In Your World
9 Capitulo Nove - Terra
Notas iniciais
Capitulo Nove
Terra
Eu deveria estar nervosa, eu deveria estar me sentindo péssima com um horrível peso na consciência que me fizesse desejar me automutilar para aliviar a culpa de ter cometido tal crime. Não matei ninguém, porém eu não podia negar que o que tinha feito era extremamente errado e talvez fosse mais errado ainda não estar sentindo nenhum remorso e pensando na possibilidade de ser divertido uma vez mais.
Adultério, promiscuidade, fornicação e tenho para mim que posso inserir o pecado abuso de inocente. O chefe não parecia ter muita noção do que estava acontecendo até eu finalizar o ato.
Eu sei que parece loucura, mas durante o expediente fiquei no banheiro sentada no vaso sanitário forçando a minha mente a se sentir culpada, eu pensei no Edgar, pensei na Sasha, pensei nos pais do Edgar e no final de cada raciocínio autopunível eu acabava com um sorrisinho bobo no rosto.
De qualquer forma eu não poderia ficar ali a vida inteira, pensei em ver as meninas, porém no horário de expediente era bem capaz de levarem uma bronca do Xavier.
—Quando é a festa?—Entrei na sala do chefe suspirando, eu sei que agora deveria ficar o mais longe possível dele, mas... Ele é meu chefe e... Tenho que ser profissional.
—Festa?—Revidou com um tom de desagrado.
—É, ouvi você falando com sua mão sobre um aniversário... —Sentei na cadeira frente a ele.
—Ahh o aniversário da encosto, é verdade.—Agora fez uma careta mais desgostos ainda como se eu o tivesse lembrado de um pesadelo. Tirou os óculos de aros finos e suspirou.—Que droga, o aniversário...—Olhei para os lado querendo muito rir.
—O que vai dar pra ela?—Tornou colocar os óculos sério. Sim, esse é um lado que descobri e que me surpreendeu, Vincent é sério a maior parte do tempo, mas a timidez dele junto com sua falta de coragem dá leve impressão de ser maleável com a situação e avoado.
—Nada, tenho certeza que festa vai ser paga com meu dinheiro, isso basta.—Apertei os olhos.
—Vincent... É a sua noiva... —Confesso que essa frase saiu mais desanimada do que a de costume. Ele girou aquelas bolotas azuis na minha direção movendo o maxilar de um jeito que fazia parecer que estava pensando em algo malvado.—Você não vai me fazer comprar o presente dela, vai?—Dessa vez sorriu largo pra mim.
—Não, eu estava pensando em linguagem de sinais. —Arqueei sobrancelha. Tai outra coisa que me encabulou nele, sabe o que é uma pessoa relacionar coisas que não tem nada a ver uma com a outra? Ele faz isso o tempo todo. Eu falo que pão está gostoso e ele surge com assuntos da Etiópia.
—Linguagens de sinais? Vai dar um livro de linguagens de sinais a ela? —Ele gargalhou negando.
—Não! Esquece a historia do presente, eu não vou presentear a Alexandra, ela não merece!—Neguei acenando com a mão.
—Vamos os concentrar no assunto dos presentes?! Você tem que dar um presente a ela, se vai ser uma festa seria horrível o noivo não dar um presente a ela!—Franziu o cenho.
—O noivo não quer ir nem na festa, o noivo não quer ser nem noivo e eu não vou sofrer estresse por conta de um presente que nem quero dar, se você acha que é necessário um presente, então realmente você vai ter que comprar!—Arregalei os olhos.
—Seja racional homem! Eu não posso comprar o presente dela, seria maldade!—Bem sério ele manteve a postura.
—Então esqueça o presente!—Me levantei.
—Você vai comprar o presente Vincent!—Sorriu de lado com sarcasmo.
—Não vou.—Agora ele me irritou com esse ar de controle.
—Você vai.—Continuou sério negando.
—Não vou, você não é minha mãe.—Que coisa infantil de se dizer. O mirei maliciosa.
—Não, por isso você vai comprar o presente.—Desabotoei os primeiros botões do meu uniforme deixando a ponta do meu sutiã aparecer.—Você vai comprar o presente, não vai?—Ele escorregou na cadeira com uma expressão não tão séria mais.
—Essa é uma daquelas situação que vou ser punido mais tarde se recusar?—Sorri largo abotoando de volta e neguei.
—Não! Imagina! Você tem toda liberdade de recusar...—Suspirei ainda sorrindo, a cara de não saber o que fazer era impagável.—...Melhor eu voltar pra recepção, não é chefe?
—Isso é muito confuso... Eu comprar o presente te agrada ou não?—Oh, isso foi bem doce de se dizer.
—Compre o presente Vincent, compre o presente!—Ouvi ele se consertar na cadeira.
—Neste caso, preciso que você vá no mercado!—Eu já estava n porta quando virei zangada e ele negou.—Não! Não! É que ao invés de comprar eu vou pegar uns dos quadros de casa, só preciso que você compre papel de presente.—Escorei na porta indignada.
—Vai dar uma pintura? Compre uma joia!—Ele ficou horrorizado.
—Joias? Você está bêbada? Além de eu me esforçar pra dar um presente eu vou ter que dar algo caro? E não devemos esquecer do valor simbólico, não quero que ela pensa em algo durável!—Cerrei os olhos suspirando.
—Vincent você é o pior noivo do mundo, não liga pra ela, não sai com ela, não diz palavras de carinho ISSO quando fala com ela, fora o fato imperdoável que fez no sábado, só tem um jeito de compensá-la por isso.... Com joias!—Ele voltou a ficar sério apesar do sorriso de sarcasmo no rosto.
—Ahhh entendi, você quer que eu compre um presente pra se sentir menos culpada!? Que infantilidade Abigail.—Infantilidade? Abri a boca surpresa, ficaria brava em outras circunstancias, mas meu humor estava tão bom que era impossível.
—Não tem nada...—A frase foi cortada por que estava obvio demais que de certa forma eu queria compensar aqueles que estavam sendo prejudicados com o que fizemos.—...Quer saber!? Eu gostava mais quando você só escutava.—Ele riu largo.
—Tarde demais, isso é o que acontece quando você invade a fronteira sem saber o que te espera do outro lado, senhorita diplomata.—Mordi os lábios querendo muito dar uma resposta, mas ele está certo.
—Vou me deportar então!—Fechei a porta, logo abri de novo, esqueci do assunto principal.—Compre o presente!—Fechei de novo.
Hora do almoço, sei muito bem como fazer a culpa me atingir e eu me sentir tão mal que com certeza vou chorar de pesar! Contei tudo para as meninas esperando ansiosa pelas ofensas, sinta Abby, sinta o julgamento delas te chamando de VADIA, prove que você ainda tem bom senso e não perdeu ele naquele quarto maravilhoso que permite as mulheres verem o espaço enquanto tem orgasmos.
—Ta dormindo com seu chefe pra ficar na casa dele?—Perguntou Milena espantada e eu neguei, não, essa não é a questão! E eu não sou uma vadia desse tipo!
—Não!! Eu to dormindo com ele... Mas com certeza não é por causa da casa! Apesar de lá ser ótimo...—Murmurei pensativa.
—Sua mãe te expulsou?—Vic perguntou furiosa.—ELA te expulsou? A casa é metade sua e ELA te expulsou?—Gente... Essa não era bem a reação que eu esperava.
—Bom, sim, vocês ouviram o que eu disse? Estou dormindo com o chefe, ele é comprometido, eu sou comprometida... Isso não faz vocês pensarem em nada?—Tipo em xingamentos que devem ser dirigidos a mim?
—Mas é claro que faz....—Disse Milena que olhou séria pra Vic e logo concordaram. Se prepare Abby, ai vem torrente de ofensas.
— Abby o Edgar é gay!—Disseram em uníssono. O que?
—Han?! O que? Como...—Pisquei inúmeras vezes não crendo no que tinha ouvido.
—Abby meu amor, agora que você está em outra e experimentando novos ares está na hora de encarar a realidade desse seu noivado...—Vic sentou do meu lado.—Seu noivo é veado, e não é um veado comportado, tenho minhas suspeitas dele ser daqueles que trepa com varios homens ao mesmo tempo!—Cerrei os olhos boquiaberta, eu não queria ouvir aquilo, não mesmo e principalmente nem se quer imaginar o que imaginei.
—Basta! Eu venho falar de uma coisa e vocês...
—Abby abre os olhos querida!—Milena disse com carinho.—Ele veste roupa de marca, gosta de revista de moda, seca outros homens como se fossem comida e só anda com outros gays, Edgar é gay!—Neguei no mesmo instante. Como que do adultério veio esse assunto sem pé nem cabeça.
—Gente eu sei que ele é estranho, meio metrossexual, mas ele não é gay, já passamos muitos momentos juntos e...
—Ele alguma vez te instigou a dormir com ele?—Interrompeu Vic séria.
—Ele é educado...
—Nenhum homem é educado suficiente pra estar em um noivado e não querer tirar uma casquinha da noiva, acorda garota, a fruta que você tem ai embaixo ele não come!—Argh! que coisa grosseira.
—Então.... Então por que ele ficaria noivo de mim?
—Disfarce! Apesar de estarmos no século da aceitação, ainda tem gente que tenta se disfarça.... Ou sei lá! Isso você tem que perguntar pra ele!—Franzi o cenho me levantando.
—Isso é um absurdo! Ele não iria me enganar por tanto tempo! Não iria me embromar e fazer aquela cena toda quando me pediu em casamento!—Ainda que as coisas entre mim e o Edgar não esteja muito bem, pensar que passei um ano sendo traída e enganada me machucava.
—Sentimos muito Abby... Mas é a verdade.—Concluiu Milena.
Me levantei dali ressentida e sem terminar o almoço voltei para a minha mesa.
Por mais que doesse, comecei a pensar sobre tudo, desde o inicio do namoro, de certa forma ele sempre foi um pouco distante do que o normal, costumava criticar as mulheres mais do que eu e seus gostos par filmes sempre me deixou intrigada. Mas eu nunca pensei que o problema pudesse ser esse. Pensei que mais cedo ou mais tarde em um momento complexo nos abriríamos um para o outro e alguma coisa especial finalmente surgiria. Eu estou a um ano me esforçando arduamente para isso... E de repente me dizem que eu perdi meu tempo? É isso?
—Você não tem vergonha de trair a Sasha? Depois dela se esforçar tanto para aturar suas peculiaridades? Dela tentar tanto ser a mulher ideal para você? Você devia ter vergonha de ter aceitado ir pra cama comigo, devia ter mais vergonha ainda de conseguir conversar tão bem comigo e não se abrir nem um pouco com ela!—Espantado com boca cheia mexeu os ombros.
—Hein?!—Andei feroz até a mesa dele dei um tapa em cima dela.
—Não é justo! Você devia lamber os pés dela só por tentar, sabia?—Ele colocou o sanduiche de lado.
—Argh! Não diga lamber pés enquanto eu como, minha imaginação é automática! Perdi o apetite.—Isso me deixou mais irritada ainda.
—Como pode ser tão frio com uma mulher que gosta tanto de você— Se levantou mexendo as mãos confuso.
—Primeiro eu não tenho ideia do que está falando, segundo, por favor, que não seja historia do presente mais uma vez! Vou dar uma pintura qualquer e ponto final!—Rangi os dentes.
—Ela é sua NOIVA! Como pode agir como se não amasse ela? Depois de tudo que ela fez!!—Arregalou os olhos perplexo.
—Você ficou doida Abigail?! “Como se eu não amasse”, “Depois de tudo que ela fez”. De quem está falando? E que historia é essa? Comeu algo estragado ou o que?—Respirei fundo apontando para ele.
—Não mude de assunto!—Franziu o cenho sério.
—Está bem. Não acha que se eu a amasse eu provavelmente teria recusado sua investida no sábado, no domingo e hoje de manhã!—Eu neguei com o dedo no mesmo tempo.
—Opa! Opa! Investidas é exagero e não teve essa de hoje de manhã!—Ele fez uma cara estranha olhando para o nada.
—Oh, isso explica muita coisa...—Por um tempo ficou no próprio pensamento obsceno dele. E a raiva passou no mesmo instante, eu comecei a rir não acreditando.
—Que fofinho! Quantos anos você tem? 15? Para ficar tendo devaneios eróticos?—Fez careta pra mim.
—Para! Eu já disse que odeio quando você me trata desse jeito!—Comecei a rir sem parar, sua voz saia grossa, mas ainda sim a imagem que eu tinha era de um bebê.—Abigail! Eu sou mais velho que você, sabia!?—Eu não conseguia parar, apesar de a um segundo atrás estar furiosa, foi só ficar dois minutos aqui dentro e de repente pareceu que o resto não importava. Quando finalmente parei de rir o mirei sorrindo.
—Desculpas pelas investidas, se isso te...
—Vai se fazer de coitada pra tomar a situação?—Perguntou sério.
—Eu não...
—Está sim, eu não sei o que deu em você, mas pedir desculpas, dizer que sente pela Sasha ou coisas do tipo, não vai mudar a situação atual, se for pelo compromisso você está cansada de saber que ele só funciona por aparências, agora se a razão for outra... —Suspirei, não vou contar pro Vincent o que ouvi... Que meu noivo é gay? Nem sei se isso é verdade.
—Não se sente mal? Se sentindo culpado ou algo do tipo? Apesar dos pesares, a Sasha é sua noiva a o que?! Um ano, dois anos?—Ele fez careta coçando a nuca.
—Senta aí, vou te explicar como essa historia funciona.—Sentei, ainda que a razão de eu ter entrado estourada aqui não seja a coisa dele com a Sasha, achei melhor fingir que esse era o fato principal da minha raiva.—Meu pai para me infernizar ou nas palavras dele "ajudar" a eu tentar me socializar achou que uma garota fosse me fazer bem, nessa época eu tinha por volta dos meus... Herhnn... 16, por aí.—Eu quis rir e ele percebeu.—Não tem graça, aquilo foi torturante.—Dai eu ri mesmo.
—Garotas?! Eu até imagino o tipo de garotas que ele te arrumou!—Fez sinal de silêncio.
—Uma delas era Dayse Potter, prima de terceiro grau da Sasha! Dayse gostava de arte e não sei por que diabos meu pai achou essa uma desculpa muito boa para eu tentar me relacionar com ela...
—Eu acho que já sei como isso termina...—Fez sinal de silêncio dessa vez bravo.
—Shiu! Bom, entre encontros forçados e conversas obrigatórias, eu fiquei sabendo pela boca dos outros que curiosamente estava namorando sem saber.—Fechei a cara.
—É assim que conseguiu namorar 4 garotas?—Mexeu os ombros.
—Sim, geralmente sou avisado desses infortúnios num jantar onde meu pai anuncia dizendo que está muito feliz pela nossa união, é uma cena lastimável sempre que vejo.—Eu dei uma risada, se ele anuncia isso pelado, tenho certeza lastimável é a palavra correta.
—Certo, você namorou a Dayse, sem toques, sem nada?—Fez um bico pensando, ahhh então não era só isso.—Uhh teve toques?
—Não, não teve, é só que não foi sem nada, eu...Como eu posso dizer, tive uma aproximação intelectual quase normal com ela.
—Vocês conversavam?—Apontou pra mim como se eu tivesse lido sua mente.
—Isso! Sobre arte, embora as opiniões dela fossem cultas e tão chatas que geralmente eu ficava com sono, nós conversamos, mas nada de toques, ele cheirava a grama recém—cortada... Algo meio fora do convencional e me dava embrulho no estomago.—Pisquei inúmeras vezes.
—Grama recém—cortada? Como assim ela cheirava a grama recém—cortada? Ela não tomava banho? Esquecia de passar perfume?—Mexeu os ombros ajeitando os ombros.
—Não estou falando desse tipo de aroma, eu me refiro ao cheiro natural das pessoas, o da Dayse me dava essa imagem quando ficava perto suficiente para sentir.—Pisquei outras vezes ainda confusa.
—Cheiro natural? E mesmo usando perfume e desodorante você percebe?—Afirmou.
—É como o som de uma voz em uma multidão, se focalizar você distingue, a primeiro momento não percebi, mas conforme nos encontrávamos eu comecei a perceber...—Ainda estou muito, muito confusa, tive uma visão estranha de quando cachorros cheiram a bunda uns dos outros.
—Ta, mas o cheiro natural? Eu nem sabia que uma pessoa tinha um cheiro natural!—Suspirou.
—É coisa de naturalista, minha mãe ensinou meu irmão e eu a fazermos isso, me deixa continuar!—Não dava, eu estava espantada demais, então eu tenho um cheiro natural? Algo que só eu tenho? Sem prestar atenção nele levantei o braço e dei uma fungada nas axilas tentando identificar esse natural meu e a única coisa que senti foi o cheiro do desodorante e um indicio que talvez eu devesse passar novamente, mas nada chamou mais minha atenção do que a gargalhada estrondosa do Vincent na sala.
Quando eu achei que fosse parar de rir ele tornou a olhar pra mim e voltou a rir freneticamente colocando a mão na barriga, tirou os óculos, bateu a mão na mesa e gargalhava tanto que até parecia que alguém tinha encontrado seu ponto fraco e agora fazia cócegas nele.
Eu fiquei um pouco sem graça de inicio, depois comecei a rir, mas assim que foi se passando cinco minutos eu já estava perdendo a paciência, pois parecia que eu tinha feito algo muito, mas muito estúpido, pois sempre que olhava pra mim ele ria.
—Quer parar não teve tanta graça assim...—Ele estava com o rosto baixo rindo tanto que já não saia som da sua boca, estava rouco e como rosto vermelho. Levantou o rosto com os olhos lacrimejando e quando tomou fôlego para parar, tornou a cair na risada de novo.—Que exagero! Para com isso!
Ele com certeza não ia parar tão cedo. Porém a porta foi aberta com tamanha violência que me levantei prontamente assustada dali. Sim, era o grosso do pai dele com uma cara tão espantada que eu até me surpreendi. Vincent parou de rir e se levantou também.
—O que você...—Antes do pai dele terminar ele tinha começado a rir de novo, tentando se conter com a mão, mas foi inútil.—O que deu nele?—Dessa vez perguntou pra mim.
—Lamento dizer senhor Augustini, mas seu filho é um retardado mental.—Assim que eu disse isso, por incrível que pareça fiz o poderoso chefão rir também, não como o Vincent que até agora se contorcia para se segurar.
—Certo! Você sossegue o facho! Este mês temos três campanhas importantíssimas para fazer, uma delas você já deve saber, é do energético Power UP, outra da marca de roupas infantil Tiger e por último, mas não menos importante a loja de joias Pure! E adivinha o que o papai conseguiu para você?—Vintent que ainda riu um pouco fechou a cara no mesmo tempo fazendo que não.
—Não pai! Por favor, de novo não! Eu—eu—eu já fiz meu papel....
—Cala boca! Vai ser ótimo para a nossa própria publicidade se você participar, Sasha já topou!—Hein!?
—Que mal eu pergunte, o que?—O velho mal educado se virou pra mim.
—Precisamos de um belo casal na propaganda de joias, quer um casal mais belo do que esses dois?—Fechei a cara.—Claro que esse inútil está um maltrapilho, mas nada que uma maquiagem não resolva, além disso no dia do lançamento vocês dois vão estar na festa e...
—Não vou fazer... Prefiro morrer a passar por isso de novo!—Vish.
—Quer morrer? Posso dar um jeito nisso!—Se aproximou e eu achei mesmo que ele fosse bater no Vincent.
—Chega pai, já torturou ele!—Só agora percebi que o filho mais velho estava na porta assistindo a cena.—Ele está blefando Vincent, até parece que papai vai correr o risco de você vomitar em cima das modelos de novo.—A expressão dele não estava das melhores, geralmente era sempre tão brando.
—Seu inútil, deixasse ele sofrer com isso até o dia.—Marco penas negou.
—Sofrer?! Acha que é uma boa hora pra provocar ele pai?—O velho se recompôs.
—Ah, tinha me esquecido desse detalhe... A festa da Sasha, Vincent, recebeu a ligação da sua mãe, não é?—Meu chefe suspirou se sentando na cadeira.
—Já.—Resmungou.
—E?—Questionou Marco.
—E o que? Eu sou obrigado a ir, não é?—Ele falou com tanto desagrado que quase ri.
—Não é isso, é o aniversário da sua noiva, o que vai fazer?—Sei lá por que ele olhou para mim como se buscasse uma resposta.
—Eu vou na festa?—Os dois mais velhos suspiraram.
—Papai?
—O que acha de uma música?—Marco pensou e isso fez o chefe se inquietar na cadeira negando.
—Não—não....
—É uma ótima ideia, ela adorou ele cantando na boda de vocês!—Revidou o outro.... Pobre chefinho.
—Eu não—eu não.... Não, por.... Marco...
—Está decido então! Lembre—se das campanhas imbecil!—O pai dele saiu, mas o irmão mais velho ficou.
—Qual é o seu problema? Será que já não basta ter que me obrigar a ir?—Perguntou o chefe em um tom zangado
—Você tem uma noiva, tem que....
—Não to nem aí! Eu já estou fazendo mais do que devo e agora tenho que cantar pra aquela....
—CUIDADO!—O mais velho interrompeu.—Você nem ao menos tenta! Faz ela sofrer...—O Vincent se levantou furioso.
—Sofrer? Sofrendo na Itália? Sofrendo na Espanha? Sofrendo no Canadá? Sofrendo usando roupas de grife AS MINHAS CUSTAS? Ou você se esqueceu que...
—Não, eu não me esqueci! Eu faço sua contabilidade, sei bem o que entra e o que sai e sei muito bem que o pouco que entra pra ela não compensa em nada o que faz ela passar.—Gente que historia mais louca.
—EU a faço passar? Você não pode está falando sério! Depois de tudo, ainda é pouco?—O irmão dele pareceu ficar um pouco sem graça.—Que tal eu não fazer nada? Deixá—la procurar o próprio rumo e se virar? Isso a satisfaria?
—Vincent, por favor, irmão, seja maleável! É só uma festa!—O chefe negou.
—Isso está passando dos limites, no começo você disse que eu só tinha que cooperar com 'meios', agora de repente eu adquiri uma cadela cara que eu pago o banho e a tosa dela e ainda me forçam a passear com ela!—Ahhhh, mas isso ele pegou pesado!!
—Vincent!—Gritei com ele me levantando.—Independente das circunstancias ela é sua noiva, devia ter respeito por ela!—Ele se virou pra mim acenando.
—Foi só modo de expressão, assim como todos dizerem que você é minha babá!—Apertei os olhos.
—Pois escolha outro modo de expressar! É horrível pensar que você trata tão mal as pessoas tão próximas a você!—Ele fez como um adolescente e nem deu moral.
—Não é você que vai ter que fazer papel de idiota na festa dela...—Resmungou. Só agora percebi que o irmão dele me olhava intensamente.
—Vejam só, ele não gagueja mais perto de você...—O modo como o irmão dele disse isso me deixou inquieta por dentro, não foi uma constatação, foi quase uma acusação.
—E daí?! Sou auxiliar dele, a comunicação com ele é minha prioridade, ou estou enganada?—Ele se aproximou franzindo o cenho.
—Interessante como... Em o que...? Cinco meses? Seis? Ele já conversa normalmente com você, mas....—Mirou agora o irmão entortando o maxilar rangendo os dentes.—...Em quase três anos você não troca uma frase concreta com a sua noiva.— Vincent suspirou tirando os óculos.
—Indiferente disso... Meia frase concreta já deveria ser mais do que minha obrigação.—Eles trocaram olhares significativos cujo os significados eu não entendia bulhufas.
—Por que você leve as coisas nesse rumo? É tão mais fácil aceitar e...
—Marco!—Vincent o interrompeu num tom grave, mas logo respirou fundo se acalmando.—Irmão, o que eu já faço é torturante o suficiente para mim, não me peça além disso ou eu não faço é NADA.—O mais velho abaixou a cabeça e concordou.
—Ao menos vá na festa....—Se levantou dando um longo suspiro.—...Leve sua auxiliar, já que se apegou tanto a ela.—Eu neguei com a mão.
—Não, não...—Ele me fitou sério.
—Não foi um pedido. Se possível, convença ele a se vestir adequadamente.—Saiu e eu fiquei tão sem graça que tive a impressão que ele já sabia que eu tinha dormido com o irmão dele
—Pelo visto, agora além do seu pai, seu irmão me odeia.—Ouvi ele sorrir.
—Não se preocupe com isso, o Marco é fraco nesse ramo, vai te pedir desculpas antes que perceba.—Ele já voltou como o humor de antes mesmo depois dessa conversa tensa sobre a noiva?
—E isso resolve os problemas, não?—Arqueou a sobrancelha confuso.
—Que problema?—Abri a boca para falar, será que em algum momento ele não cogitou a possibilidade do irmão dele suspeitar ou já ter certeza que temos um 'caso' e isso vir a tona?
—Nós dois...—Apontei para mim e para ele, o chefe ajeitou os óculos relaxando na cadeira.
—Nós dois.—Pisquei algumas vezes, ele não entendeu?
—Vincent o que acha que seu pai vai fazer se descobrir que... Eu e você...Tivemos alguma coisa?—Ele olhou para os lados buscando a resposta.
—Me comprar um bolo! Não! Dar uma festa! Não!—Ele pensou sério com a mão no queixo.—Provavelmente anunciar em um jornal!—Não era bem essa a resposta que eu esperava, mas olhando pelo angulo do senhor Augustini até que é aceitável, eu convenci o filho dele que tem medo de todo mundo a dormir comigo, fui mais longe do que qualquer pessoa, ele merece uma festa e eu uma recompensa bem alta.
—Faz sentido, de qualquer maneira não vai ficar nada bem pra você ou pra sua família...—Eu tornei a suspirar com a frase dura que tinha na garganta.—... Melhor eu...Sair da sua casa.—Ele não gostou nada. Principalmente por que não era SÓ sair da casa dele, significava sair dessa quase relação.
—Só por causa de uma discussão boba como essa? Que exagero!—Não era por causa da discussão.
—Vincent não acha que é melhor encerrarmos essa historia antes que se aprofunde mais?!—Sentei na cadeira sem graça.—Foi uma loucura termos ido tão longe por uma coisa... Sem futuro...—Franziu o cenho aturdido.
—O que? Foi você que insistiu...
—Eu sei, eu sei, eu sei, fui eu que investi, fui eu que fui longe demais, fui eu que passei dos limites, mas olha só?! Não passou nem três dias direito e as coisas já estão se complicando.—Ele suspirou olhando para a mesa.
—Podemos conversar sobre isso lá em casa?—Disse depois de alguns minutos e eu concordei.
Que situação eu vim me meter, de manhã estava tudo tão amistoso e eu estava tentando me sentir culpada agora já estou procurando um jeito de sair disso. Não que eu queira, confesso vergonhosamente que ficar naquela casa com ele era extremamente agradável, mas errado.
—Posso ir pra sua casa essa semana?—Eu perguntei a Vic na saída do trabalho.
—Não só pode como deve, eu ainda não acredito que sua mãe fez aquilo!—Sorri sem jeito arrumando a bolsa.—Mas a parte boa é que não vai precisar dormir comigo pra isso!—Eu dei uma risada, que coisa cruel de se dizer.
—Eu já falei que não tem nada a ver uma coisa com a outra!—Ela me deu um sorriso malicioso caminhando ao meu lado.
—Eu não te julgo, já fiquei com caras por muito menos.—Ahh que conversa produtiva.
—Isso aí já não me surpreende.—Brinquei.
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Eu fiquei sentada no sofá fingindo que lia uns anúncios de jornal a espera dele finalmente desocupar com algo que não tenho ideia do que era, porém depois que ele desceu do carro disse um ‘vou fazer umas coisas ali’ e simplesmente sumiu dentro da própria casa. Eu estaria mentindo se dissesse que realmente queria isso, descobri que o fato de ser uma das poucas pessoas que se dava bem com ele de certa forma me fazia sentir diferente.
Quase especial.
Tolice, eu sei, só que quando eu estava ali dentro daquele lugar, por mais estranho e cheio de coisas de espaço que ali fosse, era aconchegante, acolhedor, não como se eu tivesse ali por necessidade e sim por que alguém realmente fazia questão de me ter por aqui.
Mas está na hora de cortar essa ligação antes que fique forte demais para ser quebrada.
—Vincent?!—O chamei quando tive coragem para isso, pensei em tomar banho antes, mas ai perderia a coragem.—Vincent!?—Gritei dessa vez quando não me respondeu.—Chefe?—Me levantei agora tentando encontra-lo na casa.
Quando o encontrei mal consegui acreditar, eu achando que ele poderia estar pensando no que conversar e ele estava ali no sótão pintando um mesa pequena de azul claro sem conseguir me ouvir, pois estava com fones enfiados nos ouvidos. Andei até próxima á ele tocando seu ombro, assim que me viu coçou a nuca tentando fingir estar ocupado.
—Eu estou te esperando a quase duas horas lá em baixo e você está pintando uma mesa?—Simplesmente concordou.
—O jantar está pronto?—Arregalei os olhos querendo rir.
—Não se faça de sonso, nossa conversa sobre eu ir embora, lembra?—Franziu o cenho negando.
—Não estou me fazendo de sonso, é só que...—Voltou a pintar a mesa.—...Minha mesa não ficará pronta se eu ficar perdendo meu tempo discutindo.—Fechei os olhos respirando fundo.
—Que seja do seu jeito então Vincent.—Quem não vai perder mais tempo sou eu.—Vou juntar minhas coisas.—E não é que ele mudou de humor rapidinho.
—O que?! Esperai, não pode ir, nós não conversamos ainda!—O mirei incrédula.
—Eu não preciso da sua autorização para ir embora, queria conversar para nada ficar pendido entre nós, mas se é perda de tempo, boa sorte com a sua mesa.—Ele segurou meu braço.
—Por que está zangada, eu deveria estar zangado! Passou o final de semana comigo dizendo aquelas coisas e agora quer ir embora por sei lá o que!—O encarei.
—Não é ‘o que’! É quem.—Suspirei ficando de frente para ele.—Olha, foi um erro o que aconteceu, nenhum de nós pensamos nas consequências que já está acontecendo e...
—Vai continuar sendo minha auxiliar certo?—Ele me interrompeu com essa pergunta de repente. O que isso tem a ver?
—Hernn... Vou, mas o que eu estava dizendo é que...
—Se eu precisar de você em qualquer hora você tem que vir, não é?—Quando eu ouvi isso entendi onde queria chegar.
—Isso não quer dizer que se me ligar de noite me pedindo para vir aqui eu simplesmente vou vir, não percebe que o ideal é nos afastarmos?—Ele girou os olhos.
—O ideal é você cumprir com o que diz, neste ponto está me obrigando a tomar medidas pouco convencionais.—Dei uma risadinha.
—Eu não cumpro com o que digo? O que eu disse que não estou cumprindo? Eu disse que seria pouco tempo, não disse?—Ele fixou os olhos num ponto do sótão.
—Tem—tem algo que—que eu possa dizer que—que faria você ficar?—Perguntou baixinho e eu sorri tímida.
—Eu acho que não.—É melhor não. Ele fez que sim sem me olhar nos olhos.—Vou juntar minhas coisas..—Murmurei me distanciando.
—Ci—cidreira....—Me virei não entendendo.
—O que?—Ele começou a apertar as mãos uma na outra.
—Quan—quando pela manhã se—se apertar folha da cidreira ela mistura com o orvalho e—e torna um aroma mais suave e doce....—Hun?! Sorri confusa.
—O que isso quer dizer?—Ele engoliu seco.
—Vo—Você queria sa—saber o seu cheiro aquela hora...—Soltou um riso modesto.—...É como—como cidreira pela manhã.
Assim que eu ouvi isso foi como se um choque atravessasse meu corpo, principalmente por que nas noites passadas eu lembrei do quanto ficava no meu cangote aspirando insistente. Agora eu sei o motivo. Que situação complicada.
—Jogo sujo...—Murmurei para mim mesma. Coloquei as mãos sobre o rosto apertado os olhos não crendo que algo tão simples tinha me convencido. Depois de alguns segundos encolhi os ombros envergonhada levantando o rosto.—...É um cheiro convencional agradável?—Perguntei em som audível embora baixo, ele ergueu o semblante já não tão tímido quanto agorinha a pouco, filho da mãe, ele já sabia que eu não tinha forças pra ir embora mais.
—Nenhum um pouco convencional, mas... É agradável...—Deu um passo curto a frente enquanto eu soltava um sorriso junto a um suspiro.
—Para um sociofóbio, você é bom nisso...—Disse baixinho e ele suspirou.
—Isso é quer o que eu penso que é? —Sorri sem graça.
—Você sabe que é um erro, não é? É loucura nós dois... —Vincent se aproximou prontamente.
—Nós dois?! O que tem de errado nisso? É por conta do compromisso?—Afirmei.
—Tem ideia do quanto é degradante meu papel? Ser a ‘outra’? —Ele deu uma risadinha apontando ao redor com um timbre irônico.
—Você é a única! —Me encolhi sem jeito, o que dizer num momento como esse?
—Quer mesmo que eu fique? —Sorriu largo afirmando.
—Por favor, fique, eu prometo que não vai faltar absolutamente nada aqui para você! —Eu quis perguntar algo como “E depois? O que acontece?”, mas aquela carinha de cachorro pidão pedindo isso me convenceu direto.
Eu sei que isso só vai dar problema futuramente, só que por algum tempo eu vou me permitir viver feliz até a realidade me bater na cara. Vou aproveitar que é a primeira vez que alguém gosta o suficiente de mim para querer minha companhia quase 24h.
O depois...? Vou esperar o depois vir para me preocupar.
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