In The Hell
16 in the hell 15
Kaori retirou a faca do crânio do walker, que se arrastou pela cerca e caiu no chão com um baque surdo. Limpou a faca na barra da calça e olhou para Cory, séria.
— Então era para isso que me convenceu a ficar com a Bella? — indagou Cory, parecendo indignado. — Lembro que você sumiu o dia todo com Ash e Gabriel.
— Ash quase comeu um cogumelo envenenado — confidenciou Kaori, recorando do momento em que saíra da proteção da cerca para poder procurar flores para sua surpresa a Fernanda. Se não fosse por Gabriel, Kaori não teria certeza se a garotinha continuaria saudável.
Fazia pouco mais de quatro dias que pedira Fernanda em namoro. Nada mudara muito, a não ser o anel dourado no dedo da garota, tirado de um errante do lado de fora da cerca e lavado inúmeras vezes. Elas tentavam fazer pouco caso de tudo o que estava acontecendo, agindo normalmente, mas Cory não as deixavam esquecer. Sempre que Fernanda aparecia no cômodo que estavam, Cory faziam piadinhas e fingia cegar-se por um sol vindo do dedo de Fernanda.
— Quisera eu achar um anel para Di — murmurou Cory chateado, empurrando para longe um walker, não antes de dar uma espiada nas mãos dele. — Esses dias para trás ela meio que me pediu em casamento, mas tipo... Ela deu a ídeia mas não pediu pediu. Ah, você entendeu.
Kaori levantou a sobrancelha, surpresa, se distraindo e deixando ser pega por um errante. Assustada, se desvencilhou rapidamente da criatura e voltou com a faca para atacá-la. Cory permaneceu o tempo todo do ataque encarando Kaori sem expressão.
— Obrigada pela ajuda — disse Kaori mal-humorada, limpando a sujeira que o morto-vivo deixara em seu casaco.
Cory deu de ombros e continuou seu trabalho.
— Mas, ei! — ela exclamou animada. — Casamento é uma ideia interessante, por que não pede ela em casamento?
— Porque não tenho um anel e quero que seja diferente, afinal ela merece. — resmungou Cory enciumado.
Kaori ficou quieta, se segurando para não rir do amigo. Ela não devia sentir-se culpada por ter tido a ideia primeiro que o amigo, mas o modo que o amigo falava sempre deixava essa ideia em sua cabeça. Di e Cory estavam juntos há mais tempo que ela e Fernanda, muito antes de Kaori perceber que gostava da loira. Era, de certa forma, injusto.
— E sua amizade com Bella, hein? — Kaori mudou de assunto rapidamente após os minutos de silêncio começar a torturá-la. — Você tá andando demais com ela.
— Ciúmes? — retrucou Cory apontando a faca para Kaori com um sorriso maroto.
— Claro — respondeu a outra com desdém.
No fundo, Kaori estava um pouco mordida. Bella era uma boa pessoa, e tinha plena certeza de que Cory ficaria irritado com ela sem razão nenhuma para sempre. Nunca que imaginaria os dois trocando palavras durante as tarefas, ou que passariam os enlatados durante o jantar tão polidamente. Ainda não acreditava muito no que acontecera nos últimos dias.
— Ela até que é legal, sabia? — comentou Cory, terminando de matar o último walker e avançando para os fundos da mansão. Kaori revirou os olhos e o acompanhou. — Bella fazia faculdade de Medicina em Harvard.
Cory deu ênfase no nome da universidade como se valesse alguma coisa naquele mundo. O sussurro desejoso dele fez Kaori bufar. Tentou não dar ouvidos à faladeira que se seguiu, mas nos próximos minutos, enquanto exterminava os poucos errantes perto da cerca, Kaori ficou sabendo das aventuras de Bella durante seu primeiro ano em Harvard.
— Você sabe que ainda é minha vadia e eu sou seu puto, não sabe? — Cory indagou de mansinho ao chegar perto de Kaori depois que a tarefa estava completa.
Kaori deu um muxoxo, enfiando sua faca na bainha e afastando-se da cerca. Chegou perto da casa e abriu a torneira que ficava ali fora. Lavou as mãos, sabendo que Cory lhe encarava de forma divertida.
— Você sabe? — tornou a perguntar Cory, mal contendo o riso.
— Sei! — exclamou Kaori irritada, se levantando e fixando seus olhos no garoto que dava risadas atrás dela. — Que porra, vai dar o rabo.
Cory, ainda rindo, passou por ela, empurrando-lhe para que saísse do caminho. Kaori, emburrada, arremessou um pouco de água nele. Cory respondeu o gesto atirando em Kaori um jato mais forte.
— Xingar é errado, amor — disse Cory simplesmente.
Kaori suspirou fortemente, espirrando o resto de água que caía de seu nariz no chão. Tentou secar os olhos e observou suas roupas molhadas. Na sua frente, Cory se dobrava de tanto rir. Irritada, mas não perdendo uma perfeita oportunidade, Kaori empurrou o garoto.
Cory parou de rir na hora. Olhou furioso para ela e avançou alguns passos, sorrindo ameaçadoramente. Kaori fechou os olhos, esperando os socos e pontapés, porém, não aconteceu nada disso. Ao abrir os olhos outra vez, encontrou Cory com os braços estendidos na sua direção, dando a entender que queria um abraço.
— Vem cá... — pediu ele meio manhoso, mexendo as mãos de uma forma que pensava ser convidativa. — Não sou seu vadio? Uma pequena prova de amizade.
Kaori revirou os olhos, mas não teve muito tempo para pensar: Cory lhe puxava para um abraço apertado. Sentiu o garoto passar as mãos molhadas por suas costas num gesto carinhoso. De repente, foi como se todo o peso da liderança — mesmo que ainda não tivesse sido posta à prova — se esvaísse. Estava estranhando aquele gesto, e muito
Logo se soltaram. Kaori viu Cory dar um sorriso sincero, o primeiro em dias para pessoas que não fossem Di. Apertou a mão da garota e disse:
— Nosso dia de folga começa a partir de agora! Anda, vamos para dentro comemorar!
Juntos, rindo, entraram na mansão.
Cozinha
— Ei, Cory! — exclamou Laura assim que avistou o garoto terminar seus serviços com Kaori de limpar a cerca. Parou-o no meio da cozinha, um tanto desesperada. — Posso falar com você um minuto?
— Agora? Porque eu e Di vamos...
Laura torceu as mãos, envergonhada, e corou fortemente. Pigarreou e correu para enxugar as mãos molhadas no pano de prato posto ali por Gabriel. Kaori deu uma risadinha.
— O que foi?
— Ah... hm... — Foi a vez de Laura enrubescer. Ela se complicou nas palavras e acabou por deixar Cory um pouco irritado. O garoto começou a fazer gestos para que andasse mais rápido com sua explicação.
Laura respirou fundo, ainda indecisa entre contar ou não a ele o que havia acontecido três noites atrás com ela e Victoria. Kaori ainda estava no local, mas não tinha certeza se confiava nela da mesma forma que confiava em Cory. Entenda, Kaori era uma ótima garota, mas o problema era que Laura preferia Cory.
Entretanto, presumia que eles já teriam alguma ideia do que teria acontecido, visto que Laura agora era raramente vista com Victoria e também pega constantemente cochilando quando deveria estar fazendo suas tarefas.
A polidez com que Victoria lhe tratava fazia Laura não dormir à noite, pensando. Ela não tivera a chance de se desculpar pelo beijo, pois a garota sempre fugia dela — e dormindo o mesmo quarto, sendo postas nas mesmas tarefas, era uma missão impressionante da parte da garota. Quando a conversa era inevitável, Victoria era sempre leviana e jamais falava de outra coisa além do clássico, “me passe o sal”.
— Eu beijei Vic... — disse Laura num suspiro só, ignorando a presença de Kaori no cômodo.
— Isso é ótimo! — interromperam Kaori e Cory em uníssono.
—... e ela agora tá me ignorando e...
— Isso já não é tão ótimo... — disseram os dois ao mesmo tempo.
—... eu não sei o que fazer! — terminou Laura desesperadamente.
Cory suspirou, a expressão um tanto calma, como se quisesse conter uma risada. Laura ficou irritada com o semblante do garoto; ela sabia que, no mundo em que estavam vivendo, lutar pela sobrevivência era o essencial, mas ela não conseguia parar de pensar em ter, de fato, magoado Victoria. Não queria ter que morrer com a garota sentindo raiva dela para sempre.
— Isso é normal — disse Cory se aproximando dela e pondo a mão molhada em seu ombro. Kaori, de longe, assentiu. — Vic provavelmente nunca beijou uma garota na vida e aqui estamos, no meio de uma apocalipse, e isso acontece. Mesmo sendo importante ter uma companhia por esses dias, ainda é algo estranho e incomum.
Laura balançou a cabeça em concordância. Seu coração aliviara um pouco, mas ainda doía. Cory e Kaori deram sorrisos bondosos, e ela tentou retribuir, contida.
Laura agradeceu com um aceno de cabeça. Cory sorriu e bagunçou mais uma vez os cabelos da garota. Antes que pudesse se levantar e anunciar que iria finalmente ver sua namorada, Di entrou na cozinha com a expressão preocupada, que se suavizou ao encontrar Cory, Kaori e Laura sentados à mesa.
— Ei, Di! — cumprimentou Cory animado enquanto a namorada ia até ela e lhe dava um selinho. —
— Estava demorando... Ai decidi vir pra cá para ver o que aconteceu e vejo você aqui batendo papo e esquecendo de mim. – Di disse fazendo Laura e Kaori rir.
— Ela beijou Vic e está tendo problemas para resolver isso — respondeu em forma de se proteger da namorada. Laura, corando, bateu a mão dela sobre a mesa.
— Que ótimo! — exclamou Di. Laura arregalou os olhos. — Digo, vocês vão se dar bem, tenho certeza disso.
— Obrigada.
Di e Cory se entreolharam daquela forma que Laura aprendera a odiar desde que perdera o mesmo com Victoria. Descobriu, depois do beijo, e tempos pensando com si, que as duas possuíam o mesmo olhar; e observar outras pessoas fazendo o mesmo era relativamente deprimente.
— Quando vocês se casarem, podem me adotar? — pediu Laura deprimida. Os dois riram.
— Claro — confirmou Di. — Mas Victoria terá de ficar em outra família.
— Do jeito que ela gosta dessas coisas igual a Fernanda e Kaori, ela pode ser muito bem ser filha de “Lenanda” — Laura disse, se levantando.
Antes que Cory, Di ou Kaori respondessem, no entanto, Math entrou na cozinha acompanhado por Vic. Cory levantou as sobrancelhas, surpreso, e logo murmurou algo para Di e Kaori entendeu ao certo. Os três acenaram para Laura e saíram do cômodo.
O coração dela não teve tempo para processar o trio saindo da cozinha. Os olhos estavam fixos em Victoria. Sua respiração ficou um tanto rarefeita. Tinha medo que a garota começasse a pegar talheres e tacar nela ou avançar e começar a bater na sua cabeça com a colher de pau, mas Victoria não fez nada disso. Surpreendeu Laura por completo quando, na verdade, disse:
— Precisamos conversar.
Sala de Estar
Aqueles garotos eram o máximo. Bella se impressionava cada dia mais com eles. Mesmo não sabendo praticamente nada da vida, eles lutavam todos os dias para sobreviver naquele inferno, fazendo coisas que nem ela, seu pai ou George haviam conseguido.
Bella tinha uma grande decisão nas mãos desde o dia em que Finny a permitira ir para aquela mansão com eles. Quase um mês depois, ainda não sabia o que fazer. Durante a noite, seu cérebro ardia de tanto pensar nos prós e nos contras de contar o que sabia para eles.
Ela vira aqueles garotos construírem uma cerca feita de entulhos e pedaços de madeiras mofadas vindos do porão; os vira enterrar a companheira e celebrar, no minuto seguinte, o fato de acharem uma latinha de Coca achada nos fundos de um armário velho. Eles poderiam ser novos e não conhecer a área do Tennessee direito, mas eram mais inteligentes e úteis que seus antigos companheiros de condomínio. Pelo menos Finny e Kaori não a deixaram passar fome.
Observou Cory conversando com Kaori e Gabriel a um canto enquanto Di fazia piadinhas que atraíam fortes risadas de Matheus e Fernanda e um surpreendentemente feliz Finny. Tudo à luz de velas, pois a gasolina destinada ao gerador estava acabando. Laura e Victoria deveriam estar no quarto; ela as vira passar às escondidas pela escada quando ninguém estava olhando.
— Cory? — chamou Bella quando se cansou de concordar e fingir dar risada das piadas de Di.
Os olhos de foram em sua direção. Bella tinha uma admiração enorme pelo jeito do garoto de ser, mas depois que deixara escapar que gostava dele, Cory passara a conversar com ela diariamente, em praticamente todos os momentos em que não estava com Di. O que ela tinha a dizer era interessante, mas Bella sentia que preferia ficar sozinha e em silêncio quando fazia suas tarefas. Ela não gostava muito de ser o centro das atenções — mesmo que qualquer coisa que ela fazia naquela casa parecia atrai-la a isso.
— Kaori? — Bella chamou também. — Posso falar com vocês um instante?
Era isso. Perguntara o pior. Era agora ou nunca. Será que as coisas mudariam? Seria tratada como uma traidora? Não queria saber. Mas ela teria. Engoliu em seco, pela primeira vez não tão confiante das coisas que deveria ou não fazer.
— Claro. — Kaori franziu o cenho. Ela sabia, Bella pensou. Sabia que algo estava lhe perturbando desde quando chegara ali. Não era nenhum segredo.
Kaori se levantou. Ela cochichou algo no ouvido de Fernanda e deu-lhe um beijo na testa. Bella assistiu à cena, esquecendo um pouco o que estava prestes a dizer. Dentro do mundo em que estavam, Kaori e Cory tinham sorte em encontrar outras pessoas. Perguntava-se sempre se haveria uma pessoa para ela lutando contra walkers naquele momento, louco para encontrá-la.
Ela gostava de Finny. Bastante. Desde o primeiro momento em que o vira, deitado, sofrendo para escapar dos errantes durante a primeira aventura deles no condomínio.
Ficara triste quando descobrira que ele tinha namorada, mas, ao ver Carol, descobriu que jamais teria chance. Os dois se amavam demais. Bella não tiraria proveito da morte da garota, decidiu assim que haviam enterrado o corpo.
Dava para ver a dor nos olhos dele todos os dias, a expressão tristonha dele quando dizia boa noite e subia sozinho para o quarto — e tudo o que Bella queria fazer era englobá-lo num abraço e dizer que tudo terminaria bem. Era horrível a sensação de total impotência que ela tinha nessa situação.
— O que foi? — Cory estalou os dedos na sua frente enquanto se acomodava na cadeira roubada da cozinha que ficava no quarto de Bella. — Oi?
— Foi mal — desculpou-se Bella, saindo de seu pequeno transe. Ela se afastou um pouco para que Kaori pudesse sentar ao seu lado na cama.
Seu quarto estava uma bagunça, como sempre. Roupas sujas que ainda não mandara lavar estavam jogadas a um canto; o notebook, sendo amassado na cadeira por Cory; a cama lotada de travesseiros e edredons, por causa de seu terrível medo de ficar sozinha para sempre; além de sua caixa de Primeiros Socorros aberta com os instrumentos espalhados por todos os lugares. Ela sinceramente não sabia como os outros mantinham os quartos tão arrumados.
— O que foi? — Kaori repetiu a pergunta nervosamente.
Ela respirou fundo. Era agora ou nunca. Preferia muito o nunca, mas aquilo era algo que todos precisavam saber — ou pelo menos, em primeiro lugar, Kaori e Cory.
— Eu disse à Cory que estudava em Harvard antes desse inferno — começou ela, torcendo as mãos. — O que é verdade — acrescentou ao ver o olhar arregalado de Kaori para ela. — Entrei com 16 anos por um monte de razões sem importância. O negócio é que, mesmo sem querer, eu era um gênio. A melhor da turma, sempre convidada para palestras fora do país e essas coisas. Minhas primeiras Férias de Primavera eu passei no Brasil por conta da universidade. Era o máximo estudar lá, e eu lamento muito por vocês jamais terem essa experiência.
Cory e Kaori bufaram ao mesmo tempo, como se lutar contra mortos-vivos até a morte fosse algo mais legal que terminar os estudos propriamente. Bella soltou uma risada seca.
— Como melhor aluna da turma, eu tinha muitos privilégios. Por exemplo, eu tinha acesso a algumas pesquisas que rodavam os Estados Unidos inteiro. Umas eram realmente idiotas — sinceramente, não sei como alguns deles conseguiram o dinheiro do governo para elas. Outras, por outro lado, eram... fodas.
Kaori prendeu a respiração.
— Fodas... como? — indagou Cory pausadamente.
— Do tipo — ela respirou fundo — que criam apocalipses zumbis.
Fez-se um silêncio sepulcral. Ninguém falou por longos minutos. Ela passou a analisar suas unhas pessimamente cortadas com atenção, desejando se afundar no chão e nunca mais voltar.
— Você está dizendo... — começou Kaori, mas Cory terminou para ela, furioso:
— Que você viu essa desgraça nascer e não fez nada?! Que você trabalhou com os cientistas desse inferno e não fez porra nenhuma para impedir?!
Quando ela percebeu, já estava cara a cara com Cory, o rosto do garoto horrivelmente ameaçador e próximo do seu. Kaori tentou empurrá-lo de volta a cadeira, mas Cory continuava firme.
— Eu tinha acesso a algumas informações, nada demais — disse Bella calmamente. — Nenhum governo de nenhum país deixaria uma garota de vinte anos olhar em seus arquivos completos, mesmo sendo ela surpreendentemente inteligente.
Kaori assentiu, atordoada. Cory finalmente se afastou dela, se jogando na cadeira de tal maneira que Bella ficou impressionada pelo garoto não ter caído.
— Se você sabia de alguma coisa, por que insistiu em ter aquele walker no quintal, então? — perguntou Kaori, confusa.
— Para tentar descobrir o que eu não sabia — respondeu Bella, dando de ombros. — Não deu muito certo.
— Com certeza não — Cory disse com azedume.
— E o que é que você sabe? — indagou Kaori, ignorando Cory, curiosa.
Bella não respondeu imediatamente. Fixou os olhos no rosto preocupado de Kaori. Após alguns minutos, desviou o olhar e disse:
— Sei que deveria ser uma cura para o câncer. Os caras disseram que estavam estudando há anos. E, há mais ou menos um ano atrás, começou a dar certo em algumas pessoas. O projeto era interessante, recebia milhões do governo.
— Como você conseguiu entrar? — Cory perguntou. Bella imaginou que ele já estava voltando ao normal, pois parara de tremer de raiva, embora ainda bufasse periodicamente.
— Contatos, muitos contatos. Precisei tirar “A++” três semestres seguidos em todas as matérias. No começo do ano passado, finalmente consegui. Conheci alguns pacientes que eles tinham curado. Toda essa baboseira de entrar no laboratório e observar o trabalho dos caras, que vocês não entenderiam, era maravilhosa para mim.
Bella parou. Ela se lembrava perfeitamente do primeiro dia que entrara no laboratório. Todos os frascos e jalecos brancos lhe chocavam. Poderia ser a melhor da turma, mas ainda faltava muito para chegar aos pés daqueles caras. Dentro do laboratório, observando-os trabalhar, chegou à conclusão do que realmente queria: ajudar as pessoas, mudar o mundo em passos pequenos, salvar vidas.
— As pesquisas avançaram rapidamente — continuou ela com o olhar distante. — Pelo pouco que eu soube, eles estavam prontos para torná-la pública. Mas aconteceu algo. Um dos pacientes... ele morreu. Os cientistas tentaram descobrir o que era, mas antes que pudesse, o cara voltou dos mortos. Zumbi.
– Ninguém acreditou muito. Era impossível que alguém pudesse morrer e nascer novamente. Vocês devem lembrar disso... — Bella disse para Kaori e Cory, que assentiram lentamente. — Os mortos ressurgindo e blá, blá, blá. Sedentos de sangue e todas essas merdas.
Bella parou outra vez. Ela observou Kaori e Cory trocarem um olhar tenso. Bella não era permitida a dizer onde todo esse inferno havia começado, mas nas circunstâncias, tinha plena certeza de que os cientistas mortos dentro do laboratório não iriam se importar.
— Você lembra? — perguntou Cory, mas não era para Bella. Olhava na direção de Kaori. — Os noticiários diziam que esse negócio de walkers havia começado no centro do país. Depois que se alastraram.
Kaori virou-se vagarosamente para Bella.
— Por acaso onde os cientistas trabalhavam era...?
— Sim — respondeu Bella com um suspiro. — O Tennessee era a morada da cura para o câncer.
Quarto de Kaori
— Você vai mesmo contar a eles? — indagou Fernanda no ouvido de Kaori na manhã seguinte. Ela ainda parecia meio chocada com a informação que Kaori dera durante a madrugada.
— É necessário — disse ela soltando um suspiro pesado. Apertou mais Fernanda contra seu corpo. — Bella contou a nós primeiro porque confia mais na gente. Mas não deixa de ser errado não contar. Aposto que Cory contou a Di.
Fernanda assentiu, entrelaçando seus dedos nos de Kaori. Ainda estavam deitadas na cama, embora passasse das sete da manhã. Kaori podia ouvir o movimento se intensificando no primeiro andar, inclusive os gritos e xingamentos de Cory para Matheus por causa do café da manhã. O berço de Ash estava em seu quarto; a garotinha continuava dormindo profundamente.
As notícias de Bella espantaram Kaori e Cory horrivelmente. Saber que estavam próximos do marco zero de onde todos aqueles zumbis haviam nascido era aterrorizante. Fazia o fato de eles terem fugido de sua ex cidade para lá quase um ato de muita má sorte. Perguntava-se quando o grupo poderia respirar em paz por pelo menos uma semana inteira.
— Talvez seja hora de levantarmos — comentou Fernanda quando Ash começou a espernear em seu berço.
— Não, espera um pouco! — exclamou Kaori manhosa, tentando apertar a loira contra si enquanto a garota tentava se desvencilhar. — Ash vai dormir de novo, temos tempo.
Fernanda revirou os lhos, tirando as mãos de Kaori da sua cintura. Ash chorou mais alto. Kaori permaneceu deitada na cama estendida completamente sobre ela, observando Fernanda ir até o berço de Ash e pegá-la no colo. A menina coçou os olhos, cansada, e deitou a cabeça na curva do pescoço de Fernanda. Ela tinha que admirar a facilidade com que a namorada lidava com Ash.
— Kaa — grunhiu Ash ao olhar para Kaori por cima do ombro de Fernanda, estendendo os braços para a cama.
— Eu acho que ela gosta mais de você — disse Fernanda um tanto entristecida ao dar a garotinha para Kaori.
— Que nada, ela ama você — replicou ela dando de ombros. — Ash é imparcial.
Fernanda riu, sentando-se na cama. Ash caíra ao lado de Kaori, apertando o montinho que tinha da coberta e aparentemente voltando a dormir. Sendo seu dia de folga, Kaori poderia passar o dia inteiro com a Fernanda. Tinha, contudo, decisões a tomar, e isso provavelmente levaria o dia inteiro, com as pessoas lhe importunando sobre os resultados de seus pensamentos. No final, saberia que não teria muito tempo para desperdiçar naquele dia.
Seus olhos encontraram os de Fernanda. Sempre esquecia o anel brilhante no dedo dela e pensava no tempo antes do coma, quando ela estava longe de ser sua garota e Kaori era simplesmente a garota apaixonada pela melhor amiga, sem nenhuma chance de ficar com ela. O apocalipse a fizera perder os pais, os irmãos e muitos outros, entretanto, ganhar Fernanda quase que compensava todas as perdas.
Sorriu. Fernanda se arrastou pela cama, chegando perto de Kaori e lhe dando um selinho calmo. Quando ia se afastar novamente, contudo, Kaori não permitiu englobando a garota entre seus braços.
Fernanda voltou a beijá-la, agora com mais intensidade, deitando em cima de Kaori. Suas pernas se encaixaram perfeitamente na cintura da garota. Fernanda se inclinou, permitindo a passagem da língua de Kaori por seus lábios, ofegando um pouco ao sentir as mãos dela alisarem por baixo de seu pijama suas costas.
Ela não queria continuar; sentia Ash cochilando pacificamente a seu lado, e traumatizá-la com a visão dela e de Fernanda se beijando não estava, tecnicamente, em seus planos. Ao recuperar os sentidos depois da marca enorme que Fernanda havia deixado em seu pescoço, ela tentou se desvencilhar educadamente dela — não que tenha dado muito certo. Fernanda se agarrava à Kaori de tal maneira que a deixava sem ar.
— LETÍCIA KAORI SATO! — gritou Cory, socando a porta com ferocidade. Fernanda deu um salto e caiu no chão ao lado de Kaori, assustada. — Você e sua loira, parem de se comer e desçam agora!
Cory bateu na porta outras três vezes antes de descer. Kaori levantou a sobrancelha para Fernanda, somente para depois cair na risada com a expressão aterrorizada de dor por ter caído no chão. Até Ash, incrivelmente, soltou uma risadinha sonolenta.
— Vamos trocar de roupa e descer — disse Fernanda enrubescida.
Cozinha
A expressão atordoada dos outros garotos não deixou Kaori aproveitar a última fatia de bacon restante em casa. Contar a história de Bella uma segunda vez a deixara mais perturbadora. Por sorte, tivera a ajuda de Cory e a própria Bella, complementando detalhes que esquecia.
— Estamos infectados e morando a menos de cem quilômetros do ponto zero — resumiu Gabriel. — Como somos sortudos.
— Claro — concordou Matheus sarcástico. Ele olhava desejoso para o prato de Kaori. — Mesmo depois de a sociedade cair, ainda somos um bando de perdedores.
— E azarados — acrescentou Laura. Kaori notou que a mão dela estava pousada delicadamente sobre a de Vic. Pensou no final da tarde do dia anterior e teve um pressentimento.
Kaori pigarreou ao terminar sua refeição. Olhou para o prato vazio e soltou um suspiro. Era o último bacon que comeria em semanas, talvez até na vida. Ela não guardara nenhum outro pedaço — esconder aqueles dos outros moradores da mansão já fora difícil. Ela continuava se perguntando como Cory quase que todos os dias aparecia com uma latinha de Coca durante o jantar.
— Estou pensando em ir a Nashville — disse Kaori, esquecendo-se dos bacons.
Fernanda arregalou os olhos para ela. Cory prendeu a respiração enquanto Finny deixava cair a colher com que comia seu enlatado. Bella não falou nada, apenas permaneceu encarando Kaori sem nenhuma expressão no rosto.
— Você enlouqueceu? — Gabriel verbalizou o pensamento de, pelo que Kaori sabia, metade das pessoas no cômodo. — Estamos bem aqui, não temos razões para se arriscar de tal forma.
— Eu posso oferecer meu GPS — disse Di calmamente com um sorriso escárnio.
Cory virou-se para ela, perplexo.
— Sofremos pra caralho para chegar aqui, perdemos metade do nosso grupo e conseguimos superar. Não vou perder essa tranquilidade novamente.
— Nós nunca teremos tranquilidade — disse Bella sombriamente. — Ainda não entenderam?
Um silêncio constrangedor caiu. Kaori sentia os olhos de Fernanda nela. Estava desapontada, magoada. Não acreditava que ela se oferecia mais uma vez para se jogar no mundo do lado de fora da cerca. Kaori murmurou um pedido de desculpas, encarando o chão, duvidando que Fernanda houvesse escutado.
— Eu voto por irmos — Finny quebrou o silêncio. Fazia tempo que Kaori não ouvia dele tão enérgica. Sorriu ao garoto orgulhosamente.
— Nós não vamos — contrapuseram Cory e Gabriel em uníssono.
— Vamos votar — sugeriu Victoria secamente. — Nós não somos uma democracia? Não queremos continuar humanos? Então votemos.
— Eu ainda estou em dúvida, não posso votar agora — reclamou Matheus, confuso.
Kaori assentiu, tentando manter a calma sobre a discussão que se instaurara sobre a mesa. Procurou ajuda nos olhos de Fernanda, mas ela estava ocupada demais dando comida a Ash para prestar atenção. Bufou, irritada, e soltou um grito ensurdecedor, e teve certeza de que os walkers lá fora tinham ouvido também.
— Vocês têm até o fim da tarde — ela estipulou, se levantando. — Decidam e farei o que vocês quiserem.
Terminada sua fala, saiu da cozinha com os punhos tremendo.
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