In The Hell
4 in the hell 4
— Fernanda! — exclamou Kaori com um sorriso enorme ao ver a garota sentada na cama com a expressão confusa. — Tudo bem com você?
— É sério, você precisa parar de me perguntar isso — falou ela ao abrir um sorriso, se é que era possível, maior que o de Kaori.
Cory empurrou Kaori para perto da cama de Fernanda enquanto ele mesmo saía com a namorada do quarto. As sombras de Fernanda na parede não assustavam Kaori. De fato, preferia que elas estivessem ali: não achava que suportaria ver sombras da forma de Fernanda deitada.
Mas ela não estava! Fernanda acordara, os quatro poderiam seguir viagem e encontrar com Finny no final da tarde. Kaori não queria pôr Fernanda em perigo, mas, da mesma forma que tirar ela do hospital era necessário, tirá-la daquela casa no meio do parque florestal também era indispensável.
Kaori não sabia por que, mas sentia que Fernanda estava bem. Ela não queria arranjar um motivo — e também porque provavelmente Cory iria ficar zoando ela pelo resto do apocalipse zumbi por causa disso —, mas uma conexão entre ela e a loira tinha se formado. Desde os tempos em que tudo estava bem, sem nenhum acidente ou coma para atormentá-las.
— Eu estou bem, se quiser saber — murmurou Fernanda, brincando distraidamente com o lençol que a encobria. Kaori sentou-se ao lado dela. — Minha cabeça ainda dói, não mencionando minhas costas, mas acho que posso viver até chegar à casa de Finny.
— É uma fazenda — disse Kaori estupidamente, lembrando-se do tempo em que ficava envergonhada por fazer algo perto de Fernanda. Não ajudou muito perceber que esses tempos jamais tinham passado.
Fernanda soltou uma risada rouca. Kaori não soube dizer quantos minutos ficou observando a fragilidade dela. Queria puxá-la para um abraço, como em tantas outras vezes que ela brigava com Ana e vinha buscar seu colo, mas novamente não sabia se podia.
A incerteza era o que mais lhe machucava. Por mais que seus instintos lhe dissessem para seguir tal caminho, ela sempre tinha que perguntar à razão se era o certo a fazer. Não queria estragar o tão pouco tempo que já tinha com Fernanda com movimentos errôneos da sua parte.
— Onde estamos? Que casa é essa? — perguntou Fernanda franzindo a testa para a lamparina. — Quando eu desmaiei, estávamos na estrada.
— Di a achou. É um bom lugar para ficarmos se não fosse o parque florestal. Matamos alguns walkers agora a pouco.
Fernanda se assustou um pouco, e Kaori se arrependeu ter dito aquilo tão levianamente. Claro, estava acostumada em matar zumbis antes do café da manhã ou na madrugada dentro de uma floresta, porém Fernanda tinha acabado de chegar àquele mundo. Para ela ainda era tudo muito novo, muito assustador.
Kaori se perguntou quanto tempo aquilo duraria.
— Seria bom se fôssemos embora por agora — disse ela, tentando esconder a tensão crescente. — Vai demorar um pouco para Cory colocar tudo de volta ao carro, mas antes do dia amanhecer estamos de novo na estrada.
Kaori olhou para Fernanda, que continuava com aquela expressão em pânico, se tornando comum a ela, provavelmente se perguntando como Kaori aprendera a pensar rápido daquela maneira. Ela deu um sorriso e abaixou os olhos, surpreendendo-se o quanto um tênis pode se tornar interessante quando se está num momento constrangedor.
— Kaori... — Fernanda pronunciou o nome com cuidado, chegando perto à garota. — Eu posso te perguntar qualquer coisa, certo?
Ela levantou os olhos e se deparou com o rosto de Fernanda muito próximo ao seu. Pigarreou assustada, sentindo as bochechas corarem fortemente, e se afastou alguns centímetros, encostando-se na beirada da cama.
— Hum, claro que sim... — ela disse entre gaguejos, inquieta.
— Como era... — Fernanda parou por um segundo, voltando a mexer nos lençóis nervosamente — Como era nossa, hm, relação antes disso tudo? Nós éramos amigas?
Fernanda encarou Kaori com olhos pedintes. Toda a força que tinha ganhado por ver a garota que amava de pé novamente pareceu se esvair. Ela engoliu em seco. Poderia mentir. Contar que eram namoradas, que viviam juntas e que ela tinha dado o bolo em Ana há muito tempo. Era um plano ótimo, ajudaria muito seus sentimentos complicados naquele momento.
Porém, não era o certo. A razão mais uma vez estava lhe deixando maluca. Estava correta — de novo. Não poderia falar aquilo para Fernanda, seria horrível. Mentir para a pessoa que ama, era tão... Kaori. A antiga Kaori, que levava sempre suas necessidades em primeiro lugar. Ela não era mais dessa forma. Para que pudesse ganhar de novo a confiança de Fernanda, teria que bancar a franca o quanto tempo fosse necessário.
— Éramos... — respondeu lentamente, escolhendo as palavras. — Mais ou menos. — Kaori desistiu de subestimar a grande conexão que tinha com a loira ao vê-la encarando-a com curiosidade e um meio sorriso no rosto. — Na verdade, nós éramos melhores amigas. Do tipo, melhores. A gente brigava muito, é claro, em parte por que você nunca concordou que Star Wars era melhor que O Senhor dos Anéis, mas nós nos arranjávamos.
A mão de Kaori ficou quente quando a de Fernanda apertou-a. Seus dedos transmitiam entre si carinho e ternura. Ela não queria quebrar o silêncio — parecia que ele sempre era seu ajudante, e também seu pior inimigo, quando o assunto se tornava Fernanda. Por isso, apenas deu um suspiro fraco enquanto sentia a mente ficar admiravelmente mais leve.
Fernanda voltara. Estava viva, ao seu lado, de mãos dadas com ela e fazendo perguntas sobre como era a vida delas antes do apocalipse. Tentou memorizar cada segundo, cada sentimento que passou por sua cabeça, cada expressão que chegava ao rosto de Fernanda. Assim como fizera meses antes de ela ficar em coma.
Mas, daquela vez, tinha certeza de que a loira ficaria com ela.
***
— Finny? — chamou Carol pela vigésima vez.
O garoto forçou-se muito para voltar a terra. Ele piscou algumas vezes e sorriu fracamente para a namorada.
— Não conseguiu dormir, foi? — ela adivinhou.
— Estou preocupado, não posso fazer nada contra isso — disse Finny emburrado. — Eles não mandam um sinal há mais de dez horas. Alguma coisa aconteceu.
Ele não queria admitir para si o pior, mas começava a pensar na possibilidade. Cory com o grupo haviam saído de Lima há dois dias, e embora a viagem não fosse a mais agradável do mundo, eles deveriam ter chegado às proximidades de Nashville duas ou três horas antes. Perder mais pessoas não era algo bom para ele.
Sua família se resumia à Carol e aos garotos que o seguiram fielmente durante o caos que se instaurava: Matheus, Vitoria e Laura. Era estranho pensar que os companheiros na mesma idade que ele o haviam consagrado como um pai, mas agora ele teria de enfrentar as conseqüências.
Protegia-os. Cuidava de cada um como se fosse parte da grande família que perdera. Sentia falta de seu irmão e pais como qualquer outro ali naquela fazenda no meio do nada, porém aprendera a superar a dor. Tinha outros objetivos, outros rumos, e muitos deles consistiam em trazer Kaori e o resto dos sobreviventes do grupo dele para a fazenda.
— Finny, relaxe — tentou acalmar Carol, virando-o para seu lado e dando-lhe um selinho. — Você conhece Cory e Di, eles devem ter parado para, sei lá, verem cachorrinhos bonitinhos. E Kaori, poxa, ela é a Kaori, por favor!
— Gabriel! — exclamou Finny de supetão, sentando-se na cama. Ele olhou para Finny com pavor no rosto. — Nós esquecemos Gabriel! Puta merda, ele tá com a Naya e o filho dele! E se...?
Carol fechou os olhos e se deixou cair na cama, bufando. Finny continuou alterado por causa da grande informação que lhe escapara. Esquecera de informar a Gabriel aonde iam! Que idiota fora, Gabriel rodaria todos os Estados Unidos à procura da grande propriedade de terra em que moravam e jamais a encontraria.
— Idiota — Finny se xingou, batendo a mão na testa fortemente, o que fez Carol perceber o que o garoto estava fazendo e pará-lo. — Perdemos Gabriel, é isso. Perdemos.
— Finny... — Carol arriscou novamente acalmar o namorado com uma voz suave. — Ele tem um rádio-comunicador, nós temos um rádio-comunicador, Kaori tem um rádio-comunicador. Eles não estão perdidos, ok? Estão viajando também, talvez tenham chegado ao ponto onde Kaori e Cory provavelmente estão dormindo agora.
Do lado de fora, um galo cantou. Finny percebeu que os primeiros raios de sol já saíam e tentou, finalmente, se tranqüilizar. Assim que o dia amanhecesse, decidiu, tentaria contato com os dois que ainda estavam na estrada. Não poderia deixá-los por aí. Cuidaria deles, como um bom líder faria.
Ele voltou a deitar-se, dessa vez, mais sossegado para tirar uma soneca antes recomeçar o trabalho que era cuidar de toda uma fazenda.
***
— Cory, você tinha mesmo que trazer todos os nossos suprimentos aqui para dentro? — reclamou Kaori em voz alta, carregando uma enorme caixa lotada de alimentos não perecíveis para fora da casa.
— Ah desculpa, você queria que eles fossem roubados no meio da noite por walkers? — retrucou Cory num tom homicida escondido por uma expressão sorridente. — Ou, quem sabe, por seres humanos?
Kaori parou no meio da escadinha em frente à porta de entrada, barrando a saída de Cory, para encará-lo com raiva. Di, atrás do namorado, ria silenciosamente da cena.
Era sempre assim. Seja numa pequena festa na casa de Kaori ou na escola durante os intervalos, eles não passavam um minuto sem brigar. Di achava engraçado por que eles jamais tinham admitido se amar, porém sabia que Kaori e Cory eram unha e carne, nunca deixariam abandonaria um ao outro.
O Sol começava a despontar no horizonte, e Kaori dizia que havia perdido tempo demais “tirando cochilos ou comendo”. Finny deveria estar morto de preocupação e não descansaria Carol ou qualquer um dos outros garotos lá até que elas não chegassem.
Cory, por outro lado, discordara e queria esperar por Gabriel. Sem ter nenhum contato com o garoto durante o resto do dia anterior, ele queria ter certeza de que ele e as duas estavam vem. Faltava atravessar um estado e meio, e Di não sabia realmente o que pensar ali.
— Cala a boca, idiota — retrucou Kaori de mal humor. Ela deu um empurrão em Cory, que agora ria descontroladamente. — E fica quieto, temos que ir embora.
Fernanda, que comia uma tigela de cereal seco em silêncio, sentada no balcão da cozinha, olhou para Di em total estranhamento. A ruiva riu e largou a caixa de remédios nos braços de Cory e foi sentar-se ao lado dela.
— Eles sempre são assim? — perguntou confidencialmente. Seus olhos mudavam rápido de direção entre Cory e Kaori, que agora brincavam com seus facões como se a briga de antes jamais tivesse acontecido.
— Acredite, quando estávamos todos juntos, era bem pior — disse Di tranquila, pegando uma colher e dividindo o cereal de Fernanda. — Cory queria ser o líder, porém Kaori tem mais faro pra isso e ela simplesmente não aceitava. Era um saco.
Di lembrou-se dos momentos de tensão na casa em que compartilhavam; a primeira vez em que ficou realmente preocupada com a relação da dupla. A raiva na troca de olhares entre ambos era horrível de se assistir, principalmente por ela, que passara boa parte da infância e da adolescência com eles.
Achava que, como vira pessoas que conhecia e ela própria mudar de forma drástica durante o início do apocalipse, Kaori e Cory também mudariam, só que para pior, devido ao grande retrospecto dos dois em serem considerados como seriais killers. Felizmente, com o passar do tempo, seu namorado fora aprendendo a respeitar a liderança de Kaori e aceitar que não tinha a aura tão poderosa quanto à dela.
Fernanda encarava Di, curiosa. Terminava a tigela de cereal calmamente, sem se importar que a garota tivesse comido também, observando tanto a ruiva que ela começou a se sentir desconfortável.
— Você mudou — disse Fernanda após uns minutos.
Di levantou a sobrancelha. O truque que somente Kaori sabia fazer havia passado para ela magicamente, talvez. Fora muito útil durante as invasões a prédios e mercados: as pessoas simplesmente lhe davam o que ela pedia. Suspeitava que a arma em sua cintura ajudasse, mas ela preferia confiar nas suas capacidades.
— Mudei? — Di devolveu a pergunta, fazendo Fernanda corar instantaneamente e enfiar a cara de volta à tigela de cereal quase vazia.
— É... — Fernanda se engasgou com as últimas colheradas, ainda observando atentamente a vasilha. —Você tá... Sei lá, tá mais madura e seria.
Di deu um meio sorriso. Todos tinham reparado na sua mudança repentina quando todo aquele inferno começou. A habilidade com armas, o extenso conhecimento sobre zumbis e sobreviver durante um apocalipse, todo mundo notava aquilo. Porém poucos (o que significa Cory e Kaori) estavam se sentindo acostumados com isso para tornar oficial que Di tinha mudado.
Ela se perguntou se essa era a razão de Fernanda estar com elas.
— Valeu — respondeu Di, dando uns tapinhas nas costas de Fernanda, ignorando sua careta de dor.
— Ei, suas lerdas! — Di ouviu o grito característico de Kaori na porta de entrada da casa com sua expressão conhecida de puro desprezo. Ficou feliz por isso: a Kaori que conhecia estava voltando a ela. — Vamos logo! O Rei do mundo que se acha mais que a pessoa mais gostosa do universo está esperado.
Di riu ao escutar os xingamentos que Cory estava gritando de dentro do carro. Ela pegou a colher e a tigela em que Fernanda comera o cereal seco e as deixou na pia (elas pertenciam a casa) e puxou a mão dela para que saíssem logo dali e entrassem no carro, para que partissem de novo para a estrada.
***
— Ei, aqui é o Finny.
Fernanda reconheceu a voz no mesmo instante em que ela ressoou pelo carro. Ela levantou a cabeça do colo de Kaori, chegando a poucos centímetros de seu rosto, e corou fortemente, se afastando o quanto podia da garota.
— Oi, Finny — cumprimentou Kaori, ignorando o movimento brusco de Fernanda e puxando o rádio-comunicador para mais perto do volante enquanto dirigia. — Tudo beleza?
— Não! — respondeu o garoto parecendo indignado. Ela franziu a testa para Kaori, que respondeu com um olhar confuso. Di e Cory, no banco de trás, pararam contar piadas antigas um para o outro para prestarem atenção na conversa. — Vocês somem da face da Terra pela porra de uma noite e espera que tudo esteja bem?! Claro que não está!
— Nós estamos bem, não se preocupe! — gritou Cory rolando os olhos, entediado. — Paramos por causa de...
Ele e Kaori trocaram olhares pelo retrovisor, discutindo algo que Fernanda não sabia o que era silenciosamente. Finny continuou a gritar no rádio-comunicador, desvairado.
— E vocês se lembram do Gabriel?! Como poderiam deixá-lo na porra daquela cidade infestada de zumbis?! Ele está com as duas lá!
— Por favor, Finny, se acalme! — exclamou Kaori irritada, sendo obrigada a parar o carro no acostamento para lidar com os problemas do garoto. — Primeiro, nós não esquecemos Gabriel. Ele está a caminho, como nós. Segundo, paramos por que tivemos uma baita emergência, não podíamos continuar na estrada até hoje. Voltamos, estamos bem, e chegamos perto de Nashville em poucas horas, entendeu?
Fernanda ouviu Finny respirar fundo rente ao comunicador, tentando se acalmar. Perguntou-se por que Kaori resolvera não comentar que ela estava viajando com elas. Considerava que estava bem, apesar das dores constantes nas costas, mas não achava que pudesse desmaiar ou ter um pequeno coma durante a viagem ou até mesmo na fazenda que Finny arranjara. O que teria que fazer era tomar os remédios que Kaori roubara no hospital e estaria ótima como antes.
Ela esperava.
— Finny! — Uma voz gritou do outro lado. Fernanda quase engasgou de felicidade: parecia-se com Carol. Kaori lhe falara que ela estava com Finny, mas ouvi-la era algo completamente diferente. Dava novas esperanças, informava que não eram somente elas naquele mundo. — Pare de gritar com o grupo, eu disse a você que estavam no caminho!
Di e Cory se entreolharam, caindo na risada. Kaori riu também e até Fernanda esboçou um sorriso. No meio daquele inferno, era bom achar coisas idiotas para dar risada.
— Parece que achamos nossa mamãe — murmurou Cory após Finny ter desligado o rádio-comunicador para voltar a cuidar da fazenda. Ele tinha lágrimas nos olhos e seus ombros ainda sacudiam da tantas risadas. Di, ao lado dele, parara de rir e tentava acudi-lo.
— Melhor que nada, eles têm mesmo faro para isso — retrucou Kaori, ficando séria novamente e colocando o carro na estrada outra vez. — Lembra-se da nossa casa? Eles mandaram ali depois que professores morreram.
Fernanda ficou quieta. Tentava se acostumar com Kaori discutindo as mortes das pessoas que gostava com tanta tranqüilidade, porém era difícil. Suas lembranças ainda eram dos professores.
Talvez tenha sido por isso que Kaori não comentara muito sobre o período sombrio que haviam passado antes de ela acordar. Talvez ela quisesse que suas memórias fossem as mesmas, que não precisasse se corromper mais do que deveria no mundo em que estavam. De alguma forma, Fernanda estava agradecida.
No entanto, observar Kaori, Cory e Di falando de coisas que não fazia ideia do que era a deixava com um pouco de inveja. Não que quisesse estar ali, no apocalipse zumbi, Fernanda queria apenas saber do que eles estavam falando, compartilhar as lembranças que eles tinham; ser útil de alguma maneira para eles. Naquele momento, ela se sentia como um grande saco que só trazia problemas.
Obrigara Kaori a parar no hospital para resgatá-la. Sequer sabia o que tinha lhe acontecido para estar na maca. Queria perguntar sobre seu mundinho destruído, mas tinha medo das respostas. Sentia dores em todos os lugares do corpo, e isso causara uma noite de atraso porque ela desmaiara por horas.
Fernanda sabia que as intenções de Kaori eram boas ao tirá-la daquele fim de mundo, no entanto ela nunca quis tanto estar em coma. Não poderia com aquele mundo, simplesmente não podia. Era informação demais, coisas demais para aturar em um único dia. Sua vida jamais seria a mesma, ela preferia ficar trancada num quarto de hospital até que tudo ficasse bem outra vez.
Seu olhar e o de Kaori se encontraram.
A garota deu um meio sorriso tímido e voltou seus olhos para a estrada. Fernanda não saberia dizer porque mais tarde, mas algo havia mudado na sua percepção do apocalipse. O sorriso que Kaori lhe dera não mudara muita coisa, os dentes perfeitos e boca bem delineada continuavam lá. O olhar cheio de dor e esperança que ela costumava captar antes do coma, tempos antes, ainda era o mesmo.
Então por que, de repente, Fernanda achava tudo mais bonito?
Sempre a admirara Kaori. Ela era perfeita, sem discussões. Às vezes ela pensava que era a única a ver a dor que perpassava nos olhos de Kaori quase que constantemente. Fernanda admirava Kaori porque ela jamais falava sobre seus problemas. Sempre mantinha um sorriso no rosto porque era aquilo que sua família esperava.
A invasão zumbi podia significar o fim do mundo para muitos, no entanto, para Kaori, Fernanda percebeu, era somente um recomeço. Ela perdera algumas pessoas especiais, mas era sempre assim em sua vida. Eles iam e vinham. E ali, na sociedade nova e assustadora que crescia, Kaori poderia ser ela mesma.
O complicado para Fernanda era saber o que Kaori era de verdade.
— Uou — assoviou Kaori impressionada, sobressaltando Fernanda. Pensara, por um segundo, que a garota lera todos os seus pensamentos, mas ela acompanhou os olhos dela fixos em frente, ficando também surpresa.
Kaori parara de dirigir o carro não porque queria, e sim porque, poucos quilômetros à frente, se erguia um engarrafamento enorme. Rachel via carros saindo fumaça, outros se dirigindo sozinhos e a maioria dele abandonada. Não encontrou pessoas nem walkers à vista.
— Di... — chamou Kaori. Era impressão de Fernanda ou ela notara um tom medroso na voz da garota por baixo de toda a coragem que ela tentava transmitir?
— Sem opções — informou Di checando o GPS e o mapa. Fernanda franziu a testa, imaginando por que o GPS ainda funcionava se a transmissão fora cortada dias antes. — Vamos ter que remover os carros para passar.
— Que bom, porque eu estava mesmo pensando quando usaria minhas habilidades de fazer carros levitar — disse Cory, sarcástico. Fernanda também percebeu o temor por baixo de sua voz.
— E como vamos removê-los? — indagou Fernanda. Ela assustou ao perceber que sua voz permanecia calma. — Somos três garotas, e uma delas está inválida e apenas um menino.
Ela queria ajudar, queria muito, porém a dor nas costas era mais forte que qualquer pretensão que teria dali pra frente. O que fez Fernanda pensar mais uma vez na possibilidade de ter ficado no hospital.
— Vamos tirá-los com as mãos — disse Kaori decidida, pegando seu facão e abrindo a porta do carro. — Não participei três anos nas Cheerios para ficar subindo em cima das meninas na pirâmide.
— Puxa, adoro quando você fala frases com duplo sentido sem ao menos perceber — comentou Cory, rindo automaticamente. Ele também pegou sua arma e saiu do carro.
Fernanda e Di se entreolharam pelo retrovisor, as expressões confusas. Kaori e Cory eram os fodas dali, mas elas não podiam ficar no carro por muito tempo sem ter uma arma. Di já havia usado bastante armas, Fernanda não achava que ela era boa com armas. O tiro que ela dera num zumbi no outro dia fora demais, porém pensava que era apenas sorte.
— Ei, vocês vão ficar aí? — indagou Cory irritado. Ele abriu a porta de trás do carro e puxou Di para perto dele e lhe entregando um machado.
Kaori apareceu no vidro aberto do banco do passageiro, fazendo Fernanda dar um gritinho assustado. Depois do susto, as duas riram brevemente, e Kaori ofereceu a Fernanda uma pequena faca de prata. Abriu a porta do carro e pediu para que ela descesse.
— O quê? — Fernanda olhou para a faquinha e depois para Kaori. — Você quer que eu mate zumbis, é isso?
— Não quero que você fique aqui no carro — respondeu a outra, preocupada. — Precisa ficar perto de mim, onde eu possa te ver. Vai saber quantos carros tem aqui. Isso aí — ela apontou para a faca — é apenas uma precaução.
Fernanda acenou em concordância, desejando que suas bochechas parassem que corar. Mordeu o lábio e olhou rapidamente para Kaori. Ela tinha seu costumeiro olhar superior, simplesmente porque parara de prestar atenção em Fernanda e observava o horizonte.
A loira saiu do carro e bateu a porta, reparando nos pequenos detalhes da faca. O cabo era de couro vermelho e macio; a prata reluzia tanto que o sol da manhã era mais brilhante que o de meio-dia. Havia uma minúscula inscrição na prata, talvez em latim, que Fernanda não conseguiu ler. Ela olhou para Kaori, que saíra com Di entre os carros, e imaginou se poderia perguntá-la o que era assim que voltasse a estrada.
— Está escrito “My Lady, My Beautiful”. — Cory se aproximou de Fernanda ao ver o que ela estava admirando. — Era da mãe de Kaori. Um presente do pai dela.
Ela assentiu, ainda com os olhos da lâmina da faca. Ela perdera praticamente todas as aulas de latim durante os primeiros anos de ensino médio — a maioria das vezes porque não conseguia falar o idioma morto sem enrolar a língua completamente. Contudo, em algum lugar dentro da sua cabeça confusa, olhar para a inscrição na faca trazia algumas lembranças.
— Kaori ensinou latim para você, sabia? — disse Cory para quebrar o silêncio, sentando no capô do carro com os olhos grudados onde Di e Kaori empurravam o primeiro carro para longe da pista. — Não por obrigação ou coisa do tipo, e sim por que ela gostava. Fazia ela feliz.
Fernanda queria pedir para Cory parar, mas a perspectiva do garoto mais irritante que já conhecera estar sendo legal, dizendo a ela o que acontecera durante grande parte do ano anterior que sumira de sua cabeça era curioso.
Então tomava aulas de latim com Kaori. Interessante. Odiava a matéria e Kaori provavelmente a ajudara a pelo menos suportá-la. Por um momento, pôde vê-las em seu antigo quarto, rindo e brincando, os materiais esquecidos há muito na escrivaninha. Ela esboçou um sorriso. Algo lhe dizia que não era imaginação o que tinha acabado de pensar.
— Ei! — gritou Kaori se aproximando, pingando de suor. Fernanda acordou de seus devaneios, suspirando ao ver Kaori limpando a testa suada, sua camiseta curta dos Beatles erguendo alguns centímetros e deixando à mostra seu abdômen. — Cory, nós precisamos de você! Fêr...
A tensão cresceu. Estavam a poucos metros de distância uma da outra, Kaori vinha ganhando espaço rápido com seus passos largos. Fernanda ouviu Cory dar uma risadinha irônica à reação delas enquanto ia se juntar à Di. Não se importou. Kaori manteve distância, mas ela via nos olhos da garota um brilho que jamais tinha visto.
— Fique perto de mim — pediu num sussurro sorrindo para a loira.
E, havia como discordar?
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