In The Hell

12 in the hell 11


20 de Março de 2012

Quarto da Bella, Terceiro Andar

08:35 AM

— Você só desmaiou semana passada, pouco depois de acordar?

— Foi.

— Sentiu algumas dores durante o resto da semana?

— Físicas ou psicológicas?

Bella riu.

— Não, nenhuma. — Fernanda respondeu um pouco mais tarde.

O estetoscópio fazia cócegas em seu peito enquanto Bella a examinava. Ela tentava o máximo não encarar os bonitos olhos azuis da mulher, mas era quase impossível. A outra não parecia se importar com a forma hipnotizada que Fernanda se encontrava (talvez recebesse aquele tratamento ao redor dela sempre) e fazia seu trabalho normalmente, agora analisando a pupila da loira com uma pequena lanterna.

— Bom, parece que está tudo bem. — Bella finalizou com outro sorriso, colocando os equipamentos na cômoda. Fernanda sorriu também, entorpecida.

Nos últimos três dias, Bella transformara seu quarto no último andar da mansão em um pequeno consultório médico. Cory e Finny haviam brigado entre si para que a garota pudesse finalmente examiná-los. Cory ameaçou jogar Bella de volta ao condomínio, ameaçou roubar o carro de Kaori e ir embora com Di para Senhor sabe onde, entre outras coisas, mas no fim acabou cedendo.

Bella, depois que se passava do torpor de olhar fundo naqueles olhos ou observar o corpo maravilhoso que ela tinha ou até mesmo ficar impressionada com o cabelo brilhante e louro dela, era uma boa pessoa. Apenas Cory e Carol pareciam ter um problema com ela. Bella era a diversão na mesa na hora das refeições, e isso sempre atraía uma grande saraivada de olhares raivosos dos dois.

Fernanda não via motivo para aquilo. A não ser que Carol tivesse se importando muito além da conta com o tempo que Finny passava com Bella e Cory estivesse com medo de que o remédio para tosse que a garota havia passado para ele fosse, na verdade, veneno, nenhum deles tinha muito com que se preocupar.

— Por que a Kaori não veio aqui? — perguntou Bella sentando ao lado de Fernanda na cama, oferecendo a ela um suco de laranja feito de saquinho que sempre deixava ali para o final da consulta. A loira corou até as orelhas (ser a primeira pessoa a ser procurada quando queriam falar sobre a japonesa ainda era estranho), mas aceitou o suco. — Eu quero dizer... ela foi a primeira a se posicionar ao meu favor.

Fernanda tomou quase o líquido inteiro do copo antes de responder.

— Kaori está fazendo muita coisa... — ela disse lentamente. — A maldita cerca que eles estão construindo. Aquilo tá sendo difícil.

Bella assentiu em concordância, tomando um gole do suco. Com a proposta de Di de apenas usar o gerador à noite, Fernanda gastava seu tempo na mansão cuidando de Ash e observando da janela de seu quarto os garotos trabalharem ao redor da casa, andando de lá para cá, vendo o que seria necessário para que construíssem uma boa cerca. No dia anterior, Gabriel e Cory haviam feito uma corrida ao condomínio e pegado um bom número de materiais para construção que eles tinham encontrado nos fundos do local.

— Kaori é uma garota legal — disse Bella de repente. — Sorte a sua ser namorada dela.

Fernanda engasgou no suco de laranja e tossiu.

— N-nós não estamos namorando — falou Fernanda com dificuldade enquanto sentia Bella dar tapinhas em suas costas. — Pelo menos, eu acho que não.

Bella arqueou a sobrancelha, cética. A garota sabia exatamente para onde ela estava olhando: sua camisa xadrez calorenta que Kaori havia lhe trazido da inspeção no condomínio. Fernanda não era muito fã daquele estilo, mas não tinha muitas opções no meio de um apocalipse zumbi. Ela só queria uma forma de deixar a camisa mais confortável e — muito — menos quente.

— Rasgue-a — sugeriu Bella como se tivesse lido a sua mente.

Fernanda arregalou os olhos para ela. Bella levantou-se outra vez e pôs seu copo na cabeceira, dando de ombros. Virou-se para a loira:

— Kaori não vai se importar, não era dela mesmo.

— Ah, com certeza ela vai se importar — disse ela desesperada, rindo de nervoso. — Ela é muito detalhista.

Bella riu, pegando o copo vazio da e colocando ao lado do seu. Fernanda franziu o cenho diante da mínima preocupação da garota. O que aquela mulher tinha na cabeça?

— Relaxa Fêr, se Kaori reclamar alguma coisa, fala para ela que fui eu — retrucou Bella displicente, se aproximando de Fernanda de forma sorrateira e puxando a manga esquerda da camisa numa rapidez impressionante.

Fernanda não sabe dizer por quanto tempo ficou encarando o braço nu em estado de choque, mas quando viu, a grande camisa flanela que vestia não passava de um colete. Ela olhou para Bella, querendo estar com raiva, mas simplesmente não conseguia, não com ela rindo daquela maneira, tão perfeitamente... perfeita.

— É isso que você vai ganhar com minha consulta? — ela indagou quando conseguiu parar de rir. — Duas mangas de camisa?

— Melhor do que eu consegui com as outras — respondeu Bella, ainda rindo. Quando se controlou, piscou para Fernanda. — Mande sua namorada para cá assim que possível, ok?

— Ela não é minha... — Bella nem lhe deu tempo para terminar a frase: empurrava-a para fora do quarto apressadamente.


20 de Março de 2012

Sala de Estar, Primeiro Andar

23:11 PM

Laura sentia-se confortável com Victoria. Por exemplo, naquele momento, ela deitava-se no colo da garota e estava tão bem consigo que nem o ar de inveja vindo de Matheus e Gabriel a afetavam.

Di ligara o gerador aquela noite outra vez para que pudesse aproveitar a televisão enorme da sala e o aparelho Blu-Ray de última geração para assistirem um dos DVDs da coleção enorme que o antigo proprietário possuía.

Em um dos sofás estavam Cory e Di, abraçados tão forte que Laura pensou que os olhos dos dois sairiam pelas órbitas. Espremidas num canto do mesmo sofá, Kaori enrolava os dedos nos cabelos de Fernanda, o que fazia a garota em seu colo revirar os olhos de sono. Matheus sentava-se desconfortável numa das cadeiras da cozinha, tal como Gabriel, enquanto Bella usava sozinha uma das poltronas. Carol e Finny, mesmo parecendo emburrados um com o outro, dividiam a outra. E para Laura e Victoria, sobravam-lhe o outro sofá, tão grande que parecia estar lhe engolindo enquanto deitava.

Ela não fazia ideia do por que Di insistira tanto para que as duas compartilhassem o sofá enquanto Kaori e Fernanda — um casal de verdade, pelo que parecia — sofriam apertadas uma em cima da outra. Será que era isso...?, pensou Laura franzindo a testa, aconchegando mais a cabeça no colo de Victoria. Di queria que elas fossem...?

Impossível. Não se via daquela forma com Victoria. Elas só tinham tirado uma à outra no meio desse inferno todo, Laura a protegeria sempre que possível, sempre que pudesse. Isso apenas significava que Laura queria o bem de Victoria, só isso.

Só isso...

— Ah... — fez Fernanda, acordando assustada no colo de Kaori. Laura a encarou, grata por ela ter interrompido seus pensamentos. — Onde estamos?

— Marty tem que voltar ao futuro para poder salvar seu presente e depois voltar ao passado para salvar o futuro de seus pais. Tudo em cima de um overboard — respondeu Kaori gentilmente no ouvido dela.

Fernanda assentiu e voltou a dormir.

— Ah, eu vou dar uma olhada nas janelas — anunciou Bella, levantando da poltrona e se espreguiçando. Ela bocejou enquanto Doc explicava sobre os raios do dia 5 de novembro.

Laura ficou encarando a televisão, os olhos mal se agüentando abertos. Podia ouvir os suspiros pesados de Victoria. Quando virou a cabeça para cima, encontrou a garota de boca aberta e a cabeleira ruiva encostada na cabeceira do sofá. Laura riu de leve e apertou a coxa de Victoria para acordá-la.

— Não estou dormindo — Victoria disse assim que abriu os olhos. Ela abaixou a cabeça e encarou Laura, que ainda ria em silêncio. — Idiota — murmurou para a garota.

— Acho que tá na hora de alguém ir para cama — falou Cory maliciosamente, seus olhos indo de Fernanda e Victoria.

Kaori fez um gesto obsceno para ele, o que mostrou muito bem o que Victoria estava pensando. Contudo, ela levantou do colo de Laura e sentou-se no sofá, não tão confortável quanto alguns minutos antes. Toda aquela pressão pra cima dela estava lhe deixando sem graça e com um pouco de medo.

— Vamos, Laura — disse Victoria, tomando toda a coragem que lhe restava. Ela ergueu-se e estendeu a mão à garota. — Hora de dormir.

— Posso ir junto? — perguntou Gabriel animado.

Cory o encarou furioso. Vic, ainda com a mão estendida, sentiu-se corar fortemente.

— Não, você tem Ash como colega de quarto — respondeu Laura sonolenta, que não parecia ter entendido o tom safado do garoto. — A minha é a Vic.

Para que Laura pudesse evitar todo o constrangimento que se seguiu, Bella voltou à sala naquele momento.

— Têm dois walkers caminhando pelo gramado — disse ela, não percebendo o clima tenso no cômodo. — Quem vai lá comigo?

— Por que você tem que ir acompanhada para matar dois walkers? — perguntou Cory com desdém.

Bella se atrapalhou nas palavras; Kaori estava tirando a loira de seu colo prontamente, e o mesmo fazia Finny até o olhar de Carol pará-lo, porém Victoria se pronunciou primeiro:

— Eu vou! — e levantou a mão estendida para Victoria, apontando sua certeza.

Kaori voltou a se aconchegar no corpo de Fernanda novamente, parecendo desapontada. Cory levantou a sobrancelha para ela. Matheus soltou um ronco alto. De Volta Para o Futuro era um filme há muito tempo esquecido se não fosse a concentração de Di e o olhar triste de Gabriel na direção da televisão.

Vic olhou para a sonolenta Laura.

— Fique aí — disse, apontando o indicador no seu rosto. — Daqui a pouco eu volto.

Laura assentiu, deitando no sofá, agora somente dela. Vic assentiu para Bella e a seguiu, parando para pegar sua faca na mesa da cozinha.

— Onde estão? — perguntou nervosa ao colocar o pé para fora da mansão.

A faca tremia em sua mão, e Victoria sinceramente não saberia dizer se era de medo ou excitação. A última vez que enfrentar walkers fora na reserva florestal, ainda em Ohio, parecendo anos atrás. Os do porão não contavam, por que, mesmo passando um bom tempo, ainda lhe aterrorizava, e muito.

Nenhum deles confrontara Finny sobre os errantes no porão e no terraço. A maré de boa sorte deles era tão rara que nem mesmo Di — a mais “bem colocada” entre eles, por assim dizer — queria trazer esse problema à tona.

— Perto das janelas da sala — respondeu Bella, ajeitando seu facão emprestado (que causara mais um grande problema com Cory) nas mãos. — Acredito que tenham sido atraídos pelo barulho da TV.

Victoria concordou, acompanhando Bella dar a volta na casa sorrateiramente. Ela não gostava muito do escuro, mas enfrentar uns errantes era melhor do que ficar muito tempo naquela sala de estar com Cory e Di a incitando para que beijasse Laura.

— Cuidado! — gritou Vic sem querer e por instinto quando Bella estava prestes a virar outro canto da mansão. A mulher a olhou como se estivesse louca, mas não deu outra: o errante saiu caminhando pelo lado que Bella queria seguir.

Bella arregalou os olhos, mas logo recuperou do susto. O walker foi para atacá-la, mas Bella era mais rápida. Victoria ouvira falar que ela combatia somente com uma metralhadora, porém Bella também tinha perícia em luta corpo-a-corpo. Num segundo, a cabeça do errante caía no chão cimentado ao redor mansão.

— O próximo deve vir daqui a pouco, graças a seu grito... — disse Bella, não deixando de pôr despeito em seu tom. Victoria deu-lhe um sorriso amarelo.

Victoria não tivera um tempo a sós com a garota nova (além da sua “consulta”, na manhã anterior), mas pelo que pôde perceber, ela parecia ser metida e, no entanto, tinha todas as razões para que fosse metida. Ficara sinceramente impressionada com o tanto de brigas que Cory poderia arranjar em três dias só por causa daquela garota.

Bella apontou com o queixo para algum ponto atrás dela, pondo o facão em guarda outra vez. Victoria assentiu, pedindo na forma de sinais para que Bella a deixasse cuidar desse.

Ela ouvia os grunhidos do walker agora solitário nas suas costas. Passou a língua pelos lábios, tentando se concentrar, sentindo passos arrastados chegar a poucos metros dela. Bella a encarava franzindo o cenho, Victoria sorriu e piscou.

A mulher estava pronta para pular na sua frente e matar o walker quando Vic virou-se como um foguete e enfiou a faca que possuía na cabeça do morto-vivo de forma certeira. Puxou de volta para si a faca e deixou que o corpo caísse aos seus pés, sorrindo vitoriosa.

— É, você me deixou preocupada com essa — admitiu Bella ao voltar para dentro da mansão, limpando seu facão no pano sujo que Carol deixara na cozinha especialmente para isso.

— Só porque eu sou um ano mais nova que eles não signifique eu não saiba matar walkers — respondeu Victoria sabiamente, limpando sua faca logo após Bella.

As duas voltaram à sala em tempo de ver Kaori carregar Fernanda no colo e subir as escadas com um pouco de dificuldade. Carol, Finny e Matheus já não estavam mais lá. Di, Cory e Gabriel eram os únicos que tinham os olhos atentos no filme, enquanto Laura roncava alto no sofá.

— Boa noite — disse Bella teatralmente, sorrindo para Victoria e lançando um olhar irônico a Cory, como sempre acontecia quando algum deles saía do cômodo. Cory esperou que a garota subisse os degraus para fazer-lhe um gesto obsceno e resmungar uns palavrões sem sentido.

— Laura, acorde. — Vic sacudiu o ombro da garota. — Por favor, Laura, temos que ir deitar.

Laura balbuciou algumas palavras bizarras e abriu os olhos. Ela sorriu quando viu Victoria e sentou no sofá, fazendo bico.

— Não vou carregar você no colo, levanta — respondeu Victoria terminantemente.

Ela xingou mais um pouco, mas logo estava de pé, cambaleando, mas felizmente em pé e andando por conta própria — se ignorar o fato de que abraçava à Victoria firmemente. Cory não deixou de reparar e, enquanto ele mesmo se ajeitava com Di no sofá, sorriu para as duas.

— Noite — murmurou Laura com sono.

Ela revirou os olhos e despediu-se dos três, tentando ignorar o olhar de Gabriel as seguindo com desejo. Victoria não conhecera a sua namorada, mas desejara que ela não estivesse morta. O garoto tentava cobrir sua saudade e carência com toques safados e sorrisos cafajestes, e não pegava muito bem para ele.

— Tem sangue na sua blusa — comentou Laura quando as duas já estavam deitadas na cama de casal gigante, a vela deixando sombras bruxulearem pelo quarto de uma forma aterrorizante. Mais que o escuro, Victoria tinha medo das silhuetas que se formavam à luz de velas. Se não fosse por Laura, a vela teria sido apagada há muito tempo.

Ela olhou para a borda da camisa folgada que estava usando e viu as manchas de sangue do walker que matara meia hora antes. Engoliu em seco, se perguntando se aquilo seria algum problema.

— Não tem problema se você tirá-la — disse Laura, virando para o outro lado a fim de dar privacidade a Victoria. — Nem estou olhando.

— Depois posso apagar a vela, então? — sugeriu Victoria com o ar de riso.

— Claro — respondeu Laura, vencida. — Eu te odeio, Vic.

— Sei disso — falou Vic, deitando no seu lado da cama após colocar uma camisa limpa e deixar a outra jogada no chão do quarto. — E me ama também, né?

Laura sussurrou um sim antes de começar a roncar.


Área dos Fundos.

12:35 PM

— Kaori, mova a viga uns dois metros para a esquerda — ordenou Finny.

Kaori fez um sinal positivo e levantou a trave de metal com toda a força que tinha. Arquejou um pouco, segurou-a firme entre as mãos e rumou para onde Finny desejava a viga, afundando ela uns quarenta centímetros no chão.

Limpou o suor da testa e olhou para as janelas do segundo andar da mansão, encontrando Fernanda acenando para ela animada. Ela estava com Ash no colo. Kaori retribuiu o cumprimento, desajeitada, e logo Finny começou a ralhar com ela por não estar concentrada no trabalho.

— Kaori! — ele gritou de longe. A garota tirou os olhos da janela e fitou o amigo, sem expressão. — Pare de conversa, temos de trabalhar!

Ela revirou os olhos, mas pegou as outras duas vigas e as colocou a mais ou menos três metros de distância da primeira, de modo que esta estivesse no meio. Finny a vigiava agora de perto. Kaori não sabia por que ele estava pegando pesado pra cima dela, sendo que podia ouvir claramente Gabriel e Cory brincando com a mangueira ao invés de molhar o cimento para criar concreto e o colocar nas vigas já fincadas.

— Voltamos! — disse Cory ao surgir em um dos lados da casa carregando um carrinho de mão. Ele sorria, suas roupas estavam todas molhadas e Gabriel vinha atrás dele, igualmente encharcado. — Olha só o seu cimento, Finnyzinho...

— Não me chama de Finnyzinho — resmungou Finny em voz baixa.

— Podem começar com as primeiras vigas, ali — apontou Kaori quando Cory ignorou o garoto. — E façam esse serviço rápido, estou com fome.

Cory abriu um sorriso maroto ao passar por Kaori, deixando o carrinho de mão ser trabalho de Gabriel. Kaori revirou os olhos e pôs-se a trabalhar nas grades que Finny havia encontrado no porão da casa. Eram surpreendentemente fortes e grossas, o que seria uma dificuldade caso walkers aparecessem. O plano era enrolá-las ao redor das vigas e formar uma cerca, muito mais potente que a antiga de arame farpado.

Meia hora mais tarde, o concreto segurava as vigas firmemente, a grade se amarrava de maneira segura nas primeiras traves levantadas e os quatro meninos observavam seu trabalho orgulhosamente. Cory, antes que eles pudessem comemorar mais um pouco, contudo, apontou para frente, a expressão preocupada. Kaori apertou os olhos e viu mais um walker caminhando na direção deles.

— Espera, espera — disse Kaori apressada ao notar que Cory já erguia sua pistola e se preparava para atirar. Ele abaixou a arma e a fitou. — Vamos ver se essa parte da cerca tá boa.

— Tá tudo molhado ainda, Kaori — justificou Gabriel. Ele também havia tirado sua arma do coldre e, ao contrário de Cory, estava livre para atirar. — Não vai dar.

— Acho que não — decidiu Finny quando seu olhar encontrou o de Kaori. — Vamos ver o que acontece.

Cory e Gabriel reviraram os olhos, mas guardaram suas armas. O errante se aproximava lentamente, e Kaori não resistiu ao lembrar-se de alguns dias antes, quando ensinara Fernanda na marra como devia se atirar. Um sorriso iluminou seu rosto, porém desapareceu logo ao ver que Gabriel lhe encarava fixamente.

A grade rangeu quando o morto-vivo foi de encontro com ela. Ele recuou alguns passos, parecia confuso, e avançou outra vez. Kaori se controlou para não cair na risada. O errante recuou e avançou algumas outras dez vezes, porém, a cada tentativa furada, ele ficava mais furioso. Cory não foi tão forte quanto Kaori e soltou uma gargalhada.

Kaori sabia que o momento não merecia risadas (na verdade, nenhum momento no apocalipse merecia risos), mas não deixava de ser engraçado. Os quatro haviam construído algo que retardava os errantes, estavam melhor que o governo estadunidense.

— Bom... — disse Finny interrompendo os risos de Kaori, Cory e Gabriel. — o momento acabou. Já vimos que a grade está firme e — ele ergueu seu facão — é hora de matá-lo.

— Espera! — Um grito veio de dentro da mansão. Kaori virou-se, impressionada por encontrar Bella correndo na direção deles.

Ela parou ofegante ao lado de Kaori, que rapidamente enrijeceu o corpo, querendo o máximo de distância possível entre elas. O “efeito Bella”, como era chamado por Cory, não parecia ter passado nele. Kaori não podia evitar, Bella era tão bonita...

— Não matem esse, por favor — falou Bella. A frase tirou Kaori de seu transe, ela olhou incrédula para a garota.

— Por que não? — indagou Finny, o facão apontado para a cabeça do walker, que ainda tentava ultrapassar a grade.

Os olhos de Bella pararam numa das vigas que restavam para completar a cerca. Depois, partiram para umas cordas jogadas no chão e voltaram para a garota. Kaori mordeu o lábio e acenou que entendera.

— Eu quero examiná-lo — respondeu Bella. Cory bufou. — É sério, porra! Já pensou que não há mais ninguém lá fora cuidando ou querendo resolver essa merda? Você já pensou que ninguém mais está se importando com o que pode acontecer, com algum tipo de cura?! Se é que existe alguém lá fora...

“Eu sou capaz de ver o que pode estar acontecendo com eles. Fui treinada para ser médica, trabalhar nessa área. Sei mais de anatomia do que qualquer um de vocês, alunos do ensino médio, vão saber um dia.”

Cory ficou calado. O errante agora andava de um lado para o outro, procurando uma saída por dentre a cerca. Kaori suspirou; Finny abaixou o facão vagarosamente enquanto o walker dava a volta na cerca, encontrando uma forma de chegar até eles.

Kaori agiu primeiro: seguiu o walker por trás e o prendeu numa espetacular chave de braço. Ela nunca chegou a saber como não havia sido mordida pelo errante faminto, mas ficou satisfeita com o resultado. Gritou para que Cory estancasse a viga no chão de terra e para que Gabriel pegasse a corda. Rapidamente, os dois fizeram o que foi mandado.

Kaori soltou o walker no minuto exato em que Gabriel o laçou num lance perfeito da corda e Cory enterrava a trave no chão. O garoto o empurrou até o local da viga e amarrou o errante seguramente nela. O morto-vivo tentou avançar neles outra vez, mas o nó de Gabriel era firme. Bella sorriu agradecida para Kaori.

— Não deixe as crianças aqui fora sozinhas — avisou Cory. Ele ainda estava emburrado com o fato de Bella estar certa, mais uma vez.

— Ash só tem dois anos e nunca tá desacompanhada — retrucou Kaori, confusa.

— Não ela. Laura, Victoria e Matheus — o amigo respondeu como se explicasse o óbvio. Gabriel o acompanhou para dentro da casa, de onde o cheiro do bacon roubado de Kaori no condomínio vinha.

— Hora do almoço — cantarolou Kaori sorrindo, puxando Finny para dentro também, deixando Bella observar o walker, sozinha.


Quarto de Kaori, Segundo Andar

08:44 PM

— Eu não acredito que a Bella fez isso. — Kaori parecia decepcionada. — Quer dizer, era uma boa camisa...

Fernanda riu da importância aparentemente boba que Kaori dava a uma camiseta achada numa casa qualquer no meio do nada. Estava no quarto dela, que agora estava mais para quarto das duas. Suas roupas ocupavam parte do guarda-roupa de Kaori, algumas camisas e calças sujas jaziam jogadas no chão displicentemente, e Fernanda deitava-se de forma confortável no colchão, sentindo a respiração tranqüila e triste de Kaori em seu pescoço enquanto era abraçada por ela.

Acabara de contar a história do consultório de Bella, mas antes que a convencesse de subir ao quarto da mulher, teve que parar por um minuto para que Kaori pudesse processar a ideia de ter sua camisa de flanela favorita rasgada nas mangas. Fernanda ocultara de propósito uma das outras partes que a aterrorizara (Bella chamando-a de namorada de Kaori), desejando não pôr a japonesa em algum tipo de pressão.

— Kaori, era só uma camiseta, credo — retrucou Fernanda, rolando os olhos. — E minha, acima de tudo. Eu podia fazer o que quisesse com ela.

— Acho que você tem razão — murmurou Kaori se soltando dela e caindo do outro lado do colchão, continuando arrasada. — Não vamos descer para ver algum filme, não?

— São apenas três vezes na semana. Hoje não é uma dessas três vezes — disse Fernanda, virando-se para a garota e sorrindo por causa da forma esparramada que ela caía na cama. — Falando nisso... Quando você iria me contar que ainda não foi ao “consultório” da Bella?

— Porque eu sou a preguiça em pessoa. – Kaori falou fazendo uma careta fazendo a loira sorrir.

— Mas me prometa que irá vê-la amanhã, ok? – Fernanda fez um biquinho que logo foi desmanchado por ter recebido um selinho.

— Depois que o Finny me liberar do meu trabalho escravo... Quem sabe. – Kaori falou sorrindo.

Levaria mais dois ou três dias para que eles pudessem terminar de colocar outras cercas ao redor da mansão, e Fernanda se mantinha positiva em relação a isso. Mais algum tempo e ela e Kaori estariam verdadeiramente seguras.

— Você fica linda à luz de velas... — murmurou Kaori embaixo de Fernanda, sorrindo apaixonadamente. Os cabelos loiros praticamente tampavam o rosto de Kaori, então Fernanda não sabia dizer muito bem como ela conseguia ver alguma coisa, muito menos seu rosto, à luz de velas.

Ela deu de ombros e inclinou-se alguns centímetros para beijar a boca de Kaori. Tudo parecia tão natural agora que era bizarro. Meses antes, beijar Kaori pareceria errado, algo não muito correto de se fazer. Mas, naquele momento, tudo o que Fernanda pensava era em como faria Kaori feliz, de todas as formas possíveis e imagináveis, como elas passariam por aquilo tudo, tendo só uma à outra.

— Oh — fez Kaori, interrompendo o beijo. Ela deixou que Fernanda caísse ao seu lado e a puxou para perto outra vez, abraçando-a de lado. — Acho que alguém não está muito feliz.

Fernanda apurou os ouvidos e identificou duas vozes raivosas vindas de algum lugar no corredor. A única pessoa naquela casa além dela que gritava tão alto era Carol. Ela subiu os olhos para Kaori, que fez um sinal de silêncio, ouvindo atentamente a discussão. Não demorou a Fernanda perceber que a outra pessoa era Finny.

— Devemos interromper? — sussurrou incomodada.

— Não, é bom para eles brigarem um pouco.

— Mas, anjo eles estão berrando e... — um barulho de objeto se chocando com a parede fez-se ouvir, assustando a loira — jogando coisas um no outro!

— Não é problema nosso meu ano — respondeu Kaori categórica. — Vamos esperar a poeira baixar e depois, quem sabe, perguntar a eles o que aconteceu, na maior cara-de-pau.

Fernanda bufou descontente. Kaori riu de sua expressão e a puxou para o mais perto dela possível, apertando Fernanda tão forte contra si que chegava a doer.


Quarto de Finny e Carol, Segundo Andar

09:12 PM

— Você o quê?! — gritou Carol, andando em círculos pelo quarto.

— E-ela pediu, disse que era para pesquisa! — Finny atrapalhou-se nas palavras. O tom da namorada era realmente assustador. Ele nunca a tinha ouvido falar daquela forma. — Eu não vejo nada demais nisso!

— Forçar seus amigos a aceitar uma pessoa que você conhece em menos de duas horas no seu bando, colocá-la para dentro da sua casa, deixá-la pôr um walker no seu quintal... — Carol ia contando nos dedos, o que fazia o garoto sentir-se cada vez pior. — Tem gente que faz burrice, mas você está ultrapassando elas num bom nível!

Finny se permitiu um grito frustrado. Sentou na cama, observando Carol dar voltas e voltas no quarto dos dois, pisando tão forte que o impressionava o fato de que ninguém ainda não subira para reclamar.

Estava cansado. Da pressão, da namorada louca, da atração que sentia por Bella e não deveria... Ele queria um minuto de descanso, só isso, era pedir demais? Ele não agüentaria muito tempo... Essa coisa de liderança era pra gente como Kaori e Cory. Finny era tipo de garoto que ficava na espreita, só aproveitado os privilégios de ser o segundo no comando.

— O que vai fazer? — perguntou Carol após um longo período de silêncio, parando na frente dele.

— Em relação a quê?

— Expulse-a.

O garoto levantou no mesmo momento, uma raiva desconhecida tomando seu corpo.

— Não! — disse.

O rosto da garota estava a centímetros de Finny, como tantas vezes antes, mas ele não via nenhum amor em seus olhos. Ele não conseguia enxergar a garota poderosa por quem se apaixonara um dia. A garota na sua frente era uma pessoa totalmente diferente.

Carol engoliu em seco e se afastou de Finny. Parou em frente à janela e ficou olhando o lado de fora da mansão.

— Eu não vou mandá-la embora — continuou Finny, o tom de voz que usava impressionando até ele. — Ela precisa de ajuda, e olha só o que ela já fez pra gente!

— Sim, e estar na metade do curso de Medicina que jamais será terminado é algo bom — contestou Carol em um murmúrio, ainda olhando pela janela.

Finny revirou os olhos. O que era preciso fazer para que Carol se desse bem com Bella? Um conselho para decidir qual das duas eles mandariam embora? Pelo mau-humor que Carol estava nos últimos dias, não seria muito difícil resolver quem iria.

— Essa vida não é pra mim — desabafou ela, a voz embargada. — Amor, me desculpa, mas isso não é meu mundo.

— Nós podemos resolver isso! — exclamou Finny, preocupado com o tom de funeral da namorada. Ele se aproximou lentamente dela, mas hesitou no último instante quando Carol virou-se outra vez para ele. — É sério! Estamos bem aqui, não estamos? Tudo vai voltar ao normal um dia, nós podemos...

— Nunca vai voltar ao normal, Finny, você ainda não entendeu? — contrapôs Carol, os olhos brilhando de lágrimas. — Nosso passado, nosso antigo mundo, aquilo tudo já era... Não somos mais os mesmos, jamais voltaremos a ser.

Finny não fez nada além de abraçá-la com força. Alguma coisa em Carol estava deixando-o assustado. A maioria deles havia mudado a personalidade, havia perdido entes queridos, eles haviam transformado terrivelmente nos poucos meses daquele inferno. Contudo, Finny tinha fé. Acreditava fielmente que eles iriam sair bem daquela. Era só mais uma grande aventura, como nos filmes. Ele não suportava tristeza por que não tinha razão para ficar triste. Era só mais uma aventura...

Carol se desvencilhou dele e deitou na cama, sem falar mais nada durante a noite toda.