In The Hell
6 in the hell 6
–* Flashback
Fernanda estava conversando alegremente com Ana na arquibancada quando as coisas mudaram. De repente, estava num rio de lava fervente, sem ter ideia de como havia chegado lá. A lava não a queimava, nem ao menos o pequeno bote em que se encontrava. Tentava nadar até a borda para se salvar, mas não conseguia.
O ar começou a ficar rarefeito. Quando deu por si, estava no topo da montanha mais alta que já tinha visto na vida (não que ela tivesse visto muitas). As coisas rodavam dentro de sua cabeça, ela queria respostas para o que estava acontecendo, porém sempre que chegava perto de alguém que conhecia, ela se transformava em neve, ou no Jedi.
A neve caía em seus ombros formando uma camada pesada sobre si. Mais uma vez, tudo agiu rapidamente e ela desabava montanha abaixo sem nenhum esqui ou snowboard. Tentou gritar, porém parecia que tinha perdido sua voz. Nem o desespero foi inovador: ela passava por aquilo tantas vezes que estava ficando chato.
E no meio de toda a brancura do desabamento, ela notou os morenos conhecidos seu. Agora sem rosto, apenas os cabelos balançando contra a neve como se não houvesse nada além de uma pequena garoa. Sabia quem era, e toda vez que ela aparecia ficava se perguntando o que fazia ali, invadindo seus sonhos e pesadelos constantes.
...
— Ei — disse Ana ao entrar no quarto, conturbada. — Nenhum sinal?
— Não — Kaori respondeu num suspiro, aceitando o outro copo de café que a garota carregava. — Como isso foi acontecer?
Ana preferiu não responder. Kaori enterrou o rosto nas mãos, tentando controlar as lágrimas que sempre apareciam nos últimos dias. Ver Fernanda deitada naquela cama de hospital, carregada de aparelhos ao redor dela era torturante.
Na primeira semana após o acidente, achou que tudo daria certo. Que Fernanda acordaria numa das suas noites de acompanhante ali e perguntaria com sua expressão confusa se tinham prendido o pôster da campanha de Finny corretamente. Ela sairia do hospital no dia seguinte e as duas poderiam fazer a quarta maratona de Senhor Dos Anéis.
Entretanto, em algum lugar da terceira semana, suas esperanças foram diminuindo. Ana e os pais de Fernanda voltaram a seus trabalhos e à escola, mas Kaori não conseguia se levantar da cadeira ao lado da maca de Fernanda. Não tinha forças para sair do lado dela, seguir uma vida normal e simplesmente não estar lá quando ela acordasse.
Agora, pouco mais de três meses depois do acidente, suas visitas à Fernanda eram restritas a apenas três por semana, durante pouco mais de uma hora. Sua mãe interferira para que voltasse ao colégio, ajudasse as Cheerios a ganhar as Regionais, ter uma chance de sorrir, e os pais de Fernanda concordaram.
E, por um momento, achou que seria bom. Não por ela, jamais por ela. Fernanda não iria querer que sua melhor amiga perdesse boas oportunidades, matrículas em faculdades e outras amizades para que ficasse ao lado dela, se lamentando não ter falado que lhe amava antes.
— Essa coisa tá ficando maluca — comentou Ana com olhos na televisão. — Digo, esses walkers.
Kaori concordou, desviando sua atenção da pacífica expressão de Fernanda para o noticiário. Mais uma vez, comentavam sobre a grande infecção que atingira metade dos Estados Unidos e do planeta Terra. Havia duas ou três semanas que só se falava naquilo. Pessoas estavam começando a se esconder em porões, sótãos e qualquer coisa que as afastavam dos mortos-vivos.
— Deveríamos nos armar — disse Kaori seriamente. — Chamar a galera, nos organizar. Isso não vai melhorar tão cedo.
Lentamente, Ana concordou. Tomou o último gole de seu café e levantou-se da outra poltrona, mais longe de Fernanda. Seu olhar caiu na mão de Kaori, brincando gentilmente com os dedos imóveis da garota desacordada.
— Acho que está na hora de irmos — anunciou, sentindo-se como uma intrusa naquele momento terno de Kaori, e com ciúmes. — Já é quase três horas.
Kaori demorou a retirar sua mão de perto da de Fernanda. Ao sair, ela se aproximou da outra garota e se inclinou, próximo suficiente para lhe dar um beijo em sua testa. Ana não reclamou: era como um ritual para Kaori fazer aquilo.
Antes de bater a porta do quarto, ouviu a mulher do noticiário em um tom de total desespero:
— Estamos numa emergência mundial. Zumbis, walkers, errantes, seja lá qual for o nome para essas aberrações, estão nos dominando. Cuidem de seus parentes, amigos, leve-os para as cidades. É onde o governo admite estar fazendo alguma coisa. Uma proteção concreta. Espero estar viva amanhã para repassar as últimas notícias.
O silêncio caiu no quarto de Fernanda enquanto Kaori levantava os olhos para Ana, um plano inteiro armado em sua cabeça.
–*-
— E... Estamos no Tennessee! — exclamou Di, querendo buzinar para comemorar suas habilidades em geografia. — Cerca de duas horas para chegarmos ao Finny!
Cory lhe deu um beijo na bochecha em comemoração. Ele viu pelo retrovisor Kaori se aproximar de Fernanda, indo de encontro a seus lábios, mas no último segundo percebeu o que faria e apenas a abraçou.
Di franziu a testa para o namorado, pedindo explicações. Percebia o jeito que Kaori agia nas últimas horas perto de Fernanda, e a declaração de amor que a garota tinha feito (não importava o quanto Fernanda dissera quando estavam sozinhas no vilarejo que não tinha sido e jamais seria uma declaração de amor) era uma das mais lindas que já ouvira, superando qualquer desenho da Disney que vira.
Ela só não entendia por que as duas não conseguiam se arranjar logo. Quer dizer, elas pertenciam uma a outra, tal qual ela e Cory. Fazia dois dias que Kaori havia tirado Fernanda em coma do hospital, além dos olhares e dos constantes segurar de mãos, alguma coisa a mais deveria ter acontecido. Di se recordava de não ter demorado menos de três dias — ou horas — para se apaixonar por Cory, mesmo não sabendo à época o que era amor.
— Eu te conto mais tarde — disse Cory num sussurro. Depois, girou o dedo ao lado da cabeça e apontou para Kaori, e Di sorriu quando leu os lábios do garoto, que dizia maluca.
— Eu vi isso — comentou Kaori em voz alta; Cory a encarou como se nada tivesse acontecido.
Cory virou-se para o banco de trás e levantou a mão para a amiga, mas ao ver Di lhe observando seriamente desistiu de seu gesto obsceno. Ela deu uma risadinha que fez Cory se enfiar mais no banco, emburrado.
— Whipped — tossiu Kaori. Fernanda, e até Di, riu.
— Jamais — retrucou Cory, voltando atrás e dando o dedo do meio para Kaori. Di abriu a boca “chocada”, e se não fosse por um carro perdido no meio da estrada que precisava desviar, teria socado o namorado no ombro.
Ela sentiu algo estranho, algo que não sentia há muito tempo. Um sentimento curioso, que passava por suas veias e lhe dava uma energia única. Di sentiu as pontas dos dedos formigando, e um pouco de orgulho que ela não sabia de onde vinha. Ela só gostava. Lembrava-lhe do passado, de seus pais e primos.
Era bom, e ela sabia que demoraria a acontecer outra vez. Talvez seja por isso que ela memorizou o rosto das outras duas dentro do carro, e principalmente dele. Kaori e seu olhar apaixonado para Fernanda, recostada no banco e dando um sorriso singelo a cada vez que a outra garota percebia que ela lhe encarava. Fernanda e seus murmúrios cantantes junto com o cassete dos Beatles, vendo a paisagem na janela e ocasionalmente lançando olhares culpados na direção de Kaori.
Por fim, Cory. O seu Cory, que também observava a vista das montanhas quilômetros à frente do Tennessee. Seu semblante era maravilhado. Como, mesmo depois do inferno inteiro que haviam vivido ainda sobrasse tempo para ficar admirado com as belezas da natureza, a única coisa intacta naquele mundo por agora. A paz que seu rosto transpassava acalmava Di mais do que qualquer coisa. Porque, claro, algum dia os papéis tinham que se inverter.
Ela queria memorizar tudo àquilo porque foi o primeiro momento em que se sentia realmente feliz depois de muito tempo. Tanto que não conseguia tirar o sorriso bobo de seu rosto enquanto aumentava um pouco a velocidade do carro.
Di só esperava que quando chegasse à fazenda de Finny, o companheirismo que tinham compartilhado nos últimos dias não fosse embora.
*
Kaori estava olhando para ela da mesma forma outra vez.
Na verdade, nunca tinha parado de olhar. Fernanda baixou a cabeça, sem acreditar. Como Kaori mudara tanto para ela? Como a menina de dois anos atrás que desenhava desenhos pornográficos dela no banheiro feminino havia se transformado naquele “mulherão”? Os meses de coma não lhe fazia muito bem se pensava no quanto tinha perdido por aí.
Ela queria retribuir o olhar de Kaori, mas não dava conta. Ou sorria encarando a janela do carro ou começava a achar os furos no estofado do banco mais interessantes que os hipnotizantes olhos pretos de Kaori.
Desejava saber por que não conseguia. Porque era tão difícil olhar diretamente nos olhos da pessoa que havia lhe salvado da morte tantas vezes nos últimos dias? Era tão fácil com as outras pessoas antes desse inferno todo começar... Ana, e mais dois de seus exs... Estava em igualdade. Mas Kaori... Ela era outro nível, um lugar onde Fernanda ainda não alcançara.
Ela só queria saber por que.
Fernanda se esqueceu dos olhares de Kaori por um momento para ter sua atenção totalmente voltada à adaga que um dia pertencera à mãe de Kaori. Desde a manhã, não tirava os olhos dela. A faca brilhava tanto que Fernanda pensava que ela tinha brilho próprio. Os inscritos em latim em relevo só a fazia ter certeza de onde Kaori tirara seu dom para aquelas coisas. Sr. Sato poderia ser mal, mas tinha bom gosto.
Não conseguira tirar da mente que Kaori lhe ensinava latim. Não conseguia entender que razão a faria querer fazer algo dessa forma. Mas, apesar disso tudo, gostara. Sentia-se importante na vida de Kaori. E, por algum motivo, aquilo era de importância para si.
— Está escrito... — começou Kaori ao ver que Fernanda mexia na adaga pela milésima vez. Seu tom de voz era contido, envergonhado.
— “My Lady, My Beautiful” — completou a loira, ainda com os olhos cravados na faca. — Isso não presta.
— Desculpe? — indagou Kaori, visivelmente ofendida.
— Não, não a adaga — retrucou Fernanda impaciente. — Eu. Eu não presto. Não deveria estar aqui, sou um grande saco de nada.
As lágrimas coçavam para que pudessem sair, porém Fernanda as conteve. Quem dera fazer os mesmos com as palavras, pensou irritada. Seu problema maior era que falava demais em certos momentos, mesmo o momento pedindo toda a descrição possível.
Além disso, precisava desabafar. Sentia-se mesmo inútil, qual era o problema? Ah claro, você não tinha tempo para sentir-se um lixo no meio de um apocalipse zumbi. Você não poderia sentir nada no meio de um apocalipse zumbi, e isso chateava muito Fernanda. Qual era a parte engraçada daquele inferno se não poderia expressar seus sentimentos ou ter um ataque de diva?
Kaori poderia ter provado que ela estava errada algumas horas antes, enquanto admitia seus sentimentos secretos por Fernanda, mas ela não queria se apegar àquilo. O fato de que Kaori tivesse sido forçada para jogar tudo para fora não ajudava muito.
Não que não deixasse de acreditar no quanto Kaori sofria ao vê-la machucada. Ela via a dor nos olhos da garota toda vez que possuía coragem suficiente para encará-la. E o momento das duas na estrada cheia de carros também demonstrava o contrário — embora ela tivesse pulado fora no último segundo. Era só... Sinceramente, não sabia o que era. Com o mundo daquela forma, qualquer mudança brusca de emoções era totalmente natural. Fernanda só não queria se enganar.
— Não diga isso, você é de grande ajuda — falou Kaori tentando animá-la, dando-lhe um soco amigável no ombro. — Quando chegarmos à fazenda de Finny, eu prometo lhe ensinar a usar uma arma.
Cory, no banco da frente fingindo não prestar atenção na conversa enquanto deitava-se no colo de Di, riu.
— Fique quieto, Cory — repreendeu Kaori.
— Às vezes eu me sinto como a Lúcia — desabafou Fernanda, cruzando os braços num gesto aborrecido.
Kaori franziu a testa. Fernanda a olhou, incrédula.
— As Crônicas de Nárnia, Kaori — disse a garota revirando os olhos. Cory soltou outra gargalhada escandalosa; Di pediu a ele para que parasse de interromper a conversa e ele assim o fez. — A mais nova, Lúcia. Todo mundo sem cérebro que assiste ao filme ou lê o livro da primeira vez acha que ela não serve para nada.
— Todo mundo tem cérebro aqui, sabia? Ninguém ainda virou comida de zumbi.
O sorriso surpreso de Kaori pareceu dar uma nova energia a Fernanda. Ela sorriu de volta, criando coragem e encarando outra vez o escuro que era os olhos de Kaori, se arrependendo quase no mesmo instante.
Depois de pouco mais de quatro horas, se esquecera como eram os olhos dela. De como a luz do Sol o deixava tão frio, mas ao mesmo tempo com tanta vida. De como eles tinham tantas dores por trás, mas brilhavam somente para as felicidades. O amor que transbordava a cada vez que Kaori piscava em sua direção a deixava cada vez mais hipnotizada.
Ali, teve certeza de que os sentimentos de Kaori não mudariam. Que, na verdade, jamais tinham mudado. Que Kaori a amara desde a primeira vez em que se viram e que todo o “ódio” que ela jogava em sua cara era apenas uma forma estranha de chamar sua atenção.
Mas Kaori lhe dissera que eram amigas antes de seu coma. “Do tipo, melhores”, em suas palavras. Talvez Kaori tivesse finalmente tomado coragem para contar-lhe tudo o que sentia, pensou com uma chama quente de esperança em seu peito.
Fernanda xingou-se mentalmente por não conseguir se lembrar de nada. A memória de antes deveria voltar, não? Ela se recordava de ter lido algo sobre perda de memória recente após um acidente grave e como ela voltava depois de um tempo. Havia se passado apenas dois dias de que acordara do coma, quando tempo demoraria a ter suas lembranças com Kaori de volta?
— Valeu — ela agradeceu com a cabeça, desviando seu olhar do de Kaori novamente.
— Afinal, ela é bem útil depois, não é? — disse Kaori distraída. — Tipo, acordando o Aslam e tudo mais.
Fernanda rolou os olhos, soltando uma gargalhada. Impressionou-se ao perceber que era a primeira risada verdadeira que dera nos dois dias de viagem. Acreditava que o motivo de não rir tanto quanto Kaori ou mesmo Cory era que estava preocupada demais com o que acontecia do lado de fora do carro para curtir pelo menos um minuto que ela passava lá dentro.
— Você nunca viu o filme não? — ela indagou sincera após parar de rir.
Kaori negou com a cabeça, sorrindo como se pedisse desculpas. Fernanda fez uma expressão de desapontamento, se perguntando como Kaori, uma apaixonada por filmes de fantasia de acordo com Finny e Gabriel, não poderia ter assistido As Crônicas de Nárnia, era um de seus filmes favoritos.
— Chega de falar disso, por favor — reclamou Cory, saindo do colo de Di e interrompendo a contato visual restabelecido por um segundo entre Kaori e Fernanda. — Alguém aí quer Coca-Cola?
Di e Kaori deram um suspiro aborrecido.
— Não era para você tomar todas as Cocas hoje, Cory — disse Di, ralhando com a namorado. — Você bebeu quantas?
— Duas latinhas, e pedindo por uma terceira — entregou Kaori com um sorriso zombeteiro.
Cory começou a soltar palavrões na direção de Kaori, que ria agora sem constrangimento. Di decidiu em não intervir mais na briga; apenas prestava atenção na estrada silenciosa na sua frente.
Fernanda, por outro lado, adorava ver Cory e Kaori brigando. Não acreditara quando Di lhe dissera que antes eles lutavam de “brincadeira”, pois eles eram unidos desde que Fernanda se lembrava. Afinal, o primeiro slushie que recebeu no McKinley High nos tempos antigos fora deles.
Kaori e Cory eram tão potencialmente chatos que tudo era uma razão para brigarem. E mesmo assim, um jamais deixaria o outro sozinho. Era estranho pensar dessa forma, mas Fernanda percebeu logo no primeiro minuto em que ela entrou no carro que os dois eram unha e carne, que eles se “completavam”.
Sentia um pouco de inveja de Di. Ela e Kaori eram quase como irmãs, tinham uma conexão que ultrapassava qualquer uma que já tinha tido com seus antigos amigos.
Fernanda podia sentir sua conexão com Kaori, é claro — parecia que seus corações, suas emoções e pensamentos eram um só; tremores passavam dentro dela quando Kaori estava com raiva, seu estômago lhe dava borboletas ao ver Kaori sorrindo e etc. —, mas ainda ficava tímida perto dela. Não conseguia exprimir uma palavra sem evitar seus belos olhos.
Por fim, a compreensão lhe atingiu. A ligação que tinha com a garota ao seu lado superava qualquer uma existente. Porque as duas não tinham nascido para serem amigas.
— Puta merda — ela murmurou para si, petrificada.
Fernada talvez, quase provavelmente amava Kaori. E não era de uma forma fraternal.
***
— Finny! — chamou Matheus entrando na sala de estar, ofegando. — Tem um carro chegando...
Finny franziu a testa, mas logo compreendeu o que o garoto havia falado. Ele sentou-se no sofá enquanto Finny corria para a janela. Espiou para fora dela, confirmando o que Matheus tinha acabado de dizer. Um Impala ’69 virava a esquina e entrava em seu gramado.
— Kaori? — indagou o garoto esperançoso após ter recuperado o fôlego.
— Não — respondeu Finny, sacudindo a cabeça. Matheus tinha uma admiração enorme por Kaori desde que ela o salvara de ser mordido por alguns zumbis, ainda na pequena cidade.
Finny estreitou os olhos, pois não reconhecia aquele carro. Quando o garoto que o dirigia abriu a porta, ele viu o cabelo castanho claro despenteado e um sorriso iluminou seu rosto.
Gabriel.
Ele correu pela porta de entrada, tropeçando ocasionalmente em alguns cascos de areia, mas feliz por finalmente ver um de seus amigos mais queridos ali, no lugar perfeito que achara, são e salvo.
Gabriel deu um sorriso triste ao ver Finny e o abraçou com firmeza. Finny olhou por cima do ombro de Gabriel e viu Ashley (a nenem) dormindo tranquila no banco de trás do Impala numa cadeirinha para bebês que os dois tinham arranjando numa das suas últimas aventuras na cidade. Ele esperou ver Naya ao lado de Gabriel ou ainda cuidando a menina no carro, ou até mesmo tirando as poucas bagagens do porta-malas, mas não havia sinal nenhum da mãe da garotinha em nenhum lugar.
— Cara... — disse Gabriel ao dar uma olhada para a casa a poucos metros de distância, onde Carol, Matheus, Vitoria e Laura esperavam — isso com certeza não é o tipo de fazenda que existia na minha época.
Finny deu de ombros, continuando a procurar por Naya em todos os lugares, começando a ficar preocupado.
— Onde está Naya? — perguntou por fim, sem se conter.
Arrependeu-se no mesmo instante. A expressão de Gabriel, pouco feliz, havia se transformado para nada feliz. Ele soltou um suspiro longo, Finny notando que o garoto queria chorar, mas não queria demonstrar fraqueza. Finny pôs a mão no ombro de Gabriel, numa forma de apoio que sempre achou meio fraca.
— Uma manada veio atrás da gente, cara — disse Gabriel com a voz embargada. — Tipo, milhões de walkers. Eu não sei de onde eles tinham vindo, mas eles nos cercaram. Peguei meu facão, coloquei Ashley no meu colo e fui. Naya estava atrás de mim e estávamos indo bem, tínhamos um lugar perfeito para nos esconder perto da gente até aqueles merdas passarem quando...
Gabriel parou de falar, abraçando Finny novamente. O garoto pasmo, pois não sabia que Gabriel tinha tantos sentimentos com Naya. Antes do apocalipse, ninguém além de Kaori sabia que os dois tinham um caso. É claro que segredos era o que mais acontecia na casa em que moravam, mas os dois resolveram se assumir. Naya era como uma mãe para todos; uma espécie de terceira no comando feminino se por acaso Kaori e Carol morressem. Ela faria falta.
Mas — Finny tinha que se lembrar todos os dias — eles estavam no meio de algo ali, acontecendo a todo o momento. Não podiam entrar em luto toda vez que alguém morria. A melhor forma de honrar o que mais amava era lutar e sobreviver. Assim a alma dele descansaria em paz.
— Vamos para dentro — chamou Finny depois de alguns minutos. — Carol vai lhe fazer um café.
Gabriel concordou, soltando-se de Finny. Ele voltou ao carro e pegou Ash, que continuava dormindo profundamente, em seus braços para levá-la para dentro, sobrando a Finny e Matheus a tarefa de pôr os pertences de Gabriel em casa.
***
— Cory falando, seus vadios — disse o garoto no comunicador rindo.
— Era melhor quando a Kaori respondia — falou Finny do outro lado da linha emburrado, e Kaori teve certeza de que ele também rolara os olhos. — Onde vocês estão?
— Perto de um parque florestal — respondeu Cory, alheio.
Kaori, ao contrário dele, lembrou do dia anterior e da angústia que sentira ao ver Fernanda desmaiar de dor em seus braços, da dor que vinha toda hora deitada em estado vegetativo na cama perto dela no outro parque que tinham encontrado. Ela esperava passar por este logo, pois árvores juntas demais e prenúncios de ursos não era uma coisa boa para ela.
— Beleza, vocês estão perto — disse Finny. — Gabriel chegou aqui agora a pouco.
— Fala para ele se quiser lutar eu estarei pronto — disse Cory desafiador sorrindo maleficamente.
— Estamos no Dickson Chapel — falou Kaori, ignorando o amigo. — Quanto tempo demora a chegarmos aí?
— Meia hora no máximo — respondeu Finny. — Vocês precisam pegar a Gillmore Hill Road e depois descer na Hunters Point Pike.
Kaori acenou afirmativamente, porém todos no carro estavam com a mesma expressão confusa que ela. Fernanda estava muito quieta, o que a fez sentir-se meio culpada.
— Sobre isso... — começou Di acanhada, o aparelho GPS em suas mãos piscando loucamente — eu não encontro nada aqui, você terá que nos guiar.
— Mas como? Vocês vieram de Ohio até aqui e se perdem no final do caminho? E como o GPS de vocês ainda funciona?
Kaori se fez a mesma pergunta. Como, depois de o governo ter cortado todas as redes de comunicações, e isso incluía internet, televisão e rádio, elas continuavam a usar o GPS como se nada tivesse acontecido?
— Eu o configurei — respondeu Di simplesmente, dando de ombros. Fernanda esqueceu-se de sua tarefa de ignorar Kaori e encarou a motorista impressionada. — Os satélites ainda funcionam, eles não foram desligados totalmente, então o que fiz foi usar o computador da escola e deixar o GPS ligado para, tipo, sempre.
Fernanda estava boquiaberta; Cory tinha um sorriso orgulhoso no rosto enquanto Kaori observava as expressões de Fernanda com um olhar apaixonado. Pela primeira vez, ela pensou que não estava sendo discreta o bastante. Afinal, depois de seu pequeno surto no vilarejo, não tinha como manter seus sentimentos escondidos.
Ela tinha que contar a Finny que estavam com Fernanda. Não via mais nenhuma razão para manter aquele segredo — que não tinha ideia por que queria manter a principio. Fernanda estava bem, não estava? Ela própria sentia isso. A garota não reclamava de dores desde a parte da manhã, o que era um bom sinal: Fernanda era intensa demais para fingir que algo não estava acontecendo.
O que fez Kaori se perguntar por que Fernanda estava virada para a janela do carro sendo que meia hora antes conversavam normalmente. Ela teria percebido alguma coisa? Estava assustada com a magnitude de seus sentimentos para com ela? Bom, Kaori não podia culpá-la por isso. Primeiro o coma e depois o fato de uma pessoa que costumava te “odiar” agora estar loucamente apaixonada por você? Não era muito justo.
— Uau — assoviou Finny, impressionado. — Di, você precisa ser nossa técnica quando chegar aqui. A energia tá falhando.
— Sem problemas — disse ela com um sorriso inocente no rosto. Cory beijou-lhe na bochecha, orgulhoso. — Ok Finny, o GPS parece ter voltado ao normal, não precisamos mais de sua ajuda.
— Ainda bem, porque senão pararíamos em Nevada e ninguém notaria. — Kaori disse sarcasticamente, causando risadas em Cory e Di.
Finny riu secamente.
— Muito hilária você, Kaori — ele falou. — Já que não sou mais útil para vocês acho melhor desligar e...
— Não, espera!
Kaori não tinha ideia de onde tirara forças para impedir Finny de desligar. Um impulso tomou conta de si, e então ela simplesmente gritara para o rádio-comunicador, atraindo os olhares curiosos das pessoas que estavam no carro, inclusive de Fernanda.
A reação de surpresa dela fez Kaori querer abrir a porta do carro e se jogar para os walkers no caminho. Seu rosto mostrava um sorriso mínimo — e Kaori detectou um pouco de orgulho nele —, e ela sorriu de volta, dando-lhe uma piscadela.
— Fêr está com a gente. — falou num suspiro só.
— Ah — fez Finny. O único som vindo do comunicador preocupou Kaori. Finny não era lá muito bom em esconder emoções também. Ele parecia perturbado por um momento. — Que bom que você salvou ela. Mais uma pessoa para o nosso grupo, isso é sempre bom...
— Eu estou acordada, Finny. — Fêr interrompeu o garoto, que deu um suspiro aliviado. Kaori entendeu a apreensão dele: uma pessoa desacordada para cuidar no meio de um apocalipse zumbi não era lá uma boa coisa. Se precisassem fugir numa última hora ou até mesmo parada, alguém em coma sempre significava despesas e lerdeza.
— Ótimo! — exclamou Finny alegre. — Vejo vocês daqui a pouco. Câmbio e desligo.
O fim da viagem foi excepcionalmente silencioso. Cory ouvia no volume mínimo seus rocks clássicos, cantando-os de olhos fechados e balançando a cabeça no ritmo, o de sempre de acordo com Kaori. Di ia dirigindo rapidamente, às vezes atropelando um errante ou outro apenas por diversão, rindo maldosamente em seguida. Kaori não entendia como alguém tão “inocente” fora transformada na melhor atiradora dentre o grupo e a pessoa mais inteligente entre eles.
E Fernanda... Fernanda estava distante, como sempre ficava dentro do carro. Sequer lembrava à Kaori a garota engraçada e boba de alguns meses antes. Não queria admitir, mas sentia falta dos gritos histéricos e de seus ataques de drama. Sentia falta da Fernanda por qual se apaixonara, sentia falta de seus momentos brincalhões no quarto branco da casa dela.
Sentia falta da normalidade. Não sabia o que era isso há mais de cinco meses. Kaori acreditava que na fazenda de Finny pelo menos um por cento do que tinha antes poderia voltar a ela. E queria que voltasse, queria ter um pouco de felicidade por pelo menos um minuto ao lado de Fernanda antes que alguma coisa trágica acontecesse, por que era sempre assim na sua vida: um momento feliz em troca de dez cruéis. Não era justo, jamais fora, porém passar por esse sofrimento todo para ter um dia de glória ao lado de Fernanda valia a pena.
— Cara, essas casas não parecem fazendas — comentou Fernanda, sua voz rouca assustando Kaori, mas ao mesmo tempo lhe dando borboletas no estômago.
Ela olhou para fora da sua janela e ergueu a sobrancelha, também achando a observação de Fernanda estranha. Para seu desgosto, uma floresta cobria parte do outro lado da estrada e em um conjunto habitacional começava a crescer um matagal. Kaori esperava que Finny tivesse feito uma busca no local para que não corressem perigo ali mais que o necessário.
O carro foi se desacelerando enquanto passava por mais casas que não tinham nada de fazenda nelas, e Kaori ficava cada vez mais desconfiada. Era o local certo? Finny nunca descrevera realmente Horn Springs, apenas dizia que deveriam ir para lá, que era um local seguro. Kaori confiava no garoto demais para duvidar dele.
— Engraçado porque o GPS diz que esse é o lugar certo — disse Di confusa, sacudindo o aparelho, pensando se isso o faria dar a direção certa. — E onde nós estamos...
— Não parece uma fazenda — completou Cory, observando a floresta com os olhos opacos.
— Mas... Eu conheço aquele carro! — exclamou Fernanda apontando animada para a casa mais perto.
Kaori franziu a testa e se aproximou da janela ao lado de Fernanda, seus rostos tão próximos que se tocaram por um momento. Ela tentou se concentrar com a respiração fraca de Fernanda tão perto da sua, e viu a mini-van de Finny estacionada no gramado ao lado de um carro preto que ela não conhecia.
— É o carro do Finny... — confirmou Kaori, voltando ao seu lugar. — Di, entre. Se não for ele, a gente corre. Se for walkers, a gente mata. Simples.
Di acelerou para dentro da propriedade, parando de forma estratégica ao lado do carro preto. Kaori conferiu suas armas no coldre, contando as balas rapidamente, e pegou o facão no carpete do carro. Ela acenou para Cory, empurrando Fernanda para fora do carro. Ele saiu logo após, sua pistola pronta para o disparo na mão esquerda, e a mão direita segurando Fernanda atrás dele, usando si mesmo como um escudo protetor.
Antes que pudessem fazer alguma coisa, no entanto, Finny e Matheus apareceram no portal da frente da casa, com sorrisos amistosos no rosto. Kaori esqueceu por um segundo a segurança de Fernanda para pular nos braços de Finny e após nos de Matheus assim que eles chegaram perto o bastante.
Tinham se separado por menos de uma semana, mas Kaori já sentia falta deles. Afinal, eles eram os únicos que ouvia seus prelúdios sobre como tinha saudades de Fernanda (Finny nem tanto era mais Matheus) ou de como se sentia culpada por ela ter caído da maldita escada há tanto tempo atrás. Eles sempre a fazia sentir-se melhor por todos ao seu redor, e Kaori quase sempre tentava seguir seus conselhos.
— Estava com saudades de vocês — murmurou Kaori no ouvido de Finny, em um tom que Matheus também conseguiria escutar, antes de soltá-lo.
— Eu também — respondeu ele, afagando os cabelos da garota e abrindo outro sorriso. — Fernanda!
Fernanda gemeu um pouco quando Finny lhe abraçou. Kaori achou o olhar que ela estava dando a Finny e Matheus, chegava quase a ser... ciumento. Ele também agarrou Di, e um meio abraço em bases de socos em Cory.
— Puta merda Finny, você não poderia ter mentido — comentou Cory sério, lançando um olhar a próxima e, Kaori esperava muito, permanente casa delas. — Isso aí não é uma fazenda.
Finny deu de ombros, convidando todos com um gesto para que entrassem — Fernanda ainda o encarando com puro desgosto. Kaori se perdeu nos olhos verdes da garota quando virou para ela. Em outro impulso desesperado, pegou a mão de Fernanda que voava para lá e cá, distraidamente.
Estava onde seus amigos estavam. Esperava estar à salva por um tempo. Sua atenção agora ia ser unicamente para a loira. Se ela não conseguia se lembrar do que acontecera antes de seu acidente, Kaori sentia-se na responsabilidade de lembrar-lhe a ela.
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