In My Veins
5 Uma dose de água para uma garota de papel
Notas iniciais
"Um pedido de desculpas pode até não consertar o erro, mas certamente deixará feliz o coração magoado."
– Neuza Coelho
Meus olhos fecharam quase que automaticamente, ele estava tão perto que quase dava para sentir o sabor de seus lábios em minha boca. Era questão de milésimos até termos nossos lábios colados um no outro, mas um resmungo vindo do sofá maior fez Klaus quase pular para trás,Longe de mim. Chris piscava os olhinhos azuis tentando se manter acordado e por um minuto eu suspirei de alivio,porque 1) não seria uma cena muito legal, meu filho me pegar beijando o seu médico e 2) eu me sentiria horrível depois, porque eu estava sendo uma vadia muito fácil.
Eu nem conseguia encarar Klaus nesse momento, mesmo sabendo que seu olhar queimava em minha direção, ele me observava, como se estivesse esperando eu tomar alguma atitude , mas no momento eu nem saberia levantar daquele sofá.
– Filhote, acho melhor você ir para a cama, já está tarde e se continuar deitado ai vai acabar ficando todo dolorido.- Eu levantei mesmo ainda com as pernas bambas, Chris assentiu ainda sonolento e eu o peguei no colo, uma tarefa meio difícil agora já que ele já era um pouco pesado e o meu pé machucado não ajudava em nada. Klaus se levantou no mesmo instante.
– Se quiser Caroline eu levo o Chris pra cama, acho que ele está um pouco pesado pra você.- Ele estava tentando deixar o clima menos tenso entre a gente, mas eu não sei se estava funcionando muito bem. Eu não era nenhum modelo de simpatia, bem ao contrario, não era á toa que eu estava solteira desde que fiquei grávida do Chris.
– Não precisa, eu posso muito bem carregar o meu pacotinho sozinha.- A frase saiu mais grossa do que eu esperava no começo, porém suavizou quando me referi ao filho todo encolhidinho no meu colo. Apertei Chris em meus braços e ele soltou uma risadinha.
– Tudo bem, vou ficar aqui esperando..você.- A sua voz soava incerta e até mais baixa, ele estava sendo cauteloso com as palavras, mas mesmo assim eu me sentia ameaçada por ele, tudo era muito intenso.
– Ah ok. Mas eu vou demorar, o meu bebê não dorme sem uma boa história antes.- Eu usei um tom mais simpático dessa vez, mas deixando claro o meu desinteresse em voltar para a sala. Entrei no quarto todo azul com uma cama branca forrada de lençóis do Hot Wells encostada na parede, coloquei Chris em pé e o ajudei a trocar de roupa, para colocar seu pijama de carinho. Puxei as cobertas e meu moleque deitou na cama, depois de cobri-lo fui até a estante de livros.
– Que estória você vai querer hoje ?- Perguntei soprando, sentindo uma presença na porta do quarto, eu sabia que era ele, mas não me daria o trabalho de checar.
– Os meninos de marte!- Chris pediu o mais alto que conseguia, bem animado, ele adorava estórias e já havia me falado varias vezes que queria ser escritor quando mais velho.
– Tudo bem então. – Puxei a poltrona para perto da cama e comecei a ler o livro, eu nem li tanto, porque Christopher acabou dormindo no começo da segunda página.- Durma com os anjos bebê. Eu te amo muito. – Deixei um beijo em sua testa, e coloquei a poltrona no lugar deixando o livro em cima dela e fui em direção do Klaus ou da porta, tanto faz os dois estavam no mesmo lugar.
Apaguei a luz e fui seguida por um par de olhos azuis — esverdeados até a sala, onde marchei para a cozinha, indo pegar um copo d’água e confirmando que o doutor estava me seguindo. Escorado na divisória entre a sala e a cozinha, Klaus estava um dos lados de sua blusa social solta da calça, revelando um pouco da parte de cima da Box preta,e apesar de a blusa atrapalhar a visão completa ainda dava para notar uma das entradinhas de Klaus bem visíveis.E Deus, era uma visão de babar, porque mesmo estando brava com ele não podia negar que Klaus era uma delicia, principalmente quando usava o casaco branco de médico no hospital.
Mas esse não era o ponto, eu ainda estava brava com ele e continuaria brava. Mas a parte do meu cérebro que estava imaginando-o sem roupa, do jeito que veio ao mundo, estava me impedindo de fazer qualquer outra coisa. Eu precisava acalmar esse desejo, o problema era que não tinha uma lata de álcool na casa, a única coisa que eu poderia fazer era tomar um copo d’água bem gelado.
Com isso vou o mais rápido possível até a geladeira, abrindo a porta maior e pegando a jará de água, peguei um copo qualquer e despejei a água la dentro o mais rápido possível, derrubando até um pouco de água no chão quando afobada levei o copo a boca. Klaus observava minha perda de controle de camarote, parecia que estava esperando o momento certo pra dizer algo. Mas porra! Diga logo, pois eu posso muito bem fingir que estava bêbada com a água só para não ter que te encarar mais um minuto sequer.
– Caroline você está mais...calma ?- Sempre cauteloso, sua voz soprada, tão branda e doce que chegava a ser tão suave quando uma brisa de vento, ele deu dois passos em minha direção, mas não parecia totalmente convencido a parar em minha frente, talvez com medo de apanhar.
– Eu nunca estive descontrolada para estar calma agora.- Eu respondi rude, esse era o meu problema segundo Bonnie e Elena eu era turrona de mais, eu até tinha perdido as contas de quantas vezes eu já tinha afastado pessoas que se importavam e até gostavam de mim por conta desse meu defeito.
– Não era o que estava aparecendo a uns minutos atrás.- Ele tinha desistido de ser doce, aposto que tinha visto que com delicadeza não conseguira nada de mim, mas eu não tinha idéia do que ele realmente esperava conseguir de mim, porque não tem utilidade procurar nada nas pessoas quando elas estão fodidamente quebradas, é como tentar achar uma pedra no escuro.
– Eu só estava com sede.- Eu tentava responder com desdém, mas a cada passo que ele dava em minha direção ficava difícil de me esconder dele.
– Não você não estava só tomando água, dali da porta dava pra ver você tremendo e eu não acho que esteja com frio. Mas não é sobre isso que eu quero conversar.- Ele parou bem a minha frente com aquelas duas esferas azuis quase verdes me olhando sem desviar,tentando ler minha mente através do olhar penetrante, e eu em um ato de desespero tentei me afastar, mas sua mão foi mais rápida e puxou meu braço com força me lançando contra seu tronco, onde nossos corpos se chocaram em um baque surdo.
Oh fodido Deus! Eu tive que segurar o gemido estrangulado que ameaçava querer sair,quando meus seios se pressionaram contra o peitoral forte de Klaus, agora sim eu estava tremendo, parecia que de uma hora para a outra a casa tinha ficado mais quente e o ar tinha escapado tornando quase impossível respirar. Levantei a cabeça vendo um Klaus de olhos fechados e mordendo a boca carnuda, e essa visão era de molhar a calcinha, mas eu tinha que me afastar antes que não conseguisse mais parar, ou melhor antes que eu fizesse uma burrada e o agarrasse.
Soltei-me do seu “abraço” e fui parar longe do seu corpo, eu estava quente e ofegava ao ponto do meu peito subir e descer enquanto tentava recuperar a respiração.
– Klaus não precisa se desculpar pelo que aconteceu na sala, tudo bem. Sério, eu até já esqueci.- Retomei a conversa, minha voz saiu tremula e desesperada, e minha mente estava uma bagunça de sentimentos e isso só piorava com as batidas aceleradas do meu coração.
– Mas eu não. Só que não é disso que estou falando Caroline, eu queria falar sobre a sua conversa com a sua amiga. – Seu tom estava rouco, e puta que pariu aquilo era uma tortura para os meus ouvidos, seu tom rouco misturado com um toque leve de preocupação fazia um grande estrago lá em baixo.
– Você escutou a nossa conversa ? Não sei se sabe, mas isso é considerado falta de educação.- Eu estava frustrada, porém eu não conseguia contar minha irritação ao saber que ele havia de alguma forma escutado nossa conversa, e isso definitivamente não era uma algo sobre qual eu queria falar principalmente com ele.
– Caroline, até agora eu pude perceber que você espera uma atitude idiota e mimada da minha parte só porque sou rico, mas você pode se esforçar o quanto quiser não vai achar nada, eu perdi coisas de mais para me importar com coisa fúteis. E quer saber? Eu escutei sim, e que tal você parar de se preocupar em rotular as pessoas um pouco.- Ele cruzou os braços na altura do peito e parecia que estava falando sério, mas porra quem estava errado ali era ele, não fui eu que ouvi a conversa dele as escondidas.
– Que tal você parar de se preocupar tanto assim comigo? Eu sei me virar sozinha, e além do mais você é o médico do meu filho não meu.- Eu estava agitada, e o meu estomago se revirava quase se embrulhando, porém Klaus parecia controlado e até calmo, quem dera eu tivesse essa habilidade seria de uma grande utilidade agora.
– Exatamente, mas não faz sentido eu cuidar do seu filho quando na verdade a única realmente doente aqui é você.- Ele rosnou pra mim, e eu fui atingida em cheio, eu entendia exatamente o que ele queria dizer com isso, mas essa frase solta e bolada pela mente esperta do britânico fluente parado a minha frente, infelizmente tinha um duplo sentido. Eu sabia que ele queria dizer que não adiantaria ele tentar ajudar Chris a passar por tudo isso, se eu mostrava para o meu filho todo o dia uma rotina de alguém que tem depressão, mas minha mente não deixou passar em branco que ele também poderia ter insinuado, que fui eu quem passou essa doença para o meu filho, mesmo ainda não sabendo se a doença é ser genética, e isso nos trazia de volta a discussão de mais cedo com Elena.
– É eu sei. – E eu sabia mesmo, dos dois jeitos eu acabava sendo a vilã da história. Eu sabia que era muito dura comigo mesma, mas poxa eu me cobrava tanto para fazer algo que prestasse, para logo em seguida descobrir que eu estrague tudo de novo, isso já estava me deixando tão quebrada que eu chegava a achar que nunca conseguiria voltar a ficar inteira, porque eu acabei perdendo uns caquinhos tão pequenininhos durante o processo que mesmo com o tamanho pequeno quase insignificante deles, ainda tornava impossível uma reconstrução completa , porque quebrar uma coisa é a muito fácil você consegue em menos de cinco segundos o difícil mesmo é reconstruir, porque durante a queda e o real baque se torna impossível colocar tudo de volta, sempre há um racho ou um pedaço faltando. Você nunca volta a ser perfeito depois de uma queda principalmente quando a queda é grande. Já a minha era imensa, eu tinha muitos cacos perdidos, eu já não valia a pena ser reconstruída.
– Caroline eu não...- Dava para sentir sua voz tremula pela primeira vez naquela noite, e assistir sua voz morrer era a grande prova de que ele podia estar arrependido do que disse, mas não mudaria a frase se possível, porque infelizmente aquela era a mais pura e real verdade. Eu estava doente ou melhor eu era doente, e isso não é uma questão a ser discutida, era real, ou pelo menos naquele momento pra mim era.
– Eu sei que não foi o que quis disser, só que não dá pra controlar o modo que os outros interpretam a sua fala.- E também pela primeira vez naquela noite minha voz não tinha saído irônico,nem egocêntrica e muito menos grossa, ela saiu quebrada exatamente como eu estava, sem magia e nenhum resquício de animo. Klaus até fez menção de vir em minha direção, mas acho que ele percebeu que não seria a melhor coisa a se fazer agora, então continuou me encarando com aquelas duas esferas azuis esverdeadas em total conflito entre si, deixando os braços fortes caírem ao seu lado.
– Eu sinto muito.- Foi quase um sussurro.
– Eu também.- Respondi no mesmo tom.
– Talvez eu deva ir embora, já está tarde.- Ele falou com a voz mais reservada, talvez com medo de me machucar com outra frase, mas eu não podia culpá-lo por dizer a verdade que todos temem em me contar.
– È. – Sopro fracamente. Klaus se movimenta indo para a sala, e eu como uma boa anfitriã o sigo até a porta da frente, pego seu casaco cinza que estava pendurado ao lado da porta e entrego para ele, que o coloca pronto para pegar frio das noites de inverno em Oregon. E lá estávamos nós de novo encarando um ao outro, presos em nossas trocas nada sutis de olhar.
– Caroline obrigado por me deixar vir até aqui, e me desculpe por...você sabe.- Ele diz constrangido, eu normalmente odiava as despedidas, por que todas eram tão formais. Ele botou as mãos dentro do casaco para protegê-las do frio cortante de Oregon.
– Não foi nada Klaus. E a propósito se quiser pode vir no domingo para a páscoa, Chris iria adorar ver você.- Eu disse prolongando nosso dialogo, por mais que eu quisesse fechar a porta impedindo o frio de entrar em casa e me enfiar em baixo dos cobertores mais quentinhos que eu tinha,porém eu não fiz, fiquei ali no frio com ele.
– Seria muito incômodo.- Ele disse se arrepiando com a brisa gelada que veio em nosso direção.
– Claro que não, e como eu disse Chris ira adorar ter você aqui para comemorar com a gente.
– Tudo bem então.- Ele se virou parar ir embora, mas de repente da meia volta como se tivesse se lembrado de algo.- Caroline me prometa que pelo menos vai pensar a respeito.- Ele me entrega um cartãozinho, mas antes que possa olhar ele me para.- Só veja quando eu for embora.- Ele me avisa sussurrando no meu ouvido,e no instante seguinte eu já estava arrepiada quando ele planta um beijo suave no meu rosto. E sai com as bochechas coradas por conta do frio, desaparecendo dentro do carro de cor chumbo e da neve.
Fecho a porta ainda sentindo os lábios carnudos e gélidos de Klaus formigando minha pele, eu não conseguia acreditar e foi com esse impulso que abri o papelzinho bem dobrado me deparando com...
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