(In) quebrável
15 Capítulo 14
Notas iniciais

Hizashi finalmente sabia o que tinha acontecido, quem eram os culpados e aonde estavam, mas mesmo assim, suas mãos pareciam atadas, pois mesmo que fosse um heróis profissional, não tinha como convencer a polícia a prendê-los sempre provas. A melhor ideia que conseguiu ter foi ligar para Toshinori, de modo que convencesse o moreno a ir até uma delegacia prestar queixa e fazer alguns exames de corpo de delito, como foi algo extremamente recente ainda seria fácil fazê-lo sem ter que ouvir ladainhas dos policiais, como por exemplo: “E por que não veio antes?”; “Essa marca pode ter sido feito por qualquer um.”; “Tem certeza que foi ele?”.
Sabia bem que ser cético fazia parte do trabalho deles; afinal, somos todos inocentes até que se prove o contrário; mas ainda assim, não conseguia não se estressar.
Finalmente o loiro comia alguma coisa, durante muito tempo estivera apenas a base de cafeína e noites mal dormidas, mas após conhecer a identidade daquele que tanto maltratara seu melhor amigo, consegue pregar os olhos com maior tranquilidade. A embalagem de comida chinesa em suas mãos era devorada sem piedade, não tinha percebido, mas de fato estava faminto.
Enquanto comia, tenta uma terceira vez ligar para o detentor do One for All, não obtém sucesso. Perguntava-se o que diabos o outro loiro estava fazendo para simplesmente ignorar suas ligações e mensagens dessa forma, mas não dá muita bola para isso no momento, pois mais alto que sua racionalidade, gritava seu estômago.
Sua comida termina em um instante e junto dela sua fome se vai. Por instinto, Mic tenta ajeitar os óculos com os dedos, logo lembrando que este não está mais consigo. Não lembrava onde o tinha deixado, mas suspeitava de ter sido no apartamento de Aizawa quando saíra com pressa.
Aizawa... Que saco, pra que você foi sair daquele jeito?! —É só o que ele consegue pensar, se o moreno tivesse encarado a discussão que estavam tendo ao invés de fugir de si, nada disso teria acontecido. Mic sabia o quanto este modo de pensar é errado e sem sentido, afinal não havia como o moreno previr que isso aconteceria, mas na mente perturbada daquele que estava lidando com toda a situação sem um ombro para se apoiar, era perfeitamente plausível.
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Aizawa o encara paciente, aguardando o que quer que o outro fosse conta-lo. Porém, ao perceber o nervosismo que All Might exibe, suas sobrancelhas se franzem em confusão.
—Pode contar, Toshinori. –Aqueles olhos azuis elétricos encaravam o homem a sua frente com pesar, os mesmos pensamentos que tivera até o momento voltando a atormentá-lo, não sabia que reação o outro teria frente a isso tudo, frente a lembrar daquela situação toda.
—Para te contar, eu preciso que você lembre daquilo. –Sua voz sai de modo firme.
—Daquilo...? Seja mais específico. –O moreno cruza os braços, sustentando o contato visual. O loiro engole em seco e desvia o olhar para um ponto aleatório da cozinha. Ao perceber o nervosismo de Toshinori, Aizawa entende à que ele se referia, ele suspira e continua. –Certo, já entendi. Vá direto ao ponto.
All Might dá um longo gole no seu energético, ele se permite passar alguns segundos sem dizer nada, não pensava em nada em específico, apenas encarava sem razão alguma uma gota escorrer pela superfície metálica da lata em sua mão e cair no piso. Quando esse trajeto é terminado, ele ergue a cabeça. Sabia perfeitamente que estava sendo prolixo, mas sentia que de alguma forma aqueles pequenos segundos sem dizer nada conseguiriam dar-lhe novamente uma rajada de coragem que agora tanto precisava.
—Sabe, não foi o Hizashi quem fez aquilo com você. –Aizawa arregala os olhos e franze as sobrancelhas.
—O quê?
—Você não entende como ele poderia fazer isso justamente porque não foi ele. Eu também achei que ele tivesse feito algo contigo antes de eu chegar, então aquele dia ele foi lá em casa falar comigo, se lembra? Eu ainda não acreditava nele porque... estava muito aflito com o que tinha acontecido. Mas quando você ainda estava no hospital, Yamada apareceu lá para conversar comigo e explicar o que descobriu. –Enquanto ouvia, as sobrancelhas de Aizawa não se suavizam por um segundo sequer, ouvindo atentamente as palavras que deslizavam para fora dos lábios do loiro, tão treinados em discursar, mas naquele momento tremiam de nervosismo. –Quem fez aquilo com você, foi o cara que naquele mesmo dia você achou que eu fosse ele disfarçado.
Nesse momento, lembranças voltam à mente do moreno.
“—Não falei pra você não vir?! –All Might repentinamente assume sua forma heróica, sem se importar se o loiro se machucaria com isso o empurra para fora e bate a porta. –Calma Aizawa, está tudo bem. –Ele tenta se aproximar do moreno, que assustado, continuava encarando o lugar onde estava Hizashi. Quando finalmente toca o ombro alheio, em um piscar de olhos seu braço estava torcido para trás, tinha baixado a guarda. –Shouta?
—Por que ele estava aqui?! Quem é você? Ayato? Tá tomando a forma do All Might agora, é?! –Ele aperta o braço para cima, de fato a mente do moreno estava distorcida, mesmo sendo muito mais forte, aquilo estava machucando o herói número um.”
Realmente disse aquilo, realmente achou que fosse Ayato disfarçado. Por quê? Por que citou esse nome? Ele logo se lembra, suas memórias estavam confusas, lembrava-se de um Ayato naquele dia, socando seu rosto e imprensando sua cabeça contra a parede, mas também recordava perfeitamente de Hizashi fazendo o mesmo, de alguma forma, com o passar dos dias, para aquilo fazer um mínimo de sentido para si, apagara completamente a presença daquele loiro que há muito tempo nem ao menos se lembrava de que existia.
—Mas... eu vi-. –Sua fala é cortada pelo loiro.
—O Yamada que você viu era só uma ilusão.
Novamente cenas voltam à sua mente, ele sabia daquilo, então por que precisava de que outra pessoa o dissesse? Lembrava-se perfeitamente de perceber que estava dentro de uma ilusão, até porque não fazia o menor sentido Hizashi repentinamente aparecer naquele beco distante, no meio da noite, e ainda o tratando daquela forma sem razão.
Toshinori se assusta com a ação do moreno, chegando a soltar uma exclamação em resposta. Aizawa dá um forte tapa no próprio rosto e mantém a mão ali, escondendo os olhos.
—Eu sei disso... Ou melhor, sabia. Por que eu esqueci disso?! Toshinori... eu sou um péssimo amigo. –Enquanto falava, Aizawa continuava com a mão escondendo o rosto. Assim que pronunciou seu nome, ele recolhe todo seu corpo, abraçando os joelhos e escondendo o rosto com ambas as mãos. O tom triste de suas palavras faz o loiro perceber o quanto a qualquer momento poderia começar a chorar.
—Não! Você passou por uma situação terrível, por isso...
—NÃO! –O grito extremamente alto de Aizawa, somado ao seu encarar imponente; mesmo que naquela posição não parecesse; de cor carmesim graças à ativação de sua habilidade e o pequeno fio de lágrimas que surgiam em seus olhos, faz All Might se calar. –Nos últimos dias a ÚNICA coisa que eu fiz pro Mic foi ser um filho da puta. Eu ignorei o que ele respondia quando disse estar apaixonado por ele, –Isso que em circunstâncias normais certamente faria o peito do loiro se torcer em ciúmes, não tem qualquer efeito visto a situação na qual se encontravam, visto o desabafo sincero que era direcionado para si. –fiquei o dia inteiro fora de casa e acabei deixando ele preocupado, o evitei como uma criança faria quando só o que ele queria era conversar comigo, e por fim, ainda acreditei que ele faria uma coisa dessas comigo, eu, de todas as pessoas, acreditei que meu melhor amigo faria algo assim com alguém. –Seus cabelos apontados para cima balançavam sempre que um soluço escapava da garganta do moreno, que encarava fixamente os olhos azuis, que em resposta, apenas devolviam o olhar de modo assustado, não sabia responder àquilo.
Certo instante que não sabia precisar ao certo quando, Toshinori sente o aparelho em seu bolso vibrar incessantemente, mas não se importava, naquele momento não lhe interessava nem um mínimo quem poderia estar ligando para si, só o que o importava era encontrar palavras, gestos, qualquer coisa que pudesse naquele momento ajudar o moreno que abria seu coração.
—Ele merece alguém melhor que eu mesmo. –Percebendo a mínima demora que o loiro teve para dizer algo, Aizawa continua. Finalmente interrompe o contato visual que tinham, enxugando seus próprios olhos molhados com a manga de sua blusa e abrindo um fraco sorriso, o sorriso mais falso que já se forçou a expressar. Nesse momento seus cabelos abaixam novamente e seu olhar volta ao negro opaco que tantos alunos temiam, e os loiros tanto admiravam.
—Eu não sei dessas coisas, nunca fui muito próximo do Hizashi.
O que eu vou dizer?—Se pergunta ao loiro enquanto entregava ao moreno o melhor discurso que possuía no momento.
—Mas devo te garantir que ele não seria seu melhor amigo por tantos anos sem razão.
Ãn? O que eu tô dizendo?
–Para mim é nítido o quanto ele te admira.
Para com isso... você não quer que ele fiquem juntos.
—Sempre que vejo vocês juntos sinto um pouco de inveja,
E ciúmes, mas não tinha me ligado nisso até pouco tempo.
—até porque não tenho nenhuma amizade que tenha durado tanto tempo.
—Eu sei o que você está fazendo sem pensar. –A fala repentinamente firme de Eraser faz de novo o loiro se calar. –E pare. Isso vai te fazer mal. –Finalmente o moreno se levanta do móvel onde até o momento se encontrava sentado. Ele desaparece da vista de Toshinori, rumando ao corredor do apartamento.
A esta altura All Might achava que já sentiria como se um peso fosse tirado de suas costas, porém, o que realmente acontece é o contrário. Agora que disse aquilo tudo, que o outro finalmente lembra-se que o outro loiro não é o desgraçado que passou a crer, o que aconteceria? Aquela paixão que tinha nutrido por Mic durante anos voltaria com o passar do tempo? E como ficaria a si próprio? Como lidaria com isso? Lidaria? Simplesmente aceitaria pacientemente o outro loiro tomar seu lugar que até mesmo ele próprio acreditava que Mic merecia mais que si?
Em uma golada o loiro dá fim à lata de seu energético e se dá conta de algo. Quem estivera ali esse tempo todo com Aizawa foi ele, mas durante anos esses papel fora do outro, não passava de um mero intruso nesse meio, um simples personagem secundário atrapalhando a história de amor dos dois protagonistas que foram obrigados a se afastar, como Romeu e Julieta, mas que no fim, morrem de amor um pelo outro, e essa história se assemelhava mais ao conto de Shakespeare do que gostaria de admitir.
Mas não se importava. Até mesmo o símbolo de esperança da humanidade tem o direito de ser egoísta às vezes. Então naquele momento, Yagi Toshinori define que não se permitiria ser um simples personagem secundário, daria seu melhor para conquistar o complicado moreno.
Enquanto isso, Aizawa tinha caminhado até o banheiro. Ele abre a torneira às pressas e joga a água fria no rosto, havia muitas coisas que gostaria de ter falado à All Might naquele momento ao invés de apenas “Vai te fazer mal.” desse modo, sem nenhum comentário positivo, dava a entender que isso faria mal à apenas o loiro, como se de fato pudesse ter algo com Hizashi, mas isso já tinha sumido de sua mente, não apenas pelos sentimentos quanto à Toshinori terem despertado fortemente em si, mas também por ter certeza que Mic não o via dessa forma, ele próprio tinha lhe dito isso.
Mais água no rosto, estava conseguindo se acalmar dessa forma.
Por que não tinha sido mais específico com o loiro? Por que disse apenas “Vai te fazer mal”? Ao sentir novamente o rosto esquentar, mais um tanto de água atinge seu rosto já gotejante. Ficara com vergonha de falar sobre os sentimentos que sentia por Toshinori, mesmo que este tenha lhe dito aquilo: “Eu te amo”.
All Might se levanta e põe-se a finalmente limpar por completo as marcas que ainda estavam encrustadas pelo chão da cozinha. Os pensamentos pessimistas não deixavam por um momento sequer à mente do loiro, atormentando-o com inverdades a cada segundo enquanto o moreno não voltava. No entanto, quando este retornou com o celular em mãos, cuspindo aquelas palavras de significado simples, porém que Toshinori ficaria várias horas tentando decifrá-las, preferia que Aizawa permanecesse longe de sua vista.
—Eu vou encontrar o Yamada.
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