In The Hell
2 in the hell 2
*Flashback*
— Fêr, você tem certeza disso? — perguntou Kaori lá de baixo, olhando preocupada para a amiga, que subia lentamente os degraus da escada. — É muito alto!
Fernanda olhou para baixo e sorriu radiante, continuando a subir. Geralmente tinha medo de altura ou qualquer coisa que envolvesse escadas, mas aquilo era importante. O pôster gigante dela para a campanha de Finny à presidência do grêmio estudantil com certeza arrancaria votos da maioria dos jogadores de futebol.
Era uma estratégia de marketing estar ali, durante o treino dos garotos, para colocar a faixa no prédio alto do colégio. Alguns haviam parado para observar, e depois serem gritados pelo treinador para continuar o serviço. A primeira parte do pôster já tinha sido colocada, faltava apenas ajeitar o lado esquerdo e tudo estaria pronto.
— Fêr... — ela ouviu Kaori gemer, o tom medroso da voz da garota a fazendo rir. Sua amizade com Kaori tinha começado de forma estranha no verão, mas Fernanda não discutia. Kaori praticamente fazia tudo o que ela pedia. — Por favor, desce daí logo!
Kaori bufou, começando a se arrepender de ter deixado Fernanda se apoderar da escada do zelador para colocar aquele cartaz gigante idiota. Suas mãos tremiam ao segurar a madeira do objeto, esperando que isso não fosse afetar a confiança da loira a quase dez metros de altura.
Fernanda encaixou a última parte do pôster no prego posto antes pelo zelador da McKinley e virou-se para dar um sorriso vitorioso à Kaori. A garota, apesar de todo o medo e revolta por ter a sensação de que algo poderia dar terrivelmente errado, não deixou de sorrir também.
Fernanda era maravilhosa, Kaori se alegrava por ter uma amizade com ela. Claro, suas intenções eram outras quando apareceu na varanda da casa dela no começo do verão para pedir algumas dicas de musicais, mas estava contente por ser amiga dela.
Então, o mundo de Kaori parou por um segundo.
Ela não viu a bola de futebol voando alto por ela, não ouviu o grito desesperado de algum jogador idiota de futebol americano. Só entendeu o que estava acontecendo quando seu instinto a tirou do caminho ao ver Fernanda caindo em câmera lenta em sua direção.
O baque surdo do corpo de Fernanda ao cair na grama despertou Kaori. Ela também estava deitada no chão, mas não hesitou nenhum segundo ao levantar-se e correr para a garota que amava.
As pernas de Fernanda formavam um ângulo estranho. Ela estava desacordada, e Kaori caiu no gramado ao lado dela, sem saber o que fazer, sem saber como afastar os jogadores curiosos, lançando olhares à Fernanda de pura pena.
— Ela não está morta, ela não está morta — Kaori se pegou repetindo enquanto sacudia veementemente o corpo imóvel de Fernanda na estúpida tentativa de acordá-la
— Kaori, deixe o treinador levá-la ao hospital! — exclamou alguém, Kaori reconheceu como Cory, seu amigo protetor de quase sempre. Mas não, ela sacudiu a cabeça em negação e tentava muito controlar as lágrimas. Ainda balançava Fernanda à procura de algum sinal de vida.
Ao contrário de Cory, o treinador não hesitou em tirá-la dali. Sentiu mãos fortes a pegando pelos ombros e jogando-a num outro corpo. Ela se debatia, se contorcia, tentado sair do abraço de urso do garoto ao ver o treinador levantar e ajeitar a loira no colo para levá-la ao hospital.
— Calma Kaori — sussurrou a voz grave de Cory em seu ouvido.
Mas Kaori não queria estar calma, Ana estava acompanhando a garota que amava e ela não podia ir com elas. Debateu-se mais uma vez no aperto de Cory, tentando se livrar dele para ir correndo atrás do treinador. Não, não podia deixar Fernanda morrer, não podia... Se aquilo acontecesse, seria culpa dela.
E então, ela sentiu seu mundo perdendo a graça e tudo ficando em preto em branco, seu mundo havia caído e ela não sabia mais o que fazer.
*
***
— Meu Deus, meu Deus — Kaori ouviu Fernanda murmurar, balançando para frente e para trás rapidamente, num ritmo contínuo.
Ela tentara confortar a garota, mas Fernanda se encolhera perto da janela, o mais longe possível dela. Queria perguntar o que estava acontecendo, mas a imagem ainda fresca na memória de Cory dando dois tiros certeiros em Diih e sua namorada explicava tudo.
Cory era tudo — trapaceiro, sem-vergonha, esquentado, idiota, ex-quarteback com mania de grandeza... —, mas não sentia pena, Kaori sabia disso. No entanto, ao observá-lo atirar nas duas antigas amigas com lágrimas escorrendo pelo rosto, ela mudou seus conceitos.
Nunca tinha visto o garoto daquela forma. Tinham se afastado pelo menos trinta quilômetros da pequena estrada e Cory ainda se sacudia no banco do carona, meio triste e distante. Di agora dirigia, com um olho na estrada e outro no namorado, acariciando seus cabelos e lhe dizendo palavras de consolo.
Mas Kaori sabia que não existia consolo para aquilo. Ela havia matado uma amiga também — embora não gostasse nada de Ana, a história que elas tinham era demais para ser ignorada —, já tinha sentido o que Cory estava passando naquele momento: a indignação de vê-las transformadas, o horroroso ato de atirar nelas e observá-las cair enquanto tem de correr pela própria vida, e mais tarde, onde a mente a leva a pensar que poderia ter dado certo se um pequeno erro atrás fosse corrigido.
Kaori queria confortar Cory, dizer que estivera na pele dele, quando lembrou que ele tinha passado por aquilo duas vezes, em menos de um mês. Como dormia na cama ao lado de Di na casa enorme em que se hospedavam, às vezes ela o ouvia chorando, tão baixinho que nem mesmo Di, dormindo abraçada à ele, escutava. No dia em que encontrara Santie e Gi na saída da cidade, Cory passou tenso a noite inteira, e tudo o que Kaori queria fazer era se juntar à vigília de Finny para não precisar ver o amigo sofrer tanto.
— Kaori...
Fernanda ergueu os olhos para ela. Estavam vermelhos e inchados. Quando a garota abriu a boca para responder, Fernanda prontamente se grudou no corpo dela, soluçando e tremendo.
Kaori não fez nada além de englobá-la em seus braços, fazendo sons que ouvia sua mãe imitar para ela quando criança. Eles a acalmavam durante a noite quando tinha seus pesadelos estranhos. Esperava realmente que tivesse o mesmo efeito em Fernanda.
Ela tentava não chorar, tentava permanecer forte para Fernanda, para Cory e Di porque era a verdadeira chefe ali, mas ter Fernanda em seus braços, tão machucada, tão sofrida, ainda doente por causa dos meses em coma, lhe causava uma dor imensa. Tinha que permanecer forte, uma voz dizia em sua cabeça.
Permaneça forte, Kaori.
— Di — chamou Kaori, impressionada por sua voz ter saído enérgica. — Acho que precisamos parar um pouco.
Di, que oferecia consolo à Cory, concordou. Ela andou mais alguns quilômetros até parar numa nova estradinha de terra, que, felizmente, não tinha nada além do carro e das três meninas e o menino. Kaori imediatamente saiu do carro com a pistola a tira colo e pegou as chaves com Di para abrir o porta-malas, tirando de lá quatro banquinhos de madeira e os colocando ao lado do carro.
Kaori carregou Fernanda até um deles e se agachou perto dela. Ofereceu um pouco de água, que também pegara do porta-malas, e tentou dar um sorriso. Doía ver ela assim, a garota cheia de sonhos e sorrisos que poderiam iluminar toda a cidade, daquela forma. Ela parecia aturdida, olhando para os lados como se esperasse que um zumbi fosse sair da mata que encobria a estradinha e atacá-la. Estava aterrorizada, e Kaori sinceramente não sabia o que fazer com aquele torpor que passava pela cabeça dela.
A poucos metros dela, Di conseguira algum sucesso com Cory. Ele estava rindo e bebia a garrafa de água num gole só. Mas, seu olhar estava tão confuso quanto o de Fernanda, e ele apenas perdeu o olhar distante quando Di lhe deu um selinho e o abraçou.
Kaori observou tristemente a cena dos dois. Desejava poder fazer isso com Fernanda um dia. Pegá-la deprimida e fazer cócegas nela até conseguir ouvir a risada encantadora dela. Queria muito sorrir para ela e melhorar tudo ao seu redor. Suspirou, abatida pelas lembranças da época em que ela e a loira eram melhores amigas antes de ela entrar em coma. Fora o mais próximo que ela chegara a uma relação com Fernanda, e nenhum apocalipse zumbi a impediria de ter aquilo de volta.
— Vai ficar tudo bem, não vai? — soluçou Fernanda após alguns minutos, deixando que Kaori enxugasse suas lágrimas. — Vamos cuidar umas das outras, e nada vai nos acertar, certo?
Kaori mordeu o lábio, desejando responder àquela pergunta com sinceridade. Mas sabia que não podia. Não queria ser a culpada pelo retorno da choradeira de Fêr. Desviando o olhar daqueles olhos verdes pedintes, ela disse:
— Nós vamos cuidar uma da outra, isso eu prometo. Eu lhe disse que iríamos nos safar dessa, e não vou descansar um minuto até que nós estejamos salvas no local onde Finny está.
A boca de Fernanda se entreabriu num pequeno sorriso, e Kaori achou aquilo um começo. Ela beijou a testa da garota e se levantou ao ouvir o chiado conhecido do rádio-comunicador dentro do porta-luvas do carro. Sentou-se no banco do passageiro e o ligou, ouvindo a voz de Finny quase que instantaneamente.
— Câmbio... Finny falando, tem alguém aí?
— Sim, Finny, é a Kaori — a garota respondeu, achando graça da seriedade dele. Podiam estar no fim do mundo, mas ver Finny agindo seriamente continuava estranho. — Aconteceu alguma coisa?
— Você tem que falar câmbio, Kaori, faz parte do negócio — reclamou ele, e Kaori deixou escapar uma risada. Finny fazia bem a ela, esperava que chegassem a Nashville logo. — Mas enfim... Estamos bem. Encontramos uma fazenda longe de tudo... Os donos simplesmente sumiram. Tudo está em perfeita ordem, parece que eles saíram apenas com a roupa do corpo. Tem comida, energia elétrica, uma horta... Acho que poderemos viver aqui por uns tempos.
— Esqueceu de falar câmbio — brincou Kaori, rindo. Finny bufou do outro lado da linha, irritado. Tinha se esquecido do quanto era bom importunar o garoto.
— E vocês, como estão? Câmbio. — Ele enfatizou a última palavra.
— Não muito bem... — o sorriso de Kaori sumiu. Ela olhou para fora do carro e encontrou uma cena estranha, onde Cory estava consolando Fernanda. Franziu a testa, observando que Di procurava algo no porta-malas, provavelmente alguma das bolachas que trouxera. — Cory acaba de matar os zumbis de Diih e da namorada dela.
Finny ficou em silêncio, e Kaori não sabia se ele estava apenas esperando que ela dissesse câmbio ou se estava digerindo a notícia. Decidiu esperar, lançando outro olhar ao lado de fora do carro, vendo agora Fernanda começar a conversar com Cory e Di, animada. Ela se perguntou o que estava acontecendo.
— Cara, que péssimo. — Kaori tinha que admitir que Finny talvez não fosse o melhor com palavras de consolo. Ela ouviu gritos durante a transmissão e arregalou os olhos, imaginando um ataque de walkers na fazenda que Finny achara. — Merda... Tenho que ir, Vitoria achou uma barata no banheiro. Vejo vocês em breve. Câmbio e desligo.
O rádio ficou mudo. Kaori respirou aliviada, sorrindo por que problemas idiotas como aquele ainda eram prioridades para garotas como Vitoria. Ela gostara de saber que coisas normais, como acharem uma barata dentro do banheiro, continuava acontecendo. Mantinha o espírito humano em todos eles.
Fernanda continuava conversando animadamente com Cory. Na antiga realidade, Cory não se dava muito bem com Fernanda. Ou pelo menos Kaori achava que sim, já que toda vez que mencionava a garota em alguma conversa, ele simplesmente revirava os olhos. Ou talvez Kaori mencionasse demais Fernanda em suas conversas, tanto que começara a irritar o garoto.
De qualquer maneira, seu coração apertou ao ouvir a risada deles combinando perfeitamente. Ela não fora capaz de fazer Fernanada rir no seu pior momento, e só o fato de Cory ter se aproximado causou nela uma combustão espontânea de risadas. Kaori sabia que Cory jamais deixaria Di ou a machucaria, mas observá-lo ser uma pessoa melhor para Fernanda do que ela já fora, doía. E muito.
— Finny? — perguntou Di quando Kaori se juntou a eles.
— Sim. Encontraram uma fazenda no meio do nada. Vão ficar por lá. Estão nos esperando. Vitoria achou baratas no banheiro — disse Kaori de forma monótona e rápida.
Fernanda olhou para ela e riu.
— Não parece bom para você — disse ela, arrancando risadas de Cory e Di, o que fez Kaori franzir a testa e se perguntar quando eles começaram a compartilhar piadas internas.
— Qual é... filha do Jackie Chan, estamos tentando arranjar algo para sorrir aqui, você deveria fazer o mesmo — falou Cory, puxando Kaori e começando a fazer cocegas na japonesa, que não aguentando começou a rir.
Após muitas gargalhadas, a japonesa cria forças para berrar ao amigo pedindo para ele parar, e assim o fez. A japonesa se encontrava sem ar e todos em volta estava rindo da cena e animados.
— Acho melhor irmos, não? — sugeriu Di um tempo após as risadas terminarem, pegando seu banco de madeira e levando até o porta-malas. — Não queremos perder Vitoria e suas baratas.
Fazia muito tempo que Kaori não ria daquela forma. Dividir aquela alegria contida com Di, Cory e, em especial, Fernanda, tornava tudo muito melhor. Sentia que poderia passar por todo aquele inferno com eles ao lado.
As vezes, ela parava e se perguntava, porque o amigo havia ficado com ela, e não teria saído correndo da cidade levado Di para um lugar seguro. Ela olhou para Di e sorrio, lembrando que elas se consideravam irmãs, podiam não ter o mesmo sangue... Mas, era assim que uma via a outra, Di era sua irmã mais velha que cuidaria dela em qualquer momento e ela era a irmã mais nova que também cuidaria da outra a qualquer momento.
***
Di continuou a dirigir o carro quando eles partiram mais uma vez pela estrada. Os ânimos ainda não eram os dos melhores, mas ela conseguia ver um futuro para os quatro, só estava faltando o Finny.
Ela sabia das coisas, via coisas que os outros não conseguiam perceber, como a bondade no coração de Cory e de Kaori, a insegurança em relação aos sentimentos de Kaori, a compaixão enorme que Fernanda sentia por muitos, mas mesmo assim... Todos a chamavam de idiota, não por causa de notas ela tirava ótimas notas mas, por que ela simplesmente acreditava no melhor das pessoas, não no pior.
E quando os zumbis começaram a atacar cidade, Di espantou a todos. Ela sabia como lidar com eles, como usar as espingardas, as metralhadoras, as pistolas... Ela era uma das mais poderosas do grupo de sobreviventes que tinham montado.
Di aprendera a maioria do que ensinara aos garotos em jogos de videogames (que costumava jogar com Cory, Kaori e Finny) e em livros que pedia emprestado a Kaori. É claro que adorava ler os livros sobre zumbis que a amiga tinha, e se animava bastante.
Durante os poucos meses em que o mundo se transformara de forma radical, Di decidiu que iria se tonar uma das mais fortes do grupo. Claro, com Cory ao lado dela, a maioria pensava duas vezes antes de falar alguma coisa, mas ela fez aquilo por conta própria. Precisava mostrar pro mundo quem ela realmente era, e ajudando pessoas durante um apocalipse zumbi era uma boa forma de começar.
— Di, me diz o que está acontecendo — pediu Cory num sussurro, tirando Di de seu devaneio. — Por favor.
A verdade era que não estava acontecendo nada. Di não escondia segredos de Cory desde quando tinha seis anos de idade — a época em que se conheceram. No entanto, por alguma razão, ela achava que algo estava se passando por baixo de sua cabeleira. Perguntou-se se a grande pressão dos últimos dias — Finny ter ido embora, Kaori salvando Fernanda, eles fugindo da cidade, e agora os zumbis Diih e sua namorada — estavam lhe causando também delírios.
— Estou bem, amor — respondeu Di, tirando os olhos da estrada por um momento e dando um sorriso à Cory. — Confie em mim, estou bem.
Cory assentiu e sorriu de volta, dando um beijo na bochecha de Di. Ela voltou a ficar séria e a encarar a estrada como se tivesse algum objetivo ali. Tinha, por enquanto, pensou. Chegar a Finny, se abrigar na fazenda dele e desintoxicar o banheiro cheio de baratas. E sobreviver, é claro. Não poderia esquecer aquele item.
— Não vamos parar? — Fernanda perguntou alguns minutos mais tarde, onde o silêncio foi preenchido por um cassete do Guns ‘N Roses. Cory cantava Sweet Child O’Mine em voz alta.
— Por quê? — Kaori devolveu a pergunta, sinceramente curiosa.
Di adorava observar as duas garotas juntas. Sentadas no banco de trás do carro, Fernanda antes discutia com Kaori sobre qual saga era melhor, Harry Potter ou O Senhor dos Anéis. Elas estavam distantes uma da outra, mas suas mãos se tocavam distraidamente, os dedos brincando entre si. Fernanda não percebia nada, porém Di notou o sorriso pequeno que se formava nos lábios de Kaori, e não pôde deixar de se sentir um tanto orgulhosa.
Antes de o mundo virar de cabeça para baixo, quando Fernanda ainda era Fernanda e estava em coma, Di viu Kaori desabar. A garota forte, Cheerio e durona não existiu por um longo tempo. Kaori apenas queria passar maior parte do dia ao lado da cama de Fernanda no hospital, sem se importar com os xingamentos de Ana dizendo que ela não deveria estar ali ou sua mãe implorando para que ela voltasse para casa.
Uma vez Kaori voltou à “mansão” totalmente diferente, mais fria do que já era e mais grossa. Kaori apareceu no outro dia na escola com roupas que nenhum de seus amigos jamais pensaria que ela usaria. Todos ficaram particularmente chocados, mas Di aprovou. Aquela Kaori era a mais verdadeira que ela já tinha visto nos três anos em que tinham estudado juntas.
— É quase uma da tarde — disse Fernanda como se fosse a coisa mais óbvia do mundo.
Kaori franziu a testa, e Cory até baixou o som para ouvir a discussão com mais clareza. Di mudou a marcha do carro e acelerou um pouco mais.
— E…?
— Não deveríamos ter parado para almoçar?
Di e Cory se entreolharam com ar de riso. Kaori pigarreou, também controlando sua risada, e respondeu:
— Não temos tempo para isso, Fêr. Se não percebeu, estamos com sérios problemas. Os restaurantes na beira da estrada podem nos servir comida, claro, mas nós podemos virar a comida, entende?
Desapontada, Fernanda concordou. Kaori fez uma expressão de como sentisse pena e tirou do bolso de sua jaqueta de couro uma barra de chocolate e entregou à loira.
— Coma — disse, seu olhar se encontrando com o de Di, o que a acabou fazendo corar. — Ao pararmos pela tarde, eu esquento algo para você.
Kaori esquentaria algo para todos, Di se pegou pensando. Ela era uma negação na cozinha, Cory mal sabia fazer gelo. Kaori era a única ali com jeito para encarar um fogão e não fazer nada pegar fogo. Os dois mini-bar, que magicamente funcionavam sem uma tomada, que tinham trazido estavam lotados de comida congelada, água e vodka, que Cory insistira em trazer.
A outra parte da comida que não precisava de nenhum gelo para continuar gostosa estava enrolada em grandes vasilhas plásticas, agora escondidas no porta-malas dentre as roupas e armamentos. Di esperava que houvesse armários na fazenda que Finny encontrara, pois o grande porta-malas do carro tinha possibilitado que elas trouxessem várias coisas, inclusive objetos esquecidos por Finny e da sua trupe.
O rádio-comunicador chiou outra vez, sobressaltando as garotas. Fernanda, que dividira a barra de chocolate entre os quatro, olhou para Kaori, como se a garota soubesse quem era daquela vez. A japonesa, por outro lado, deu um peteleco na cabeça de Cory — que recomeçara a cantar Guns muito alto — para que ele atendesse.
— Não precisava fazer isso, cara! — exclamou o outro indignado. Di parou o carro no acostamento da estrada vazia para que não tivesse tanta interferência. — Cory falando, câmbio.
— É o Gabriel aqui — a voz se fez ouvir no interior do carro, cheia de preocupação. Di esperava uma notícia boa, talvez que eles já estivessem no carro em direção a Nashville, mas o tom de Gabriel não demonstrava aquilo. — A cidade foi sitiada.
Di mordeu o lábio. Fernanda que falou num tom estranhamente calmo.
— Eles estão presos lá.
— Arranje um jeito de sair, cara! — exclamou Di. Cory notou o tom desesperado da namorada e pôs a mão no ombro dela, tentando acalmá-la. — Você não pode morrer! Nem Naya, nem a bebe! Ela é só um bebê, pelo amor de Deus!
— Eu sei... — Gabriel parecia mais perdido que nunca. Cory tentou extravasar a raiva socando o porta-luvas enquanto Kaori tinha um semblante dolorido no rosto e era consolada por Fernanda. — Por isso, então, eu burlei todo o sistema de segurança e saí agora a pouco.
A atmosfera do carro mudou drasticamente. Kaori levantou os olhos e olhou incrédula para o rádio-comunicador; Di notou que Fernanda apertava com tanta força a mão de Kaori que os nós de seus dedos estavam brancos. Cory forçou-se a inspirar e expirar três vezes antes de conseguir ouvir a risada longa e rouca de Gabriel pelo rádio.
— Filho-da puta! Onde vocês estão? – Cory perguntou um tanto animado.
— Perto de Fletcher — respondeu Gabriel, ainda rindo. Di distinguiu o choro da bebe e as broncas de Naya por trás da voz do garoto. — Tá bom, tá bom! Naya mandou um oi. Estamos indo para Nashville, certo?
— Exatamente, Gabriel — confirmou Cory aliviado.
— Beleza. Vejo vocês daqui a pouco então.
E desligou.
***
— Desgraçado! — exclamou Kaori assim que Cory guardou o rádio-comunicador. — Me passou um susto do caralho, filho da mãe!
— Kaori, menos palavrões — falou Di, olhando a garota pelo retrovisor do carro. Kaori apenas riu junto com Cory.
Fernanda controlou a risada ao perceber que Kaori e Cory nunca iam parar de falar tantos palavrões, não importa o que irá acontecer, os dois sempre irão xingar e falar palavrões.
O mundo poderia estar indo de mal a pior, mas Fernanda se sentia bem perto daquelas pessoas loucas, que estavam até que se divertindo matando zumbis e rindo feito loucos. Ver Diih e sua namorada transformadas em zumbis tinha sido uma experiência assustadora e traumática, porém a presença de Kaori, o jeito maluco de Cory demonstrar carinho (como falar mal de você na sua frente) e a atitude carinhosa que Di havia adquirido, ajudou a dar um sorriso naquele dia aterrorizante.
— Foi mal, Di — desculpou-se Kaori, ainda rindo um pouco. Ela virou-se para Fernanda e lhe deu uma piscadela divertida. — Tudo bem aí?
— Você tem que começar a perguntar isso para as outras duas pessoas ali na frente também. — disse Fernanda sorrindo, sentindo uma pontada de dor nas costas que acabou ignorando.
— Ah, eles estão ótimos — murmurou Kaori descrente, acenando displicente para Di e Cory. Ela se aproximou alguns centímetros de Fernanda, e, estando num carro, aquilo era muita coisa. — Você só viu o caminho do hospital até a estrada. O interior da cidade tinha coisas piores. Dói dizer isso, mas depois de um tempo você acaba se acostumando.
Kaori deu um sorriso triste. Fernanda fez uma careta por causa da dor, que tentou transformar num sorriso. Não queria que Kaori se preocupasse ainda mais com ela. Por baixo daquele ar frio, um mundo inteiro se escondia, Fernanda sabia disso.
— Quando tempo fiquei em coma? — perguntou de supetão.
Kaori se enrijeceu. Levou alguns minutos para que ela movesse a boca, e quando o fez, murmurou:
— Quatro ou cinco meses. Não sei dizer.
Ela tentava passar indiferença à Fernanda, mas tudo que a garota conseguiu captar foi aflição na voz de Kaori. Parecia mais dolorido para ela falar sobre o tempo em que a loira ficara em coma do que matar walkers que eram seus amigos antes.
Os olhos de Kaori se fixaram na paisagem que passava pela janela do carro. Fernanda mordeu o lábio, a dor nas costas ficando mais forte a cada segundo. Ela não sabia se queria chorar pela dor ou pelos olhos apáticos de Kaori. Descobriu que a dor que sentia naquele momento não era nada comparada à dor com que Kaori teve de lidar todos aqueles meses.
Fernanda podia não se lembrar de nada que havia acontecido antes do acidente, mas aquela conexão que tinha com Kaori nas últimas horas não era algo de momento. Sua necessidade patológica de estar perto dela quando se encontrava desesperadamente perdida diante do mundo apocalíptico onde estavam não vinha só por que ela a havia salvado do hospital.
Fernanda sabia que tinha alguma coisa acontecendo entre elas antes do acidente, algo que fez Kaori ir salvá-la, que a fazia perguntar para Fernanda toda hora como ela se sentia, o que fazia ela a encarar tão ternamente. Ela só queria saber o que era. Kaori não parecia tendenciosa a contar algo, e Fernanda não desejava colocá-la novamente no mar de angústia por qual passava toda vez que tentava retornar ao passado.
— É muito tempo — comentou Fernanda estupidamente, quebrando o silêncio. A dor em suas costas estava agora se tornando insuportável. Tentava ignorar, mas Kaori também parecia ter notado que algo estava acontecendo e franziu a testa para ela, esquecendo de sua amargura.
— O que foi? Fêr, o que tá acontecendo? — questionou Kaori alarmada, o olhar de preocupação voltando a seu rosto.
Fernanda exprimiu uma careta de dor, se contraindo no banco do carro. Kaori olhava para ela perdidamente, como se fosse encontrar uma forma de salvá-la apenas balançando as mãos num ritmo louco.
Quando Fernanda gritou, Di e Cory finalmente se viraram para ver o que acontecia no banco de trás. Fernanda queria dizer que estava tudo bem, mas obviamente as coisas passavam longe disso. Ela não sabia o que tinha lhe acontecido para ter entrado em coma por cinco meses, mas a execrada dor nas costas dava uma dica.
Seus ossos doíam, os órgãos internos se remexiam violentamente. Que estúpida Kaori fora ao tirá-la daquele hospital. Tinha saído do coma, mas não estava inteiramente bem. Os tratamentos, as vacinas, todas as coisas que precisaria para seu corpo sentir-se novo outra vez estavam esquecidos há muitos quilômetros de distância.
Antes que pudesse pensar que morreria no carro velho do avô de Kaori, Fernanda sentiu os músculos relaxarem por completo e os olhos se fecharem por conta própria.
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