In The Hell
8 in the hell 8
— Eu não acredito que você mata zumbis e tem medo de uma barata — disse Laura num tom cético, tirando sua sandália e dando um golpe perfeito no inseto que se encolhia no encontro entre as duas paredes do quarto. — Até Fernanda superou o medo dela de armas.
— Você já deu uma olhada nesses bichos? — retrucou Vitoria, se aproximando da barata morta e fazendo uma careta de nojo. — E o pior é que esses monstros sobrevivem a tudo, não dá pra escapar. Uma vez li que...
Laura fez um gesto para que Vitoria parasse de falar. Conhecia aquela história dos pés à cabeça. Sem nenhum meio de comunicação nas últimas semanas, Vitoria passava o dia dizendo repetidamente os fatos que costumava procurar na internet. Durante a viagem até Horn Springs, Laura desejara algumas vezes que tivesse ficado com os outros lá na cidade para não ter que aturar Vitoria co suas histórias.
Obviamente, depois de seu longo sermão de sobre como Laura devia a todos eles por tê-la salvo de uma quase morte enquanto eles estavam sendo atacados e mais uma hora de reclamação sobre tudo o que acontecia na estrada, Vitoria se tornava um pouco legal. Acostumar-se com aquela garota era uma das coisas mais difíceis que Laura havia feito na vida, e isso incluía ter sobrevivido sozinha sem seus pais nos bairros a pequena cidade à procura de um lugar para ficar.
— Eu já sei disso tudo, Vi — Laura interferiu, revirando os olhos. — As baratas sobrevivem a apocalipses como esse e uma invasão alienígena. Conheço você tem uma semana e sei praticamente tudo da sua vida.
Vitoria apenas sorriu, dando de ombros.
— Não acho que ninguém aqui se preocuparia em matar baratas para mim — disse ela agradecida. — E você também quer ficar comigo, a gente divide um quarto numa casa enorme como essa.
— Eu só não entendo por que há baratas aonde você vá. Parece que você tem um imã ou coisa do tipo.
As duas riram. Acima de tudo, Laura gostava de Vitoria. Ela era extremamente irritante, mas tão fofa que facilmente anulava todos os seus defeitos.
A relação dela com os outros moradores da mansão era um tanto reservada. Finny era realmente legal com ela, assim como sua namorada, Carol — os dois pareciam os pais deles, inclusive brigavam como tal —; e Matheus era o garoto mais fofo que conhecera.
Mas Vitoria... Elas se combinavam, de alguma forma. Tudo que Laura queria após ver seus pais sendo comidos vivos por walkers ao entrar em casa era algum porto seguro. Aquelas pessoas pareciam isso a ela, mas em especial Vitoria e Matheus.
— É essa casa — comentou Vitoria sentando na cama. — Existem segredos nela por toda a parte. — Ela inspirou, fechando os olhos, como se sentisse a presença de algo. Laura a encarou, assustada. — Bem, talvez devêssemos explorá-la mais tarde. Finny disse que vistoriou a casa inteira, então não deve ter perigo nenhum entrar no porão mais tarde.
Ela deu um sorriso malicioso ao abrir outra vez os olhos. A outra garota concordou lentamente. Agora que Finny, Kaori, Cory e Gabriel assumiriam a liderança e a normalidade começava a se instaurar por ali, arranjar aventuras que não envolviam armas e walkers parecia uma boa. Seria como tivesse voltado no tempo e Laura passaria mais um verão brincando no porão dos avôs.
— Interessante — disse Laura, sentando-se ao lado de Vitoria. — Podemos chamar o Matheus também. Hoje à tarde, então?
Vitoria concordou com um sorriso.
***
Havia muito tempo que Kaori se sentia tão bem. Ela tinha certeza de que sua felicidade irradiava em todos na casa, pois nunca vira Finny e Gabriel queimando walkers nos fundos da mansão cantando alegremente.
Depois de ter ensinado a Fernanda a usar uma arma da maneira mais difícil (não podia se culpar, ela aprendera da mesma forma) e Cory ter pegado elas se beijando no quintal — agora ele só fazia piadas idiotas sobre as duas —, Fernanda e Kaori entraram na mansão, ambas envergonhadas demais para olhar para Cory por pelo menos uns bons minutos.
— Ei, espera — chamou Kaori tão logo que Fernada colocou o pé na escada para ir ao segundo andar. A garota virou-se, franzindo a testa. — Preciso te mostrar algo.
A expressão de Fernanda ficou mais confusa ainda quando Kaori pegou sua mão e puxou-lhe para baixo. Os dedos de Kaori formigavam gostosamente, uma sensação que ela nunca sentira causava borboletas em seu estômago. Queria rir, mas se conteve.
Ela parou em frente a uma porta ao lado do hall e a abriu. Fernanda soltou a mão dela imediatamente, horrorizada. A bolha de felicidade no coração de Kaori estremeceu um pouco. No entanto, ela apenas deu um sorrisinho contido.
— E-eu não vou entrar aí — disse Fernanda, trêmula.
— É necessário, bebe — contrapôs Kaori bondosa, estendendo a mão a ela novamente. A garota recuou.
Levou alguns minutos para que pudesse convencê-la a entrar. Ainda assim, Fernanda apertava a mão de Kaori tão forte que começava a doer. Tinha que admitir que talvez estivesse forçando demais Fernanda para o mundo apocalíptico. Mostrar o arsenal do grupo logo após de ela ter matado seu primeiro zumbi talvez fosse muito além da compreensão da garota.
Finny mostrara a sala para ela, Cory e Gabriel durante o fim da tarde no dia anterior. Kaori ficara impressionada, pois parecia que as armas que tinham na cidade antiga não eram tantas quanto as que estavam ali. Havia uma mesa enorme carregada de munições de todos os tipos. Nas paredes, rifles e espingardas decoravam como se fossem quadros de obras de arte. As pistolas, revólveres e armas menores tinham um lugar num armário embaixo da mesa de munições.
Kaori tirou uma gaveta do armário, onde havia mais ou menos dez ou onze pistolas, e a colocou em cima da mesa.
— Escolha uma — falou Kaori depois de finalmente desgrudar sua mão de Fernanda.
A loira ficou tensa.
— É obrigatório? — perguntou com uma risadinha nervosa.
Kaori assentiu, deixando Fernanda procurar por uma arma que lhe interessasse. Infelizmente, ela ficou parada no mesmo lugar, parecendo petrificada.
— Kaori, mas eu tenho sua adaga! — tentou argumentar Fernanda desesperada.
— Fêr, quer mesmo esperar que um daqueles merdas chegue a dois metros de você para poder atacar? — perguntou Kaori de forma tranquila, pegando uma pistola da gaveta e a entregando a Fernanda.
Fernanda fez um som estranho com a garganta que Kaori presumiu ser um não. Ela parou de analisar a sala e insistiu mais uma vez para que Fernanda pegasse a arma. O desespero em seus olhos não a abalou.
— Beleza — murmurou Fernanda a contragosto, tirando a arma das mãos de Kaori. Ela tentou puxar o ferrolho, porém a outra a impediu.
— Está descarregada. — Fernanda deu um suspiro, decepcionada. Kaori deu uns tapinhas em seu ombro, solidária. — Anda, vamos. Está quase na hora do almoço e eu vou dá-lo a Ash hoje.
Fernanda pôs a arma nas suas costas e sorriu. Kaori, Di e Gabriel tinham combinado em trocar os turnos enquanto estivessem cuidando de Ash. A escala mudava de um dia para o outro, mas Kaori estava feliz. Não precisava cuidar de Ashley o dia inteiro — ou se preocupar com ela, pois Gabriel era o melhor pai do mundo e Di adorava crianças. Era uma coisa boa, revezamento.
Seus dedos formigaram outra vez quando Fernanda pegou sua mão e puxou para fora do arsenal.
***
— Qual é sua última lembrança?
A pergunta de Kaori não pegou Fernanda de surpresa. Ela já esperava, só estava contando os minutos para que Kaori levantasse o assunto de suas memórias perdidas.
A garota franziu a testa, dedilhando lentamente as teclas do piano. Fernanda encontrara a sala de instrumentos musicais no primeiro andar da mansão enquanto explorava a casa com Kaori. Ficou animada, viu aquela sala como sua forma de escapar do inferno que estava acontecendo lá fora.
— Lembro-me de Ana... — disse Fernanda após uns minutos, tocando uma melodia suave. — Eu e ela sentadas na varanda da minha casa. E depois tudo vira um borrão.
Kaori soltou um muxoxo avisando que entendera. De costas para ela, Fernanda sentiu um nó na garganta. Imaginou que fosse por causa das lembranças (pensar em Ana ainda lhe causava calafrios), mas não. O silêncio que vinha de Kaori a fez pensar que a garota não estava muito confortável.
Era explicitamente óbvio porque. Fernanda amava Kaori de uma maneira que jamais amaria outra pessoa na curta vida que provavelmente teria. E, no entanto, sua última lembrança era com Ana. Seu cérebro poderia estar se acostumando com a realidade bizarra em que se encontrava, mas ainda estava preso de alguma forma à antes de seu coma.
Fernanda parecia não levar em consideração o fato de que durante seu período de coma, Kaori era a pessoa que mais aparecia em seus sonhos intermináveis. Que ela havia pegado a mão de Kaori para poder finalmente acordar. Fernanda ignorava o fato de estar ali, agora tocando uma melodia mais pesada no piano numa mansão no Tennessee, por causa da morena.
— Eu ensinei essa música a você — comentou a morena de repente, o que fez Fernanda quase pular do banquinho, espantada.
— O quê? — ela indagou surpresa. Mesmo com a informação, não parou com a música.
Kaori riu.
— Você tá tocando Alice, da Avril. — Fernanda se sobressaltou ao ver que Kaori estava ao seu lado no banquinho apertado. A outra garota, entretanto, sorriu e fez sinal para que ela continuasse a tocar. — Eu te ensinei a tocá-la.
Um flash de imagens passou pela cabeça de Fernada rapidamente. Elas deitada em cima de livros... Kaori dando um sorriso maroto... As duas sentadas num banquinho em frente a um piano preto... O rosto de Kaori tão concentrado ao executar as notas que Fernanda não se decidia entre observar a garota ou suas mãos ágeis...
— Nós estávamos lendo latim e... — continuou Kaori, porém a loira a interrompeu.
— Eu fiquei entediada e você me prometeu ensinar uma música se eu voltasse a estudar mais tarde — completou tão rápido que sentiu uma pontada de dor atravessar sua testa. Ela tirou as mãos das teclas do piano e as colocou na cabeça instintivamente.
Kaori olhou para Fernanda num misto de assombro e preocupação.
— Você se lembrou... — disse num murmúrio. Depois, sorriu. — Fêr, você se lembrou!
— Acho que sim — falou a outra, a dor na cabeça começando a se dissipar. Ela abaixou as mãos e sorriu para uma animada Kaori. — Já foi um dia, faltam agora só seis meses.
Nem o tom desmotivado de Fernanda tirou a alegria de Kaori. Ela puxou Fernanda sem cerimônia para perto de seu rosto e deu-lhe um selinho demorado. Fernanda sorriu internamente, se perguntando se Kaori lhe beijaria sempre que fizesse algo certo. Definitivamente, não reclamaria se isso acontecesse.
— KAORI! — exclamou Cory ao abrir a porta da sala, assustando as duas garotas. — Espero que já tenha tido seu tempo para transar com a Fernanda, pois nós vamos ao condomínio agora!
Kaori desviou o olhar de Fernanda e corou até as orelhas, enquanto a outra simplesmente riu.
— Vai lá. — Ela se inclinou para perto de Kaori de novo e tocou seus lábios de leve. Cory, no batente da porta, fingiu vomitar. — Eu cuido da Ash. Vejo você mais tarde.
Kaori levantou-se animada e deu uma piscadela para a loira que sorria. Cory deu tapinhas nas costas da garota quando passou por ele.
— Relaxa Fêr, vou cuidar da sua garota como se ela fosse uma latinha de Coca, digo... Di. — E fechou a porta, confuso com suas próprias palavras.
Fernanda riu, mas não se preocupou.
Porque sabia que Cory cuidaria de Kaori.
***
— O que está fazendo aqui, Di? — perguntou Carol, encostada no batente da entrada do terraço da mansão. — Não deveria ter ido com os outros?
Di negou com a cabeça sem olhar para a outra. Finny lhe deixara observando o gerador, estudando-o para que talvez pudesse consertá-lo. Separar-se de Cory não fora algo fácil (mesmo que um grito o pudesse traze-lo de volta), mas superaria. Os dois estavam fazendo isso para um bem maior, afinal.
— Sou a melhor atiradora do grupo e eles não deveriam fazer barulho — disse ela, o tom amargo preso na garganta. — Além disso, o gerador precisa de ajuda.
Ela virou-se para Carol, pedindo para que ela fosse embora. A garota acenou que compreendera e saiu do terraço. Di voltou sua atenção ao pequeno cômodo onde o gerador se encontrava, andando em sua direção. Abriu a portinhola e encontrou o maior gerador que havia visto na vida. Perguntou-se por que a família que morava ali antes o queria. Talvez a energia que vinha de Nashville não fosse o suficiente.
Di deu uma olhada no cômodo rapidamente. Deu um passo para dentro e tropeçou num galão vazio de gasolina, causando um barulho enorme para o silêncio mortal em que se encontrava. Tirou os cabelos ruivos do rosto e notou que o pequeno lugar estava lotado de galões de gasolina. Vinte, vinte cinco, talvez mais.
Ela desviou-se de alguns e chegou perto do gerador. Finny já teria estado ali? Di começava a duvidar disso. O gerador provavelmente nem estaria com algum defeito. Pelo que Di pôde tirar da grande quantidade de galões ali, era apenas falta de gasolina.
— Idiotas — murmurou revirando os olhos. Di procurou o tanque do gerador e tirou a tampa dele, dando uma olhada rápida nele. Não se surpreendeu ao encontrá-lo quase vazio. — Por que ninguém fez o favor de subir aqui?
Continuou a xingar e amaldiçoar os colegas sem realmente querer enquanto pegava um recipiente cheio e o despejava no tanque. Jogou o galão no canto mais escuro do cômodo e repetiu o processo outras três vezes, até ver a gasolina brilhando estranhamente perto de seu rosto.
Um grunhido ecoou pelo quarto, tirando a total atenção da garota no tanque. Di tirou os olhos do botão que ligava o gerador, engolindo em seco. Procurou por sua arma, mas encontrou o coldre vazio. Xingou-se internamente por deixar a pistola desmontada em seu quarto. Droga Di, por que você tinha que ser tão burra às vezes?
Outro gemido. O que quer que fosse — e ela esperava muito que fosse só mais outro errante —, estava perto. Ainda falando palavrões a si mentalmente, Di pegou um galão vazio e apontou para o nada.
Não pense, uma voz dizia na sua cabeça sempre que estava sobre pressão. Aja tranquilamente. Respirou fundo. Os ouvidos aguçaram. A visão melhorou. As batidas do coração diminuíram gradativamente. Não pense.
Di rumou o galão vazio com toda força à sua esquerda. Seu semblante não mudou ao som do crânio do errante ser amassado e jogado contra o tanque do gerador. Não mudou quando ele caiu esparramado no chão, nem ao pisar suas botas de viagem na cabeça dele, só por garantia.
Ofegava ao terminar de carregá-lo para fora do cômodo. Limpou o suor da testa, decidindo por deixá-lo no terraço. Carol iria matá-la se descesse com um walker no ombro. Tentou limpar o resto do cérebro do zumbi de suas botas, mas desistiu.
Ela tinha consertado o gerador. Carol teria que aturar aquele tantinho de sujeira.
***
Matheus estava confuso. Ele caminhava ao lado de Laura em direção ao porão, só não entendia por que Vitoria queria ir ali. Finny revistara a casa inteira antes de dizer aos outros que era seguro entrarem.
Vitoria deveria estar biruta, pensou. Uma pequena rajada de vento frio passou pela janela entreaberta, fazendo o garoto estremecer. Porque ele fora convidado àquela aventura, era o que mais queria saber. Não era tão corajoso contra as duas (mesmo não tendo medo de baratas) e podia contar nos dedos quantos walkers matara. Ele não tinha nada com que se orgulhar durante as últimas semanas, tivera sorte que Vitoria o levara ao esconderijo dos outros garotos e das garotas. Se não fosse por ela ou Kaori, estaria morto há muito tempo.
Kaori... Ele suspirou apaixonadamente, esperando que as outras duas não notassem. Matheus tinha algo que ia além de admiração por ela. Havia alguma coisa em seu tom doce que fazer o coração do garoto palpitar. Os olhos azuis, que ela escondia as vezes com lentes para deixá-los preto só não entendia o porque, dela guardavam um mistério que Matheus adoraria descobrir. Kaori levava qualquer pessoa ao desespero com aquelas suas roupas “sexys” e seus cabelos as vezes rebeldes..
Porém, ele sabia que nada aconteceria. Kaori só tinha olhos para uma pessoa, uma garota e apenas ela, Fernanda. Como ela sempre falava: “Toda loira tem sua morena e vice-versa, a minha loira é a Fêr.”. Ele se sentia como um garoto que havia se apaixonado por sua babá. Suspirou outra vez, agora desapontado. Bem, pensou ele logo após abrir um sorriso, não fazia mal nenhum sonhar...
— Chegamos — anunciou Vitoria num murmúrio, parando em frente a uma porta no fim do corredor. Podia ser quase cinco da tarde, mas a lanterna que Laura segurava estava acesa e os dentes de Matheus tiritavam de frio.
O garoto encarou a porta, duvidoso. Ela não tinha nada de diferente das outras portas da mansão — a madeira adornada e cheia de desenhos bizarros era a mesma —, mas Matheus podia ouvir sussurros e grunhidos distantes. Ele esperava que viessem do lado de fora da casa. Engoliu em seco e olhou para os cabelos castanhos de Vitoria na sua frente.
— Quem vai primeiro? — perguntou ele, amedrontado.
Vitoria virou-se para o garoto, sua cabeleira batendo no rosto dele. Matheus tossiu. Laura estreitou os olhos para ele, provavelmente se perguntando o que ele falara.
— Meses morando aqui e ainda nem sabe nosso sotaque — ele ouviu Vitoria resmungar enquanto voltava sua atenção à porta. — Eu vou primeiro.
Matheus e Laura se entreolharam, mas não discutiram. O único medo que Vitoria tinha era de baratas, aquele mundo para ela não passava de uma grande aventura. Os dois se afastaram alguns passos quanto vitoria abriu a porta num chute que Matheus sinceramente esperava não chamar a atenção das garotas no andar de cima.
— Lanterna — pediu ela determinada. Laura estendeu o objeto e Vitoria o pegou, rodando-o entre os dedos. — Sigam-me.
Matheus hesitou um instante. As meninas cochichavam enquanto desciam as escadas do porão, o que o fez sentir ainda mais inútil. Quer dizer, como elas podiam agir tão naturalmente quando não sabiam de nada que havia ali embaixo? Como ele, um dos garotos da turma, tinha que ser protegido sempre? Sua falta de coragem lhe perturbava, e muito.
O sopro gelado voltou ao corredor e ele espirrou. Coçou o nariz, percebendo que não movera um músculo para entrar no porão. Fechou a cara. Podia ouvir os sussurros animados das duas lhe chamando. Seu pai costumava lhe dizer que as pessoas só mudavam no fim do mundo.
Exatamente onde estava.
Sua primeira mudança foi seguir as garotas, e não sair correndo.
Vitoria já vira porões bizarros. Ela odiava quando ia para a casa de sua avó e a velha a fazia limpar suas quinquilharias do porão. Só de se lembrar das fantasias assustadoras que sua avó guardava, um arrepio percorreu sua espinha.
Mas nada se comparava àquilo.
Talvez a fraca iluminação vinda da pequena janela contribuíra para dar ao lugar um ar totalmente arrepiante. A lanterna de Vitoria iluminava apenas o que estava à sua frente. A luz passou por caixas de televisão e videogames vazias, troféus de futebol brilhantes (os mais novos datavam do começo do ano) e brinquedos estranhos, que fazia Vitoria reconsiderar a ideia de que baratas era seu único medo.
A respiração pesada de Lauro perto de seu pescoço fazia os pelinhos da sua nuca eriçar. Ela queria mandar a garota se afastar, mas se conteve. De alguma forma, saber que não estava sozinha ali acalmava ela um pouco. Os passos desastrosos de Matheus na escada também tiveram certo efeito sobre ela.
Ouviu o menino tropeçar numa das caixas audivelmente. Vitoria rolou os olhos e continuou andando entre as velharias. Encontrou algumas outras coisas estranhas, como algemas e cassetetes. Parou numa das mesas lotadas de tralhas e jogou a lanterna para Laura, a fim de pegar nos artefatos.
— Espero que o cara que vivia aqui tenha sido policial — disse ela, pegando um dos cassetetes e fazendo alguns movimentos no ar. — Ou se não ele era apenas mais um louco pervertido com armas ilegais.
Laura concordou, sumindo por atrás de algumas prateleiras no canto do porão. Matheus, por outro lado, continuava parado no mesmo lugar, olhando ao redor determinado. Vitoria deixou de lado o cassetete e parou com seus movimentos ninjas, encarando o garoto. As sombras no rosto de Matheus o deixavam muito mais velho.
— Ei, o que foi garoto? — perguntou curiosa, avançando alguns passos na direção dele, mas Matheus a parou com um gesto de mão.
— Tem algo errado aqui — disse num sussurro. Vitoria levou uns segundos para entender o que ele tinha falado. — Aqui tem zumbis.
Vitoria estava prestes a dar uma risada, dizer que Finny revistara a casa toda antes de deixá-los entrar, que estavam ali apenas por pura curiosidade, quando um grito vindo das prateleiras do fundo fez seu sangue gelar.
Laura veio correndo, respirando com dificuldade e tropeçando ocasionalmente até parar na sua frente. Vitoria engoliu em seco, procurando desesperadamente por visíveis mordidas de zumbis na garota. Ao não ver nenhuma, empurrou Laura para o lado e brandiu o cassetete que continuava em sua mão, pronta para a luta.
Entretanto, Matheus pegou a arma num movimento rápido e correu para aonde Laura viera. Estupefata, Vitoria nada fez além de aceitar o pedido de Laura para um abraço e englobá-la em seus braços. Decidiu também que aquela não era a hora certa para perguntar por que ela estava tão aterrorizada por causa de um ou outro morto-vivo.
Os sons de Matheus esmagando o crânio do zumbi pareceram durar a eternidade. A garota estava igualmente curiosa para saber da repentina mudança de diretriz dele — Matheus geralmente era o garoto atrás da linha de tiro, esperando tudo acabar —, mas deixou para lá. Provavelmente não entenderia por conta de seu sotaque forte.
Finalmente Matheus surgiu por trás das prateleiras, o rosto molhado de suor, mas com um sorriso satisfeito no rosto. Vitoria acenou para ele com a cabeça, percebendo que ainda estava abraçada à Laura. Ela corou e soltou-se da garota delicadamente.
— Foi horrível — disse Matheus, empurrando as duas para fora do porão rapidamente. — Sei lá quanto tempo eles estavam presos aqui, mas ele tinha começado a comer a outra. E não num sentindo pervertido.
Vitoria deu um soco no ombro dele enquanto fechava a porta do porão. Lançou um olhar a Laura e compreendeu porque ela estava daquela forma: ela havia encontrado o pai zumbi devorando a mãe ao entrar em casa. Havia fugido desesperada, e trombado com Finny durante a saída deles da cidade. Ver a cena horrorosa do porão deveria ter feito lembrar-se de tudo.
— Precisamos conversar com Finny seriamente sobre isso — disse Vitoria determinada, chegando perto de Laura e a abraçando de novo. Ela não entendia, nem sabia por que, mas parecia que estar perto da menina era a coisa certa a se fazer naquele momento. — Os zumbis.
Os outros dois assentiram. A cabeça de Laura pendeu em seu ombro. Vitoria corou furiosamente ao notar o quão quente o corpo dela era. Concentrou-se em Matheus, andando centrado ao seu lado, e deu uma risadinha ao ver que ele continuava carregando o cassetete cheio de sangue.
Apesar de tudo, Vitoria sentia que havia encontrado seu grupo de verdade, dentro daquele grupo maior.
***
— Eles ainda não voltaram? — perguntou Laura assim que chegou à cozinha, preocupada.
Carol negou com a cabeça. Ela se ocupava em abrir latinhas em conserva e colocá-las para ferver, mas a expressão perdida dela também representava muito bem Fernanda e Di. Somente Ash, que estava como sempre alheia a tudo, dava risadas dos brinquedos que a loira segurava para ela.
— O condomínio é grande — disse o menino, sem graça.
Di o encarou com raiva. Fernanda ofereceu o banquinho ao seu lado do balcão da cozinha para ele, ignorando o cassetete que ele segurava pingando sangue. Matheus hesitou, mas sentou-se, pondo uma distância considerável entre eles. Laura e Vitoria fizeram algumas caretas para Ash, porém preferiram ficar na mesa de jantar.
Fernanda sentia-se como aquelas garotas da época da guerra, esperando os namorados que talvez jamais fossem voltar. É claro, ali ela estava esperando Kaori e as duas não namoravam... Mas, na sua cabeça, tudo era comparável. Di e Carol também estavam tão preocupadas quanto ela, porém, pelo menos, as duas tinham algo com o que se distrair.
Enquanto Carol preparava o jantar com seus enlatados (hoje era beterraba, espinafre e salsichas), Di se ocupava em montar e desmontar o comunicador, procurando por todas as estações de rádio algum contato com o mundo exterior, às vezes soltando alguns palavrões — o que achava estranho, pois ela sempre era contra eles — e outras palavras que não faziam sentido nenhum a Fernanda.
Ela sorriu para Matheus, mas o garoto estava brincando com Ashley e não lhe deu atenção. A loira tinha a leve impressão de que ele a estava ignorando... Deu de ombros e observou a proximidade com a qual Vitoria e Laura discutiam. Pelas expressões de Vitoria, era algo sério. Ela tentava gesticular, porém a falta de espaço entre as duas a fazia sempre bater sua mão em alguma parte do corpo de Laura.
Fernanda franziu a testa, e antes que pudesse fazer mais uma de suas perguntas indiscretas sobre o relacionamento das duas, Laura levantou a cabeça e disse em voz alta:
— Finny não revistou a casa direito.
Di deixou cair uma peça do rádio; Carol, contudo, fingiu não ouvir. Fernanda permaneceu quieta. O silêncio foi quebrado com uma gargalhada forte de Ashley e Matheus.
— Zumbis onde? — indagou Di, esquecendo-se do rádio e sacando sua pistola. Fernanda estranhou, pois parecia que a garota sabia de algo a mais. Tudo o que Di contara foi que havia posto gasolina no gerador.
— Eu o matei — disse Matheus com o dedo indicador preso dentre a mãozinha de Ash. — No porão.
Ela assentiu, pondo a arma de volta ao coldre e sentando.
— Achei um dentro do lugar onde está o gerador. — Ela bufou. Fernanda entendeu seu drama: para Di, faltar gasolina no tanque do gerador não era um problema de proporções nacionais, e sim muita burrice. — Nenhum de vocês subiu ao telhado quando chegaram?
— Não — responderam Vitoria, Laura e Matheus simultaneamente.
— Carol...? — chamou Fernanda, quebrando o silêncio que havia se instaurado. — Você sabia disso?
Carol parou de picar seja lá o que estivesse picando e encarou Fernanda. Seus olhos cintilavam perigosamente. A loira se encolheu um pouco em seu banco, entendendo porque ela era a “mãe” de todos ali.
— É claro que não — respondeu ela, jogando os braços para cima, exasperada. — Estávamos a dias viajando sem rumo nenhum! Depois daquela reserva florestal, este foi o melhor lugar que achamos. Não podem culpar Finny pelo seu desespero em manter todos salvos, ou podem?
Fernanda engoliu em seco e apressou-se em concordar. Nunca vira Carol tão irritada. Por outro lado, Di estava impassível.
— Tem quase duas semanas que estão aqui... — ela contou nos dedos — Por que ele não revistou os lugares em que, sei lá, alguma pessoa poderia pensar em ir?
— Estava muito ocupado arrumando os que já tinham achado — respondeu Carol de mal-humor. — Agora saíam da minha cozinha.
Ninguém discutiu. Vitoria puxou Laura para perto dela e disse que iam para seu quarto. Matheus apontou estupidamente para o cassetete e falou em limpá-lo no tanque do lado de fora. Fernanda pegou Ashley da cadeirinha e pôs em seu colo, seguindo Di e o comunicador para a sala de estar. Ela se acomodou na poltrona, brincando com a garotinha enquanto Di ocupou o sofá de três lugares.
— Aquelas duas nasceram para ficar juntas — comentou Di, parecendo não importar com a discussão com Carol. Ela colocou o rádio completamente montado e ainda sem sinal na mesinha de centro.
Fernanda olhou para ela, lutando para tirar as mãozinhas de Ash de seu colar, e riu.
— Laura e Vitoria? Acho que não — replicou, cética.
Di fechou os olhos e deitou a cabeça no braço do sofá, se esticando toda sobre ele.
— Foi o que Cory disse quando mencionei sobre você e Kaori, e olha só no que deu.
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