In The Hell

10 in the hell 10


07:03 PM


Finny tinha razão, aquela garota era... Uau.

Kaori a observou passar ao seu lado, hipnotizada, e sentiu um perfume de rosa invadir suas narinas. Seus olhos eram azuis acinzendatos, mas ela tinha plena certeza de que eles brilhavam de outra cor. O cabelo loiro estava solto, caindo como uma cascata sobre suas costas. Bella era dona de um corpo memorável, suas curvas se destacavam nos shorts pequenos e na camisa três quartos que usava. Kaori percebeu que ela calçava botas de caubói de couro legítimo.

Notou também que não era só ela e Finny que estavam encantados com a presença de Bella. A boca de Gabriel estava aberta; ele demorou alguns minutos para voltar ao normal. Cory exibia sua melhor face de puro desgosto (não que ele não havia achado a garota bonita, pelo contrário, a garota era extremamente bonita) o que para Kaori significava que a presença da outra era tão grande que seus egos acabaram por se chocar.

— Então? — ela perguntou novamente, ignorando os semblantes impressionados dos garotos, sentando na ponta da mesa do aposento. — De onde vieram? O que estão fazendo aqui, no meu condomínio?

— Somos de Ohio — respondeu Kaori, já que nenhum dos outros estavam aptos a fazê-lo. — Há uma casa a quase dois quilômetros daqui, moramos lá agora. Viemos aqui para ver se achamos...

— Mantimentos. Entendi — interrompeu Isabella.

Kaori passou a língua pelos lábios, começando a se irritar com o ar superior da garota. Sentou-se na outra ponta da mesa sem convite e a encarou, aborrecida.

— É — falou com azedume. — Mantimentos. Imaginamos que ele estivesse vazio, se é que me entende.

A troca de olhares furiosa que seguiu entre elas foi interrompida por Cory batendo o punho na mesa, infelizmente tão irritado quanto às outras garotas.

— Está sozinha? — perguntou diretamente à Isabella. — Quantos anos têm? Por que está carregando uma metralhadora no ombro? Onde a arranjou? E por que...?

— Cory! — interrompeu Finny, saindo de seu transe, mas não deixando de continuar a olhar para Isabella de relance. — Nós somos os convidados aqui, não devemos fazer tantas perguntas...

— Não, tá tudo beleza — disse Isabella com um sorriso amarelo. — Eu respondo as perguntas.

Kaori e Cory se entreolharam. Obviamente, precisam saber o máximo sobre Isabella, sua misteriosa metralhadora e de onde aquela beleza matadora tinha vindo. A pergunta maior, no entanto, era por que a garota estava sendo tão hostil, mas ao mesmo tempo tão acolhedora, com eles.

— Tenho vinte anos e havia outro garoto comigo, mas ele se transformou, não tem muitos dias. A metralhadora... — ela a colocou na mesa; Finny e Kaori estreitaram os olhos com desejo — era do meu pai. Ele virou uma daquelas aberrações.

Isabella terminou e encarou cada um da mesa profusamente.

— Alguma pergunta a mais?

Cory meneou a cabeça, sentando ao lado de Kaori, olhando a garota mortalmente. Kaori não sabia o que pensar de Isabella. O gênio da garota batia com o de seu melhor amigo e com o dela. Se fossem inimigos, sinceramente não sabia qual dos três perderia. Era melhor para todos que eles ficassem juntos do que separados.

— Essa era sua casa? — indagou Kaori suavemente, depois que Isabella saiu do aposento e voltou minutos depois com algumas comidas enlatadas para os quatro. Ela não tinha reparado que estava com fome até ver as latinhas de batatas e espinafres.

— Era — confirmou Isabella, tirando um cigarro e um isqueiro do bolso, acendendo-o e pondo na boca. Kaori franziu a testa, mas estava se deliciando com a comida para protestar. — Vim para cá por causa das férias de primavera e acabei presa aqui. Pra sempre.

A garota não conseguiu esconder o ressentimento presente em seu tom enquanto tragava seu cigarro. Ela observava os garotos comerem com um meio sorriso no rosto, que não passou despercebido por Kaori. Cory continuava a encará-la com raiva, porém Gabriel e Finny estavam ocupados demais com suas latas para reclamarem ou perceberem alguma coisa.

— Você fazia faculdade? — perguntou ao terminar sua parte da latinha e a jogando no meio da mesa, causando um barulho estrondoso. Acima disso, eram só ouvidos os sons de mastigação alto dos garotos.

— Medicina, terceiro ano.

Kaori fez as contas rapidamente em sua cabeça e notou que ela entrara na faculdade aos dezesseis anos. Assoviou, impressionada, o que causou uma risada em Isabella. No mesmo instante, seus músculos relaxaram e tudo ao seu redor pareceu brilhar mais. A risada de Isabella era o melhor som do mundo, parecia que anjos estavam ali junto com eles.

— Incrível que até nesse mundo as pessoas ficam assombradas com isso — ela murmurou revirando os olhos, o que fez Kaori sentir-se como uma grande idiota.

— Beleza, chega de papo! — exclamou Cory se levantando; ele mal tocara na sua comida enlatada. — Temos que ir embora, elas estão esperando.

Kaori, que observava Isabella tirar os cabelos brilhantes do ombro feito uma princesa, piscou e levantou os olhos para Cory. Por um momento terrível, esquecera-se do amor de sua vida. Claro... precisava voltar para ela, Fernanda estava sozinha na mansão.

— Elas? — repetiu Isabella, subitamente interessada.

— Nossas, hm, namoradas — Finny respondeu, as orelhas ficando vermelhas. — Somos um grupo de dez pessoas.

— Achei que vocês se namoravam — disse a garota, franzindo a testa. Kaori e Finny se entreolharam, a expressão aterrorizada e de puro nojo. Ela olhou para Kaori. — Você é lésbica?

— É — respondeu Cory corajosamente, antes que Kaori o fizesse. — Algum problema com isso?

Kaori revirou os olhos: ele parecia querer provar algo a Isabella, o que basicamente sempre acontecia quando conhecia uma garota nova. Nenhum apocalipse mudaria aquilo nele.

— Nada — respondeu a menina abrindo um sorriso amigável. — Só acho que vocês não deveriam ir agora. — Ela fez um sinal para a janela, onde os pingos de chuva começavam a cair. — Está chovendo e é noite. Deveriam esperar até o amanhecer.

— Concordo — aceitou Gabriel de bom grado, terminando de rapar sua latinha de legumes ao enfiar sua língua dentro dela.

Finny sorriu a Kaori, como se pedisse permissão. A garota apenas deu de ombros, estendendo os pés sobre a mesa. Se Isabella convidara-os a passar a noite, obviamente tinha espaço suficiente para eles. Sua única preocupação foi Fernanda. Ela já dormira sozinha com os quatro em Lima antes, mas Fernanda estava em coma e segura no hospital. Agora, a situação era diferente. Fernanda estava muito bem acordada e ainda não conseguia dar um tiro direito. Só esperava que os outros protegessem a ela e a Ash.



01:34 AM


— O que você acha dela? — murmurou Cory tarde da noite, deitado num colchonete ao lado de Kaori.

Isabella arranjara dois quartos para eles, então Kaori teria que dividir o seu quarto com algum menino, então ficou ela e Cory em um quarto e Gabriel e Finny. Não havia camas em nenhum deles, à exceção do quarto da menina, então os quatro tiveram que se ajeitar em colchões. Ela suspeitava que seu sentimento em relação à garota tenha se mostrado negativo demais, pois Cory era o único com um colchonete ralo e antigo: os outros se aconchegavam em colchões de mola gigantes.

— Muito boa... — ela respondeu sonhadora, e Cory revirou os olhos. Quando aquele “efeito Bella” iria passar neles? Kaori tossiu, acordando de seu devaneio, e disse: — Quer dizer... Hm, eu acho que ela seria útil. A mulher fazia medicina.

Cory soltou um suspiro emburrado. Ele não gostara da garota, nem um pouquinho. Claro, ela era um anjo em forma de ser humano e os salvara de serem mordidos por walkers na parte da tarde. Mas isso não era um bom motivo para continuar a amá-la para sempre, como Gabriel, Kaori e Finny pareciam estar fazendo. Não confiava nela, e não chegaria a confiar tão cedo.

— É... — fez Cory amargurado. Ele rolou no colchonete barato, virando para o colchão de Kaori e deparando com a altura dele que as separava. — Eu não gosto dela.

Talvez tivesse soado como um garotinho de fundamental ou porque ele estivesse meio drogada por causa da tragada do cigarro que Isabella lhe dera, mas, lá de cima, Kaori riu estupidamente.

— Ela é normal, idiota — retrucou Kaori, sua cabeça surgindo acima do colchão e assustando o garoto. — Esquece, falou? Nós vamos acordar amanhã e ir embora. Sem Isabella, ok?

Mesmo à luz de velas, o sorriso e os olhos azuis de Kaori brilhavam mais que tudo. Cory hesitou, porém logo concordou.

— Agora, sobe aqui — sugeriu Kaori, batendo no colchão. — Sei que sou superior, mas não preciso mostrar todos os dias.

Riu por um instante, mas pulou sem hesitar na cama de Kaori. Só o fato de não poder sentir o chão fazia o colchão ser muito melhor que o seu colchonete furado. Ele pegou o travesseiro mofado e o colocou ao lado de Kaori..

— Sabe... — disse Kaori após uns minutos, virando de barriga para cima, olhando pacificamente o teto feito de gesso — valeu.

Cory franziu o cenho. O tom de Kaori saíra num murmúrio, como se ela não quisesse ter falado e se arrependera bastante daquilo. Deu de ombros, continuando a deitar-se de lado e observando o quão concentrada Kaori estava em olhar para o teto, imaginando se Isabella dera um cigarro inteiro para ela escondido.

— Pelo quê? — Cory indagou quando o silêncio se tornou um pouco torturador.

— Por ter estado aqui, sempre. — A voz dela foi sumindo quase que no mesmo instante. — Só... obrigada.

Cory riu, aliviado. Se Kaori agradecesse primeiro e pedisse um favor depois, ela conheceria um pouco de sua raiva e ódio que estava sentindo. Ainda assim, era uma hora estranha para Kaori lhe falar isso. Será que a garota continuava com medo do que poderia acontecer com o grupo? Será que Kaori não confiava plenamente em Cory como demonstrara? Eram muitas perguntas na cabeça de Cory. No entanto, ele apenas sorriu e disse:

— De nada, vadia.

Conversas tocantes entre ele e Kaori, esse era o máximo que eles chegariam.


***


07:38 AM

— Devíamos mandar uma equipe de busca — sugeriu Matheus determinado. — Eles estão lá fora, sem comida ou lanterna ou...

— Entendemos Math — retrucou Laura irritada. — Mas eu não acho que deveríamos enviar um de nós, eles vão voltar.

Fernanda enfiou o rosto entre os braços, suspirando cansada. O dia já amanhecera e ainda nenhum sinal de Kaori e dos outros. Ela sentia que Kaori não havia morrido ou se transformando em um dos zumbis pela sua simples conexão com ela, mas começando a se preocupar. E se alguma coisa tivesse acontecido com Cory, Gabriel ou Finny? E se eles tivessem juntado mantimentos o bastante e não conseguiram chegar à entrada do condomínio até o anoitecer? Bem, ela pensou com um pingo de esperança, eles poderiam apenas ter passado a noite lá...

Matheus, Laura, Carol, Vitoria e ela estavam em volta da mesa de jantar, exceto Di, que continuava encarando o lado de fora da janela da sala de estar, na mesma posição em que ela a encontrara pouco antes de dormir. Di não encarava àquilo como Carol ou Fernanda, e isso a estava começando a deixá-la preocupada. Com certeza a garota não sairia de perto da janela até que visse Cory.

— Eu posso ir — se ofereceu Vitoria. Fernanda levantou a cabeça e a olhou, surpresa. Laura revirou os olhos e pediu para que abaixasse sua mão. — É sério! Depois da Di, acho que sou a melhor atiradora do grupo.

— Vitoria, cale a boca! — ralhou Carol, finalmente falando. Ela servia os garotos com um pouco de cereal e água. — Não vamos mandar ninguém.

— Nenhum deles vai morrer — disse Fernanda, a voz saindo rouca, porém resolvida. — Aqueles quatro são as melhores pessoas que já vi na vida, nenhum deles morreria por uma bobagem dessas de zumbis. Eles são fortes, vão chegar daqui a pouco.

Laura olhou para Vitoria, satisfeita. Matheus e Vitoria pareceram se convencer com as palavras de Fernanda. Ela engoliu em seco, também querendo ver alguma veracidade no que acabara de falar. Acreditava que Kaori viria, em alguma hora do dia ou da semana, mas durante a madrugada as opções ficavam cada vez mais ralas. Só precisava de um ponto, um lugar onde pudesse se conectar com ela, uma certeza de que ela voltaria para casa logo.

— E Di? — sussurrou Vitoria minutos mais tarde, o silêncio sendo substituído pelo som de mastigadas. Fernanda, que alimentava Ash, fitou a garota. — O que nós vamos fazer com ela?

— Dizemos pra ela esperar — resmungou Carol. Fernanda tinha que admitir: aquela Carol que um dia conhecera. Aparentava sempre fraqueza e cansaço. — Nós estamos esperando.

— O que eu estou dizendo é, quem vai lá falar com ela — retrucou Vitoria num sussurro, somente para Fernanda.

Fernanda suspirou e terminou de dar à Ash sua refeição. Ela não queria, mas sabia para quem que sobraria. Carol se irritava fácil e os garotos não tinham sensibilidade nenhuma. Comeu o resto que tinha no seu prato, ignorando o ataque matinal de risadas de Ash, e saiu até a sala de estar.

Mas Di não estava mais lá.


***


07:29 AM

— Prontos? — indagou Kaori a eles.

Finny acenou com a cabeça. Ajeitou sua mochila nos ombros e deu uma última olhada para a casa de Isabella, onde a garota os observava pela porta da frente.

Ele não queria deixar Isabella. Não pela sua suposta paixonite por ela, mas simplesmente por que seria maldade. Ela sobrevivera sozinha algum tempo naquele condomínio, não era possível que não sentia falta de contatar humanos além dos mortos que transitavam ali. Além disso, Isabella poderia ser útil. A garota estava no sexto período de medicina, seria uma mão na roda para Fernanda — que, mesmo alegando que estava bem, ainda poderia ter sequelas do coma — ou Ash. Nenhum deles tinha alguma experiência com agulhas e medicamentos. Até Cory tinha que encarar: Isabella era mais que útil para eles.

— Em razão a isso... — começou Finny, torcendo as mãos, nervoso. Ele apontou a cabeça na direção da porta da casa da menina. — Eu acho que devíamos levá-la.

Cory o encarou como se o garoto fosse louco. Gabriel abriu um sorriso safado, meneando a cabeça em concordância. Kaori, por outro lado, somente deu de ombros, virando-se para a rua. Finny estreitou os olhos. Pelo jeito ele não era o único que tinha uma queda pela menina.

Ele não podia evitar. Ela era a garota mais perfeita que ele já encontrara na vida. Ela tinha uma forma estranha de fazê-lo sentir-se péssimo sobre si e na mesma hora consolá-lo. A garota misturava o mal e o bem num único corpo, era de certa forma excitante.

Finny amava Carol, desde sempre. Amava mesmo. Mas a menina possuía algo que o fazia esquecer-se de tudo ao seu redor.

— Nem a pau! — exclamou Cory, olhando de relance à porta, onde Isabella continuava parada, encarando-os. — Eu não gosto dela. Não vou deixar que ela chegue perto da minha Di.

— Cory, ela é hétero, pelo amor de Deus — retrucou Gabriel com um claro desejo na voz. — Nós temos quartos livres. Não vejo nenhum contra-argumento.

Kaori parou na metade da rua e voltou seu olhar para eles. Ela passou a língua pelos lábios, olhando novamente para a garota. Finny acompanhou seu olhar. Isabella parecia se divertir com a indecisão deles.

— E ela é quase formada em medicina — acrescentou Finny, olhando para Cory, esperançoso. — Imagine o seguinte: Di tá passando mal, nenhum de nós sabe o que é. Ela está morrendo, o que você faria? O que restaria pra gente fazer?

Cory bufou. De longe, Kaori sorriu animada, pois Finny tinha acabado de tocar no ponto fraco do garoto: sua namorada. Ele ajeitou a mochila carregada de utensílios nos ombros e empurrou Finny da frente dele, olhando diretamente para a menina.

— Tem dez minutos para arrumar suas coisas — disse emburrado. Isabella sorriu contida. — Você vem com a gente.

Bella piscou para Finny, agradecida. O garoto sentiu borboletas no estômago. Perguntou-se quanto tempo levaria para estar perto dela sem sofrer um ataque cardíaco por causa de sua beleza. Olhou para Kaori, mas ela estava com o semblante distante, provavelmente pensando em Fernanda outra vez.

Cinco minutos mais tarde, depois que Kaori e Cory acabaram com dois walkers escondidos atrás das lixeiras, Isabella saiu de casa carregando uma mochila de acampamento nas costas e uma maleta branca com uma cruz vermelha na mão. Parou bem perto de Cory, apenas para provocá-lo, e disse com um sorriso sedutor:

— Estou pronta... antes do tempo que você propôs.

Os olhos de Gabriel brilharam. Finny tinha plena certeza do que ele pensara, e não era nada muito ingênuo. Kaori revirou os olhos e pôs a mão nas costas de Finny, o forçando a andar. Cory fez o mesmo com Gabriel. Isabella, por outro lado, sacudiu os cabelos loiros ao vento da manhã e caminhou por contra própria.

Se já Isabella causara muita encrenca ali, o garoto pensou, ela iria causar muito mais quando chegassem à mansão.


***


07:40 AM

Di poderia ter pensado que esperaria Cory para sempre na janela da sala de estar, mas estava terrivelmente errada.

Ela não era garota de esperar. Essa coisa era apenas para Fernanda e Carol. Di era menina de ação. Não ficaria parada, olhando o tempo ficar cada vez mais escuro, enquanto seu namorado estava preso em algum lugar a poucos quilômetros dali. Ela agiria. Iria fazer com que Cory se orgulhasse dela.

Por isso, quando Fernanda passou pela sala de estar na direção da cozinha a fim de comer seu café-da-manhã, ignorando-a completamente, Di acomodou sua pistola no coldre, conferindo se tinha balas suficientes no carregador, e saiu porta a fora, à procura de Cory.

Ouvira Matheus e Vitoria sugerir que deveriam montar uma equipe de salvamento, mas aquela ideia era idiota. Di não poria em risco nenhum deles. Se encontrasse Cory, tinha certeza de que acharia os outros, então não haveria muito problema em sair sozinha. Era uma viagem curta, afinal de contas.

Pensou em ter ouvido alguém gritar seu nome, mas ignorou. Eles ficariam muito felizes se trouxesse os outros de volta. Para ela, era uma coisa muito simples: matar um walker se o vir, ou abraçar Cory se o encontrar — e ela iria encontrá-lo.

Saiu da propriedade de Finny com a mente em alerta, olhando para frente ao mesmo tempo em que tentava manter os olhos nas laterais. De um lado, via-se outras mansões, incrivelmente maiores que a que vivia. Do outro, não havia nada além de grandes plantações e uma pequena floresta mais ao fundo. A vizinhança seria um lugar bonito e sereno, se a maior possibilidade de errantes estiver escondidos não fosse ali.

Di franziu a testa ao parar numa encruzilhada, tentando se lembrar por qual caminho viera, há quase dois dias. Tinha certeza que havia passado com o carro de Kaori pelo condomínio. Uma vez que descobrisse a direção, era só seguir em frente. Quando decidira tomar o caminho da esquerda, um barulho vindo da estrada da direita a fez virar rapidamente o pescoço.

Seria... conversas? Di encarou o nada, um pouco assustada, se perguntando se já estava tão obcecada em encontrar Cory que começara a ouvir sua voz. O barulho veio no começo como sussurros calmos, mas à medida que eles se aproximavam, e ela apertou os olhos para distinguir as sombras no meio do nevoeiro da manhã, ficou claro que as vozes não estavam nada tranqüilas.

Duas vozes gritavam. Na verdade, elas esperneavam. Di identificou Cory imediatamente. Uma ou duas — que lhe parecia de Kaori e Finny — tentavam conter as outras, mas sem nenhum sucesso. Numa mão, Di queria realmente saber com quem seu namorado estava brigando tão violentamente, mas pela outra (o lado que tomou conta dela no mesmo instante em que ouvira a voz de Cory), tudo o que Di fez foi gritar por Cory, animada.

— Esperem — disse alguém, provavelmente Gabriel. As duas vozes pararam de discutir. — Vocês ouviram isso?

A neblina se dissipara quase por completo, deixando para Di à mostra Finny e Gabriel tentando conter a garota mais bonita que ela já vira na vida, e Cory. Kaori estava no meio deles, como outro modo de tentar fazer os dois parararem de brigar.

— Me solta! — exclamou Cory ao ver a namorada. Abriu um sorriso enorme e se desvencilhou de Gabriel para correr até ela.

Di sentiu o impacto forte de Cory contra seu corpo, mas nem se importou. Cory estava de volta, pensou feliz enquanto colava os lábios nos do garoto, abraçando-o tão forte que chegava a doer. Ela podia sorrir novamente, comer alguma coisa, dormir abraçada com ele outra vez. Sentia-se plenamente feliz naquele momento.

Após soltar Cory, Di notou que Finny ainda segurava a menina bonita e que Kaori olhava para o lado, talvez pensando na sua garota na mansão. Gabriel sorriu para eles, a expressão safada tomando seu rosto.

— Espero que você fique menos agressivo perto da sua namorada, Cory — resmungou a garota passando por eles e lançando um olhar bondoso a Di.

Cory quis avançar para ela, porém Di o impediu. Olhou a garota nos olhos e estendeu a mão.

— Di — cumprimentou. Tinha certeza de que iria ouvir a história de como os garotos a haviam encontrado mais tarde, mas sua mãe sempre lhe ensinara a ser legal com as pessoas novas.

— Bella — ela respondeu, apertando a mão de Di com um sorriso amigável. — Prazer. – Cory arqueou as sobrancelhas

Elas ficaram se encarando, Di sentindo o olhar ciumento de Cory sobre ela, até Finny dizer animado:

— Que bom! Você já conheceu uma das meninas, vamos logo para que você possa ver as outras, e o Matheus.

Bella assentiu, caminhando ao lado de Di.


***


Fernanda gritara por Di até que suas cordas vocais começassem a tremer. Recusava-se a sair da propriedade, então o máximo que alcançara fora a cerca fraca que os rondava. Ela podia distinguir Di de longe, caminhando determinada da direção do condomínio. Gritou mais algumas vezes, mas Di já estava longe. Ela não escutaria.

Ela apertou a cerca feita de arame farpado, sentindo os espinhos atravessar sua mão. Fez uma careta de dor. Ela não poderia ir atrás de Di. Sua confiança estava abalada, pois Kaori ainda não voltara, mas em algum lugar, Fernanda sabia que se Di fosse atrás deles, os quatro voltariam.

Soltou-se do arame farpado, observando um lastro de sangue sair da palma de sua mão. Fechou-a num punho, contendo-o. Ouviu Vitoria sair da mansão, sua voz escandalosa chegando aos seus ouvidos como uma forma de calmante. Di estaria fora por alguns minutos, atrás de suas garotas, isso significava que estava no comando?

— Onde está ela? — indagou Laura, que vinha junto com Vitoria carregando Ash, ao parar ao lado de Fernanda. — Ela fugiu?

— Não — respondeu Fernanda, olhando para frente determinada. — Ela foi buscá-los.

Laura e Vitoria assentiram. Fernanda olhou para elas de relance, imaginando se Di estivesse certa, se as duas haviam nascido uma para a outra. Bom, naquele mundo, qualquer tipo de carinho e atenção era melhor que nada. Se apegar a alguém era uma das maneiras de não se sentir tão desesperado, de ter alguma razão para viver.

Os minutos passaram vagarosamente. Fernanda não viu nenhum sinal de Carol ou Matheus perto das três, então simplesmente presumiu que a garota se irritara mais uma vez, e que o menino estava cuidando de seu cassetete — ele o havia deixado brilhando na noite anterior, mas sempre parecia encontrar algum defeito. Laura brincava com Ash, fazendo caretas enquanto Vitoria ocupava seu tempo girando sua pistola entre os dedos, apontando-a para o nada e fingindo atirar.

— Por que vocês não vão para dentro? — perguntou Fernanda mais tarde, observando com a sobrancelha arqueada Vitoria rolar no chão enlameado do jardim, imaginando ser um agente da CIA.

— Ah, qual é Fêr, a gente sabe o que você tá passando — disse Laura, vigiando Ash enquanto a garotinha caminhava aos tropeços pelo jardim. — É sempre bom ter alguma companhia. Além disso, se a gente voltasse para dentro, Carol brigaria com nós para fazermos a mesa.

Ela suspirou voltando a pegar a garotinha no colo. Ashh reclamou um pouco, ameaçando chorar, e Laura a deixou brincar com a lama outra vez. Fernanda observava tudo com um olhar distante, preso na rua da mansão, o sol começando a queimar em sua cabeça.

— Ei! — exclamou Vitoria um tempo depois, apontando a pistola para a estrada, ainda deitada no chão. — Não são eles, bem ali?

Fernanda avistou silhuetas ao longe. Se não fosse Kaori e os outros, então elas estariam bem ferradas. Mas... havia outra pessoa com eles. Identificou Di e Cory abraçados mais distante dos outros. Finny e Gabriel conversavam com a silhueta desconhecida, e Kaori, andando o mais longe possível dos meninos.

Fernanda abriu um sorriso; Laura a empurrou, em uma tentativa de forçá-la a ir ao encontro de Kaori. Finny acenou para elas, apontando para a pessoa nova, uma garota — e uma das garotas mais bonitas que Fernanda já vira.

Mas ela não teve muito tempo para apreciá-la. Kaori acabara de notá-la e vinha na sua direção, tão calmamente que a irritou um pouco. Tinha um sorriso maroto brincando em seus lábios e, assim que chegou perto o bastante, englobou-a em seus braços tão forte que ela pensou que Kaori a quebraria ao meio.

— Estou vendo que sentiu minha falta — observou Fernanda com uma careta, apertando as costas doloridas.

Kaori apenas sorriu, se aproximando para dar-lhe um selinho. Fernanda se abraçou a ela novamente, louca para contar sobre todos os momentos entre elas no período antes do coma que havia se lembrado durante a noite, só não sabia como.

— Quem é aquela? — indagou Fernanda, apontando para a garota nova, que agora cumprimentava Laura e Vitoria. Cory a olhava com desprezo, mas as meninas pareciam hipnotizadas. De longe, ela era perfeita. Mas de perto... era dez vezes mais.

— Aquela é a Bella — Kaori respondeu, entrelaçando sua mão na de Fernanda. — Estava no condomínio, acredita? Fazia medicina. Finny achou que ela seria útil.

Fernanda assentiu. Kaori sorriu mais uma vez, a tranqüilidade e a paz exposta em sua expressão acalmando a loira imediatamente. Nos braços dela, podia finalmente se sentir em casa.

— SPQR — ela murmurou, por fim. Ela imaginou que aquela sigla iria significar para Kaori alguma coisa, afinal as horas forçadas aprendendo latim tinham que funcionar para algo.

— Senatus Populusque Romanus — disse Kaori, franzindo a testa. — Fêr, por que você tá falando latim? Você nem sabe o que isso... — E a compreensão invadiu seu rosto; Kaori deu um sorriso vitorioso e levantou a no ar. Ela revirou os olhos; a garota simplesmente gostava de comemorar tudo. — Eu não acredito! Você se lembrou das aulas? Do que mais você lembrou?

— A gente escreveu uma música para cantar para nós e apenas para nós — Fernanda começou a contar nos dedos quando a garota a soltou, rindo da felicidade de Kaori — Você me deu aulas de latim mesmo sabendo que eu era péssima na língua; tivemos várias conversas sobre como Ana estava totalmente viciada em sexo, e só queria saber de sexo a qualquer lugar e em qualquer momento. E... eu obriguei você a ver O Guia do Mochileiro das Galáxias oito vezes durante o verão.

Kaori meneou a cabeça em concordância.

— Dez, para ser mais exata — retrucou. Ela abriu um sorriso. — Não mencionando as outras vezes depois do início das aulas.

Fernada abraçou Kaori novamente. Ao olhar para o lado, viu Gabriel dar em cima da garota nova, Bella; Carol beijar Finny com vontade, como se tivesse que provar alguma coisa; Laura e Vitoria brincando com Ashley, rindo estupidamente; e Cory e Di escapando para dentro da mansão, esperando não ser seguidos. Pensou que Matheus ainda deveria estar nos jardins do fundo, lustrando seu cassetete, já que ele não estava à vista.

Ela deu de ombros, sentindo os lábios de Kaori grudar nos seus apaixonadamente. Fernada sorriu entre os pequenos beijos que a garota lhe dava. Com suas lembranças de volta, cada carinho que Kaori fazia parecia ter um significado maior, pareciam mais afetuosos, mais... Não sabia como descrever.

Era como se estivesse finalmente completa.