In The Hell
3 in the hell 3
— Di, pare o carro! — gritou Kaori desesperada, segurando o corpo imóvel de Fernanda nos braços.
Não, pensava. Não, por favor, não. Não por uma terceira vez. Estava cansada de carregar a loira, de vê-la desacorda, de causar a maioria daqueles desmaios. Não, por favor. Fernanda havia aguentado tanto tempo, ela não poderia simplesmente cair morta no banco de trás do carro de seu avô.
— Não podemos! — exclamou Di, arriscando um olhar à Kaori e Fernanda. — Estamos entrando no meio do parque florestal! Pode haver walkers por aqui!
— Da mesma forma que pode haver médicos ou alguém para ajudá-la! — Kaori gritou desvairadamente. — PARE O CARRO, PORRA!
Di pareceu notar que seria inútil discutir com aquela menina. Engoliu em seco, olhando para Cory, que permanecia quieto em seu canto. Ela encostou o carro no acostamento da estrada, um tanto irritada.
Kaori não esperou que o carro parasse por completo: desceu desesperada com Fernanda em seu colo, sem se importar em olhar ao redor ou com a segurança delas. Ela encostou o corpo da loira no asfalto e admirou por poucos segundos a expressão de pura dor que havia no rosto dela.
Não, ela não deixaria Fernanda morrer. Kaori tinha retirado ela do hospital para pudesse ter uma chance de viver, um novo recomeço, talvez até com ela. Não poderia deixar Fernanda morrer, simplesmente não podia. A garota fazia parte de seu passado, presente e futuro, não iria deixar nada acontecer com ela, jamais.
Controlando seus nervos, Kaori correu ao porta-malas do carro e pegou a mala lotada de remédios e seringas que roubara do hospital. Queria ajudar a menina, mas sua respiração parou ao perceber que não tinha idéia do que ela estava sentindo.
— Concentre-se — murmurou para si ao agachar-se novamente ao lado de Fernanda, desviando o olhar do rosto sofrido, e procurando algo na bolsa de remédios que ela sequer sabia o que era. — Vamos, concentre-se.
Fernanda estivera em coma por quatro meses. Quatro longos meses. Por causa do dia em que inventara de pendurar os pôsteres para a campanha de Finny à presidência do grêmio estudantil... Kaori sacudiu a cabeça, já com metade das caixas de remédios fora da bolsa. O que ela estava procurando, exatamente? O que ela queria?
A queda! A maldita queda de Fernanda por quase dez metros de altura causada por uma bola jogada sem rumo por um jogador idiota no campo de futebol! Fernanda quebrara uma das pernas, fraturara algumas costelas e quase tivera uma hemorragia interna. E o coma. Ela entrara em coma por causa do pôster de Finny.
Ela voltou a buscar dentro da bolsa, agora com um objetivo. Apenas esperava que o que tivera arranjado ali pudesse ser o suficiente para que Fernanda acordasse, e para que pelo menos pudesse cuidar dela até que tudo estivesse bem.
— Anjo, aguente aí, por favor! — ela disse à garota desacordada. Kaori conseguira encontrar um analgésico e já o inseria dentro de uma das seringas. Sabia que deveria ter alguma coisa para esterilizar o braço de Fernanda antes da agulhada, mas não havia tempo. Perdera minutos preciosos apenas tentando descobrir o que ela tinha.
Kaori ouviu Di exprimir um som que para ela significava nojo ou medo, mas não se importou. Ela respirou fundo e aplicou o medicamento na veia que ela magicamente achara no braço da loira com as mãos tremendo.
Não veio nenhuma reação por parte da garota desmaiada. Kaori passou a língua pelos lábios, se rendendo às lágrimas. Era cedo para um movimento, porém mais um minuto vendo Fernanda daquela maneira era tortura, a pior desde que ela entrara em coma. Ela não tinha certeza se a menina acordaria outra vez, se ela se lembraria de tudo que elas tinham passado durante o último verão, não sabia de nada que poderia acontecer com Fernanda. Quando acordasse, sequer poderia ser a Fernanda que ela tanto amava.
Então, muito lentamente, a expressão de Fernanda suavizou. Kaori, que permanecia observando seu rosto com as lágrimas rolando por suas bochechas interminavelmente, arqueou a sobrancelha para a melhora da garota, tentando não ficar exatamente animada em relação a isso. Poderia ter diminuído a dor que Fernanda sentia do lado de fora, no entanto ela não sabia o que estava acontecendo por dentro dela.
Ela suspirou, se deixando cair ao lado de Fernanda. Só o tempo responderia se ela estaria bem ou não. E infelizmente, nenhuma delas tinha o tempo que precisavam.
***
*
— Oi... Fêr — Kaori disse timidamente, sobressaltando a loira que sentava na varanda de casa. — Tudo bem?
— Kaori... — Fernanda murmurou, franzindo a testa num jeito muito fofo que fez a outra suspirar. No entanto, Kaori manteve a pose e sorriu convidativa. — Estou ótima. O que está fazendo aqui?
Ela dizia aquilo como se esperasse que as garotas das Cheerios saíssem de trás das árvores e começassem a tacar frutas podres nela, e Kaori não podia culpá-la. Tratara Fernanda um pouco nos últimos anos, chamando-a de apelidos idiotas e fazendo pegadinhas com ela.
Mas ela queria compensar de alguma forma. Seus sentimentos estavam confusos, porém tinha certeza de que algo havia mudado no seu jeito de olhar para a garota. Os olhos verdes de Fernanda não pareciam mais carregados de indignação e confiança cega; eram cheios de ternura e de uma gratidão que Kaori sabia que jamais conseguiria pagar.
Kaori gostava da sensação de poder ao ficar perto de Fernanda, de como sempre ela ficava tímida e contida, parecendo esperar algum acesso de loucura seu. Kaori achava fofa a reação dela. Com ela, era medo ou amor irremediável. Fernanda conseguia incrivelmente permanecer entre um meio-termo.
— E-eu... — Ela torceu as mãos, nervosa. Tinha ensaiado aquilo tanto na frente do espelho do banheiro... Por que era tão difícil chegar perto de Fernanda e se desculpar por tudo que havia feito a ela e que queria uma amizade? — Estava pensando se...
Fernanda lhe lançou um de seus olhares curiosos ao deitar a cabeça sobre o ombro. Tinha um meio sorriso no rosto, como se adivinhasse o que Kaori estava fazendo na porta da sua casa durante um dos verões mais quentes da pequena cidade quando sabia que a garota tinha coisas muito melhores para fazer. Kaori baixou os olhos e riu com seus próprios pés.
— Quer assistir maratona de Star Wars comigo? — perguntou Kaori num suspiro só fazendo Fernanda rir do “desespero” da garota. Ela olhou para a garota, pronta para ir embora e passar o resto do dia se xingando por ser tão idiota.
— Que gosto surpreendente é esse por Star Wars? — questionou Fernanda ainda rindo. — Pensei que curtisse somente filmes sobre ficção científica, terror e coisas mais bizarras que essas.
Kaori fez uma cara ofendida. Poderia gostar de Fernanda, mas aquilo tudo acabaria num piscar de olhos se ela atacasse mais uma vez seu belo gosto para filmes, games e músicas.
— A aula de filosofia foi inspiradora — admitiu Kaori, se sentindo meio boba por continuar parada na varanda da casa de Fernanda sem fazer nenhum movimento além de balançar os braços nervosamente. — O professor animado falando sobre as vantagens de ser um Sith, e você discutindo com ele sobre as desvantagens e ele te desafiando para uma guerra, aquilo realmente me inspirou. – as duas riram.
Fernanda acenou com a cabeça para o assento livre ao lado dela, e Kaori logo se sentou. A dona da casa começou a falar e falar sobre os seus gostos de filmes e suas series favoritas, porém Kaori queria discordar com a loira algumas vezes, mas preferiu permanecer em silêncio. Estava ocupada demais com um sorriso tolo no rosto enquanto observava o quão adorável a loira era.
***
Cory poderia dizer às outras pessoas que nenhuma das experiências daquele dia tinha sido doloridas. Poderia responder a Finny com um sorriso irônico se ele perguntasse sobre como tinha sido matar os walkers das amigas naquela estradinha assombrada, poderia até tranquilizá-los de que tudo era menos sofrível se eles vissem aquilo como apenas um ensaio de tudo que viria pela frente.
Como ele queria também se convencer disso.
Entretanto, de longe, nenhuma daquelas lembranças doía mais à mente de Cory do que ver Kaori ajoelhada ao lado do corpo praticamente sem vida de Fernanda. A inércia que acontecia ali era significantemente não tolerada por ela. Cory odiava ser obrigado a ver Kaori naquele estado e não poder fazer nada para ajudar. Não era seu estilo ficar parado esperando.
— Amor, vem aqui.
O sussurro de Di lhe chamou a atenção, e Cory por fim pôde desviar os olhos da cena deprimente que sua amiga fazia parte. Di estava perto da mata que dava entrada ao parque florestal. O garoto levantou a sobrancelha para a namorada, se perguntando por que não notara que ela sumira por aparentemente muitos minutos.
— Di, o que foi? — indagou num murmúrio temeroso, pegando a mão de Di por impulso e olhando acima do ombro dela. — Onde você estava?!
— Dentro do parque. Escuta — ela disse, pois Cory ameaçou começar a gritar palavrões, apavorado —, tem uma casa há mais ou menos um quilômetro daqui. Podemos pegar o carro e ir para lá, não vi ninguém ou nenhum zumbi por perto.
Cory ficou quieto e considerou a idéia. Seria temporário, é claro, tinham que se encontrar com Finny em algum lugar próximo a Nashville, mas por um ou dois dias até Fernanda se recuperar seria ótimo. E também poderiam esperar Gabriel ali mesmo. Ele duvidava que precisassem convencer Kaori nessa, a garota estava tão desolada e sem opções que concordaria numa boa.
— Beleza. Você avisa a Kaori. Eu pego a Fernanda e coloco ela no carro. — Ele ficou encarando o rosto perfeito de Di por longos segundos até depositar um selinho fraco nos lábios dela. — Eu te amo.
Ele sabia que não precisava ficar se declarando a cada cinco segundos, mas o fim do mundo havia aberto ainda mais seus olhos. Cada tempo que passava com Di era mais precioso do que antigamente, e nada dele poderia ser jogado fora.
Cory engoliu em seco e voltou para perto da porta de trás do carro. Kaori continuava ali parada ao lado de Fernanda, e então pôde notar que a face da garota desmaiada se aliviara um pouco. Kaori conferia sua pulsação, suas lágrimas pingando involuntariamente no braço da loira.
Di fechou os olhos e tentou não chorar, não suportava ver a menina tão vulnerável. Assim como Kaori se manteve forte algumas horas antes para todos, Cory e Di tinham que se manter fortes para a garota.
— Kaori... — Di se aproximou sorrateiramente, colocando a mão esquerda no ombro da garota numa demonstração de apoio que achou meio idiota. Um pequeno gesto não mostraria o tanto que ela amava Kaori e queria vê-la feliz. — Achei uma casa dentro do parque. Cama, chuveiro quente, sem ninguém ou walkers por perto... N-nós... Nós deveríamos ir para lá. Até Fernanda melhorar, quem sabe.
A não demonstração de sentimentos por parte de Kaori começava a perturbar Cory. Ela não poderia estar tão ruim por causa de uma garota, uma voz ficava dizendo em sua cabeça. Contudo, outra voz sempre rebatia, fazendo-o lembrar dos dias em que Di ficara seriamente doente e sua vida se tornara nada além de um espectro até que ela ficasse bem novamente.
Sabia que a segunda voz estava correta. Kaori amava Fernanda, ele tinha certeza daquilo desde o primeiro ano. Ver Fêr sofrer uma vez era ruim, mas para Kaori... Ela tinha visto o amor da sua vida cair de uma altura de dez metros sem poder fazer nada, perdera toda a esperança no mundo enquanto a visitava, voltara a ter o mínimo do brilho no olhar que tinha antes durante as poucas horas que Fernanda estava com eles, e agora tudo voltava à estaca zero...
Di, ao não ver nenhuma reação em Kaori, ergueu ela pelos ombros, dando espaço para que Cory pudesse carregar Fernanda de volta ao carro. Di sentou a garota no banco da frente entre ela e Cory, deixando Fernanda deitada atrás. Ela continuava sem se mexer.
— Di, por favor, nos leve a tal casa — pediu Kaori cansada.
***
A casa que Di tinha mencionado era algo apropriado depois de ter passado horas na estrada e enfrentado walkers para todos os lados. Cory sentia-se destruído, deitar numa cama confortável após tanto tempo não era um crime, era?
Começava a escurecer quando ele pôde finalmente experimentar os lençóis aconchegantes deixados para trás e a água quente do banheiro. Ainda se preocupava com Kaori e Fernanda — a primeira permanecia estranhamente quieta enquanto continuava não vendo nenhum avanço da segunda. Alguma coisa lhe dizia que Fernanda acordaria mais tarde, que na verdade era apenas Di lhe dizendo com um sorriso confiante no rosto, e era muito fácil acreditar nela.
— Kaori, nós tentamos fazer algo para comer — Cory disse ao entrar no quarto ao lado do seu, encontrando a amiga deitada de barriga para cima e olhos abertos encarando o teto. — Se você quiser, estamos na cozinha.
Kaori fez um som estranho que ele presumiu que fosse um sim. O quarto tinha duas camas de solteiro, e Fernanda ocupava a outra. Cory não queria que Kaori se sentisse solitária e até ofereceu para que ela colocasse a cama no quarto dele e da Di, que tinha uma cama de casal, mas a garota recusou. Cory engoliu em seco e saiu do quarto, fechando a porta em seguida. Ao sair, pôde jurar ter ouvido um fungado alto.
— Nada ainda? — indagou Di ao ouvir os passos do garoto perto da cozinha. Ela largara sua jaqueta jeans num dos banquinhos onde Cory agora se sentava e usava um avental que encontrara em um armário.
Cory sorriu involuntariamente, sabendo que o momento não pedira sorrisos, no entanto ele não se continha. Ver Di na cozinha de avental, numa casa de verdade — não uma naquela cidade minuscula que todos costumavam ter uma vida antes, e onde agora aquele inferno todo acontecia — no meio do nada, num silêncio profundo à luz de alguns lampiões era (quase) tudo que ele sonhara. Num lugar como aquele, confortável e com as pessoas que ele mais amava no mundo, só sentia falta de seu irmão ali com eles.
— Não. — Ele suspirou ao responder, retomando o assunto sobre Kaori e Fernanda. — Estou preocupado, Di. Quer dizer, se lembra de como Kaori ficou ao ver ela no hospital? E se ela tiver voltado ao...
— Ninguém volta ao estado de coma, Cory — falou Di séria, tirando sua atenção do fogão e olhando para o namorado. — É uma coisa óbvia, se você passou por isso, Deus não deixaria você passar outra vez.
— Por esses dias, ando duvidando muito mais do que já duvidava que esse tal de Deus exista e que Ele esteja sendo justo — murmurou Cory, super baixo só para ele ouvir.
Eles ficaram em silêncio até o macarrão instantâneo que Di preparava — a única coisa que eles sabiam fazer sem que Kaori lhes ensinasse — estivesse pronto. Di encontrara pratos e talheres de verdade durante a varredura pela casa e servia o macarrão neles.
Cory achava aquilo tudo estranho, mas não ousava comentar. Com Fernanda parecendo estar permanentemente desmaiada, Kaori em estado vegetativo pelo que aparentava ser para sempre, ele não queria acrescentar mais um problema à enorme lista que tinham.
A verdade é que achar uma casa no meio de um parque florestal durante um apocalipse era suspeito. As pessoas que moravam ali — o guarda-florestal e sua família, provavelmente — não poderiam ter ido muito longe. Estavam longe da civilização, eles não tinham encontrado nenhuma televisão durante a inspeção, apenas um rádio velho que Cory tinha certeza que não funcionava há anos.
Os alimentos que haviam encontrado nos armários demorariam tempos para vencer, o que significava que havia, sim, gente morando ali. Cory queria manter as esperanças altas, mas a percepção de ir dormir para acordar com a arma de um guarda na sua cabeça durante a madrugada não era nada boa.
— Cory, você tem que parar com isso — reclamou Di após ter terminado seu macarrão e levar o prato a pia.
— O quê? — disse o garoto sobressaltado. Seu prato de comida estava praticamente intocado, tamanha sua preocupação com todos ao seu redor.
Di apenas riu.
— Isso — ela disse como se explicasse o óbvio. — Ficar muito preocupado com tudo. Nós vamos ficar bem, enfie isso nessa cabeça dura sua.
Cory considerou. Das previsões que Di tinha feito para ele, a maioria tinha saído como verdadeira. Ele queria acreditar naquela também. Deu um sorrisinho contido, olhando para seu prato. Apressou-se a comer, temendo que esfriasse logo.
— Di, nós perdemos muito por esses dias — Cory falou enquanto a namorada o observava, com aquele olhar que nunca mudava apesar dos pesares. — Perdemos nossos pais, uma boa parte dos nossos amigos...
— Sim — sussurrou Di, triste.
— E muito mais. Você, Kaori e a Fêr são só o que eu tenho agora. Não quero perder vocês também. – Cory disse meio triste.
Ele desviou o olhar, fixando-o na janela escura atrás da pia que projetava sombras bruxuleantes dos dois. Di tentou conter as lágrimas, porque já estava segurando sua vontade de chorar faz tempo, desde quando havia visto Kaori triste segurando a pessoa, que ela sabia que a japonesa mais amava nos braços, totalmente desacordada. Ela viu aquele desespero que a sua “irmã” demonstrava e ela lembrou de quando a loira havia caído. Kaori perdeu toda a sua vontade de viver, ela estava vazia, Di sabia disso. Lembrava das noites que passava junto com ela enquanto a loira estava em coma, e tentava consolar a japonesa que apenas se entregava ao choro.
Ela respirou fundo e sentiu braços em seu redor, alguns minutos depois a ruiva se acalmou e deu um selinho no namorado em forma de agradecimento.
Di pegou suas mãos e o fez olhá-la. Os olhos dela faziam Cory pensar que estava mergulhando na mais profunda e pura tranquilidade que existe no mundo; trazia a ele uma estranha paz, uma gostosa sensação de sentir-se em casa.
— Cory, eu não vou deixar você. Eu sei que faço muitas promessas e essas coisas não podem ser levadas a sério hoje em dia, mas... — Di engoliu em seco, a voz falhando — nenhum de nós vai se perder, ok? Vamos ficar bem.
E como se fosse para concordar com tudo aquilo, selar o acordo feito entre eles, Cory se inclinou alguns centímetros para dar um beijo apaixonado na namorada.
***
Kaori estava morrendo.
Não literalmente, mas ela podia sentir seus órgãos parando. Seu corpo estava apenas funcionando para as funções vitais. Deveria estar morta de fome, pois não comia há horas, no entanto, a única coisa que sentia naquele momento era as batidas rápidas do seu coração.
Fernanda estava imóvel ao seu lado.
Ela ouvia o coração dela, também. Ligeiramente mais devagar que o seu, entretanto, mas felizmente batendo. Deveria dar pulos de alegria, porém quanto mais a respiração de Fernanda voltava ao normal, mais seu raciocínio ficava lento.
Não sabia se a loira iria acordar daquela vez, não sabia quanto tempo ela demoraria a acordar, não sabia de nada. E aquela incerteza que estava atingindo ela mais uma vez era o que começava a roubar suas forças, sua vontade de continuar vivendo.
Tinha que continuar, uma voz gritava em sua cabeça. Por aquele casal apaixonado bobo, que ela mais amava e que estavam dormindo no quarto ao lado com um pouco de paz depois de tanto tempo. Por seus amigos há mais de quatrocentos quilômetros de distância, esperando-a pacientemente. Tinha que seguir em frente, ela insistentemente gritava.
Então, Kaori ouviu Fernanda se mexer minimamente.
O que pensava sumia da sua mente. Não. Ela não poderia seguir sem ela. Mais do que seu amor não correspondido, ela prometera aos pais dela que faria tudo para que Fernanda — sua loira boba e perfeita — ficasse bem e em segurança. E Kaori não quebrava promessas. Talvez nos velhos tempos, mas não agora.
A noção da verdade pareceu dar um novo ânimo ao seu corpo. Sentiu-se mais enérgica. Como se alguma força mágica misteriosa lhe tivesse dado enormes pílulas de entusiasmo e coragem. Os músculos de seu rosto não corresponderam imediatamente, mas ela tentou estampar um sorriso — o único sorriso que costumava dar quando essa desgraça toda começou: o de Fernanda, para ela.
Um barulho varreu tudo de sua mente. Lembravam terrivelmente passos. Ela engoliu em seco, se levantando pela primeira vez desde que chegara. No escuro que estava o quarto, surpreendeu-se encontrar rápido o longo facão que carregava ao lado da pistola. Não poderia atirar naquele silêncio assustador, sempre atrairia mais walkers, ou qualquer seja a coisa que estava caminhando por ali durante a madrugada.
Mais passos. Kaori caminhou sorrateiramente para fora, quase batendo de frente com Cory, que abria a porta do quarto ao lado. Ela pôs o dedo indicador nos lábios, indicando que deveriam fazer silêncio. Cory revirou os olhos como se dissesse “Eu sei disso, idiota, vamos matar uns zumbis!”
Ele também estava carregado com seu facão. Cory reclamava que suas armas eram sempre potencialmente menos perigosas que as de Kaori, porém ninguém fez muitas perguntas quando ela arranjou para os dois aqueles facões. Tinham sido úteis para matar zumbis na calada da noite desde então.
Kaori descobriu que Di e Cory tinham trazido quase todo o equipamento de dentro do carro para a casa. Os mini-bares, a grande quantidade de comida que haviam trazido — a maioria macarrão instantâneo ou qualquer coisa que cozinhasse rápido; Kaori não era tão boa na cozinha quanto elas pensavam —, e até os isopores lotados de cereais, bolachas e doces em gerais. Seria uma boa idéia se eles não tivessem que sair correndo no meio da noite.
A dupla caminharam de forma silenciosa até a porta da frente. Kaori podia ouvir os gemidos, sussurros indefinidos dos zumbis que estavam ali. Se sua conta não estivesse muito ruim, teria apenas dois, o que não significava que não poderia haver mais. Seu olhar se encontrou com o de Cory e eles balançaram a cabeça num acordo mudo: iriam embora assim que pudessem.
Kaori passou a língua pelos lábios, pondo a mão na maçaneta, ainda olhando para Cory. Ele estava posicionado para o ataque, o facão descansando nervosamente em seu ombro. A outra mão de Kaori formigava, pedindo para que abrisse a porta logo.
Ela obedeceu a seus instintos.
Os walkers não eram nada além de mortos-vivos sem pernas que haviam conseguido rastejar até ali. Estavam subindo os pequenos degraus na entrada, e conseguiram avançar mais rápido ao ver a dupla perto deles.
Kaori olhou para um deles com nojo, tentando não imaginar que antes aquela carcaça meio viva e meio morta era um ser humano, talvez dono da casa que usavam, e chutou-o longe. Ela desceu a escadinha da porta de entrada com rapidez e mandou um golpe veloz na cabeça do zumbi, matando-o pela segunda vez.
Ela virou-se para Cory, vitoriosa. A garota tinha aquele sorriso esnobe tão característico de sua época de cheerleader, com o outro zumbi morto aos seus pés. Kaori piscou para ele, voltando para dentro antes que algo mais acontecesse.
— Cara, que zumbis toscos — riu Cory em voz baixa, assim que trancou a porta da frente ao deixar Kaori entrar. — Nós nem precisávamos ter nos preocupado.
— Ah, fique quieto, eles poderiam ter nos causado um problema que faria nossas pernas tremerem — comentou Kaori de forma infame, rindo também.
Ela depositou o facão cheio de sangue de zumbi no balcão da pia. Cory soltou uma gargalhada, ainda em sussurros. Eles ficaram se encarando por um tempo, rindo da forma mais silenciosa que podiam.
Kaori mal sabia o que tinha acontecido ali. Minutos antes podia sentir seu coração diminuindo rapidamente suas batidas conforme sua decisão de ir embora e deixar Fernanda se tornavam quase reais. Então, estava rindo aos montes com Cory depois de ter matado walkers pernetas. Ela não entendia, porém gostava. Em algum lugar de seu coração acelerado outra vez, sentia que ela e Fernanda estavam ligadas, como um grande transmissor de emoções humanas.
— Onde estavam? — Di irrompeu pela cozinha, usando um roupão rosa quase tão brilhante quanto à prata do facão das outras. Kaori olhou com ar de riso para Cory, que tinha sua total atenção voltada à lamparina.
— Matando walkers, desculpe — Cory respondeu, encarando o chão agora. Seus pés remexiam-se nervosos, e mais uma vez Kaori sentiu vontade de rir da cena. O que estava acontecendo com ela?
— Ah. — Di retraiu sua bronca por um segundo. Depois, se dirigiu à Kaori, séria: — Fernanda acordou.
Fale com o autor