In Your World
16 Capitulo Dezesseis
Notas iniciais
Capitulo Dezesseis
Foi uma decisão súbita, num instante eu estava jogada no sofá olhando para o teto e no outro estava caçando meus sapatos pela casa e correndo contra o tempo rumo a rodoviária com mais nada que uma roupa na bolsa para o casamento.
Não sei bem dizer o que deu em mim, simplesmente que bateu um sentimento forte gritando para eu levantar a bunda dali e parar de frescuras e agir de uma vez. Com certeza não tinha absolutamente nada a ver com o casamento, ahhh não mesmo! De maneira alguma eu gostaria de entrar naquela festa de união maluca entre o peixeiro e a perua da minha mãe que agia como se fosse uma virgem adolescente.
A única razão de eu ter levantado do sofá e corrido que nem uma desorientada para pegar o primeiro ônibus que saísse para lá era a minha desculpa esfarrapada de não parecer que estava andando para trás. ARGH! A quem estou querendo enganar? Eu não consigo deixa essa história morrer assim! Não dá para fingir que ele não veio atrás de mim apesar de todas as limitações dele.
E no fundo eu também queria vê-lo.
Eu sei, eu sei, disse com todas as palavras que não olharia para o passado querendo voltar, que não cometeria os mesmos erros, entretanto, só de imaginar que ele ao menos tentou... Que ainda me esperava voltar...
Está claro que Vincent é o único erro que vale a pena tornar a repetir.
Sinto falta dele, de como jogava assuntos aleatórios as nossas conversas, das frases de efeito, acho que sinto saudades até mesmo do jeito tímido dele e de como se abria somente comigo.
Fui no primeiro ônibus que apareceu indo em direção a minha antiga cidade.
[...]
Sentei no banco do táxi com os olhos do motorista em cima de mim, o encarei de volta cogitando, decidindo o rumo da minha vida, eu sei, um pouco tarde já que estou aqui. A questão é... Vou para a casa da minha mãe ou deixo de lereia e vou logo ao ponto?
— Senhora? — Respirei fundo acenando para o senhor.
— É um lugar afastado, siga pela principal. — Informei. Não vou enrolar, eu já estou aqui mesmo.
O motorista me questionou umas cinco vezes se eu estava certa do caminho que tínhamos pegado, as ruas estava escura e ele deve ter cogitado que eu ia matar ele no final da estrada. E quando chegamos na casa do meu ex-chefe mais um susto para o pobre, parecia um mausoléu assombrado de tão sombrio que estava, as luzes do jardim apagadas, o vento soprava dando um leve assobio e alguns quadros manchados jogados fora davam um ar de terror.
Quase cedi ao desejo de rir ou gritar um “BUUH” para o motorista. Porém somente paguei e desci.
Quando o carro se foi fiquei me perguntando se Vincent tava em casa, se tratando dele as chances de não estar eram mínimas. Bati na porta segurando minha bolsa com força a espera de uma resposta que não veio mesmo eu insistindo.
Não cheguei até aqui para ir para a casa da minha mãe, então usei de minhas habilidades criminosas pulando a janela da sala.
A cena seria muito cômica se não fosse trágica. Tropecei em algum fio no chão, enrosquei a perna desequilibrando batendo a cara no chão empurrando alguma mesinha que de bônus quebrou algo de vidro. Parabéns Abigail! Entrada espetacular, seria uma ladra e tanto com tamanha habilidade.
E lá veio o dono da casa ligando as luzes desesperado para ver que bicho estava destruindo a casa dele... Então, imagina minha cara de tacho quando me pegou ali, no chão rindo sem graça num pedido de desculpas tentando recuperar meu orgulho próprio. Que belo reencontro.
— Oi Vincent... — Acenei tentando desenroscar meu pé do fio, que aliás era o do telefone. O homem enorme barbudo, felizmente vestido com um dos olhos roxo e curativo pelo resto do rosto e cabelos despenteados me encarou surpreso como se tivesse um fantasma na sala. — Você foi atropelado? — Questionei espantada com o estado dele, tinha um corte nos lábios também e os dedos das mãos enfaixados. Ele não respondeu continuou paralisado.
Aos poucos fui me levantando já que retornamos a estaca zero e ele não tinha coragem ou sei lá o que deu nele que parecia uma estatua me olhando.
— Eu bati na porta, mas você não... — Apertou minha bochecha como se eu fosse uma criança me fitando incrédulo. — ...Vim para o casamento da minha mãe e achei que não fosse má ideia ver você. — Continuei segurando sua mão. — Está bem? — Aquela cara assustada não mudava. — Está bêbado? Hey, estou falando com você! — Estalei os dedos no rumo dele e foi como tirar alguém de uma hipnose.
Num ato rápido e sem espaço para conversas eu fui beijada — eu entrei na casa certa? — e num abraço apertado sem nenhuma chance de eu escapar. Como se eu fosse querer. Devolvi tanto o abraço quanto o beijo, o puxei contra mim acariciando suas costas com afeto.
Caramba, quanto tempo que não compartilho um beijo desse com alguém que até tinha esquecido o quanto era bom.
— Sentiu saudades minhas, han? — Perguntei brincando quando liberou meus lábios. Colou a bochecha com a minha. Concordou num aceno beijando por todo canto do rosto. Sua barba roçava sobre minha pele e comecei a rir, era como reencontrar um filhote de cachorro, a alegria dele me contagiou e me deixou corada.
Agora eu entendo por que valia a pena voltar.
O abraço durou um longo momento, o suficiente penso eu para acalma-lo e diminuir a saudade. Depois com muito custo o arrastei até a sala para o sofá e podermos conversar, isso se caso o problema dele permitisse.
— Você levou uma surra do seu pai? — Afirmou me deixando perplexa, toquei suas mãos que ainda estavam um pouco inchadas. — Qual é o problema dele? — Suspirei nervosa. — Sua família bate todos os recordes de esquisitice...
— Eu-eu-eu me-mereci depois que-que... — Ele não concluiu pelo nervosismo, porém eu captei. Apertou minha mão com os lábios trêmulos, lá vem as frases de efeito! — Abigail... Eu-eu faço qualquer-qualquer coisa para vo-você ficar. — Ele estava tentando parecer sério, mas saiu angustiado e nervoso como se já esperasse um “NÃO”.
— Vincent eu... Adoro você... — Toquei seu rosto docemente o fazendo fechar os olhos sofridos. — ...Mas não posso ficar presa aqui, entenda que eu quero conhecer o mundo lá fora e você tem medo dele. — Expliquei da maneira mais suave que soube.
— Eu vou com você... — Sorri incrédula.
— Você vem? Você odeia sair Vincent! — Retruquei.
— Odeio mais ainda ficar sem você... —Tomou folego e me encarando. — ...Vou para qualquer lugar com você. — Nossa, até fiquei vermelha ouvindo isso.
— Viria até para o meu apê no subúrbio? — Ele recostou a cabeça no meu ombro.
— Até para o inferno. — Respondeu num suspiro ao meu ouvido.
— Viajaria comigo...? — Acenou que sim depois de pensar um pouco. — ...Tentaria sair mais vezes por mim? — Tornou a concordar.
— Qualquer coisa. — Cochichou com a voz tremula.
— Então venha comigo no casamento da minha mãe! — Assim que falei ele levantou o rosto assustado com a proposta. — Você disse qualquer coisa, esse seria seu primeiro teste e punição por ter aceitado aquele acordo. — Vincent parecia amedrontado, eu sabia, mas a questão é se está disposto a tentar por mim.
— Vou envergonhar você...
— Vincent minha mãe vai casa de rosa choque fingindo que ainda é virgem, a gata terrorista dela é quem vai levar a aliança, meu padrasto não vai estar fedendo a peixe, pelo menos é o que todo mundo espera, minha irmã não vai vestir preto luto e ainda vai tocar o violino do terror quando a noiva entrar... Você, meu amor, não seria a maior das atrações nem se fosse vestido de nudista! — Isso o fez rir, o riso que eu gostava tanto. Quando se recompôs fez que sim e eu mal pude acreditar, bem, eu só vou crer mesmo quando estivermos lá.
Até lá... Vou aproveitar o curto período que ficarei aqui, de um jeito ou de outro vou precisar voltar para o trabalho na segunda e com a vida com um rumo definido... Com ou sem o Vincent.
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