In The Hell
18 in the hell 17
Quarto de Kaori
Os braços de Fernanda englobavam o corpo pequeno de Kaori pela manhã. Ela se aninhava na garota, querendo por tudo no mundo que uma da tarde nunca chegasse, que pudesse permanecer Kaori em seus braços para sempre.
— Ah... — Kaori fez um ruído estranho ao abrir os olhos, tirando por instinto as mãos da cintura de Fernanda.
— Não, não! — exclamou Fernanda num sussurro, puxando o braço de Kaori de volta ao lugar original. Kaori podia ouvir seus suspiros pesados, indicando que voltara a dormir.
A manhã estava relativamente fria, mas o calor do corpo de Kaori a esquentava. Acariciava as costas da mão da garota como um ato quase inconsciente, tentando forçar as lágrimas para dentro outra vez.
Ela segurava as lágrimas porque já era de manhã e dali a pouco ela teria de vestir a roupa e cair na estrada para Nashville.
Mais uma vez, ela se sentiu como aquelas garotas durante a guerra, que se casavam e transavam com seus maridos na lua de mel para que depois, na manhã seguinte, eles fossem embora lutar no front. No caso, ela era o marido.
Sabia que Fernanda não concordaria com aquela viagem nunca, ainda acharia uma grande estupidez mesmo se eles voltassem em carruagens de ouro que vinham com a cura para os walkers pintada na parte de trás dela. Ela não queria ficar sem Fernanda outra vez.
O movimento do corredor do segundo andar aumentava à medida que os minutos da manhã passavam. Kaori não descera para o café da manhã e agora sua barriga esquentada pelo toque de Fernanda roncava. Não sentia vontade nenhuma de levantar, pois isso significava acordar para a viagem.
Ainda assim, as pessoas que viviam naquela mansão não sabiam disso, e foi pensando nesse pequeno fato que Kaori, quase soltando fumaça pelas narinas, escutou as batidas calmas na porta do quarto.
— Kaori? — perguntou a voz de Bella educada, batendo mais insistentemente na madeira. — Você tem que arrumar sua mochila, só avisando. Vamos partir em uma hora.
Uma hora? As entranhas de Kaori deram uma volta completa. Não era possível que já passasse das onze da manhã. Não era possível que havia passado tanto tempo acordada e abraçada a Fernanda. Ouviu os passos de Bella se distanciando ao não obter resposta. Fernanda, após os barulhos tão próximos, finalmente acordou.
— Oi — disse ela sonolenta, depositando um beijo na testa de Kaori. — Como passou a noite?
— Sendo chutada, como sempre.
Fernanda riu. E Kaori fechou a cara e se virou para o outro lado da cama, fazendo drama. Como Fernanda sabia que era apenas drama dela, permaneceu no mesmo lugar, dando mais outra risada da reação da namorada.
— Droga — Fernanda escutou Kaori murmurar.
Ela riu mais ainda ao virar-se para Kaori e encontrar o rosto dela mais uma vez tão próximo do seu. Afagou delicadamente a bochecha de Kaori, dando-lhe um selinho.
— Eu te amo. — Fernanda sussurrou, entrelaçando seus dedos nos de Kaori
— Eu te amo. – Kaori deu um selinho demorado em Fernanda.
As duas ficaram um tempo se olhando, Kaori esperando que o tempo parasse; que pudesse ficar com a garota naquela mesma posição para sempre. Pelo menos, ela pensou enquanto Fernanda dava um beijo apaixonado, teria essa lembrança para se agarrar durante o período em Nashville.
— KAORI! — A exclamação de Cory encheu o quarto inteiro, fazendo as garotas sobressaltarem. Maldito Cory, pensou, contendo sua expressão de raiva. — Acorde, anda! Você vai levar minha garota para uma viagem mortal e quer ficar dormindo, é?!
Kaori e Fernada se entreolharam, e caíram na risada. Talvez fosse o nervosismo que começava a lhe consumir ou o tom irônico de Cory que a fizera rir tão loucamente como não fazia em muito tempo, ela não sabia. A situação jamais mereceria nenhum sorriso, afinal Kaori só voltaria em dois dias, no mínimo, porém ela não tinha controle de seus músculos da face. A dor talvez pudesse ir embora através das risadas, pensou.
— Beleza... — Kaori arfou, respirando com dificuldade depois do ataque de risadas. Pelo silêncio que fazia no corredor, Fernanda imaginou que Cory tivesse se irritado com as risadas e ido embora. — Vou me trocar, arrumar minha mala.
Fernanda assentiu, parando de rir.
Quintal da frente
Di se agarrava ao corpo de Cory com força. Não queria soltá-lo, mas sabia que teria se quisesse ir com Finny, Kaori e Bella a Nashville. Ela abriu os olhos e percebeu que Kaori continuava acariciando os cabelos de Fernanda, com Ash em seu colo, então imaginou que teria um pouco mais de tempo.
Ela fungou na curva do ombro de Cory e soltou-se um pouquinho dele, o bastante para fitar os olhos castanhos dele. Ela riu, por que a situação chegava a ser até engraçada: Cory era sempre taxado o durão da relação e agora estava com seus olhos marejados.
— Eu vou ficar bem — ela disse com ar de riso enquanto Cory batia nela de leve no ombro, alegando que “não tinha sentimentos”. — São só uns quilômetros. Eu volto daqui a dois dias, beleza?
— Beleza — ele murmurou, cometendo o erro de lançar um olhar a Kaori, que observava tudo com um sorriso brincando pelos lábios.
— Que garoto forte você tem aí, Di — provocou ela em tom de brincadeira. Fernanda riu timidamente, pegando Ash no colo e deixando Kaori se aproximar de Cory.
— Vá tomar no cu, Kaori. — disse Cory entre dentes. — Ou não cuido da sua garota.
Kaori riu.
— Se for assim, então, eu não tomo conta da sua — ela retrucou, fingindo um tom ameaçador.
Di estava prestes a interferir, se colocar entre eles, temendo uma briga de verdade, quando Cory puxou Kaori para um abraço de urso. Ela ergueu as sobrancelhas, surpresa, seu olhar encontrando o de Fernanda. Elas riram ao mesmo tempo, sempre impressionadas com a amizade bipolar dos dois.
Ao se soltarem, Kaori deu tapinhas nas costas de Cory.
– Vou cuidar da sua garota. – Kaori disse sorrindo e Cory assentiu.
– Eu sei, vou cuidar da sua também. – Cory sorriu para Kaori, e os dois sabiam que aquilo era pra valer.
— Ei, gente! Vamos! — Finny chamou, acenando na direção deles, terminando de colocar a mochila de Kaori no porta-malas do Impala (Kaori não aceitou viajar no Cadillac de Gabriel nem na minivan de Finny, argumentando que seu carro dava sorte; para o quê, Di não fazia ideia).
Di deu um último beijo em Cory, e abraçou Fernanda rapidamente, fazendo algumas caretas para Ash. Sorriu à Matheus, Laura e Victoria e entrou no banco da frente do Impala ao lado de Kaori, a motorista da vez. Bella e Finny iriam atrás.
— Não usem o gerador demais! — Di exclamou ao parar no portão da cerca que Gabriel estava abrindo.
— Sem problemas! — o garoto respondeu com um olhar triste no rosto enquanto acenava para o carro, que acelerara na rua, enferrujado por ter passado tantos dias parado.
Kaori, para diminuir o clima pesado, ligou o toca-fitas, deixando o som de Bon Jovi tocar alto. Di olhou para trás, ignorando Bella e Finny, os olhos postos na mansão deles, que se afastava à medida que Kaori pisava fundo. Suspirou, animada pela nova aventura. Mesmo se não achassem nada de útil, ainda seria uma viagem e tanto.
Benders Ferry Road
A cena parecia se repetir interminavelmente. As casas pelo caminho se mostravam parcial ou completamente destruídas. Walkers caminhavam pelos campos sem notar a presença do Impala próximo a eles. O fedor de morte os rondava moribundamente. Quase sempre, ela lançava um olhar preocupado à Di, mas a garota respondia com um sorriso, o que a deixava um pouco mais tranquila.
Embora o tempo passado vendo o horror que o mundo se tornara parecesse a Kaori interminável, a viagem durou pouco. Ela não tinha sequer terminado de ouvir Breakout quando Bella apontou para as muralhas construídas às pressas para abrigar a população de Nashville e fazer com que eles pudessem ter uma mínima chance de sobrevivência. Kaori suspirou; suas lembranças estavam em sua antiga cidade, a maldita cidade onde crescera e vivera até seus dezoito anos, também sitiada. Também cheia daquelas criaturas miseráveis.
— Estamos na esquina da Benders Ferry Road — disse Di, checando seu amado GPS. — A mais ou menos quarenta quilômetros do centro de Nashville.
Ela olhou confusa para Bella enquanto Kaori parava o carro embaixo de uma árvore que considerava segura, desligando o cassete e tirando sua pistola do coldre, pronta para matar o primeiro errante que lhe aparecesse. Finny também se armara, os olhos postos do lado de fora do Impala.
— O cerco deles envolveu a região metropolitana também — disse Bella pensativa, colocando a mão no queixo. Di franziu a testa a ela pelo retrovisor. — Mas não foi completo, pois Horn Springs também é parte de Nashville, da Grande Nashville.
— Aposto que eles morreram antes de terminarem — comentou Finny sombrio, arriscando um olhar a Bella. Kaori percebeu que seus olhos queriam dizer algo além daquilo, mas ela não quis interromper os sentimentos do garoto.
— É... talvez isso — murmurou Bella, trancada em seu mundo.
Kaori e Di se encararam, aquela dando de ombros; Bella não parecia capaz de expelir uma palavra, e foi o que a garota fez nos próximos minutos. Finny continuava vigiando o lado de fora com Kaori, indicando, a poucos metros, quatro walkers caminhando na direção do carro.
Ela queria levantar e matá-los com seu facão, mas algo no toque de Finny a impediu. Di se prepara também, enquanto Bella ainda permanecia em seu estado de pura concentração — e Kaori realmente estava começando a pensar que nem uma manada de errantes poderia assustar a garota. Quando os errantes chegaram terrivelmente perto, ela pediu a Finny para cutucar Bella no ombro, implorando para que a forma de vida da garota ainda continuasse lá dentro.
— Eu estou bem, não se preocupem — Bella finalmente falou. — Estou revendo o CDC na minha cabeça, as saídas, as entradas, tudo. É meio complicado.
— Você deveria nos dar uma informação de como entrarmos em Nashville — alfinetou Di, tirando o facão que Cory emprestara do nada e decepando um errante que apareceu em sua janela. — Se nós chegarmos lá, poderemos pensar em entrar no CDC.
Kaori assoviou para a Di maldosa que sempre aparecia em situações de risco, e matou seu próprio walker na janela ao seu lado. A garota rolou os olhos para Bella e abriu a porta do carro com violência, terminando o trabalho do lado de fora. Respirou o ar relativamente puro embaixo daquela árvore e imaginou que seria um bom esconderijo para caso precisassem passar mais um dia em Nashville.
Naquele ponto, tão próximos mas tão distantes, Kaori sabia que passariam a noite ali, rodando pelo círculo murado feito pelos militares durante o período de desespero, procurando uma forma de entrar sem serem vistos, tanto por possíveis humanos quanto walkers. As mochilas cheias de lanches e sacos de dormir eram previsíveis — uma boa ideia de última hora vinda de Bella.
Di começou a discutir com Bella sobre como seu GPS iria salvar a vida deles, mas a garota não queria ouvir aquilo. Ela caminhou lentamente pelo mato crescente da beirada da estrada, o ouvido pronto para algum tipo de farfalhar estranho, e parou em frente ao muro alto. Ele teria de ter pelo menos cinco metros de altura, feito de concreto fortíssimo e possivelmente indestrutível por várias gerações.
Dava náuseas olhá-lo até em cima, de tão alto. Kaori cutucou-o com o facão, tentada a arremessá-lo contra o muro, achando a ideia até divertida. Ao pensar que provavelmente perderia sua alma gêmea com Cory, seu sorriso sumiu. Manteve a expressão séria, lançando novos olhares críticos à muralha. Mas o som de passos vindos à sua direção, no entanto, a fez virar-se rapidamente, colocando o facão no pescoço de Finny, quase o cortando.
— Menos, Kaori — Finny disse se afastando de Kaori, conferindo se não perdera nenhuma pelinha ou sangue do pescoço. — Só vim dizer que já vamos. Bella e Di decidiram ir pela saída sul da cidade.
— E quanto tempo é daqui? — perguntou ela, colocando o facão preso novamente à sua perna, sentindo-se culpada por quase matar o garoto.
— Quarenta minutos. — O garoto deu de ombros, puxando Kaori e lhe dando um abraço de lado, acompanhando-a dessa forma até o Impala, onde Di e Bella, mal-humoradas, esperavam.
— Você gosta dela, não gosta?
A pergunta saiu dos lábios de Kaori acidentalmente. Ela não era responsável pela vida e saúde de Finny — pelo menos, não por completo —, mas a maneira que o garoto olhava para Bella a perturbava. Ainda era a mesma forma de quando eles haviam visto ela pela primeira vez. O brilho no olhar dele não tinha mudado nas últimas semanas. Só sentia curiosa para saber o que estava se passando entre eles, se Finny já tinha feito algum movimento após a morte de Carol.
— Preciso ter essa discussão com você? — Finny revidou friamente, o que fez Kaori pensar que alguém tinha dado uma dica a ele, Gabriel era o mais provável. O aperto do garoto ao redor de seus ombros começava a doer.
— Não... Só queria saber mesmo. Para que eu pudesse ficar longe do carro quando vocês começarem seus amassos.
Ela riu, cutucando a barriga de Finny para implicar. O garoto não resistiu e também soltou uma risada, mas calou assim que pararam em frente ao Impala, onde as outras duas esperavam, claramente irritadas.
— Isso fica aqui, ok? — sussurrou Finny no ouvido de Kaori antes de deixá-la entrar no banco do motorista.
— Sem problemas. — Kaori abriu um sorriso, ligando o carro e o sacudindo, apenas para que Finny fosse jogado para o lado de Bella.
Old Lebanon Dirt Road, Nashville
Bella conduziu Kaori pelas ruas desesperadoramente desertas que rodeavam Nashville, mordendo o lábio constantemente e pedindo umas informações para Di e seu GPS no caminho.
Ela não poderia estar mais nervosa em relação a entrar outra vez na cidade. A garota crescera ali, seus pais moravam em Lebanon desde bem antes de nascer. Durante o período de Harvard e da descoberta de uma pesquisa em Nashville, ela não hesitou em voltar a morar com eles, embora que, mesmo com os problemas familiares, a relação com os pais não fosse lá muito boa. Era bom estar de volta.
— Que escola enorme... — sussurrou Kaori ao passarem por um campus, onde ela vagamente lembrava-se de ter feito o primeiro colegial. — Nosso colégio não daria nem metade desse aqui.
Di e Finny concordaram em murmúrios. Ela deu de ombros, sinal claro que de não se importava para isso, e pediu para que Kaori virasse na próxima esquina. A escola provavelmente agora estava cheia de walkers; Bella se recordava de a cidade ter feito tudo para agrupar as pessoas em um mesmo lugar. Solução que agora ela pensava ser um tanto idiota. Quantas vidas poderiam ser salvas se o governo apenas os mandasse para o interior do país...
Soltou um suspiro, distraída, deixando que a rota do GPS guiasse Kaori. Em cerca de uma hora, estaria tentando ultrapassar a barreira humana em volta de Nashville. Um pouco mais tarde, estaria próxima o bastante do CDC. Bella estaria de volta ao lugar onde tudo começou. Pensava que poderia lidar com isso, mas a perspectiva de mostrar a eles como tudo acontecia dentro daquele laboratório (os testes, as surpresas, as moradias dos cientistas, tudo) era demais para ela. Finny e as garotas estariam invadindo um local dela. Era estranho.
— Olha lá! — exclamou Finny de repente, fazendo ela sobressaltar.
O garoto apontou para o lado direito e Bella pôde ver: uma parte do muro parcialmente destruída. A parede estava tão desgastada que o Impala poderia passar por ela, o que era, ao mesmo tempo, um bom e um mau sinal. Errantes poderiam estar espreitando por ali, escutando cada passo vindo do lado de fora, apenas esperando a oportunidade de aparecer e matá-los. Ela tivera experiências o bastante com os walkers para perceber que alguns deles simplesmente esperavam a comida vir, e que outros corriam atrás, como se alguma parte do cérebro deles ainda fosse ligada à humanidade de antes.
— Sinceramente eu esperava ir mais longe — comentou Di, parecendo aliviada. Ela, no entanto, ainda segurava o GPS com firmeza nas mãos. — Devemos parar por aqui?
Kaori deu de ombros, mas estacionou o carro no meio da estrada, já que ninguém mais iria dar a ela uma multa por ficar daquela forma. Ela sentou-se desconfortavelmente no banco para poder encarar Bella, esperando uma resposta.
— Entramos? — ela disse meio confusa. Não tinha certeza se teria outra entrada para Nashville, mas aquela começava a lhe dar calafrios. Estavam tão desprotegidos ali, no meio do nada, e ainda assim no meio de tudo. Seria o lugar certo, o que precisavam para chegar ao CDC?
— Teríamos que deixar o carro aqui — calculou Kaori, ignorando Bella. — E alguém para vigiá-lo.
— Não vamos nos separar — interferiu Di rapidamente. — Me dói o bastante ter deixado Cory lá na mansão, eu não vou deixar ninguém aqui fora.
— Mas naquela abertura passa o Impala — disse Finny, pensativo. — Talvez não precisemos deixar ninguém.
— Andar pelas ruas com o Impala só nos deixaria mais lentos — retrucou Bella, a determinação surgindo como um foguete nela outra vez. — Sabemos que o governo trancou todos aqui, mas não temos ideia de quantos foram. Pode ter sido a população da região metropolitana de Nashville toda, o que me leva a pensar que são, no mínimo, um milhão e meio de habitantes.
Todos se calaram, obviamente pensando em uma saída para isso, o primeiro problema deles. Bella tombou a cabeça no ombro, tentando se lembrar de como era sua vida cinco meses atrás, nas suas ações e os pensamentos. Era pouco tempo, mas tudo mudara rápido demais para se acompanhar.
— Uau, isso é muito — Finny disse dando uma risadinha nervosa. Bella riu também, fixando seu olhar nele. O garoto corou fortemente e voltou sua atenção a suas mãos. Kaori, no banco da frente, parou uma risada antes que Di lhe desse uma cotovelada nas costelas.
Bella franziu a testa. Elas sabiam? Sabiam que gostava de Finny, que queria tratar o garoto bem e fazê-lo dar risada sempre, por que esse som era o mais apaixonante de todos naquela mansão? Bella não fazia questão de ignorar as olhadelas de Finny, mas sentia-se extremamente desconfortável quando outra pessoa percebia. A comunicação silenciosa deles estava dando certo até agora, seria hora para avançar mais?
— Nós precisamos entrar — Kaori disse, revirando os olhos para os olhares compartilhados por Bella e Finny. — Por mais que isso doa em mim, poderemos deixar o Impala aqui, procurar um prédio vazio e nos esconder lá até o fim da noite, onde poderemos enfim achar o CDC pela manhã. O que vocês acham?
Era uma boa ideia apesar dos pequenos furos que Bella via aqui e ali. Di e Finny também concordaram com o plano de Kaori. Eles desceram do carro, matando alguns walkers que espreitavam, pegando suas mochilas no porta-malas. Kaori se encarregava de fechar o carro, não deixando nenhuma brecha para que nenhum errante ficasse preso.
Quando ela se agarrou a um galho da árvore acima deles que iria usar para esconder mais ainda o Impala, Bella resolveu ajudá-la. Ela não queria ficar lá parada enquanto os outros dois caminhavam através do mato, em direção ao muro arrebentado, esperando por walkers no caminho. Ela puxou sua faquinha, que de nada adiantaria ao facão de Kaori, e começou a cortar um galho relativamente mais fino que o dela, querendo começar um assunto, mesmo sabendo que era péssima nisso.
— Você não precisa fazer isso — Kaori disse, a expressão risonha diante das tentativas de Bella em cortar o galho. — É só um mesmo, e acho que esse já dá.
Bella suspirou, voltando a colocar a faquinha no bolso. Ela não era boa com a natureza; gostava de matar zumbis, não esquilos. Sequer sabia como sobreviveria sem estar no condomínio e rodeada por comida enlatada. Morreria de fome na primeira semana.
— Acha que vai dar certo? — perguntou a garota, ofegando após finalmente cortar o galho e colocá-lo em cima do Impala. Lá de longe, Bella podia ouvir os suspiros cansados e os movimentos das facas de Di e Finny. — Digo, esse lance de CDC e tudo mais.
— Minhas fichas estão todas nisso. — Bella sorriu tristemente. Sabia que Kaori estava fazendo aquilo somente para ter mais uns anos com a namorada, uma nova chance de viver o que poderiam ter vivido nos tempos antigos. — Nós vamos conseguir alguma coisa, os cientistas são afeiçoados demais a seus equipamentos, mas tenho certeza de que, no momento do desespero, deixaram algo para trás.
Kaori concordou com um sorriso, colocando a mochila no ombro e caminhando ao lado de Bella, daquela maneira de sempre, como se estivesse hipnotizada por ela. Pensava que isso mudaria quando elas se conhecessem melhor, mas pelo jeito não. Ela beijou o capô do Impala, soltando um suspiro, e encaminhou na direção de Di e Finny.
— Consegue ouvir os walkers? — perguntou Bella de repente, se segurando no braço de Kaori, a expressão apavorada.
— Desculpe? — Kaori franziu o cenho a ela.
Bella fez um sinal com o dedo indicando que queria silêncio. Ela observou atentamente seu redor, estreitando os olhos, podendo ouvir o que aparentemente ninguém mais ouvia: os gemidos, aqueles monstros que ela tivera severa participação na criação, lutando entre si em busca de um pedaço, mesmo o menor deles, de carne. Ela colocou as mãos na cabeça, tentando tampar os barulhos cada vez mais altos.
— Bella? — Escutou Kaori chamar ao longe preocupadamente. — Tudo bem?
Da mesma maneira rápida que chegou, os ruídos atormentadores saíram de sua cabeça. Bella engoliu uma quantidade desnecessária de ar, engasgou com sua própria saliva, mas deixou que as mãos caíssem. Seja lá o que fosse a magia bizarra que fora os momentos aterrorizantes, ela não queria passar outra vez.
— C-claro — ela gaguejou, empertigando o corpo e sorrindo nada convincentemente. — Vamos andando.
Naquele momento, Bella decidiu salvá-los. Ainda iriam entrar na cidade, mas ela os protegeria a todo custo. Por que ela não podia deixar aqueles garotos tão jovens e sofridos ficarem ainda mais traumatizados pelo inferno que ela sabia que viria ao colocar o pé para dentro do muro. Bella não poderia deixá-los morrer. Se as coisas ficassem feias demais, ficaria e lutaria para que eles tivessem uma chance de fugir.
Ela deu outro sorriso sôfrego à Kaori, agarrando-se à faca como se isso fosse custar-lhe à vida — pois de fato custaria. Engoliu em seco e pôs à frente do grupo. Ela respirou fundo e pisou para dentro do que costumava ser Nashville.
Lucky's Bar & Grill, Stewarts Ferry Pike, Nashville
Andaram por duas horas seguidas, parando apenas para que Di checasse seu GPS ou para matar alguns poucos walkers no caminho. Tudo parecia calmo demais, muito tranquilo para uma tarde de calor e Sol em meio a um apocalipse zumbi.
Finny suspirou cansado ao pararem pela terceira ou quarta vez, imaginando o que estaria fazendo se sua vida continuasse a mesma. Talvez usar clandestinamente uma das piscinas que Gabriel limpava... Ele sorriu com a lembrança e tomou um grande gole de sua garrafa d’água. Havia algumas mansões com piscinas perto da casa que eles moravam, tinha certeza que não seria muito difícil convencê-lo a limpar uma para eles, por pelo menos um dia “normal”.
— Legal, um bar! — exclamou Bella, animada ao ver um centro de conveniência há poucos metros. Finny riu, observando a garota correr com sua leveza natural até o estabelecimento. Parou, contudo, quando viu que Kaori e Di o observavam com olhares marotos.
— Eu acho que podemos parar, certo? — Finny disse evasivamente, desviando o olhar da parte de trás dela, seus cabelos louros balançando ao vento. — Faz um tempão que estamos caminhando.
— É... — Kaori olhou para Di, mal contendo o riso. — Acho que podemos, sim.
Finny olhou feio para elas, mas não teve tempo de revidar ou gritar com as duas: ao mesmo tempo, Bella tropeçou, de alguma forma, em seus próprios pés e caiu terrivelmente no chão. Ele sufocou um berro de desespero, porém o estrago já havia sido feito. O alarmante gemido que só podia significar walkers por perto se fez ouvir. Eram muitos, mais do que eles jamais haviam enfrentado antes.
Kaori não perdeu tempo e correu atrás de Bella, levantando-a rapidamente, observando seu tornozelo aparentemente quebrado. Finny apanhou a mão de Di com violência e correu para segui-las. Elas estavam no meio do centro de conveniência, atordoadas, pelo jeito sem saber como continuar.
— O bar! — apontou Bella desesperada, soltando um gemido de dor. — Vamos para lá!
Nenhum dos outros três negou a ideia. Di foi à frente, para abrir a fechadura com um grampo e toda sua inteligência desperdiçada durante os tempos antigos, enquanto Bella tentava se apoiar em Kaori e Finny. O garoto arriscou um olhar para trás e se arrependeu quase que no mesmo instante.
Uma manada vinha atrás deles. Cem, duzentos, trezentos walkers os perseguindo, correndo o mais rápido que podiam com seus cérebros lentos e pernas enviesadas. Alguns estavam próximos demais, e tudo o que Finny pôde fazer foi sacar sua pistola, mirar e torcer para que tivesse acertado os errantes na cabeça. Felizmente, Di os esperava já no bar com a porta aberta, fazendo sinais para que andassem logo.
Finny se encolheu diante dos tiros que Kaori dava. Ela empurrou Bella para dentro do bar sem nenhuma cerimônia, acabando por levar o garoto junto, e os dois caíram um por cima do outro. Bella gemeu de dor quando Finny tentou se mexer para poder levantar-se. Percebeu que pisara no tornozelo dela sem querer, mas logo se empertigou, puxando-a o mais longe possível da porta.
Kaori foi a última a entrar, alguns errantes se chocando contra a porta enquanto ela se contorcia para trancá-los no botequim e fechar as cortinas, deixando todos numa escuridão e silêncio totais, quebrado só pelos gritinhos de Bella. Di ligou uma lanterna e correu até onde Finny e ela estavam, abraçado um ao outro de uma forma natural. Kaori não fez piadinhas, apenas se agachou ao lado de Bella, desesperada.
— O que nós fazemos? — perguntou em um sussurro histérico. O garoto franziu a testa para ela, mas depois lembrou de que Bella era a única com algum conhecimento de medicina ali.
— Achem uma tala, um pedaço de madeira qualquer — instruiu a garota. Mesmo com as caretas de dor, ela não deixou a determinação de lado. Na escuridão, Finny podia sentir suas mãos apertando as dela. — E um pedaço de pano. Amarrem a madeira no tornozelo, isso vai melhorar a dor. Até acharmos um hospital, é o melhor que podemos fazer.
Elas fizeram o que eram lhes foi mandado rapidamente. Finny, por outro lado, permaneceu perto de Bella, englobando-a em seus braços enquanto Kaori atava o pedaço de madeira no tornozelo e o enfaixava o quanto podia com uma parte rasgada de sua blusa. Quando terminou o curativo, ela sentou-se ao lado de Bella e perguntou com o olhar se as coisas tinham dado certo.
— A dor tá diminuindo — ela disse, passando a mão no tornozelo, se desvencilhando de Finny. Olhou como se pedisse desculpas para elas. — Eu sinto muito. Foi uma babaquice parar aqui.
— Teríamos sido pegos se você não tivesse torcido o tornozelo — Finny retrucou com um sorriso bobo. Ele percebeu o que disse e meneou a cabeça negativamente para o próprio comentário. Como ele conseguia ser tão idiota perto das garotas que gostava, era um mistério tremendo.
— Além disso, olha só esse tanto de bebida! — exclamou Kaori num sussurro, abrindo os braços para provar sua fala. — Você não vai morrer hoje, Bella, tenha certeza.
A lanterna de Di iluminou o rosto da garota, que sorria para eles. Kaori levantou-se para verificar a porta do fundo e outras saídas de emergência que poderia haver no bar, deixando-os, ainda abraçados desnecessariamente, no chão. Di moveu a lanterna para longe dos dois, interessada em encontrar algum tipo de bebida não tão forte para que pudesse levar a Cory. Finny podia ouvir o zíper de sua mochila abrindo e fechando rapidamente, como se não pudesse decidir em levar somente uma.
finny estava com medo de dizer alguma coisa. Não queria estragar a relação silenciosa entre ele e Bella. Não queria ser um idiota falando algumas palavras bobas. Bella, pelo jeito, também não queria quebrar o silêncio, tão confortável entre eles. Aquela era a primeira vez em que os dois tinham um contato corporal, e achava que deveria manter assim, indo aos poucos.
Carol ainda assombrava seus pesadelos à noite; o garoto não queria “desonrar” a namorada. Nem mesmo a conversa com Gabriel no dia anterior, sobre sentir-se feliz pela garota estar num lugar melhor e que ela provavelmente queria que ele também fosse feliz, não entrava na sua cabeça direito. A ideia de ter um relacionamento com Bella continuava parecendo errada.
Entretido em seus devaneios, ele não percebera que Bella havia deitado a cabeça em seu ombro e agora fazia pequenos carinhos em sua mão. Finny sentiu-se corar até as orelhas, tendo quase certeza de que a quentura em seu rosto chegava ao da garota, somente pelas risadinhas dela seguidas de lamentos de dor.
— É, pelo jeito, teremos que passar a noite aqui mesmo. — Kaori voltou ao bar e Finny quase deu pulos de alegria. Poderia passar Bella a qualquer uma das garotas com uma desculpa realmente idiota, como vigiar a porta. — As saídas estão todas bloqueadas. Sei é que os walkers vão se dispersar durante a noite, o que pode ser nossa forma de escapar.
— E o GPS diz que há um hospital psiquiátrico há pouco mais de um quilômetro e meio daqui — informou Di, iluminada de modo meio assustador pela telinha do aparelho. Ela ergueu os olhos azuis aos garotos e sorriu. — Parece que temos tudo sobre controle. Quem quer comida enlatada?
Finny riu e se soltou de Bella para buscar sua parte das latinhas, acabando por pegar as da garota também. Sentou-se ao lado dela outra vez, estranhamente mais confortável enquanto discutiam sobre o que os outros deveriam estar fazendo naquele momento. Tentou manter o olhar em Kaori, mas seus olhos sempre desviavam para admirar, mesmo na escuridão parcial, os belíssimos olhos de Bella ou como ela, ainda com dores, comia educadamente — nada que não tivesse observado antes na mansão.
Toda vez que era pego, sorria desconcertante, abaixava os olhos e fitava sua latinha, se perguntando com seriedade quando seria capaz de iniciar uma boa conversa com Bella sem parecer um total idiota. Ele suspirou, um tanto deprimido, e pediu para que Kaori cuidasse dela, mas teve o pedido negado pela garota que colocava várias garrafas de bebidas em sua mochila enquanto bebia uma garrafa inteira de vodka.
– É tão bom voltar a beber. – ela disse meio alegre por já ter tomado meia garrafa praticamente sozinha.
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