In The End Of Saturday
9 Part09: O Hospital
Notas iniciais
Meu nome é Hibari Kyouya.
Para começar, odeio herbívoros. E nesse grupo estão incluídos todos, menos o bebê e eu mesmo.
Isso está parecendo uma carta, mas não é nada mais do que os últimos segundos que restam para a minha vida acabar.
Não que eu esteja com vontade de me despedir de alguém, mas sempre dizem que nos últimos momentos se vê a vida passando diante dos olhos. Para ser sincero, eu nunca acreditei nisso.
No fim da vida eu acreditava que tudo ia escurecer como num desmaio e eu apagaria para a eternidade, assim como no início da vida.
Ah, vocês não se lembram? Do dia em que começaram a “viver”?
Poucas pessoas sabem que dia foi, como foi, o que aconteceu. De uma forma bizarra eu conhecia meu nome, o nome dos meus pais, o nome das coisas, sabia como era a vida a minha volta. Porém, eu não me lembrava de um dia ter conhecido aquilo tudo, de ter aprendido tudo o que sabia até o momento.
Poucas pessoas tem o conhecimento desse dia. E não achem que é muito especial, pois é um dia comum que a partir dele simplesmente se começa a lembrar das coisas.
Comigo foi mais ou menos assim: me levantei do berço, sabendo que era noite ainda, mas sem saber exatamente as horas (pois crianças comuns não sabem as horas), me arrastei até um canto para pegar a chupeta e vi que ela sumiu. Eu desci do berço e me pus a procurar em baixo dele, provavelmente ele deveria ter caído pelas grades de madeira escura. Eu sabia que ele era verde-água e que eu o usava há muito tempo, mas realmente não me lembrava de que um dia o tinha posto na boca.
Vi que ele não estava no chão e fiquei irritado. Eu não chorei. Eu não estava mesmo triste ou com vontade de chorar como normalmente as crianças fazem. Eu fiquei irritado, eu queria achá-lo de todas as maneiras. Mas foi impossível: ela sumiu.
Então mesmo não lembrando de absolutamente nada do dia anterior, eu adentrei um quarto onde meus pais dormiam. Eu subi no futon e me interpus entre eles, com muito sono, com medo de um filme que assisti, mas que não me lembrava de nenhuma cena.
Foi engraçado. Porque eu realmente não lembrava de nada. E mesmo conhecendo os vizinhos, a rotina e muitas outras coisas como o meu desenho preferido, porque é que eu não me lembrava dos dias anteriores?
Eu nunca cheguei realmente a saber o que houve com a chupeta. Com meu orgulho e idade já muito avançada para me preocupar com coisas tão inúteis, eu não perguntei a ninguém.
Me lembro que tive medo. De manhã eu estava preparando o café, eu só tinha três anos, mas tinha alguns familiares uns quatro anos mais velhos a quem eu ajudava.
Os meus pais trabalhavam e eu e meus outros parentes queríamos agradá-los. No mesmo dia, quando estava prestes a dormir naquele berço que começava a ficar pequeno para mim, eu fiquei com esse medo... De não lembrar do dia anterior.
Eu pensei: Eu não me lembro de nenhum dia antes da noite passada, mas sei de tudo o que acontece a minha volta, tenho nomes e imagens na mente que mostram todos meus familiares. Eu sei e não sei de nada.
Então quando o amanhã chegasse eu com certeza esqueceria desse dia, mas ao mesmo tempo saberia de tudo. Eu fiquei assustado e me encolhi no berço com muito medo.
Todos os dias eu viveria um dia novo?
Mas não foi assim. Eu me lembrava de tudo. Mas tudo o que eu soube depois era que aquele mês era o mês de Maio.
...
Eu fiz 4 anos. E a festa foi maravilhosa, ainda que tivesse poucas recordações. Eu percebi nesse dia que não me lembrava da festa de 3 anos, mas o mais bizarro: eu lembrava de algumas coisas, poucas mesmo, da minha festa de 1 ano!
Foi estranho. Eu descobri que não gostava de palhaços de brinquedo, ainda que não tivesse medo, só o as achava sem-graça e feios.
Tudo o que me resta dessa época foram esses momentos, quando o meu berço foi levado embora. Eu não cabia mais nele, mas eu realmente senti falta dele.
Daí em diante tudo passou como se nunca tivesse acontecido pra mim e eu esqueci de um dia ter medo de não me lembrar de nada. Eu me tornei uma pessoa normal.
Ou quase.
Foi quando eu me tornei essa pessoa que sou hoje, eu não tinha nem dez anos.
Sinceramente, detalhes sobre minha infância não interessam nem a mim mesmo. Como poderia contar alguma coisa a alguém sendo que eu não tenho necessidade de amigos?
Na verdade, eu não gostaria de contar nada disso a ninguém. Eu simplesmente gosto de me lembrar que tudo o que aconteceu foi bizarro e que provavelmente só aconteceu comigo, que sou frio desde pequeno, mesmo não parecendo.
Quando criança, eu sentia essa frieza tomando o meu espírito. Mesmo quando eu tinha ímpetos infantis como todos os outros, nós percebemos quando tem algo mudando em nossa mente.
Vocês me conhecem a partir daí. Sabem quem eu sou, porque sou temido e porque eu continuo não me rendendo à morte como os outros herbívoros.
Eu realmente não imaginava que no dia da minha morte eu ia lembrar de algo tão desnecessário quanto aquele dia que eu comecei a lembrar.
Bem, eu continuo achando que não estou morto. E pensando nisso, eu imagino que o Cavallone esteja bem desmaiado ao meu lado agora.
Eu também gostaria de esquecer umas coisas como o Cavallone, o Sawada e aqueles “amiguinhos” dele. Com o passar do tempo nós notamos muitas coisas e viver sozinho não é tão possível como eu imaginava.
Eu pensava que nunca iria passar na frente de alguma mansão, muito menos entrar nela. Pior ainda, dormir nela ou frequentar ela. E agora são duas, rio.
É engraçado o tanto de coisas que podem acontecer com um japonês como eu. Eu que quis ficar tão só e isolado, fui um bom alvo para completos idiotas, que me arrastaram para uma multidão de herbívoros e me fazem ficar entre eles. Eu os morderia até a morte por isso.
Eu imagino que se a herbívora acordar antes de nós, ela vai nos matar. Ou matar só a mim e tentar fazer algo ao Cavallone. Ou ela pode tentar fugir.
Se meu corpo respondesse, eu provavelmente já teria levantado e prendido aquela vadia.
É incrível o tamanho do ódio que eu consegui guardar por uma pessoa em poucos dias. E eu posso afirmar que sou jovem não é? Nem um adulto sou direito pelos padrões de faixa etária no Japão.
Mas sabem? Eu não sou do tipo que sente ódio, mas guardo a raiva.
Eu penso novamente o porquê de sentir tanta raiva dela. É porque ela é o pior tipo de herbívora e por mim criaturas assim podem ser descartadas. E não somente isso, mas por que ela é uma traidora.
Pessoas que traem. São as piores.
Eu continuo desde o dia em que sentei naquela banqueta do bar. Eu continuo pensando: Que sorriso irritantemente perfeito.
O Cavallone é do tipo inocente. Ele é um herbívoro bebê. Exatamente isso.
Ele não PODE ser um carnívoro, apesar de ter todo o potencial, mas sua natureza original é de um perfeito e ingênuo herbívoro. E eu o odeio.
Ele é daqueles que eu não posso conter a raiva, só que ao mesmo tempo é um daqueles que pode descobrir facilmente suas fraquezas (não que eu tenha alguma). Ele é perigosamente fatal para a minha pessoa e pessoas fatais me atraem.
Hm. Se ele estiver acordado agora, e eu estiver morto, ele deve estar chorando. Não sei como sei disso, mas se estiver, ele com certeza estará chorando.
Imagino o rosto dele quando está chorando. De forma um pouco irônica eu consigo ver perfeitamente como ele chora quando está muito abalado.
E se ele estiver dormindo, eu imagino que deve estar com uma expressão lamentável. Ele não apanhou pouco digamos assim.
E finalmente imagino os herbívoros do Tsunayoshi. Por isso eu queria poder me esquecer deles.
Se uma bala tivesse atravessado meu crânio e eu perdido as memórias, seria bem menos doloroso morrer.
É o pior para um carnívoro, sentir ressentimentos quando está morrendo. Ou quando está morto. Ou apenas desmaiado, não sei.
Se o meu corpo respondesse, eu poderia confirmar uma dessas respostas.
E Hibird? O que seria dele? Ele seria levado por Yamamoto Takeshi de volta para o Japão e viveria sua vida como todos os outros pássaros, com certeza cantando o hino que eu ensinei.
Penso se o Cavallone morrer também. Será que em algum lugar bem longe daqui eu vou ter que aguentar a cara dele de palhaço outra vez? Até imagino: “Kyouya, você por aqui? Que bom! Vamos cantar junto com aqueles querubins ali.” E então ele tropeça em uma nuvem e como neste caso seria o Céu, ele daria de cara com alguma escadaria branca.
Rio novamente. É super animador pensar que vai para um lugar tão calmo como o Céu. Se bem que eu não tenha certeza da existência de nada desses planos espirituais.
Prefiro pensar que vou afundar na escuridão e na existência de um nada eterno.
Seria perfeito se eu ao nem ao menos existisse.
E rapidamente me pego imaginando a face de repreensão do italiano idiota.
Ora, essa cara de palhaço me irrita! Por que ele não some?
E eu me lembrei do que disse a ele depois dele ter me beijado (bem, eu o beijei também). Não que nada disso fosse possível.
Não é como se eu fosse milagrosamente acordar e nós dois fossemos conviver numa relação... saudável.
Isso realmente não faz bem pra mim e eu começo a pensar que está demorando pra morte vir não é? Seria bom se alguma coisa acontecesse logo, pois estou começando a delirar em silêncio aqui.
Afinal, onde é aqui?
Talvez o chão frio da Mansão Todd. Ou com sorte um caixão. Meu ombro e meu peito nem doem, eu não consigo enxergar nada. E o nada não é o escuro. Não é nada. Nada é nada. E eu não sei mais o que é alguma coisa ou o que alguma coisa é.
Eu só penso que se eu estiver vivo, que não tenha se passado muitos anos em coma, ou que eu tenha perdido algum membro. Viver assim não é aceitável a um carnívoro.
Vocês já viram carnívoros (reais, selvagens e indomáveis) sem algum membro? Não consigo me lembrar de algum carnívoro que tem partes do corpo faltando e que ainda assim continua no bando.
Os leões que perdem o território para outros sempre se retiram. E como um bom carnívoro, eu sou o mesmo, não preciso de pena.
Então aquela cara do Cavallone me aparece de novo em meio ao nada. Incrível como esse cara me persegue até nessas horas.
Tinha até me esquecido dos Vongola, mas então ele voltou me fazendo me lembrar. Mas dessa vez eu vi a cena de nós dois dormindo.
Como mesmo? Eu não poderia me lembrar de algo que não vi. Mas eu acho que quando se está à beira da morte nós conseguimos ver coisas ocultas. Eu o vi acariciando meu rosto.
Ele sussurrou alguma coisa. E mesmo sussurrando eu ouvi perfeitamente: “Por que você é tão perfeito?”.
Se eu pudesse me ver acredito que estaria vermelho. Bem, deve estar sendo um pouco confuso eu falar comigo mesmo em algum lugar no nada da minha mente. De repente tudo a minha volta está tão cheio de vida que eu pensei que não estava mais delirando.
Se tudo está finalmente claro, eu deixei de ser aquela pessoa. E talvez eu tenha morrido mesmo. Aquele “Eu” morreu tão facilmente.
Foi tudo num dia tão comum e eu pouco me lembrava do dia anterior. Não foi um dia especial.
Foi detestável. Eu fiquei doente e ferido. Eu passei momentos de pura irritação. E aprendi a superá-los.
Pessoas fatais me atraem. Como ímã.
Eu pouco me importava que tivesse completado mais um aniversário. E nem me lembrei dos anteriores. Bem, estou lembrando agora e neles sempre tinha um herbívoro tomando todo o meu dia.
Não foi muito diferente no fim de sábado do dia 5 de Maio.
A diferença era que ele seria aquele que me faria me lembrar de tudo isso um dia.
Sorrio.
XXXX
Piii...Piii...Piii...Piii.
De dois em dois segundos o sonzinho que percorria o local chegava aos ouvidos daquele que respirava lentamente.
Havia uma pessoa olhando a janela. O nada foi se tornando alguma coisa e refletiu o teto em seus olhos.
Ele conhecia bem aquele branco todo.
-Hospital...
Sua voz soou tão ridiculamente abafada que ele teve que abaixar os olhos para ver que estava entubado. Sua franja parecia cobrir seus olhos.
Piscou os olhos, meio irritado com aquele som chato daquela máquina, que ele não sabia o nome. Hibari esteve no hospital de Nanimori várias e várias vezes, mas quem diz que se lembrava de algo técnico assim?
Na verdade, ele se lembrava, mas estava preocupado com outra coisa. Seus olhos índigo, ele viu no reflexo de um tampo de metal ali perto, estavam meio embaçados e sem vida, opacos.
Mas o brilho logo voltaria. Isso dizia que ele estava dormindo há um tempo no mínimo razoável.
E aquela figura na janela foi o que captou sua atenção em seguida. O dorso era alto, os ombros largos, revestido por uma blusa social bege, os cabelos loiros escuros faziam um brilho ondulado de acordo com que se movia, se apoiando numa perna ou outra.
Hibari piscou os olhos mais uma vez e ouviu algo.
-Na, Enzo, Hibird... Eu queria que ele acordasse logo.
Hibari pensou novamente. Enzo? Yamamoto disse que era a tartaruga do Cavallone?
Hibari respirou fundo. O que iria fazer? Voltar a dormir? E se demorasse a acordar de novo?
Aquele medo não era comparado àquele de quando criança, mas sentia uma pontada de preocupação. Não podia se deixar dormir antes de obter respostas sobre sua estada ali.
Mas como encarar o Cavallone? Depois de todos aqueles pensamentos vergonhosos, ele não estava morto. Que desgraça para o Guardião da Nuvem!
A voz do loiro ecoou de novo, mas ele cantava mesmo. Hibari não entendia nada, mas era muito bom somente ouvi-lo. Quando o Cavallone falava sem parar, parecia que seus ouvidos estourariam, mas quando cantava, sua reação foi ficar apenas concentrado nele.
Hibari percebia pouco a pouco que só existia o Cavallone. Para ele o único herbívoro que fazia diferença era o Cavallone. Que ele era quem ele tinha deixado arriscar alguma coisa.
E o que fazer agora? Hibari mal se reconhecia se fazendo tantas perguntas.
Mas ao se dar conta, o canto parou. Hibari levou a mão até a testa, afastando os fios negros.
Seus pulsos estavam enfaixados, seu tórax também.
Seu ombro parecia... Recuperado?
O Cavallone se espreguiçou e foi então que Hibari se deu conta: o cabelo do Cavallone estava menor. Muito menor. Ele havia cortado então?
O loiro usava uma calça marrom e um tênis. Ao seu lado uma cadeira e um casaco verde de pêlos brancos na touca.
Hibari piscou mais duas vezes antes de tentar se sentar. Quando o fez, ficou medindo a distância entre ele e o loiro.
O que ele tanto olhava lá fora?
-Cavallone.
Sua voz saiu mais alta depois de umedecer a boca e os lábios. O tubo foi tirado por ele mesmo.
O japonês nem teve tempo de reagir bem, o Cavallone se virou meio surpreso e deu um sorriso enorme, e como previsto, ele estava chorando, apesar de seu rosto estar perfeito.
-Kyouya!
Hibari pensou um tempo antes de sentir a mão quente e tatuada do loiro segurar as suas com força e seus olhos levantarem para olhar no fundo daqueles castanhos tão belos.
Estava roçando. A pele do nariz dele estava roçando o seu e a respiração do Cavallone bateu em sua boca.
Hibari encrespou os lábios sentindo seu corpo reagir um tempo. Ele estava verdadeiramente fora do bando.
Dino quis dizer algo, mas estava tão chocado. Mesmo se dissesse algo, Kyouya diria para se calar. Conviver pouco tempo com ele foi o suficiente para o loiro entender muitas coisas sobre o japonês.
Hibari quis ficar quieto depois disso. O Cavallone não sabia se afastava.
O mais velho se sentou então ao lado e permaneceu quieto, apenas olhando para as mãos de Hibari entre as suas.
Olhando daquele ângulo, Hibari podia ver que o Cavallone pareceu mais maduro com aquele corte de cabelo. E olhando desse ponto para onde o mesmo olhava, suas mãos estavam ainda mais pálidas, dava-se para ver as veias.
Entreabriu os lábios secos sentindo um gosto amargo de remédio. Virou as mãos para cima, fazendo com que as mãos morenas do italiano tocassem suas palmas.
Dino fitou Hibari com um sorriso pequeno. Ele estava contendo tudo o que sentia.
-Tudo bem.
Hibari disse com um pouco de esforço recebendo o calor dos dedos do loiro. Dino sorriu e se aproximou um pouco, estava quase a ponto de beijar o moreno , estavam já com os olhos semicerrados e as bocas quase juntas quando a porta foi aberta com um estrondo e Hibari automaticamente empurrou Dino com brutalidade.
-Quem foi? Eu vou mordê-lo até a morte. –olhou ameaçadoramente para a porta e ignorando completamente o Cavallone dependurado na janela.
Dali ele podia ver a vermelhidão no rosto do Guardião da Nuvem. Ele não conseguiu segurar mais as lágrimas e elas escorreram, mas seu sorriso estava ali.
Kyouya era mesmo muito tímido.
-HIIEE! LAMBO NÃO!
A voz melosa do Sawada percorria pelo local enquanto perseguia o garoto de oito anos.
-GYAAHAHAHAHAHA!
Hibari colocou a mão na testa. Se ele sentisse melhor suas pernas ele se levantaria para acabar com aquele herbívoro auto proclamado no mesmo segundo.
-Cavallone, faça alguma coisa quanto a isso. É culpa sua eu estar aqui agora.
Dino já tinha se posto pra dentro quando balançou as mãos.
-Ora, vamos Kyouya, não seja tímido.
-Cale a boca. Não me chame pelo nome e eu não sou tímido. Saia daqui, herbívoro!
De todas as formas tentava fazer com que o idiota do Tsunayoshi saísse e a criança irritante desaparecesse. Mas pelo jeito seria como sempre, só raiva.
O Cavallone tentou ajudar Tsuna, mas deu no que deu, os dois no chão e Lambo jogando granadas para todos os lados. Foi o ápice quando I-Pin chegou.
Hibari reuniu todas suas forças restantes e pegou o suporte do soro, jogando os dois para fora da janela com um golpe só, a testa franzida e os dois chefes com cara de tacho.
-Não voltem. –resmungou.
Hibari nem se deu ao trabalho de olhar para o Chefe Vongola. Que palhaçada. Tudo foi inútil. Tudo o que Tsuna tinha planejado deu errado.
-O que vai fazer agora, Tsunayoshi?
Tsuna soltou um “He?” e depois ficou pensando. Como se desculpar com Hibari?
-Etto, quer dizer...
Hibari não o olhava. Estava olhando a árvore do lado de fora onde Hibird o olhava empoleirado num galho seco.
-H-Hibari-san, gomen!
-Não se desculpe, herbívoro. Você não respondeu a minha pergunta.
Tsuna desviou os olhos um pouco coçando a cabeça.
-Nunca que ia imaginar. Dino-san me contou o que sabe e fiquei impressionado.
“Conversa mole. Só vai fazer eu me irritar mais.”- pensava irado.
-Esqueça. Onde estamos?
-He?
Hibari o olhou com intensidade. Se Tsuna não falasse direito com ele logo estaria esborrachado lá fora junto com os outros dois problemáticos.
Já se percebia que ele estava ali um longo tempo.
-Estamos no Japão.
Tsuna juntou as mãos atrás nas costas com um sorriso tranquilo parecendo muito fofo. Dino sorriu também, ele presenciou primeiro o alívio do japonês quanto ao seu onii-san e sendo bem claro, Dino nunca imaginou que fosse tão importante para o Vongola até tal ponto.
Hibari estava impassível.
-Kyouya, o Tsuna estava realmente preocupado. Porque não dá um desconto?
Hibari rosnou para o loiro, não esquecendo-se um único instante do clima entre eles. Porque tinha que ser sempre assim?
-Pelo menos estou de volta.
-A Itália foi tão desagradável assim, Hibari-san? –Tsuna perguntava com sua cara mais fofamente ingênua.
Hibari juntou as sobrancelhas. O que o herbívoro achava? Que tinha tirado quatro dias para passear?
-N-Não precisa responder não. –falou sorrindo amarelo.
Hibari virou-se para o Cavallone.
-Quanto tempo faz que estou aqui?
Ao lado, no criado-mudo, havia um vaso de flores. Estavam passadas, mas ainda vívidas nas cores azuis e amarelas.
-Aqui, algumas semanas.
Hibari pensou em ficar surpreso. Mas não, não podia perder a calma. Um dia, dois, umas semanas. Um ano. Nada mudaria tanto assim em sua vida.
-Aqui. E onde mais?
-Na Itália. Passamos um mês lá.
Hibari novamente teve que parar um segundo para respirar. Quase dois meses então.
-Fazem três meses e meio.
Seus olhos azuis ganharam um brilho apavorante.
-Não foram só umas semanas?
-N-Não.
A expressão de Dino era tristonha. E então Hibari percebeu. Como ele tinha esquecido?
O Cavallone pareceu perceber.
-Bem, eu sou um chefe, Kyouya. E soube que você deslocou minhas pernas... Obrigado, hahahahahaha....
A risada alegre do loiro fez com que a cara séria de Hibari desaparecesse. Sério mesmo? Ele estava tão feliz. Porque se preocupar?
Quando formulou as próximas perguntas Tsuna se manifestou novamente, satisfeito pela interação que Dino tinha com Hibari.
O Guardião do Céu ficou sabendo por Romário que a relação dos dois em pouco tempo era uma coisa para se admirar. E realmente, Tsuna estava imensamente feliz por isso vendo apenas alguns segundos os dois se falando. Não havia aquela aura mortal cobrindo o Guardião da Nuvem quando ele falava com o loiro.
E Tsuna tinha uma boa intuição. Aquilo era bem mais do que uma simples “aceitação” do carnívoro.
-Hibari-san. –começou com sua voz calma e que exalava paz. – Vamos te deixar descansar e quando melhorar, podemos conversar melhor sobre o que houve na Itália. Todos da família te desejamos melhoras e eu agradeço por tudo o que fez. –se curvou.
Hibari fez um assentimento com a cabeça levemente. Quando Tsunayoshi agia assim, não havia motivos para trata-lo com rudeza.
O garoto de 17 anos deixou o quarto de hospital e não demorou para que uma enfermeira adentrasse passando instruções.
Dino ficou observando até que a tarde começasse a se transformar em noite.
-Você... Passou todo esse tempo aqui?
O loiro sorriu e sentou outra vez perto de Hibari. Sua cabeça voltou-se para o teto e ele balançou as pernas pra fora da cama como uma criança pequena.
-Hai. Demoramos para te transferir pra cá. E Romário me disse que acordou um pouco depois e viu todos desacordados. Ele pediu reforços e então o Yamamoto apareceu.
-Hn.
Dino mordeu o lábio sua mão deslizou pelo colchão e tocou as costas da mão branca do japonês.
-Que bom que está vivo. Eu nem sei quantas vezes agradeci ao Yamamoto. Kyouya...
O moreno não conseguiu levantar o olhar. Se ele pudesse se esquecer que tinha o conhecido. Ou se ele pudesse voltar no tempo e evitar de ter entrado no bar.
-Kyouya, não importa quando, mas eu uma hora ou outra iria te encontrar.
O rapaz apertou o punho direito, sentindo que Dino entrelaçava os dedos sobre os seus da mão esquerda. Hibari só foi voltar-se para o loiro quando sentiu a respiração perto de seu pescoço. E ele o tocou.
A mão tatuada segurou o ombro do moreno e o puxou contra si, os dedos entrelaçados e suas bocas juntas. Hibari perdeu o fôlego em um segundo, exasperado e quente.
Dino forçou-o e seus lábios com gosto azedo e amargo juntos foram tomados por um sabor doce e envolvente. Sua língua se enrolou e suas pálpebras perderam a força, fechando-se a saliva do loiro misturava-se a sua e a intensidade do contato entre os dois o fazia esquentar-se em todos os lugares.
Hibari fechou a mão livre no braço esquerdo do loiro. Sua boca se mexia por vontade própria e nem pareceu-lhe que era a terceira vez que beijava alguém, e a mesma pessoa.
Os dedos do italiano se afrouxaram em seu braço e deslizaram até seu pescoço, sugando os lábios finos do garoto, marcando-os em vermelho, puxando-o contra si querendo tomar toda a sanidade do menor.
Hibari realmente perdeu a cabeça naquele momento e sem querer, soltou um gemido enquanto Dino separava suas bocas um segundo para suas línguas se encontrarem no ar e se juntarem de novo.
-Hmf-ahn...
O braço direito de Hibari passou em volta do pescoço de Dino e ele imaginou que não preferia o Céu mesmo se existisse alguém que beijasse tão bem assim.
Se não fosse Dino, não faria sentido nenhum ir para qualquer lugar. Pelo menos não mais.
Continua
Notas finais
O que acharam da super reflexão do Hibari no início? Vou contar uma coisa... A maioria daquilo é experiência de vida minha, qualquer coisa eu explico se vcs tiverem dúvidas. Mas o romance foi o mais legal, me desculpem se decepcionei-as em algo, eu me senti mto bem depois de termina-lo.
Lady Elliot, você ainda quer me matar? Por favor, diga que não! Eu postei LOGO! Kkkkk
De qualquer forma, eu quero mesmo fazer romance desses dois (mas é dificilllll) estou tentando deixar o Hibari tsundere, tentando mesmo. Mas só tentando mesmo, rsrsrsrs. É, eita garoto difícil esse Hibari. Que timidozinho!
E eu estou carente de reviews. Reviews aí??? Eu mereço? Bjos e até o próximo. Jaa na!
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