In Your World
5 Capitulo Cinco - Plutão
Notas iniciais

Com as mãos apoiando o rosto olhando para a parede do bar eu pensava: Não acredito que eu consegui fazê-lo rir. Desde que o conheci jamais tinha o visto rir daquele jeito, não era apenas um sorriso tímido escondido como sempre dava, era um riso do tipo que faz seu nariz se enrugar e seu ombros mexerem ao som melodioso de uma risada ainda que baixa entrar em seus ouvidos.
Bebi um gole da cerveja pensativa, eu sentia como se tivesse superado a barreira das cartas, havia uma liberdade dentro de mim dizendo que agora eu posso falar com ele, pelo menos é isso que acho.
—Ahh vamos brindar senhoritas!—Acenei para minhas duas amigas que me fitaram um tanto ressentidas.—Primeiro um brinde por vocês, para me desculpar, segundo por eu achar que realmente as coisas estão tendo um rumo!—Cada uma se sentou em um do meu lado.
—Ainda com a ideia do se aproximar do chefe...—Nem esperei Vic terminar.
—Estamos conversando agora!—Revidei tomando um gole enquanto elas ficaram pasmas.
—Estão? Tipo como nós estamos agora?—Perguntou Milena e eu encolhi os ombros.
—Não como estamos conversando, mas ele responde, já é um avanço!—Por alguma razão elas se entreolharam quase que jogando mensagens através dos olhares uma para a outra.
—Ele é bonito Abby?—Girei os olhos fitando o teto procurando a razão. Eu não sei se de fato ele é bonito, na festa ele estava lindo todo charmoso, mas no dia a dia veste o que me parece uma roupa velha os cabelos são mal penteados puxados pra frente tapando até a altura dos olhos e a barba dele já estava crescida de novo.
—Quando quer, fica muito bonito!—Revidei suspirando, essa era a resposta mais própria.—Por que?—As olhadinhas delas me deixou curiosa.
—Érrr nada! É que eu e a Milena achamos que exageramos, você tem razão, caramba é uma amizade entre vocês nascendo não é?—Respondeu Vic com um sorriso suspeito.
—Sim, é uma coisa boa que estão se tornando amigos, eu e a Vic nem podemos ser amiga do Xavier, por que...Érr... Bom vocês sabem.—Sorri concordando, bom eu estava tão feliz que não me importei se aquilo foi esquisito ou não.
—O que vai fazer amanhã? É sábado, quer ir pra minha casa?—Suspirei pesada muito tentada a aceitar.
—Não, você tinha razão Vic, está na hora de voltar pra realidade, as cartinhas com o chefe não vão consertar o aquecedor, nem pagar os copos da cozinha e muito menos as dividas da mamãe! Amanhã eu vou cortar tudo, sei que as duas vão me odiar, mas vou cortar todos os vínculos com supermercado, loja de roupa e aquele maldito pet shop!—Como papai tinha uma conta nesses lugares as duas sempre iam lá e comprava fiado e tudo voltava para casa e eu tinha que pagar.—Fora que eu vou dar uma geral em casa.—É a vida é dura, eu não tenho o luxo do Vincent de pertencer a uma família rica ou muito menos ter uma mente que vale muita grana.
—Ainda acho que você deveria chutar o balde e sumir dali!—Concordei sem realmente concordar que faria.
Eu fiz o que devia, fechei todas as contas desses lugares dizendo que se mais uma coisa fosse vendida fiado ia ficar sem pagar, pois como o dinheiro que entrava era meu, eu mesma não iria pagar. Pensei em contar as duas, mas quero que elas vejam isso por si própria, que sem a bobona aqui pra pagar, nada entra naquela casa. A gata? Não vai comer mais caviar, a ração será da barata e olha lá, está passando da hora de eu controlar a situação por aqui.
—ABBY!!!!—Gritou a primeira que descobriu, a descontrolada da minha irmã.—Por que você fechou conta do papai!?!!?—Questionou furiosa abrindo a porta do meu quarto com violência.
—Pra começar por que ele morreu e não está entre nós pra pagá-la.—Revidei futricando no celular arrumando meu horário.—E para terminar eu não vou mais pagar seus caprichos, principalmente comida pros seus amigos idiotas!—Ela bufou de raiva.
—Você não tem o direito de fazer isso!!! O dinheiro é do papai!!—Me levantei da cama zangada já dessa historia de que eu estava com o dinheiro da família.
—O dinheiro do papai já evaporou, mamãe emprestou uma parte pras tias e a outra foi pra pagar hipoteca, não tem mais herança sua pirralha. Se realmente acha que tem por que não pede pra mamãe hein!? Ela também tinha autorização de mexer nele, vá lá! Mas não me encha o saco, eu ainda pago sua comida, água e luz!! Fique grata por isso!—Respondi respirando fundo a vendo bufar quase cuspindo de tanta raiva.
—MENTIRA!!! Eu quero minha parte!—Girei os olhos impaciente. Eu mereço.
—Não sonha Su, se quer alguma coisa tenta tirar da mamãe.—Voltei meu olhar pro celular e a doida empurrou todas as minhas coisas da penteadeira no chão....
Sabe quando você sente aquela raiva tomar seu corpo e você quer muito usar a força física para tirar ela toda de si? Eu a senti, queria ter batido nela, mas a imagem do papai me veio em mente... Respirei fundo dizendo inúmeras vezes na minha cabeça Calma Abby, tenha calma e guardei tudo dentro de mim. Meu único perfume quebrado no chão, meu estojo de sombras arrancou metade delas e felizmente o resto da maquiagem e hidratantes não aconteceu nada.
Ela saiu e eu fiquei ali olhando para o chão. Lembrei do chefe, sempre vivendo ali em seu mundinho sem nunca precisar passar por isso com a sua familia por que sua mente valia muito dinheiro, a minha parecia naquele momento não valer nada. A ironia era que eu só aceitei esse cargo por causa delas, pra ninguém precisar passar necessidade... Sério....Eu quero muito saber onde é que eu estou errando? O que foi que eu fiz afinal pra minha família chegar a esse estado?
Devia ter aceitado o convite da Vic.
Quando o final de semana finalmente acabou ao contrário dos trabalhadores normais eu estava aliviada, tipo, aliviada mesmo, tanto que cheguei quase uma hora e meia mais cedo. Não por que queria trabalhar e sim por que estando ali é menos tenso do que na minha própria casa.
—Bom dia Vincent!—Levei o chá bem cautelosamente.
Lá estava ele de suéter preto cheio de pluminhas e uma calça jeans escura suja de tinta, quem o vê pensa que é mais pobre que eu. Estava concentrado em uns papeis sobre a mesa escrevendo e desenhando varias coisas...A cabeça dele deve ser bem complicada.
—B-bom dia. Obrigado.—Agradeceu pegando xicara afastando os papeis como se estivesse dando um tempo no trabalho, eu fiquei ali parada pensando em algo para conversar, eu queria muito conversar com ele.
—Como foi seu final de semana?—Abaixou o rosto meio sem graça.
—O-o de sempre.—Sorri largo com escarnio.
—E o que seria isso? Você assistindo televisão ou lendo livros sobre astronomia?—Percebi que sorriu tímido ajeitando os óculos.
—G-geralmente eu compro u-uma coleção de algo para assistir.—Respondeu um pouco com a voz tremula.
—E o dessa semana foi o que? Star Wars?—Disse a primeira coisa que me veio a cabeça.
—Não! Foram documentários sobre o fundo do mar.
Pela primeira vez não gaguejou o que me fez sorrir contente. Pensei em sair já que parecia que o assunto tinha morrido, mas comecei a observá-lo, abria os lábios com frequência girando os olhos nervoso, é como se na mente dele tivesse algo querendo sair, só que a falta de coragem não deixava.
—Deve ser uma paz não é?!—Murmurei para ele que levantou os olhos sem mover a cabeça, parecia querer que eu desse continuidade, pois não tinha entendido.—Digo, seus finais de semana. Só você e o que deseja fazer pela frente, então você chega em casa sente aquele cheiro que chama só de seu, senta em seu sofá e fica ali... Por dois dias só você no seu próprio mundo que pelas coisas que pinta deve ser fantástico.—Expliquei cerrando os olhos depois de ter ficado um tempo olhando para a nebulosa pintada na parede.
Então um dia você acorda e diz “quero ter o universo dentro do meu quarto” pronto, um pouco de tinta e talento e lá ele tem um universo desenhado onde sempre que abrir os olhos pela manhã poderá ver.
Isso por que imagino que a casa dele seja cheia dessas coisas.
—V-v-você guardaria um-um-um segredo?—Girei o corpo pasma, Vincent realmente disse algo sem eu perguntar? E falando em segredo? Ele parecia mais nervoso que antes.
—Claro. Pode me contar qualquer coisa.—Negou respirando fundo e finalmente se levantando da cadeira.
—N-não conte a ninguém o que vou lhe mostrar.—Uhhh acenei que sim fazendo X com os indicadores e beijando.
—Juro, por tudo que nunca vou contar.—Andou e acenou para eu o seguir.
Andamos pela empresa apressadamente descendo até o primeiro andar, eu o segui em passos rápidos me questionando o que era isso e por que ele queria me mostrar. Será que é devido a finalmente me considerar sua amiga? Só de pensar nisso meu coração se acelerou de alegria, eu o via como uma pessoa muito pura, era como ter o afeto de uma criança tímida apesar de ter quase um metro e oitenta ou mais.
Chegamos a um lugar que até onde sabia estava desativado até que vi aquele desenho enorme na parede que com certeza era dele, os traços eram dele. Tirou uma chave do bolso destrancando a porta ao fundo daquele corredor me acenando para entrar...
O que eu vi? Eu não sei descrever. Sério, eu realmente não sei. Vou tentar.
Era uma sala com quatro puffs brancos sujos de tinta, de um lado uma mesa com computador cafeteira e livros, do outro lado vários quadros de imagens diversas, nuvens, paisagens, planetas, estrelas, o céu ao entardecer... Parecia uma coleção, então eu fechei os olhos por um instante enquanto pensava, precisava fazer isso para buscar no fundo da minha imaginação o por que uma pessoa faria aquilo e queria me mostrar aquilo.
Para muitos seria só mais uma sala bagunçada com coisas sem sentido, mas eu acho entendi.
Talvez fosse essa a visão de paz que ele tinha.
Um dia estressante... Ele vem pra cá e imagina tudo que possa te dar tranquilidade, aquilo que o faz sentir que seu próprio mundo estava estabilizado.
Abri os olhos sorrindo.
—Eu posso?—Acenei pro puff e ainda nervoso fez que sim. Sentei-me lá respirando fundo. Qual é minha visão de paz? Ela não me veio, mas eu fiquei contente mesmo assim.—Somos amigos, não é?—Disse notando que Vincent tinha se sentado perto. Apenas concordou com a cabeça apertando as mãos.—Não se preocupe, eu não vou contar a ninguém! Nem sob tortura psicológica do seu pai!—De novo, ele riu daquele mesmo jeitinho de antes e de repente meu dia começou a valer a pena.—Me diga do que normalmente acha graça suficiente para rir assim?—Mexeu os ombros abaixando o rosto com um quase ‘sei lá’ saindo dos lábios.—Ownn diga! Você tem um sorriso tão bonito!—Deu para notar de longe que o elogio o fez corar e o deixar super nervoso, esperei um pouco ele se acalmar pra completar.—Não é bem acostumado a receber gracejos, não é?—Negou repetidamente com a cabeça, com um pai e noiva daquela aquilo não me espanta.—Tudo bem, então só vou fazer quando achar que está pronto pra ouvir, está bem?—Por rápidos instantes ele me encarou, lançou aquelas safiras sobre os meus tijolos sem graça e acho que dessa vez quem corou fui eu.
—É-é-é-é melhor vol-voltarmos, meu pa-pai chegou ontem.—Uhh até senti um arrepiado na espinha.
Saímos de lá e eu fiquei cogitando sobre as funções da família Augustini aqui, Vincent era criação, o irmão até onde eu sei era contador e o pai o dono, mas ficava sempre com a parte de ir atrás dos clientes e por isso viajava tanto.
Naquele dia eu se quer vi o Edgar, esperava vê-lo já que no final de semana isso não ocorreu, tendo tido impressão de que estamos nos afastando e em um momento tõ critico como esse eu odiaria que isso acontecesse.
Mas eu estava com problemas maiores, bem maiores em casa, assim que coloquei o pé lá dentro o fedor pavoroso de peixe podre enfiar sem permissão pelo meu nariz, fiz nsia de vomito percebendo a Fifi rir da minha cara na porta, ela deve ter feito algo só pode.
—Argh!—Tapei o nariz no mesmo tempo.—Mãe!—A chamei procurando o peixe morto que aquela maldita tinha trazido, mas percebi que não foi bem ela que trouxe e sim era a companhia estranha da minha mãe.
—Ohh Abby! Que bom que já chegou, esse é o Ferdinando!—O senhor barbudo com um sorriso tímido no rosto se levantou erguendo a mão. Tirei a mão do nariz sorrindo sem graça evitando respirar e vomitar nele mesmo.
—Prazer!—Apertei não aguentando mais segurar o folego.—Onde se conheceram?—Mamãe sorriu largo.
—Fifi atravessou na minha frente e roubou um dos peixes dele, pense só que gata levada! Ele sendo muito atencioso nem cobrou, pois eu não tinha levado dinheiro.—Não tinha, como ia levar?
—Sei...—Mirei a gata imaginando que isso foi tudo planejado, pois o sorriso bobo da minha mãe sugeria uma aproximação perigosa.—... Então, quando custa?—Peguei minha carteira louca pra ele ir embora logo, eu ia ter um troço com aquele fedor.
—Ahh não! Imagina! Eu não vou cobrar de uma senhorita tão simpática que me fez um café tão delicioso.—Eca, eles se entreolharam carinhosos e eu fitei aquela gata, ela fez de proposito eu sei que fez!!
—Okay, então... Vou pro meu quarto, bom café pra vocês às dezenove horas quando na verdade deveríamos estar jantando.—Revidei sentindo meu estomago roncar, e na brincadeira amorosa com o peixeiro fiquei sem comer por causa do embrulho no estomago.
Eu penso: Não pode piorar, ahhh meus caros não duvide, nunca duvide, sempre pode piorar, SEMPRE. Pelo menos ela não me encheu o saco com a coisa das compras fiadas. Será que ela não sente aquele cheiro? Como consegue ficar perto dele daquele jeito?
Se eu dormi? Dormi, muito mal, pois as três da manhã, achei que estava dormindo ao lado do free Willy.
E então pensei: Ahhhh o trabalho, felizmente, eu não posso, não quero, nem preciso fugir dele.
Sentei na cadeira sorridente sentindo o cheiro do ar condicionado ambiente, tudo tão recém limpado em seu seus lugares exalando o aroma do desinfetante, meu chefe chegando logo em seguida com cheiro de sabonete, shampoo e um fraco aroma de desodorante abafado no moletom.... Meu Deus eu nunca tinha percebido como o olfato era um dom tão maravilhoso!
—B-bom dia.—Me levantei sorridente .
—Bom dia! Como o dia está cheiroso não acha?—Ele riu!? Logo pela manhã eu consegui! UAU é um recorde, pronto ganhei meu dia de novo!
—E-eu n-não sei...—Ainda com um sorriso no rosto puxou o ar pelas narinas voltando rir.—...Parece n-normal pra mim.—Alarguei o sorriso dando um leve tapa em seu ombro.
—Durma numa lata de sardinha perceberá o mundo mais cheiroso!—Ainda cabisbaixo franziu o cenho ajeitando os óculos.
—Você do-dormiu em uma?—Eu ia responder, mas lembrei que não peguei o chá dele.
—Entre, vou pegar seu chá e já volto pra fofocar com você!—UHUU ele riu de novo! Dois! É meu recorde!
Assim que voltei contei a ele sobre o plano maquiavélico da gata, minha dedução mais forte era que ela tinha sido mascote do Hitler ou algum outro ditador malvado que senti prazer em torturar as pessoas. Talvez contei sobre o pesadelo.
—Isso pareceu meio zoofilico, não é?!—Morram de inveja pessoas da terra, eu arranquei quatro risos até agora com esse que colocou a mão na boca para se conter.
—D-depende, a orca só estava deitada?—Eu dei uma risada.
—Sim, mas eu esta nua, então isso não ajuda muito.—Cinco!!! Ele riu de novo, own eu estou me viciando nas tentativas de fazê-lo rir, mesmo que a custa de mentiras.
De repente um bater estrondoso na porta nos assustou e a figura enorme do pai dele ao lado de outro homem que não tinha ideia de quem era adentrou o escritório. O velho aparentava não ser muito mais velho que o pai do Vincent.
—Vincent! Olha só quem veio te visitar!—Seu sorriso como se fosse uma pessoa normal quase me fez esquecer que era um homem extremamente grosseiro e estupido. Ao invés de ficar contente e ir até o desconhecido, meu chefinho medroso se levantou indo para trás da cadeira acenando sutilmente.
—O-o-olá...B-b-bom re-ve-lo...—Silabou tremulo, será que existe alguém na face da terra cujo ele não tenha medo?
—Eu que devo dizer isso! Venha cá, não seja tímido futuro genro!—Ahh ele é pai da Sasha, ainda sim o chefe não foi até ele o que fez o senhor Bartolomeo fazer uma carranca de tão zangado.
—Vincent dê um abraço no homem!—Pude até ouvir quando ele engoliu seco andando vagarosamente até o sogro dando o abraço mais esquisito que já vi... Tipo, ele virou o rosto erguendo os braços tentando não manter contato com o dorso do outro como se o pobre velho tivesse uma doença. Cocei a nuca, eu não sei se tinha pena ou impaciência com o que via.
Quero dizer, pensem comigo, o cara vai se casar com uma mulher que tem medo, fará parte de uma família que mal consegue cumprimentar, afinal será que eu sou a única que enxerga que isso não vai dar certo? Será que os dois já se tocaram alguma vez? Por que eu duvido.
—Você deve ser a auxiliar.—Afirmei quando o senhor veio a mim.
—Sim senhor, sou Abigail a nova auxiliar.—Apertei sua mão e ele pareceu me olhar de um jeito curioso.
—Impressão minha ou estavam conversando?—Mirei o chão um pouco confusa com a pergunta, na verdade com a razão pela qual ele queria saber disso.
—Érr... Sim, estávamos conversando.—Respondi um pouco incerta, o poderoso chefão me olhou com certo desdém. Se virou para Vincent que apertou as mãos nervoso.
—Sobre o que falavam?—Como ele perguntou pra ele achei melhor ficar quieta, porém isso o deixou mais nervoso ainda.
—N-n-n-nada!—Disse com dificuldade e eu não aguentei quando percebi que o pai dele ia brigar com ele.
—Escu...
—Eu estava apenas amolando ele com meus problemas de vida, o chefe é um ótimo ouvinte!—Interrompe o chefão que me fitou com mais desprezo ainda. Que droga, eu nunca acertava com esse cara?
—Quer dizer que com a auxiliar insignificante você já consegue conversar, mas quando é sua noiva você foge pela janela? –Hey! Insignificante não! Eu ia protestar, só que não dá pra perder o emprego agora.
—Deixe, Bart, deixe...Vamos conversar lá fora sim?!—O sogro do Vincent tomou a frente e não demorou muito logo saíram.
Quando a porta se fechou ele suspirou aliviado, comecei a pensar no que o pai dele tinha dito.... Okay, eu fiz um sacrificiosinho que demorou bastante, deixe-me fazer as contas...Uns dois meses e meio? Algo por aí ou mais, para sairmos do formal e termos um conversa social informal. Mas a Sasha tinha o que? Três anos? Ela é linda e charmosa e ainda sim ele tem mais medo dela do que de mim?
—Até que seu pai tem razão Vincent, a Sasha é um mulherão devia se esforçar um pouco, não concorda?—Ele não chegou a me olhar só fez um som de desagrado voltando para a cadeira.
—A beleza é fugaz, um dia a parte que todos me dizem para apreciar acaba e o que restará? Só a péssima personalidade dela que eu terei que conviver.—Sim, ele disse isso sério sem gaguejar, até assustei e fiquei sem palavras.
—Bom, isso é verdade.—Consegui apenas dizer isso percebendo que novamente ele ficou nervoso, voltando ao velho Vincent.—Mas você ao menos tentou?—Notei ele engolir seco.
—T-te-tentar como?—Arqueei uma sobrancelha.
—Jantar romântico, convidá-la para ir a algum lugar, assistir a um filme... Essas coisas, tentar se aproximar dela, não acha que evitaria problemas com seu pai?—Aconselhei, só que ele não pareceu gostar.
—M-me-meu pai já me-me obriga a fa-fazer isso todo mês.—Obriga? Pelo jeito que disse é realmente obrigar e vigiar pra ele não fugir.
Pensei no que se passava na cabeça dele para quando estar de frente para uma mulher bonita como a Sasha não conseguir se sentir satisfeito mesmo que só com a presença dela.
—Não tem medo que um dia alguém tire ela de você?—Percebi que ele sorriu de lado.
—Eu agradeceria se alguém fizesse isso.—Soltei uma risadinha, isso foi meio malvado da parte dele.
—Já teve uma conversa com ela...—Antes que eu terminasse a porta se abriu de novo o pai dele havia voltado.
—Combinei o jantar para as vinte horas, esteja lá faltando cinco para as vinte!—Disse sério e virou se para mim.—Já que gosta tanto de bater papo com essa auxiliar ordinária ela irá ficar de babá esta noite!—Ordinária? Ele me chamou de ordinária?
—Hey?! Esperai, que jantar é esse?—Ele me fitou com raiva.
—Pergunte a esse inútil, já que se entendem tão bem!—Fechou porta com violência.
—Eu fiz alguma coisa pra ele me odiar?—Não houve resposta.
Ahh claro, ele me contou sobre o jantar que seria para comemorar volta dos Jhoson, isso, acho que é esse o sobrenome da família da Sasha que pelo que me disse se chama Alexandra, estranho, não é? Por que afinal a chamam de Sasha? Mas a pergunta que não quer calar... O que droga eu vou fazer lá? Olhar a família conversar?
Entendo muito bem por que ninguém pega esse cargo.
Assedio moral, o chefe é doido, os parentes piores ainda e isso não contando com os afazeres inúteis que o Vincent podia muito bem fazer como comprar creme dental.
E lá fui eu novamente vestido branco com desenhos de borboletas escuras na parte de baixo subindo para o de cima, era em comportado e com uma meia calça preta junto a um sapato fechado eu fui buscar meu chefe.
Suspirei pesado buzinando lembrando da ultima vez que eu tinha vindo até aqui, a noite não foi uma das piores, mas eu não poderia dizer que tinha sido agradável e o que me esperava hoje não deveria ser muito diferente disso.
Quando ele saiu vestindo uma roupa social casual tão bem arrumado fiquei me perguntando: Se ele sabe se arrumar tão bem, por que não faz isso sempre? A resposta que encontrei foi: A ultima coisa que quer é chamar atenção. E eu tinha que admitir que quando se arrumava daquele jeito ele ficava muito bonito.
—Uhh está muito bonito chefe, respire fundo e tudo vai dar certo.—Disse ele quando entrou nervoso sem nem ao menos me cumprimentar. Às vezes ele fazia isso, quando ficava agitado demais simplesmente parava de falar e só acenava.
E se no carro estava nervoso, quando chegamos eu realmente achei que ele fosse ter um treco ali, tipo quando um computador é sobrecarregado e do nada apaga. Nem na festa da poison estava daquele jeito, mas de alguma forma ficar perto do que eu posso chamar de futura família parecia deixa-lo três vezes pior.
Eu? Fiquei sentada ao longe no bar do restaurante bebendo um suco de limão assistindo de longe seu semblante preocupado, seu corpo encolhido na cadeira, enquanto os presentes riam e batiam em suas costas dizendo coisas das quais ele parecia não estar afim de ouvir. Mesmo sua noiva ao seu lado não parecia se importar se aquilo o incomodava ou não, seu pai forçava a barra tentando o fazer falar e a sogra gordinha o tocava o braço enquanto ele tentava se afastar.
Eu me coloquei no lugar dele, já imaginou sentir isso? Um medo fora do comum das pessoas, da forma como o julgam, medo de falhar todo momento, um medo que te faz travar e simplesmente não consegue impedir isso de acontecer? Deve ser frustrante, cansativo...Angustiante.
Naquele momento, tudo que senti foi vontade de ajuda-lo, queria estar na mesa e sussurrar no seu ouvido como uma boa amiga: Vai dar tudo certo, eu estou aqui. Mas ali eu era apenas a auxiliar ordinária o vigiando para não fugir.
E de repente quando todo mundo estava comendo o nervosismo dele chegou em seu ápice, percebi que sua mãe tentou impedir que acontecesse, mas era tarde demais... Nem o gritos ou a violência do pai conseguiram evitar o desastre dele regurgitar no próprio prato.
É, eu sei, foi nojento, virei o rosto morrendo de dó dele. Ele vai levar maior bronca de todas.
Eu acho que nunca vi o senhor Augustini tão zangado quanto aquela hora quando estavam no banheiro e ele vociferava tão alto que dava para ouvir do bar do restaurante.
Inútil, imprestável, imbecil, idiota, marica, virgem e eu perdi a variedade das ofensas quando falou virgem por que fiquei pensando que um cara de vinte cinco anos virgem era meio estranho, embora no caso dele isso seja obvio. Mas o velho pegou tão pesado que a mãe do Vincent ficou brava e foi em defesa do filho.
Então eu lembrei da Su e dos problemas que eu tinha em casa, talvez a mente do Vincent valesse muito, mas até nas melhores ou piores família a ingratidão ou sei lá o que acontecia ocorresse em todo lugar com qualquer um. Mas Vincent tinha razão, nada que eu passe com a minha família pobre e esquisita compensa ficar junto dessa. Ainda que o chefe até seja uma boa pessoa.
—Querida leve ele daqui AGORA!—ordenou à senhora Sara puxando Vincent pelo braço como se fosse uma criança.—Vincent me escuta!—Ela segurou o rosto dele o obrigando a fita-la.—Não dê ouvidos ao seu pai, ele sabia muito bem o que ia acontecer se forças...
—Pare de protege-lo Sara! Não vê que isso é culpa sua!—Revidou ela furiosa enquanto o restaurante inteiro assistia a discussão. O que? Acharam que gente rica também não dá barraco? Estão por fora!
—Minha culpa? Você conhece os problemas do seu filho e age como um neandertal deixando ele pior, não vou permitir que brigue com meu bebê!—O velho tomou a frente.
—Bebê!??? Ele tem vinte e cinco anos mulher! Está na hora de decidir...
—Decidir o que? Você não o deixa decidir nada desde os dez ano...
—E quando ele decide algo, me diz?—E eu fiquei jogando ping-pong com os olhos cada vez que trocavam de fala.—Você vai com a sua noiva!—Puxou meu chefe pelo braço empurrando contra Sasha.
—Não! Chega de tortura por hoje! Leve o para casa Abigail!—Ela o empurrou contra mim e pela expressão dele estava apavorado.
—Não é tortura ficar com a noiva, vá com a Sasha!—Mais uma vez foi jogado pra ela.
—Não discuta comigo Bart! Ele vai pra casa!—E lá voltou ele pra cima de mim, certo Abigail, chega disso.
—El...
—CHEGA!—Gritei interrompendo os dois.—Vamos resolver isso como pessoas civilizadas!—Os dois me encararam e mesmo correndo o risco de perder o emprego respirei fundo olhando para Sasha.—Ele está passando mal, quer mesmo passar a noite com ele?—Claro que ela negou no mesmo momento e eu me virei pro senhor Bartolomeo.—Então está decidido, eu vou levar o Vincent pra casa e vocês se tiverem estomago voltam pra... Sei lá o que estavam tendo.—Revidei empinando o nariz.
—Voc...—Acho que ele ia dizer: está demitida, se a senhora Sara não intervisse.
—Atreva-se e eu passarei o resto do mês vestida!—HAN!? Como assim ‘vestida’? Eu não sei, mas colocou medo dele que fez uma careta como um cachorrinho sendo ameaçado e ter o osso tirado.
—Não exagere Sara, não é para tanto... Está bem, vá leve o daqui.—Mais do que depressa puxei o chefe pelo braço tirando ele daqui.
Pisquei inúmeras vezes olhando para a estrada incrédula de como um simples jantar pode terminar de forma tão catastrófica daquela maneira. Não me admira que o Sr. Jones tenha dado um enfarto, deve ter presenciado essa família maluca em ação.
Depois de um tempo engolindo tudo que fui perceber que tinha um Augustini bem ali do meu lado com um semblante desolado mordendo os lábios e olhos direcionados para o nada da rua... Dava para ver que estava bem triste, suas orbes chega estavam escuras. Ele tragava a saliva permitindo agora que os cabelos caíssem sobre o rosto.
Querem saber? Senti no peito uma enorme dor vendo aquilo, se conseguir fazê-lo sorrir era como ganhar o dia, acho que vê-lo assim causava um efeito reverso.
NÃO! Eu não vou deixar a noite dele terminar assim, muito menos a minha.
Dei a volta com o carro retornando para o centro da cidade, sorria largo, eu sei muito bem o que meu pai sugeriria em um momento como esse e era isso que eu faria e o obrigaria a fazer comigo, algo que animaria qualquer pessoa.
Não, não é isso seus pervertidos.
—Érr..V-v-você err-errou o caminho...—Murmurou assim que percebeu que estávamos caminho contrário da casa dele.
—Não mesmo, eu nunca erro esse caminho!—Disse sorrindo pra ele que infelizmente não tinha animo para ficar contente com a surpresa. Acho que só queria ir pra casa e se afundar em uma cama e quem sabe... Chorar. Tenho a impressão que seu olhos pediam isso.—Relaxa...—Disse apenas parando em um Fast food e pedindo dois Big Milkshake de chocolate.
O ar gélido embaraçando meus cabelos enquanto eu cerrava os olhos sentindo o vento bem fraquinho bater contra meu rosto, eu estava sentada nos últimos degraus da catedral que ficava na parte alta do município, ali dava para ver as luzes de cidade do restante da cidade sempre acesas e se olhasse para cima tinha um céu enorme cheio de estrelas... Eu sempre olhava a cidade, mas os olhos dele estava mais interessados na luzes de cima.
—Se sentindo melhor?—Perguntei o ouvindo tomar o milk-shake com vergonha de responder.—Meu pai costumava me trazer quando eu ficava triste, dizia que cada luz na cidade era uma pessoa com problemas e que enquanto a luz estivesse acesa significava que ela não tinha desistido.—Percebi um sorrisinho brotando em seus lábios.
—Me p-pa-parece alguém agradável de-de se conviver...—Murmurou baixinho e eu sorri.
—É, bastante...—Revidei sentindo uma pontada no peito com o fato de não conviver mais com ele.—...Você me mostrou seu pedacinho de paz então....Tcharan!—Falei em um timbre brincalhão apontando para a paisagem.—...Esse é o meu!—Respirei fundo o encarando mesmo que estivesse com o rosto baixo.—Não fica triste! Pense no lado bom!—O vi soltar um risinho amargo.
—Qu-qual?
—Não dormirá numa lata de sardinhas como eu!—UHUU! Ganhei um sorriso, talvez mais pela historia que tinha contado a ele mais cedo.
—Fa-faz sete anos que eu não tomo milk-shake....—Esbugalhei os olhos incrédula.
—Ta curtindo? Por que não?
—A-a ultima vez...Eu-eu derrubei em cima de alguém.... Eu-eu sei que-que você deve-deve achar tudo isso patético, todo-todo aquele escândalo no restaurante, é só que-que eu não consigo fazer dar certo...—Murmurou tristonho, era obvio que tudo aquilo doía nele. Não era como se ele quisesse ser daquele jeito.
—Não, eu não acho patético, na verdade eu acho que você é uma pessoa incrível com uma família doida.—E então ele olhou para mim mesmo com os cabelos sobre os olhos me lançou um sorriso tímido tentou dizer algo que ficou entalado na garganta, porém assim percebeu que não conseguiria dizer tornou a abaixar a cabeça envergonhado.
Eu acho que consegui ler seus pensamentos naquele momento, sorri voltando meu olhar para a cidade ao longe aproximando um pouco dele tomando o resto do milk-shake.
—De nada...—Sussurrei baixinho e não precisei fita-lo para saber que tinha sorrido.
Um sentimento estranho bateu em mim, quando eu estava cansada de toda aquela tensão de casa ele me mostrou uma parte privada dele em que sempre lhe trazia paz e agora eu dividia a minha parte quando os problemas familiares dele o atingiu.
Parecia até que naquela noite tínhamos descoberto um refugio amigável um no outro.
Bom pelo menos foi assim que EU me senti, como se eu estivesse encontrado um grande amigo em quem eu pudesse me esconder dos problemas.
Ou talvez, seja apenas a loucura dele sendo passada pra mim.
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