In Your World
1 Capitulo Um - Urano
Notas iniciais

Expelir o ar quente de minha boca inutilmente tentando esquentar minhas mãos, olhei para fora da janela vendo a neve cair brandamente, porém deixando um frio lascado como consequência... Não acredito que o pessoal que mora nos países tropicais ache a neve tão divertida, se soubessem o quanto o frio é desagradável não o desejariam. Esfreguei uma mão na outra, tremula com esse clima congelante entrando dentro de casa.
O aquecedor quebrado, as contas atrasadas, Susy entrando na pior fase da adolescência, mamãe fingindo que tudo se resolveria num piscar de olhos e a pouco tempo entrei em outro trabalho, o dinheiro só entraria no próximo mês, talvez o clima fosse próprio, pois parecia que os problemas estavam virando uma bola de neve gigante que não demoraria para nos sufocar até não poder mais.
Mas papai gostava de filosofar que quando coisas muito ruins acontecem significa que coisas grandiosas estavam por vir. Talvez por isso ainda mantinha a calma, eu gostava de fingir que ainda acreditava no otimismo dele.
–Mãe o que aconteceu com o resto do dinheiro da herança? Pelos meus cálculos, era para restar mil dólares depois de pagar hipoteca da casa.—Costurando outra roupa para o gato ela mirou o teto.
–Ohh sim, verdade, emprestei a sua tia Rita.—Pisquei longamente apertando as pálpebras suspirando pesado.
–Mãe a gente só empresta dinheiro quando tem sobrando, o que não é o nosso caso! Vamos ter que tirar um monte de coisas da lista de compras se quiser passar esse inverno.—Balançou a mão negativamente como se eu tivesse contado uma piada.
–Besteira, você é exagerada como seu pai, oh e não esqueça de comprar a ração da fifi!—Sorri de lado, agora sei como meu pai tinha trabalho por aqui.
–Não é exagero, a situação está critica, estou até pensando que vamos ter que cozinhar a fifi pra comer carne esse mês.—Ela riu como se eu contasse outra piada, mas fitei o gato dando uma piscadela levando o polegar e o indicador até o canto da boca fazendo um biquinho para ele como um cozinheiro faz a sua refeição ao termino. Rosnou correndo pro lado da minha mãe, como eu odeio essa gata.
Não demorou muito para a senhora ‘rebelde sem causa’ chegar em casa bufando cheia de raiva como se alguém ali tivesse alguma culpa dos problemas dela. Jogou a mochila na sala quase quebrando o próprio violino, fifi tentou ir até ela, porém já espantou a gata, oh claro até os animais era culpados.
–Urgh! Ainda não mandou consertar o aquecedor? Eu vou congelar desse jeito!—Ela olhou para mim como se eu fosse à mãe dela.
–Não acho que eu tenha tanta sorte disso te acontecer, mas esteja à vontade pra tentar consertar se quiser.—Bufou de novo e de novo até se cansar e se jogar no sofá me fuzilando com os olhos provavelmente desejando que minha cabeça explodisse.
E eu acreditando que ela estava melhorando, grande erro.
–Você fica com todo o dinheiro que entra.—Murmurou mal humorada, ela fala como se fossemos ricas.
–Por que o dinheiro que entra é do meu trabalho.—Disse ríspida, estava com tanta conta na cabeça que discutir com uma adolescente zangada com o professor que não permitiu que conversasse na sala de aula fazia meus nervos ferverem.—Sabe, é uma boa ideia.—Girei a cadeira em seu rumo.—Você tem quinze anos, pode procurar um trabalho de meio período!—Ela não respondeu, apenas se levantou indo para o próprio quarto bufando.
–Ela precisa se concentrar no violino, não pode arrumar um emprego agora.—Olhei por cima dos meus óculos pra mochila dela ao chão e o violino jogado.
–Mamãe acho que ela não está mais interessada em tocar violino, para falar a verdade acho que ela só anda com esse violino para se mostrar.—Ignorou minhas palavras voltando sua atenção para aquela gata maldita.—Eu-ainda-vou-te-fritar...—Sussurrei fazendo sinal de cortar a garganta e a gata rosnou se enroscando na mamãe.
É a situação estava complicada. Mas tudo bem, eu acharia um jeito, papai confiou isso a mim e eu vou dar um jeito.
E nem tudo era ruim, eu era noiva de um rapaz de lindas madeixas loiras e olhos encantadoramente ambarinos, podia ser um pouco distante e preguiçoso, porém eu não tinha muitos defeitos nele o que apontar. Os meus sogros me adoravam e estavam sempre me convidando pra jantar com eles, embora eu tenho evitado vê-los por esse dias, eles eram bem de vida, ficaria muito envergonhada se descobrissem que estava passando por necessidade.
Meu trabalho? Cansativo, entretanto, tinha boas amigas com quem podia fofocar o dia inteiro já que nossas mesas eram próximas. Éramos auxiliares administrativas dentro de uma empresa chamada Creative, apesar do foco da empresa ser publicidade eles tinham vários negócios aderidos como redes de hotéis, restaurantes.
A empresa pertencia a uma única família chamada Augustini, pelas fofocas eles tinham uma conexão com os italianos, não sei bem se vieram de lá ou sei lá, sei que o chefão era filho de italianos. Eu na verdade só vi uma única fez um dos filhos dele, um tal de Marco, homem enorme, cara fechada e voz grossa.
–Viu os avisos?—Perguntou Milena pintando minhas unhas com os esmaltes dela, já que eu estava sem dinheiro pra gastar isso comigo.
–Não, a única coisa que notei quando cheguei foi: Espero que ainda tenha pão na cantina.—Revidei adorando o cheiro do esmalte cor de rosa, a ruiva sorriu largo com cuidado para não tirar atenção das minhas mãos.
–Você é incrível Abby, é a única pessoa que conheço que encontra humor nas dificuldades, ano passado quando minha família quebrou eu quase entrei em desespero.—Olhei para minhas unhas, uuhh estavam tão bonitas, mostrei as unhas a Vic que ouvia nossa conversa com um sorriso piedoso pra mim.
–Você é branquela, devia usar cores escuras, tenho aqui se quiser.—Disse ela e eu neguei.
–Não, estão ótimas, detestaria chamar a atenção do Xavier e ouvi-lo dizer o quanto admira o meu trabalho para me convencer a sair com ele.—Milena começou a limpar os cantos das unhas.—Mas sim, você estava falando do aviso.
–Oh, é mesmo, os auxiliares vão entrar em reunião na hora do almoço.—Franzi o cenho olhando para Vic.
–Vão fazer cortes?—Morena negou.
–Não que eu saiba, a empresa parece ir muito bem pra querer fazer cortes.—Tornei meu olhar pra ruiva.
–Então o que acha que é essa convocação.—Mexeu os ombros sem saber.
–Só o Xavier pra dar essa resposta no momento.—Girei os olhos sorrindo pra Vic.
–Mudei de ideia, me empresta o esmalte escuro aí.—As duas riram da piadinha.
Mas isso era um pouco preocupante, quero dizer, não posso perder esse emprego, não agora que as coisas estavam tão complexas.
Respirei fundo limpando o rosto no banheiro do trabalho e indo para a sala de reuniões onde nosso superior tarado já estava e alguns outros gatos pingados.
Acenou para uma das cadeiras para eu me sentar. A sala possuía uma mesa de quase quatro metros de comprimento cujas pontas dele eram arredondadas. As cadeiras laterais eram simples, mas as da ponta eram largas e estofadas tanto no apoio das costas quanto no acento.
Depois de uns vinte minutos e todos pareciam presentes ele ficou de pé com as mãos apoiadas na cadeira grande.
–Bom, eu tenha boa noticia a dar a vocês!—Sua falta de empolgação obviamente nos fez questionar se era realmente boa.—Sr. Jones teve um infarto na ultima noite e bateu as botas.—Nos entreolhamos assustados sem entender, essa era a boa noticia? Eu tive que perguntar.
–Como isso pode ser boa noticia pra gente?—Eu nem conhecia o cara, mas coitado anunciar a morte dele assim? Xavier me fitou indiferente.
–Ora, com ele morto a vaga de auxiliar de criação foi aberta e achamos melhor contratar um de vocês, pra mim isso seria uma boa noticia.—Girei os olhos não acreditando naquilo.—Caso mais de vocês queiram, ocorrerá uma avaliação de currículo claro. Alguém?—Eu ouvi todo mundo murmurar fazendo que não, esperava que alguns fossem se apresentar interessados, porém nada.
–Quando você diz auxiliar de criação, quer dizer, trabalhar pro filho do chefe?—Franzi a face confusa cutucando a Milena que estava na empresa a mais tempo.
–É um trabalho difícil?—Cochichei pra ela.
–Por razão nenhuma levante a mão, esse cargo é furada.—Sussurrou de volta.
–Sim, era o emprego do sr. Jones.—Assim que confirmou ficou todo mundo na sua, eu era novata, não saquei muito bem.—Ninguém quer?—Um silêncio até um pouco constrangedor se fez na sala.—Vamos lá pessoal, o salário é dois mil e quinhentos dólares, mais do que o de vocês ganham.
Meus olhos de esbugalharam fazendo cálculos involuntariamente junto ao meu queixo que caiu perplexa, ele disse dois mil e quinhentos dólares? Se eu recebesse essa grana daria pra resolver boa parte do bolo de neve! Levantei a mão desesperada olhando para ele como se fosse uma criança e ele tivesse perguntado quem queria chocolate.
–Eu quero! Eu quero! Que quero pegar esse cargo, eu fico com ele! Eu quero! Me escolha!—Não sei por que disse isso tão apavorada como se alguém fosse me roubar o emprego, ninguém ali tinha levantado á mão ou protestado. No entanto, minhas amigas levantaram preocupadas.
–Não! Você ficou doida!—Disse Milena e eu não entendi.
–Bom, aposto que vai ficar em uma semana nesse cargo!—Brigou Vic.
–Gente é dois mil e quinhentos dólares! Eles podem me mandar limpar privadas que não me importo!—Xavier ordenou para elas sentarem.
–Você quer mesmo esse cargo?—Mirei as duas, se elas estivessem passando pela mesma situação que eu com certeza tomaria a mesma decisão, ainda que esse cargo pareça tão assustador.
–Quero!—Disse decidida, ele olhou os demais e vendo que ninguém protestou acenou pra mim.
–Venha comigo, vou lhe explicar sua função.—Andou até mime e quando chegou a porta se virou.—A reunião está encerrada. Podem voltar a seus postos.
Eu nem sei o que um auxiliar de criação faz, porém deduzi pelo significado das palavras, eu auxiliaria o cara que criava e ao que disseram o filho do chefe. Quando chegamos até um corredor no andar superior do prédio Xavier ficou de frente pra mim sério.
–É tudo muito simples Abigail, basicamente você vai cuidar dos interesses que ligam a empresa ao Vincent.—Hun?!
–Quem é Vincent?—Ele engoliu seco.
–Vincent é nosso melhor produtor de ideias e também é o filho caçula do senhor Bartolomeo Augustini.—Mordi o canto da boca confusa.
–Eu seria uma espécie de secretaria dele?—Fez que mais ou menos.
–Por aí, mas é além...—Tocou meu ombros o fazendo seguir pelo corredor.—...Vou tentar ser bem claro, Vincent não se dá bem com pessoas, sua função é fazer tudo para ele que envolva outras pessoas. Pagar contas, resolver problemas, e as vezes ter que persuadir ele dependendo da vontade dos patrões.—Parecia tudo muito confuso.
–Ele não se dá bem com pessoas? Como? Ele é autista?—Xavier fez uma expressão como se não quisesse descartar minha ideia.
–Provavelmente, mas diz se que tem transtorno ansioso social.—Parei no meio do caminho. Decifrei os significados da palavra, o que me levou uma espécie de fobia social.
–Ele é sociofóbico?—Questionei perplexa e ele acenou que sim.
–Pode se chamar assim também.—Dá tempo de desistir?—Venha.—O segui meio sem palavras.
Chegamos a uma sala pequena que possuía uma escrivaninha cinza escura com um monte de papeis espalhados frente a uma porta preta com a inscrição “A mente criativa age sobre algo que ela ama”. Engoli seco ajeitando a roupa e o óculos quando ele bateu a porta dando um passo pra trás.
–Vincent sou eu! Xavier!—Gritou sem ser escandaloso.
–N-n-não quero v-ver ninguém!—Disse uma voz do outro lado gaguejando.
–Seu pai lhe contou sobre Sr. Jones?—Perguntou e a resposta demorou quase cinco minutos.
–D-d-desculpe, eu me expressei errado!E-e-eu não quero VER, n-n-nem FALAR com ninguém!—Meu superior suspirou me olhando mexendo os ombros.
–Aconteceu que eu já contratei uma substituta pro Sr. Jones, não gostaria de conhece-la?—Insistiu.
–E-eu g-gostaria que fosse embora.
–O nome dela é Abigail, ela está aqui, venha ao menos lhe dar um ‘oi’.
–E-eu quero ficar sozinho.... P-p-por favor.—Negou impaciente vindo até mim.
–Abigail fique aqui, se ele falar com você o que eu duvido muito, ótimo, até então é só você esperar pelas ordens, irei organizar as papeladas pra te transferir pra esse departamento.—Fiz que não um tanto quanto assustada.
–E o que eu faço? Quero dizer, tenho que tentar falar com ele ou... O que eu faço?—Xavier bateu na mesa seco.
–Aguarde, não mexa com ele, se insistir é capaz de escapar pela janela. Só aguarde e logo você terá instruções do que fazer. Boa sorte.—Fiquei boquiaberta.
Bom, podia ser pior ou será que isso é só o começo?
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