In The End Of Saturday
4 Part04: Uma Madrugada
Notas iniciais
Hibari estava correndo.
Estava suando, sua velocidade reduzida devido ao ferimento. O sangue pingava durante seu esforço sobre humano, deixando pra trás seu rastro inevitável.
Ele entendia e ele assumia: a culpa era toda sua. Nunca devia ter saído escondido da mansão naquele momento.
Hibari fechou os olhos se lembrando daquele instante confuso. Em sua mente a visão de uma memória que não conhecia: ele ao lado da cama do Cavallone.
O loiro estava dormindo de lado, seus fios de cabelo esparramando-se por seu rosto, sua boca de lábios cheios e úmidos entreaberta, ressonando.
O som era um apaziguador. O japonês ansiava por ter um momento de silêncio por parte daquele palhaço, aquele herbívoro sem lógica.
Suas tonfas em mãos, seus olhos estavam brilhantes, um brilho mais do que sanguinário estava implantado ali, ele parecia um psicopata, aquele sorriso imenso e a risada fina que sua imagem fez... Não era ele ali, não podia ser.
O italiano se remexeu na cama, a colcha que antes cobria até seu pescoço deslizou por seu ombro e caiu em sua cintura. O moreno parou de rir, mantendo o sorriso e tomando com sua mão vampiresca o pulso do loiro desacordado.
As pálpebras de Dino nem se moviam. Mas era uma cena estranha de se assistir, ou como ele pensava, relembrar.
Hibari viu-se sentar na cama ao lado do loiro e levar a mão direita que segurava em direção aos lábios. Um calafrio lhe percorreu, seus olhos índigos pousaram em si, como se encarasse o espelho.
Ele sorriu largamente e lambeu de uma forma despudorada e impossível de acontecer por cima da mão do loiro, depois beijando a ponta dos dedos.
Hibari arregalou os olhos. Aquilo... Não era real...
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Hibari abriu os olhos sentindo a pior dor de cabeça de sua vida. Seu nariz quase o impedia de respirar de tão entupido que estava e sentia um calor infernal. Podia sentir em cada parte do corpo o suor e a dor latejante dos ferimentos e uma náusea terrível.
Tentou se sentar, mas uma mão grande o impediu, tocando-o levemente na área do ombro e deitando outra vez. Aquela presença só podia ser de uma pessoa, aquele ar, o cheiro.
Quando a voz de Dino ecoou no recinto, Hibari podia ter certeza que aquilo que tinha visto não passara de um mero e ridículo sonho.
-Kyouya, você está muito mal, tente respirar.
Hibari tentou organizar seus pensamentos. Por mais que tentasse, não conseguia enxergar direito. Não sabia se era o escuro ou seus olhos estavam lhe pregando uma peça.
-Cabaa-vallone... qu-e h-oubi?
O japonês colocava a mão na garganta tentando entender o que se passava. Sua voz não saía, estava um fio, e pelo entupimento saíam palavras muito embaraçosas.
Por mais que aquilo pudesse ser constrangedor, Hibari reconhecia quando estava doente. Mas ele não esperava que fosse ficar sério.
-Estamos na Itália, sei o que pode acontecer com um viajante desprevenido. –falou suavemente o loiro.
Hibari olhou os lados. Onde ele estava? Tava tudo tão escuro que ele mal podia localizar o italiano, apenas sabia que estava do lado esquerdo da cama.
Hibari moveu uma perna e para seu medo, encostou-se em outra. Ele estendeu a mão, tocando alguma parte do loiro, que provavelmente seria a cara.
-Ai. Acho melhor você dormir. Ou quer um chá? Você está sentindo o que Kyouya?
O moreno agradecia por estar aquele preto todo, ele devia estar vermelho. O Cavallone estava sentado na cama bem ao seu lado! Quanto tempo fazia que ele estava ali?
-Dão sinto nada! Suma daqui, he-bívoro!
-Sinto muito, Kyouya, mas seu japonês está todo enrolado. Melhor você ficar quietinho enquanto eu pego algo pra melhorar essa sua febre e sua garganta.
Hibari sentiu quando o corpo de Dino se afastou. Passou dois segundos e ele ouviu um barulho forte. Aquele inútil só servia pra cair.
-T-Tudo bem se eu acender a luz? –perguntou baixo.
Hibari bufou, quase se divertindo. Que horas eram?
-Se você for ga-ga-gapaz de encontrar... –disse segurando um forte espirro.
Hibari apertou os olhos assim que a luz encontrou seus olhos de uma forma mais que dolorosa. Ele ia matar o loiro se ele o incomodasse mais um pouco. Assim que se acostumou, Dino já havia saído.
O rapaz suspirou, buscando algum relógio ou algo que o pudesse indicar as benditas horas. Aquele pesadelo o incomodou demais. Afinal, que merda toda era aquela? Seria algum tipo de trauma ou nojo por aquela ação de Dino para com sua pobre mão?
Hibari sentiu sua bochecha doer com o choque térmico. Mas estava quente, ele sentia vontade de beber um copo d’água gelado, tirar a roupa e tomar um banho frio, como no verão de algum país bem tropical, deixando-o febril.
Seus dedos passaram sobre seus fios negros, estavam úmidos. Seu coração estava acelerado.
Tudo estava indo de mal a pior. Se ele tivesse pegado o avião, estaria chegando em Nanimori e poderia se tratar no hospital de lá.
Era tudo culpa daquele Dino. Hibari trincou os dentes, ele sentia que aquele homem estava mudando alguma coisa em sua vida, mas não fazia a menor ideia do que poderia ser.
Isso tinha que acabar. Porém, ele não conseguiu enxergar pensar em mais nada quando o loiro entrou, visualizando a queda que era certa e se levantou, dando uma leve corrida que fez mal ao seu corpo, mas suas mãos conseguiram conter o desastrado e o impedir de bater o pé naquela saliência mal arrumada.
-Cuidado.
Dino olhou pra o menor se lembrando. Enquanto Hibari dormia, ele havia ligado a luz. O italiano acordou com um mau pressentimento, e tal foi que encontrou Hibari suando e gemendo durante o sono. Franzia as sobrancelhas levemente, mas de um jeito que incomodaram Dino.
Que tipo de pesadelo ele poderia ter pra fazer aquelas expressões?
Além de tudo, ele estava com febre alta. Dino chamou Romário e este ajudou a cuidar do japonês.
Assim que a situação acalmou, Dino ficou ali deitado ao lado. Apagou a luz e não pregou o olho, esperando alguma outra reação ou o moreno acordar, que foi o caso.
Hibari estava alheio a tudo. Mas mesmo sem saber, e mal conseguindo caminhar, ajudou Dino a carregar aquela bandeja de comidas quentes e leves para a cama.
Hibari se sentou sem se cobrir, o que deixou Dino contrariado. O loiro não podia deixar ele assim depois daquele susto.
-Vamos se cubra. Você está com febre. –Dino puxou a coberta para os ombros de Hibari e o obrigou a se encostar, cobrindo-o todo com as colchas.
Hibari ia voltar a ameaçá-lo, mas outro espirro o impediu. Falar não era opção.
-Horas.
-É de madrugada agora, três horas na verdade. Descanse, você estava mesmo muito mal.
Hibari arqueou a sobrancelha aceitando a xícara de chá de ervas bem quente. Dino tomou a caneca, que pareceu incomodar o moreno pela temperatura fervente, e assoprou alguns instantes, até que pudesse ser bebida.
Hibari não gostou muito de ser paparicado assim, mas apreciou aquele momento, vendo o quanto o homem se esforçava para fazê-lo ficar melhor.
-A sua coragem me admira. –um fiasco de voz saiu de sua boca fina, olhando o líquido na caneca.
Dino manteve os olhos grudados no menor. Ele sorriu levemente, admirava aquele garoto mais do que ele mesmo percebia.
-Não precisa dar o braço a torcer. Eu só estou sendo egoísta. –Dino falou com uma expressão fraca.
Hibari apertou os olhos em direção à caneca, levantando-os. Não gostava daquele tom nem daquele rosto triste.
Ele não entendia, e não fazia questão de saber, mas um rosto que sempre sorri, uma pessoa sempre tão gentil e bondosa... Esse rosto não podia conter tristeza, senão...
Senão...
Hibari entreabriu os lábios fitando a bandeja, fitando o chão, fitando as mãos de Dino sobre a cama. Mordeu seu lábio, seu rosto estava esquentando e não era a febre.
-Cavallone, você é uma pessoa incapaz de mentir não é?... –aquilo soou mais como uma afirmação.
Dino arregalou os olhos virando rosto, coçando a nuca totalmente desconcertado. Ele era muito sincero com Hibari, o moreno percebeu.
-Estou grato por cuidar de mim. Não é qualquer pessoa que tem coragem.
Dino riu e pegou um biscoito da bandeja, mas largou-o assim que sentiu um leve tapa.
-Busque o seu próprio, herbívoro. Doentes primeiro. E não reclame, ou eu vou embora por aquela janela.
Dino fez um bico. Roubando o biscoito mesmo assim e dando uma mordida na metade.
-Seu atrevido...
A madrugada estava terminando. Hibari se sentia bem melhor após alguns remédios que Romário havia pego com o médico da família.
-E porque o médico não veio diagnosticar? –perguntou Hibari curioso pela ausência do mesmo.
-Eu pedi que ninguém te incomodasse. Você disse que adora ficar só. Achei que eu seria mais do que suficiente.
Hibari deu um risinho zombeteiro. Ele poderia confirmar, mas seu costumeiro sarcasmo falou mais alto que sua razão.
-Pobre de você, Cavallone. Está muito longe de me conhecer.
Dino converteu sua face em uma de desafio. Ele amava explorar mentes como estava fazendo agora.
-Oh. Quer dizer que gosta de ficar perto das pessoas?
Hibari olhou firmemente para o loiro. Ele apelou para a mentira muito cedo, o italiano não era tão lerdo como pensava.
-Não. Mas ainda assim, Cavallone, você não conhece nem metade. –disse levando a caneca de chá outra vez à boca, sorvendo grandes goles.
Hibari se sentiu muito cansado e sonolento. Era muito cedo pra estar acordado assim e parecia que Dino também estava destruído.
O mais velho bocejou e colocou a bandeja em um lugar mais afastado. Ele teria problemas pela manhã.
-Kyouya, melhor dormirmos. Você já está melhor não é?
Hibari resmungou um “Sim” e se ajeitou sentado na cama. Suas mãos moviam-se esticando as cobertas enquanto tirava sua atenção do Cavallone.
Sentiu algo tocando sua cabeça, fazendo seus movimentos pararem, levantando o olhar rapidamente. Encontrou um par de olhos castanhos e um sorriso ridículo na boca carnuda.
Hibari já se preparava para dar um murro naquela fuça, mas o loiro afagou os fios levemente, desarmando Hibari. A sensação de carinho foi muito bem recebida por seu corpo, aquele calor passando pelos dedos do italiano.
-Boa noite.
-Já é de madrugada... Baka... –sussurrou Hibari abaixando a cabeça, sem se mover durante o ato de Dino.
Dino riu e puxou a nuca de Hibari, colocando o rosto em seu ombro, enquanto as mãos do loiro envolveram suas costas, apertando-o.
Hibari arregalou os olhos, sentindo-se corar e estremecer. O contato humano que ele não tinha há anos. Era um simples abraço, mas nele o japonês sentia todo o corpo do Cavallone, sentia o sentimento dele.
Pela primeira vez em muito tempo Hibari provou um pouco do que é não se sentir sozinho. A força imposta pelo Cavallone já fazia com que deduzisse seus pensamentos.
O japonês não se moveu, apenas seus dedos se apertavam na colcha durante a cena de intimidade que Dino havia criado entre eles.
Quando o italiano se afastou, resvalando os dedos levemente pelos ombros de Hibari, o menor lhe deu um soco leve no estômago.
-Agora sim. Boa noite, Cavallone.
Dino esperou que Hibari se deitasse, cobrindo-o até o pescoço com um sorriso maldoso. Sem dizer nada, Dino saiu do quarto sob as vistas de Hibari e lhe acenou uma última vez, apagando a luz.
Hibari observou a ida com cuidado. O Cavallone não era uma pessoa comum. Seus olhos pesavam e suas narinas captavam pouca coisa, mas podiam sentir o cheiro do loiro. Ao seu lado, esquerda, um sinal de que Dino estivera ali desde algumas horas atrás, o cheiro e as poucas marcas no travesseiro e lençol mostravam que Dino não se mexia muito enquanto dormia.
Hibari forçou-se a virar para o lado oposto e olhar o escuro do outro lado. Estava com sono demais, estava quase cochilando, porém, aquele lado esquerdo parecia chamá-lo.
Seu corpo se virou devagar, se arrastando para aquele espaço mais estreito, apoiando a cabeça no travesseiro já gelado.
Assim que sua face tocou o tecido fofo, Hibari pode apreciar um dos cheiros mais relaxantes de sua vida. Era leve, mas tão aromático, parecia com alguma flor que não conhecia.
O próprio não percebeu quando colocou as mãos embaixo do travesseiro e o apertou no seu rosto, aprofundando seu olfato na fronha branca. Quando se tocou, seu corpo já estava encolhido e o travesseiro como seu alvo para o resto da madrugada, e o cochilo veio, seguido de um ressono e seu desmaio total.
...
Dino ao fechar a porta encostou suas costas nela. Sua cabeça doía um pouco, mas não era nada comparado ao que tinha acabado de acontecer.
Dino colocou a mão sobre a boca. Impossível e incompreensível.
O Chefe dos Cavallone acreditava que o moreno iria ficar uma fera e atacá-lo, só que o que houve foi o mais inesperado, o Guardião da Nuvem corou e falou com gentileza, dando um soco que não podia ser nem mesmo de uma criança de cinco anos.
Dino inconscientemente deu um sorriso. Ele estava trepidando, ele nunca esperava sentir emoções fortes assim um dia, muito menos por um homem.
O italiano se viu envolto de perguntas desgostantes. Ele estava se envolvendo, deixando-se levar sem pensar duas vezes.
O Guardião da Nuvem era... Era a pessoa que nunca retribuiria nenhum tipo de sentimento. Então que cena foi aquela? Dino poderia ter se sentido mais certo se o abraço fosse retribuído, mas oras! Era apenas um abraço, e Hibari devia pensar a mesma coisa.
Eles seriam amigos. Isso se o moreno deixasse.
Ser um amigo do guardião de Tsuna já seria motivo de festa para o loiro. Ele acreditava.
Se lábio doeu um pouco com uma mordida forte. Ele estava feliz por isso? Dois dias com um desconhecido. Ele estava apaixonado?
-Não sei... –falou consigo mesmo, se afastando da porta.
Seu destino era a sala de visitas da mansão. Por quê? Ele não conseguiria dormir mais mesmo.
Esperaria Romário aparecer e começaria o trabalho que havia adiado.
Dino passou a mão tatuada pelos cabelos meio longos repicados. Estava com vontade de cortar. Estava exausto naquela madrugada, por cuidar do moreno teimoso, por não dormir devido à preocupação.
Ele se levantou indo à sua adega. Escolheu uma vodca já aberta e pegou um copo, em seguida ligando a lareira e pegando um livro inacabado, acompanhado de um óculos de leitura.
Se encostou na poltrona macia que havia escolhido só para momentos assim, podendo relaxar levemente.
Na hora extensa que se envolvia em um longo romance, Dino se viu empolgado, porém sonolento. As linhas contavam sobre um romance impossível e incestuoso. Aquilo pareceu mais com um incentivo, com “não desista do seu amor”, “continue até que descubra se me ama ou não, eu esperarei”...
Dino ficava retraído com as palavras e tentava imaginar aqueles ditos em sua voz, reproduzindo-os em movimentos tímidos dos lábios.
Que estranho, ele se sentia tão bem humorado com Kyouya ali. Romário tinha comentado algo mais cedo sobre o chefe estar fazendo ótimos serviços quando o Guardião da Nuvem Vongola estava por perto.
O fogo que queimava na sua frente com leves trepidares da lenha e das chamas, fazia a atenção de Dino se desviar algumas vezes, bebendo da vodca com gelo. Aquilo relaxava todo sue corpo e trazia boas sensações como as que tivera na presença do moreno.
“Você está se apaixonando?”
-Não sei...
Sua voz ficava baixa conforme a pressão que fazia ao segurar o livro diminuía. Em sua mente sua própria voz e de mais alguém.
“Você ama ele?”
-Nem o conheço...
“Herbívoro.”
-Kyouya...
Os dedos falharam, o livro caindo sobre seu colo. Sua cabeça se apoiou no encosto do banco e Dino pegou no sono imaginando várias coisas juntas. Ele estava uma confusão.
O loiro só acordaria lá pelas dez da manhã coberto por um manto preto bem quente. Seu óculos sobre o livro com um marcador mostrando a página que havia parado e sua vodca já guardada. Sobre uma mesinha ao lado, seu café da manhã.
O loiro piscou umas duas vezes antes que pudesse olhar para uma outra poltrona do lado esquerdo, que noite passada estava vazia. Nela, um corpo pálido e concentrado estava lendo um outro livro, embaixo de uma colcha branca.
Como para não estragar a boa visão, Dino permaneceu no mais puro silêncio com os olhos semicerrados, observando o concentrado guardião, que parecia recuperado de uma forma assustadora, que olhando para baixo, fazia seus fios negros penderem pela gravidade de uma forma única, cobrindo parte dos olhos.
Dino se remexeu embaixo da coberta negra. A presença de Hibari confortava seu espírito. Aquela aura forte e calma, davam inspiração e transpassava seu controle e inteligência, ainda que esses fossem apenas detalhes.
Acima de tudo, Dino só conseguia enxergar o mais importante em Hibari, seus sentimentos camuflados.
-Ah, Cavallone. Que irresponsável, você mal pode cuidar de si próprio e fica tentando me ensinar alguma coisa. –disse o menor com ar de decepção.
Dino fez uma careta e tirou o tecido que o envolvia, dando atenção ao café.
- Bom dia. Melhorou?
Hibari fez um “Hunf” e não respondeu. Dino mordiscou um bolinho salpicado de açúcar, lambendo a ponta do dedo após provar. Seus olhos infantis encontraram-se com os do mais novo.
-Hm? Está com fome, Kyouya? Não comeu ainda? –Dino pegando um bolinho e estendendo para o moreno.
Hibari encarou o doce como se o avaliasse ou tivesse medo, mas porque parecia que seus olhos estavam presos em outro lugar além sua mão? No fim, seus dedos agarraram o bolinho sem pressa levando-o à boca e mordendo-o, arrancando uma pequena parte.
Mastigando, Hibari descobriu que coisas fritas doces nunca eram de seu gosto. Preferia um bolo ou uma torta, mas definitivamente, coisas gordurosas e doces não aumentavam seu apetite (eu com bolinho de chuva).
Porém, Hibari fez o mesmo movimento que o Cavallone sem perceber. O açúcar refinado grudou em seus dedos, pintando-os de branco e ao terminar de comer, passou os dedos pela boca, limpando-os.
Ouviu um leve riso e encarou Dino com ódio. Sabia que ia ser piada agora. Não devia ter um dia que Cavallone fosse sério o tempo todo! Isso trazia um sentimento de raiva, ainda que lembrasse do que sentiu na noite passada, naquela expressão triste e solitária do mais velho.
-O quê? –olhou frio e com o tom de voz não totalmente recuperado.
Dino balançou a mão negando. Ele iria deixar provocações para outra hora.
-Faça o favor e me dê logo a bandeja.
Dino riu e passou a prata, comentando sobre os melhores sabores da culinária italiana.
-Não me interessa molho branco, rosa ou vermelho, nem se fosse preto ia me interessar. Agora fique quieto, sua mãe não te ensinou que não se fala de boca cheia?
Foi como tocar na ferida, mas Dino não deixou transparecer. Ele sorriu e engoliu um pãozinho recheado de creme.
-Ma, ma! Relaxe, Kyouya. Que horas você acordou? –Dino perguntava deixando a comida de lado e encostando na poltrona despreocupadamente, como se não existisse trabalho no escritório.
O moreno o ignorou um instante.
-Há pouco tempo. Romário mandou avisar que quando acabasse o café, subisse pra trabalhar.
Hibari o fitou mortalmente.
Ah, naqueles olhos fininhos Dino podia ver o ódio se acumulando, parecia que alguém estava furioso por estar sendo motivo de negligência. É como um tapa na cara para um Presidente de Disciplina.
-Ky-Ky-Hibari-kun, fique tranquilo, eu vou trabalhar sim, mas é pouca coisa. Depois eu vou voltar a te fazer companhia. Não fuja hein? Ou mandarei meus homens te procurarem.
-Não preciso disso. Estou aqui porque quero, Cavallone.
Dino sorriu se levantando.
-Ah, está por que quer? E o que tem de tão interessante aqui pra você ficar? –perguntava apoiando suas mãos nos braços da poltrona de Hibari.
O menor o olhou com desprezo e zombou.
-Sua cabeça. Tenho que arrancá-la e deixar de troféu em algum ponto de Nanimori.
Dino fez uma careta enojada.
-Kyouya, minha cabeça não ficaria bem sem o resto do meu corpo.
-Parece que tem um loiro idiota se achando por aqui. Que tal se ele não fosse trabalhar um pouco e mostrar que ao menos alguma coisa sabe fazer, já que lutar é incapaz?
Dino sentiu um calo nascer em sua testa. Não é que o japonês sabia como irritar uma pessoa também?
-Você deve me odiar pra estar se dando o trabalho de me irritar não é?
Hibari soltou um risinho sarcástico. Poderia ser verdade, ou não, ele tentava responder essa questão também.
-Eu odeio herbívoros, ainda mais os inúteis como você.
Dino fez um muxoxo e se afastou, caminhando em direção às escadas do outro lado do grande salão, que comportava duas grandes escadarias nos cantos. A da esquerda levava aos escritórios, salas de reuniões e outras mais a ver com trabalho. A da direita levaria aos quartos e banheiros.
Hibari observou as costas de Dino subirem pelo tapete de cor verde-musgo de desenhos indianos. Era uma arte, e por mais que Hibari detestasse admitir, o loiro tinha bom gosto.
-Eu volto logo.
Foi a última coisa que ouviu antes do Cavallone desaparecer bem longe dentro do corredor do primeiro andar.
Hibari suspirou ao se ver sozinho. A lareira estava apagada há um bom tempo, os restos de madeira estavam sobre as outras em forma de carvão, entre elas poucas brasa sobreviventes.
Hibari havia estado se lembrando do sonho bizarro até esse momento. Ele precisava ir embora logo, ou aconteceria algo entre ele e o Cavallone.
Fosse uma relação de amizade, fosse uma relação mais íntima, que surpreendia muito o moreno ao se iludir com coisas assim, ele precisava garantir que nada acontecesse entre eles.
Em outras palavras, sumir, para nunca mais voltar a ver Dino Cavallone.
E esquecer que houve um sábado na Itália em um dia 5 de Maio que ele descobriu um italiano que despertou suas emoções, suas fraquezas.
Aquele que tocou seu coração pela primeira vez.
Continua
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