma volta para aliviar o estresse, colocar os pensamentos em ordem, e talvez, chegar a alguma conclusão sobre o que dizer ao loiro.
Era cedo quando o moreno dá início a sua caminhada. Não tinha comido nada pela manhã, mas mesmo assim, não sentia fome, só o que sentia era aquela vontade irreal de voltar ao apartamento e dizer que tudo fora uma brincadeira, que o outro podia continuar sendo aquele mesmo velho amigo, mas Hizashi não era idiota, pelo menos não esse tipo de idiota, nunca cairia em algo tão infantil.
As ruas por onde passava em primeira instancia, eram calmas, trazendo apenas o som do caminhar lento de alguns idosos e o canto de poucos pássaros como melodia. Porém, logo chega à parte movimentada da cidade. Carros corriam de um lado para o outro, apressados, além de inúmeras pessoas nas calçadas rindo e conversando, mas ele não de fato se incomoda com a barulheira, só o que o incomoda é o encarar de várias pessoas sobre si.
Quando fora atravessar uma principal, se vê em meio há vários indivíduos, muitos que passavam ao seu redor o encaravam descrentes, ou até mesmo, julgadores. Sabiam quem era? Impossível, talvez apenas um ou outro, mas todos com certeza não. Fitando a si próprio, percebe o que encaravam. Não estava de pijama, mas as roupas que tinha colocado não eram definitivamente de sair, mas sim de ficar em casa assistindo algum filme. Uma blusa negra de manga, bem simples, uma calça igualmente negra de moletom e chinelos amarelos.
Faz um estalo com a língua, odiava ser o centro das atenções, mas odiava mais ainda hipocrisia. Há poucos metros de si estava um grupo de jovens com visual Kei, apenas outros jovens os encaravam e alguns pediam fotos, ninguém parecia de fato se importar. Mas ele, com roupas que todos ali também usavam, estava sendo encarado por quase todos que atravessavam aquela avenida movimentada. Estavam tão acostumados com o diferente, que o comum os chama a atenção.
Antes que o sinal abrisse, termina de atravessar a rua a passos calmos, abaixa a cabeça, evitando o olhar maldoso daqueles que ele próprio tem o dever de proteger, mesmo que custe sua vida. Para de prestar atenção ao que o rodeia, não saíra de casa cedo para ser julgado por pessoas que nem ao menos o conhecem.
Seus pensamentos se voltam ao loiro escandaloso que ainda devia estar em seu apartamento, também pensando sobre o que disseram um ao outro há poucos minutos atrás. Não deu qualquer espaço para o outro se defender, ignorou os argumentos de Hizashi, como se não tivesse esse direito.
Aizawa esfrega os olhos com os dedos, a dor de cabeça da ressaca não tinha passado, tentava colocar nisso a culpa por ter agido daquela maneira, quando sabia que na verdade, mesmo que estivesse em pleno estado, agiria da mesma forma. Perguntava-se o que ele estaria fazendo, estava irritado pelo modo como o deixara sozinho sem mais nem menos? Na verdade, devia estar irritado com a situação em geral. Sabia da possibilidade do outro nunca ter o visto como algo mais que um amigo, talvez um irmão; mas quando teve todas as esperanças –que cultivara sem se dar conta– dilaceradas, acabara perdendo a cabeça. Precisava se desculpar por isso, mas não naquele momento, não naquele dia.
Um som alto o chama a atenção, eram aplausos, logo percebe um grande grupo de civis amontoado ao redor de um certo loiro chamativo, com seu invejável porte físico e sorriso brilhante; All Might. O colega de trabalho obviamente não percebe sua presença tão mínima em meio a tantas pessoas, mas ele não tinha como deixar de notar o outro. Dava entrevista a vários repórteres ao mesmo tempo e ainda tirava fotos. Há poucos metros dali um grupo de três pessoas– dois homens e uma mulher, todos com mutações que faziam suas cabeças completamente pontiagudas para cima, como se usassem um chapéu de broca escalonada na cabeça– eram empurrados para dentro de uma viatura da polícia.
Por algum motivo que Aizawa não saberia explicar, esquece os problemas que tinha naquele momento. O simples e contagiante sorriso daquele loiro era o bastante para fazer aquela frase, mesmo sem ser dita, aquecer os corações de quem apenas o observa: “Não se preocupe, eu estou aqui!”. Ele dá as costas à multidão e ao colega de trabalho, mas não sem antes perceber o aperto no peito que sente repentinamente, não podia crer nisso; Aizawa cobre o rosto com a mão, incrédulo, os olhos arregalados, em seguida leva a mão ao peito, seu coração estava mais acelerado que o normal; não podia crer que acabara de perceber seu padrão.
Tá brincando com a minha cara que eu tenho um fraco pra loiros! —Pensava o moreno, mas ele tenta deixar isso de lado, já estava tendo problemas demais com um loiro em particular.
Por várias horas ele se mantém caminhando, chegara a partes da cidade que nunca antes tinha ido, mas agora, rumava de volta a seu apartamento. Seus pés doíam como se facas fossem enfiadas em seu calcanhar, sempre que este toca o chão. Certamente não recomenda a ninguém andar o dia todo de chinelos. Já estava entardecendo naquele momento, só o que pensava era se o dono dos mais belos olhos esverdeados já tinha deixado sua casa. Mesmo tendo tirado o dia inteiro para colocar em ordem seus pensamentos, não queria ter de encarar Mic tão cedo.
Enquanto caminhava com sua cabeça baixa, evitando os olhares alheios, percebe que começara a chover. Estala novamente a língua, irritado, principalmente por estar de chinelo, logo molharia os pés por completo naquela água suja. Em pouco tempo, a chuva engrossa, muitas pessoas corriam para abrigos improvisados para não se molharem, mas ele próprio mal se importava, já estava molhado a essa altura de qualquer forma.
Em meio a pensamentos conflitantes, ao mesmo tempo em que tentava ignorar ao máximo o mundo a fora, um som baixo e contínuo chama a atenção de Aizawa. Miados. Ele varre os olhos toda a calçada, dos dois lados daquela rua pouco movimentada, sem encontrar nada. Decide então por seguir o som, a cada passo, os miados pareciam mais altos e agudos, até que finalmente, sobre as escadas de um restaurante fechada, tentando inutilmente se proteger da chuva debaixo do mínimo telhado que cobre a entrada, estava um gatinho completamente negro de patinhas brancas.
Se tinha algo que Shouta afirmava gostar com toda certeza, isso seria gatos, então não é grande surpresa quando, sem nem ao menos pensar direito sobre, o moreno pega o pequeno animal nos braços, sentindo imediatamente o filhote se acalmar, porém, ainda tremia de frio. Se encanta com a calmaria que ronda aquele pequeno animal, não conhecia aquele que o pagara no colo, mas mesmo assim, se mantinha quieto, como se soubesse que não o faria qualquer mal.
Aizawa olha de um lado para o outro, não se lembrava de aonde, mas sabia que tinha alguma loja de animais ali por perto. Anda alguns minutos a procurando, tentando proteger o gatinho da chuva, mantendo-o sempre sob si. Finalmente a encontra.
O sino na porta avisa a entrada do cliente, chamando assim a atenção da senhorinha de no máximo um metro e cinquenta e grandes olhos castanhos.
—Meu deus! Entra, entra, essa chuva tá muito forte, menino. –Ele pede, afirmando também que ele poderia ficar ali enquanto a chuva não passasse. O moreno se limita a assentir com a cabeça, não tinha reparado, mas conhecia uma outra figura que ali estava, figura essa que o acompanha com os olhos e o segue até a sessão de ração para gatos.
—Não sabia que tinha gatos, Aizawa-sensei. –Conhecia aquela voz, então nem ao menos precisava virar-se para se certificar de quem falara consigo.
—Não tinha até o momento, Shinsou. –Responde mostrando o filhote que se aninhara nos seus braços, ainda com os olhinhos bem abertos, porém alegre, brincando de puxar os fios de sua blusa. O azulado abre um curto sorriso, também adorava gatos.
Apenas então o garoto percebe algo, o professor estava acabado, suas vestes estavam extremamente molhadas, seus olhos exibiam olheiras mais fundas que as de costume, seu rosto estava pálido, estava em todos os aspectos, a mais perfeita definição de acabado. Se não conhecesse o moreno, nunca adivinharia ser um professor da UA e um herói profissional, assemelhava-se mais a algum pedinte. Não saberia dizer o motivo para sua avó sempre abrigar pessoas suspeitas da chuva.
—Aconteceu alg-? –Shinsou curta sua própria pergunta, não queria incomodar o outro mais do que já devia estar naquele dia em questão.
—O que disse?
—Não, não é nada. Se precisar de algo, é só pedir. –Apenas então Aizawa repara as semelhanças entre a idosa e o azulado, seus olhos eram completos opostos, mas o formato do rosto e a coloração do cabelo tinham alguma semelhança.
—Na verdade, –Só então o moreno percebe estar sem a carteira, não se lembrara até o momento que saíra de casa sem nada além das roupas do corpo. –preciso de alguma ração fiado... –Aquele definitivamente fora o dia escolhido pelo universo para envergonhá-lo.
Shinsou reprime uma risada que ameaça escapar de seus lábios, nunca imaginou que veria um professor em tal estado. Ele se afasta e conversa poucos segundo com a idosa, que ri enquanto o observa de longe e logo assente com a cabeça. O azulado se aproxima com um pacote de ração para filhotes.
—Aqui, por conta da casa.
Após muita negação por parte do moreno, que afirma que no dia seguinte o entregaria o dinheiro, e muita insistência por parte da idosa, finalmente Aizawa se vê obrigado a aceitar o presente, deixando a pequena loja de animais já sem qualquer sinal daquela chuva passageira no céu. Estava bem perto de seu prédio, conseguia vê-lo ao longe, só o que queria era entrar, dar comida ao gato, tomar um banho e se jogar na cama o mais rápido possível.
Então, ele sente seu sangue gelar ao ver um certo loiro sair do prédio. Ele parecia preocupado, possivelmente consigo, saíra sem celular afinal. Não sabia se seria uma boa ideia falar com ele naquele momento, não se sentia preparado o suficiente para isso, acaba então, mais por instinto do que pensamentos bem formulados; por esperar o loiro sair de sua vista para finalmente entrar. As chaves, assim como pedira, estavam atrás do vaso de planta do corredor.
De volta a casa, aquele dia fora longo, muito longo, mas se não fosse pelo animal que agora tentava pular de seu colo para explorar o novo ambiente, jamais saberia dizer se de fato aconteceu. Ele solta o filhote no chão, este passa a encarar tudo, se assustando com qualquer som diferente que ouvia. Aizawa abre o pacote de ração, colocando uma quantidade considerável em um pequeno prato de sobremesa, depositando-o no chão. No mesmo instante o gato sem nome pula ali, estava faminto. Delicia-se velozmente com a comida oferecida a si.
—Vai acabar vomitando tudo depois... –Comenta para si próprio, afagando de leve a cabeça do animal desesperado.
Só então se dá conta de algo, ficara o dia inteiro sem comer, mas mesmo assim, não estava com fome. Ele suspira, estava exausto, não aguentava mais pensar em Hizashi e em como reagiria quando o visse de novo. Ruma ao banheiro, deixando a porta aberta para o novo integrante da casa pudesse explorá-la por completo.
Chega disso, não aguento mais ter dor de cabeça com você, Hizashi. —Era o que pensava, mas logo, sem que pudesse controlar, seu pensamento pousa sobre outro loiro, um loiro de sorriso contagiante e olhos azuis elétricos. Aizawa cobre o rosto com as mãos, não podia estar tendo uma queda por All Might, este que fora uma inspiração para si quando surgiu na época que estava na UA ainda como aluno, e que agora era um colega de trabalho. Na verdade sim, podia. Nada iria acontecer mesmo, assim como com Mic. Ou pelo menos, é o que aceitou acreditar.
Terminando seu banho, o moreno vai até o quarto, ainda sem se vestir, procura pelo celular, encontrando-o jogado na cama. Tinha várias mensagens de Present Mic:
Hizashi (09:21): Shouta! Cadê você????? Volta pra casa logo!
Hizashi (09:21): Você nem comeu... Para de fugir de mim, a gente precisa conversar!
Hizashi (09:22): Ah, achei o seu celular, você largou em casa...
Hizashi (14:46): Eu sei que você não vai receber agora, mas MEU DEUS AIZAWA, EU TÔ PREOCUPADO, VOLTA LOGO!!!!!!
Hizashi (18:54): Você só pode estar brincando comigo...
Hizashi (19:35): Eu não sei direito o que eu fiz, mas me desculpa! Você sabe que eu sempre acabo fazendo besteira, só volta pra casa...
Hizashi (19:48): CADÊ VOCÊ?????
Hizashi (19:58): Tô indo te procurar.
Hizashi (20:12): AHÁ! VOCÊ LEU AS MENSAGENS, ENTÃO JÁ TÁ EM CASA! TÔ VOLTANDO AÍ, VOCÊ QUASE ME MATOU DO CORAÇÃO!!!!!!
Não, não! Não podia ver o outro naquele momento, não sabia quão perto Mic podia estar, então o moreno se traja com a primeira roupa limpa que vê, seu uniforme. Aquilo lhe dá uma ideia, poderia evitar aqueles pensamentos tendo uma boa noite de trabalho como no passado. Ou pelo menos, naquele momento lhe pareceu uma boa ideia. Não podia acreditar que estava fugindo do loiro como se tivesse cometido um crime, mas não se importava com isso, não conseguiria encará-lo naquele momento e não havia ninguém, nem mesmo o loiro, que poderia obriga-lo a isso. Faz um carinho no gato e o deixa sozinho, agradecendo aos céus a independência que gatos possuem desde novos.
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Enquanto sentia o vento gelado bagunçar seus cabelos e observava as luzes da cidade sob si, Aizawa se perguntava como conseguiria se afastar do loiro. Agradecia a preocupação, é claro, mas o que menos queria naquele momento era dar trabalho ao aparentemente ocupado até demais, herói número um, já estava se sentindo um estorvo o suficiente naquele momento para se tornar um ainda maior.
Além disso, naquele momento o moreno tentava de todas as formas esconder a ereção que ainda tinha no meio das pernas. Sempre odiara drogas –exceto pelo álcool– e acabou sendo drogado pelo tipo mais vergonhoso que poderia existir.
—Pode me deixar em casa, All Might. Está tudo bem mesmo. –Nunca foi um bom ator, tinha plena consciência disso. Mas dá o seu melhor, olhando para cima, vê as quase não aparentes orbes azuis, encarando-o complacente, mesmo sem dizer uma palavra sequer, sabia da preocupação que o loiro estava para consigo naquele momento. Ele desviava vez ou outra o olhar para se assegurar se pulava direito nos telhados.
—Aizawa, me deixa te ajudar, por favor. Pelo menos dessa vez... –O moreno não entende o significado daquelas palavras, mas sente que não precisava saber. Toshinori tinha se referido a invasão da liga dos vilões na UA, onde não pudera ajudar o amigo que se ferira até um estado crítico.
Eles chegam rápido graças a velocidade absurda do loiro, teria demorado um pouco mais em circunstâncias normais, mas naquele momento, estava com pressa para acomodar o outro de alguma forma. Enquanto isso, Aizawa não sentia os efeitos da droga passarem, na verdade, mesmo com o corpo ferido, não conseguia evitar as reações em seu corpo; sentia arrepios sempre que Toshinori ajeitava-o em seu colo, sempre que seus olhos se cruzavam, e sempre que sentia aquela respiração perto de sua nuca.
All Might deposita com cuidado o moreno no chão do apartamento, como se a qualquer momento, ele pudesse cair e quebrar por completo, mas isso obviamente não acontece, o moreno se limita a observar todo o cômodo de cor predominantemente pastel. Ao mesmo tempo em que o loiro corre pela casa a procura de algum sabonete que pudesse usar. Ele milagrosamente o encontra, era um presente de alguns meses atrás que esquecera de abrir, mas sabia ser um jogo de sabonete, shampoo e condicionador.
Volta rápido para a sala, Aizawa estava encolhido no sofá, mas não tinha qualquer atitude preocupante ou fora do normal, bom sinal.
—Aizawa, –Ele chama, recebendo apenas o olhar do outro como resposta. –você pode tomar um banho naquele banheiro. –Ele aponta para a primeira porta do corredor.
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