In The Hell
15 in the hell 14
Cozinha
11:16 AM
— Pessoal! — Kaori chamou a atenção deles, que ocupavam a cozinha e conversavam em pequenos grupos. Ela bateu uma colher na panela mais próxima; todos silenciaram quase que instantaneamente. — Valeu pela atenção. É o seguinte: agora que, hm — Kaori lançou um olhar de relance na direção de Finny —, nós perdemos Carol, não temos mais ninguém para fazer, digamos, tarefas domésticas. Eu sei que alguns de vocês ajudavam, mas era ela que cuidava de tudo.
Kaori fez uma pausa, olhando para cada um de seus amigos com admiração. Ela pigarreou e continuou:
— Obviamente, precisaremos dividir as tarefas. Sem condomínio para ir ou viagens longas e cercas, creio que seria um bom recomeço para nós. Vamos cuidar dessa casa e mantê-la viva e funcionando nos moldes até sei lá quando isso continuar.
Seus amigos ainda permaneciam em silêncio. E ela se perguntou se estava fazendo a coisa certa. Sentiu Fernanda pegar sua mão, e o calor de seus corpos se tocando — o mínimo que fosse — deu a Kaori a energia necessária para prosseguir.
Ela se soltou de Fernanda e abriu o notebook emprestado de Bella. A bateria estava quase acabando, mas, com alguma sorte, Di iria ligar o gerador aquela noite e o computador estaria carregado outra vez. Kaori estreitou os olhos para achar a planilha que ela formulara junto com Bella, onde informava os horários e atividades de cada um para o próximo mês.
— Aqui — ela murmurou para si ao encontrar. Levantou os olhos para a turma estranhamente silenciosa e disse: — Muito bem, galera, os últimos dois dias têm sido uma loucura, mas as coisas vão se organizar. Pelo menos espero. — Kaori direcionou seu olhar a Cory, irritada. O garoto apenas deu de ombros. — Para os próximos dois dias, quem fará o almoço será eu e Fernanda; quem cuidará de Ash vai ser Di e Gabriel; e quem limpará a cerca hoje à noitinha será Bella e Cory.
Cory arregalou os olhos. Abriu a boca, pronto para reclamar, mas Di o impediu com um aperto de mãos — que, pelo que Kaori viu de longe, deveria ter doído, e muito. Bella deu um sorriso sereno; Cory bufou e voltou a aconchegar Di em um abraço.
Aquela ideia de pôr os dois juntos tinha vindo de Di. Kaori estava preocupada em colocá-los o mais longe possível um do outro, e então, Di chegou e praticamente implorou para que os pusesse no mesmo grupo, em qualquer lugar, em qualquer tarefa. Ela, que também queria ver Cory se dando bem com Bella, não pôde recusar.
Matheus levantou a mão, confuso.
— Dá licença Kaori... Mas não deveria haver nossos nomes aí? — Ele apontou para Laura, Victoria e Finny, além dele próprio.
Kaori checou o notebook outra vez. Bateu com a mão na cabeça, xingando-se mentalmente.
— Laura e Victoria... jantar hoje e amanhã — respondeu Kaori, olhando duas vezes para ter certeza. — Math e Finny... dia de folga?
— Imaginei que seria interessante algum tempo de folga para nós — disse Bella, sorrindo. Kaori franziu a testa para ela.
— É, porque nos últimos dias estamos trabalhando pra caralho, né — retrucou Cory sarcasticamente, revirando os olhos.
Kaori suspirou, cansada. Não importava muito; Bella sabia que, tanto Kaori quanto Cory, queriam um tempo para poder ficar com Fernanda e Di sem nenhuma tarefa interromper-lhes. Havia sido um bom gesto da parte dela.
— Ok, vocês estão liberados — disse Kaori. Gabriel correu para sair logo e verificar Ash, ainda dormindo. — Fêr... se não for pedir muito, fique aqui.
Cory ergueu as sobrancelhas para Kaori, inquiridor, mas ela simplesmente a respondeu com um gesto obsceno. Parar variar, Fernanda torceu o nariz para a amizade estranha entre eles, no entanto, fez o que lhe foi mandado e continuou sentada na cadeira da cozinha.
— Você tá fazendo um ótimo trabalho — elogiou a loira antes que Kaori começasse a falar. — Finny continua meio deprimido por causa da morte de Carol, eu acho que você está fazendo uma ótima coisa tentando arrumar o ritimo da casa e tudo mais.
Aquele elogio eliminou tudo o que Kaori queria falar para Fernanda naquele momento. Passou alguns minutos observando o sorriso contido da garota apaixonadamente, quando Fernanda tossiu, começando a sentir-se envergonhada pela fixação de Kaori. Pigarreou, sentindo as orelhas ficarem vermelhas, e disse:
— Eu, hm... obrigada... — Kaori pegou a mão de Fernanda sobre a mesa e a acariciou entre as suas. — Não era sobre isso que queria falar, no entanto.
Kaori fitou os olhos verdes e brilhantes de Fernanda. Agradecia todos os dias por estar acordando ao lado dela num lugar relativamente calmo no meio daquele inferno todo. Às vezes, por uma infelicidade de sua mente, acabava por pensar no hospital, no começo de tudo, quando Fernanda era mais uma garota internada e Kaori era sua melhor amiga que a visitava quando lhe era permitido.
Perguntava-se o que podia ter acontecido se nenhum vírus zumbi tivesse espalhado pela terra e Fernada saísse do coma no mundo normal de antes. Se Fernanda se lembraria dela, da forte amizade que partilharam. Se alguma força mágica do universo faria com que a garota terminasse com sua ex e percebesse que as duas pertenciam uma a outra. Talvez até fosse impossível, entretanto, ela, Kaori, nunca iria desistir. Uma única chance com Fernanda era melhor que nada, certo?
Certo. E era por isso que ela tinha que fazer valer a que ela havia ganhado agora.
— No fim da tarde... — Kaori começou nervosa, tirando as mãos de cima das de Fernanda e as esfregando entre si — pode ficar comigo, no n-nosso... digo, digo, meu!... — ela balançou a cabeça, decepcionada; a outra garota riu — quarto? Tenho uma surpresa para você.
As sobrancelhas de Fernada arquearam e ela parou de rir na hora. Kaori voltou a se xingar mentalmente, por ter sido tão idiota e não ter pedido o que queria naquele momento, até Fernanda assentir. Ela deu um pulinho na cadeira, animada.
— Ok, anjo. — Fernanda se levantou e beijou a testa da garota. Kaori ficou paralisada, sorrindo bobamente. — Bem, agora vem cá me ajudar, por que é hora de caçar alguma coisa para o almoço. E, se acharmos algo faça o favor de não quiemar!
Kaori obedeceu na hora e as duas riram com a ultima frase.
Quarto Coreful
02:11 PM
Di revirou os olhos, se perguntando como, durante tanto tempo, ela conseguira lidar com Cory. O garoto era impulsivo demais, falava demais, reclamava demais... Possuía a maioria das personalidades das pessoas mais chatas do planeta. Di vivia se questionando por que gostava tanto dele.
Por exemplo, naquele momento, Cory andava em círculos pelo quarto dois dois, exclamando irritado o quanto não gostava de Bella, e tendo plena certeza de que aquilo tudo era um plano maligno de Kaori para que eles dessem certo de alguma forma.
— Quer dizer, é óbvio que Kaori tem uma queda por ela! — dizia Cory, às vezes parando e encarando a namorada, deitada na cama, indignada. — E ela quer me ferrar! Kaori não gosta de mim, eu sabia!
Di enfiou o rosto nas mãos, bufando irritada. Havia sido ela que pedira a Kaori para colocar os dois numa mesma categoria durante aquela grade estúpida de horários. Conversara com Bella antes, ela também concordava que o medo irracional de Cory em perder todos que ama para ela, Bella, estava saindo do controle.
— Cory, me faz um favor — Di interrompeu o monólogo irritante do garoto ao levantar os olhos cansados para ele. — Fique em silêncio. Cinco minutos, por favor, só isso.
Cory arregalou os olhos para Di. Ele parou de dar voltas no quarto e sentou-se na cama ao lado da namorada, inesperadamente preocupado.
— Está com dor de cabeça? — indagou, perturbado. — O que foi? Alguma coisa no seu corpo tá doendo? Eu posso chamar...
Ele começou a apalpar as pernas de Di, subindo para seus braços e depois o próprio rosto da garota. Di riu, sentindo cócegas nos lugares onde Cory encostara. Parou o garoto num gesto rápido, segurando seus braços.
Cory pulou para cima de Di, que ainda mantinha seus punhos presos, parecendo se esquecer completamente que estava com raiva segundos antes. Ficaram nessa briga por alguns minutos, às vezes Di conseguia sair de baixo de Cory e poder finalmente respirar um pouco, para ser sufocada pelo tanto amor que o namorado lhe dava. Às vezes, Cory a prendia por baixo dele e dava-lhe tantos selinhos e beijos que Di sentia-se sufocada.
— Ok, eu desisto! — clamou Di por misericórdia, ofegante.
— Então ganhei? — perguntou Cory, fingindo inocência, ainda prendendo Di por baixo dele. — Grande novidade.
Di revirou os olhos. Cory deu uma risada e caiu ao lado da namorada, dando algum espaço a ela.
— Qual é o meu prêmio?
— “Sobreviver” à sua hora com Bella hoje — respondeu Di, séria. A expressão de Cory se transformou na hora. Estava ansioso. — Qual é, por mim!
Cory fixou os olhos no teto, sem responder. Di ficou lhe encarando por algum tempo, mas logo cedeu ao silêncio do namorado e virou de barriga para cima, observando a brancura que o teto do quarto lhe proporcionava. Subitamente, sentia-se cansada da brincadeira que compartilharam minutos antes. Não cansada, no sentido literal da coisa, mas sim... culpada. Como se não devesse ter se divertido, não com esse tanto de lances acontecendo.
A morte de Carol fora um acontecimento trágico, obviamente, mas já se passara quatro ou cinco dias — Di não sabia direito — e a vida continuava. O clima da mansão não era um dos melhores. Sendo franca, somente ela, Kaori, Bella e Gabriel continuavam fazendo o que deveria ser feito. Não que os outros (além de Cory e Finny, para falar a verdade) fizesse muito, no entanto, Di sentia falta da atmosfera legal na casa. Todos tinham perdido muito, mas naquele mundo, como Gabriel dissera para ela na noite anterior, eles precisavam se proteger e torcer para que nenhum walker interrompesse isso.
Di sentiu a mão de Cory na sua, o que meio que acabou com seus pensamentos e reflexões. Seus dedos entrelaçaram, e Di pensou que, mesmo depois de tantos anos de namoro, amizade e sexo sem compromisso, o mínimo toque delicado vindo de Cory lhe dava calafrios.
— Eu aturo aquela garota... — disse Cory lentamente — só porque você pediu.
Alguma coisa no olhar que Cory lhe deu fez com que Di repensasse aquela proposta de casamentos de dias antes, além do fato de redescobrir por que ela gostava tanto dele.
Quintal dos Fundos
05:59 PM
— Isso vai ser bom... — Finny murmurou no ouvido de Cory às seis horas em ponto, quando viu o garoto descer as escadas na direção dos quintais.
Cory hesitou em xingar Finny. Não sabia se seria certo mandar-lhe catar coquinhos se ele continuasse de luto por Carol. Ele olhou para os lados, preocupado, percebendo que seu carrasco, Kaori, não se encontrava em lugar nenhum.
— Faça seu trabalho, está quase escurecendo.
Finny empurrou Cory para fora da mansão. Chateado, Cory encontrou Bella no meio do quintal, perto de onde seu morto-vivo filho da mãe havia matado Carol. Bella observava a trave que tinham usado para prendê-lo com interesse; as cordas estavam soltas e jogadas. Kaori tinha dado um sumiço no walker — queimando-o ou jogando-o numa vala qualquer, Cory não sabia — para que a memória de Finny não fosse mais afetada do que já estava.
Cory pigarreou para anunciar sua presença. Bella ergueu os olhos, surpresa, e acenou de forma contida. Cory bufou, descendo os degraus da pequena escadinha entre a porta da cozinha e o quintal, se juntando à garota.
— Como pode ver, não temos muitos hoje. — Bella apontou para a cerca. Alguns errantes se remexiam, com os braços presos, querendo uma forma de sair. — Eu tomei a liberdade de olhar os outros lados da cerca. Eles estão relativamente mais cheios que esse.
Ele assentiu, tirando sua faca de bronze da bainha. Bella olhou para Cory num misto de admiração e ansiedade, o que o garoto não deixou passar despercebido. Talvez, apenas talvez, Bella não fosse tão má quanto ele pensava.
— Eu roubei quando assaltamos uma loja de pesca lá em minha antiga cidade. — explicou Cory, quebrando o silêncio que se impôs. — O meu facão e o de Kaori, também.
— Por que vocês entrariam numa loja de...? — Bella começara a perguntar num tom irônico, porém Cory a calou com um olhar. — E então... de volta ao trabalho.
Bella se aproximou de um walker preso à cerca, sem falar mais nada. Era baixinho, mais que Kaori, e possivelmente uma mulher no alto de seus sessenta anos. Cory sempre se indagava como podiam aparecer tantos errantes naquela região praticamente deserta.
Um olhar em volta lhe bastava para responder, contudo. Estavam cercados por matas e casas enormes, não mencionando que estavam a uns bons quilômetros de Nashville, que garantia ao mesmo tempo uma parte de segurança e outra de medo, pois manadas e mais manadas de walkers poderiam sair da cidade a qualquer momento e atravessar por ali.
— Sabe fazer isso? — Bella virou para Cory, levantando as sobrancelhas. O garoto fez o possível para não se descontrolar e mandar Bella para o raio que o parta. Lentamente, concordou com a cabeça.
— Não sou idiota — respondeu.
— Ótimo.
Bella deu um sorrisinho esnobe, voltando sua total atenção para o walker, enfiando a faca que possuía na mão direita num golpe certeiro na cabeça dele. O errante gemeu por alguns segundos antes de cair no chão, morto novamente.
— Ah, consigo fazer muito melhor, obrigado — zombou Cory, também se aproximando da cerca.
Agora que o primeiro errante fora morto e os tons zombeteiros dos dois estavam relativamente altos, não demorou muito para que outros aparecessem perto deles. Cory sorriu de forma ameaçadora, sem ter certeza se era para o walker ou para Bella, e mostrou o mesmo golpe da garota em outro errante.
Ao terminar, deu uma piscadela convencida para Bella.
— Viu? Dez vezes melhor.
— Usou o mesmo golpe que eu, por favor — retrucou Bella com superioridade.
Cory preferiu não responder à provocação. Fez um aceno para Bella, indicando mais dois walkers que faltavam por aquela parte da cerca. Deixou com que a garota os matasse, seguindo direto para o lado esquerdo da mansão, onde acabou por encontrar mais errantes do que deveria.
— Seis... quem sabe sete? — contou Bella ao se aproximar dele. Cory se afastou alguns centímetros da garota. — É difícil dizer.
— Escuta, nós não estamos aqui para contar essas merdas, estamos para matá-los, e deixá-los para que possamos queimá-los pela manhã, saca? — rebelou Cory, revirando os olhos. A inteligência de Bella o irritava, e muito.
Bella encarou Cory com ar de riso, desistindo de abrir uma discussão e matando os walkers mais próximos da cerca. Ele tentou se concentrar em eliminar o maior número de mortos-vivos possível, mas a expressão de Bella risonha na direção dele lhe intrigava. Será que ele estava sendo tão infantil assim?
Existiam verdadeiras razões para não gostar da moça ao seu lado, não existiam? Cory franziu a testa, apoiando o tênis na cerca para que pudesse tirar a faca da cabeça de um walker cabeçudo e com o crânio duríssimo. Quer dizer, nenhum deles sabia muito sobre o passado de Bella. Nenhum deles tinha a mínima ideia se ela estaria mentindo sobre ser uma antiga estudante de medicina e essas coisas.
Cory sorriu. Qualquer chance de gostar de Bella era acabada com aquele argumento. Bella era um mistério que ninguém tinha tido coragem o suficiente para decifrar. Cory finalmente tirou a faca da cabeça do errante, desequilibrando e quase caindo para trás. Bella riu.
— Fique quieta ou jogo isso aqui na sua cara acidentalmente — ele rebateu aborrecido, o que fez a garota rir mais alto.
Cory se aprumou e lançou um olhar de ódio a Bella. Por que diabos ela sempre tinha que agir de modo tão superior e tão bobo ao mesmo tempo?
— Ok, isso pode parecer realmente estúpido, considerando quem você é — Cory rolou os olhos, indo se ocupar em eliminar os zumbis na cerca —, mas eu acho que, de todos, gosto mais de você.
A faca de Cory caiu no chão com um ruído fraco. Ele se virou lentamente para Bella, sentindo-se estranho. Ele estava em choque, completo torpor. Como aquela garota poderia gostar dele, se a única coisa que tinha feito desde o condomínio fora atazaná-la, culpá-la por tudo que acontecia?
— Por quê? — indagou Cory meio confuso, decidindo não voltar a encarar Bella pelo resto de sua curta vida naquele apocalipse. Ele pegou a faca do chão e continuou a matar os walkers da cerca.
— Você é o máximo, Cory! — exclamou ela, como se explicasse o óbvio. — Sinceramente, até eu fiquei desconfiada por vocês terem me aceitado tão rápido, mas não, você tava lá, sempre me perturbando. Os outros são demais, é claro, me deixando ficar aqui sem saber a metade do que eu sou, mas você foi o único a desconfiar inteiramente de mim.
“Acho que seria isso que eu faria se tivesse um grupo como o seu — ela disse tristemente, chegando perto de Cory para empurrar um walker que havia ficado preso na cerca. — Kaori e Finny podem ser os líderes, mas qualquer líder precisa de uma alma que mantenha os pés no chão para eles.”
Cory não sabia o que dizer. Acabou de matar o último walker daquele lado da cerca e rumou para frente da mansão, sem esperar por Bella. Olhou para o céu e agradeceu porque estava quase escurecendo. Logo estaria com Di assistindo a algum filme brega que o dono da mansão tinha em sua coleção e não precisaria encarar Bella até, pelo menos, sei lá, o outro dia.
Começou a trabalhar antes mesmo que Bella chegasse. Cory sentia-se envergonhado. As únicas pessoas que já a havia feito sentir-se assim antes fora Di e Kaori as vezes. Nem ao menos durante a época em que costumava xingar as pessas como passatempo ele sentira vergonha do que fazia. Por um breve momento, teve de concordar com Finny e Kaori: Bella fazia você sentir coisas que não deveria sentir.
Bella, incrivelmente, respeitou o silêncio de Cory. Prosseguiu eliminando os errantes de um lado da cerca onde não precisasse topar com Cory sempre. Em algum momento durante esse extermínio, ela não agüentou e proferiu uma exclamação de fúria quando um braço de um walker se prendeu no dela.
Cory ergueu os olhos de seu próprio errante e viu o sofrimento de Bella ao tentar soltar-se do walker. O zumbi tentava enfiar o outro braço pela cerca e atravessar seu rosto por ela. Cory arfou, tirou sua faquinha o mais rápido que pôde da cabeça do morto-vivo e correu para perto de Bella, puxando-a para longe da cerca. Ofegando uns minutos mais tarde, notou que ainda a segurava pela barriga e soltou-a.
— Obrigada — agradeceu Bella sem fôlego, curvada e agarrando seus joelhos como se fossem salvar sua vida.
— É, eu não poderia deixar você morrer — disse Cory esnobe, estendendo a mão para Bella. A garota levantou e cumprimentou ele com um sorriso bobo no rosto. — Afinal, você é minha fã.
Bella franziu o cenho, rindo.
— Vamos terminar com isso logo, ok?
Quarto de Kaori
Fernanda não estava muito preocupada com o que Kaori havia aprontado para mais tarde. Provavelmente devia ser um programa do computador de Bella que ela não conhecia antes do apocalipse; ou talvez alguém tivesse dado um jeito no chuveiro do banheiro do quarto delas — Kaori, o quarto de Kaori. Fernanda tinha que se lembrar sempre. Melhor ainda: a melhor amiga dela tinha feito finalmente as pazes com Bella, e Kaori apenas queria contar-lhe a novidade.
Surpreendeu-se, no entanto, ao abrir a porta do quarto das duas — “de Kaori!”, sua mente a corrigiu automaticamente — e encontrá-lo decorado de flores murchas da cor rosa. Ela levantou as sobrancelhas, se perguntando se teria deixado a janela aberta durante um vendaval de novo.
— Não é muita coisa, eu sei. — A voz de Kaori surgiu do canto mais escuro do quarto segurando uma rosa incrivelmente branca entre os dedos finos. — É o melhor que pude fazer sem uma floricultura por perto e só com Gabriel e Ash me ajudando.
Kaori deu um sorriso, chegando perto de Fernanda lentamente. Ela estava com uma expressão extremamente apaixonada. A loira
Fernanda arregalou os olhos, ainda surpresa com as pétalas de rosas murchas no chão. Não tinha certeza da intenção de Kaori com aquele tanto de flores e a rosa especial na sua mão. Estava começando a ficar assustada.
— Não, não faça essa cara — pediu Kaori quando Fernanda sentiu seu rosto corar fortemente e ter, sem querer, avançando um passo para trás, procurando de forma desesperada o tranco da porta. — Por favor, anjo, me escute.
Kaori estava agora perto o bastante de Fernanda, e, com a mão livre, pegou o pulso dela e deixou que as mãos das duas se entrelaçassem por contra própria. Somente mais tarde Fernada foi perceber no quanto esse movimento havia se tornado quase que rotina para ela e Kaori.
Fernanda foi conduzida até a cama do quarto. Ela sentou, sentindo-se extremamente desconfortável. A última vez que havia sentido aquela sensação de que algo muito importante para a sua vida amorosa iria acontecer tinha sido há muito tempo, mais ou menos na mesma época do...
— Você é incrível, anjo — começou Kaori, interrompendo seus pensamentos. — Acho que eu nunca vou me cansar de dizer isso. Você foi uma das únicas pessoas que lutei de fato para que permanecessem na minha vida. Todos os dias nos últimos seis meses, olhar para aquela maca de hospital onde você estava me matava vagarosamente. Mas eu nunca vou me arrepender de ter enfrentado seus pais e todo mundo para que eu pudesse ir lá.
Kaori agachou para fitá-la diretamente, entregando-lhe a rosa. Fernanda engoliu em seco, preocupada; nunca ouvira Kaori falar mais do que três ou quatro palavras do seu período no hospital sem que lhe causasse dor extrema. Seja lá o que ela queria ali, Fernanda sabia que não seria algo tranqüilo.
— Em um momento... — Kaori fungou; Fernanda apertou sua mão numa demonstração de apoio, segurando a rosa branquíssima na outra — eu achei que você morreria. Sinceramente. Achei que não aguentaria; que eu teria de deixar você assim como seus pais fizeram.
“Mas eu não podia. Não, era errado. Houve um tempo no passado em que todos haviam desistido de mim, menos você. Eu não poderia lhe dar às costas justamente com o mundo acabando. Seria injusto.”
Fernanda puxou Kaori para perto de si, abraçando-a de lado, ainda segurando sua mão, murmurando palavras de consolo, desejando por tudo no mundo que a garota parasse de se torturar daquela maneira.
Injusto era que Fernanda estivesse sofrendo a dor de Kaori sendo que não precisava disso. Que podia muito bem assentir e falar que as coisas já estavam ótimas e que elas passariam por tudo mais uma vez. Ela podia não dar à mínima para a dor de Kaori, podia simplesmente ignorá-la.
Por que, então, ela não conseguia?
— Anjo, você não precisa...
— Não, anjo, é preciso — retrucou Kaori chorosa no ombro da outra. Ela fungou mais uma vez e ergueu a cabeça, os olhos mais escuros que nunca. — Cory me disse que eu devia desistir. Ele me deu um ultimato: se você não acordasse até chegarmos ao hospital, iríamos cair fora de Lima. Eu teria que deixar você para trás.
Nesse ponto, Fernanda se lembrava muito bem. Acordar no hospital em meios a gritos e tiros e uma Kaori de cabelos com mechas azuis olhando para si de forma tão apaixonada fora uma experiência e tanto. Recordava muito bem da sensação de estar completamente perdida, de não saber nada do mundo novo em que se encontrava, dos sonhos que havia perdido...
Fernanda ainda ficava confusa quando lhe perguntavam como tinha saído do coma. Por que ela não sabia. Não sabia por que tinha saído do coma. Talvez jamais chegue a saber. A única coisa que ela lembrava era do som da voz de Kaori, das sacudidas nos ombros e do toque quente da garota. E Fernanda simplesmente tinha acordado. Assim, do nada. Ela apenas sentia uma enorme necessidade de diminuir o tom desesperado de Kaori no quarto do hospital.
— Eu estava mais que pronta para desistir, anjo — continuou ela. Fernanda queria fazer com que Kaori parasse de se torturar com aquela história. — Você não dava sinal de vida há um mês e meio, o que eu poderia fazer? Quando entrei no quarto, foi para ver você pela última vez.
“No entanto, você acordou. Milagrosamente, como eu rezava todas as noites, você acordou. A onda de felicidade que percorreu meu corpo naquele momento até hoje eu não sei explicar. Foi como... como se... eu tivesse uma nova fonte de energia. Um modo de, sei lá, fazer com que o que eu estava fazendo valesse a pena.”
Kaori deixou que Fernanda limpasse as lágrimas que escorriam por suas bochechas. Perguntava-se onde Kaori queria ir contando-lhe tudo aquilo.
— E... E-então, dias depois, aqui estamos nós. Presas no meio do nada, nesse inferno que é o estado do Tennessee. — Ela deu uma risada fraca. Fernanda a acompanhou. — Você é tudo o que sempre quis, anjo. Eu acho... não... eu tenho certeza... que eu te amo.
As palavras não surpreenderam Fernanda. É claro que sabia daquilo. Sempre soubera. Com as lembranças de volta na sua cabeça, qualquer sinal de início de amizade entre o meio e o fim do ano anterior podia ser considerado um sinal do avanço de Kaori em contar a Fernanda o quanto gostava dela.
Fernanda não ficara surpresa com isso, por que cada toque e cada palavra sussurrada em seu ouvido vindos de Kaori nos últimos dias era uma demonstração muito clara do amor que Kaori tinha por ela. O que faltava na garota eram as palavras, mas esse fato não fazia muita diferença quando ela sabia tocar três instrumentos.
No entanto, para a surpresa de Fernanda, Kaori moveu-se rápido e agachou novamente a seus pés, tirando uma caixinha do bolso. Kaori segurou a mão de Fernanda, que começava a ficar apavorada, firmemente entre as suas e abriu a caixa, olhando para a garota com os olhos ainda lacrimosos.
Havia um anel dentro da pequena caixa. Fernanda não fazia ideia de onde a morena poderia arranjar um anel no mundo em que estavam, e pior, fazer uma caixinha de papelão para colocá-lo, mas sorriu bobamente a ela.
— Ahm... — o ruído de Kaori fez Fernanda soltar uma risada. — Ah, qual é, estou tentando ser legal aqui! — exclamou depois, indignada. — Anjo... e-eu... ahm... você quer ser minha, hm... namorada?
Fernanda riu mais uma vez, o que obrigou Kaori a dar um tapa no ombro dela. Entendia perfeitamente se Kaori estivesse tendo o dia mais nervoso de sua vida, se ela tivesse planejado aquilo tudo durante muito tempo, antes de todo o apocalipse zumbi. Ela deu uma olhada rápida no quarto e para a sua rosa, agradecida; afinal, algumas flores murchas eram o melhor que ela poderia arranjar ali, não era?
— Sim, anjo... — respondeu Fernanda ainda entre risos. — Eu adoraria ser sua namorada.
Kaori finalmente se deu por vencido e deu uma risada alegre. Ela colocou rapidamente o anel no dedo de Fernanda e lhe deu o melhor beijo de sua vida inteira.
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