In The Hell

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Quarto de Kaori

10:04 AM

— Cory não vai... — Gabriel disse ao fechar a porta do quarto de Kaori, virando-se para a garota sentada na cama. Finny, ao lado dela, olhou-a preocupado. — Ninguém vai convencê-lo.

Kaori suspirou. Sabia que não iria persuadir Cory para ir à Nashville; ele estava determinado a permanecer na mansão. Pensar em não tê-lo como companheiro na viagem quase a fazia desistir. Cory era seu braço direito, ficar sem ele como apoio seria horrível.

— Eu também não vou. — acrescentou Gabriel em voz baixa.

A mão de Finny estendeu ao ombro de Kaori. A garota deu um meio sorriso, agradecida pelo apoio. Achava estranha a animação de Finny em sair da mansão, mas não poderia culpá-lo: as lembranças de Carol ainda deveriam assombrá-lo. Ela sabia que Finny não dormia em seu quarto há dias, utilizando um cômodo vago no último andar.

— Espera achar alguma cura em Nashville? — Gabriel continuou, sentando-se ao lado direito dela. — É impossível.

— Bella jamais mencionou o que aconteceu com o laboratório... — Kaori retrucou sabiamente. — Nós achávamos que éramos apenas a gente, e encontramos Bella. Qualquer chance vale.

Gabriel revirou os olhos, descrente. Kaori caiu de costas na cama, deixando os dois garotos sentados, num silêncio um tanto perturbador. A desaprovação de Cory e Gabriel — não mencionando Fernanda — lhe machucavam de alguma maneira. Ela sabia que estava certa em relação à sua escolha. Havia algo na capital há pouco mais de cem quilômetros dali. Não uma cura, como Gabriel sugerira, mas talvez um modo para que pudessem sobreviver. Uma colônia, talvez. Um modo antigo de vida em que poderiam se encaixar e viver.

Eles agiam como adultos, como se soubessem de tudo, quando a verdade era que eram apenas crianças soltas num mundo perdido. Ela queria provar aos garotos de que havia uma esperança. Um mundo de adultos que estivessem prontos a receberem e cuidar deles como pais. E o que Kaori daria para ser mimada pela mãe outra vez era impagável...

— Então, qual é o plano? — perguntou Finny, interrompendo seus pensamentos.

— Entrar, achar o CDC, não morrer — respondeu Kaori com o rosto entre as mãos. — Voltar assim que possível. Quem sabe com boas notícias.

— Me parece um bom plano.

Mesmo com os olhos fechados, Kaori podia sentir Gabriel julgando o garoto por apoiá-la nesta ideia maluca. Até ela tinha que admitir que talvez estivesse pirando completamente. Mas era por uma boa causa... Ela nunca arriscaria o grupo se não fosse por algo que valesse a pena. A maioria das suas ideias fora quase mortal — sair da cidade, entrar no condomínio ao lado, e agora essa —, mas era pelo bem do grupo.

— Você tinha que inventar essa no seu dia de folga, não é — Gabriel disse com uma risada, quebrando o clima tenso.

Kaori empertigou-se e ergueu os olhos para o garoto, confusa.

— Como assim?

— Ora, você deveria estar aproveitando a manhã de folga da Fêr e, ao invés disso, está aqui, conversando com a gente sobre a estupidez que está prestes a fazer.

Ela caiu de costas no colchão novamente, bufando irritada. Sabia que deveria estar fazendo outra coisa, algo muito mais importante que a discussão sobre algo que, para ela, já estava decidido. Votariam no fim do dia, mas Kaori iria de qualquer forma. Um sentimento de culpa atravessou seu corpo ao pensar em Fernanda no quarto ao lado, brincando com Ash sozinha enquanto ela estava ali com os dois garotos. Pensar nisso quase a fez levantar e correr para ela, abraçá-la e dizer que tudo terminaria bem.

Ainda não pensara no “fator Fernanda” na sua pequena excursão à Nashville. Considerando o olhar decepcionado que a garota havia lhe dado durante o café da manhã, era muita coisa a ser pensada. Fernanda estava bem, Kaori gostava de se lembrar, acostumara à rotina (mesmo se negando terminantemente a matar os walkers na cerca) da mansão e lembrava-se de tudo antes do coma.

A amizade entre Fernanda e Cory era uma coisa estranha para Kaori, mas necessária se por acaso os dois decidissem por não ir. Ela também observava Gabriel e o garoto parecia bem mais próximo de Fernanda do que antes, principalmente agora com o anel em sua mão. E ela odiava admitir, mas o garoto tinha jeito com sua garota. Eles faziam Ash rir e dizer algumas palavras mais rápido do que ela sonharia em fazer.

A garota era uma parte importante de sua vida naquele momento — possivelmente amais importante —; não a deixaria sozinha com uma pessoa que não confiasse. Seja lá quem fosse com ela à Nashville ou quem ficasse na mansão, sentiria segura em deixar Fernanda em suas mãos, por mais doloroso que fosse.

— Vou passar meu tempo com a ela. — disse Kaori de repente, se levantando. Gabriel e Finny se ergueram ao mesmo tempo, como se ficar no quarto de Kaori sem ela fosse desconfortável. Ela sorriu aos garotos. — Por favor, não me incomodem com isso e resolveremos mais tarde, ok?

Os dois menearam a cabeça em concordância.

— Deixem Cory fora do meu caminho — acrescentou antes de sair. — Se possível façam vocês todas as tarefas da Di, mas não me deixem topar com ele nos corredores.

Ouviu os dois murmurarem um irônico “Sim, senhora” em uníssono ao fechar a porta do quarto. Soltou uma risadinha e escutou a risada de Ash e Fernanda vindo da porta ao lado. Encheu o peito, pronta para esquecer os problemas e passar o dia todo ao lado da pessoa que mais amava.


Terceiro Andar


— Você está bem? — perguntou Gabriel virando-se para Finny seriamente assim que saíram do quarto de Kaori, caminhando pelos corredores do andar lentamente.

— Estou — respondeu Finny franzindo a testa. — Por quê?

— Ah, essa sua animação para ir à cidade — Gabriel disse dando de ombros. — É estranha.

— Eu não vou ficar chorando por Carol o tempo todo. Ela não deixaria que eu fizesse isso.

Gabriel assentiu, surpreso com o tom duro de Finny. Estava feliz por ele, no entanto. Ele havia finalmente superado a morte da namorada e podia agora seguir em frente, tal como Gabriel estava fazendo há mais de um mês.

— Pena que não temos mais garotas para nos distrair — disse ele com uma risadinha, subindo as escadas para o terceiro andar. — Seria uma mão na roda por esses dias.

O garoto meneou a cabeça, distante. A única garota que não era lésbica ou tinha uma relação muito estranha com a melhor amiga na mansão era Bella, porém, ela não se entregaria tão fácil para nenhum dos dois, como Gabriel sentia na necessidade de confirmar pelo menos um dia na semana.

Talvez devesse ir à Nashville com Kaori, pensou o garoto com um sorriso bobo. Se houvessem mesmo sobreviventes, as possibilidades de existir uma garota para ele seriam bem grandes. Balançou a cabeça, em negação, quase no mesmo instante. Não poderia deixar recair por uma coisa idiota dessas. Era errado ir à cidade, sair da mansão. Estava com Cory nessa. Kaori e Finny eram loucos em tentar isso.

— Acho que eu gosto dela — disse Finny em voz baixa ao entrar no quarto. Gabriel, perdido em pensamentos, abriu a boca e fechou de novo, confuso. — Bella, eu digo.

Ele arregalou os olhos e fechou a porta num estrondo. Gabriel ainda sentia o amor por sua ex pulsando por suas veias e, mesmo à procura de uma garota e dando em cima de Bella quase todos os dias, sentia falta dos carinhos da mulher. Sentia falta de ter uma namorada.

— Oh — fez Gabriel inseguro. — Isso é...

— Péssimo, eu sei — completou Finny se afundando na poltrona ao lado de sua cama. — Carol acabou de morrer. Deveria estar de luto até o fim da minha vida e aqui estou eu, apaixonado por uma garota do condomínio ao lado que salvou minha vida.

A boca dele se abriu num esgar. Ficou calado por um bom tempo, se perguntando o que dizer ao amigo. Permaneceu olhando para o chão e parado no portal, balançando os braços estupidamente.

— Carol se matou por minha causa — disse Finny, enfiando o rosto entre as mãos. — É minha culpa. Eu não deveria ter dado tanta atenção à Bella quando ela chegou aqui. Se, por um segundo, eu tivesse ouvido Carol, me importado com ela, talvez ela estivesse aqui.

Gabriel engoliu em seco. Mais uma vez, desejou saber o que dizer a Finny. Ele, em algum lugar no passado, sentira-se culpado pela morte de sua ex, sabia o que o garoto estava passando.

— Olha... — Gabriel começou a falar lentamente, se aproximando de Finny — a morte de Carol não é e jamais será sua culpa. As pessoas não são obrigadas a aguentar tanto sofrimento. Elas podem se livrar da dor a qualquer momento. Não é justo, entretanto, a dor que elas deixam para nós lidarmos.

Finny levantou a cabeça, os olhos cheios de lágrimas. Olhou para o garoto, que deu um sorriso bondoso, dando tapinhas no ombro dele.

— É um ato egoísta, mas pense bem, Carol em algum lugar lá no Céu, deve estar tranquila, vigiando você — terminou Gabriel, sentando no braço da poltrona. — E provavelmente implorando por sua felicidade.

— O que quer dizer com isso? — indagou Finny em tom de dúvida, enxugando as lágrimas que teimosamente caíam por suas bochechas.

— Que acho que você devia ir fundo com a Bella! — exclamou Gabriel, batendo nas costas de Finny com força. — Qual é, a garota é uma gata, muito inteligente, e vocês estão sozinhos num andar assombrado.

Gabriel balançou a cabeça, concordando com o próprio argumento, enquanto Finny o olhava como se fosse louco. Ele queria achar uma nova garota, mas os poucos olhares que Finny e Bella trocavam nos últimos dias eram profundos. Gabirel não poderia interferir na conexão entre eles, seria errado.

— Se vocês forem viajar, avance um pouco — ele sugeriu olhando no relógio. Estava quase na hora de preparar o almoço com Matheus e ouvir os papos brasileiros dele. — Converse com ela por mais de dez minutos sem babar.

O comentário tirou uma risada fraca de Finny. Gabriel sentiu orgulho do próprio feito, levantou-se e deu tapinhas nas costas do garoto outra vez.

— Eu tenho que fazer o almoço, mas você vai ficar bem, não vai? — perguntou ele, olhando de esguelha para Finny.

— Claro — respondeu o outro, dando um aceno rápido para Gabriel, que já estava escorado no portal.

O garoto fechou a porta do quarto satisfeito. Passou por Bella ao descer as escadas, sorrindo à garota. Ela também o cumprimentou, um tanto acanhada.

Um dia Gabriel se desculparia pelo comportamento idiota que tinha perto dela, mas não hoje. Estava ocupado com as latinhas de comida do almoço e a votação no começo da noite. Ele deixaria a garota para Finny naquele dia: Bella e ele mereciam um tempo.


Quarto de Cory e Di


— Ei — chamou Cory aninhando mais Di em seu corpo. — Eu te amo, sabia?

— E eu deveria estar lavando a louça — retrucou Di, tentando se afastar do corpo quente do namorado. — Tenho que levantar, Cory.

O garoto riu e apertou mais Di contra seu corpo, impedindo-a de sair da cama. Cory tivera as últimas duas horas passadas com a namorada; em nenhum momento, no entanto, ele mencionara o apoio insano que a garota dera à ideia maluca de Kaori. Não achava que a rara parte depois do almoço que possuíam merecia um assunto que se referia ao grupo todo.

Uma coisa que não saía da sua cabeça, contudo, era o fato de querer pedir Di em casamento, feito ao que parecia ser muito tempo atrás. Desde quando mencionara à Kaori no dia anterior, Cory não parava de pensar nisso. Não concordava ainda com a ideia de se casar aos dezoito anos mesmo no mundo em que viviam, mas o anel no dedo de Fernanda só lhe fazia lembrar o quanto amava Di e o quanto tinha plena certeza de que queria passar o resto da vida com ela. Se ao menos pudesse arranjar um anel de um dos walkers que matava na cerca...

— Di? — chamou Cory mansamente, acariciando a barriga da namorada por baixo da blusa. — Lembra-se de quando estávamos cuidando de Ash há algum tempo? E você...

— Falei que queria casar contigo? — ela completou com uma risada. — Lembro-me muito bem, você me renegou. Ainda estou chateada em relação a isso.

Foi a vez de Cory rir, constrangido.

— Eu quero me casar com você — sussurrou Cory no ouvido de Di. Sentiu a garota estremecer em seus braços. — Eu te amo e vou viver até o último dia da minha vida contigo. Casar-me com você só tornaria isso mais real.

Di virou-se para Cory e beijou seus lábios suavemente. Cory acariciou a cintura da garota e correspondeu o beijo com intensidade. Ela sorriu entre o beijo, entrelaçando suas pernas nas de Cory, subindo por cima dele.

— Eu... te... amo... — murmurou Di beijando a face de Cory entre as palavras. — Te amo pra sempre.

Di parou de distribuir beijos pelo rosto do namorado e deitou-se ao lado dele, voltando a abraçá-lo. Cory sorriu ao perceber que acabara de noivar. A ideia não lhe assustava mais. De alguma forma, sempre imaginou que se casaria com Di. Afinal, ela era seu primeiro e único amor.

Talvez fosse por isso que estivesse tão nervoso em relação à maluquice de Kaori. Não queria que nenhum deles fosse. Entrar numa cidade era mortalmente perigoso — a sua aventura no vilarejo durante a viagem para o Tennessee mostrava isso. Milhões de pessoas sitiadas dentro de pouco espaço significava walkers, muitos walkers. Cory, embora confiasse no julgamento e capacidade de Kaori e Di, não queria perder sua namorada e uma de suas melhores amigas ao mesmo tempo. Apenas pensar nisso já era doloroso demais.

Seria por isso então que relembrara à Di a proposta? Para ter com o que pensar, se manter ocupada, na esperança de algo? Pois se ela e Kaori realmente quisessem continuar com aquela loucura, Cory passaria todos os dias sem a presença delas na mansão para procurar e acertar os passos para o casamento perfeito (e quem sabe uma ajudinha de Fernanda, também?). Ou pelo menos o quão perfeito um casamento pode ser num apocalipse zumbi.

— Você vai me dar um anel? — perguntou Di em um tom brincalhão que assustou Cory. Ele endireitou o corpo, tenso.

— Ahm... — o garoto fez; o toque da namorada não parecia mais tão quente. Sentiu-se corar. — E-eu...

— Eu não quero nada não, bobo — retrucou a outra rindo. — Só estar aqui com você é o melhor presente de todos.

Cory tentou acompanhar a risada de Di, mas sentiu-se pior que antes. Se Kaori poderia sair acompanhada com Gabriel e Ash para buscar flores e coincidentemente achar um walker que fosse casado antes de morrer, ele, também podia. Nada era complicado demais para ele.

— Agora, por favor, me deixe ir — pediu Di carinhosamente, se soltando do abraço de Cory e levantando. — Aquelas louças não vão se lavar sozinha, sabia?

Di deu um selinho demorado de despedida em Cory. Ele ficou parado observando a namorada sair do quarto aos pulos, animada, e escutando suas exclamações dois quartos adiante para Matheus e Laura, pedindo para eles lhe ajudarem com a louça.

Cory continuou estirado na cama por um bom tempo, sem ter vontade para levantar. Pensou em dormir um pouco, aproveitar de fato a folga, mas a preocupação da iminente votação que seria feita as seis o deixava tenso. Precisava fazer algo para impedir Kaori, talvez falar com ela ou sei lá. Não poderia deixá-la fazer uma estupidez tão grande.

Irritado, imaginou que ela iria nessa loucura da mesma maneira. Ela tinha galões de gasolina à sua disposição no terraço para o Cadillac, tinha Bella ao seu lado para guiá-la até Nashville. A garota era muito cabeça dura. A forma que Cory vira os olhos dela durante o café da manhã só demonstrava isso.

Soltou um suspiro cansado e vencido. Na forma de votação, pelo menos, ele não teria de se preocupar com os carros saindo no meio da noite da mansão. Mesmo votando contra, ele se sentiria menos louco de preocupação assim.


Sala de Estar


— São quase seis horas — ponderou Kaori na sala de estar, olhando para o relógio de pulso. — Vamos votar.

Todos estavam mortalmente quietos. A garota estava na frente da TV de tela plana e os encarava com determinação. Chegara ao momento chave de todo o dia: iriam decidir se o grupo deveria à cidade ilegal ou legalmente. Kaori apontou para Matheus, o mais perto dela sentado numa das cadeiras trazidas da cozinha.

— Acho que vocês devem ir — disse o garoto nervoso, seu sotaque se intensificando. — Nossas reservas estão pela metade, então acho melhor que pudéssemos, não sei, ajeitar isso logo.

Kaori virou-se para Laura, que tinha no colo um quadro e uma caixa de giz branco achado no porão. A garota acenou e marcou no lado “À Favor” uma barra. Ela ergueu a mão, temerosa.

— Eu voto por não ir — disse a garota, olhando para Cory. — Estamos bem aqui. E-eu acho.

E marcou rapidamente uma barra no lado “Contra” do quadro.

Kaori lançou um olhar fulminante na direção de Cory. O dia de folga dele com certeza fora para ficar o resto da manhã com Di na cama e ganhar votos para sua campanha contra a viagem. Ela não queria realmente começar outra briga com o garoto, por isso, manteve-se quieta.

A votação seguiu. Bella, Finny e Di votaram a favor, dando um monte de razões que Kaori achava tolas e interessantes ao mesmo tempo, para que pudessem acompanhá-la. Victoria lançou um olhar culpado a Laura, e também votou a favor. A garota, emburrada com a “namorada” — Kaori não sabia direito onde o relacionamento de dois dias estava —, marcou com o giz no quadro com tanta violência que fez um barulho insuportável.

— Obrigado, Victoria, muito obrigado — disse Gabriel com azedume quando Ash começou a chorar. Depois, olhou para Kaori, sacudindo a filha nos braços. — Meu voto é contra.

Kaori assentiu. Gabriel era o escudeiro de Cory nessa. Os dois sorriram entre si, mesmo sabendo a derrota iminente. Cinco pessoas, além de Kaori, haviam votado a favor. Só restava o voto óbvio de Cory e, Kaori engoliu em seco ao lembrar-se de Fernanda.

Seus olhos correram na direção da garota, encolhida a um canto do sofá ao lado de Bella. Ela parecia perdida, completamente alheia ao mundo em seu redor. Fernanda tinha seus olhos focados no teto com uma expressão vagamente interessada. Pigarreou para chamar sua atenção, e chamando seu nome logo após.

— Não — Fernanda murmurou. — Não, voto por não.

— Você vota contra — Bella corrigiu gentilmente, lançando um olhar preocupado à Kaori.

— Não me importa — disse, deixando a cabeça cair lentamente sobre o braço do sofá.

Kaori fez menção de ir ao encontro de Fernanda no sofá, quem sabe levá-la para cima e deixá-la dormir um pouco. Seu compromisso com o grupo, no entanto, a fez ficar parada no meio da sala de estar, fixando o olhar em cada um deles profundamente.

— Parece que ganhamos — disse Kaori um pouco rápido demais, checando o quadro que Laura segurava. — Quem vai?

Matheus e Victoria se entreolharam. A resposta estava óbvia demais; Kaori jamais deixaria os dois saírem, mesmo em sua companhia. Seria, claramente, Di, Bella, Finny e ela a se arriscar no mundo lá fora. Definitivamente, o grupo mais interessante do qual participara.

— Podemos partir amanhã depois do almoço — Bella sugeriu. — Teríamos que passar a noite em Nashville, mas procurar durante o dia é muito melhor do que à noite.

— Ótima ideia — falou Di, recebendo um olhar assassino de Cory.

Quando os dois começaram a discutir em cochichos e os garotos iniciaram uma conversa sobre alimentos, foi que Kaori notou o sumiço da garota recostada ao braço do sofá quase adormecendo. Vasculhou a mente à procura do momento em que Fernanda sumira, mas percebeu que estava muito ocupada com os outros para notar.

— Estamos encerrando aqui. — A voz de Kaori se elevou sobre todas as outras, poderosa. — Di, Bella e Finny vocês tratem de arrumar tudo para amanhã. Eu sei que é cedo, mas boa noite.

Recusou-se a responder as perguntas de Cory, deixando que elas a seguissem pelo corredor, enquanto corria pelas escadas para seu quarto.



Quarto de Kaori


— Eu apenas não entendo — desabafou Fernanda, os braços cruzados em defesa aos movimentos e aproximação de Kaori. — Não entendo por que você quer ir à Nashville.

— Ninguém entende — murmurou Kaori, irritada. — Pode haver seres humanos lá. Vivos.

Mesmo assim, Fernanda não entendia. Ela não queria ir à Nashville, não queria ir a lugar algum. As lembranças da viagem até ali não saíra de sua mente ainda. Fernanda não queria Kaori longe para falar a verdade, muito menos sair da mansão com ela. Era perigoso demais. Infelizmente, perigo parecia ser um atrativo e tanto para Kaori.

Elas estavam indo tão bem, caramba. Todos estavam, na verdade. Finny voltara a sorrir na noite anterior quase da mesma forma que sorria antes da morte de Carol; Cory e Bella estavam parando finalmente de discutir; Laura e Victoria aparentavam ter, finalmente, algo além de amizade. Por que Kaori não estava satisfeita com isso? Por que ela sempre tinha que procurar alguma aventura possivelmente fatal?

— Você não vai — disse Fernanda determinada.

— O quê? — indagou Kaori, arqueando a sobrancelha.

— Você não vai — repetiu, dessa vez mais alto. Fernanda olhou para Kaori, os olhos esbanjando um pouco de raiva

. — Eu não vou deixar.

Fernanda pode jurar que ouviu Kaori dar uma tossida fraca que mais parecia uma risada. Respirou bem fundo e a encarou, irritada.

Kaori se imaginava forte — Fernanda jamais duvidara disso —, mas também pensava que não valia muito na vida das pessoas. O que Kaori não sabia era o efeito que tinha sobre Fernanda. Ela não tinha nenhuma ideia do quanto Fernanda a amava, do quanto ela não queria deixá-la ir.

— Anjo... — chamou Kaori numa voz suave, se agachando na frente da namorada que sentava na cama com os braços cruzados. — Ir à Nashville era um dos meus planos. Agora com a história de Bella, as coisas fazem mais sentido. E se ainda houver gente trabalhando? Não podemos ser os últimos seres humanos nos Estados Unidos.

Fernanda assentiu. O lado racional dela não parava de gritar aquilo na sua cabeça, que Kaori estava correta em ir à busca de gente nova. Mas seu lado um pouco sentimental negava tudo. Poderia ser até um ato egoísta, mas Fernanda não fazia ideia de como sobreviver naquele mundo sem Kaori.

— Você não entende, não é? — perguntou ela um tempo depois, com as mãos postas nos joelhos de Fernanda.

— Não.

— Ficar com você foi a melhor coisa que já me aconteceu. Se não achasse que isso não iria trazer nenhuma ajuda, acredite, eu não faria. Mas anjo, eu...

Kaori ficou quieta, sentando ao lado dela na cama e abraçou-a fortemente. Beijou-lhe o topo da cabeça; Fernanda podia ouvir a respiração pesada de Kaori encher seus ouvidos.

— Eu te amo — disse Kaori no ouvido de Fernanda, mordendo-lhe o lóbulo da orelha.

— Eu te amo — respondeu Fernanda, sentindo os pelos da nuca eriçar por causa do ato.

Levantou a cabeça e uniu seus lábios. Fernanda continuou a beijá-la, mesmo parecendo que Kaori quisesse interromper e dizer algo. Kaori, depois da fraca tentativa de falar, se entregou e correspondeu aos beijos de forma desesperada. Fernanda tentava acompanhá-la, desgrudando-se da garota ocasionalmente em busca de ar.

Sem Ash para atrapalhá-las como mais cedo, sentia-se livre. Ela permitiu que a língua de Kaori explorasse o interior de sua boca muito mais rapidamente. Agarrou-se aos cabelos escuros, forçando-a cair na cama por baixo dela.

Fernanda se aprumou ligeiramente em cima de Kaori, encaixando os quadris dela entre suas pernas, sequer tendo tempo para respirar propriamente. Kaori desceu uma mão para suas pernas, alisando-as e apertando-as enquanto a outra enfiava entre sua camisa de flanela que Bella rasgara um dia.

Das outras vezes, Fernanda aparentava ter certo autocontrole sobre suas ações e reações. Agora, entretanto, a sua vontade se concentrava em tomar Kaori para si de uma forma que nunca fizera antes. Fernanda esquecera de que segundos antes estava irritada com a morena na sua frente, que não queria que Kaori viajasse... para onde mesmo? As mordidas dela em seu pescoço e os gemidos da garota não deixavam Fernanda raciocinar direito.

Quando ela percebeu, estava sem a camisa xadrez. Fernanda sentava em seu colo, ajoelhada, e rebolando por cima de seus quadris. Assustada com o próprio feito, ela parou os beijos de Kaori em seu busto e encarou a garota, temerosa.

— O que foi? — perguntou Kaori, acariciando a barriga da garota carinhosamente, não a deixando sair de seu aperto.

— Eu não... — Fernanda sacudiu a cabeça enquanto Kaori voltava a distribuir beijinhos em seu pescoço — Não... Anjo, eu não...

— Anjo, silêncio — sussurrou Kaori entendendo o que a garota queria. — Apenas relaxe tá bom?

Fernanda suspirou, puxando os cabelos de Kaori, deixando a boca da garota a milímetros da sua. Olhou profundamente nos olhos escuros e belos dela, mal se atrevendo a respirar. Ela engoliu em seco e se permitiu beijar Kaori calmamente.