In The Hell

7 in the hell 7


Cory e Finny cresceram numa comunidade violenta mesmo sendo filhos de um dos maiores médicos da cidade. Cory não conseguia abandonar as raízes da comunidade violenta já que sua família tinha vivido lá até aquele apocalipse todo começar.

E para Cory, a casa que Finny tinha invadido não era em nada parecida com uma fazenda. O gramado possuía a aparência que não era cortado há dias, e mesmo assim conservava uma forma imponente. Os portões aparentavam ter pedaços de ouro misturado com o ferro com que fora construído. Se houvesse a tal horta que ele tinha mencionado antes, estava no quintal dos fundos, por que nenhuma coisa comestível plantada na terra se encontrava na parte da frente.

Ele soltou um assovio impressionado ao levantar os olhos para a casa. Não era uma casa normal, tampouco aquelas casas simples do interior como havia visto horas antes no vilarejo macabro. Era uma mansão. Enorme, de três andares, pelo que Cory pôde contar. Finny comentava sobre o quanto estava feliz por eles terem conseguido chegar ali, mas ele não dava atenção. Seu queixo caía à medida que chegavam perto daquele monstroque Finny chamava de fazenda.

Ele abriu as portas de madeira gigante e Cory deparou-se com Carol e Gabriel, com Ashley no colo. Atrás deles estavam Vitoria e Laura, todos eles com sorrisos enormes nos rostos. Ele lançou um olhar rápido à decoração vitoriana do hall e pulou nos braços de Gabriel quando ele deixou Kaori segurar Ash.

Já tinha perdido a conta de quantas vezes havia “brigado” com ele. Ele tinha perdido as esperanças de conquistar Di quando Gabriel foi à sua casa para consolá-lo e falar que tudo ficaria bem, que Logan havia entendido o quanto os dois se amavam. Gabriel fora seu melhor amigo e melhor combatente quando Kaori se aventurava em outras missões, sozinha. E ele tinha sido o pivô para que voltasse com Di, meses antes desse pesadelo começar.

Cory o amava. Não pelos conselhos ou pela grande ajuda que ele fora. Ele o amava porque, depois de Di, a única pessoa que conseguia acessar sua dor com conversas melosas e que ele achava extremamente chatas (com Kaori era mais fácil por que nenhuma dos dois precisava de muitas palavras para se entender) era ele, Gabriel.

— Naya... — disse Gabriel num sussurro no ombro de Cory após alguns minutos. — Ela... E-ela...

— OK, Gabriel, tudo bem — consolou Cory, o choque da notícia lhe dando um soco. Naya era a única adulta entre eles que conseguira escapar, a única pessoa legalmente responsável. O que eles fariam sem ela? — Vai ficar tudo bem.

É claro que não ficaria. Quem cuidaria de Ashley? Quem poria juízo na cabeça daqueles garotos quando a conversa não parecesse ser o suficiente? Eles estavam salvos naquela mansão gigante, mas até quando?

— Claro — murmurou Gabriel, um resquício de seu tom sarcástico passando por ali. — Claro que vai.

Ele soltou-se de Cory e foi cumprimentar Fernanda.

Cory ficou parado no mesmo lugar durante vários minutos. Se Vitoria não tivesse lhe chamado tão insistentemente para que fossem à sala de jantar, provavelmente teria ficado no hall até escurecer. Estava um pouco fora do lugar ali. A perspectiva de não trocar de turnos no meio da noite com Kaori para que pudesse vigiar a casa ou não dormir nada porque estava no meio da estrada e tudo poderia acontecer era estranha. Ele surpreendeu-se, porque ter um pingo da normalidade que possuía antes de tudo lhe assustava.

***

— Como foi a viagem de vocês? — perguntou Finny sentando-se na ponta da mesa enorme da sala de jantar.

Kaori demorou algum tempo para processar a pergunta. Ela encarava os talheres postos na sua frente com admiração, porque a última vez que comera com garfos e colheres de prataria francesa fora na sua casa, um pouco antes de ir ver Fernanda no hospital, a memória agora lhe parecendo de anos atrás. Finny tossiu para chamar-lhe sua atenção. Ela levantou os olhos, assustada.

Percebeu que não era só ela que estava tendo problemas com a comodidade ali. Cory batucava o garfo e a faca de prata na mesa de vidro, criando batidas totalmente sem ritmo e lançando um olhar mortal toda vez que alguém tentava fazer com que ele parasse. Di fitava o prato com uma concentração que dava inveja a Kaori, a mão indo e voltando em direção aos talheres, como se estivesse indecisa se eles estavam amaldiçoados ou não. Até Fernanda observava confusa todos na mesa, a sua expressão deixando claro que ela tinha esquecido como se comia com talheres nos meses de coma.

— Foi ótima — respondeu Kaori sem pensar, enfiando a colher na sopa que Carol fizera e tomando um pouco. O líquido queimou em sua garganta, e ela o engoliu rapidamente, os olhos começando a se encher de lágrimas. — Não faz ideia do quanto.

— Vocês parecem meio chocados — comentou Vitoria com a boca cheia. — A comida não está infectada, vocês podem comer, é sério.

Kaori meneou com a cabeça, enfiando outra colherada da sopa na sua boca, assoprando antes. Dessa vez, ela conseguiu saborear mais a refeição e deu graças por ter pedido à Cory para pegar os pacotes de sopa na última vez em que saquearam o supermercado. Os olhares dela e de Gabriel, do outro lado da mesa, se encontraram; ele deu um aceno enquanto tentava alimentar Ashley.

A morte de Naya não era algo bom, ela pensara quando Cory tinha lhe contado. Gabriel poderia ter sido a grande babá de Beth durante as primeiras semanas na pequena cidade, mas eles estavam longe da civilização. Todos tinham que cuidar de Ashley, Kaori não admitiria que algo ruim acontecesse a Ashley. Ela checara o quanto Gabriel tinha trazido de fraldas e leite e as outras coisas que um neném precisa e tinham para três semanas, no máximo. Era muita coisa, sabia, mas quando todos aqueles recursos acabassem, teria que juntar seu exército para deixá-la a salvo.

— Ei, Kaori — chamou Matheus animado enquanto terminava a latinha de Coca-Cola (acima de qualquer luta com zumbis que já tinha tido nas últimas semanas, tirar os refrigerantes de Cory tinha sido a pior delas). — Laura me disse que você enfrentou uma cidade inteira de walkers, conta pra gente.

Ela assentiu dando um sorriso bondoso. Matheus era brasileiro e estava morando junto com Laura. Quando as coisas pioraram, Laura não hesitou em levá-lo aonde se escondiam. No entanto, metros antes de os dois chegarem, eles foram cercados por walkers. Laura conseguiu se salvar, porém Matheus quase morreu se não fosse pelos tiros rápidos de Kaori vindo do telhado da casa. Desde então, ele a idolatrava.

— Espera aí que não foi só a Kaori, não, ok — interferiu Cory, seu tom aumentando uma oitava. Seu prato já estava vazio e Carol se oferecera para buscar-lhe outro. — Eu também estava lá.

— Todos nós estávamos lá, Cory — retrucou Fernanda revirando os olhos. — Por favor.

— Ei, mas é você que ainda não se acostumou com o fedor deles — rebateu o garoto exaltado.

Kaori passou a língua pelos lábios e bateu um dos talheres na mesa para chamar a atenção.

— Fiquem quietos, vocês. — ralhou. — Matheus, foi assustador, beleza? Eles haviam feito um pacto. Os pais mataram os filhos e depois se mataram. Era estranho porque todos os estavam em posições quase normais, como nós aqui. — Laura fingiu que estava vomitando sobre o prato. — Porém, antes do patriarca morrer, ele escrevia na parede com sangue de seus parentes uma frase: “Deus nos perdoe”. Acredito que tenha sido ao mesmo tempo em todas as casas. Da mesma forma, ao que nós chegamos lá, eles estavam se transformando. Tivemos que sair o mais rápido possível.

— Mas pegamos primeiro as Cocas — completou Cory, fitando com uma inveja considerável as quatro latinhas de refrigerante que o grupo dividia. — Foi a melhor parte, com certeza.

Di, que estava ao seu lado, começou a discutir com ele. Finny apartou a discussão contando como havia chegado ali com sua mini-van, e Kaori achou interessante que nenhum dos perigos na sua viagem se comparava aos da viagem dele. Descobriu também que ele passara pela reserva florestal onde Fernanda tinha passado mal e que Vitoria e Laura tinham detonado mais da metade dos walkers lá enquanto os outros dormiam. Era hilário pensar que Vitoria ainda tinha medo de baratas, mas dominava walkers com uma facilidade enorme.

A conversa durou até tarde da noite. Finny, Kaori, Gabriel e Cory sentaram-se na sala de estar — a TV de plasma encarando Kaori como se pedisse para ser ligada a incomodando horrivelmente — e discutiram por um bom tempo o que deveriam fazer para cercar a mansão. Finny levantara que o uso das cercas que já era suficiente, pois havia quase uma semana que estavam ali, e apenas três ou quatro errantes tinha aparecido.

Finny sugeriu que visitassem o conjunto habitacional ali perto para a busca de mais suprimentos e o extermínio de alguns walkers que ainda continuavam perdidos por aquela região. Kaori concordou, mas seus olhos estavam cansados e a perspectiva de deitar numa cama quentinha com lençóis de primeira linha não a ajudava a se concentrar.

— Finny... — ela chamou aos bocejos depois de alguns minutos. — Onde eu posso dormir?

— Segundo andar, terceira porta à direita, Kaori — respondeu Finny prontamente sem tirar os olhos dos planos que Cory escrevia em alguns papéis à luz de velas: o gerador parara de funcionar outra vez. — O quarto de Gabriel é ao lado do seu, Ash está dormindo lá.

Ela concordou, receando a próxima pergunta.

— E Fernanda? — disse timidamente, o sono e a vergonha fazendo seu rosto corar. — Em que quarto ela está?

— No quarto em frente ao seu — disse o garoto, ainda olhando os papéis, porém Kaori percebeu que as risadinhas de Cory e Gabriel. Se não estivesse tão cansada, teria caçado briga.

Ao invés disso, saiu do cômodo e subiu as escadas em direção ao seu novo quarto quente e confortável.


***


Chegando ao segundo andar, Kaori não resistiu.

Ela precisava olhar Ash, ela tinha criado uma adoração pela menina desde de quando o inferno havia começado. Ver como ela estava; observar seu sono. Se entristecer por uma mente tão pura e inocente ter caído num mundo daquele. Tinha que ver Ash. Não por ela, mas pela garota. Sem Naya, Ashley perdera sua mãe.

Talvez pudesse salvar uma alma dali. Era o fim do mundo, afinal de contas, o que ela tinha a perder?

Kaori esgueirou-se pelas portas do segundo andar suntuoso da mansão de Finny, contando-as mentalmente. Ela parou na quarta porta e encarou-a, na sua mente sendo esse ali seu maior desafio. Respirou fundo, contou até dez, deu uma volta inteira no corredor e finalmente entrou na ponta dos pés.

A cama de casal de Gabriel estava intacta. Ao lado desta, um berço preenchia o lugar. A respiração de Kaori se perdeu por um instante. Seus olhos brilhavam de lágrimas e os passos cada vez mais lentos lhe deram um tempo para acostumar-se àquilo.

Ashley dormia numa paz que lhe deu inveja. Que daria a qualquer um daquela casa inveja. Suas mãozinhas agarravam um cachorro de pelúcia de Kaori que ela dera na sua primeira visita a Naya, há muito tempo atrás. Os cabelos castanhos embaraçados lembravam a Gabriel, e tinha certeza de que se a garotinha estivesse acordada, os olhos azuis também.

Ela deu um sorriso, tentando conter as lágrimas. Ashley era linda. Perfeita. Kaori não queria que seu futuro se resumisse a matar zumbis e sobreviver de comida enlatada e Cocas achadas randomicamente. Ela não queria que Ashley crescesse para lutar e sobreviver. Queria que a garota tivesse lembranças do mundo antigo, queria que ela pudesse escolher uma faculdade, ter sua família, viver feliz.

Kaori queria que Ashley vivesse, assim como ela queria para todos naquela casa.

Um pigarro atrás dela tirou completamente sua atenção do berço onde Ash dormia. Kaori virou-se apressada, procurando tirar a pistola do coldre em sua cintura, porém ela apenas respirou aliviada ao notar que era Fernanda.

— Estamos seguras agora — comentou Fernanda num sussurro, seu sorriso iluminando Kaori mais que a pouca luz que vinha da vela no corredor. — Não precisa apontar essa arma pra todo mundo.

Fernanda se aproximou sorrateiramente enquanto Kaori punha a arma de volta ao coldre, ainda apreensiva. Enxugou as lágrimas de seu rosto rapidamente e sentou ao lado de Fernanda na cama de Gabriel, seus olhos sempre fixados no berço da garotinha.

— Ela é igualzinha a Naya — disse Fernanda impressionada. Kaori lembrou que Fernanda nunca vira Ashley em nenhuma ocasião antes do coma. Era um desconto se considerasse o tanto que ela havia perdido com a perda de memória. — Chega a ser assustador.

— Ashley nunca terá uma chance — Kaori desabafou; as lágrimas retornando insistentemente a seus olhos. — Maldito mundo!

Kaori não tinha intenção, mas seu tom fora alto o bastante para que os garotos do andar de baixo parassem de conversar um tempo. Ela olhou instantaneamente para o berço, porém Ash continuava em sono profundo.

Ela enfiou-se no peito de Fernanda chorando terrivelmente. Estava cansada, só isso. Só queria um pouco de paz, queria um futuro para ela. Queria um futuro para Fernanda, era pedir demais? Ela havia prometido a si que faria Fernanda lembrar-se de tudo antes do acidente, mas tudo seria muito mais fácil se elas não tivessem que sobreviver de lembranças, de contos ou de imagens que só eram reais na cabeça de Kaori.

— Kaori, ei. — Ela ouviu Fernanda lhe chamar num sussurro acima de seus cabelos, sentindo pequenos beijos neles. — Você disse que a gente iria sobreviver a esse inferno, ok? E nós vamos. Perdemos alguns no caminho, mas continuamos. Eu tenho você e você tem a mim, beleza?

Lentamente, Kaori se desvencilhou de Fernanda e concordou. Ela deixou que a garota limpasse seu rosto molhado de lágrimas, querendo se desviar, mas sabendo que não podia. Fernanda e ela compartilhavam uma conexão, uma coisa que havia impedido ela de sair da cidade sem passar no hospital, algo que fez Fernanda acordar no momento exato em que passava lá. Ela não podia desviar, não podia.

A luz fraca que vinha do corredor tornava os olhos verdes de Fernanda estranhamente maiores. Eles cintilavam terrivelmente em sua direção. Kaori tentou recuar, mas aquilo era o que ela desejava desde a primeira vez em que vira Fernanda, desde o dia em que fora a casa dela buscar dicas para filmes com óbvias segundas intenções.

Ela não podia evitar.

Os lábios de Fernanda estavam próximos. Muito próximos. Kaori se inclinou os centímetros faltantes e fechou os olhos para finalmente pôr seus lábios nos de Fernanda.

A sensação era surpreendente. Os lábios da loira eram macios e estranhamente confortáveis, como se fossem feitos especialmente para ela. As duas se encaixavam de forma perfeita. Fernanda passou os braços em torno de sua nuca e Kaori deixou que suas mãos a levassem até a cintura da garota, aproximando-a de seu corpo como sempre desejara.

Quando pararam para respirar, Fernanda encarou o chão de forma culpada. Arrependeu-se no mesmo instante ter deixado os instintos ter guiado ela. Fernanda estaria pronta para aceitar seu amor? Elas não se encontravam no mesmo mundo de antes. Ela não namorava Ana mais. Era uma garota livre.

Então, para sua completa surpresa, Fernanda levantou os olhos com um sorriso apaixonado escondido pelas sombras. Ela sorriu também, agradecida, apertando a mão de Fernanda de leve. Lançou um último olhar à Ashley e levantou-se para sair do quarto.

Talvez o mundo não fosse o mesmo. Talvez Ashley jamais visse o que tinha de bom antes, mas agora Kaori tinha certeza: ela tentaria. O mais forte possível, o mais rápido possível. Ela tentaria construir algo melhor, não só para Ashley, mas também para a garota que caminhava ao seu lado.

***

— Não! — gritou Cory entusiasmado. — Eu não acredito!

— Cory, por favor! — sibilou Kaori irritada. Encheu a tigela de cereal olhando para os lados, tensa. — Eu nem deveria ter contado a você, então fique quieto.

Cory revirou os olhos. Kaori havia acabado de lhe contar que finalmente conseguira algum movimento de Fernandal na noite anterior, e ele simplesmente não poderia comemorar? Ele estava ao lado de Kaori desde sempre, apoiara a maioria de suas decisões em relação a Fernanda, sentia-se orgulhoso e feliz por um pouco de alegria estar surgindo para a melhor amiga no meio daquele inferno todo.

Ele pegou a caixa de cereais que Kaori deixou em cima da mesa e colocou grande parte em sua tigela. Finny mencionara racionamento na noite anterior enquanto discutiam os planos para manter a mansão viva, mas Cory sentia falta demais de Corn Flakes para pensar de forma racional. Quer dizer, a dispensa que Finny mostrara a ele e Gabriel estava lotada de alimentos enlatados, cereais e macarrão instantâneo. Pensava que eles poderiam sobreviver sem algumas gramas de Corn Flakes essa manhã.

— O que eu tô dizendo é... — ele correu atrás de Kaori e sentou ao lado dela na mesa enorme; Fernanda não estava à vista — isso é ótimo. Você conseguiu o que queria.

— Eu não consegui nada — retrucou Kaori num sussurro. — Ela não é um prêmio ou coisa do tipo. Fernanda é o amor da minha vida.

Kaori corou furiosamente ao terminar a frase, pois Fernanda descia as escadas com uma das camisas flanelas dela. Cory sorriu para Kaori de forma maliciosa. A garota procurava se ocupar enchendo a boca de cereal e evitar dizer qualquer outra coisa constrangedora.

— Puxa Kaori, eu sempre pensei que você fosse lerda nos seus relacionamentos — comentou Cory maldosamente, deixando Kaori mais vermelha.

— Idiota! — exclamou Kaori depois sofrer um pequeno acesso de tosse. — Não, não foi assim! Nós não...

Ela não terminou a frase para tomar seu suco de laranja.

E Cory sabia perfeitamente de que as duas não tinham tido relações sexuais. Kaori poderia ser expert quando se tratava em esconder sentimentos, mas se falasse de qualquer outro relacionamento dela, a garota simplesmente não conseguia mentir. Ele só achava era divertido torturá-la com isso.

Fernanda evitou Kaori e Cory e acabou indo se sentar do outro lado da mesa perto de Carol, iniciando uma conversa com ela. Finny, ao lado da namorada, lançou um olhar indagador a Kaori, que apenas deu de ombros e terminou seu café-da-manhã rapidamente.

Cory queria ir atrás de Kaori para tentar convencê-la de que fugir de Fernanda não era um bom negócio quando a voz de sinos de sua namorada invadiu seus ouvidos. Ele esqueceu-se de tudo e deu um beijo demorado em Di assim que ela ocupou a cadeira vaga ao seu lado.

Di e ele tinham um quarto juntos, e Cory agradeceria a Finny por isso mais tarde. Não achava que o garoto seria capaz de pô-los separados depois de tudo que haviam passado. Finny entendia seu amor e necessidade por Di; passar uma noite separada dela seria como se o pesadelo de todos os dias se tornasse mais real.

— O que faremos hoje? — questionou Di animada a Finny, ainda distraído com a presença de Fernanda ao seu lado. Pelo jeito, Cory não havia sido o único a reparar no ciúme de Fernanda quando tinham chegado no dia anterior.

— Cory disse ontem que precisávamos invadir as casas nas redondezas, apenas por precaução — respondeu Finny sério. — E se você ainda possui aquele dom mágico de consertar coisas tecnológicas, algo está errado com o gerador.

— Claro — disse a outra com um sorriso. — É só me apresentar a ele e eu faço o serviço.

Cory terminara a tigela de cereal, porém permaneceu na mesa conversando com Di e Finny até Gabriel chegar com Ash em seu colo. Ele viu os olhos de Fernanda brilhando na direção da garotinha e encarou a namorada que também estava vendo a cena com um sorriso no rosto.

Ash fez a alegria de todos na sala de jantar. Gabriel sentou à frente de Cory, a cadeirinha da época da cidade que eles haviam deixado posta ao seu lado. O garoto pegou Ash dos braços de Vitoria e a colocou na cadeira. Ele começou a amassar alguns pedaços do Corn Flakes misturados com um leite ainda milagrosamente não estragado enquanto era continuamente observado por Cory. Quando seus olhares se encontraram, ele deu um aceno com a cabeça. Na língua da amizade deles, isso significava que ele tinha chorado um pouco à noite, mas que sobreviveria a tudo.

Ele concordou tristemente. Fernanda chegou mais perto de Beth e a paparicou enquanto conversava com Gabriel. A risada deles sobrepunha a de qualquer um naquela sala, Cory só queria saber por que.

Aquela atmosfera de felicidade não estava lhe assustando mais, pensou. De fato, ele esperava que durasse por um tempo. Dependendo do que acontecesse ali, do quanto de alimento que encontrasse naquele conjunto habitacional, eles poderiam passar bons meses na mansão.

Um novo futuro, uma nova forma de ver a vida.

Era só o que ele queria.


***

Kaori tinha lhe beijado.

Um beijo. Kaori lhe beijara.

A informação ainda confundia a cabeça de Fernanda, mesmo depois de horas do ocorrido. Ela não conseguia acreditar. Parecia um sonho muito bom dentro do apocalipse que acontecia do lado de fora. Ela não evitara os lábios de Kaori, ela não saíra pedindo desculpas, ela não negara que tinha gostado.

Ela também tinha beijado Kaori.

Mal dormira à noite. Fernanda tinha todas as razões para finalmente deitar-se nos lençóis de tecidos chineses e dormir profundamente, mas continuou revirando na cama fofa até o sol nascer, pensando, pois não havia motivo mais óbvio para Kaori ter iniciado o beijo se não estivesse apaixonada por ela.

Fernanda riu. Sabia dos sentimentos de Kaori em relação a ela, da admiração que a garota tinha para com ela, porém pensar que Kaori se apaixonara por ela era potencialmente estranho. Fernanda não era tão apaixonável, principalmente no meio daquele tanto de zumbis, já que não conhecia praticamente nada sobre eles ou como sobreviver sozinha.

— Fêr? — A voz distante de Gabriel a tirou de seus pensamentos de Kaori. — Tudo bem?

Ela acordou de seu devaneio, percebendo que estava com Ash no colo. A garotinha ria e apontava para seu colar de estrela como se fosse a coisa mais engraçada do mundo. Fernanda observou-a com um olhar de admiração. Ela fez algumas caretas, dando a Ash mais um motivo para dar mais uma de suas gostosas gargalhadas. Seu olhar encontrou o de Gabriel e o garoto sorriu também.

Pelo pouco que ela observara nas horas que não estava trancada em seu quarto ou dando um amasso em Kaori (suas bochechas ainda coravam ao pensar nisso), Ash era uma menina tranqüila. Não deveria ser difícil para Gabriel tê-la trazido até ali, afinal para ela era apenas uma viagem de carro. Ash ainda não conhecia o mundo em que estava, nem o mundo durante pouco mais de um ano e meio de sua vida.

Ao pensar dessa forma, Fernanda não resistiu e acabou lembrando-se dela própria. Não reconhecia as pessoas que estavam sentadas ali, a maioria crescera demais nos meses em que estivera desacordada. Ela também não conhecia muita coisa daquela nova realidade, zumbis e o resto ainda lhe causavam calafrios. Ela e Ashley eram parecidas no fundo, Fernanda na maioria das vezes se sentia como um bebê que precisava de cuidado e proteção o tempo todo.

— Fernanda? — Gabriel tornou a chamar, agora insistindo para que ela devolvesse Ash aos seus braços. — Por favor.

— Ah — fez ela, sorrindo desconcertada e colocando a garotinha, ainda rindo, no colo dele. — Eu, ahm, vou lá fora.

Ela não tinha ideia por que falara aquilo, mas toda a mesa, cheia de conversas, parou para olhá-la. Finny assentiu com uma expressão confusa no rosto, e Fernanda se arrependeu de no dia anterior ter sentido uma gota de ciúmes dele por causa de Kaori. Dava para ver nos olhos dos dois (e nos beijos que ele e Carol compartilhavam) que não era nada além de pura amizade.

Cory deu um sorrisinho malicioso direção de Fernanda e a garota fez o que pôde para esconder o rubor que subia pelo seu rosto. Por sorte, Di deu uma cotovelada no braço do namorado, o que fez os dois iniciar uma discussão. Fernanda aproveitou a piscadela que Di dera para ela e fugiu logo pela porta dos fundos.

Encontrou três walkers mortos.

Kaori andava pelo perímetro concentrada, o facão balançando na sua perna esquerda e a pistola em seu coldre na cintura. Ela assoviava uma música que Fernanda sabia ser de uma banda de rock, somente não lembrava qual. Quando ela deu uma volta completa, notou Fernanda ali e engasgou nas próximas notas que cantaria, parando para encará-la.

— Oi — disse Kaori com um sorriso bobo no rosto.

Fernanda sorriu também e abaixou os olhos. Nunca imaginou que ficar cara a cara com a pessoa que havia lhe beijado na noite anterior pudesse ser tão assustador. Bom, não tão assustador quanto os zumbis sem cabeça aos seus pés.

— O que você tava fazendo? — indagou Fernanda, respirando fundo e tomando coragem para ultrapassar o pequeno monte de carne morta para se aproximar um pouco de Kaori.

— Finny disse que só a cerca pode segurar os walkers, mas eu não concordo — respondeu Kaori com seriedade. — Quando cheguei aqui, esses aí estavam tentando abrir a porta. Eu não queria chamar atenção de ninguém, por isso usei o facão.

Ela apontou para a arma em sua perna, e Fernanda notou o sangue ainda escorrendo, exprimindo uma careta de nojo.

Kaori riu.

— Incrível. Você precisa de treinamento urgente — falou ela.

— Talvez sim, talvez não — disse Fernanda.

Ela deu um sorriso esnobe. Chegou perto de onde Kaori estava e fitou aqueles olhos com intensidade. Ficaram se encarando por longos segundos até que Fernanda finalmente quebrou o contato, virando-se para os fundos da mansão.

— A coisa mais próxima que tem desse quintal é a outra mansão, e ainda assim fica a mais de um quilômetro de distância — observou. — Não vai ser difícil vigiar, nós só precisamos montar guardas nos quartos vagos no terceiro andar.

Kaori assoviou impressionada. Fernanda levantou a sobrancelha com um ar convencido.

— Viu? Eu não preciso de treino.

— Então me mostre como usar uma arma.

A frase de Kaori pegou Fernanda de surpresa. Ela poderia sentir a seriedade no tom da garota por baixo da brincadeira. Kaori queria que ela fosse hábil para que pudesse se defender sozinha, porém Fernanda não se via empunhando uma arma, ainda mais do calibre de Kaori.

— Não hoje — disse evasiva.

— Ah, hoje sim — retrucou Kaori, tirando sua pistola do coldre e oferecendo o cabo a Fernanda. — É uma Browning Hi-Power, fácil de usar.

Fernanda olhou da pistola para o rosto risonho de Kaori, apavorada. Jamais tocara numa arma de fogo antes, sequer gostava de jogar com seus pais os jogos de guerra no videogame. Ela engoliu em seco, tempos desesperados requeriam medidas desesperadas, certo?

Certo.

Por isso, sentindo as mãos tremerem de leve, ela pegou a pistola da mão de Kaori. A garota levantou o dedão positivamente, mas Fernanda não sentia ainda nada de bom ao segurar o peso que era aquela arma. Não se sentia confortável com ela e pensou que talvez jamais sentisse. Talvez fosse mais fácil pegar uma das facas de prataria francesa da cozinha e lutar contra os errantes com ela, pensou irritada.

— Beleza — disse Kaori, arrumando as mãos de Fernanda para que ficassem na posição certa. — Isso é fácil, anjo, ok? O que você tem que fazer é carregar, mirar e atirar. – a loira ficou vermelha e sorrio ao ouvir o apelido da outra.

— É mais fácil quando você faz isso — replicou Fernanda emburrada. — Talvez eu deva voltar e cuidar de Ash enquanto os adultos resolvem tudo.

— Ei! — exclamou a garota, dando um “soco” no ombro de Fernanda. — Eu já falei que você não é desperdício de espaço, então fique quieta. Vitoria e Laura sabem usar uma arma, Matheus também. Você não vai ser a única aqui sem saber se proteger sozinha, entendeu? Se alguma coisa acontecer comigo e...

Kaori parou de falar, mas Fernanda percebeu o final de sua frase: “se algo acontecer comigo e você não for capaz de se defender até o fim desse inferno...” e mais outra coisa que ela não conseguiu identificar. Fernanda abaixou a arma por um segundo e levantou os olhos para Kaori, que agora estava distante, a dor que a expressão dela passava de novo lhe dando uma vontade desconhecida de socar quem a fazia senti-la daquela forma, até a verdade bater em sua cara e perceber que sempre era ela mesma que a deixava assim.

— Enfim — disse Kaori, sorrindo forçadamente. Ela levantou os braços de Fernanda, apontando-os para o mato que crescia ao redor da mansão. — Isso é sempre importante: mantenha a guarda. Não fique nervosa, não surte. Ou senão vai virar comida de walker rapidinho.

— Por que está me dizendo isso agora? — indagou Fernanda confusa, distraída com o perfume do corpo de Kaori tão perto do seu.

— Olha pra frente — sussurrou a outra em seu ouvido.

Fernanda obedeceu.

Desejou ter continuado encarando aos olhos castanhos quase pretos da garota.

Um zumbi caminhava lerdamente em sua direção, a dez ou onze metros de distância. Não era um perigo eminente, mas à medida que ele identificava com seus olhos opacos a presença de dois humanos, seus passos apertavam.

Ele tropeçava repetidas vezes, o que era uma das dificuldades de Fernanda. As mãos da garota não paravam de tremer, o nervosismo não deixando sua mira ficar perfeita. Suas mãos suavam terrivelmente. Ela olhou para Kaori, desesperada, porém a garota havia se afastado uns metros dela com um olhar convidativo na direção do zumbi, deixando-a sem escolha.

O walker se aproximava mais rápido. Oito, sete, seis metros. E ela continuava tentando apontar a pistola para o zumbi. O que Kaori tinha dito mesmo? Carregar, mirar, atirar. Cinco metros. Parecia fácil. Afinal, quantas vezes, nos três dias em que elas estavam juntas, ela vira Kaori fazer aquilo?

Carregar, mirar, atirar. Vamos, Fernanda. Quatro metros. Era fácil. Carregar. Ela puxou o ferrolho da Hi-Power; estava pronta para atirar. Três metros. Mirar. Respirou fundo, tentando se concentrar. A cabeça do errante estava bem na sua frente. Isso era mira, certo? Agora, nos seus modos, era. Dois metros. Atirar. Fechou os olhos e apertou o gatilho com força.

Para Fernanda, o estrondo teria acordado qualquer walker num raio de dez quilômetros. Abriu os olhos lentamente, encontrando a cabeça do errante caída a seus pés. Afastou-se prontamente, o fedor invadindo suas narinas. Kaori ria em comemoração, socando o ar. Ela respirou aliviada, sentindo seus pés saindo do chão quando Kaori a englobou num abraço de quebrar os ossos.

— Kaori, menos! — ela reclamou, mas estava feliz. Passara em pelo menos um desses testes malucos. Um ponto a mais se tivesse que sobreviver sozinha, ela pensou animada. — Foi só um tiro, credo.

Kaori não se importou com o falatório de Fernanda, mas a colocou no chão, sem soltá-la. Seus braços englobavam a cintura de Fernanda, que não conseguiu ar para formular uma frase; estava ocupada demais para isso enquanto trocava olhares com a garota.

Era uma comemoração boba, então porque Fernanda sentia vontade de beijar Kaori? A história de sua conexão com ela entrou novamente na sua cabeça. Droga, ela estava tão perto, podia beijá-la mais uma vez, não podia? Não havia nada contra isso na constituição.

Fernanda subiu nas pontas dos pés para poder alcançar os lábios de Kaori outra vez. E de novo, aquela sensação do primeiro beijo, de que as duas se pertenciam e se completavam, invadiu sua mente.

Bem, se fosse verdade ou não, Fernanda adoraria passar o resto do apocalipse zumbi tentando descobrir.