In Love With Her

34 Entre tapas e beijos


MANUELA

— Vai logo, Isabella! Eu não aguento mais esperar – reclamei novamente de sua demora proposital

— Calma, guria. Por que tanta pressa? Curte o momento – ela respondeu com a cara mais lavada do mundo – Vamos com calma, logo chegamos onde você e eu queremos. Sem pressa é melhor, acredite-me

— Ai, Isa, não faz isso, vai! Tô impaciente já

— Relaxa... Agora olha isso

— NÃO! – quase gritei quando ela fez menção de parar – Não se atreva a tirar esses dedos daí! Deixa essas mãos bem onde elas estão

Isa riu gostosamente com a minha frustração

— Ah, você me paga, Isabella Alcântara! Escreve o que eu estou te falando. Nunca vi torturar assim.

— Nossa, tu és muito apressada, guria. Olha só, do meu jeito é bem melhor. Agora aprecie a sensação...

— Que mané sensação, Isa! Eu não estou para brincadeiras, estou é com pressa, me deixa chegar lá logo, vai!

Relaxei depois de mais alguns minutos, e Isa falou:

— Ok, apressadinha, já ouviu falar que a pressa é inimiga da perfeição?

— O que tinha de imperfeito em fazer o que eu queria? Chegaríamos ao mesmo resultado, porém de forma bem mais rápida – reclamei, me deixando cair no sofá

— Pareces uma velha, Manu, por que reclamas tanto? – a gaúcha perguntou ainda rindo da minha cara

— Achei uma afronta você vir até a minha casa e me contrariar descaradamente

— Veja por esse lado: eu fiz o que julguei melhor, lembre-se que nesse assunto eu tenho muito mais experiência que você!

— Você pode até ter mais experiência que eu, mas sei de uma pessoa que te superaria, fácil, fácil e ainda daria um jeito de fazer as minhas vontades – falei mais para mim que para ela

— Ah, é mesmo? E quem seria a digníssima pessoa que seria capaz de fazer melhor que Isabella Alcântara Borges, a incrível, a charmosa, a melhor de todas? – zombou com um sorriso convencido no rosto

— Simples: Eduarda Ribeiro te passaria em dois tempos

— Tua namoradinha? Faz-me rir, Manuela – ela gargalhava ainda mais

— Primeiro, ela é minha “ex-namoradinha” — falei, lamentando muito – E segundo, eu posso até não ser expert no assunto como você mesma diz, mas sei reconhecer um talento para a coisa quando vejo. E garanto que a Duda tem esse talento!

— Ui, me deu medo agora! – Isa fez uma cara de apavorada tão engraçada que lhe lancei uma almofada, acertando em cheio no rosto – Aposto que com ela você não chega nem perto do nível que você chegou comigo. Isso tudo é só para não cuspir no prato em que comeu. E como comeu, não é, guria?

Dessa vez não aguentei e me entreguei ao riso junto dela. Isa era mesmo muito boba.

Fomos interrompidas pelo toque do celular, que Isa logo deu um jeito de atender.

—... Sim... Claro que não me esqueci, linda... Não, não se preocupe, chego em alguns minutos... Sim, beijos – desligou com uma expressão de alarde

— Era a...?

— Angélica. Sim, e por sua culpa eu estou atrasada para o meu encontro! – levantou-se do sofá rapidamente, arrumando o vestido

— A culpa é minha agora? – perguntei incrédula

— Claro, quem mandou me mostrar esse X-box que já estava até empoeirado de tanto tempo que ficou sem ser usado?

— Quer dizer então que a culpa do seu atraso é minha e do meu videogame?

— Uhum

— Gaúcha cara-de-pau! – falei rindo e fui acompanhada por ela

— Manu, eu vou indo para não me atrasar ainda mais. Mas prometo voltar para ensinar-te a jogar direito, viu, guria? – debochou

— Me ensinar? Você me fez esperar pelo seu personagem durante quase meia hora, fez uma hora danada para matar aquele zumbi e, para completar, ainda ousou tirar as mãos do controle quase sendo morta pelo outro zumbi que vinha logo atrás de você! – falei, referindo-me a minutos atrás, quando ela me fez a graça de tirar os dedos dos botões do controle do jogo, e eu tive que salvá-la da morte iminente.

— Era minha estratégia de jogo – respondeu inocentemente, me fazendo estreitar os olhos

Estava indo com Isa até a porta quando ela se abriu e minha mãe entrou, chegando do trabalho.

— Mas que surpresa boa! – exclamou ao ver Isa – Que bom que veio nos visitar. Tudo bem, Isabella? – perguntou, abraçando minha amiga

— Eu vou bem, dona Marina, e a senhora, como tem passado?

— Vou bem também, mas tenho certeza que já te pedi para não me chamar de senhora – falou sorrindo, e Isa assentiu – Você janta conosco?

— Fica para a próxima, don... desculpe, Marina. Mas eu já tenho compromisso, inclusive já estou atrasada. Passei apenas para falar com a Manu e perdi a noção do tempo

— Tudo bem, mas marcaremos um almoço ou jantar aqui em casa qualquer dia desses, e faço questão da sua presença

— Eu estarei aqui – Isa falou e logo em seguida despediu-se de mim e de minha mãe

Abri a porta para ela e antes que saísse sussurrou:

— Deseje-me sorte, guria, estou com as quatro rodinhas arriadas por essa mulher! – Isa pediu, e eu balancei a cabeça em acordo

— Nesse caso, boa sorte e divirta-se!

***

— Eu gosto muito dessa menina, minha filha. Bom saber que você tem estado em boas companhias – mamãe gritou da cozinha assim que retornei à sala para continuar o meu jogo

Eu terminei com a Duda, mas já era tarde para abdicar de alguns hábitos que havia adquirido com ela. Jogar videogame era uma dessas coisas, eu que antes não ligava muito para essas coisas, passei a jogar muito mais. E parece que Isa era mais uma adepta do Xbox.

O mês que se passou depois que terminei com Duda foi bem doloroso para mim, que tinha que recusar uma tentativa de reaproximação atrás da outra. O amor ainda estava lá, não acho que sairia tão cedo, mas com a confiança abalada e o meu ego machucado, não conseguia, de forma alguma, ver um futuro para nós duas. Não um futuro tão próximo...

— A Isa é muito legal – limitei-me a dizer

O comportamento da minha mãe de uns dias para cá estava muito estranho. Ela parecia se preocupar muito mais comigo que alguns meses atrás, às vezes, chegava até parecer um pouco com a pessoa que eu conhecia antes de me assumir. Mamãe não estava mais tão submissa às vontades de meu pai e procurava conversar mais comigo.

Essa mudança repentina de postura me deixou com os dois pés atrás com minha mãe, mas se ela queria tentar, eu não teria coragem para lhe negar ao menos o benefício da dúvida.

Mas nada me deixaria mais surpresa que o que eu ouvi logo em seguida:

— É... é ela a sua... sua...? – mamãe perguntou meio receosa

Fiquei tão chocada que quando dei por mim, um maldito zumbi já tinha arrancado a minha cabeça, e eu perdi o jogo.

Olhei para a minha mãe, que parecia inquieta à espera de uma resposta minha, mas nada saía da minha boca. Eu ainda tentava processar aquela pergunta tão repentina. Meus pais não tocavam no assunto “sexualidade” dentro de casa para evitar ouvir o que não queriam.

Lembro-me que pouco antes de terminar com a Duda, eu estava determinada a ter uma conversa definitiva com eles. Inclusive já tinha levado Eduarda para almoçar com a minha mãe para ver a reação dela. Pretendia assumir nosso namoro para meus pais, porém, não durou tempo suficiente para que isso acontecesse.

— Manu – minha mãe disse vindo sentar-se ao meu lado – Eu sei que demorei para ter essa conversa com você... Mas... filha, eu quero te entender, vo-você me ajuda?

Se antes eu estava estática, uma estátua era fichinha perto do estado que eu fiquei ao ver minha mãe tão desarmada ali diante de mim. Eu tinha esperado tanto pelo dia em que poderia conversar com a minha mãe sem que ela me visse como uma aberração da natureza. E agora estava acontecendo, sem que eu precisasse fazer nada a respeito. Ela tinha vindo até mim. Aquilo era surreal demais para ser verdade.

Quando percebi, a mão de dona Marina já estava enxugando a lágrima que escorria pela minha bochecha.

Envolvi minha mãe em um abraço que estava preso dentro de mim por meses. Mamãe passava as mãos em minha cabeça, me fazendo um carinho tão gostoso que me perguntei como não tinha percebido a falta que a proteção dela me fazia.

Ali, nos braços da minha mãe, deixei que o pranto que eu guardara por tanto tempo saísse. Toda a mágoa por ter sido rejeitada por minha família no momento que eu mais precisei, aliada á dor de ser traída pela garota que eu amo, resultou em um choro tão intenso que eu acabei pegando no sono ali mesmo, no sofá, sendo amparada pela minha mãe.

***

Acordei com o barulho vindo da cozinha. Todas as luzes do apartamento estavam apagadas, com exceção da claridade que vinha do cômodo ao lado, onde minha mãe parecia cozinhar algo.

Minha cabeça doía devido ao choro desmedido de algumas horas ou minutos antes, eu não saberia precisar. Sentei-me no sofá e fiquei tentando me orientar.

Logo mamãe veio da cozinha com uma bandeja com dois pratos e um copo com água. Acendeu a luz, me causando algum incômodo nos olhos e sentou-se ao meu lado, me entregando um comprimido.

— Achei que você precisaria disso – me entregou o copo com água para que eu tomasse o remédio

— Por quanto tempo eu dormi? – perguntei depois de tomar o restante da água

— Algumas horas, não sei ao certo, acabei dormindo também – sorriu levemente – Fiquei preocupada com você, minha filha...

Então não foi um sonho ou uma fantasia que minha mãe se preocupava comigo. Era a realidade, e concluir aquilo me fez abrir um sorriso enorme e abraçar minha mãe novamente.

Fiquei curtindo a sensação boa de ser cuidada por ela durante alguns minutos.

— Manu?

— Oi, mãe...

— Você não vai chorar de novo, vai? – brincou

— Não, não vou chorar de novo – respondi rindo

— Ótimo, então podemos comer? Estou morrendo de fome! – minha mãe pegou os dois pratos com macarronada que estavam na bandeja e jantamos vendo TV, como não fazíamos há tanto tempo.

— Onde está o papai? – perguntei depois de uma garfada

— Ele teve que viajar novamente, dessa vez ficará uma semana ou mais – respondeu-me, e eu apenas assenti em concordância

Depois que terminamos de comer, continuamos vendo TV até dona Marina quebrar o silêncio:

— Manu, eu não voltei atrás no que te falei, já passou da hora de eu voltar a ser a mãe que você precisa. Eu... só peço que você tenha um pouco de paciência comigo, filha, eu ainda não... Ainda não consigo me sentir bem com essa situação, mas tenho certeza que você vai me ajudar nisso, não vai?

— Mãe, a senhora não sabe o quanto isso é importante para mim, eu já estava perdendo as esperanças de ter você e o papai de volta, participando da minha vida

— Eu sei meu amor. Me perdoa por demorar tanto a perceber que você sempre será a minha filha, não importa o que aconteça? Mas quanto a seu pai... eu lamento, Manu... ele... eu e ele, nós...

— Ei, tudo bem mãe, sério – falei calmamente – O que passou, passou, o importante é que a senhora está aqui, comigo. E o papai... bem, não posso obrigá-lo a me aceitar como eu sou, mas também não posso mudar por ele me rejeitar. Ser lésbica é algo que foge do meu controle, não pedi para ser assim, e também não é como um interruptor que você liga e desliga quando quer. Eu não estou assim por um tempo, eu sou assim e sempre serei.

— Eu decidi tirar férias para ficar com você, sinto que te devo isso – mamãe mudou de assunto depois de refletir um pouco sobre o que eu falei — Principalmente depois dos últimos dias, eu notei que você não está bem, Manuela. Nós temos muito o que nos acertar, eu tenho muito o que pedir perdão. Não sei se você vai topar... Mas o que acha de viajar para o Rio comigo?

— Eu... é claro que eu quero, mãe! Eu estou morrendo de saudades do pessoal do Rio! – eu estava muito feliz com aquilo, pela primeira vez em um mês eu encontrei um motivo para me alegrar de verdade.

A Isa estava me ajudando muito desde que tínhamos nos conhecido, ela se esforçava bastante para me fazer sorrir e esquecer um pouco dos problemas. Mas o grande porém, era que, por mais que eu sorrisse, por mais que conseguisse esquecer de tudo por um tempo, a dor sempre voltava.

Era maravilhoso poder contar novamente com o amor de minha mãe, realmente maravilhoso.

Passamos um bom tempo jogando conversa fora como mãe e filha, algo que eu já nem sabia mais como era. Os nossos assuntos eram coisas do dia a dia, trivialidades, mas eu sabia que a conversa séria ainda estava por vir, e sabia também que teria que ir com calma. Mas estava tão radiante de poder contar novamente com a minha mãe que nada mais me importava.

— Mãe...

— Sim?

— Posso fazer uma pergunta?

— Claro que pode, Manu! O que você quer saber? Só espero sinceramente que não sejam dúvidas sobre sexo, porque eu realmente não entendo nada de... Ah, você sabe! E seria demais para a minha cabeça falar sobre isso. Deixo para pessoas mais evoluídas, que entendem melhor a logística de um relacionamento com certas... er, especificidades, por assim dizer

— MÃE! – gargalhei com o jeito dela, minha mãe quando queria, era quase uma adolescente

— É brincadeira, mas pode perguntar, sou toda ouvidos

— Eu queria saber o que... o que te fez mudar assim de um dia para o outro? Digo... em relação a… A tudo isso – perguntei meio receosa

— Algumas coisas me fizeram ver que quem estava perdendo com essa estupidez toda era eu, que aos poucos via o amor da minha única filha me escapar pelos dedos

— Só isso? – perguntei vendo a mentira imbuída em suas palavras

— É... isso e uma conversa que eu tive com sua amiga Eduarda

— O QUÊ? – quase pulei do sofá na hora

— Acho que te devo desculpas por mais uma coisa também: sobre a sua amiga, a Eduarda, eu me enganei sobre ela. Aquela menina é uma boa pessoa, eu vi pureza em seu coração, você não poderia ter escolhido uma amiga melhor. Peço desculpas por tê-la julgado precipitadamente.

Minha mãe era uma caixinha de surpresas, e o que dizer sobre Eduarda? Mesmo separadas, ela ainda conseguia dar um jeito de me fazer bem.

— Mãe... a Duda e eu, nós-

— Não se preocupe, eu sei de tudo, ela me contou

— A Duda o quê?

Será possível que aquela desmiolada contou para a minha mãe que nós já namoramos?

— Ela me contou que vocês estão brigadas, mas, minha filha, seja lá qual for o motivo dessa briga, não perca uma amiga como ela. Ai, acho que eu falei demais! A Eduarda tinha me pedido para não contar a você que nós conversamos... Será que você se importa de não comentar nada com ela que eu te contei quando vocês fizerem as pazes?

Mamãe parecia ter a certeza que nós voltaríamos às boas, mas acho que o detalhe que ela não sabia era que, se voltássemos, seria como namoradas, não como simples amigas.

— Foi ela que me fez enxergar a filha maravilhosa que você sempre foi para mim, e eu não deveria ter quebrado a minha promessa de não te contar nada sobre a nossa conversa. Apesar de achar que ela não quer que você saiba porque vocês estão brigadas, eu me sinto em dívida com ela.

— Hum – respondi apenas, digerindo as novas informações

— Mas não me enrola, mocinha, eu perguntei uma coisa mais cedo e quero realmente saber

— Não me lembro o que você perguntou mãe, desculpe

— A Isa, filha, ela é a sua namorada? – ela falou devagar, parecendo experimentar pela primeira vez a palavra “namorada”

— Não, mamãe, Isa e eu somos somente amigas – falei aliviada, tinha medo de ela perguntar algo sobre a Duda – E eu não tenho mais namorada, nós terminamos já faz quase um mês

— Entendo – falou simplesmente – E quanto à Eduarda? – minha mãe, quando começava a fazer perguntas, não parecia que pararia tão cedo, e essa última me deixou verdadeiramente apreensiva

— O que tem a Eduarda? — perguntei com cautela

— Como o que tem a Eduarda? Eu quero que você e essa menina façam as pazes, seja lá qual for o motivo da briga de vocês. Ela mostrou-me que só quer o seu bem, uma ótima amiga na minha concepção, agradeça a ela por abrir meus olhos, pois, se nós estamos tendo essa conversa agora, é graças à intervenção dela

Juro que não sabia se corria atrás da Duda e a enchia de tapas por ter falado com a minha mãe ou de beijos pelo que ela fez

Notas finais
Então, gostaram?