In The Hell
13 In the hell 12
Quarto da Bella, terceiro andar
— Já descobriu alguma coisa sobre os walkers? — Kaori entrou no quarto questionando um tanto acanhada e seguiu em direção da cama sentando-se.
— Apenas que eles gemem demais — respondeu Bella com um sorriso amarelo. Ela sentou-se ao lado da japonesa na cama bagunçada e deu um suspiro pesado. — Iria precisar de um hospital inteiro à minha disposição para descobrir só uma pequena parte do que eu quero.
— Talvez a gente possa... — começou Kaori, porém Bella lhe interrompeu com um gesto de mão.
— Não vou obrigar vocês irem para Nashville, não com a cidade inteira sitiada. A essa altura, todos lá estão mortos.
Kaori concordou com a cabeça, levantando-se. Sorriu para ela e se aproximou da porta. Antes de sair, contudo, ouviu a voz de Bella carregada de ironia:
— Foi mal pela camisa. — Kaori parou no portal e acompanhou a risada fraca da garota. — Mas eu aposto que sua namorada adorou. A propósito, se quiserem matar o walker hoje à tarde no treino de vocês, sintam-se à vontade.
Kaori sentiu-se corar furiosamente. Ela saiu do quarto de Bella praticamente correndo e sem responder ao comentário da garota.
Cozinha, Primeiro Andar, TN
Finny sorriu ao encontrar Carol preparando alguns enlatados para o almoço. Ele não sabia se seria correto aproximar dela após da milésima discussão que haviam tido na noite anterior, que o fizera ir dormir no sofá outra vez, mas o que ele mais queria naquele momento era abraçar sua namorada. Tê-la em seus braços era a coisa mais importante que ele teria naquele mundo maluco.
Ele não sentia nada por Bella, tinha que se obrigar a lembrar. A garota era apenas mais uma que achava bonita, nada mais. Carol era o que importava. Ela estava precisando de Finny, talvez mais do que ele estava precisando dela, e não podia recusá-la um pouco de carinho e atenção.
Finny pigarreou para anunciar sua presença na cozinha. Carol virou-se para ele com a sobrancelha erguida, mas logo sua expressão se transformou. Era complacente, algo que o garoto não via há tempos no rosto dela. Sorriu de novo, aliviado.
— Sinto muito por ontem — disse ela num suspiro só antes que ele falasse. — E antes de ontem, e dois dias antes... fui uma idiota, tenho que admitir.
O garoto assentiu, surpreso com suas palavras. Carol não se incomodava muito em pedir desculpas quando se sentia certa — e ela se sentia certa quase sempre.
— Tudo bem? — ele perguntou, franzindo o cenho.
Carol riu fragilmente, limpando as mãos no pano de prato, se aproximando dele e as colocando nas bochechas do garoto. O toque frio de sua pele assustou Finny um pouco; ela costumava ser quente. Talvez fosse a água gelada, pensou esperançoso.
— Você é o máximo, amor. — ela falou depois de dar-lhe dois beijos estalados na bochecha do namorado. — Obrigada por tudo.
O tom dela amedrontou ele. Ele sabia que ela estava armando algo, ela não estava tão bondosa assim nos últimos dias. Queria acreditar que a garota tivesse simplesmente tomado juízo, mas não conseguia. Alguma coisa estava acontecendo dentro dela, alguma coisa perigosa.
— Amor... — chamou Finny com a voz fraca, sentando-se num dos banquinhos da cozinha quando ela voltou sua atenção à refeição. Pelo canto do olho, ele foi finalmente reparar em Fernanda. — O que foi? Eu te conheço, você não pode estar dessa maneira por causa da Bella, se quiser eu...
— Finny, chega desse assunto — cortou Carol firmemente. Ela parou de retirar as beterrabas da latinha e fitou-o outra vez. — Já disse que sinto muito. Eu...
Ela parou de falar e respirou fundo. Finny, por outro lado, ficou mais preocupado. O que estaria acontecendo com sua namorada?
— Eu amo você! — Carol disse por fim, os olhos cintilando de lágrimas. — Não se esqueça disso.
E ele jamais esqueceu.
Quarto de Cory e Di, Segundo Andar;
— Me explica, de novo, por que estamos cuidando de Ash? — Cory perguntou confuso enquanto segurava a garotinha desajeitada no colo.
— O Gabriel e Kaori estão dormindo, Fernanda está com ela, e nenhum dos outros são capacitados para isso — respondeu Di sabiamente e sorrindo ao ver o jeito que o namorado segurava Ash. — Além disso, achei que seria interessante.
Cory franziu a testa. Seu quarto e o de Di era o único estritamente arrumado na casa. O berço da menininha estava no quarto de Gabriel, mas Ash não parecia querer dormir, tampouco tomar seu leite. Estava inquieta no colo de Cory. Ele deixou-a caminhar pelo quarto, indo até a porta e fechando-a, impedindo a saída de Ash, que começou a andar em círculos pela cama deles.
— Por que seria interessante? — Cory retomou a conversa, os olhos postos em Ash.
Ao ouvir a pergunta, a namorada se atrapalhou toda. Ela estava na cama, deitada, porém logo se empertigou. Cory, sentado na cama, estranhou o movimento. Di era geralmente muito tranqüila, e não surtava por coisa boba.
— Estamos namorando, não é? — começou Di, torcendo as mãos, nervosa. Cory confirmou com a cabeça. Ash sentou no chão e passou a conversar com a boneca de pano que tinha. — Bem, então... Eu sei que pode parecer besteira, mas... hm... achei que seria, hm, uma boa forma de ver se a gente... ahm...
Cory a cortou com uma risada. Di pareceu ofendida.
— Você tá me dizendo que queria ver como nós nos sairíamos se estivéssemos casados? — ele indagou ainda rindo. Ash acompanhou sua risada, mas ele não sabia dizer se a garotinha sabia o que estava acontecendo ao seu redor ou se estava distraída demais com a boneca de pano suja que antes pertencera a alguém na casa.
— Não custa sonhar, né? — disse Di encolhendo os ombros. — Poderemos estar mortos amanhã, eu queria saber se ter uma vida de casada era bom. Minha mãe vivia reclamando do meu pai...
Cory abraçou a namorada de lado, sorrindo bondosamente a ela. Perder a mãe havia sido dolorido para Di, e com o pai separado e fora da cidade que eles moravam, ela nunca chegou a saber se ele morrera também ou não. Cory era a única família que ela tinha. Era mais do que justo que se sentisse assim.
— Poderíamos nos casar — sugeriu Di de repente, os olhos voltando a ter o brilho infantil de meses antes, que Cory de alguma forma cansara de procurar durante o apocalipse.
Ash continuava falando palavras indecifráveis para a boneca de pano, e agora andava a esmo pelo quarto. Cory tossiu, sentindo-se desconfortável pelo tom animado de Di.
— Como? — perguntou educadamente.
— Não temos governo, ninguém mais nos impediria de casar. Poderíamos pedir à Kaori para ser a juíza ou padre, ela sempre nos apoiou e, além disso, seria mais legal se tivessemos uma pessoa totalmente impura como padre, iria ser bem diferente. O resto dos meninos seriam nossos padrinhos!
Por baixo de toda incredulidade da ideia maluca de Di, Cory não deixou de sentir-se lisonjeado. Aquela era a garota que ele amava desde que tinha doze anos de idade, lhe pedindo em casamento da forma mais displicente que existe. Sugerindo, para ser mais exato.
E Cory queria casar com Di. Um dia. Sempre quisera. Mas... aquilo tudo parecia uma maneira desesperada de Di tê-lo para a vida inteira. Como as histórias de guerra que sua avó contava-lhe quando era criança, em que as pessoas se casavam dias antes dos caras irem para o front.
Cory não queria deixar Di, jamais. No entanto, apesar de todas as regras e leis terem sido apagadas da face da Terra, ele ainda achava errado casar-se adolescente.
Contudo, antes que pudesse responder, Ash parou na sua frente e agarrou a seu joelho, pedindo colo. Ao seu lado, os olhos de Di brilharam de expectativa.
— Coli! — disse Ash com a voz aguda. A menininha ergueu os braços, e Cory nada fez além de aceitar o pedido dela, pegando-a. — Mama!
Cory estreitou os olhos, na dúvida se a garotinha acabara de chamar por Gabriel ou se queria algo para comer.
— Ela quer alguma coisa — disse Di quando Ash ameaçou abrir o berreiro. — Mas o quê?
Cory olhou desesperado para ela sem saber o que fazer.
— Viu? É por isso que não nos casamos ainda, nem sabemos o que o bebê quer. — retrucou Cory com ar de riso. Contudo, Di pareceu sinceramente magoada. — Não, Di, não faça essa cara, por favor — pediu desesperado enquanto Ash segurava firmemente seu dedão, pedindo o que diabo fosse “mama”. — Você sabe que eu não queria dizer isso... eu quero me casar contigo...
— MAMA! — gritou Ash, apontando para Di.
Cory franziu o cenho, em parte por Ash estar chamando sua namorada de mamãe, e outra porque Di mantinha um sorrisinho irônico que ela aprendera com Kaori no rosto. Ele demorou a entender que o que Ash queria era estar ao lado de Di. Quando entregou a garotinha à namorada, ela se acalmou quase imediatamente. Di sorriu complacente e deitou ao lado de Ash, murmurando uma canção de ninar em seu ouvido.
Cory abriu um sorriso, impressionado. Anos convivendo com Di para descobrir apenas mais tarde a facilidade que ela possuía com crianças. De qualquer forma, quando acabou de pensar no quão demais sua namorada era, Ash já dormia calmamente no colchão deles, as mãozinhas agarradas à boneca de pano sem nenhuma gentileza.
Di sentou-se outra vez na cama, olhando para Cory com superioridade e com um sorriso convencido no rosto.
— Iríamos dar um ótimo casal de velhos cuidando de sua netinha — sussurrou no ouvido de Cory. Ela deu um selinho demorado no namorado após. — Hora de terminar a cerca! — Ela vibrou e apertou o braço de Cory, se levantando.
— Vou acordar o Gabriel ou a Kaori e dizer que Ash tá aqui — Cory disse, um tanto perturbado, ao saírem do quarto. Deixou a porta entreaberta.
Di assentiu e avançou uns passos, mas voltou quando foi impedida por Cory que segurou em seu braço com uma mão e enlaçou a cintura da namorada com o outro braço e lascar-lhe um beijo. Ela não soltou a mão de Cory até que se separassem no fim do corredor.
Uma explosão de felicidade invadiu coração de Di. Cory poderia não concordar com um casamento na situação terrível em que se achavam, porém, tinha certeza de que passaria o resto de seus dias ao lado do amor da sua vida.
Sala de Estar, Primeiro Andar
Os barulhos vindos do lado de fora da mansão não incomodavam Matheus mais. Os olhos dele estavam vidrados onde Kaori e Fernanda praticavam tiro ao alvo perto da primeira parte da cerca. Victoria e Laura estavam na sala de estar com ele, ocupadas demais lutando entre si no sofá para lhe dar atenção.
Matheus não entendia. Todo mundo de repente tinha virado lésbica? Por que isso não era nada legal. Havia garotas o bastante para ele, mas todas elas queriam apenas a elas mesmas. Matheus não era homofóbico, ele não achava que havia lugar naquele mundo para uma hipocrisia dessas. Ele sentia apenas solitário. Não queria terminar morto por walkers no dia seguinte ainda virgem.
— Math! — exclamou Laura no ouvido dele, assustando-o. Ele pulou para o lado, tirando seus olhos de Kaori e os pondo na garota. — O que tá fazendo?
— Nada — mentiu ele, se traindo ao dar outra olhada para fora.
O garoto sentiu as orelhas esquentarem. Laura lançou a Matheus um olhar desconfiado, retornando aos braços de Victoria. Os dois ficaram se encarando, desafiadores, até Victoria falar primeiro:
— Ele gosta da Kaori.
— Não! — reagiu Matheus, indignado, afastando da janela e sentando na poltrona. — Que mentira.
Victoria e Laura se entreolharam e riram.
— Você não é nenhum James Bond escondendo seus sentimentos, garoto! — retrucou Laura, se aconchegando mais em Victoria.
Matheus suspirou invejoso.
— Além disso, anda ignorando Fernanda como um grande ciumento — acrescentou Victoria, séria.
Ele deu de ombros, indiferente. Não se arrependia disso. Fernanda era legal demais, bondosa demais, com todos na casa. Até com Bella (com quem ele tentara conversar, mas se descobrira muito burro para ela), que todos ignoravam ou brigavam o quanto podiam; Carol, que ultimamente andava um porre; e incluindo ele próprio, que jamais se dirigia a Fernanda, mesmo quando ela tentava abrir uma conversa com ele. Fernanda conseguia suportá-los com classe.
Ele sabia que Kaori tinha todas as razões do mundo para gostar de Fernanda, e era a coisa que ele menos gostava nela.
— Tem que parar com isso, cara — avisou Laura, tirando ele de seus pensamentos. — Fernanda está ficando francamente magoada. E isso não vai mudar o fato de que Kaori vai continuar a amá-la.
Matheus torceu o nariz. Ele tinha que aceitar, sua mente dizia. Tinha que ver o quanto Kaori amava Fernanda e vice-versa. Porém, seu coração não permitia. Estava ficando doentio, tinha que admitir. Ele não queria virar em outra Carol, tão presa a uma pessoa que seu humor não se transformava, ficava e ficava ruim o tempo todo.
— Eu fico de boa com a Fernanda — o garoto murmurou emburrado. Laura lhe fez um sinal positivo e Victoria sorriu.
Os três ficaram em silêncio. Matheus balançava na poltrona, ouvindo as risadas de Kaori e Fernanda perto da janela e as marteladas de Gabriel e Finny numa das vigas, Cory gritando-lhes instruções maldosamente. No segundo andar, podia escutar claramente Ash rindo de uma forma escandalosa, Matheus imaginou que Bella estivesse cuidando dela.
Bufou, sentindo-se mais sozinho do que nunca ao observar Laura brincar com os cachos de Victoria, deitada em seu colo. Se pelo menos não pudesse ter uma delas, desejava que as duas se assumissem logo. Nenhuma pessoa que quisesse somente amizade olharia para a outra daquela forma.
— Oi, gente — disse Carol subitamente atrás da poltrona de Matheus, fazendo o garoto sobressaltar. Seu tom de funeral a acompanhava outra vez. Agora, contudo, não estava com raiva, parecia simplesmente triste. — Onde está o Finny?
— Lá fora, arrumando a cerca — respondeu Laura, distraída com os olhos apaixonados de Victoria.
— O walker de Bella continua lá? — Carol indagou. O garoto achou estranha a pergunta, ela sempre reclamava do quão ruim era ter aquele monstro no quintal.
Laura, também sem dar a devida atenção à Carol, assentiu. Matheus mordeu o lábio. Algo estava muito errado com a namorada do Finny, mas não sabia dizer o quê.
— Obrigada, gente — Carol agradeceu, e Matheus achou que suas simples palavras significavam muito mais do que aparentavam.
Seu coração apertou quando viu a garota arrastar os pés pra fora da sala de estar. Laura e Victoria continuavam em seu jogo bobo, mas Matheus se levantara. Ele queria seguir Carol, impedi-la de sair da casa, porém seus pés pareciam fincados no chão.
Carol estava prestes a fazer algo terrível, e Matheus sabia que não conseguiria evitar a tempo.
Quintal dos Fundos
— Fêr! Preste atenção no que está fazendo!
Os gritos de Kaori encheram os ouvidos de Fernanda, fazendo-a se sobressaltar. Soltou um suspiro, irritada; só por que estava vendo Finny e Gabriel prendendo as vigas no chão a poucos metros dela e de Kaori, não significava que não via ou ouvia as preleções e reclamações dela.
— Suba um pouco a guarda — disse Kaori se aproximando dela e erguendo os braços da loira alguns centímetros.
Fernanda queixou-se com um muxoxo. A arma que tinha arranjado há quase uma semana com Kaori no arsenal era pesada, cabia na mão dela perfeitamente, mas não deixava de ser difícil de carregar por aí. Ela não queria mais nenhuma arma em seu poder por um bom tempo.
Contudo, sabia que era necessário que pudesse saber atirar. Em uma situação de perigo, ela não saberia o que fazer se não sair gritando por todos os lados. Precisava disso, precisava aprender a se defender sozinha, por que sabia que Kaori não estaria ao lado dela sempre.
Pensando nisso, deixou os braços onde Kaori desejara que eles estivessem e atirou uma vez para o alvo que as duas haviam montado mais cedo, o sacolejo que a arma deu não a assustando tanto assim. O barulho, no entanto, continuava ensurdecedor.
— Pode abrir os olhos — recomendou Kaori rindo. Fernanda nem se tocara que havia fechado os olhos. Ela abriu-os, hesitante, tentando discernir o alvo pintado de vermelho e colocado a uns dez metros delas. Não parecia haver marca de nenhum tiro nele. — Você não acertou. De novo.
Fernanda ouviu a risada seca de Cory atrás dela. Olhou para ele e encontrou-o encostado a Di observando suas tentativas falhas de acertar o alvo quando, na verdade, deveriam estar ajudando Gabriel e Finny a trabalharem nas cercas quase prontas.
— Vá se ferrar e procure o que fazer Cory! — enxotou Kaori maldosamente, cumprimentando o amigo com seu costumeiro gesto obsceno.
— Eu ensinei os meninos a usarem armas, sabia Fêr? — disse Di, revirando os olhos para o namorado.
— Estranho, eu sei — murmurou ela no ouvido de Fernanda. — Mas é verdade. CORY! — Kaori gritou, assustando o garoto. — Vá ajudar o coitado do Finny, anda!
— Beleza, mamãe — zombou Cory, pegando a mão de Di e saindo do caminho de Kaori e Fernanda.
Kaori assentiu convencidamente, o que fez a loirar rir. Porém, o momento de diversão acabara, tinha que voltar a tentar acertar o alvo a dez metros dela. Ao contrário do walker que havia enfrentado antes, o alvo não se movia, não chegava perto e nem ameaçava, o que deixava a garota bem menos preocupada.
Um gemido atrás dela fez os pêlos da sua nuca eriçar. É claro que o errante de Bella continuava ali para pesquisa, mas a loira não iria se acostumar com ele nunca. O walker estava preso, não podia andar nem um metro, porém, Fernanda se aterrorizava toda hora que ele gemia perto dela.
— Vai, Fêr! — exclamou Kaori.
Fernanda balançou a cabeça, esquecendo do morto-vivo atrás dela e puxou o ferrolho da sua pistola. Estreitou os olhos e tentou mirar outra vez no alvo. Atirou uma, duas vezes. Ouviu Kaori gritar ao seu lado, e animou-se, pois isso significava que ela havia acertado pelo menos uma das balas.
— Ok, não foi no centro do alvo, mas foi um começo depois desse tanto de tentativas — admitiu Kaori depois dar uma checada na placa de madeira que elas estavam usando.
— Por favor, não me lembre o número de tentativas — pediu ela, desviando os olhos de uma Kaori feliz, que vinha ao seu encontro com um sorriso maroto.
Kaori abriu a boca para falar, porém Fernanda reagiu e tapou-lhe com a mão, rindo. A respiração de Kaori era fraca, contudo, a troca de olhares era intensa. Fernanda demorou uns bons minutos para lembrar-se do por que estavam impedindo a garota de falar, os olhos escuros dela a hipnotizam de uma maneira assustadora.
— Mais uma vez — disse Kaori por baixo de sua mão ao saírem do transe. Fernanda se afastou dela, emburrada. Gastar quase um pente inteiro da arma não era o bastante por um dia, não? — Vamos Fêr, é só essa vez, para acabar com as balas logo.
— Essas balas não vão durar pra sempre, sabia? — ela retrucou, piscando para Kaori e puxando novamente o ferrolho da arma. — Eu deveria economizá-las.
— Só cale a boca e tente acertar o alvo. — obrigou Kaori num tom sério que quase fez Fernanda cair na risada.
Mas Fernanda ficou quieta e se concentrou outra vez. Lembrou-se de quando estivera ali da primeira vez, com Kaori ao seu lado, o walker se aproximando rapidamente, o que Kaori dissera. Carregar, mirar, atirar. Era fácil, como fora da primeira vez. Menos desesperador, porém ainda assim fácil. Engoliu em seco, pôs sua péssima mira em foco e, quando ia apertar o gatilho, o grito de Kaori a fez perder toda a atenção no alvo.
04:10 PM
Carol não estava certa do que iria fazer. Não tinha certeza de nada por esses dias. Era o que mais odiava. Ela sempre fora tão concentrada e determinada nos planos para o seu futuro que o apocalipse todo tinha levado ela a surtar completamente.
Ela não queria viver mais. Não queria acordar todos os dias com a mesma expectativa de vida, que era praticamente nada. Ela não queria mais isso. O mundo apocalíptico era para gente como Kaori e Cory, viciados numa aventura. Sobreviver não era para ela.
Desde Lima pensava nisso. Dia após dia, minuto sobre minuto, o que vivia na sua cabeça o medo de morrer. E durante uma das manhãs na mansão, sua mente determinou que não ia ter mais medo. Que iria aceitar a morte como uma grande amiga, algo esperado. Que não podia sentir pena de Finny ou de qualquer um dos garotos da casa, porque ela sabia que eles teriam força suficiente para seguir em frente.
Bella veio. Carol podia sentir que estava perdendo Finny para a garota. Podia ver os olhos dele brilhando sempre que fitavam os belos olhos verdes dela. Um dia, há tempos atrás, o olhar do garoto cintilava daquela mesma maneira na direção dela. Aqueles não eram mais seus dias. Seu tempo passara, e não podia fazer nada. Tinha que aceitar que estava perdendo ele.
Talvez nem fosse para eles ficarem juntos. Talvez Finny nem fosse sua alma gêmea. Apegara-se a ele por que era necessário; Carol e Finny precisavam de calor humano numa hora daquelas. Os dois não se necessitavam mais. Qualquer tipo de relacionamento entre os dois que acontecera não era mais real, ela tinha que admitir isso para si.
Carol se olhou no espelho do banheiro. Usava a melhor roupa que havia encontrado na mala. Tinha que estar bonita, não é? Sentia-se bem, sua decisão já estava tomada. Olhou para a cama dela e de Finny e assentiu como se estivesse se despedindo. Uma pena não ter achado a arma do namorado. Teria que fazer do modo mais difícil.
Respirou fundo. Desceu as escadas lentamente, querendo adiar o que estava prestes a fazer. Ela estava decidida, mas nem por isso não ia deixar de se sentir um pouco assustada. Ela encontrou Matheus, Victoria e Laura na sala de estar, brincando e conversando entre si. Ele parecia deslocado, e ela não poderia não sentir pena de Matheus. Perto da química maravilhosa entre Laura e Victoria, poucos se sentiam à vontade, não se sentiam um intruso.
Pediu informações de onde Finny estava. Mais uma vez, o garoto se colocava no front para protegê-los. Trabalhava do lado de fora na cerca com Gabriel, Cory e Di. Ela também podia ouvir Fernanda e Kaori atirando, brincando, às vezes gritando com Cory. Carol sorriu de forma agradecida e encaminhou pela porta da cozinha.
A mínima troca de olhares entre ela e Matheus deu ao garoto grandes informações para o que iria fazer. Ele podia ser muito sensitivo quando queria. Ouviu os passos do garoto acompanhando-a para fora da casa. Ele queria impedi-la. Carol abaixou os olhos e sorriu, contida, mas continuou seu caminho.
— Carol... — ela o escutou chamar, num fiapo de voz.
— É uma escolha, Math — disse ela por cima do ombro. — Você deveria respeitá-la.
Continuou seu caminho sem olhar para trás.
Chegando ao quintal dos fundos, Carol observou o cuidado com que Kaori ajudava Fernanda a atirar; a dificuldade com que Cory erguia as vigas no ar e as punha no chão, deixando para que Di as fincasse na terra. Ela não viu Finny e Gabriel, no entanto, e logo presumiu que eles estivessem terminando as cercas na parte da frente da mansão.
Caminhou alguns passos e achou o que procurava: o walker que Bella prendera numa viga que eles não iriam utilizar. Ouvira Kaori no quarto de Bella durante a manhã e sabia que Fernanda provavelmente ia matá-lo no seu treinamento com armas dali a pouco.
— Olá — ela disse de mansinho, se aproximando do morto-vivo. A criatura fixou os olhos vazios nela e tentou avançar, mas a corda presa o parou. — Provavelmente você não vai gostar daqui, sabe? Os garotos são boas pessoas, no princípio são ótimos... mas eles são idiotamente críticos. Um deslize... e te condenam, sério.
O errante gemeu e tentou se libertar das cordas que o prendiam, pois Carol chegava cada vez mais perto dele, somente alguns passos na direção errada e seria atacada.
— Eu não pertenço a esse mundo. Não mais. Tá tudo muito louco para processar. Essa calmaria vai passar. E... eu posso ver nos olhos deles... também sabem que não sou daqui. Perderam todo o respeito por mim. Todos eles. Até meu namorado.
“Ele tenta ser legal, mas posso sentir. Finny só está sendo condescendente comigo. Olha só... não faz nem uma semana aqui e ele já se apaixonou outra vez. Ele também acha que estou louca.”
Ela lançou um olhar para Kaori e Fernanda, as mais próximas dela. Estavam distraídas demais entre si para notar a aproximação dela com o walker. Carol sorriu complacente, dando um passo na direção do morto-vivo. Perto o bastante, mas ainda distante.
— Fui contra a trazerem você aqui — Carol disse, notando as roupas esfarrapadas do errante, os braços magros levantados à procura da carne que ela tinha. A pele translúcida no sol da tarde não assustava ela nem um pouco. Havia sido uma mulher, de uns vinte e cinco anos, talvez, antes de ter sido transformada. Talvez fosse uma das donas ricas de uma das mansões ali perto. Talvez fosse uma simples empregada que não tinha lugar mais para ir e acabara se escondendo no porão durante a fuga dos patrões. Não sabia sua história, não queria saber. — Agora, vejo que você foi a única que me sobrou para conversar. Eu me chamo Carol.
Ela deu dois passos fatais na direção da walker. O errante finalmente ergueu seus braços para atacá-la, pegando pelo pescoço. Ela deixou-se levar, sentindo a mordida dele em sua garganta. O sangue se esvaiu, os olhos de Carol foram fechando lentamente.
Escutou gritos, e reconheceu como sendo Kaori. O errante ainda a devorava com uma fome arrepiante, engolindo cada pedaço de carne seu como se não houvesse outro mais no planeta. Um tiro ensurdeceu o que restava de seus ouvidos. Caiu no chão como uma boneca de pano, o sangue pululando da jugular.
— Carol, não!
Seus olhos reviraram nas órbitas. A respiração falhava, o oxigênio não parecia mais chegar aos seus pulmões. A pouca sensibilidade que lhe restava avisou a ela que mãos a sacudiam pelos ombros.
— Só me... — ela arquejou fracamente — só me deixe morrer...
Carol pensou em dar um sorriso fraco. Não se lembrava de ter conseguiu ou não. Ela não via mais à sua frente Kaori ou o errante, mas, sim, sua família, morta ao que pareciam anos-luz antes, ainda em sua cidade natal, sorrindo de forma convidativa a ela.
Seu pai estendeu-lhe a mão, e ela aceitou de bom grado.
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