In The Hell
5 in the hell 5
— Finalmente! — exclamou Di com um sorriso feliz no rosto. Ela ergueu os braços para cima numa comemoração estranha que fez seu namorado rir e abraçá-la de surpresa.
Kaori também ria da felicidade pequena no meio daquele inferno todo. Demorara pouco mais de duas horas para tirar todos os carros do meio da estrada, seus braços doíam terrivelmente e o Sol começava a queimar sua cabeça. Brigara com Cory algumas vezes por que ele não queria mudar um ou outro carro de lugar, alegando que dava para passar tranquilamente dentre eles, mas tudo era acalmado por Di e suas frases filosoficas que Kaori sempre ria.
Não encontraram muitos walkers. Um ou outro escondido nos carros, alguns vindos do pasto que cercava a estrada, mas nada demais. (Kaori presumia que a maioria havia abandonado para procurarem por abrigo, e suspeitava que os que ficaram perto demais dali eram os zumbis que vinham dos pastos.)
O momento mais assustador para Kaori talvez tenha sido quando Cory estava sofrendo para empurrar um Chevrolet e uma criança-zumbi se levantou dele. Em vida, não deveria passar dos quatro anos de idade — a chupeta pendia molemente em sua boca de forma inexplicável, ela também segurava uma mamadeira — causando choque em Di e, principalmente, Fernanda.
Cory permanecia perturbado pelos ataques dos walkers de Diih e Xuh e não quis terminar seu serviço, trazendo a tarefa à Kaori. Cory não gostava muito de matar walkers. Alguns, como aquela garotinha, jamais teriam a chance de ver o quão maravilhoso o mundo era antes do apocalipse. Jamais teriam a chance de viver.
O olhar de Kaori encontrou o de Fernanda; ela sorriu e abaixou os olhos. Kaori não esperava muito além daquilo. Sabia que algo havia mudado durante as horas que haviam passado naquela estrada. O olhar dela não era mais o mesmo, o jeito que ela lhe estudava se transformara. Algo tinha feito essas mudanças acontecerem.
Fernanda teria começado a lembrar-se de seu acidente? De como tinham sido amigas durante praticamente metade do último ano? Os lábios de Kaori brincaram com um sorriso ao pensar nisso. Se fosse verdade, ela se recordaria de todos os momentos que haviam passado juntas, de todas as brincadeiras, e de todos os conselhos amorosos que Kaori tinha lhe dado quando namorava Ana.
Ainda havia uma chama de esperança no coração dela naquela época. Ana era a namorada irritantemente e ciumenta; ela era a melhor amiga sem nenhuma restrição. Não queria que o relacionamento das duas saísse de uma noite mal dormida com Ana, no entanto. Queria que fossem se descobrindo, que Fernanda, fosse percebendo aos poucos o que ela própria sentia, o que Kaori sentia.
Por que Kaori sabia. Fernanda gostava dela. Desde o primeiro dia em que se viram. Por isso ela insistia tanto em ser sua amiga. Por isso ela sempre estava lá quando precisava. Kaori nunca chegara a descobrir o que Fernanda sentia de verdade por ela por causa do maldito acidente que a impossibilitou por cinco meses, mas sua expectativa falava mais alto.
— Acho que é melhor irmos, então — disse Cory após largar Di. — Precisamos chegar a Nashville hoje.
Di concordou. O casal se encaminharam para o carro, já na saída da estrada, deixando Kaori e Fernanda sozinhas. Ela começou a se perguntar se era acidental, e parou por aí. Tudo o que Cory fazia havia um motivo por trás.
Ignorou a possibilidade de bater no amigo depois para observar a timidez que Fernanda ganhara ao estar ao seu lado. Sorriu com isso, pois ela sempre fora a mais alegre e solta das duas. Às vezes até demais. A sensação de poder que os sentimentos de Fernanda lhe faziam sentir era ótima.
— Fez um bom trabalho, nos ajudando — disse Kaori, tão rápido que acabou atropelando as palavras. Aparentemente, o sentimento de poder não poderia conter seu nervosismo ao ficar perto da loira.
— Ajudei demais — respondeu Fernanda com sarcasmo, girando a faca que ganhara de presente entre os dedos. — Não fiz nada além de olhar vocês trabalhando.
— Você tá doente, não pode ficar se esforçando muito.
Fernanda parou de rodar a adaga e cravou seus olhos em Kaori. Se ainda restava alguma dúvida de que alguma coisa mudara em Fernanda, depois daquela troca de olhares rápida, agora não existia mais.
A garota sentiu o calor dos olhos de Fernanda queimar em sua pele, sentiu o ritmo do coração dela fugir completamente do compasso; ela ouviu os pés dela se arrastarem alguns centímetros, ela sentiu o ar entre elas deixar de existir ligeiramente; sentiu seus olhos se fecharem automaticamente e sua cabeça se inclinar para se aproximar dos lábios de Fernanda...
Bruscamente, sua visão foi tirada dela. Fernanda a empurrou com delicadeza para longe, mordendo o lábio inferior e entrando no carro no banco de trás ao lado de Di.
Kaori suspirou altamente, sentando-se por um segundo no capô do carro. Que idiota fora. Ela não podia apressar as coisas, não podia. Fernanda ainda estava presa na realidade antiga, onde ela namorava Ana e tinha um futuro em advogacia. Tinha saído a dois dias do hospital, não tivera nem tempo para as respostas das inúmeras perguntas que passavam por sua cabeça. Entrara no carro de Kaori porque não tinha mais lugar nenhum para ir.
Tinha que se contentar com isso por um tempo. Fernanda ainda não recuperara a memória. A Kaori da mente dela não era a garota de agora, a que sempre estivera ali por ela. Chutando o pára-choque do carro, Kaori deixou-se seguir pelo grito de Cory vindo do banco do motorista para que tirasse o traseiro dela da estrada e o colocasse no carro.
***
Alguma coisa estava acontecendo.
Elas não se falavam em horas. Kaori deveria ter feito algo muito ruim para que Fernanda parasse de conversar com ela. Elas nem pareciam um casal mais — agora estavam mais para um casal na meia idade.
Era uma coisa a mais para Cory se preocupar, ou talvez não.
Kaori sentava-se ao seu lado, alheia a tudo que acontecia do lado de dentro e fora do carro. Balançava a cabeça no ritmo da música, os olhos fechados e cantando-a silenciosamente. Aparentava em paz se não tivesse o semblante conturbado, como se a música não pudesse curar o torpor que passava por sua mente.
Fernanda estava com a cabeça recostada no vidro da janela de trás do carro, não ouvindo os comentários de Di sobre a Segunda Guerra Mundial e como tudo seria resolvido mais rapidamente se os alemães não tivessem ajuda de alienígenas. Olhava distante, as árvores passarem sem pressa pela janela, às vezes lançando olhares discretos à Kaori.
Cory suspirou, acenando afirmativamente para Di sem realmente ouvir. Pisou mais forte no acelerador, observando o ponteiro do velocímetro se mover rapidamente. Não era praquilo acontecer. As duas deveriam estar no banco de trás juntas, e ele deveria estar com a namorada ao seu lado, não com a Kaori depremida dos últimos cinco meses.
Saíra adiantado da estrada para que Kaori fosse corajosa o bastante e expressar o que sentia por Fernanda, para que a loira também ousasse admitir em voz alta como agia ao redor de Kaori. Não para que as duas fizessem, sei lá, alguma coisa estúpida que a colocassem brigadas até o fim do apocalipse zumbi.
Não, elas não podiam ficar brigadas. Havia tanto acontecendo, Kaori simplesmente não poderia não salvar Fernanda só por que ela tinha renegado seu amor. Aquilo era insano. Justo quando precisavam ficar unidas, quando qualquer vínculo com qualquer pessoa existente no planeta Terra era terrivelmente necessário. Maluquice.
Cory chutou a canela de Kaori com força, fazendo a garota abrir os olhos assustada somente para encará-lo raivosamente. Ela massageou a perna onde o menino havia chutado. Cory notou que Kaori queria xingá-lo e apenas sorriu maldosamente — uma das qualidades que jamais perderia: irritar pessoas ao extremo.
— O que foi? — perguntou Kaori em voz alta após parar de dar seus chiliques.
Ele apontou com a cabeça para Fernanda enquanto desviava de um carro perdido na estrada. Tirara o pé do acelerador agora que Kaori prestava atenção nele; certamente seria atirada para fora do carro se ela soubesse que o havia testado ao máximo.
— O que houve? — Cory devolveu a pergunta num sussurro.
— Nada — respondeu a menina em voz alta, atraindo a atenção de Fernanda. Bufou, pois Kaori usava seu tom sexy que ultimamente era muito útil para que lhe entregassem munições e alimentos.
Cory revirou os olhos. Mesmo depois de se libertar da máfia que era sua família, Kaori jamais tinha aprendido a demonstrar seus sentimentos. Vivia se escondendo debaixo de uma máscara de sarcasmo e ironia. E era por isso que eram amigos desde o fundamental.
Ele simulou avançar em Kaori para um beijo, deixando Di e Fernanda boquiabertas. Porém, a garota ao seu lado entendeu o recado e negou tristemente com a cabeça. Cory soltou uma risada malvada, quando por dentro, na verdade, lamentou pela amiga.
Fora muito cedo? Bom, para ele, não. Se uma garota como Kaori tivesse avançando alguns centímetros para beijá-lo, ele jamais negaria. Kaori era bonita demais para ser negada. Mas estava pensando em Fernanda... Traumas, muitas perguntas, mais um pouco de dúvidas sobre o que havia acontecido com ela... O mundo dela caíra em dois dias. Era avançado demais até para ele.
— Desculpe — sussurrou Cory depois de alguns minutos.
Mas Kaori voltara ao seu estado vegetativo.
— Ei, Cory — chamou Fernanda timidamente, chegando o quão perto o cinto de segurança deixava do motorista. — O rádio tá chiando.
Ele fitou a loira por uns instantes até conseguir ouvir o rádio por cima da música alta de Kaori. Desligou o som com raiva e chutou a morena outra vez para que ela tentasse ligar o comunicador.
— Não precisa me bater, porra! — gritou Kaori irritada enquanto tirava o rádio-comunicador do porta-luvas e o ligando. — Kaori falando, câmbio.
— E aí gente, é o Gabriel.
A voz do garoto de alguma forma acalmou Cory. Eles eram tão amigos quanto Kaori e ele, se metiam numa briga quase toda semana antes do mundo se transformar naquele inferno, e ele sempre o apoiava em tudo. Gabriel era o melhor amigo, que ele criou depois de Finny, que poderia existir na face da Terra.
— Gabriel! — exclamou Cory animado, tirando a mão do volante por um segundo para bater um high-five imaginário com o garoto. — Como tá as meninas?
— Eu estou ótimo, só pra deixar isso claro — respondeu ele com sarcasmo. Cory riu brevemente. — E as meninas também estão bem. Ultrapassamos a divisa e estamos no Tennessee, onde diabos vocês se meteram?
— Tivemos uns problemas noite passada — disse Kaori. Seu olhar encontrou o de Cory e eles assentiram ao mesmo tempo.
Cory queria mencionar Fernanda nas conversas que tinha com os amigos. Não gostava de admitir, mas a loira agora fazia parte de sua família — não mencionando que eles davam boas risadas falando mal de Kaori juntas. E ele cuidava de sua família, protegia.
Porém Kaori dissera que não. Antes mesmo de invadir o hospital em busca dela, antes mesmo até de saber se Fernanda acordaria ou não. Ele não sabia por que, e nem discutiria com a amiga. Kaori e sua aura de poder já lhe deixavam em seu lugar, não precisava ficar brigando com ela por coisas sérias outra vez.
— Walkers? Tivemos que correr quilômetros para nos afastarmos de alguns também.
— É... — Kaori balançou a cabeça. — Walkers. Foi isso.
Um silêncio tenso se instaurou. Kaori era boa mentirosa quando se tratava de gente desconhecida, mas para alguns, que basicamente eram Cory, Gabriel e Finny, ela simplesmente não conseguia. Sua voz falhava horrivelmente e ela começava a abanar a cabeça como se tivesse um inseto em seus cabelos róseos.
— Beleza então — Gabriel disse. Cory ameaçou chutar Kaori de novo por sua mentira, que Gabriel obviamente percebera, porém a garota a parou com a mão solta. —Onde vocês estão?
— Knifley Road — respondeu Di, a cabeça ruiva escondida atrás do mapa. — Perto da divisa entre Kentucky e o Tennessee.
— Ótimo — murmurou Gabriel, não mais tão à vontade. Cory virou-se para Kaori por alguns segundos apenas para lançar-lhe um olhar mortal. Ele não acreditava que perdera o bom humor do melhor amigo que já tivera na vida somente porque Kaori não queria contar a ele que estavam com Fernanda. — Vejo vocês no Finny, então. Boa sorte. Câmbio e desligo.
O rádio-comunicador voltou a soltar chiados.
— Sato, muito bom! — exclamou Cory imediatamente. Não chutou Kaori, pois estava estressado para tentar algo. — Me explica, por favor, por que não está contando pra ninguém que ela tá com a gente?
Cory não queria deixar Fernanda desconfortável com seus gritos e brigas com Kaori, mas agora estava fazendo algo que nunca pensara em fazer na vida: defendê-la do próprio amor de sua vida.
— Ela passou por muito, sabia?! Não tanto quanto a gente, mas pra ela isso dói muito mais! Foi ela que acordou há dois dias, lembra?! Foi você que a salvou, porque queria que o mundo dela recomeçasse ao seu lado! E agora como você vai fazer isso se nem para a porra de seus amigos você conta que está com ela?!
Cory não tinha ideia de como tinha conseguido permanecer com a atenção na estrada e ainda gritar com Kaori. O garoto não havia movido um músculo, respirava ofegante e não tinha se virado para encará-la.
Ele arriscou um olhar no retrovisor a Fernanda. Os olhos brilhavam de lágrimas, porém elas não caíam. Sua expressão era intensa, ou pelo menos tentando se passar por uma. Ela murmurou um “obrigado” na direção de Cory.
Cory crispou os lábios, piscando engraçado para garota. Se Kaori notou a comunicação muda de Fernanda e ele, ignorou. Não falara nada, nem um murmúrio, nadinha. Só mantinha a cabeça baixa, como se aceitasse a derrota, como se Cory fosse melhor para Fernanda que ela própria. Aquela não era a Kaori que tinha aprendido há respeitar tanto anos antes.
— E-eu não queria contar — sussurrou Kaori lentamente. — Me desculpe. Mas não acho que poderia.
— Por quê? — indagou Fernanda, enfiada no banco de couro, muito provavelmente esperando que ele se fundisse a ela para que pudesse desaparecer dali. Di observava a discussão atentamente, o mapa que carregava para cima a baixo amassado entre a palma de sua mão.
— Eu iria contar! — Kaori disse desesperadamente. — Quando Gabriel ligou da primeira vez, achei que tivesse ouvido sua voz, mas não. Ele não sabe. E bem, só eu falei com Finny da primeira vez. E ontem, no seu, sei lá, surto, achei que não seria sensato.
— Mas qual é o seu...? — começou a questionar Cory furioso, porém Kaori o interrompeu:
— Eu não queria dizer pra ninguém por que eu não sei o que pode acontecer com ela! — Kaori por fim havia levantando o rosto, uma lágrima solitária escorrendo por sua bochecha. Cory passou a língua pelos lábios, deixando seu olhar cair na estrada. Doía demais ver Kaori daquela forma. — E-eu não sei se Fernanda pode cair dura daqui a dois minutos, eu não sei quanto tempo ela pode dormir sem ser realmente um coma, eu não sei se ela vai acordar! Não posso deixar ninguém ter essa dor todos os dias além de mim.
Di suspirou pesadamente. Ela acariciava o ombro de Fernanda de maneira terna. Esta, pelo jeito, tinha se rendido às lágrimas pela milésima vez desde que Cory a tirara da cidade. Kaori deu um olhar ao motorista do tipo “está satisfeito?” e virou-se para a janela do carro enxugando as bochechas rosadas.
Talvez Cory tenha se arrependido mais tarde, porém, naquele momento, sentia-se livre de mais um de seus problemas. Pronto. Fizera o que deveria ser feito. Conseguira fazer Kaori admitir o que sentia a Fernanda, em alto e bom som, sem precisar de que a primeira tentasse beijasse a outra. Esboçou um sorriso, feliz com o próprio feito.
Seu sorriso sumiu ao mesmo tempo em que o pé pisava no pedal do freio por instinto e os olhos tentavam assimilar o que estava vendo.
***
Uma cidade.
A porra de uma cidade.
Tudo bem, não era exatamente uma cidade. Estava mais para um vilarejo de uma única rua no meio do nada. Mesmo assim, Kaori olhou com raiva para Di. A ruiva tentou explicar por que estavam paradas numa cidadezinha do interior do Kentucky, mas da sua boca não saía nenhum som. Quieta, ela voltou a estudar o mapa, procurando algum erro de localização.
— Paramos? — indagou Cory, as mãos firmando no volante como se ele fosse salvar sua vida. — Ou devíamos acelerar e rezar para que nenhum errante nos ouça?
Kaori poderia estar furiosa com ele por tê-la feito expor-se para Fernanda daquela maneira, mas tudo sumia rápido até demais em um apocalipse zumbi. Viver era mais importante que conversar idiotas sobre sentimentos. Ela e Cory eram os líderes ali, precisavam cuidar das outras duas, precisavam chegar à fazenda de Finny com todo mundo vivo. Era o que importava.
— Não parece haver ninguém — disse Fernanda, baixando o vidro da janela do seu lado, colocando a cabeça para fora e observando com atenção a rua ladrilhada. — Nem vivo nem morto. Deveríamos ver se há alguns mantimentos. Isso pode ser útil, certo?
Cory e Kaori se entreolharam, impressionados com as notas da garota. Kaori tinha que admitir que Fernanda pegara rapidamente a regra de viver sem drama. Di, contudo, sequer ouviu o que Fernada havia acabado de falar.
— Temos que passar por aqui se nós quisermos chegar à fazenda ainda hoje — falou concentrada, atraindo suspiros de Cory. — Ou, poderemos dar a volta na serra e chegar lá amanhã de manhã, se não dormirmos na estrada.
— Vamos por aqui mesmo — concordaram Cory e Kaori ao mesmo tempo.
— Mas paramos para apanhar mantimentos? — Fernanda retomou a pergunta, mais séria e determinada.
— O que você acha? — Cory perguntou a Kaori, suas pernas esticadas confortavelmente em cima nas pernas da garota. — Devemos ir?
Kaori considerou. Fernanda tinha levantado ali uma boa ideia. A galera tinha passado boa parte dos últimos dois meses juntando e armazenando alimentos e bebidas para os momentos de crise, e eles já haviam chegado. Ter mais um pouco de enlatados que durariam anos e macarrão instantâneo não era nada mal.
Entretanto, ao entrar em cada uma das dez ou onze casas que ali existiam, havia um risco enorme de haver walkers. Ou pior, humanos loucos atrás de comida e pessoas para que fizessem de escravos. Kaori não poderia colocar seu bando numa missão quase suicida como aquela.
Sinceramente, não sabia o que fazer.
— Me diz você, por favor — pediu Kaori.
— Eu poderia sugerir uma votação, mas somos quatro — disse Fernanda determinada, lembrando à Kaori certa líder de coral de conhecera uma vez. — Então, peço que deixem que eu faça a decisão dessa vez. Todos de acordo?
Não houve muita discussão. Os três assentiram à ideia de Fernanda, que abriu um sorriso enorme diante da aprovação. Kaori sorriu com ela, sem saber exatamente por que.
— Ótimo. Eu decido que deveríamos revistar algumas casas, não todas, até por que demoraria muito tempo e o sol está começando a se aquecer. Deveríamos ir todos juntos, também. Vigiar uns aos outros. É assim que tem que acontecer. — Ela abriu a porta do carro, mais decidida do que Kaori a vira na vida. — Prontos? Então vamos lá.
Kaori desceu do carro depois de Fernanda, o facão girando em sua mão e duas de suas pistolas encaixadas fielmente no case em suas costelas. Cory deu-lhe um sorriso ao colocar seu revólver em sua cinta na cintura, indicando Fernanda com a cabeça.
— O quê que tem? — indagou Kaori franzindo a testa.
— Daqui a pouco ela vai merecer umas aulas de tiro — Cory disse dando uma risada rouca. — Particulares. Suas.
— Cala a boca! — exclamou a outra, porém ria. Era por isso que considerava Cory seu amigo, principalmente agora. Sua amizade era mais briga do que conversas tocantes. Porque eles não precisavam de conversas tocantes para se desculpar entre eles.
Kaori tentava entender por que Cory a forçara dizer àquelas coisas minutos antes. Ela estava com medo de perder Fernanda durante a viagem. A garota não estava completamente bem, não queria encher os outros de esperanças para quando chegasse ao Finny, recebesse caretas tristes lhe olhando com pena.
Ela não precisava daquilo. Sim, um lado de seu corpo tinha plena certeza de que Fernanda estava bem. De que nenhuma dor lhe afligira nas últimas horas, de que elas poderiam correr por aí em campos de trigos logo, logo. Contudo, seu lado maligno, o lado que aflorava quando seus pensamentos eram somente os piores, dizia que Fernanda poderia cair a qualquer momento em seus braços sem nenhum pulso ou respiração.
Seu coração ardia de tanta dor quando começava a pensar dessa forma. Se sua conexão com Fernanda ainda existia, tinha certeza de que ela também sentia. Afinal, se estavam conseguindo compartilhar as mesmas alegrias, as dores também seriam algo fácil.
— Vamos! — sussurrou Fernanda à porta da primeira casa.
Mais de perto, o vilarejo parecia um lixo aos olhos de Kaori. Quer dizer, aquele não era o lugar mais apropriado para fugir de um bando de zumbis famintos. Ao observar a arquitetura do lugar, imaginou que as pessoas que ali viviam nem deveriam saber o que estava acontecendo no mundo lá fora.
Mesmo assim, engoliu em seco e, liderando a expedição, chutou a porta da casa, gerando um barulho enorme considerando o silêncio no qual estavam mergulhadas. Entrou primeiro, o fedor de mofo invadindo suas narinas imediatamente. As janelas estavam fechadas com cortinas escuras, o que dificultou a vista dentro da casa.
Avançou lentamente, pedindo em códigos que as garotas ficassem do lado de fora. Ela tateou as paredes até a janela principal do cômodo, os olhos se acostumando com a escuridão; a mão que carregava o facão pronta para o ataque.
Abriu a cortina num segundo.
— Puta merda! — exclamou sem se conter.
Kaori não tinha certeza do que lhe chamava mais a atenção: as paredes sujas de sangue ou os corpos de sete pessoas sentadas à mesa de jantar, parecendo pacíficas se cada uma não estivesse uma marca de bala alojava no meio da testa e o cara que sentava à ponta da mesa com metade do cérebro estourado.
— Cory, deixe as garotas aí fora — ela avisou ao ouvir passos vindos em sua direção.
Ela se aproximou mais alguns passos de uma parede branca. Estudando mais atentamente, percebeu que as manchas de sangue nessa parede formavam uma frase, que demorou a decifrar.
— Deus nos perdoe — ela leu aterrorizada.
Sim, aquelas pessoas tinham televisão. E ao contrário do que ela pensara, tinham visto no que o mundo se transformara.
— Caralho! — exclamou Cory audivelmente ao entrar na sala de jantar onde Kaori estava. Ele abaixou seu facão e se aproximou de um dos corpos, o de uma garotinha que não aparentava ter mais de dez anos. — Isso é...
— O que as pessoas fazem em momentos de desespero — Kaori completou séria, se encaminhando à cozinha. O fedor ali começava a irritar seu nariz. — Vamos pegar o que pudermos e sair daqui, rápido.
Cory concordou e avisou para que Di e Fernanda ficassem à porta e não entrassem. Kaori queria impedir que as duas vissem a tragédia ali, mas encontrou o rosto assombrado de Fernanda na janela do cômodo que havia aberto. Antes que pudesse dizer alguma coisa, Fernanda saiu dali e logo ouviu o som de vômito.
Ela não podia julgá-la. O horror no rosto daquelas pessoas fora a pior coisa que já tinha visto, incluindo os walkers Diih, Xuh e Ana. A garota jamais encontrara alguém que havia cometido suicídio e matado membros de sua família para fugir do apocalipse. Ver a que ponto tinha chegado o planeta lhe assustava um pouco.
Kaori abriu os armários da cozinha e encontrou uma grande porção de enlatados de todos os tipos. Sardinha, batata, milho, extrato de tomate... Ela abriu um sorriso ao ver cinco caixas de Coca-Cola escondidas estrategicamente atrás das lingüiças enlatadas. Gritou para que Cory lhe trouxesse a caixa que haviam trazido para levar tudo para o carro.
— Coca-Cola! — exclamou Cory animado, não pensando duas vezes em tirar uma latinha da embalagem, abri-la e tomá-la com gosto. — Eu não tomo Coca desde que esse inferno começou.
— Eu sei disso, eu também — retrucou Kaori, pegando a latinha das mãos do amigo e tomando um gole. — Anda, me ajuda aqui.
Eles colocaram toda a comida enlatada, incluindo as latinhas de Coca, na caixa térmica quase lotada de macarrão instantâneo. Kaori pegou numa das alças da caixa e chamou a atenção de Cory, que parecia ter se apaixonado pela Coca-Cola, e juntos carregaram os alimentos para fora a varanda da casa, onde encontraram Di dando tampinha nas costas de Fernanda com o rosto “verde”.
— Como vocês aguentaram o fedor? — ela perguntou assim que viu a dupla saindo da casa com os suprimentos. Fernanda parecia seriamente doente para Kaori. — Credo, dá pra sentir daqui.
— E é por isso que você não sobreviveria aqui sozinha — Cory falou com sarcasmo, soltando a caixa térmica e deixando que Kaori a carregasse. — Depois de um tempo se acostuma.
— Quero me acostumar logo — Kaori ouviu Fernanda murmurar enquanto saía para despejar o conteúdo da caixa no porta-malas do carro.
Ao voltar, encontrou Di fechando a primeira casa e Cory e Fernanda andando para a próxima. Kaori não estava gostando daquilo. Fora bom ter encontrado aquele tanto de comida, mas os corpos das sete pessoas sentadas na sala de jantar com tiros na cabeça lhe davam um péssimo sentimento.
Mesmo com o mau pressentimento na cabeça, Kaori seguiu Cory e Fernanda para a próxima casa, também parecendo completamente destruída pelo lado de fora. Ela ajeitou o facão na mão direita e espiou pela cortina meio aberta da janela ao lado da porta.
Afastou-se no mesmo instante, petrificada. A mesma cena, dessa vez com quatro pessoas sentadas num sofá, a TV chiando, esperando um sinal que nunca viria. Os menores deveriam ter seis ou sete anos, sentados no colo dos pais parecendo estarem dormindo. A cabeça da mãe se recostava no sofá com metade de seu cérebro para fora. O pai pendia para o braço do sofá, as gotas de sangue inexplicavelmente ainda pingando. E na parede, a mesma mensagem da primeira casa: “Deus nos perdoe”.
— Kaori...? — Ela ouviu Fernanda chamar de longe, o toque quente dela em seu braço lhe assustando.
— Esperem aqui — falou determinada quando conseguiu tirar a imagem aterrorizante de sua cabeça.
Sem dar maiores explicações, correu até a janela da próxima casa. Cinco pessoas mortas com um único tiro na cabeça sentadas na sala de jantar como na primeira casa. A mensagem na parede. Continuou a andar. Teve que arrombar a outra para ver dois garotinhos, uma mulher e um gato deitados mortos numa cama de casal. Acima deles, também estava escrito um pedido de perdão a Deus.
Caminhou apressada até o fim do vilarejo, conferindo cada casa dos dois lados da rua silenciosa, sentindo que estava sendo observada pelas garotas e por Cory, escutava as reclamações de Cory sobre como o que estava fazendo era perda de tempo.
Kaori não deu ouvidos às chatices de Cory. Cada casebre no povoado não estava lotado de gente viva ou zumbis ou enlatados. Em todas as casas, suas famílias tinham tirado sua vida. Em qualquer cômodo de entrada, Kaori via as marcas de sangue espirrado nas paredes e a letra confusa, provavelmente do chefe da família, escrita em sangue a mensagem que vira na primeira casa.
— Eles fizeram um pacto... — ela disse ofegante assim que chegou perto dos outros — todas as casas... todos estão mortos... na parede está escrito... “Deus nos perdoe”...
Cory a fitou descrente, e Kaori sabia que ele queria provar por si o que tinha acabado de falar. Entretanto, ela o segurou pelo braço quando Cory fez menção de se virar.
— Não... — falou ainda sem fôlego. — Temos que ir embora. Pelo cheiro forte e o sangue pingando na cabeça do cara dessa casa aí — ela apontou para a janela da casa onde estavam — eles acabaram de fazer isso. Tipo, um ou dois dias no máximo.
Ela olhou significantemente para Cory.
— Não é a mordida que nos transforma — ela murmurou a frase do último noticiário nacional de duas semanas antes. — É a morte.
— O quê? — fez Fernanda confusa.
Kaori ouviu um barulho vindo de dentro da casa, um baque surdo, que lhe lembrava horrivelmente de um corpo pequeno caindo no chão. Ela se arriscou um olhar à janela e encarou diretamente o zumbi. Ele tinha olhos cinza-claros, o oco de seu tiro na testa dando nojo à Kaori, e devolvia seu olhar de forma faminta.
O errante começou a se arrastar até a janela, mas Kaori foi mais rápida e sacou a arma de sua cintura, disparando uma única vez, que foi suficiente para o errante cair de costas. Infelizmente, o tiro acordou a mulher e as duas crianças walkers. Kaori gritou com Cory, que não precisou de nenhuma ordem para empurrar Di e Fernanda para fora dali.
Kaori mirou mais três vezes para acertar o resto da família. Ela já podia ouvir os gemidos dos outros walkers das outras casas, se rastejando em direção à carne fresca. Por sorte, antes que um ou outro zumbi conseguisse cair pela janela ou abrir a porta de suas casas, o carro vermelho parou ao seu lado. Entrou rapidamente no banco de trás ao lado de Fernanda, ofegando enquanto Di colocava o pé no acelerador para que eles saíssem daquele vilarejo o mais rápido possível.
— Pelo menos temos mais duas semanas de alimentos — disse Fernanda, um tanto arrependida. Ela virou-se para Kaori, a mesma expressão confusa de minutos antes. — Me explica esse negócio de morte, por favor.
Kaori suspirou e seu olhar se encontrou com Cory. O garoto assentiu silenciosamente, pensando o mesmo que ela. Quanto mais Fernanda soubesse, melhor seria para eles, ou melhor, ela própria. Poderia se defender sozinha — não que Kaori quisesse deixá-la sozinha, seria apenas em casos extremos.
— A gente não sabe direito — ela começou, escolhendo as palavras. — Só sabemos o que nos foi passado pelas poucas semanas que a televisão durou. Essa coisa de zumbi é um vírus, eles achavam, e se transmitia pelo ar. Mas só atinge as coisas mortas. Como por exemplo, se eu fosse mordida no braço agora mesmo, o que vocês teriam que fazer seria amputá-lo e estancar o sangue. Eu não viraria um walker.
— Por outro lado — continuou Cory, entrando na conversa —, se não pudéssemos salvar Kaori a tempo, se ela morresse, em pouco tempo ela viraria zumbi. "Nasceria" de novo. E nós estaríamos fudidos por que estaríamos trancados num carro com um errante.
Ele riu da própria piada, mas Kaori concordou com ele seriamente. Fernanda assentiu; a compreensão perpassando por seu rosto.
— Então a gente só não pode morrer? — perguntou por fim.
— É, por aí — respondeu Di, já que Cory estava ocupado tomando sua latinha contrabandeada de Coca-Cola.
— O quê? — Ele questionou ao perceber que todas lhe encaravam. — Temos Coca-Cola! Quente, mas ainda é Coca-Cola. Vocês não sentem falta de Coca, não?
— Sentimos, mas lembre-se Cory, ela é apenas um refrigerante, não amor — disse Kaori, séria.
Cory lhe mostrou o dedo do meio. Kaori lhe devolveu o gesto, mas o amigo já não prestava atenção, ocupado em colocar uma fita no rádio e dividir seu refrigerante com Di. Em vez de continuar a briga com Cory, seus olhos caíram em Fernanda, e notou que os grandes orbes dela lhe fitavam primeiro.
Fernanda desviou o olhar, dando toda sua atenção a um buraco no estofamento do carro. Kaori lutou contra si por alguns minutos até se decidir e pegar a mão de Fernanda que brincava ao seu lado. Sem dizer nada, ficaram de mãos dadas por um bom tempo, Kaori sentindo suas bochechas corarem fortemente.
Era um avanço, não era? Fernanda a deixara segurar sua mão. Não podia beijá-la agora, ou podia? Por um segundo, o preto encontrou o verde novamente, e Kaori se perguntou como era respirar. Engoliu em seco quando Fernanda finalmente desfez o contato visual.
Não. Talvez aquele não fosse o momento certo para beijar Fernanda.
Mas ela sabia que esse momento chegaria.
Fale com o autor