In Your World
4 Capitulo Quatro - Lua
Notas iniciais

Apesar dos inúmeros problemas em casa eu sentei na cadeira com um papel em branco na mão cogitando sobre como isso deveria continuar. Eu sei, é bobo, estar ansiosa, mas caramba já faz um mês que trabalho pra ele e ainda posso contar nos dedos às vezes em que falou comigo.
Meu medo é que se eu fosse expressiva demais ele devolveria uma resposta estilo: Por favor, pare de me mandar mensagens.
Então pense Abigail, pense em qual o melhor jeito de prosseguir.
Não deu tempo de eu pensar, a monstrinha da minha irmã mais nova apareceu com uma roupa estranha, maquiagem escura e pircing no nariz.
—SU!!!—Gritei zangada indo até ela.—Quem permitiu que colocasse isso e o que... Por que está vestida assim?—Para variar ela me olhou com ódio.
—Você não é a minha mãe! Vá se ferrar!—Em passos fortes passou por mim me dando um empurrão, minha nossa o que aconteceu com essa maluca?
—Mamãe a Su...—E de que adiantaria estava assistindo novela e colocou a mão na minha frente fingindo que o mundo não existia. Fifi me olhou e provavelmente me sorriu com deboche.—Não durma gata, não durma...—Disse furiosa, tenha calma Abby, tenha calma...Isso é só fase.
Vamos voltar para o chefe em questão. O que eu deveria dizer a ele? Ohh já sei!!
“Senhor Augustini
Já que me contou que gosta tanto de chás, pensei que gostaria de tomar um assim que chegasse, você sabe, para acalmar os nervos.
Ps.:Espero que isso não o incomode.
Atenciosamente Abigail”
Deixei o chá bem quente de camomila junto a um sanduiche bem tampado, ainda era muito cedo e ele só chegaria daqui uma meia hora. Daria tempo de comer e fofocar com as meninas sobre meu plano de aproximar do chefe.
—Pra que você quer isso? Ele é doido!—Perguntou Vic com o semblante de desagrado, ela evitou me encarar sei lá por que.
—Sim, mas na festa da poison eu quase fui demitida, preciso me aproximar dele, fazer as coisas darem certo ou sei lá o que o poderoso chefão vai fazer comigo!—Expliquei apesar de um pouco da minha tentativa ser por pura curiosidade.
—Bom isso é verdade, afinal vai ser bem mais fácil se conseguir se comunicar com ele!—Comentou Milena que parecia estar com um olhar estranho já tem um tempo. Na verdade as duas.
—Vamos mudar o papo, qual é a de vocês duas hein?! Eu fiz alguma coisa que vocês não gostaram?—Elas se entreolharam quase desesperadas negando.
—Não Abby! Claro que não! Por que está perguntando isso?—Questionou a ruiva sem graça.
—Estão agindo estranho, parecem desconfortáveis com a minha presença...—Murmurei e Vic me fitou séria.
—Eu vou contar!—Contar o que? Não sei, mas deixou Milena inquieta.
—O que? Não temos que nos meter nisso!
—Ela tem saber!—Se virou pra mim séria.—Abby no dia da festa encontramos o Ed no bar com uns caras!—Mexi os ombros, e dai? Ele sempre vai beber!
—Eeee?!—Se entreolharam como se fosse um absurdo.
—Me expressei errado, caras que gostam de outros caras Abby!—Eu gargalhei na mesma hora.
—E vocês deduziram que ele é gay também? Ahh gente, por favor, primeiro eu sou noiva dele muito tempo, segundo a mãe dele é dona de uma butique e lá de fato é cheio de gays, terceiro o Ed é macho! O mais provável é que ele foi convidado e sem graça aceitou! Ele é assim, carinhoso com as pessoas.—Elas se entreolharam novamente sem graça.
—Se você diz.—disse Milena incerta.
Qual é? Elas estão mesmo achando que o Ed teria alguma chance de ser.... Gay?! Não!! Eu teria notado, eu beijo aquele homem todo dia, eu com certeza teria notado.
Eu não vi o chefe durante o dia inteiro para variar fiquei me perguntando qual seria a resposta dele, pensei que talvez colocaria entre minhas coisas no horário do almoço, mas nem isso.
O jeito é esperar o da seguinte.
E lá estava eu curtindo meu noivo em um sofá assistindo a um filme chato estilo cinderela, ele gostava e eu só queria ficar perto dele. Ed massageava meus pés enquanto eu massageava os dele.
—Você tenta demais Abby, precisa de uma folga sabia?—Disse ameno no meu ouvido depois que eu contei sobre a ideia de me aproximar do chefe.
—Folga? Você viu o estado da cozinha? Querido eu não posso ter folga por agora, ainda mais com a Su dando uma de gótica e não é uma gótica por paixão é uma gótica rebelde insuportável! Parece que quando finalmente consegui o dinheiro, minha família vai se destruindo...—Revidei apertando os dedinhos dele, Ed me lançou um olhar penoso.
—Deveria sair fora, eu sei que é sua família, mas não é sua obrigação criar uma adolescente mimada e uma senhora que não dá a mínima pra nada além de um gato!—Eu daria o fora se não fosse pelo meu pai.
—Vai passar, você vai ver, mas não posso me dar ao luxo de perder o emprego, eu tenho que dar um jeito de me entender com o chefe se não o pai dele vai me pôr na rua!—Acenou concordando, ele entendia meu ponto.
As meninas dizendo que ele era gay, ele ali todo carinhoso comigo e preocupado e elas pensando uma coisa dessa dele. Nada contra gays, eu não estou noiva de um!
No dia seguinte lá estava o bilhete separado da lista do que precisava, bem curto com poucas palavras, mas ali estava ele.
“Abigail
Obrigado pelo chá, eu aprecio seu gesto, principalmente o fato de tentar ser gentil.
Ps.:Não me incomoda, só não sou acostumado.
Ps².: Poderia não me chamar por ‘senhor Augustini’, estes são apenas meu pai e avô.
Atenciosamente Vincent”
Uhh ele respondeu, ele respondeu, ELE RESPONDEU!! Eu fiquei tão animada que quase dei pulinhos na cadeira. Muito bem, vamos aos próximos bilhetes. Mesmo que demore eu vou tentar.
“Chefe
Não precisa me agradecer, quero apenas o deixar confortável já que isso lhe parece tão complicado.
E o senhor nunca foi grosseiro comigo, não tenho motivos para lhe tratar com descortesia.
Posso continuar lhe trazendo chás? Acaso isso não o incomode.
Ps.: Como prefere que o chame?
Atenciosamente Abigail”
Era um pouco complicado ter que esperar o dia seguinte para eu ter algumas resposta, mas eu não me importei, as palavras dele eram tão raras que parecia que toda manhã havia um presente diferente me esperando.
“Abigail
De fato é complicado, mas já fico mais acomodado em saber que compreende este ponto.
Lamento ter que presenciar as situações com meus familiares, sei que papai pode ser terrível quando quer e Sasha então não é lá a pessoa mais agradável do mundo.
Pode, se isso não lhe atrapalhar.
Ps.: Pode me chamar apenas de Vincent.
Atenciosamente Vincent”
Outra resposta isto está ficando cada vez melhor. Agora pense Abby, como perdurar isso? Temos que dar um jeito de não acabar o assunto.
“Vincent
Permite me fazer uma pergunta indiscreta? Caso não queria responder tudo bem, eu me colocarei no meu lugar.
Mas você e a senhorita Sasha são realmente noivos? Quero dizer você parece ter medo dela.
Ps.: Por favor, não se zangue se a pergunta não lhe agradar.
Ps².: Vincent significa Vencedor sabia? Combina com o senhor.
Atenciosamente Abigail”
Fiquei curiosa e ansiosa pela resposta, tentei ser cautelosa, usa um elogio pra pergunta não ter um efeito estrondoso, mas tinha que fazer! Como alguém como ela fica noiva dele?
“Abigail
Somos de famílias tradicionais, ela é minha noiva a mais de sete anos apesar de eu a conhecê-la há apenas três anos. Acordos em famílias podemos dizer, ainda que eu ache isso um tanto retrógada.
Mas como já deve ter percebido papai não é o tipo de pessoa que muda de opinião com facilidade.
Ps.: Não se preocupe, eu não nunca me zango, na verdade é tão raro que se acaso um dia acontecer saberá imediatamente. Infelizmente tenho alguns dos maus hábitos dos Augustinis, mas estão bem trancafiados. Rsrs
Ps².: Se isso é bajulação por causa de aumento, sugiro buscar o significado pro nome Xavier.
Atenciosamente Vintent”
Ohh minha nossa, eu estou conseguindo?! Ele está se soltando, cada vez mais palavras aparecem, até mesmo o formalismo de pouquinho em pouquinho está sumindo ou será minha imaginação por estar ansiosa demais? E esse sarcasmo ao final? E o ‘rsrs’? Esfreguei as mãos respirando fundo. O que será que ele quis dizer com os maus hábitos da família? Será que quer dizer que quando está com raiva fica como o pai? Tenho que escrever mais, me comunicar mais com ele.
“Vincent
Não preciso de aumento, levando para o humor seu pai paga muito bem quem toma conta de você!
Mas que barra, chefe! Casamento forçado em pleno século XXI!
Vou torcer para que dê tudo certo e o senhor encontre um meio.
Já que tocou no assunto Xavier, sabia que ele apanhou do marido da senhora da cantina? Ouvi dizer que ele deu em cima dela na maior cara dura! Se eu pedir aumento a ele com certeza vai sugerir um convite malicioso na conversa!
Então, não, prefiro ficar sem saber o significado do nome dele.
Bajular o senhor é bem menos nocivo.
Ps.:Mas não pense que é mentira, a maioria das ideias que saem daqui não são suas? Seu nome é bem próprio.
Atenciosamente Aigail”
Sentada na lanchonete eu anotava em um papel os possíveis tópicos a serem abordador em nossa rotineira conversa diria, o tempo passava, tudo era a passo de tartaruga, mas cheguei a conclusão que o pouco até que me satisfazia. Nem parecia que eu tinha dormido mal por que a minha linda irmã ficou tocando aquele violino maldito até as três da manhã.
—Forçado? Isso é sério?—Perguntou Vic e eu confirmei.
—Ele disse, a família é bem tradicional, o acordo já está aí há muito tempo e o pai dele sendo do jeito que é acho muito difícil que consiga se livrar disso coitado.—Murmurei sem tirar os olhos do papel.
—Não acha que está dando atenção demais pra isso Abby?—Perguntou uma delas.
—Nada, querem saber é meio que divertido, tenho a impressão de que de passo em passo eu estou conseguindo fazê-lo se tornar meu amigo.—Revidei sorrindo.
—Você tem uma paciência monstra minha amiga, esperar todo dia pra trocar recadinhos com o chefe sendo que ele está na sala ao lado? Pelos céus, eu já teria desistido!—Falou Vic com escarnio e eu sorri, até que entendo o ponto de vista dela.
—Querida quem convive com uma mãe avoada como a minha e uma irmã mais nova tocando música de funeral até as três horas da manhã, com certeza faz isso aqui...—Mostrei os papeis de ideias pra o que falar com ele.—...Parecer o menor dos problemas, alias é até mais produtivo, por que acho que estou chegando a algum lugar, coisa que não está acontecendo em casa!—Retruquei e elas me jogaram um olhar de pena.
—Está tão difícil assim por lá?—Suspirei pesado.
—Eu não sei o que fazer gente, Su me xinga de tudo só de eu falar ‘oi’ pra ela, mamãe fingi que está no país das maravilhas e aquela gata maldita conseguiu quebrar oito copos e rasgou dois dos meus lençóis que eu deixei no varal... Pior que se eu brigo com aquele animal, mamãe sai do mundo das maravilhas e vem discutir comigo que eu não deveria trata-la daquele jeito! Elas não tem um pingo de consciência que sou eu quem pago as contas e que o mínimo que eu mereço é gratidão!—Desabafei apertando o rosto com as mãos, era por essa razão que estava tão focada nas coisas com o chefe, é mais fácil tentar agir com um sociofóbico do que com minha própria família.
—Sai de casa Abby! Deixe elas se virarem pra ver o quanto você é importante lá!—Aconselhou Milena com o semblante preocupada.
—Se eu sair sabe o que vai acontecer? Mamãe vai hipotecar a casa de novo, Su vai vender o pouco que temos pra comprar seus caprichos e depois volta tudo para as minhas costas....—Dei leves tapas nos meu rosto sorrindo largo.—... Chega, chega, chega! Papai sempre dizia: Pensamento positivo não resolve problemas, mas te dar forças pra enfrenta-los!—Deixei os papeis de lado me concentrando na comida que a garçonete tinha me trazido. Yummy Yummy!
E fomos para o dia seguinte, minha rotina era bem simples, eu recebia as ordens de manhã e a atarde eu fazia tudo que estava na lista para entregar tudo antes das dezoito, pois meu expediente terminava às dezoito e meia.
“Abigail
Levando para o humor meu pai e meu irmão recebem muito bem as minhas custas, acho que um auxilio por mais caro que seja é o mínimo que podem fazer por mim, ainda que muitas vezes ele faz isso se tornar mais um fardo do que auxilio.
Isto é realmente sério? Ele sempre me pareceu tão profissional, nunca imaginei que fosse desse tipo de pessoa.
Agora entendo sua cortesia, passou do departamento de um abusador pra um fantasma, nada mal.
Ps: Nem todas, o outro departamento de criação as vezes trabalha por incrível que pareça.
Atenciosamente Vincent”
Ohhhh!!! Ohh!! Estou tendo um preenchimento súbito de alegria, essa sim é a primeira vez que temos uma troca de bilhetes informais, tipo, fofoca falando mal de forma amena. Mas ele está realmente se abrindo! Bati palmas muito, mas muito animada!! Respirei fundo, então vamos lá.
“Vincent
Não conheço seu irmão, mas me aparenta ser o que mais se parece com o seu pai.
Só que não fique assim achando que tem uma família complexa, acredite ficaria contente com a sua se conhecesse a minha.
Tenho uma irmã gótica com pseudo tendência suicida que toca violino pessimamente deixando a música de terror fazer qualquer pessoa que desejar desesperadamente morrer... Não me pergunte como ainda não cortei os pulsos.
Minha mãe assiste novelas mexicanas o dia inteiro deixando tudo pegar fogo na cozinha por ser distraída e deixe-me completar com nossa maldita gata. A felina do mal que faz minha mãe matar a família inteira de fome antes dela mesma ficar.
Como pode ver, sua família é bem normal e agradável! Levante as mãos para o céu e diga: Amém!
Sobre Xavier, sorte sua não ser uma mulher Vincent ou ele já teria entrado na sua sala e sabendo do seu problema usaria isso a favor dele, acredite, ele não é flor que se cheire.
Por trás da feiura de velho ranzinza tem um tarado golpista!
Ps: Imagino que as ideias para papeis higiênicos e camisinhas venham deles, por que são coisas de pessoas sem nada na cabeça.
Atenciosamente Abigail”
Vou dizer, era meio carente o fato de eu ficar tão empolgada com o bilhetes, mas eu não conseguia parar. Dia pós dia e lá estava eu esperando uma resposta.
“Abigail
Por incrível que pareça meu irmão é bem parecido com a minha mãe, só o porte físico rustico do meu pai... Dizem que eu pareço mais com ele, porém acho loucura.
Só tenho uma coisa a lhe dizer: Sua família é uma benção.
Nenhuma música de morte vinda da sua irmã rebelde ou o desleixo demasiado da sua mãe compensa um dia na casa dos Augustini, vai por mim!
Neste caso não fique perto dele, viu?!
Ps.:Você viu aquilo?! Eu disse ao meu pai que era loucura, mas ele disse que eu não conhecia as pessoas pra falar que a ideia era ruim. Porém a propaganda que saiu foi de tão mal gosto que tenho certeza que vai nos afetar! O que camisinhas tem a ver com deserto do Saara? E coelho com papel higiênico? Você vai ver como isso vai cair tudo em cima de mim depois!
Atenciosamente Vincent”
Os bilhetes? Passaram disso a se tornar mensagens longas, sempre do mesmo jeito, uma por dia, de três a quatro os assuntos se variaram até mesmo a coisas que nós dois nem tínhamos nada a ver. Dia pós dia, semana pós semana até que se tornou um mês, sem nada modificar. Apenas as palavras e as liberdades de se falar mais abertamente.
Quando dei por mim percebi que dois meses tinham se passado e as mensagens se tornaram cartas longas e tudo que eu fazia pela manhã eram lê-las com cautela.
—Não acha que está com problemas maiores pra resolver? Noivado, família, financeiro? Está fazendo dessa troca de cartinhas uma rotina, se apegando a uma coisa inútil!—Disse Vic, ela estava mais zangada por que não quis sair essa semana com elas.
—Gente está dando certo...
—Não está!!—Insistiu Milena.—Você está deixando as coisas de lado pra ficar trocando cartas com ele!
—Não estou não! Pelo amor de Deus será que não entendem que as coisas com ele devem ser tijolo por tijolo? Um deslize e ele não fala mais comigo!—Vic riu com deboche.
—Falar? Ele alguma vez falou com você? Isso aí nem de longe é estabelecimento de amizade, é só um cara solitário que achou outra solitária com problemas com quem discute besteiras sem andar pra frente!!—Juntei as sobrancelhas a fitando zangada.
—Isso não é verdade! Ele é meu amigo! E eu estou andando pra frente!
—Seu amigo uma ova, diga ‘oi’ para aquele maluco e ele ai sair correndo como faz com todo mundo! A questão é que você não é doida! Não precisa ficar presa no mesmo lugar achando que só conversar sobre os problemas vai resolvê-lo, você não é rica como ele, não pode ter esse luxo ou se esqueceu que tem casa pra voltar, família pra consertar e um noivo esquisito que não se percebeu, mas começou a fazer amizade com os seres estranhos daqui!—Mirei Ed ao longe conversando com dois dos responsáveis pelos design que, é todo mundo sabia que eram gays.
—Não quero ouvir isso, eu vou resolver meus problemas quando der, o que posso fazer quando a minha família? Elas decidiram entrar nessa, o jeito é esperar cair a ficha...—Olhei no relógio ainda não era hora de voltar, mas eu queria.—Vou provar que estão erradas!—Andei de volta pro departamento.
Olhando para a porta escura, um medo me sucumbiu que no ato de tentar fazer algo como bater fizesse tudo desmoronar sobre mim. Mas eu tinha uma carta de quase três folhas nas mãos, como se tivéssemos conversado por horas, então eu deveria avançar mais um pouco não? Eu poderia, certo?
Com as mãos tremulas escrevi em poucas linhas, não a resposta da carta, mas nervosamente o que poderia acontecer a partir do dia seguinte.
“Vincent
Além de meu chefe eu o considero um amigo. É estranho perceber isso sendo que mal me recordo do som de sua voz.
Não gostaria de tentar uma conversa?
Eu prometo tentar ao máximo não te assustar.
Atenciosamente Abigail”
Onde foi parar toda minha coragem? Que diferença faria se a resposta fosse negativa? Talvez as meninas tenham razão, todo esse nervosismo que parecia ter sido absorvido dele estava me fazendo ficar com medo também, medo do que pensaria, medo de não haver uma resposta, medo de eu não ter lugar para onde fugir da droga em que eu vivia... Ao invés de colocar o bilhete onde sempre deixava para ele ler eu fiquei ali... Sentada na cadeira depois das sete, das oito, das nove... Com o rosto deitado na mesa.
Quando eu chegar em casa mamãe fingiria que eu não existia, Su diria que eu não presto e que roubei o dinheiro da família, a gata me sorria querendo dizer guardei uma surpresinha na cozinha... Tudo estaria bagunçado, eu teria que arrumar a casa, preparar minha própria comida se quisesse comer, Ed estaria em um bar com uns amigos gays, as meninas estão com raiva de mim e meu chefe provavelmente só queria saber se eu tinha comprado suas coisas direito..... Qual filosofia você usaria pra isso papai?
Vic tem razão, eu me sinto solitária, sinto falta da presença do meu pai dizendo que vai me ajudar a consertar tudo... O otimismo dele era tão contagiante, por que não herdei isso?
Eu dormi ali mesmo, olhando as paredes brancas com o rosto deitado em cima dos papeis pensando na vida ou no que ela deveria significar.
Senti uns cutucões bem de leve sobre a cabeça o que me obrigou a despertar, a imagem da parede me deixou perplexa como se agora sim eu tivesse voltado ao meu estado natural de Abby decidida. Levantei o rosto incrédula e com muito sono vendo o corpo escolhido com uma mão quase escondida acenando. Obvio que ele não me olhava nos olhos, mantinha a cabeça baixa e os lábios trêmulos saindo sons sem sentido.
—Bom dia Vincent, pareceu que eu....—Uff me estiquei sentindo minha coluna estalar dolorida.--... Não acredito que dormi aqui! Eu já vou buscar seu chá!—Olhei pro relógio e já era sete e meia.
Antes que ele respondesse se é que ele iria conseguir responder, eu corri até a cantina, mirei os lados depois do pedido dando uma cheirada embaixo dos braços inconspícuo, eca, se quer tomei banho ontem. Mas não estava com mau cheiro exalando, talvez estivesse apenas preso na roupa.
Bati na porta sem medo de represaria, ele não falava, por que eu iria ter medo do que iria pensar... A noite ali mesmo que incomoda, me fez refletir isso, eu não posso me deixar vencer, não agora.
—Não se preocupe, não se preocupe, eu só vim deixar seu chá e prometo que não vou importuná-lo!
É ridículo não é? Mas é a primeira vez que observei o que havia naquela sala além da mesa escura de madeira, só que agora eu notei como as paredes eram bem decoradas era como um céu de noite cheio de estrelas espaçadas com algo estranho como nuvens espalhadas no entardecer do sol formando uma espécie de olho que tinha azul clara em torno de um no meio quase rosa, é difícil descrever, mas era tão em pintado que sei lá, quase bati na mesa por estar distraída olhando aquilo.
Ele se encolheu na cadeira e eu coloquei o chá pra ele.
—Viu?! Eu não mordo! Não vou te pressionar!—Disse de forma amena sentindo um bocejo querer sair. Coloquei a mão na boca girando os olhos por um momento, que sono!
—O-obrigado.—Disse a voz baixinha atrás de mim. Sorri pra ele.
—De nada.—Voltei minha atenção para aquela coisa linda que parecia um desenho no céu anoite.—Só uma perguntinha, juro que é só essa que vou fazer pra não te incomodar, posso?—Ele abaixou o rosto acenando que sim.—O que é isso? Ou é surrealista?—Apontei para o desenho, o chefe deu uma rápida olhada para o que eu apontava.
—N-n-não ex-exatamente....—Ele vez uma pausa respirando fundo.—....É a-a nebulosa de H-Helix.—Respondeu nervoso e eu voltei a analisar.
—Nebulosa? Tipo coisas do espaço, não é?—Apenas concordou com a cabeça, olhei pra um quadro na parede quase de uns cinquenta centímetros de largura e comprimento, espera esse eu conheço.—Já sei! É Vênus, não é?—Perguntei ao chefe que percebi que soltou um sorrisinho como se uma criança tivesse acertado uma resposta obvia.
—S-sim!—Eu fiquei pensando.... Se eu conversasse com ele poderia dar um problema? Respirei fundo criando coragem para vencer o medo, eu vou com calma, assim ele não vai ficar com medo de mim.
—Sabe como eu sei? No ensino médio fizemos uma apresentação sobre planetas e seus simbolismo, minha colega ficou com Vênus, ela se achou tanto por ter sido escolhida pra ser a deusa do amor e da beleza que fez uma apresentação quase perfeita se aquele paninho branco grego não tivesse caído...—contei olhando para o quadro, papai foi quem me ajudou a decorar o meu papel.—...Eu fui a lua.—Murmurei mais pra mim mesma do que contando a ele.
—L-l-lu-lua não é-é-é um planeta.—Me virei sorrindo ao ouvi-lo.
—Ahh eu disse isso a todo mundo no final, mas eu gostei. Mas por que Vênus?—De cabeça baixa ele tragou saliva.
—E-eu odeio Vênus, só que foi presente da minha mãe.—Me aproximei da mesa curiosa.
—Por que odeia? É o planeta do amor, pode aproximar você e a Sasha!—Brinquei, só que ele não gostou.
—M-mas um m-motivo pra odiar...—Murmurou apertando as próprias mãos.
—Quer que eu saia? Eu não quero que você fuja se eu sem perceber te importunar...—Usei meu melhor timbre tentando ser bem cautelosa. Ele se contorceu um pouco sem responder... Isso é bom ou ruim?
—S-s-se-se v-você estiver cansada, p-p-pode tirar o dia de folga.—Ele falou tão baixinho que quase não ouvi.
—Ohh não, dormi aqui pra não voltar pra casa, deixe me trabalhar fedida hoje, vai?!
Eu fiquei perplexa, estática, incrédula tudo que você imaginar nesse sentido quando ele, sim o chefe, Vincent que quase nunca falava ou eu via sorriu, não um sorrisinho tímido sem som, mas um riso audível mostrando os dentes e o som da voz sair. Eu fiquei tão extasiada com o que acabou de acontecer que a única pergunta que surgiu na minha cabeça foi.... COMO EU FAÇO ISSO DE NOVO?!!
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