In The Hell

9 in the hell 9


12:23 AM

— Di...

A voz de Fernanda era distante, Di não queria ouvi-la. Sentiu dedos finos sobre seu ombro, mas não se mexeu. Fitava o quintal na frente da mansão determinada. Ela não sairia dali. Não enquanto não visse o vulto de seu namorado chegando.

Fazia horas que eles tinham saído. Não era possível que aquele condomínio fosse tão grande. Eles tinham que voltar, Cory tinha que voltar. Se alguma coisa acontecesse com ele... Não. Manteve-se firme. Não aconteceria nada com ele, por que, afinal de contas, seu namorado era Cory Pettyfer. Nada aconteceria com ele.

Passou a repetir para si. Cory estava bem. Os outros também estavam. Talvez um pequeno imprevisto, uma horda de zombis maior que o natural, nada que eles não pudessem resolver. Cory estava ali perto, estava chegando. Tinha que se tranqüilizar, porque nada poderia acontecer a seu namorado.

Então, por que ela não conseguia sair da vigília na janela?

— Os outros estão dormindo, você deveria ir também. — A voz de Fernanda continuava no seu ouvido, mas não deu atenção. Tinha que ser a primeira a abraçar Cory, a enchê-lo de beijos e pedir para Kaori preparar um café para eles. Ela não podia sair da vigília. Não enquanto Cory continuasse do lado de fora.

A mão de Fernanda permaneceu em seu ombro pelo que lhe pareceu horas. Di sentia o apoio, e estava feliz por isso, contudo, tinha de enfrentar aquilo sozinha. Por fim, ouviu um suspiro e logo em seguida os passos de Fernanda saíram da sala.

Esperaria.

Até a casa ser invadida por walkers, até o fim dos tempos.

Esperaria por Cory para sempre.


***


03:15 PM

— Como nos velhos tempos — disse Gabriel animado, estralando os dedos e abraçando Kaori de lado com um sorriso malicioso no rosto.

A garota fitou o braço dele ao redor de seu pescoço com um olhar inquiridor.

— Que velhos tempos? — indagou sincera.

— A pequena e entediante cidade — respondeu com ar sabe-tudo. — Sobrevivemos quase uma semana numa estrada no meio dos Estados Unidos nesse inferno. Estes são novos tempos! — Gabriel fez um gesto abrangendo o jardim da mansão. — Lima fica no passado.

Kaori acenou que compreendera e pediu para que Gabriel parasse de falar. Embora estivesse feliz por ele estar aceitando tão bem a morte de Naya, estava começando a estranhar aquele Gabriel filósofo. Ela se desgrudou do garoto, fazendo um sinal positivo com o dedão, tentando estar tão animada para aquilo quanto ele.

A verdade era que ela não queria deixar Fernanda sozinha. É claro, da mesma forma que Cory e Finny com suas respectivas garotas, mas Fernanda ainda estava muito frágil. Da última vez que tirara os olhos dela por um segundo... Bem, Fernanda entrara em coma.

— Relaxa colega — Cory disse abraçando Kaori por trás. Ele deu um beijo em sua bochecha; Kaori ficou se perguntando que tipo de droga Di teria dado para Cory. Esperava que não fosse Coca-Cola outra vez. — Meu amor vai cuidar do seu amor, fique calma. — E se dirigindo a Finny e Gabriel, falou: — Vamos limpar a área!

Cory soltou-se de Kaori e brandiu sua pistola no ar. Gabriel fez o mesmo, batendo um high-five com o garoto depois. O olhar de Kaori encontrou o de Finny, os dois riram silenciosamente dos amigos. Kaori conferiu se estava com o facão preso à perna, a pistola em seu cinto na cintura, e puxou o ferrolho do pistolão que estava na sua mão.

Iriam ao condomínio caminhando. Os tênis All Star surrados dela não agüentavam muito mais, no entanto era o único sapato que possuía, pois dera o outro para Fernanda. Mesmo em um apocalipse zumbi, ainda doía ter que entregar ao tão valioso para ela à outra pessoa — tal qual a camisa xadrez com que Fernanda desfilava na parte da manhã.

Antes de fechar a porteira que guardava a propriedade, ela lançou um olhar para a terceira janela do segundo andar. Não achou nenhum sinal de que Fernanda estava ali, então presumiu que ela ainda estava na sala de música. Soltou um suspiro pesado, sentindo o vento passar por seus cabelos escuros. Demorou um pouco para que pudesse fazer com que suas pernas se mexessem para seguir os outros.

— Eu vou voltar anjo — murmurou para si, finalmente tirando os olhos da janela da mansão. Gabriel e Cory brincavam de pega-pega pouco mais a frente enquanto Finny repreendia-os para que não fizessem barulho. — Eu sei que vou.


***


03:31 PM


O portão de entrada intimidava Cory. Ele era alto, quase quatro metros de altura, e quando o vento passava forte, rangia tanto que fazia seus ouvidos quererem sangrar. Ele olhou de relance para seus amigos, eles pareciam estar tão assombrados quanto ele.

Kaori falou primeiro.

— Já estamos aqui. Não vamos dar no pé.

Kaori avançou alguns passos e mexeu nas correntes grossas que cercavam a fechadura. Cory observou o olhar de Kaori cair sobre a arma em suas mãos e voltar ao cadeado. Ele arregalou os olhos e, antes que pudesse dizer alguma coisa para impedi-la, Kaori tirou um grampo de seus cabelos e apressou-se a trabalhar para abrir o cadeado.

— Desgraçada — Cory murmurou para si após o susto.

— Eu ouvi isso — disse Kaori, concentrada na fechadura.

Finny e Gabriel riram. Cory revirou os olhos, focando na estrada. Não havia nenhum morto-vivo à vista. A mansão de Finny estava a quase dois quilômetros de distância, quase podia vê-la dali se não fosse mais uma pequena reserva florestal no meio do caminho. Suspirou, tentando não imaginar os problemas que aquele conjunto de árvores juntinhas e o condomínio poderiam trazer para o grupo.

Depois da inspeção, iriam fabricar cercas. Cory não fazia ideia de como (Finny talvez pensasse que poderiam cortar as árvores, enfiá-las na terra e rodeá-las de arame farpado), mas precisavam. Desejava não ter deixado Di sozinha, mesmo sabendo que ela saberia se cuidar se acaso algo acontecesse. A mansão estava muito mal protegida. Não apenas de zumbis, mas inclusive de seres humanos.

Kaori terminou seu serviço e abriu o portão com um rangido que não fez nada bem aos ouvidos de Finny. Ele fez uma careta para Cory e Gabriel, porém seguiu uma concentrada Kaori para dentro do conjunto habitacional. Finny sentiu um arrepio involuntário na sua espinha, o que lhe dava a terrível sensação de que as coisas ali não sairiam muito bem.

— Bem, é isso — sussurrou Kaori, parada na rua principal como se fosse a rainha de tudo, e Finny tinha que admitir que talvez ela fosse. A garota virou-se para os outros três, o espírito de aventura bem expressado em seu rosto. — Vamos fazer juntos ou separados?

Cory, Gabriel e Finny se entreolharam. Obviamente, já tinham a resposta perfeita para aquela pergunta.

— Juntos — disseram em uníssono.

Kaori assentiu. Seu olhar encontrou o de Cory e ela esboçou um sorriso esnobe, como se dissesse “covardes”. Cory lhe respondeu fazendo um gesto obsceno.

— Vamos então — Finny interrompeu o início de briga dos doiss. — Temos muito trabalho a fazer.

Finny caminhou decidido para a primeira casa à direita. Como na vizinhança ao redor da mansão, as casas ali eram de primeira. Pelo que Cory conseguira ver da rua principal, todas eram enormes e caras, se ainda estivessem na antiga realidade. Contudo, naquele mundo, isso significava que estariam em um número maior de zumbis. Cory não tirava da cabeça os acontecimentos da cidade-fantasma do dia anterior.

Engoliu em seco e andou ao lado de Kaori. Ele deixara Finny para abrir as casas, carregava nas mãos agora o facão e sorria para Cory de uma forma divertida. Kaori sempre agia daquela maneira. Como se estivesse prestes a invadir um videogame e matar todo mundo.

Cory franziu a testa. Aquela era a primeira vez que tinha um brilho estranho nos olhos da amiga. Talvez fosse felicidade de verdade, pensou enquanto os dois garotos entravam na casa com as armas em guarda. Fernanda estava com ela depois de muito tempo. Ela não lutava pela própria vida agora, mas também pela de Fernanda.

Era mais um bom motivo para protegê-la de tudo àquela tarde.

O cérebro de Cory se desligou sobre Kaori e Fernanda ao entrar na casa. Como ele suspeitava a mobília, os arranjos, praticamente tudo lembrava à riqueza extrema. À exceção do cheiro. O fedor de zumbis era reconhecível de longe. Seus olhos lacrimaram, arderam. Cory coçou-os, empunhando seu facão como uma espada.

— A gente já fez isso — sussurrou Gabriel. O garoto, se recuperando do odor terrível de dentro da casa, achou isso extremamente óbvio. — É só limpar tudo.

Kaori revirou os olhos e mandou Finny subir as escadas com Gabriel. Cory tinha quase certeza que era para evitar as falas cada vez mais filosóficas dele. Não teve tempo para pensar, pois Kaori lhe fazia sinais frenéticos pedindo para que a seguisse.

Passaram do hall para a sala de estar. Elegante e luxuosa sempre. Kaori olhou rapidamente pelo sofá confortável e a televisão de plasma, apontando-os para Cory. Lembrava a ela vagamente dos móveis que tinham em Lima, da “mansão”, igual chamava seus amigos, da casa dela. Ele engoliu em seco, imaginando o que havia passado na cabeça de Kaori naquele momento, e seguiu em frente, na direção da cozinha.

As paredes respingavam sangue. Ele fez uma careta de nojo ao se deparar com um cadáver em total estado de decomposição estatelado no meio do chão da cozinha. Alto, com uns trinta anos, usando um roupão de tecido fofo. Cory podia vê-lo descer as escadas numa madrugada para pegar um copo de água gelada.

Ele não tinha certeza se ele estava morto pela segunda vez ou não, mas antes que pudesse fazer um movimento com o facão ou pegar sua arma, Kaori já passava por ele e dava um de seus golpes perfeitos no pescoço do cara, arrancando a cabeça de seu corpo.

Ele revirou os olhos, Kaori às vezes era perfeita até demais. Mas, vendo o sorriso orgulhoso e brincalhão da amiga, não segurou e sorriu também.

— Hora de checar os armários — disse animada, pulando o corpo do provável dono da casa e abrindo um dos armários bem adornados.

Cory acenou em concordância e apressou-se a abrir um mais perto dele. Não encontrou muita coisa interessante: um grande saco de amendoim mofado, duas garrafas de vodka vazias e, Cory franziu o cenho, uns CDs antigos.

Ele suspirou um pouco decepcionado, virando-se para o armário ao lado. Kaori soltou uma exclamação surpresa que o fez esquecer-se da sua tarefa para ver o que ela tinha conseguido.

— Bacon! — exclamou, com os olhos cintilando. — E sem mofos!

Kaori jogou o pedaço de bacon embalado na direção de Cory para que ele o colocasse na mochila que trouxera. Emburrado — ainda tinha esperanças de que pudessem encontrar algumas latinhas de Coca —, ele pôs o precioso alimento de Kaori no fundo de um dos bolsos da mochila.

Eles procuraram por mais alguns minutos até que Finny e Gabriel voltassem ao térreo, com suas respectivas mochilas parecendo, pelo menos aos olhos de Kaori, já completamente cheias.

— Achamos um monte de coisa legal! — disse Gabriel entusiasmado, tirando a mochila dos ombros e começando a abri-la.

Ele tirou dela um videogame portátil, um notebook Apple e mais dois ou três produtos eletrônicos que não teriam serventia nenhuma sem internet. Cory e Kaori olharam para Finny, pedindo explicações silenciosas de como aquilo ocorrera, mas ele simplesmente balançou a cabeça e falou:

— Achamos dois mortos lá em cima, o filho e a mãe, eu acho. — E deu de ombros, sem se importar. — Vamos sair dessa casa logo, temos mais ou menos mais outras vinte para revistar.

Finny deu tapinhas no ombro de Gabriel, que continuava animado até demais com suas quinquilharias, e saiu da cozinha. Kaori suspirou subitamente triste, seguindo Finny. Sobraram apenas Cory e Gabriel no aposento. Olhou para Gabriel, sorrindo alegre, e imaginou pela primeira vez que talvez ele não estivesse lidando muito bem com a morte de sua namorada.


***


03:40 PM


Gabriel estava bem.

Não surtara, agia normalmente, fazia brincadeiras que deixavam os outros três putos com ele. Gabriel estava bem. Muito bem, obrigado. Tão bem que poderia pular de um penhasco e não sentir nada. Tão bem que sentia vontade de pular de um penhasco para descobrir se realmente não sentiria nada.

Ele estava bem.

Olhou para Cory durante o caminho em direção à revista da terceira casa. Não conseguiu não sentir inveja. Cory tinha Di para se aconchegar ao voltar à mansão de Finny. Kaori tinha Fernanda pra abraçar ao regressar. Finny tinha Carol.

E o que tinha? Uma namorada morta por walkers.

Mas não se preocupou, pois estava bem. Tinha Ash, saberia lidar as pontas com o gupo, até ela crescer o suficiente e entender o que está acontecendo ao seu redor. Depois... Gabriel preferiu não responder.

— Gabriel, à sua direita! — gritou Cory assustando-o e tirando-o de seus pensamentos.

Ele ergueu os olhos e se deparou com um zumbi a centímetros de seu braço direito. Chutou o errante para longe num movimento rápido, ele caiu de costas no chão, metros distantes de onde estava. Contudo, antes que ele pudesse se levantar ou Gabriel avançar para cima dele, Finny já tirara metade da cabeça do walker com seu facão.

— Preste atenção, Gabriel — falou sério, entrando na casa de onde o errante saíra.

Kaori lançou a Gabriel um olhar de pena e seguiu Finny. Cory, por outro lado, sorriu para ele e pôs a mão em seu ombro, solidário. Ele agradeceu num aceno de cabeça, suspirando. Acompanhou Cory até dentro da casa, ouvindo os sons de Kaori ou Finny cortando as cabeças de alguns walkers no andar de cima.

Foi para a cozinha com Cory. Sua mochila poderia estar cheia de tralhas que ele jamais usaria porque era do que mais sentia falta do mundo antigo. Jogar videogame, se empanturrar de doces e Coca-Cola e ficar até tarde da noite vendo pornô online. Ou quem sabe, num dia ou outro ir, ao restaurante e ficar com a garçonete gata que trabalhava lá... Ah, como ele sentia falta das garotas.

Então, Naya apareceu em seu mundo e transformou totalmente sua visão em relação ao amor. Sua visão sobre praticamente tudo, na verdade. Gabriel queria criar uma família feliz e perfeita — como as dos comerciais de tevê que via durante a exibição semanal de A Lista de Schindler com sua mãe antes —; Naya e sua filha haviam aparecido no momento certo.

Naya, Ashley e Gabriel — porque ele se sentia muito mais maduro ao lado dela, porque ele queria ser o homem da vida dela — Kunis. Uma família perfeita para ele. Claro, todos poderiam visitá-los às vezes. Teriam um domingo estranho em família. Ele sentia falta das garotas e dos Playstation. Mas a saudade que tinha de Naya passava por cima de todas elas.

— Uou, latinhas de Coca! — Gabriel ouviu Cory exclamar muito mais animado que o normal ao abrir um dos armários.

Ele ainda estava preso em seus pensamentos, porém não deixou de sorrir quando ele tirou uma das latas do pacote e tomou quase tudo num gole só. Cory era mesmo louco.

— Cara, se você contar isso para alguém, eu irei dar um belo de um chute no teu traseiro ou enfiar algo no teu cu, entendeu? – Cory ameaçou num tom urgente, terminando a latinha de Coca que abrira e jogando o resto em sua mochila.

Gabriel revirou os olhos e concordou. No momento em que Cory acabou de ajeitar as latinhas do refrigerante dentro da mochila, Kaori e Finny apareceram no batente da porta, os facões pingando de sangue. O garoto encarou-o profusamente, advertindo-o mais uma vez.

— Casa limpa, dois walkers presos a uma cama de casal — disse Kaori, franzindo o cenho para Cory desconfiada. Ela pôs a mochila nos ombros e falou: — Arranjei umas roupas para mim e Fernanda, vocês deveriam procurar algumas também.

— Quer apostar quanto que ela só pegou camisas xadrez e dois pares de All Star, ainda por cima para Fernanda? — perguntou Cory ao ouvido de Gabriel enquanto Kaori saía decidida da cozinha. Finny estava do lado de fora, vigiando-os.

— Uma de suas Cocas — retrucou Gabriel rindo para o garoto. Ele deu tapinhas no ombro dele, provocando-o. — Eu sei que vou ganhar essa.

Gabriel estendeu a mão. O olhar da Cory revezou entre o sorriso maroto dele e a mão estendida. Ele bufou e apertou-o, com toda a força que possuía.

— Tá valendo, então — disse com superioridade.

Cory saiu batendo o pé. Gabriel não demorou muito na cozinha. Soltou um longo suspiro, e ele logo encontrou os amigos o esperando no jardim da casa, muito impacientes.

Gabriel gargalhou. Não se importou com os olhares de Kaori e Finny. Lembrou-se de Ashley. Naya. Das outras garotas e do menino, os esperando na mansão. Sensação estranha, ele pensou. Não queria mais pular de um penhasco para provar que estava bem.

Ele simplesmente sabia que estava.


***


01:12 AM


Primeiro, se viu caindo.

Vinte, quinze, dez metros de distância do solo. Sem pára-quedas, sem nada para protegê-la da queda. O chão ficava cada vez mais perto dela. Tentava se mexer, mas não conseguia. Alguma coisa, uma cola ou algo do tipo, mantinha seus braços e pernas juntos ao tronco.

O solo se aproximava cada vez mais. Não queria se esparramar no gramado bonito do subúrbio e virar geléia tão cedo. Tinha muita coisa para conferir ainda. Contudo, não estava tendo sorte ao tentar fazer um movimento mais brusco. Estava presa, era isso, morreria.

A queda não doeu, pelo contrário, foi mais macia do que esperava. Fernanda mexeu as pontas dos dedos e, para sua sorte, se movimentaram. Levantou-se num salto, observando tudo ao redor. Ela estava de volta à sua cidade. O céu brilhava, a grama estava verde, outros moradores de casas vizinhas sorriam gentilmente e caminhavam alegremente, como se nada tivessem acontecido.

Franziu o cenho e assustou ao erguer os olhos para a casa onde caíra. Era a sua. Com os mesmos tons pastéis que sua mãe deixara seu pai pintá-la, com o mesmo Land Rover de de seu pai mal estacionado em frente à garagem. Podia até ver a TV de plasma deles na sala de estar.

Engoliu em seco, apavorada. Não, era tudo um sonho. Nada disso existia. Demorara a se acostumar com um apocalipse, ela não poderia ter simplesmente sonhado com zumbis e estar em coma. Esse era seu sonho. Estava dormindo, sonhando. Era isso.

Seus olhos pareceram dobrar de tamanho ao ver outra Fernanda e Kaori saírem da casa juntas. Definitivamente, pensou, era um sonho. Ela não podia estar em dois lugares ao mesmo tempo. Kaori sequer parou para observar a outra Fernanda parada a poucos metros dela. Estava tão centrada na garota ao seu lado que parecia que o mundo ao redor era o que estava desaparecendo.

— Você me obrigou a ver O Guia do Mochileiro das Galáxias oito vezes — dizia Kaori em um tom brincalhão, porém Fernanda percebia a seriedade por trás dele. — O mínimo que pode fazer é assistir Harry Potter comigo.

— Que por acaso seria a série toda, não é? — respondeu a loira, rindo.

Caminhavam tranquilamente. As duas pararam diante da Fernanda, olharam para os dois lados da rua e seguiram seu caminho, ignorando-a completamente. Passaram por ela — literalmente — e atravessaram a rua de sua casa, brincando entre si e dando risadas altas.

Fernanda queria assimilar o que acabara de vez, mas seu sonho não lhe deu muito tempo: assim que olhou para cima, um quarto montado perfeitamente caía sobre si. Ela reconheceu os pôsteres de Super-Heróis, a cor branca que encobria as paredes, a cama e os lençóis da mesma cor. Era seu quarto.

Kaori e Fernanda estavam sentadas no chão. Ela estava com um teclado em seu colo e tocava uma melodia tranqüila que não conhecia. Kaori observava com um olhar admirado enquanto os dedos de Fernanda iam e voltavam pelas teclas. Quando parou, Fernanda levantou os olhos para ela, esperançosos.

— O que achou? — perguntou um tanto acanhada, Kaori parecia ter saído de um transe. — Acha que consegue escrever uma letra?

Kaori piscou duas vezes antes de concordar com um sorriso.

— Mas é claro! — disse animada. A Fernanda que observava tudo de longe notou que as mãos de Kaori não paravam de se mexer, pareciam indecisas. — Acho que temos uma música de nossa criação ótima para apresentarmos a ninguém. – Kaori e Fernanda riram.

Fernanda piscou, e a cena mudou outra vez. Ela continuava em um quarto, mas não era o dela. Os pôsteres nas paredes tinham um tom mais sombrio e várias bandas que não conhecia. Havia prateleiras lotadas de livros, CDs e DVDs; um videogame estava em cima de uma televisão pequena e um notebook fechado jazia numa cadeira por baixo de várias roupas sujas.

As duas garotas deitavam sobre os lençóis bagunçados da cama. Fernanda demorou a notar que estava no quarto de Kaori. Ela estava tão entretida na sua leitura em latim que nem percebeu que a amiga havia adormecido sobre os livros.

— Legionibus Romani armis tattoos dictum Senatus Populusque Romanus, SPQR...— lia Kaori concentrada, parando ao ouvir o sonoro ronco vindo de Fernanda.

Revirou os olhos e cutucou a garota com a caneta, tentando-lhe chamar a atenção. Fernanda levantou a cabeça surpresa, em alerta. Kaori soltou uma gargalhada e disse:

— Preste atenção na aula, ou senão vai tirar um F enorme.

— Mas é chato! — reclamou a loira emburrada, caindo de novo de cara no livro. — Eu odeio latim.

— Não é tão ruim assim — retrucou a morena, magoada. — O que eu acabei de falar?

— Roma e história — resumiu a outra, ainda com o rosto enfiado no livro, a voz saindo abafada. — Um porre.

Kaori abriu a boca para responder, mas nenhum som saiu. As imagens ficaram borradas aos olhos de Fernanda. Logo, ela estava sendo levada para outro local, que acabou distinguindo como um auditório ou algum lugar que tinha um palco da escola ou qualquer outro lugar.

Estava sentada no meio da platéia, observando de longe Fernanda e Kaori sentadas na beirada do palco, balançando os pés como modo de distração. Os olhos vermelhos de Fernada indicavam que ela chorara por um bom tempo; Kaori a abraçava intensamente, como se quisesse protegê-la do mundo inteiro que desabava.

— E ela fica forçando — dizia Fernanda em meio às lágrimas. — Fica insistindo, eu digo não e não. Sinceramente, não sei mais o que fazer.

Kaori ajeitou Fernanda mais em seus braços, beijando-lhe o topo de sua cabeça e afagando seus cabelos. Não respondeu. Da platéia, Fernanda podia ver o semblante perdido e desesperado de Kaori. A dor que cada parte de seu corpo parecia sentir. Mesmo de longe, via a pele de Kaori queimar pelo simples fato de Fernanda estar lhe abraçando. O fogo estava nela, Fernanda enxergava.

— Diga para ela parar um pouco. — falou Kaori após um bom tempo, sua voz muito fragilizada. Fernanda reparou que ela não queria deixar a garota se soltar dela, mas seus braços relaxaram e permitiram que ela pudesse olhar nos olhos de Fernanda. — Você disse que não é necessário fazer todo dia, o que eu totalmente concordo... Isso é meio que estranho.

Fernanda assentiu, desviando do olhar confuso de Kaori. Parara de chorar, mas algo a fez regressar aos braços da morena, que nada fez a não ser aceitá-la de volta.

Mas antes que pudesse observar alguma outra coisa, a Fernanda da platéia se viu caindo mais uma vez, agora num buraco negro sem fim.


Ela acordou sobressaltada. Seu corpo inteiro tremia, a testa estava pregada de suor e o coração batia de forma descompassada. Ofegava ao sentar na cama.

Era um sonho? Aquilo tudo fora um sonho? Ela enfiou o rosto nas mãos, sentindo as lágrimas chegarem aos olhos. Não poderia ser. Tinha sido real demais, perfeito demais... Não era um sonho.

Eram suas lembranças. Perfeitas lembranças com Kaori antes do coma. Seu coração apertou. Desde as férias de verão do ano anterior... Kaori se apaixonara por ela naquela época. Levantou a cabeça, sentindo o choro não contido cair por suas bochechas. Kaori a amara desde sempre, e ela tinha sido burra demais para não perceber...

E agora ela estava do lado fora, no meio de um apocalipse zumbi, lutando para sua sobrevivência, de Fernanda e de seus amigos. Kaori não voltara ainda. Kaori poderia não voltar...

Um desespero além do normal tomou conta da mente de Fernanda. Kaori talvez não voltasse. Jamais. Não pense nisso, uma voz gritou em sua cabeça, fazendo ela latejar. Ela voltará, outra voz disse com mais calma. Tenha fé, Fernanda.

Agora que Fernanda sabia o havia no passado entre as duas, a amizade que crescera entre elas, a paixão que Kaori tinha... Sentia que possuía algum ponto de apoio, algo para se segurar, um sentimento a ser mencionado, tudo para que não perdesse as esperanças em Kaori ou nos outros.

Por que se isso acontecesse, ela certamente não poderia mais ser chamada de Fernanda, não mais..


*


05:29 PM


— Problemas — disse Gabriel abrir a porta da décima casa que revistavam. Ele olhou sério para Finny. — Estava aberta.

Kaori franziu a testa; Finny arregalou os olhos, e Cory engoliu em seco, assustada. Com o sol se pondo, as expressões deles tornavam-se bem mais apavoradas.

— Provavelmente quem mora aí a deixou aberta — retrucou Finny com sua voz de comando. — Fugiu também.

Desejava passar toda a confiança que parecia ter na frase. Sabia que não havia conseguido, pois Kaori o encarou por longos segundos, até seus olhos se desviarem para um ponto além do ombro do garoto.

— Zumbis — Kaori sussurrou alarmada, empunhando o facão.

Finny virou-se junto com Finny, deparando-se com um morto-vivo o olhando perigosamente, bem no começo da rua estreita. Seria fácil. Ele também brandiu seu facão, começando a caminhar na direção do zumbi, quando algo fez prender seus pés no chão.

Outros dois surgiram e acompanhavam o primeiro. Sentiu Kaori e Gabriel trocando olhares aterrorizados enquanto Cory prendia a respiração, igualmente atordoado. Finny tentou contabilizar as casas que haviam visitado; os walkers que tinham matado, pensando se deixara escapar um ou outro, mas não. Ele verificara cada cômodo de cada casa em três ruas do condomínio. Tentava fazer o menos de barulho possível, e assim faziam seus companheiros, como diabos aquele errante poderia ter aparecido?

Eles tentaram se movimentarem para trás, andando lentamente, os passos ecoando na terra encharcada por causa da chuva da noite anterior. Assim que Finny pisou sem querer numa poça de água maior que o necessário, os walkers pararam por um segundo de tropeçar no asfalto e focaram seus olhos famintos e sem vida no grupo.

— Correr? — sugeriu Gabriel.

Finny concordou sem realmente falar. Virou-se rapidamente para o outro lado da rua e correu ao lado de Cory, Kaori estava mais na frente do grupo. O garoto não tinha ideia de como era o mapa do condomínio, mas a estratégia mais simples era apenas voltar uma rua e correr como se não houvesse amanhã para a mansão. Sem poder atirar sem atrair outros zumbis, era a única saída que existia.

Seus tênis Nike derraparam na lama quase que instantaneamente. Vindo na direção em que supostamente deveriam correr para salvarem suas vidas, cinco ou seis errantes caminhavam lerdamente. O que não durou muito tempo, pois assim que notaram os quatro humanos suculentos tão próximos, não tardaram a correr e tropeçar uns nos outros para poderem conseguir um pedaço da carne deles.

— Estamos cercados — disse Gabriel obviamente, o que causou um revirar de olhos em Cory. — O que faremos?

— O que nós sempre fazemos — respondeu Kaori, avançando e dando um golpe certeiro na cabeça do zumbi mais próximo. — Matá-los.

Finny assentiu, atingindo pela energia que Kaori sempre passava naqueles momentos. Ele golpeou, chutou, esmurrou os mortos-vivos na sua frente com um furor desconhecido. Porém, quanto mais ele parecia atacar, mais walkers apareciam. Estava ficando distraído depois de um tempo, quase permitindo que os errantes o mordesse por pelo menos umas três vezes.

— De... onde... saiu... esse... tanto... de... walkers? — perguntou Cory ofegante, golpeando a cabeça de uma garotinha que não deveria ter nem dez anos.

Finny olhou para Kaori e Gabriel. Eles aparentavam tanto cansaço quanto ele. Estavam perdendo o ritmo. Com o tanto de walkers que aparecia, logo eles estariam cercados, e sem a força e o descanso, logo seriam comidos até a morte.

Não seria por essa razão que Finny desistiria de lutar. Continuava agindo e incentivando os amigos a abocanhar o tanto de números de walkers que conseguiam. Pensou em Carol na mansão a menos de dois quilômetros dali, em Fernanda e Di — as duas o matariam se não trouxesse Kaori e Cory para casa — na pequena Ash, em Laura, Vitoria e Matheus... Ele não poderia desistir tão facilmente.

— Ah, foda-se — murmurou Kaori irritada, sacando o pistolão de seu coldre na perna e guardando o facão. Ela carregou a arma e atirou no errante mais próximo, causando um barulho gigantesco que Finny não duvidava nada que as garotas na mansão tivessem ouvido.

A noite caía gradativamente. Finny se xingou por não ter lembrado de ter trazido uma lanterna, contudo, sua preocupação neste momento era como fugiria do condomínio no escuro que começava a atormenta-lhes e como escapariam das investidas dos walkers.

Kaori continuou atirando, mas Finny notou que ela se afastava do grupo, indo de encontro ao muro que cercava o condomínio. Mais um pouco e ela estaria rodeada de verdade. Ele também tirou sua pistola do coldre e atirou o máximo de vezes que podia. As munições poderiam acabar, mas ele não dava à mínima. Salvar Kaori era a única coisa com o que se importava.

Os tiros vindo das armas de Gabriel e Cory encheram o local. Os walkers estavam diminuindo consideravelmente, mas os que restavam também poderiam causar um impacto grande nos quatro. Finny estava desesperado. E se não conseguisse salvar todos? O que ele contaria às pessoas da mansão?

Finny nunca descobriu como os próximos minutos transcorreram tão rapidamente. Só sabia que, num segundo tropeçara em outra poça de água e caíra nela, se sujando todo de lama, e no outro, cerca de três errantes avançavam para cima dele, grunhindo e babando uma gosma estranha. Ofegou quando os walkers se ajoelharam para pegá-lo e ele se afastou prontamente, aterrorizado, tentando puxar o ferrolho da pistola em sua mão para poder atirar.

Era o fim, pensou. Tentou gritar por ajuda, mas os companheiros estavam ocupados demais com seus próprios mortos-vivos. Rastejava para fora da poça, lutando com a arma nas suas duas mãos para poder recarregá-la, chutando os walkers para longe de seus pés. Um deles começou a morder seus tênis, e ele o chutou com força dentro da boca, esperando estupidamente que fosse afetar seu cérebro.

Mas não podia afastar os outros dois que sobraram. Os errantes batalhavam para chegar perto dele, enquanto a sua pistola continuava emperrada. Irritado, jogou-a para o lado e estava pronto para pegar seu facão outra vez quando ouviu tiros, diferentes dos das armas de Kaori, Gabriel e Cory

— Se abaixem! — uma voz gritou para eles.

Finny não perdeu tempo e deitou-se no asfalto da rua, fechando os olhos. Reconheceu os tiros. Metralhadora! Numa rajada ou duas, seja lá quem fosse que tivesse gritado com eles — um anjo ou coisa do tipo, ele gostava de pensar — tinha acabado com os walkers.

Não escutou mais nenhum gemido faminto. Ele sentia o cheiro de pólvora pelo ar, porém não se incomodou. Era melhor esse odor do que ter as narinas incomodadas pelo fedor que os errantes exalavam. Ele abriu os olhos lentamente, tentando se acostumar com a escuridão que tomara os céus por completo, e achou a pessoa que os salvara, parando perto dele com a mão estendida.

Ele aceitou a ajuda e se levantou num salto, sem prestar atenção na aparência da pessoa, correndo para Kaori, que era a mais próxima. Apoiou-se no ombro dela, ofegante, correndo os olhos pelo corpo da garota, procurando alguma mordida de errante.

— Estamos bem! — exclamou Cory respirando fraco. Ele não estava muito longe dos outros dois, Finny distinguiu a silhueta dele e Gabriel pertos um no outro. — Sem mordida ou...

Ele não terminou de falar, e o garoto percebeu, mesmo que não estivesse enxergando muita coisa naquele breu, que ela estava olhando para a pessoa desconhecida que tinha uma metralhadora e acabara de salvá-los. Não poderia ser nenhuma das pessoas da mansão, pensou ele, não possuíam uma metralhadora. Uma pessoa nova, um ser humano de verdade, vivo e não querendo comer sua carne, suspeitou.

Quase não acreditou.

— Vamos por aqui — falou a pessoa, Finny agora notando que sua voz era rouca, mas feminina demais para pertencer a um garoto. — Há mais deles andando por aí.

— Tá... — Kaori assentiu. Ela pegou a mão de Finny e a puxou na direção que a garota misteriosa seguia. Finny sentiu que Cory e Gabriel os acompanhavam também.

Não andaram muito e logo pararam em uma casa que eles ainda não haviam durante o dia. Os sussurros e grunhidos começavam a invadir o ouvido de Finny novamente. A garota abriu a porta e os empurrou para dentro. Ele mal teve tempo para observar a casa, pois a luz da vela bruxuleante não lhe dava muita permissão para enxergar muita coisa.

— Vocês são loucos de virem aqui justo nessa hora — murmurou enquanto trancava a porta com vários cadeados. — No fim da tarde é quando eles mais ficam loucos.

A garota virou-se para eles, a expressão branda, e foi quando Finny pôde ver pela primeira vez o rosto dela.

Todas as preocupações que estavam na sua cabeça sumiram. Ele não era mais Finny Hudson, o protetor de todos e da mansão. Ele era Finny Husdon, um garotinho de Ensino Médio que de repente tinha visto a garota mais popular da escola parar na frente dele e lhe dar um “oi”.

Era mais ou menos assim que a garota nova conseguia fazer você se sentir.

— Uau — murmurou estupidamente.

— Meu nome é Isabella Sheer — ela disse, aparentando irritação. Finny teve de usar toda sua concentração para entender o que ela estava falando. — E o que diabos vocês estão fazendo aqui?