In Your World

7 Capitulo Sete - Netuno


Notas iniciais
Olá! Sei que demorei, mas como eu disse viajei por um tempo. Um agradecimento a Myla pela recomendação linda e a todos pelos reviews! Boa leitura e desculpem os erros.

Sim eu tinha planos de sei lá, me aproximar muito mais do chefe do que já era, ser uma espécie de melhor amiga com quem ele possa contar. Me tornar alguém cujo esse sentimento fosse mutuo.

Mas no momento tudo que eu sentia era vontade de vomitar.

–Eca, e ela não te deu nenhuma explicação palpável?—Perguntou Milena com cara de nojo, minha expressão? Uma mistura de incredulidade e enjoou.

–Existe uma explicação palpável para estar em cima de uma mesa de jantar nua com um peixeiro fedorento? A justificativa dela era “Não sabia que ia chegar tão cedo querida”...—Imitei minha mãe como se contasse uma estória de terror... O que na verdade é um fato de terror.—... Olha, ele ir jantar lá as vezes tudo bem, mas aquilo lá foi...Eu não sei, desrespeitoso? Sorte da Su que não estava em casa.—Murmurei comendo meu misto quente.

–E o Ed?—Perguntou Vic e eu não entendi o que meu noivo tem a ver com isso.

–O que tem o Edgar?—Elas se entreolharam mexendo os ombros sem graça.

–Eu não sei Abby, na minha cabeça ele bem que poderia ser útil e te tirar daquela casa.—Suspirei.

–Gente eu não posso sair de lá, minha mãe é capaz de hipotecar a casa de novo e eu não tenho dinheiro para pagar outra hipoteca, seria desastroso!—Confesso que meu apego era a casa, eu vi meu pai suar tanto até finalmente conseguir pagar ela, consertar cada defeitinho, montar ela do jeitinho que sonhou para do nada minha mãe entregar para um estranho.

–Vamos mudar de assunto!—Disse Milena depois de uns minutos em silêncio eu concordei, outro assunto seria ótimo.—Seu chefe, como vão as coisas entre vocês?—Eu senti certa malicia no sorriso dela e já neguei.

–Gente eu tenho um noivo, não tem nada entre a gente, somos bons amigos!—Elas se entreolharam sorrindo.

–Ora mais ninguém falou nada, só queremos saber como vão às coisas.—Resolvi não dar moral para isso.

A verdade era que minha cabeça estava explodindo, eu estava com muita raiva da mamãe por desrespeitar a casa do papai. Tudo bem, ela é mulher, papai morreu há quase dois anos, mas caramba, não poderiam ter ido para um motel? Ou sei lá, que fosse numa esquina escura e eu não me importaria tanto. Se Su descobrisse surtaria por que eu sei que foi difícil para ela superar a morte dele... Eu estava de cabeça quente, precisava de um pit stop urgente.

Então o que eu fiz a seguir foi um pouco estranho até mesmo para mim, eu não podia sair dali, estava em horário de trabalho, Vincent não tinha chegado e á tarde eu teria um monte de coisas para fazer, por essa razão eu pensei no que me ajudaria a me acalmar. A parte estranha é essa, eu entrei na sala do chefe, sentei no chão frente a nebulosa pintada na parede e controlei minha respiração cogitando...

“Imagine o mundo do Vincent, sem problemas, sem preocupações com familiares, sem nada além de um lugar tranquilo que me inspirasse confiança. Imagine um lugar onde ser você já é obstante.”

–O que vai fazer nesta sexta?—Perguntei quando ouvi os passos dele adentrarem a sala. Deu para ouvir o som um pouco surpreso por eu estar ali.

–Eu-eu não-não sei, por que?—Me levantei voltando para a realidade jogando um sorriso forçado.

–Bom, é uma surpresa! O que me diz?—De cabeça baixa concordou com um sorrisinho de lado.—Não se preocupe não vou vender seus órgãos ou abusar sexualmente de você!—Disse brincando e ele soltou uma risadinha.—Então... Como vão as coisas com a Sasha? Depois do que aconteceu nunca mais a vi vindo atrás de você, ela ainda está com raiva mim?—Mexeu os ombros desinteressado.

–Não-não sei.—Respondeu apenas dando passos lentos até mim.—O-o que estava fa-fazendo?—Dei um sorriso sem graça suspirando.

–Digamos que estou começando a pensar que passar um final de semana com a sua família não é tão ruim assim...—Acho que ele queria sorrir, mas acabou ficando espantado.—...Quer me ouvir?—Acenou para a cadeira e depois foi para a sua.

–Me-me conte.

E eu contei com todos os detalhes sórdidos que fui obrigada a ver naquele dia que voltei da viajem.

Ele não olhava em meus olhos enquanto eu falava, porém eu sentia sua atenção sobre tudo que dizia como se cada palavra fosse realmente importante, por alguns instantes eu fiquei mais calma, eu sentia como se contasse a ele alguma coisa fizesse diferença.

Enquanto ele engolia aquilo fiquei imaginando se acaso colocava em uma balança imaginária em relação aos problemas com a família dele e os da minha, qual era pior? Taí, está é uma boa pergunta.

–De-devia se mudar, vo-você não-não precisa aguentar isso.—Concordei.

–Eu sei, é que...Eu tenho medo do que vai acontecer as duas se eu as deixar, elas não trabalham e...Eu não sei.—Suspirei me levantando.—Esqueça isso, eu vou trabalhar que eu ganho mais, então, não esqueça de liberar a sua sexta para mim hein!?—Disse sorrindo mais aliviada, ele apenas balançou a cabeça tímido, só que ainda sério como se não estivesse satisfeito com alguma coisa.

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Tudo estava dando certo com o chefe, mas em casa a coisa era outra completamente diferente, eu me sentia em um filme de terror vendo aquela figura assentada a mesa me causando náuseas conversando de boca cheia. E com essa já era a quinta vez que vinha jantar aqui em casa só nessa semana, mamãe para variar comprou tudo do mais caro.

–Então Abby quando é o casamento?—Traguei a saliva mirando a gata da mamãe com um sorriso maldoso na face.

–Ainda não marcamos a data...—Respondi percebendo que ela gostava daquele cara e isso me deixava furiosa, por que quem paga a comida dela sou eu!

–Isso se sair, na força que faz para acontecer minha filha vai ficar de molho o resto da vida.—disse mamãe contente.

–Eu não sei se você percebeu mamãe, mas estamos com problemas financeiros, como é que eu vou casar assim?—Ela soltou um riso de deboche.

–Ninguém está passando por problemas financeiros aqui!—Pisquei algumas vezes incrédula.

–Claro que estamos, meu salário está no limite, sabe disso!—Ela sorriu como se eu tivesse contando uma piada.

–Não te disse que ela era exagerada! Temos dinheiro de sobra!—Temos o que?!!? Me levantei furiosa.

–Temos uma ova! E eu agradeceria se a senhora pudesse parar de bancar a rica por que eu não estou podendo bancar seus caprichos e desse gato idiota!—Eu estava zangada, como ela podia fazer aquele tanto de comida para aquele peixeiro, mas quando era só comigo tinha só um belo ‘se vira’?

–Abigail nós temos visita!—Revidou ríspida.

–É, todo dia.—Sai da mesa estressada.

Sentada na cama olhando para a foto de quando ainda éramos uma família eu fiquei me perguntando quando as coisas finalmente melhorariam. Eu consegui o dinheiro para bancar elas, porém parecia que isso tinha custado a paz naquela casa ou talvez ela simplesmente tenha morrido com meu pai.

Sabe, eu tinha pegado um costume meio estranho desde que o chefe me mostrou aquela sala secreta dele, as vezes eu fecho os olhos e finjo que estou lá como se eu pudesse entrar na cabeça dele e sugar sua paz.

–Que palhaçada foi aquela Abigail!?!?—Mamãe entrou no quarto aos berros, provavelmente o peixeiro já tinha ido embora.

–Palhaçada digo eu! Que a senhora quer namorar tudo bem, mas eu não sou obrigada a aturar isso todo dia ainda mais as minhas custas! Por que ele não paga um restaurante e vocês se estrepam para lá hein!?—Retruquei furiosa.

–Olha o jeito que você fala! Primeiro essa casa é MINHA! Segundo eu criei você e por acaso nunca exigi que me pagasse o que gastei...

–Gastou uma pinoia! Quem pagava tudo era o papai que por acaso deve estar achando ótimo ver você fazendo essas baixarias debaixo do teto dele!—A interrompi ficando de frente para ela.

–Ele está morto Abigail e eu não! Se está tão obcecada com esse dinheiro pare de pagar as coisas ora! Eu não pedi a você nada!—Eu não acreditei no que ouvia.

–Para que?! Para a senhora vender tudo só para agradar aquele imbecil!?! Eu não vou deixar você destruir a casa do meu pai!—Ela apontou o dedo para mim séria.

–Chega! Essa casa é minha e eu faço dela o que bem entender! Acostume-se!—Respirei fundo quando saiu batendo a porta.

Pai.... O que eu faço? De repente tudo saiu do meu controle, mamãe, a Su e até a gata idiota. Era como se eu fosse uma intrusa ali.

Caramba eu tenho lutado tanto para que afinal?

Eu não tenho resposta para essa pergunta, muito menos ação.

Bom, isso eu não contei as meninas, nem poderia, eu já sei o que diriam, também não quis amolar ao Edgar que parecia distante... O jeito é eu me concentrar no que eu tenho agora.... Ou não sei, eu me sentia de mãos atadas, sem ideia do que fazer ou como fazer.

Aquilo tudo me doía, então eu fechei os olhos por um momento e tentei me concentrar no melhor que me acontecia nesse instante ou ficaria louca provavelmente.

Pensei muito sobre a viajem, sobre como a mãe do Vincent me tratou bem, o irmão dele e claro meu chefinho também com as mensagens. Eu queria retribuir isso, esse pedacinho pequeno que me dava forças no momento, por essa razão eu mal podia esperar por sexta.

Ele tinha ia ter uma surpresa e tanto, pois aposto que faz muito tempo que também ou talvez nunca tenha ido a um lugar daquele.

–Já disse é só um passeio entre amigos!—Esclareci quando as faces delas me sorriram como se eu fosse trair o meu noivo.

–Sexta a noite? Sei! Acha que engana alguém com isso?—Sorri de lado enquanto Vic fazia tranças em meu cabelo.

–Gente estamos falando do meu chefe, ele foge da noiva que é um avião e vocês acham que teria algo entre nós?! Por favor, né!?

–Dizem que os quietinhos são os piores!—Brincou a ruiva.

Ahh como era bom estar no trabalho, as meninas me mimavam e eu tinha um chefe adorável. Se eu pudesse morava aqui.

–Eu só vou levar ele para retribuir por ter sido atencioso, parem de ser mentes sujas! Pronto?—Perguntei olhando para o relógio, ela apertou a liga concordando.

–Prontinho! Vá lá garanhona!—Gargalhei me levantando e despedindo delas.

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Eu queria que ele olhasse nos meus olhos, eu queria saber se o que estava fazendo era o certo, pois tudo que eu tinha feito até agora eu acreditei que era o certo e estava sendo jogado de volta na minha cara. Eu senti um aperto no coração com uma vozinha querendo dizer: “Não quero errar com você também”.

Ele apertava as mãos nervoso olhando o nada pela paisagem através do vidro, sua respiração era um tanto descompassada e nenhuma palavra foi dita.

De repente eu fiquei nervosa também.

–Chegamos.—Estacionei o carro limpando minhas mãos na calça jeans esperando ele descer, pelo menos seu olhar surpreso sobre onde estamos era um bom sinal.

–Isso-isso é um-um...—Pigarreei atropelando as palavras dele.

–Um planetário!—Eu vi um sorrisinho esticar o canto da sua boca e seus olhos piscarem sem graça.—Vamos?! Não se preocupe que você só vai precisar assistir!—Concordou abaixando o rosto.

Não tinha muitas pessoas naquele dia, não sei bem a razão provavelmente por sorte dele. Sentamos nas poltronas do meio esperando o começar a apresentação e eu acho que estava mais ansiosa do que ele, não pelo que veria nas imagens e sim nele.

Eu queria fazer alguma coisa boa.

Tinha um certo tempo que havia começado e confesso que fiquei atônita com tudo que via, era realmente incrível tudo aquilo.

Mas eu confesso que não estava muito interessada naquilo, a direção do meu olhar oscilava entre as imagens e aquela pessoa do meu lado, eu torcia para ver a felicidade em seu rosto para no final ele poder dizer: “Isso foi incrível Abigail! Você é a melhor amiga de todas!” ou qualquer coisa do gênero, isso com certeza me deixaria feliz.

De repente quando dei por mim eu estava balançava as pernas como uma adolescente inquieta, por que ele não estava sorrindo? Era o planetário! Deveria ser o lugar que ele mais amava no mundo, podia ao menos fingir que estava feliz.

–Se quiser podemos ir embora?—Perguntei sentindo como se tivesse feito algo ruim, ele para variar abaixou o olhar negando.—Você prefere ficar?—Acenou que sim apertando as mãos nervoso... Fiquei pensativa novamente sobre como eu conseguiria entrar naquela cabeça dura sem que ele surtasse.—Já parou pra pensar que cada pessoa é como um planeta?—Cochichei no seu ouvido, estranhando o que eu disse.

–Planetas? Como?—Revidou em quase um sussurro com medo de incomodar as pessoas.

–Todos possuímos uma camada de proteção, podemos ser destruídos com uma simples bala minúscula como os cometas em relação ao planeta, somos inabitáveis caso não oferecemos terreno pra isso e vivemos cercados de outros planetas....—Expliquei o deixando pensativo.

–Neste caso talvez eu seja plutão...—Murmurou olhando para baixo e eu já neguei se deixasse ele não queria que fizesse um melodrama ali.

–Não, você não pode ser plutão!

–Por que não?—Sorri modesta para ele.

–Por que plutão não é um planeta mais!—Finalmente um sorriso! Voltamos nossos olhares para a imagem, meu rosto queimou mesmo que ali fizesse muito frio, eu não sabia se deveria dizer isso, mas queria muito.—....Se você deixasse...Eu queria muito fazer parte dele...—Eu acabei não tendo coragem de virar o rosto, mas notei que ele tinha feito, o que me fez arrepiar.

–Parte de que?

–Do seu mundo.—Sussurrei, mas ele não respondeu nada, se bem que eu não achei que tivesse coragem se a resposta fosse positiva.

–Por quê?—Levei um susto quando perguntou, lembrei das vezes que quando o problema apertava eu fingia que estava naquele lugar de paz dele para me acalmar e resposta veio sendo bem sincera.

–Eu gosto do seu mundo.—Dois sorrisos?! Deveria ser um bônus.

–Não tem passaporte de saída.—Sorri com as bochechas vermelhas, eu confesso que não esperava ele dizer isso enquanto me olhava pelo canto do olho sem coragem de me encarar, para falar a verdade nem eu tinha coragem de fita-lo. Era loucura minha ou o baixou um clima romântico agora?

–Promete?!—Foi o que conseguir dizer com a voz falha.

Não, não e não! O que acabou de acontecer foi apenas um momento amistoso entre dois amigos, nada de romance eu tenho um noivo! Pior! Ele também tem uma noiva! Ta certo que o Vincent e eu estávamos ficando próximos, mas isso não quer que tenha algo entre nós acontecendo e VOCÊ bombeador de sangue pode voltar ao ritmo normal por que eu não permito que sinta algo diferente pelo chefinho.

Eu não disse mais nada durante a apresentação e nem ele, entretanto ficou obvio que um clima tenso pairou sobre nós. Eu tenho que esclarecer isso logo, se não vai pensar que estou dando em cima dele!

–Vincent!—O Puxei pelo braço quando saímos lá de dentro, abaixou o rosto no mesmo instante e deu pra ver mesmo com a barba nascendo suas bochechas corarem.—Sobre, érr..O que eu disse...—Eu acabei ficando impaciente por estar fitando o chão, caramba, eu trouxe ele aqui e nem conseguia me encarar?—...Quer por favor, olhar nos meus olhos!—Disse levantando seu rosto com a mão direita puxando seu queixo.

Ele mordeu os lábios com o rosto levantado, mas os olhos fitando os lados.

–Olhe para mim...—Tragou a saliva fechando os olhos por alguns instantes finalmente com os olhos fixos no meu e eu sorrir.—... Viu?! Não são bolinhas azuis como as suas, mas não machucam...—Brinquei e ele não riu, continuou inquieto.—É tão difícil assim?—Eu perguntei mais por conta de que fazia meses que o conhecia e mesmo assim nem olhar pra mim diretamente conseguia.

Apenas acenou que sim e eu sorri de lado. Não era essa minha intenção, ao contrário, era para ele se divertir. Dei um passo para trás agora sem graça.

–Desculpe, eu queria fazer parte não invadir.—Respirei fundo apontando para o carro caminhando lentamente.

–Vo-você-você-você faz....—Disse com muita dificuldade atrás de mim.—...No-no-no meu-meu mundo você-você sempre vai-vai ser tudo...—Ele disse tão baixinho, gaguejou tanto que demorei um tempão para entender o que tinha dito e quando cai a ficha ele já tinha corrido para dentro do carro e eu estava estática com um sorriso bobo no rosto.

Não olhou para mim durante a volta, sua respiração estava acelerada e isso me fazia sorrir. Aquilo queria dizer que gostava de mim, não é? Na verdade pareceu mais, porém acho que isso é coisa da minha cabeça por que do fundo do coração eu gostei de daquilo. Quando chegamos a casa dele o chefe ia saindo as pressas quando segurei seu braço.

–Espera...—Sentou no banco com a cabeça baixa.—...Você pelo menos gostou do planetário?—Fez que sim e eu sorri.—Quer ir a algum lugar sexta que vem?—Negou no mesmo tempo e eu fiquei sem saber o que dizer.—Então... Como eu faço parte do seu mundo?—Quando eu percebi o que tinha dito e pior naquela hora tão inapropriada, meu rosto ferveu. Deu a impressão que eu tinha sugerido algo imoral.

–Vo-você quer en-entrar?—Soltei o braço dele no mesmo instante, tipo, entrar no mundinho dele ou na casa?

–Na-na sua casa? Agora?—Mexeu os ombros cabisbaixo e eu respirei fundo, se eu dissesse não tenho certeza que nunca mais me convidaria para mais nada.—Claro! Por que não.—Desliguei o carro descendo com ele.

O nervosismo dele passou para mim, fora aquele lugar ser cheio de coisas relacionadas a universo e espaço eu não sabia bem o motivo dele ter me convidado para entrar. Então eu fiquei ali, fingindo que admirava os planetas em miniaturas dele na estante, se bem que eram bem bonitos.

–Você mora sozinho?—Perguntei engolindo seco me aproximando da cozinha, ele tinha murmurado algo sobre fazer um chá.

–Si-sim.—A casa dele era longe de tudo, nem carros passavam ali perto.

–Não se sente sozinho?—Não respondeu, mas pela cara que fez acho que as resposta era sim.—Sasha nunca quis viver aqui com você?—Ele pigarreou em desagrado criando coragem para me encarar.

–Por-por que sempre fala dela?—Sentei em um banco pensativa.

–Não sei, por que é sua noiva?—Virou o rosto para o chá.—Hey eu não faço pra te irritar, se não quer que eu pergunte, tudo bem.—Nenhuma palavra vindo dele.—O que costuma fazer por aqui?—Ele encheu uma xicara me entregando.

–O que-que me dá vontade.—Revidou e eu sorri.

–O que está com vontade de fazer agora?—Ele sorriu de lado suspirando.

–Dormir no sofá assistindo um filme antigo.—Gargalhei por ser algo tão simples.

–E eu estou atrapalhando, não?—Fez que não.

–Você pode ficar aqui, sei que não quer voltar para casa.—Certo isso me assustou um pouco, como assim ele sabe? Dei um sorriso insano.

–Sabe?! Como sabe?! Lê mentes?—Virou o rosto tomando um gole do chá.

–Eu não sou uma criança apesar de você me tratar assim, eu observo algumas coisas...—Revidou e eu fiquei pertubada, pisquei algumas vezes.

–Eu não trato. E as coisas lá em casa estão bem.—Tomei uma golada, eu não esperava ter esse tipo de conversa e confesso que quando ele não gagueja me sinto um pouco intimidada, a voz dele é tão parecida com a do pai.

Felizmente o nervosismo dele voltou e abaixou a cabeça. Ficou um silêncio incomodo pairando no ar enquanto eu pensava sobre o que tinha dito, respirei fundo, criando coragem.

–Eu não sei mais o que fazer, no inicio do ano eu acreditava que se conseguisse dinheiro todos os problemas seriam resolvidos, eu arrumei esse dinheiro e...Nada está bem, tudo piorou.—Desabafei engolindo o resto do chá e me levantando.—Mas isso é algo que eu tenho que carregar sozinha, é minha família afinal... Eu-eu vou indo, está tarde.

–Vo-você po-pode vir para cá se-se a situação ficar...Érrr...Difícil.—Eu já ia saindo, sorri bem largo contente com aquilo.

–Ás vezes eu finjo isso, finjo que estou no seu mundo e lá tudo está no lugar certo.—Percebi que ele sorriu tímido e acho que eu também.—Boa noite Vincent.

–Boa-boa noite.

No resto do final de semana eu fiquei sonhando com tudo que aconteceu, não parecia tão real quanto realmente ocorreu, pareceu um daqueles sonhos esquisitos que você acorda se perguntando por que droga você sonharia com algo daquele tipo.

Eu sei, isso é bem confuso.

Só que lembrar dele dizendo aquilo na saída do planetário me fazia sorrir de orelha a orelha sentindo meu rosto ferver e coração palpitar.

–Até quando pretende agir assim?—O timbre reprovador da mamãe na mesa do jantar naquela noite de domingo me tirou do adorável devaneio que tinha.

–Agir como mãe?—Provavelmente estava zangada por eu fiz compras sozinha e deixei claro que não colocaria mais nada dentro de casa além daquilo.

–Como uma criança mimada! Sabe que o que comprou é pouco!—Franzi o cenho suspirando.

–De acordo com as estatísticas o que eu comprei dá pra alimentar uma família de seis pessoas em um mês, então não, não é pouco.—Retruquei seca.

–Você não comprou minha Nutela!—Fitei Su com desdenho.

–Eu comprei um pote no inicio do mês, você comeu tudo sozinha na primeira semana!—Ela fez cara como se eu tivesse dito uma besteira.

–E daí?! Eu quero mais!—Suspirei.

–Então compre você mesma, eu não vou comprar!—Continuei comendo minha refeição.

–Até ridicar da sua irmã você vai?—Se ela quer acreditar nisso, eu mesma já não tenho saco para ficar debatendo.

–Mãe, eu já pago a luz, a água, as compras o que droga mais você quer que eu faça? Que eu entregue tudo para vocês? Eu tenho uma vida, sabia?! Eu deixo de fazer tantas coisas por vocês e tudo que sabem fazer em troca é reclamar!

–Não estou reclamando, mas está ficando intolerável essa sua mania de jogar as contas na nossa cara, eu não pedi para você pagar nada e quando paga fica dando uma de superior comprando mixarias para cá! Como é que o Ferdinando virá jantar conosco se não tenho coisas boas para oferecer?—Eu sabia que tinha o peixeiro no meio.

–Pois que não venha, eu não vou alimentar mais uma boca, se nossa comida é pobre para ele, por mim que se dane!—Ela soltou um ‘ohh’ como se estivesse ofendida.

–Ele é MEU namorado, não é mais uma boca!

–Bom ele não paga nada e come muito, então sim, é sim mais uma boca nas costas da sua filha!—Disse ríspida.

–Filha desnaturada você quer dizer, não é?!—Suspirei me levantando, não aguento mais isso.

–Desnaturada é você que dá mais importância a um velho gordo seboso do que sua própria filha!—Gritei furiosa.

Meus olhos, minha mente, meu ser... Nenhum deles acreditou no que tinha acabado de acontecer. Um grande SLAP soou alto pela casa e acho que até minha irmã se espantou. Quando toquei o rosto sentindo o arder mirei mamãe com incredulidade, papai tinha uma regra séria dentro de casa dizendo que tapas no rosto eram proibidos, pois esse tipo de agressão significava humilhação.

–Se quer ficar na minha casa, então acho bom começar a respeitar o Ferdinando, do contrário pegue suas coisas e suma daqui.—Eu engoli as palavras na minha boca indo para meu quarto no mesmo instante procurando uma mala.

Agora sim eu pude ver que a família que eu tentei manter estava morta, tinha morrido com o papai e essa que surgia eu não tinha a menor vontade de fazer parte. Eu não vou dizer que não chorei, eu chorei sim enquanto pegava minhas e jogava de qualquer jeito na bagagem inclusive as fotos do papai comigo.

–Abby você não pode ir!—Minha irmã apareceu na porta com um semblante preocupado.

–O que eu não posso é ficar, não vou ver a casa do meu pai ser destruída por esses dois, não vou MESMO!—Revidei ressentida fungando aos prantos.

–E eu!? O que eu faço!?—Eu quis dizer ‘se vira’, mas ela é minha irmã.

–Su arruma um emprego, deixa de ser preguiçosa e procura um rumo! Se mamãe se desfez de mim, com certeza você é a próxima!—Retruquei fechando a mala limpando o rosto.

–Pra onde você vai?—Engoli o choro a encarando.

–Não sei, vou atrás do Ed por agora.—Tinha muitas coisas ainda faltando, mas essas eu pegaria depois.—Se cuida.

Eu olhei para mamãe da porta sem dizer nada e caminhando para fora com o rosto todo molhado de lágrimas. Como ela pode? Logo eu que fiz de tudo para não perdemos a casa, que dei duro para nos mantermos...

Pai.... Onde foi que eu errei? O que foi que eu fiz?

Juntei forças e coragem para ir para a casa do Ed, tenho certeza que os pais dele vão me aceitar de coração aberto.

–Ed? Onde você está?—Liguei no seu celular e ele soltou um som estranho como se estivesse surpreso.

–Oi amor, nossa eu não esperava que fosse me ligar hoje!

–Onde você está? Eu preciso de você!—Disse tentando não chorar a todo custo.

–Ohh Abby agora eu não posso querida estou ocup...—Percebi que alguém o estava gritando do outro lado.—Espera eu já estou indo Dione! Olha a gente se fala amanhã no trabalho, tudo bem!?

–Não!! Esper...

–Beijos, te amo!—Desligou o celular, obviamente não estava em casa e eu fiquei ali na calçada a poucos metros da casa dele tentando ligar novamente, porém tinha desligado o celular.

E agora?

Eu não tive coragem de bater na porta ou pedir para ficar ali, com o Ed tudo bem, mas sozinha, com meu noivo sabe-se lá onde? Tentei ligar para Milena, só que foi inútil só dava na caixa postal, eu ligaria pra a Vic, mas brava do jeito que ela é iria lá em casa e armaria um barraco dos grandes quebrando tudo.

Tá eu sei que isso é ridículo, mas não teve outro jeito, peguei minha mala e com um taxi fui para a casa do chefe. É eu sei, eu não podia fazer isso só por que ele disse que tudo bem uma única vez, era errado logo agora abusar das palavras dele que provavelmente só foram ditas por dizer e nenhum comprometimento.

Mas durante a ida eu coloquei na cabeça que seria só essa noite, jurei para mim mesma que na manhã seguinte encontraria outro lugar e teria uma divida enorme com ele.

Eu demorei um tempo lá fora limpando o rosto, buscando desculpas, criando coragem para tocar companhia, algumas luzes estavam ligadas o que queria dizer que ainda estava acordado e quando finalmente eu venci o medo e ia tocar o dedo no botãozinho da companhia a porta se abriu.

–Ah-ah oi...—Disse eu com a voz falha, percebi que ele mirou a mala no chão.—Eu posso explicar! Eu não vim de mudança!—Falei desesperada antes que ele tivesse uma ideia errada.

–Está frio...—Murmurou pegando minha bagagem abrindo arreganhando a porta.—...Entra.—Eu senti uma imensa vontade de chorar, mas segurei sorrindo forçada.

–O-obrigada.—Revidei com a voz carregada.—É só essa noite...—Disse baixinho entrando, lá dentro estava tão quentinho com um cheiro agradável de chá de camomila.

As roupas dele junto as mãos estavam sujas de tinta. Teria perguntado algo á ele se não tivesse sumido pelos corredores daquela casa enorme junto com a minha mala. Sentei no sofá aflita.

Eu queria chorar. Só que me limitei por estar na casa dele.

Fazia mais de meia hora que tinha ido lá para dentro com a minha mala, eu queria explicar a ele a razão de eu estar ali e tê-lo procurado. Porém o tempo passava nem sinal dele.

Então controlei minha respiração e fui mais ou menos no rumo que o tinha visto ir.

–Vincent?—Andei por aquele corredor onde tinha duas portas no lado direito e apenas uma no esquerdo e uma janela lá no fundo. Uma das portas da direita estava entreaberta então imaginei que ele pudesse estar ali.

Ao entrar de fininho meu rosto estremeceu com o que meus olhos viram, traguei a saliva com dificuldade... Era um cômodo vazio com tintas espalhadas pelo chão, jornais evitando que as gotas sujassem o piso e a pintura inacabada? Era a catedral desenhada bem pequena de noite em cima um céu cheio de estrelas e a parte que ele começou e não acabou era a cidade.

–Érr..—Ouvi a voz dele soar atrás de mim, porém não virei.

–Me mostre...—Sussurrei.—...Como seria viver aqui...

Toquei a pintura mesmo que fresca, mas eu não me controlei... Tudo deu errado, tudo que eu sonhei e acreditei, deu tudo errado... Eu queria ao menos fingir que em algum pedacinho mesmo que da cabeça dele eu fosse feliz, eu tinha feito as escolhas certas.

De repente ele se aproximou e tapou meus olhos com uma das mãos.

–Quer saber como é?—Eu não entendi bem a que se referia, mas concordei.—Você desperta com o sol da manhã todos os dias. O cheiro do café da sua mãe te faz sorrir ansiosa pelo que vem pela frente, não existe pressa.

Ahhh eu conseguia ver isso, minha respiração quase parou ouvindo.

–Continue...—Disse em sussurro com os olhos cerrados quando fez uma pausa.

–Sua irmã está de bom humor, a gata foi atropelada, sua mãe arrumou um emprego...—Eu sorri amarga, isso sim era minha visão de perfeição.

–E o meu pai?— te recebe Perguntei ansiosa, ele poderia estar feliz comigo?

–Seu pai? Ele diz: Você fez o melhor que pode, estou orgulhoso de você... Minha pequena lua.—É eu chorei quando ele cochichou aquilo.

–Eu não consegui, eu falhei...—A mão foi tirada dos meus olhos. Me virei para encará-lo, parecia um tanto surpreso com o que disse.—Sua família pode ser doida, mas... A minha me expulsou de casa...

Eu fui limpar o rosto, só que ao invés disso acabei a sujando mais com a tinta. Soltei um sorriso sem graça.

–Olha só o que eu fiz...—Tentei limpar na roupa.

–Ah essa tinta não sai depois...—Alertou tarde demais. Fiz cara de desgosto e ele riu tirando um pano do bolso. Segurou meu queixo firme e esfregou devagar sobre onde estava sujo.

Eu não sei a razão do por que ou como realmente aquilo aconteceu, talvez fosse a proximidade, talvez tenha a ver com a carência ou possivelmente fosse aquele pequeno momento em que sussurrou aquela fantasia agradável no meu ouvido.

O que eu sei é que ela se estendeu quando meus lábios se encontraram colados ao dele fazendo cada pedacinho do meu corpo se eletrizar contente.

Obviamente o problema viria com a realidade, até então tudo que eu queria era aproveitar aqueles breves segundos.

Notas finais
O proximo já tem hentai, então já fiquem sobre aviso xD Até!