Notas iniciais
Meninxs! Tudo bem com vcs? Capítulo quentinho, espero que gostem! Ah, e obrigada pelos comentários, estou sem tempo, mas em breve responderei vocês!

EDUARDA

Era segunda-feira, faltavam apenas duas semanas para que as aulas terminassem. Eu estava particularmente feliz naquela segunda, que, aos outros, pareceria tão chata e tediosa quanto todas as outras. Mas naquele dia eu me sentia como se tivesse feito algo certo.

Olhei Manu de relance do outro lado da sala. Seu semblante estava mais leve, ela parecia mais feliz, e aquilo fez com que eu me sentisse estranhamente aquecida por dentro. Ela não me olhava, nem falava comigo, e quando nossos olhos por acaso se encontravam, eu via repreensão neles, mas não raiva nem mágoa, como tinha me acostumado a ver depois que terminamos.

Pela milésima vez naquele dia, ela me pegou observando-a, mas dessa vez, aproveitando que não havia professor em sala, ela veio até mim. Senti meu coração acelerar consideravelmente, ela estava vindo até mim, por vontade própria, sem me olhar com desprezo.

— O que você pensa que está fazendo? – sua voz não foi dura, mas estava séria

— E-eu... Me desculpe, eu vou para de te olhar, é só que... — gaguejei e minhas mãos começavam a suar de nervosismo.

— Eu não estou falando disso, Eduarda. O que você tem na cabeça para ter ido falar com a minha mãe?

— Eu só queria ajudar, Manu – falei abaixando a cabeça

— Você pensou que, em vez de ajudar, você poderia ter piorado as coisas?

— … — fiquei muda.

Depois que conversei com a Jéssica, uma enorme determinação de fazer o que é certo tomou conta de mim, e eu agi num impulso. Sem pensar nas consequências desastrosas que poderia trazer para Manuela.

— Não, você não pensou nisso porque estava mais preocupada em fazer eu voltar correndo para os seus braços, não foi? Você não vai desistir, Eduarda? Coloca uma coisa na sua cabeça, o que você fez foi uma atitude de covarde. Aja como mulher ao menos uma vez na sua vida e pense antes de fazer besteira. Eu não acredito que você pensou mesmo que eu ia te perdoar porque você correu para falar com a minha mãe. Isso foi baixo, Eduarda! Eu jamais esperaria algo assim de você – á medida que Manu ia falando, o sorriso no meu rosto ia morrendo, a sensação de ter feito o certo ia se desfazendo lentamente – Não vai falar nada? Você vai ficar calada porque sabe que foi errado o que você fez? Isso mesmo, agora eu vi uma atitude sensata, porque, quem cala, consente.

— CHEGA! – falei juntando as minhas forças, a sala toda já estava nos olhando depois que Manuela desatou a falar sem parar – Quer discutir, nós vamos discutir, mas fora daqui, porque você vai me ouvir, e eu não preciso de plateia para isso – falei, saindo da sala, sem deixar margem para argumentação. Ela estava me machucando quando me acusava daquela forma.

Ela seguiu até uns bancos de cimento que ficavam em uma parte mais encoberta do pátio, que estava vazio com todos em aula.

Parei e me sentei, mas ela continuou de pé, me encarando antes de voltar a falar:

— Eu não vou voltar com você por causa disso. Eu pensei que você fosse diferente, com todas essas surpresas românticas nesses últimos dias, pequenos gestos que me alegraram muito. Mas você estragou tudo, usando a minha mãe para me fazer te dar mais uma chance.

— Terminou? – perguntei calmamente observando meus pés, que chutavam algumas pedrinhas em meio à grama verde – Eu posso falar ou você vai me interromper quando eu começar?

Ela nada disse, então eu encarei como um sim.

— A minha única intenção quando fui falar com a dona Marina era fazer com que ela voltasse a te ver como a filha maravilhosa que você sempre foi. Você pode não acreditar em mim, mas em nenhum momento eu pensei em te reconquistar usando isso a meu favor.

— Mas...

— Por favor, me deixa falar – pedi, e ela assentiu – Nem passou pela minha cabeça a possibilidade de voltar com você quando encontrei a sua mãe no sábado. Peço perdão se piorei as coisas, mas eu só queria ajudar. Se eu tivesse segundas intenções, não teria pedido a sua mãe para manter segredo sobre a nossa conversa, coisa que eu vejo que ela não fez, não é mesmo? Peço perdão se ela brigou com você por minha causa, eu só queria ajudar. Mas... se você pensou mesmo isso de mim, tem razão em dizer que não me conhece, Manuela – terminei de falar e permanecemos em silêncio por algum tempo.

Arrisquei olhá-la de relance e vi que, assim como eu, ela também encarava o chão de cabeça baixa.

— Nós fizemos as pazes, ela me pediu perdão – soltou num fio de voz, e eu finamente pude suspirar aliviada, deixando a culpa cair de meus ombros.

Levantei-me em silêncio e comecei a caminhar em direção ao prédio. Fui impedida de avançar por sua mão em meu braço, me causando arrepios.

— Espera – ela falou e eu me virei, olhando dentro daqueles olhos azuis embriagantes, que, no momento, estavam marejados – Desculpa, Duda. Não deveria ter te acusado dessa forma.

— Você pensou mesmo que eu seria capaz disso? – perguntei, magoada

— Não, eu não pensei. Mas eu não entendo, para mim essa seria a única explicação plausível para o que você fez. Por que você se daria ao trabalho de falar com a minha mãe depois de a gente ter terminado? – por mais que tivesse doído ser acusada por ela, eu vi sinceridade em seus olhos antes que ela voltasse a olhar para baixo.

— Manu

— Hum

— Olha pra mim – pedi, mas ela parecia achar o chão algo extremamente interessante, levantei seu rosto colocando os dedos abaixo de seu queixo ate que voltei a sentir tudo que aqueles olhos causavam em mim

— Foi porque eu te amo. Fiz porque eu te amo, não porque quero voltar com você, não porque queria usar sua mãe como uma ponte entre nós duas – pausei olhando-a – Foi porque eu te amo. tá magoada comigo, mas eu sei que ainda me ama. Mas mesmo que não me amasse, mesmo que me odiasse com todas as suas forças, eu ainda iria até lá conversar com a sua mãe. Porque, quem ama, não precisa ser correspondido para querer o bem da outra pessoa. Quem ama, Manuela, só consegue ser feliz quando vê que o seu amor também encontrou a felicidade – falei com todo o meu coração naquele momento, e vi uma lágrima descer de seu olho. Beijei-lhe a face suavemente e saí dali.

Voltei para a sala de aula como se nada tivesse acontecido. A professora de história me olhou por um instante e deu de ombros, como se não se importasse.

Ana me olhava com curiosidade, e tenho certeza que ela teria vindo até mim não fosse a birra que estava fazendo desde que eu e Manu tínhamos terminado. Nós já tínhamos voltado a conversar, mas a traíra passara de minha melhor amiga a fiel escudeira de Manuela e esperaria para saber da boca dela o que havia acontecido.

Esperei que Manu voltasse para a sala, mas não aconteceu, nem no horário seguinte.

Na hora do intervalo eu já estava preocupada com o sumiço de Manuela quando a vi num canto, isolada enquanto mexia no celular distraidamente.

— Sabe, eu já tô cansada disso — desabafei me sentando ao seu lado.

Manu me olhou com um semblante confuso, não entendendo o que eu estava dizendo. Continuei:

— Manuela, já tem mais de um mês que a gente só briga. Daqui a pouco vão ter mais lágrimas que sorrisos no nosso histórico, e eu não quero isso

— Me desculpa pelo que eu disse mais cedo, Duda. Não queria... Desculpa, não tive a intenção de te ofender, é só que... Só me desculpa, ok? — falou sem graça, com as bochechas coradas

— Não vamos mais falar disso, tudo bem? Já passou, eu fiquei decepcionada por você desconfiar de mim, mas passou... Só não quero voltar a brigar com você, me machuca cada vez que nós discutimos. Não aguento mais isso — confessei

— Nem eu, Duda – foi praticamente um sussurro, mas alto o suficiente para eu ouvir – Sinto muito – completou cabisbaixa

Ficamos em silêncio por um tempo, apenas observando as pessoas ao nosso redor.

Olhei para a esquerda, na direção da biblioteca. Havia um grupo de meninas do sétimo ano conversando animadamente em um semicírculo. Eu quase podia ouvir as novidades sobre os primeiros namoradinhos que tinham ousado beijar uma ou outra. As risadas coletivas demonstravam certa cumplicidade que, muitas vezes, não existia realmente naquele grupo. Era como se cada uma estivesse torcendo para a infelicidade das outras, apenas para ter a satisfação de ser a melhor, a mais popular, a que fazia os garotos caírem apaixonados aos seus pés.

Desviei os olhos e fitei a garota ao meu lado, seus olhos intensamente azuis pairavam em algum ponto do céu tão azul quanto.

— Então... amigas? — perguntei de repente

— Sem insistência para voltarmos?

Balancei a cabeça, concordando

— Sem surpresas românticas?

Concordei novamente, com um sorriso discreto

— Algo mais?

— Ah, sim! Sem tentar me reconquistar aos poucos com esse seu jeitinho desastrado de ser? – ela sorriu matreira, e me apaixonei ainda mais por aquela baixinha quando ela fez isso

— Isso – falei, me levantando e estendendo-lhe a mão para que levantasse também, o sinal havia tocado – Eu não posso prometer – completei e fui acompanhada por ela na risada

Caminhamos tranquilas para o prédio, não trocamos mais nenhuma palavra até chegarmos à porta da sala, quando eu repeti a pergunta:

— Amigas?

Manu me olhou nos olhos por alguns segundos. Eu não sabia como ela fazia, mas podia jurar que sorria com os olhos. Um brilho diferente a tomava quando fazia isso, e ela ficava ainda mais encantadora.

— Amigas – agora o sorriso tomava todo o rosto, e assim ela entrou na sala, logo seguida por mim

***

— Mas que droga de sorriso idiota é esse, Eduarda? – Rafael indagava mais tarde quando eu, Ana, Lucas e Matheus chegamos em sua casa para a nossa sessão pipoca que já não fazíamos há muito tempo.

— Não foi à aula, não fica sabendo – mostrei-lhe a língua e logo vi um bico enorme estendendo-se em resposta

Corri e passei meus braços ao seu redor, fazendo sinal para os outros dois, que logo se juntaram a nós em um abraço coletivo. Ficamos ali por um tempo, rindo como idiotas, mas de quê exatamente, ninguém saberia precisar.

— Ô, Rafinha lindo, acha mesmo que eu esconderia algo de você?

— Acho!

— Au! Essa doeu – mas ele tinha razão – Você pensa tão mal assim de mim, Rafa? — fiz-me de ofendida, enquanto Ana, Lucas e Math se ajeitavam na frente da enorme TV de tela plana, decidindo o que iríamos assistir

— Penso! E não adianta fazer essa cara, porque eu sei muito bem que a senhorita me esconde coisas! — exclamou – Mas e aí, vai me contar ou não?

— Adivinha?

— Perdeu a virgindade? — começou a falar, mas ele mesmo cortou-se – Ah, não. Isso você já fez — completou e recebeu um tapa forte nas costas – Ai, cavala! Diz logo o que aconteceu pra te colocar esse riso besta na cara

A cena era cômica, Rafael parado, com as mãos na cintura, cara fechada e o pé direito batendo no chão, em sinal de impaciência.

— Eu disse para adivinhar – provoquei ainda mais

— Voltou com a Manu?

— Não, melhor que isso!

— Ai, meu God! Quem você comeu, Eduarda? – Rafael já não se aguentava de tanto rir

— Ah, seu babaca! Também não falo mais! – me emburrei e caí no sofá, com os braços cruzados, em contrariedade – E esse filme? Sai ou não sai? Daqui a pouco eu tenho que ir embora, e vocês não escolheram ainda

Matheus me olhou com uma cara divertida e colocou o disco no DVD player, pegando o controle remoto para ajustar as configurações.

— E, vocês, já sabem o que fazer – Rafa olhou para Ana e Lucas, que correram para a cozinha para fazer a pipoca, o brigadeiro e buscar o refrigerante. — Me conta, Dudinha? Prometo parar de implicar com você por... Hãn... Deixa eu pensar... Que tal vinte e quatro horas? — propôs, e eu fingi ponderar por alguns segundos

— Fechado! Eu e a Manu... — comecei a falar e então parei de propósito

— Você e a Manu...?

— Voltamos a ser amigas!

— Ah, legal

Matheus não conteve a gargalhada escandalosa da “empolgação” de Rafael com a novidade.

— Obrigada pelo apoio moral – falei sarcástica, e Math continuava a rir

— Não é isso, amiga. É só que... Pela sua cara de felicidade, eu pensei que fosse algo mais... Mais! Entende? E, além disso, passar vinte e quatro horas sem te sacanear só por saber que você virou amiguinha da sua ex? Isso não vale vinte e quatro horas de tormento! — reclamou e eu ri com vontade da sua indignação verdadeira – E me diz uma coisa, Eduarda: desde quando ir para a friendzone é melhor que voltar com a Manuela?

— Primeiro, você sabe que a maldita friedzone só existe na cabecinha de meninos mimados e com o ego machucado, né? Ninguém obrigado a corresponder sentimento alheio. Mas vou responder a sua pergunta, pequeno gafanhoto: sendo amigas, Manuela vai poder voltar a confiar em mim. Veja bem, eu não estou entrando nessa amizade com o pretexto de voltar com ela – claro que seria ótimo se acontecesse, mas não tenho essa intenção –, tudo que eu quero é voltar a conviver com a Manuela sem brigar a cada cinco minutos. E eu tenho certeza que se voltássemos a namorar agora, brigaríamos mais que brigamos separadas.

— Ainda acho que seria melhor o namoro que a amizade

— Não se formos olhar pelo ponto de vista da Manu – Math opinou, virando-se para mim logo em seguida – Pelo que eu entendi, vocês terminaram por causa de um beijo que você deu na sua professora, não foi?

Assenti em concordância, as lembranças tomando conta da minha mente

— Um beijo que a Duda diz que não foi traição, mas também não revela nem por decreto o motivo que a levou a beijar aquela jararaca da Márcia – Ana alfinetou, voltando da cozinha com a tigela de pipoca. Eu sabia que por trás do que falou, Ana também queria saber o motivo do beijo, mas eu havia feito uma promessa, e por mais que me doesse, não pretendia quebrá-la.

— Realmente... Assim fica difícil perdoar, Duda – lamentou-se Matheus

— Não quero mais falar disso, gente, a merda já tá feita mesmo – reclamei, fazendo com que todos ficassem em silêncio, para logo em seguida mudar de assunto

Logo Lucas também retornou da cozinha e nós demos início à primeira temporada de Friends, que Math havia trazido para assistirmos.

O clima estava legal, bastante divertido, mas havia uma coisa que não me saía da cabeça: a última vez que me reuni na casa de alguém para assistir algo, meu namoro ruiu qual castelo de cartas que o vento derruba.

MANUELA

Fui para casa com um misto de sentimentos bons e ruins. Bons porque Duda e eu havíamos entrado em comum acordo de não mais brigar, porque, assim como ela mesma dissera, já não aguentava mais nossas brigas.

Por outro lado, me sentia péssima e culpada por dar todo aquele vexame, acusando-a de algo que eu sabia não ser verdade.

Desde o sábado à noite, quando minha mãe me contou sobre a conversa com a Duda, eu sabia que a única intenção dela era ajudar, sem visar benefício próprio no processo. Mesmo assim, eu agi como uma estúpida e a ofendi. Mesmo sabendo que Eduarda jamais seria capaz de algo do tipo, eu a chamei de interesseira e aproveitadora.

E depois de tudo isso, me dando o golpe de misericórdia, o que ela fez? Me procurou e propôs que fôssemos amigas. Mal podia acreditar no quão ridícula eu fui com ela.

Eu não merecia Eduarda. Acho, que no fundo, eu sempre soube disso, mas só naquele dia pude perceber o quanto de verdade havia nessa afirmação.

Cheguei em casa, mamãe não estava, era dia de trabalhar na empresa. Tomei um banho e fui preparar meu almoço, o peso da culpa ainda anuviava meus pensamentos. Mas sabia que daria um jeito de me desculpar decentemente com Eduarda.

***

A semana passou tão rápido que quando percebi já era sexta-feira. A convivência com Eduarda não poderia ser melhor. As mesmas brincadeiras de sempre, as mesmas piadas, até a cumplicidade era a mesma de antes de começarmos a brigar como loucas.

Parecia até que estávamos continuando nossa amizade de onde havíamos parado antes do nosso namoro. A Duda disse que não tentaria nada comigo e de fato não tentou. Ela comportou-se como uma boa amiga se comportaria, porém mantinha certa distância, suponho que fosse para evitar “acidentes” indesejados em uma amizade.

Falávamos sobre absolutamente tudo, sonhos, aspirações para o futuro, besteiras sem importância.

— Você vai ver, Manuela! Escreva o que eu estou falando! – Duda parecia profetizar, e eu resolvi agir de acordo, pegando um caderno qualquer e colocando a caneta a postos

— Pode falar!

— Eu, Eduarda Dias Ribeiro, serei uma das maiores neurocirurgiãs desse país. Metade do Brasil vai querer ter a oportunidade de ser operada por essas mãos enormes, porém habilidosas – Duda falou em tom pomposo, e eu tentava controlar minhas risadas enquanto transpunha suas palavras para o papel, fazendo-a assinar e datar

— Vou guardar isso bem guardadinho só para ter o prazer de esfregar na sua cara lavada de futura pediatra daqui a alguns anos — falei, de fato guardando o papel – Eu tô dizendo, Manu, amo crianças, mas não levo o menor jeito para pediatria

— E para operar o cérebro dos outros, com esse jeito desastrado, você serve? — debochei

— Você vai ver! — saiu dizendo logo após se despedir no fim da última aula

Já passava das cinco da tarde quando o porteiro anunciou a chegada repentina de Isabella. Deixei um sorriso escapar, ela provavelmente me contaria sobre o “grande encontro” do último sábado à noite, já que passara toda a semana sem dar notícias.

Abri a porta com um sorriso no rosto quando ela bateu. Pelos trajes que usava, Isa vinha direto da empresa.

Analisei-a de cima a baixo, admirando sua inegável beleza. Uma camisa social azul-bebê de manga três quartos com os primeiros botões abertos, deixando à mostra um pouco de seus seios fartos, protegidos por um sutiã preto simples; uma saia preta de cintura alta, que destacava suas pernas torneadas; uma sandália preta de salto médio, e, para completar, um blazer na mesma cor pendia de sua mão esquerda.

Depois de uma análise completa é que parei para ver a mulher a minha frente. Isa tinha os cabelos loiros presos em um coque com algumas mechas caindo-lhe pelo rosto adornado por enormes óculos escuros. A postura indicava extremo cansaço.

— Oi – Isa falou, por fim entrando, e eu fechei a porta logo atrás dela

— Você está horrível – falei com sinceridade ao vê-la andar com os ombros encurvados – Pensei que tinha passado a semana em lua de mel e você me aparece desse jeito? A tal fulaninha acabou mesmo com você, hein! – zombei de minha amiga, que não riu

Percebi que ela não estava nada bem e a levei para o meu quarto para conversarmos, já que minha mãe logo chegaria do trabalho

Mal dei tempo para que ela se acomodasse sobre a minha cama e já perguntei:

— O que houve? — ouvi um longo suspiro em resposta – Tira esses óculos, Isa, tá escuro aqui – falei, reparando que ela ainda usava o acessório

Obedecendo-me, Isabella retirou os óculos e então pude ver o motivo dela usá-los. Profundas olheiras adornavam aqueles olhos de um verde intenso.

— Meu encontro foi um fracasso – lamentou-se e ainda completou desanimada – Como sempre

— Tão ruim assim?

— Não... Eu saí de lá com uma taça de vinho adornando minhas roupas, e um não tão exaltado que eu ainda posso escutar a voz dela dizendo: “Namorar? Você só pode estar brincando! Eu não gosto de mulher, foi só diversão”

— Ela disse que é hétero? – perguntei espantada e recebi um aceno de cabeça em resposta.

Eu fiquei penalizada com a situação da minha amiga, ela realmente estava gostando da tal Angélica. Depois disso, não consegui distinguir muita coisa no meio do choro incessante de Isabella. Apenas peguei palavras e fragmentos de frases como: “fiasco amoroso”, “caso perdido” e “... só sirvo para uma noite de sexo quente, depois sou descartável”.

Eu tentava consolar Isa como podia, mas não estava dando muito resultado. Minha mãe não demorou a chegar e avisou que faria algo para comermos e que eu deveria convidar Isa para jantar conosco. Eu não tinha muito o que falar, então deixei Isabella deitar em meu colo e acariciei-lhe os cabelos enquanto ela derramava suas lágrimas até adormecer ali mesmo.

Fiquei observando a expressão de fragilidade em seu rosto e pensei que, pelo jeito, Isa já tinha sofrido muito por amor não correspondido.

— O jantar tá na mesa – dona Marina disse depois de bater de leve na porta e entrar ao ouvir meu chamado

— Eu vou acordá-la, e daqui a pouco nós vamos, mãe

— Dia difícil? – apontou para Isa com o queixo

— Eu diria que foi uma semana difícil para ela

— Trabalho?

— Coração – respondi, e minha mãe fez uma expressão de solidariedade

— Brigou com o namorado? – mamãe era bem curiosa quando queria

— Mãe, lembra daquele papo de ir com calma pra não te assustar?

— Okay, okay, eu provavelmente não vou querer saber, não é?

— Provavelmente – falei com um sorriso leve nos lábios. Era tão bom poder conversar com a minha mãe que eu não me cansaria nunca de repetir isso

— Bem, eu vou tomar meu banho e já volto para jantarmos. Acorde-a e dê roupas e uma toalha limpa para que ela se lave

— Sim, senhora – brinquei, e minha mãe fechou a porta

— Isa – toquei-lhe o ombro, e ela despertou facilmente

Os olhos vermelhos e o rosto inchado pelo choro. Isa levantou-se de sobressalto da cama e foi logo dizendo:

— De-desculpe, Manu, e-eu preciso ir embora – falou esfregando os olhos

— Nada disso, a senhorita vai ficar para o jantar, dona Marina faz questão

— Ai Manu, que vergonha vir até aqui e chorar que nem um bebê. Deves me achar uma idiota, não é, guria?

— Não, não acho – falei levantando-me também e indo até o guarda-roupas e pegando algo para ela vestir – Mas agora você vai tomar um banho, e vamos jantar, minha mãe não aceita essa desfeita de você ir embora

— Olha, só aceitarei porque estou faminta – sorriu um pouco

— Assim é que se fala! Tem toalhas limpas no banheiro, sinta-se em casa – falei, e ela foi tomar seu banho enquanto eu permaneci no quarto.

Pouco tempo depois Isa retornou usando uma blusa e um shorts jeans meus. Os cabelos molhados, caídos sobre os ombros.

— Agora sim – falei – Você está se sentindo melhor?

— Bem melhor, obrigada, Manu – agradeceu

— Não precisa agradecer, você estava mesmo precisando de um colo amigo

Ela sentou-se ao meu lado na cama e passou a me relatar o que havia acontecido com mais detalhes e sem o choro atrapalhando a conversa.

— Ai, Isa, eu sei que não é o melhor momento para falar isso, mas foi melhor assim, não acha? O que seria de um relacionamento onde ela nem mesmo admite para você o que realmente é?

— Concordo contigo, mas não deixa de doer. Eu gostei mesmo dela. Devo ter um alerta em neon na testa escrito: otária, use por uma noite e depois descarte – brincou, e eu ri de sua indignação

— Não fica assim, Isa, você vai achar alguém que te valorize – tentei consolá-la passando a mão em sua coxa, que estava dobrada sobre a cama, mas a afastei ao sentir a pele arrepiar-se levemente.

Fiquei um pouco sem graça pelo que, para mim, seria um gesto normal, não fosse a satisfação em estar perto de Isa. Espantei esses pensamentos e a olhei. Seus olhos estavam em meu rosto quando ela perguntou:

— Até quando eu vou ser o brinquedinho das pessoas, hein, guria?

— São todos idiotas que te trataram mal até agora, você merece muito mais que isso, gaúcha – falei, ainda olhando em seus olhos

Não sei de onde veio, mas estava ali, com toda a certeza, quando a vi franzir os lábios rosados em um bico. Nos aproximamos involuntariamente, sem que uma nem outra desviasse o olhar.

Eu sabia o que aconteceria. E, pior que isso, eu desejei que acontecesse. Naquele momento, me parecia mais que certo que o beijo se concretizasse. Isa era lindíssima, inteligente, interessante, engraçada, simpática e terrivelmente sexy. Sei que ela não tinha nem noção de seu poder de sedução, mas ele estava ali, tão palpável quanto a sua coxa quente que eu tocara alguns segundos antes.

Nossos lábios estavam a ponto de se tocarem, apenas escassos milímetros os separavam. O beijo se desenhou lentamente enquanto eu sentia sua respiração morna bater de encontro ao meu rosto. As pontas dos narizes se tocaram de leve, e as bocas iam no mesmo caminho, até serem rudemente afastadas por um choque de realidade, que veio junto às batidas na porta:

— Meninas, venham jantar antes que esfrie!

Notas finais
Oq acharam? Bjos e até breve :*