In The Hell

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Quintal dos Fundos

04:30 PM


O grito de Kaori fez Fernanda virar. A cena que ela encontrou a fez arfar, assustada.

O walker de Bella devorara o pescoço de Carol com vontade. Os braços da garota estavam abaixados, não oferecendo resistência. Os olhos viravam nas órbitas. Fernanda deu um passo para trás, aterrorizada, abaixando sua pistola.

Kaori pegou a arma que Fernanda segurava e deu um tiro certeiro no errante. Carol desgrudou-se dele e caiu no chão. Fernanda estava com medo de se aproximar. Ela agonizava no chão, o sangue espirrava de seu pescoço; a carne tão exposta que, mesmo de longe, ela via os ossos de seus ombros.

Fernanda permaneceu no mesmo lugar, mas Kaori correu para ela. Sacudiu os ombros ensangüentados de Carol, gritou desesperada — e esse foi o único som que fez Fernanda se mexer, avançando uns poucos passos —, porém Carol deu seu último suspiro ali, no quintal dos fundos da mansão, implorando para que Kaori lhe deixasse morrer.

— Mas que porra é...? — A exclamação de Cory irritado pôde ser ouvida assim que ele virou a esquina da casa.

Não demorou muito tempo para que Cory percebesse o que acontecera. Ele arregalou os olhos para arma de Fernanda caída no chão, depois para o walker morto, em seguida para as mãos cheias de sangue de Kaori e, por fim, o corpo de Carol estirado.

Di, que chegara logo atrás do namorado aos pulos, soltou um grito de terror e agarrou o braço de Cory com força.

— Ah, meu Deus — ele exclamou, avançando em passos lentos na direção do corpo de Carol.

Kaori se levantou, olhando para as mãos, abalada; os olhos dela cintilavam de lágrimas. O coração de Fernanda apertou, mas continuava a uma distância considerável da cena bizarra que acontecera, parando na metade do caminho para pegar sua pistola jogada no chão por Kaori.

— Ei, o que tá...?

Escutar o grito desesperado de Kaori havia sido uma experiência assombrosa, mas nada superou a expressão horrorizada nem o grito de desespero de Finny. Ele largou a pá que levava no ombro e, mesmo com Gabriel tentando segurá-lo, se desvencilhou do garoto e tropeçou nos seus pés, derrapando segundos antes ao chegar perto do corpo de Carol.

— Não, Carol, não! — Finny gritava; a dor em sua voz atingindo Fernanda em cheio. — Carol, acorde, por favor! Por favor!

A cena era horrivelmente deprimente. Finny sacudindo o corpo da namorada, na esperança de que ela pudesse voltar de alguma forma — e ela voltaria, todos sabiam, essa era a maior preocupação —; Cory englobava Di que chorava e ele tentava segurar as lágrimas; Gabriel olhando para Finny com o semblante complacente; Kaori com as mãos ensangüentadas perto de Finny, tentando tirá-lo dali; e Fernanda, sem saber o que fazer, segurando a pistola como se ainda pudesse haver outras ameaças por perto.

Ela olhou para a porta dos fundos da mansão e encontrou Matheus, Victoria e Laura observando o que acontecia no quintal, cada um parecendo mais deturpado que o outro. Matheus tinha as mãos no bolso e tentava não chorar. Por outro lado, Laura se abraçava à Victoria com força e chorava em seu peito; esta lhe afagando os cabelos, também um tanto chorando.

— Ela vai voltar. — Finny levantou a cabeça para eles, decidido. As lágrimas caíam pelas suas bochechas, mas concordou com o que dizia. — Todo mundo sabe o que acontece, ela vai voltar.

— Mas não será ela, Finny. — Kaori retrucou lentamente, como se estivesse falando com uma criança de dois anos. — Não vai ser a garota que você amava, será um...

— Ela vai voltar — o garoto repetiu, não dando atenção à Kaori. Abaixou a cabeça outra vez e acariciou os cabelos cheios de sangue de Carol. — Ela vai voltar.

O silêncio que se seguiu foi o pior que qualquer um dali já teve a infelicidade de participar. Ninguém queria sair dali, nenhum deles queria ir para a mansão. Todos estavam esperando o pior. Como uma bomba-relógio, só esperando o último tique para que pudessem finalmente sair do transe e decidir o que fariam em seguida.

E então, distraindo todos eles com sua beleza estonteante, Bella surgiu no portal carregando Ash no colo, o semblante confuso.

— Solte Ash! — Cory gritou no mesmo instante, aproximando de Bella a passos largos. Bella a encarou, perplexa. — Agora! Dê ela a Matheus!

Ainda em estado de choque, Bella fez o que lhe foi mandado. Matheus saiu de seu estado e pegou a garotinha que estava chorado devido a gritaria de Cory

— Você causou isso — acusou Cory, agora tão perto de Bella que seus narizes se tocavam. — Você matou Carol.

— Cory — alertou Kaori, apreensiva. — Pare com isso...

— Você trouxe essa porra pra cá — continuou o garoto, sem se importar com os avisos da amiga. — Você chegou aqui e Carol começou a se sentir péssima. É tudo culpa sua.

Gabriel tinha que admirar a paz que havia no rosto de Bella. Se Cory estivesse lhe acusando de tais coisas, ele já estaria longe, e com uma briga muito feia. Ele engoliu em seco, o único som que quebrava o silêncio novamente imposto eram os soluços de Ash e os balbucios sem sentido de Finny para Carol. Cory permanecia encarando Bella na mesma proximidade de antes. Ninguém parecia querer retroceder um passo.

— Você tem razão. — Bella disse por fim, soltando um suspiro e baixando a cabeça. — Foi um erro deixar um walker aqui, sabendo que não teria muito a se fazer sem o aparato necessário.

— Que bom que viu isso agora — revidou Cory com desdém e ironia.

— Cory, chega! — cortou Kaori com firmeza. Sua mão jazia esquecida no ombro de Finny. — Por favor.

Só o toque de Di fez o garoto se afastar de Bella, e mesmo assim, ficou longe dela lançando um último olhar de ódio na sua direção. Contudo, antes que pudesse xingar ou dizer mais alguma coisa, Finny soltou um grito e se encolheu longe de Carol. Fernanda entendeu um segundo mais tarde o que acontecia: ela tinha acordado como walker.

Fêr levantou sua pistola e tentou mirar na testa de Carol, porém o clique da arma não disparou nenhuma bala. Esquecera de que a última bala fora usada minutos antes por Kaori para matar o errante de Bella.

— Segurem-no! — gritou Kaori alarmada, empurrando Finny para longe do walker Carol, que já abrira os olhos e gemia, procurando por suas primeiras vítimas.

Cory e Gabriel agiram rápido. Enquanto Finny esperneava e tentava chegar perto de Carol novamente, os dois o prenderam numa chave de braço perfeita. Carol agora se sentara e observava o local com os olhos cinzentos. Eles focalizaram Kaori, a mais perto dela.

Os sentidos de Fernanda aguçaram. Ela não tinha a pistola, mas a adaga que Kaori lhe dera estava atada à sua perna naquele momento. Num movimento rápido, tirou-a do coldre e deu um passo na direção do walker. Suas mãos tremiam violentamente, ela não sabia se conseguiria fazer aquilo.

Kaori se rastejou pelo chão, encarando “Carol” vindo em sua direção. Os outros observavam em choque, longe demais para poderem ajudar. Fernanda respirou fundo, e no segundo seguinte, ultrapassava Kaori e chegara aos pés do walker, olhando-o por cima com pena.

— Me desculpe — disse Fernanda num murmúrio antes de enfiar a faca na cabeça de Carol.

O som do objeto perfurando o cérebro era mais estranho do que o da arma em si. Fernanda tentou não prestar atenção, mas o silêncio deles não era tão alto quanto o barulho do crânio sendo perfurado, do cérebro sendo esmagado, do corpo finalmente inerte caindo no chão.

— O que faremos agora? — perguntou quando conseguiu tirar a faquinha da cabeça de Carol, limpando-a na calça.

— Queimaremos. — respondeu Di.

Ela arregalou os olhos para ela. O mesmo fez Kaori e Dinny. O garoto parou de gritar por um instante.

— Não! — disse Matheus, indignado. Fernanda não notara antes, mas o garoto mantinha uma expressão culpada no rosto. — Ela era nossa amiga, não podemos simplesmente jogá-la com os outros walkers que matamos.

— Não queimamos os nossos. — apoiou Kaori. O olhar da garota se encontrava em Finny, que pedia desesperadamente por alguma justiça.

— Estranho, porque eu não me lembro de termos enterrado os outros apropriadamente. — alfinetou Cory, soltando um pouco Finny.

Kaori crispou os lábios e olhou diretamente para Cory, seus olhos mostrava apenas raiva.

— Os tempos mudam — disse ela friamente. Ela olhou para o céu, que começara a escurecer. — Nós vamos enterrá-la amanhã pela parte da manhã. Alguém é contra?

Ninguém fez alguma objeção, nem mesmo Cory e Di, tão ativamente contra minutos antes. Ash, que havia parado de chorar por um tempo, voltara a se sacudir e gritar nos braços de Matheus. Bella olhava para Kaori respeitosamente, como se tivesse orgulhosa de algo.

— Ótimo — disse Kaori, tentando limpar o sangue coagulado das mãos na barra da calça. — Gabriel, Matheus, levem o Finny para o quarto. Fiquem com ele. Bella, arranje um cobertor para que possamos cobrir o corpo de Carol. Laura e Vic, por favor, cuidem de Ashh. E Di e Cory...

Ela olhou condescendente para Cory. Ninguém soube dizer quando quanto tempo eles ficaram se encarando.

— Cuidem do jantar hoje.


Segundo Andar

07:02 PM

Não era possível. Não, aquilo tudo era apenas um pesadelo, um terrível pesadelo do qual ele não conseguia acordar. Ele fechou e abriu os olhos tantas vezes que eles começaram a coçar. Queria acordar, queria achar Carol ao lado dele na cama.

Mas no fundo, ele sabia que não podia.

Tentou se desvencilhar do abraço apertado de Gabriel durante todo o percurso do quintal dos fundos ao seu quarto. Não queria entrar, não com a imagem do corpo de Carol caído ao seu lado, completamente ensangüentado, soltando pedaços de carne de seu ombro e pescoço.

Ele ainda tinha nas mãos sangue dela. Ainda tinha a imagem do rosto da garota, tão bizarramente calmo e sofrido ao mesmo tempo, em sua cabeça. Finny não queria estar perto de ninguém, só dela, e sabia a única coisa que o faria ficar próximo dela novamente: a morte.

Kaori não deixou Finny chegar perto dela quando Carol deu seu primeiro gemido e voltou dos mortos. Jogou ele para longe, temendo que fizesse alguma loucura. Finny não iria fazer nada. Somente pediria desculpas à Carol. Por ter se deixado levar por uma garota bonita, por ter esquecido o quanto maravilhosa sua namorada era. Ela queria dizer um último “eu te amo”.

— Me deixe voltar! — gritou desvairado quando Gabriel o jogou para dentro do quarto. Ele tropeçou e caiu em cima da cama. — Eu preciso falar com ela, por favor!

— Cara, ela tá morta — afirmou Gabriel, olhando significadamente para Matheus. O garoto assentiu e saiu do quarto. — Não vai adiantar falar nada para ela agora.

Finny abriu a boca, mas voltou a fechá-la. As lágrimas, que haviam parado quando viu Bella encobrir o corpo de Carol, voltaram sem constrangimento. Ele caiu de costas na cama, abraçando o travesseiro mais próximo. Gabriel ficou observando-o de longe.

Odiava admitir, mas Gabriel estava certo. Terrivelmente certo. Ele não poderia mais falar nada a Carol. Nem um terço do quanto ele a amava, nem o quanto queria ter filhos um dia. Ele não podia mais nem contar a ela que todas as noites antes de dormir, ele juntava as mãos em palmas e agradecia pela garota ter salvado ele da cidade, pelos dois terem conseguido sobreviver durante tanto tempo.

Agora estava tudo perdido, jogado às sombras.

— Não posso ficar aqui, cara... — Finny murmurou por fim. — Não posso dormir aqui.

Com a cabeça enfiada no travesseiro, Finny duvidou que o garoto tivesse entendido alguma coisa. Para a sua surpresa, Gabriel respondeu:

— Entendo. Nós temos um quarto livre no terceiro andar, se você quiser. Ou posso oferecer meu quarto.

Assentiu, forçando seu corpo a corresponder seus pensamentos. Logo estava de pé. Não sabia por que, mas tremia dos pés à cabeça. Ele olhou para Gabriel, desolado, e, quando percebeu, se abraçava ao garoto tão forte que pensou que o quebraria.

Sentiu ser carregado para fora do quarto. Tudo no corpo dele doía; tudo machucava sua mente. Ele estava cansado, desejava poder dormir e esquecer o inferno que aquele dia havia sido. Desejava poder acordar no outro dia com Carol ao seu lado.

Finny chorou mais um pouco para aliviar a dor antes de entrar no quarto de Gabriel. Fechou os olhos e ouviu Gabriel fazer a ronda no corredor e entrar no quarto de meia em meia hora. Finny não jantou. Ele ouviu as discussões vindas do andar de baixo, mas não distinguiu quem brigava.

Acabou por dormir chorando.


Sala de Jantar.

07:31 PM


— Ainda não acredito que ela fez isso — Laura disse. Ela continuava em estado de choque. Victoria, ao lado dela, assentiu abalada.

Kaori preferiu não comentar. Comia seu macarrão instantâneo feito por Di sem vontade. Não por que estava ruim ou sem molho, e sim por que o gosto de sua boca era tão desagradável que nada podia superá-lo.

Aparentemente, todos estavam no mesmo humor. Ela não podia culpá-los por isso. O silêncio, quebrado apenas pelo som da mastigação, perturbava Kaori. Sentava-se na ponta da mesa (lugar antes ocupado por Finny), mas nunca havia se sentido tão culpada por tomar o lugar de alguém. Era errado estar ali, sabia. Com as memórias daquele tarde tão vívidas nas mentes dos outros, ficava difícil tomar alguma liderança ali.

Matheus e Gabriel estavam com Finny. Ela ouvira os gritos do garoto sendo levado para dentro enquanto lavava suas mãos no banheiro do andar de baixo. Escutava os choros e berros, e fazia tudo para controlar suas lágrimas.

Seus olhos ardiam. Somente quando Fernada finalmente a deixou sozinha, em suas próprias ordens, ela desabou em lágrimas. Precisava manter a calma, porém, parecia inacreditável que Carol se atacaria daquela forma, machucando Finny a tal ponto que não deixara sequer um corpo para enterrar.

— É tudo minha culpa.

Matheus apareceu misteriosamente à porta da sala de jantar, tirando Kaori de seus pensamentos. Ele não foi à cozinha para pegar a parte de seu macarrão, simplesmente sentou-se na cadeira livre ao lado de Bella e afundou o rosto nos braços. A garota levantou as sobrancelhas para ele.

— Carol falou com a gente antes de sair — ele continuou; a voz saía abafada. Pelo “a gente”, Kaori presumiu que fossem Laura, Victoria e ele. — Eu senti que ela iria fazer algo. Tentei impedi-la, mas ela não me ouviu. Se eu tivesse sido um pouco mais firme...

Um ruído contido informou a Kaori que ele começara a chorar. Ela olhou perplexa para Fernanda, que retribuiu o olhar em igual choque. Bella deu tapinhas no ombro do garoto, sem graça.

— Não é sua culpa, Matheus — ela disse bondosamente.

— É pura verdade, Math. — apoiou Cory, levantando os olhos subitamente para Bella, maldoso. Di tentou-lhe impedir de falar, mas o garoto continuou: — Não leve a culpa de outras pessoas nas costas.

— Cory! — exclamou Di antes que Kaori o fizesse.

Cory voltou sua atenção à namorada. O casal se encarou por longos minutos. Kaori nunca tinha visto tanta raiva em seus olhos durante uma singular troca de olhares. Nenhum, no entanto, iria desistir tão cedo.

— Está do lado dela também? — Cory se levantara e apontava para Bella descaradamente. A garota, por outro lado, parecia não dar importância e continuava acariciando as costas de Matheus, consolando-o. Fernanda, Victoria e Laura estavam mortalmente quietas. — À tarde, que eu me lembro, nós estávamos do mesmo lado. Vai deixar com que essa garota foda com a gente outra vez?!

— Cory, por favor — pediu Di, elevando a voz e olhando diretamente para o namorado, determinada.

Kaori não sabia o que fazer. Olhou para Fernanda, pedindo ajuda silenciosamente, mas a garota apenas meneou a cabeça, assustada. Ela nunca vira Cory e Di discutirem, muito menos com aqueles tons tão acusatórios. Matheus levantara a cabeça e enxugara as lágrimas, afastando um pouco a mão de Bella de seu ombro. Victoria era a única que ainda mexia com o macarrão, dando ele a Ash, que acompanhava a cena em completo silêncio.

— Isso não é sobre Bella, agora fique quieto! — Di puxou a camisa de Cory, fazendo com que ele sentasse à força.

A técnica de Di não funcionou nem dez segundos: Cory se desvencilhou da namorada, tremendo de fúria. Abriu a boca, olhou fixamente para Kaori, pronto para dizer algo ou acusá-la, mas parou na metade da primeira palavra. A saída dele raivosa deu por encerrada a discussão. Di o seguiu, pedindo desculpas à Bella. E Ash voltara a chorar.

Ninguém quis terminar a refeição depois da pequena briga. Matheus e Fernanda arrumaram a mesa. Incrivelmente, ela o consolou melhor do que Bella. Laura e Victoria subiram logo após Bella (e Kaori poderia jurar que vira um lastro de lágrimas descendo pelas bochechas dela), levando Ash para o quarto de Kaori, já que a garotinha dormira assim que elas conseguiram acalmá-la.

Kaori englobou Fernanda em seus braços (mas que não deu muito certo pois a loira era maior) quando ela lavou a última louça. Seu olhar encontrou o de Matheus, e ele agradeceu com um aceno, Kaori sequer sabia o quê. Retribuiu com um sorriso fraco. Ela subiu na meia ponta e deu um beijo na testa de Fernanda e subiu as escadas junto dela, se perguntando o que teria de enfrentar no dia seguinte.


Quintal dos Fundos

07:43 AM


Gabriel limpou o suor da testa com as costas da mão, cansado. Presumia que não era nem oito horas da manhã, mas a forma que ele suava fazia pensar que estava debaixo de um sol de meio-dia. Suspirou, exausto, e continuou a cavar a cova para o corpo de Carol.

Kaori queria trabalhar por conta própria em tudo que estivesse relacionado ao enterro, mas Gabriel a impediu. Fazia tempo que ela não passava um tempo com Ash, então resolveu se oferecer para o trabalho enquanto a garota esquecia-se do mundo com a garotinha. Mandara Matheus ir vigiar Finny e agora se esforçava sozinho na cova.

Tirou mais três pás cheias de terra do buraco que se formava. Ele sorriu, satisfeito. Um pouco mais e conseguiria a altura necessária para poder enterrar Carol. Ele parou por um instante e olhou por cima do buraco, exprimindo uma careta ao notar o embrulho feito de lençol a alguns metros dele. Era estranho imaginar que a namorada do melhor amigo se encontrava nele. Mais estranho ainda era pensar que ela havia feito aquilo para se livrar do mundo em que viviam.

Ela não se demorou encarando o corpo de Carol. Ele achava injusto o que a garota tinha feito. Ela só tinha pensado nela, nunca em Finny ou nos outros. Ela não sabia a consequência que seu ato causaria neles, e jamais iria saber. Era errado se livrar da sua dor e se esquecer o que ela poderia causar às outras pessoas.

— Finalmente! — exclamou ele minutos depois, quando percebeu que estava a sete palmos do chão. Ele jogou a pá primeiro e deu um impulso, subindo logo após. Observou, orgulhoso, a sepultura que tinha cavado, pegou outra vez a pá e voltou para dentro da mansão, deixando ela perto da porta dos fundos.

Encontrou Laura e Victoria cochichando na cozinha, preparando o café-da-manhã deles. Cumprimentou-as, deprimido, pois nunca teria uma chance com nenhuma delas, e passou direto para a sala de estar, onde Kaori e Fernanda brincavam com Ash. Kaori pegara um violão da sala de música e tocava uma melodia suave, impressionando as duas garotas, que fazia exclamações e pedia por mais.

— Tudo pronto — disse ele, sentindo-se péssimo por interromper o momento delas. Kaori ergueu a cabeça para o garoto. — Podemos enterrá-la agora.

Kaori pôs o violão de lado e assentiu, se levantando. Ash fitou a japonesa, parecendo entender a importância da conversa que Kaori estava tendo no momento.

— Fêr, chame Bella e as garotas — Kaori pediu, pegando a garotinha no colo. — Gab, suba até o quarto de Finny e avise-o.

Ele fez um aceno com a cabeça, um tanto chateado. Não queria ter de encontrar Finny completamente deprimido outra vez. O garoto era seu melhor amigo — e talvez até fosse certo que ele ficasse de luto pelas últimas horas —, mas, tal como ele superara a morte de sua namorada, Finny ia superar a morte de Carol. Finny tinha que seguir em frente, como os outros seguiram. Era a melhor coisa a se fazer.

Gabriel chegou ao seu quarto e não encontrou Finny, tampouco Matheus. Correu os olhos pelo cômodo, preocupado, e notou a silhueta de Finny no espelho do banheiro. Avançou lentamente, pigarreando para chamar a atenção do garoto.

— Pode entrar.

A voz de Finny era abatida. Gabriel empurrou a porta com cuidado e viu um Finny vestindo um terno coberto de poeira se olhando no espelho de modo deprimente. Ele franziu a testa, se perguntando onde ele tinha arranjado o terno e por que o vestira.

— Achei-o no guarda-roupa — respondeu ele aos pensamentos de Gabriel, sem tirar os olhos do espelho. Terminava de arrumar a gravata. — Imaginei que seria adequado. Carol sempre dizia que gostava de me ver arrumado.

— Cara, tire o pó, então. — Gabriel entrou no banheiro e espanou o ombro direito de Finny, a poeira fazendo seus olhos lacrimejarem. Ele fez isso por mais alguns minutos, até que o terno estivesse limpo. — Agora tá melhor.

Finny agradeceu com um aceno. Um sorriso mínimo surgiu em seu rosto. Gabriel bateu nas costas dele, sem saber o que dizer. Nenhum deles havia acendido uma vela para sua namorada, nem tido um funeral falso numa homenagem a ela. Gabriel nem ao menos salvara uma parte de seu corpo para que pudesse fazer jus à namorada mais tarde.

— Você perdeu sua namorada — disse Finny de repente, virando-se para Gabriel. — Como consegue viver?

— Graças ao meu senso de humor maravilhoso e à minha saúde de ferro — respondeu Gabriel com uma risadinha fazendo o garoto revirar os olhos. — É assim, cara. Aprenda. Nesse mundo, temos que nos dar ao luxo de agradecer o que temos e jamais desejar mais. Olhe só para você, salvou Bella, Victoria e provavelmente todos nós. Perdemos um, mas temos outros para nos apoiar.

Gabriel deu de ombros e saiu do banheiro, deixando Finny sozinho. O garoto esperou na porta do quarto pacientemente. Matheus passou por ele, e até pensou em puxá-lo e dá-lo um soco por ter deixado Finny por conta própria no quarto, mas desistiu no último minuto. Não adiantaria nada bater num garoto de quinze anos antes de descer para um funeral.

Finny reapareceu, os olhos cintilando de lágrimas, porém firme. Ele conseguiu esforçar um sorriso lacrimoso para Gabriel, que o abraçou, sem constrangimento. Ele precisava daquilo, sabia.

— É agora — disse Finny com a voz embargada. Arrumou a gravata outra vez e limpou os olhos. Gabriel, estranhamente, sentiu um imenso orgulho daquele garoto.


Segundo Andar

07:37 AM


— Eu sinto muito. Fui um idiota, eu não devia ter gritado com você na frente de todo mundo, ainda mais daquela forma...

— Cory...

— Na verdade, eu não acredito que deveria ter gritado com você de forma alguma, mas você sabe que aquela garota me irrita pra caralho e só de pensar que você estaria concordando com ela e...

— Cory...

— Não, eu sinto muito. Sinto muito mesmo. Eu prometo que não vou voltar a gritar com você, Di, jamais. Ah, além disso...

— Cory! — gritou Di, perdendo a paciência. O namorado a encarou, surpreso, mas logo abaixou os olhos, envergonhado.

Di revirou os olhos. Cory elevava muita coisa a extremos desnecessários. Como na noite anterior, em que se recusara a dormir no quarto dos dois e havia passado a noite no sofá da sala. Era uma briga muito estúpida, para falar a verdade. Di tinha corrido atrás de Cory para acalmar o garoto, contudo, a única coisa que conseguira tinha sido outra saída furiosa do garoto.

E agora, na manhã seguinte, Cory a acordara batendo à porta com tanta insistência que pensou que a mansão estava desabando. Ela mal teve tempo para vestir seu roupão cor de rosa quando o namorado entrou desesperado no quarto, soltando palavras para todos os lados. Tentara sossegá-lo, mas aparentemente tinha sido inútil.

— Não precisa se desculpar por nada — disse ela gentilmente. — Eu sei o quanto você não gosta de Bella, vive reclamando dela.

Cory riu, aliviado. Di abraçou envolveu os braços no pescoço do garoto e lhe deu um selinho.

— Mas você não me deixou irritada ontem — continuou Di enquanto Cory deitava a cabeça na curva de seu ombro. — Você tá sempre acostumado a gritar com todo mundo, e com os acontecimentos mais recentes, imaginei que tivesse pensado o que sentiria se fosse eu...

Di se interrompeu. Cory ergueu a cabeça, parecendo um pouco perdido. Ela xingou-se mentalmente por ter dito o que havia dito. Obviamente, tocar no ponto fraco de Cory — ela própria, Di — não havia sido muito inteligente no momento. E não deu outra: os olhos de Cory se encheram de lágrimas e ele respirou fundo e abraçou a namorada.

— Ok, acho que por essa eu tenho que pedir desculpas — falou ela, apertando mais Cory ao corpo dela. — Foi mal.

— Tá tudo bem — respondeu a outra com a voz rouca.

Di sentiu o hálito quente do namorado em seu pescoço, e logo depois os lábios dele depositando um beijo no local. Ela levantou a cabeça de Cory para dar-lhe outro beijo, dessa vez mais demorado.

— Uou! — exclamou alguém ao abrir a porta do quarto. Di se desgrudou de Cory e encontrou Fernanda com a expressão chocada, não esperava encontrar essa cena. Cory esfregou os olhos e olhou com superioridade para a garota. — Foi mal, gente, mas, hm, Gabriel já terminou a sepultura. Hm, vamos enterrar... ahm, agora...

E saiu do quarto. Di olhou para o namorado, embaraçada com a reação de Fernanda. Se não estivesse numa situação tão deprimente, até teria rido da garota.

Ao invés disso, contudo, apertou a mão de Cory contra a sua e desceu as escadas na direção do quintal dos fundos, onde todos eles já se encontravam. O corpo de Carol estava ao lado da sepultura que, pelo que Fernanda dissera, Gabriel cavara. Finny era amparado por Kaori e Gabriel; Matheus e Bella conversavam a um canto mais afastado; Victoria e Laura tomavam conta de Ash.

— Todo mundo está aqui? Ótimo — falou Kaori, se aproximando, ainda que receosa, da cova de Carol. Ela recebeu um olhar corajoso de Fernanda. — Eu, hm, acredito que deveríamos falar algumas palavras... Algo que lembre Carol a vocês, a garota audaciosa e louco de nossa mesa.

E assim, cada um falou um pouco. Kaori mencionou a vez que namorou a garota por algum tempo e então com isso apresentou a garota para Finny; ela também chorou um pouco e foi consolada por Fernanda. Gabriel, também não havia se esquecido de quando namorara a garota — uma coisa que algumas pessoas sequer se lembrava mais —, elogiando sua personalidade.

Cory foi o terceiro a falar. Chegou próximo ao corpo da garota e falou alguns dos momentos mais loucos que compartilharam, quando jogavam verdade e desafio e tinha todos aqueles desafios que ela, ele e Kaori muitas vezes estavam no meio, e com isso deixou algumas lágrimas escorrerem. Tal como Kaori, não suportou muito a dor e buscou um abrigo nos braços de Fernanda. Di falou pouco, no entanto. Não tinha muitas lembranças com Carol, gostava dela, gostava de ela ter cuidado delas enquanto viva, e sempre a agradeceria por ter feito pouco, mas, ainda assim, muito.

Matheus, Laura e Victoria disseram palavras rápidas. Di tinha a impressão de que Bella estava ali apenas para terminar o serviço; a garota permanecia em seu canto, em silêncio. Fernanda não se demorou, e deu logo espaço para que Finny se despedisse. Os olhos do garoto, como sempre, brilhavam de lágrimas. Tentou várias vezes dizer algo, porém sempre se traía. Por fim, quando julgou necessário enterrar Carol de uma vez só, abaixou-se para ficar perto do corpo e passou a mão por sua cabeça.

Kaori, Bella e Gabriel desceram delicadamente o corpo da garota na sepultura. Gabriel recomeçou seu trabalho, agora jogando terra sobre o corpo recém-enterrado de Carol. Di olhou para cima e viu o céu, brilhando intensamente sobre si. O sol quase a cegava. Era injusto, pensou. Um dia tão bonito, para estar numa situação daquelas, em um mundo daqueles.

Ela acenou com a cabeça, lembrando-se de quando se hospedara na reserva florestal, parecendo-lhe anos antes. O que Cory havia lhe dito martelou na sua cabeça. Talvez o namorado estivesse certo, então. Talvez Deus não estivesse sendo justo com nenhum deles.