In The Hell

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— Anda Fernanda, acorde! — Kaori sacudia o corpo de sua amiga desesperadamente. — Porra, Fêr, eu preciso de você aqui! Acorde!

Uma lâmpada estourou acima delas. Kaori deitou-se sobre o corpo inerte de Fernanda para protegê-la dos estilhaços. Os gritos vindos do lado de fora aterrorizavam a garota. Tiros também eram ouvidos. Ela voltou às inúteis tentativas de acordar a loira.

— Por favor, amor! Estamos sem tempo! Sabe o quanto custou fazer Cory parar aqui para te levar?! Acorde, por favor!

Kaori sentiu o chão estremecer e mais tiros, agora muito mais perto. Ela engoliu em seco, apavorada. Estavam no corredor, pensou. A guarda estava no corredor. Isso significava que os walkers tinham se aproximado terrivelmente.

Ela olhou para a porta, que tremia devido à pressão. Sua expressão estava perdida. Ou trancava Fernanda ali e saía pela janela como entrara ou esperava o exército para ser morta. Era uma decisão difícil, mas as palavras de Cory invadiram sua mente, “Faça o que der.” Querendo obrigar seu corpo a não fazer aquilo, ela depositou um beijo na testa da loira, encaminhou-se à janela, lançando um último olhar sofrido à mesma.

— O que está acontecendo?

Kaori sorriu abertamente ao ouvir a voz, ainda fraca, da amiga. Andou em direção dela, sentiu seu coração se disparando, a loira tentava sentar-se, estava olhando confusa para tudo o quarto, ela passou a mão em seu peito cheio de fios que estava ligados aos aparelhos, que já havia sido desligado pela falta de energia. Kaori abraçou-a animada e feliz por notar que a amiga havia acordada a tempo.

— Fêr! A-agente precisa sair daqui, agora! — ela analisou os equipamentos que prendiam a menina se perguntando como levaria ela com aquele tanto de fios. — Aconteceu algo... Estamos no meio de um apocalipse zumbi. Cory está nos esperando do lado de fora... Droga! – Fernanda soltou uma risada.

Kaori tirou um tipo de uma faca e cortou os fios que prendiam a amiga ignorando sua risada. Agradeceu pelo Sol ainda não ter descido completamente e começou a ajudar a garota a levantar. Os “rugidos” dos walkers, os gritos e os tiros dos humanos começavam a perturbá-la.

— Você está falando sério? — Fernanda perguntou um pouco tensa após ouvir os “rugidos” e os tiros.

— Sim, a verdade, nada mais que isso. — respondeu a outra dando a mão para ajudar a loira levantar. — Melhor tu vir no meu colo. — Kaori pegou a menina no colo. — Vamos.

Fernanda a encarou surpresa mas, nem sequer questionou quando a japonesa tirou uma pistola de um case na suas costas e foi em direção à janela, parando apenas para por no ombro uma mochila pesada, carregada que medicamentos que conseguira roubar ao entrar no hospital.

Kaori nunca ficou tão feliz em ter sugerido colocar a colega de coral no primeiro andar, ela agradeceu até não querer mais, então ela pulou a janela com facilidade, procurando seu carro que Cory estava dirigindo.

— Ah, meu Deus! — exclamou Fernanda tensa, olhando para o lado.

Kaori xingou Cory em voz alta. O walker se aproximava ligeiramente mais rápido ao notar duas garotas vivas ali, Kaori colocou Fernanda no chão cuidadosaente, a loira estava apoiada na morena não tinha tanta força para continuar em pé. Kaori não hesitou e atirou no morto-vivo, mirando no meio de sua testa, ollhou para a loira que estava com uma cara de assustada ao ver aquela cena.

Felizmente, um carro preto virou a esquina do hospital. Cory dirigia bem animado; no banco do passageiro estava Di recarregando uma metralhadora. Kaori gritou para que eles parassem, fazendo o motorista dar um cavalo de pau. Ela abriu a porta de trás do carro, praticamente jogando Cory sem muita cerimônia no banco, entrando rapidamente e fechando a porta, falando para Cory avançar.

Finalmente, pensou. Poderia sentir-se segura com Cory e Di, só faltava o seu amigo bobo, Finny mas até chegar o momento de se encontrar com ele, — pelo menos por enquanto, ela finalmente estava segura.


— Devemos sair da cidade agora — decidiu Kaori uns dez minutos depois de terem saído do hospital. — Ouvi os caras do exército dizendo que vão isolar aqui, se ficarmos aqui, morreremos.

Fernanda continuava encolhida nos braços de Kaori, chorando e soluçando com medo. Kaori não podia culpá-la, afinal... Quando aquele inferno tinha começado, sua reação foi muito pior. Acostumou-se com walkers por todos os lados. Mas ser jogada naquele mundo apocalíptico deveria horrível, mais aterrorizante que vê-lo nascer.

— Mas quando tudo isso acabar será mais fácil para o governo nos encontrar — retorquiu Di com os olhos atentos nas ruas. Pessoas corriam ensangüentadas, walkers comiam alguns corpos que ainda gritavam, tudo diferente demais do que alguns meses atrás. Naqueles dias, no entanto, era comum.

Porém, a maioria dos humanos que conseguiram sobreviver tinham o bom senso de se esconder em suas casas, de preferência no porão, e ficar lá até o dia amanhecer novamente. Os walkers começavam a dominar tudo, estava cada vez mais difícil sair à rua, tanto na noite quanto no dia.

E a situação só iria pioraria, Kaori e Cory sabiam disso, infelizmente eles sabiam. Tudo ficaria muito mais apavorante, o medo espalharia com mais rapidez, isso se já não tivesse sido espalhado. Eles precisavam sair dali o quanto antes, arrumar um acampamento o mais longe possível de todas as cidades, viveriam por conta própria. Estavam sozinhos naquele mundo, era a mais triste realidade, todos os seus sonhos e planos... Eles nunca mais seriam capaz de realizar-lós..

— Cory, apenas saía de Lima antes que viremos comida de zumbi — ordenou Kaori autoritária.

— Kaori está certa, Cory. — disse Di antes que Cory revidasse. — Somos alvo fácil aqui dentro, principalmente agora que está escurecendo. Não podemos voltar à nossa casa, está cercada. A unica saída é ir embora.

Cory bufou, mas afundou o pé no acelerador, atropelando um walker distraído. Kaori deu um sorriso em agradecimento enquanto ele apenas deu de ombros. Fernanda se remexeu em meio ao abraço de Kaori e saiu dele, enxugando as lágrimas e assumindo uma postura séria.

— N-nossos pais? Nossos colegas? — perguntou, fazendo todos no carro fechar a cara. — O que houve com eles?

Cory e Di ficaram em quietos, dando à Kaori a tarefa de responder àquela difícil pergunta.

— Morreram. Ou estão vagando por aí.

— C-como?

— Quando um walker te ataca, você tem que rezar para não ser mordido — explicou Kaori. — Primeiro vem a febre, depois você apaga. Morre. E “renasce” zumbi. Só um ataque certeiro na cabeça pode matá-lo.

– Isso eu sei. – Fernanda respondeu triste. – Meus pais, eles morreram?

— Não — respondeu a japonesa. — Pelo menos eu acho que não. Eles foram um dos primeiros a sair daqui, prometi a eles que cuidaria de você até estar capacitada novamente. Mantínhamos contato até o governo cortar todos os meios de comunicação, há duas noites. Eu não sei onde eles estão, bebe, lamento.

A noite chegara. Cory acendera os faróis do carro no mínimo, para o caso de toparem com um walker perdido. As luzes e os gritos da cidade ficavam para trás rapidamente, o que obrigou Kaori a pedir para Cory desacelerar, para não perderem muita gasolina.

— E Ana? — Fernanda voltou a perguntar, causando um rolar de olhos em Cory. Di estava cochilando no banco do passageiro. — O pessoal? Todos morreram?

Kaori suspirou, cansada. Teria que fazer a loira dormir, mas ela não ficaria quieta sem respostas.

— No começo, todos estavam juntos. Pais, professores, os zamigos... – a morena usou o termo do amigo, tinha pegado essa mania para se referir a eles. — Depois que perdemos os dois professores que estavam “tomando conta” de nós, as coisas desandaram. A Diih, sua família partiram logo após seus pais. Mas também perdemos contato com eles. Ana decidiu ficar. Santie, Giovanna foram os próximos... Cory teve que matá-los uma semana depois, encontrou-os perto da saída da cidade, certo?

Cory assentiu, a expressão perturbada. Kaori decidiu continuar.

— Finny, Carol, Matheus, Vitoria, e Laura estavam bem e seguiram para o sul, há uns quatro dias. Planejamos encontrá-los. Ao contrário de seus pais e Diih, nós pegamos um rádio-comunicador e entregamos para o Finny. O outro está no porta-luvas do carro. Não vamos nos perder deles, disso tenho certeza.

Kaori engoliu em seco, fitando Cory pelo retrovisor. Ela sabia que faltava uma pessoa a ser mencionada, não se esquecendo do final de outro. Respirou fundo e retomou seu relato.

— Gabriel é o melhor. — Kaori sorriu, lembrando-se da expressão do garoto ao deixar a casa onde se abrigavam. — Ficou para proteger Naya, e a filha deles, e disse que se juntaria ao nosso acampamento. Agora com o exército querendo fechar a cidade, não sei o que acontecerá com eles.

Olhou para Fernanda. Os olhos dela imploravam pelo que tinha acontecido com Ana.

— Num dia, estávamos sem fralda para a menina. Gabriel sempre ia sozinho buscá-las, mas Ana se ofereceu para ir. — Kaori parou. Contar aquela história era pior que tê-la vivido. — Aquela idiota... Ela não voltou. Minha missão foi de procurá-la, ver se ela precisava de ajuda com um grupo de walkers... Ana já era um deles, a transformação mais rápida que já vi. Embora antes eu quisesse colocar uma bala no meio da testa dela, nunca foi tão doloroso atirar num zumbi.

Fernanda não procurou os braços de Kaori ou se debulhou em lágrimas. Apenas ficou parada, deixando que o balanço do carro a encostasse na janela e lá permanecendo até cair no sono.

Kaori afagou os cabelos de Fernanda, tentando confortá-la. Talvez tivesse sido melhor se tivesse deixado-a no hospital como Cory sugerira, pensou. Ela não pertencia àquele mundo sem sonhos, àquele apocalipse maluco. Teria que protegê-la sempre, até seu último dia, como prometera a seus pais.

— Ela vai ficar bem — disse Cory com a voz rouca, observando Kaori. — Ela foi jogada nesse mundo, leva-se mais tempo para nós para se acostumar.

Kaori concordou com a cabeça, ainda ressentida.

— Me pergunto o que nós seríamos se isso tudo não tivesse acontecido — murmurou.

— Ela com certeza ainda te comeria — respondeu o outro, mal contendo o riso. Kaori suspirou, Cory sempre seria Cory. — Olha para você! Essa sua pose de bad boy mata todo mundo.

Cory riu abertamente. Kaori bufou ao passar a mão nos cabelos. Ela estava sentindo falta de seus amigos, sentia saudades das piadas de Finny, das brincadeiras que ele tinha com Matheus e tudo mais.

Kaori sentia-se triste e distante. Ela havia mudado bastante antes do apocalipse começar... Ela esperou seus dezesseis anos para surtar completamente, e quando aconteceu, um apocalipse zumbi chegou. Fora um choque para ela da mesma forma para os outros, mas ela sentia que tinha esperado todo aquele tempo com um vazio no peito apenas para estar pronta para aquele mundo. Sua vida já estava destruída, não era nada demais matar alguns zumbis para aliviar a tensão.

— Estamos perto de Fletcher, a mais ou menos oitenta quilômetros de Lima — anunciou Cory, checando o GPS e interrompendo os pensamentos de Kaori. — Acho melhor pararmos.

— Está mesmo muito escuro lá fora — notou Kaori, encostando o nariz na janela para tentar enxergar algo. Cory revirou os olhos. — É perigoso andar nessa escuridão, pode haver um bando de walkers por aí.

— Eu falei que deveríamos esperar até o amanhecer — sussurrou o outro, emburrada. — Mas ninguém me escuta.

Cory foi desacelerando o carro até parar numa clareira no acostamento da estrada. Ele fez uma manobra, de modo que os faróis do carro iluminassem a clareira à procura de walkers. Num silêncio que ardeu os ouvidos de Kaori, eles desceram para acender uma fogueira. De acordo com o último noticiário, qualquer sinal de luz afastaria os mortos-vivos.

— Deixe-a dormir — murmurou Kaori no ouvido de Cory quando o viu querendo acordar Di. — Cuidamos da segurança delas hoje.

Ele assentiu, e Kaori abraçou o amigo, desde de quando Finny havia partido com o pessoal, ela não havia abraçado ninguém. Estava muito triste e distante de todos. Após o abraço, eles seguiram para perto da fogueira.

***

A cabeça de Fernanda doía horrivelmente. A única coisa que se lembrava era da voz de Kaori interrompendo seus sonhos intermináveis e ela tentando acordar para poder escutá-la completamente. No próximo minuto, se viu presa a fios dentro de um quarto de hospital e no que Kaori chamara de um apocalipse zumbi.

Queria ter ficado nos seus sonhos. Ouvir Kaori contar quase com indiferença o que estava acontecendo fez se perguntar se ela estava sofrendo com tudo aquilo. Era um choque tremendo, ela não queria fazer parte daquele mundo, desejava ter ficado naquela cama de hospital dormindo até que aquele mundo fosse dissolvido e seu mundo... Um mundo com sonhos, possibilidades, o mundo que ela estava vivendo antes de acordar.

Mas pelas expectativas de Cory e Kaori, as coisas não seriam fáceis daqui pra frente, o seu mundo estava completamente detonado. Zumbis... Walkers, como Kaori chamara aquela aberração que tentara persegui-las ao saírem do hospital. Parecia horrivelmente impossível. Zumbis... Como aquilo tinha surgido? Como as pessoas estavam começando a aceitar e se entregar àquelas coisas?

Fernanda achara as informações de Kaori vagas. Pelo jeito nem ela saberia responder. Queria evitar as perguntas, mas seu instinto curioso não tinha mudado e saber o que estava acontecendo ali parecia uma grande vantagem.

— Tudo bem? — indagou Kaori no banco da frente do carro, assustando Fernanda. Seus olhos ardiam por causa da luz do sol invadindo tudo sem respeito, e tirando umas dores nas costas e na cabeça, sentia-se estranhamente bem. Ela assentiu para Kaori, que aumentou ainda mais seu tom preocupado. — Não precisa de nada? Tem certeza que está bem?

— Estou. — Fernanda tentou levantar-se, mas bateu a cabeça na janela do carro, soltando um uivo de dor. A expressão da japonesa transformou-se numa de terror e ela tentou socorrer a loira, sem realmente saber o que fazer. — Ei, fique aí. Estou bem.

A japonesa sentou novamente. Fernanda só então foi notar que o carro não estava em movimento. Olhou para o lado de fora da janela e encontrou Cory e Di terminando de fechar um acampamento. Pela fogueira ainda fumegando, Fernanda supôs que não passara muitas horas do dia.

— Estávamos esperando você acordar — disse Kaori após alguns minutos, encarando suas mãos em seu colo. — Você me parece muito frágil.

Fernada queria responder que estava mesmo frágil. Não se lembrava de nada, mas para ela estar numa cama de hospital durante o fim do mundo, deveria ter acontecido um acidente muito grave. Ela só se perguntava que acidente teria sido esse.

Era estranho. Suas memórias antigas ainda eram suas. Lembrava-se de Kaori mais grossa e a japonesa namorando Finny, de ter namorado Ana por um tempo. Lembrava-se do grupo que se juntava na hora do almoço para fazer a maior zona, dos seus pais... A lista era longa. Contudo, sua memória não parecia ter guardado as lembranças recentes. Ela sabia que deveria ter ido ao último ano na escola, mas não se lembrava de ter ido com os pais fazer a matrícula ou de ter tido um dia de aula.

E do nada, sua vida toda fora embora para ela ser jogada numa realidade alternativa totalmente aterrorizante. Tinham-se passado apenas algumas horas, mas a perspectiva de ver outro walker a encarando com aqueles olhos fundos e sem vida, desesperado por um pedaço de carne humana, era apavorante.

— Ela acordou? Ótimo, vamos logo embora. Contatei com Finny, e ele está ao redor de Nashville, e que vai parar por lá — falou Cory rapidamente, entrando no carro pelo banco do motorista e assumindo o comando. Mesmo com aquele tom, alguma coisa dizia a Fer que Cory não era na verdade o chefe de tudo. — Se tudo der certo, chegaremos lá em dois dias.

— Empacotaram tudo? — indagou Kaori autoritária, sentando-se ao lado de Fernanda para que Di pudesse ficar perto de Cory, que já acelerava o carro para fora da clareira.

— Deixamos a fogueira de fora, se quiser saber — resmungou Cory, rolando os olhos.

Kaori bufou, mas sorriu ao olhar indagador de Fernanda.

— C-como vocês conseguiram isso tudo? — ela perguntou.

— O carro era do meu avô — disse Kaori, começando a contar nos dedos. — Juntamos cinco ou seis tanques de gasolina para continuar a viagem. Sei que não é muito, mas dá para chegar a algum lugar. Comida, armamento, roupas... Pegamos tudo há dois dias para não esquecermos nada. A única coisa que faltava era medicamentos, que eu peguei quando te salvei ontem.

Fêr esboçou um sorriso em agradecimento. Mais uma vez, não se lembrava de como surgira uma amizade tão fofa com Kaori. Sua última lembrança com a japonesa foi uma festa, que a menina estava bêbada, e a loira a ajudou. Contudo, Kaori ainda era grossa e fria, ela só nunca entendeu o porque.

Sua curiosidade estava lhe matando para perguntar o que tinha acontecido com ela. O que a teria feito perder a memória e acordar num planeta apocalíptico. No entanto, não queria o pessoal — especialmente Cory e seu humor explosivo — com mais perguntas. Pelo jeito se passara muito tempo, mas as lembranças ainda estavam vivas em suas mentes. Não queria causar-lhes sofrimento desnecessário. Deixaria que as coisas fluíssem.

Cory colocou um cassete no aparelho antiquado de som do carro — e Fernanda ficou se perguntando aonde Kaori havia arranjado aquelas fitas —, diminuindo o clima tenso, que o guri percebeu que sempre se instalava entre os quatro. Kaori se ocupava em observar atentamente a beirada da estrada com uma pistola na mão direita, pronta para o ataque. Fêr não tinha certeza se a garota usaria a arma para atirar num walker dentro do carro, mas ficou quieta. Questionar aquilo só traria mais olhares mortais do motorista.

Di balançava a cabeça no ritmo da música, que Fêr mais tarde descobriu ser um rock dos anos 80. É claro, pensou, não teria músicas novas naquele cassete antigo. Sua expressão deprimiu-se um pouco ao perceber que não teriam músicas novas por um bom tempo.

Suspirou. Sem mais desejos ou vontades, ela se questionou o que estava fazendo ali. Seja lá o que estivesse sofrendo no hospital, queria ter ficado lá. Pelo menos continuaria sonhando, pelo menos não teria que acordar para enfrentar aquele mundo louco. Ela jamais tinha pegado numa arma, como Kaori esperava que ela se desse bem? Não, não teria jeito de sobreviver ali sem um companheiro inseparável que a protegeria de tudo.

Mal as palavras invadiram seus pensamentos e ela imaginou Ana na sua frente. Seus olhos se encheram de lágrimas. A menina era um idiota, ela sabia. Ainda não acreditara que ela tinha se transformando numa daquelas coisas iguais à que encontrara na janela do hospital. Pensar nela como um dos walkers doía demais para a loira, por isso ela se deixou.

— Tudo bem, bebe? — A voz de Kaori invadiu seus ouvidos, cuidadosa e um tanto apaixonada.

Fernanda saiu de seus devaneios para encontrar um sorriso bondoso e bobo de Kaori, que ela jamais tinha visto, em sua direção. Ela confirmou com a cabeça, virando o rosto para que a garota não a visse limpando seus olhos.

— Ok mesmo? — insistiu a garota, pondo a mão no ombro da loira. Ela achou o movimento carinhoso e pôs sua mão em cima da dela, demonstrando apoio.

— Só estou cansada. E dolorida — acrescentou, fazendo Cory, que prestava atenção na conversa das duas, rir.

— Também pudera, você esteve anos em coma — disse.

Fernanda arregalou os olhos. Kaori lançou um olhar mortal a Cory, que continuou com aquele riso zombeteiro dele na cara.

Suas entranhas pesavam ao perceber o que estava acontecendo consigo. Ela entrara em coma. Por alguma coisa, alguma queda, algum acidente que poderia ter sido fatal, mas não foi. Ela ficara tempos no hospital enquanto os walkers dominavam o planeta Terra de alguma forma ainda inexplicável. Seus pais quiseram levá-la, porém Kaori disse que cuidaria dela.

E ela cuidou. Tratou bem Fernanda até a situação sair do controle, e ter sido obrigada a tentar uma última tentativa de acordá-la. Dando certo, arrumou tudo para ir embora e encontrar Finny e sua “gangue”.

O que Fernanda não entendia — mais do que seus pais terem fugido sem ela, mais do que não se lembrar do acidente ou das coisas o antecederam — era como ela tinha conseguido ouvir a voz de Kaori no dia anterior, tão pedinte e desesperada. Ela simplesmente não pôde agüentar ouvir a garota daquela maneira, queria levantar e faze-lá sentir-se bem, ficar feliz por vê-la outra vez.

Kaori era quem mais aparecia em seus sonhos durante o coma. Sequer sabia que estava naquele estado, sequer sabia o que a tinha levado a ficar naquela situação, mas Kaori estava lá sempre. Kaori era presença constante neles, mais do que seus pais ou Ana ou qualquer pessoa com quem se importava.

— Cory! — exclamou Kaori indignada, passando o braço inconscientemente pelos ombros da loira. A garota deu um sorriso mínimo e não se importou. — Pode fazer o favor de apenas dirigir?!

Kaori sorriu para ela novamente daquela forma carinhosa. Fêr tentava digerir que, por trás daquela garota mandona e forte, existia uma menina doce e agradável. Ela gostava daquilo.

— Você não se lembra de nada? — questionou Kaori um tempo depois, quando Cory estava distraído com a música e cantava com Di, ambos animados. O tom dela estava esperançoso demais, Fernanda notou. — Antes do acidente... De nada?

— Não lembro nem por que eu entrei em coma — respondeu Fernanda, deixando a cabeça cair no ombro de Kaori, olhando-a sem emoção. — Quero dizer, eu só senti que precisava acordar ao ouvir sua voz, só isso. E agora estou aqui.

Ela não deixou escapar o tom amargurado. O mundo que queria permanecia entalado na garganta. A percepção cada vez mais viva de que tudo nunca voltaria ao normal continuava a fazer seu coração e sua alma doer.

— Nós vamos dar um jeito, bebe — Kaori disse ao apertar seu ombro delicadamente, ela estava estranhando os apelidos da japonesa, mas decidiu ignora-lós.. — Vamos sobreviver a este inferno, acredite.


***

Cory sabia que deveria sentir mais pena de Fernanda por ela ter sido jogada naquele ataque insano e cada vez mais presente dos walkers, mas ele não conseguia. Sua personalidade havia mudado, ele havia ficado mais forte, durão e frio com o acontecimento.

Kaori, por outro lado, adorava a imagem delicada de Fernanda. Cory tinha certeza de que sua amiga havia se apaixonado pela loira antes mesmo de ela mesma perceber isso. Mas Kaori tinha perdido tempo demais procurando o sentido da sua vida enquanto Fernanda se aproximava cada vez mais de Ana e pensava que ela era má.

Disso Cory sentia muita pena. Porque Kaori tinha tido todas as oportunidades do mundo para fazer um novo dia melhor para ela e Fernanda, só não tivera coragem. Ficara presa no estereótipo de uma sociedade prestes a entrar em colapso. Agora que tudo fora pelos ares, ele queria o melhor para a japonesa — e o melhor para ela era apenas perto de Fernanda.

De qualquer maneira, ele deu um sorriso mínimo ao observar as duas no banco de trás do carro velho. Fernanda (que ainda parecia doente, mas felizmente consciente de tudo que acontecia ao seu redor) deitava no colo de Kaori, enquanto a outra acariciava seus cabelos loiros descontraidamente, parecendo lembrar à Cory aquela garota japonesa e certinha de poucos meses antes.

O fato de Fernanda não se lembrar de nada do que tinha acontecido com ela preocupava Cory. Não por ela, já que não tinha nada a ver com aquela novela, e sim por causa de Kaori. Tinha trabalhado duro para poder ser vista como outra pessoa — uma pessoa melhor — para a loira, que para Cory, vê-la desmoronar após o ocorrido e todas as transformações na sociedade era um tanto torturador.

— Di, informações — pediu Kaori uns minutos mais tarde, ainda olhando para Fernanda apaixonadamente.

Cory deu um olhar rápido à Di. A loira sorriu para ele, e o garoto achou que poderia enfrentar um milhão de walkers naquele dia. Di era a melhor coisa que a sua vida miserável poderia ter lhe dado. Ela era linda, inocente, a coisa mais pura e sensível dentro do mundo de merda em que se encontravam. Di era siplesmente perfeita para ele, a garota mais inteligente do mundo.

— Estamos perto de Spring Valley — disse Di olhando o GPS, também verificando num mapa. — Cory, eu vou te dar o comando para nós não irmos pelas rodovias principais.

Aquela idéia genial tinha sido de Kaori, durante a arrumação para a fuga. De acordo com ela, seria mais fácil e teria menos trânsito se fossem por áreas suburbanas. Quanto menos interestaduais pegassem, melhor. Não enfrentariam walkers ou pessoas desesperadas em busca de ajuda.

Embora Cory não concordasse com Kaori, tinha que obedecê-la. Ele não gostava de ser comandado, mas Kaori e sua aura poderosa liderava cada lugar que passavam. Seria quase impossível bater de frente com ela.

Kaori tinha o faro “ninja” para aquelas coisas, algo que Cory jamais teria. Ele poderia ter crescido numa região não muito favorável, ter arranjado encrenca com qualquer pessoa que se metesse com suas “garotas” Di e Kaori e seu irmão caçula, Finny. O ajudara a se sentir dessa maneira.

A japonesa transbordava poder. Olhar nos olhos da garota fria que ela havia se tornado — sem conhecê-la por muito tempo — poderia ser fatal. Di e Fernanda, bem a antiga que se lembrava de tudo, sabiam o que ela era de verdade: uma pessoa doce e amável. Mas você não deveria se meter no caminho dela sem esperar nada além do sofrimento eterno.

— Próxima parada? — perguntou Kaori, atenta.

— Daqui a cem quilômetros, o que deve levar uma hora mais ou menos — informou Di, diminuindo o volume do rock que Cory havia deixado tocar.

Di permaneceu quieta. Cory desviou o olhar por um segundo da estrada para observá-la. Ele conhecia cada detalhe de Di, tanto corporal quanto psicológico, e aquela garota ao seu lado estava escondendo alguma coisa, sentia.

— O que foi? — questionou Cory, dando um sorrisinho de lado para Di.

— Nada — Di respondeu, os olhos perturbados vidrados na janela do carro. — Vire ali, ok?

Cory fez o que a garota pedia, indo parar numa estradinha de terra com um engarrafamento. Ele ergueu os olhos para Kaori, que fez uma expressão confusa e mandou Fernanda levantar de seu colo. Ela e Cory se entreolharam, decidindo silenciosamente o que deveriam fazer.

— Não está andando — observou Cory, colocando a cabeça para fora do carro, vendo alguns carros com aparência abandonada no percurso. — Vamos dar meia volta, achar outro caminho.

Ele pisou na marcha ré, porém antes que o carro voltasse a andar, um walker apareceu misteriosamente no capô do carro, fazendo Fernanda dar um grito assustado e Di rapidamente sacar sua pistola. Ela ignorou as ordens de Kaori sobre não atacar um zumbi com uma arma de fogo e deu um tiro certeiro na cabeça do morto-vivo.

Como se tivessem dormindo, mais walkers saíram de seus esconderijos e caminhavam de sua forma lenta, porém perigosa, em direção ao carro. Cory não hesitou em enfiar completamente o pé no pedal e sair da estradinha de terra cantando pneus.

— Espere! — gritou Kaori quando Cory mudou a marcha para acelerar o carro.

— Kaori, ficou maluca, estamos no meio de algo aqui! — revidou o menino também aos gritos, irritado com a atitude nada maligna da amiga naquele momento.

— Não, Cory, olhe!

Cory fechou o vidro da sua janela e aconselhou a Di fazer o mesmo. Ele lançou um olhar temeroso à massa de zumbis que saía da estrada, liderados por duas extremamente bonitas para serem walkers. Em sua forma humana, elas deveriam ter sido uma das mais desejadas do colégio.

O coração do garoto parou por um segundo. Ele reconhecia o uniforme das cheerrios de uma delas. Conhecia a roupa estilo “mano” da garota. Reconheceu os tennis que a treinadora das líderes entregavam para elas. Percebeu um pouco até a cor dos cabelos delas. Ele comprimiu os lábios, controlando suas lágrimas.

Aquelas duas eram Diih e sua namorada

Mas não pareciam em nada as meninas que Cory conhecia. A pele delas estava sem cor, magra e faltando em vários lugares, onde era visível a carne, inclusive os ossos. Os olhos fundos e vermelhos estavam famintos e a boca pingava sangue, dando a impressão que eles tinham acabado de se alimentar.

No entanto, walkers jamais estavam completamente satisfeitos. Eles seguiam na direção do carro, gemendo e urrando como animais, à procura de mais comida, de humanos novinhos em folha para se tornarem mais deles.

Ele ouviu Di gritando no seu ouvido para que acelerasse o carro, mas ele não conseguiu. Não poderia deixar as duas ali. Não, seria errado. Já havia passado por isso com Santie e Giovanna, ele não queria ver as pessoas que amava no mundo sofrer terrivelmente. Não queria vê-las mortas, mas ainda assim vivas.

Então, pegou a pistola que Di ainda segurava e desceu o vidro do carro. Sua mira melhorara muito durante as semanas que se passavam. Duas balas bastaram para tirar as duas em definitivo daquele mundo apocalíptico. Pisou no acelerador, atropelando vários walkers enquanto as lágrimas desciam sem controle. Diih era uma de suas melhores amigas. Os dois praticamente cresceram juntos... Ele só queria que aquilo não fosse realidade, que nada daquilo tivesse acontecendo, por mais que já tenha desejado aquilo, várias vezes..