Imprinting
41 Trapos e fiapos
Notas iniciais
QUARTA — manhã
MADSON
Eu não consegui dormir.
O quarto do hotelzinho que me hospedei era absurdamente frio, porque o aquecedor quebrara; e fiquei preocupada com Nathan. Ele dormiu ao meu lado na cama, cercado por travesseiros que o impediam de cair. Acordou algumas vezes durante a noite, como qualquer bebê, e continuou dormindo, como se nada tivesse acontecido. Ele era tão pequeno...
Não era esse, enfim, o verdadeiro motivo por eu não ter dormido. Eu sentia que estava faltando alguma coisa, e sabia o que: Luke.
Era como se eu tivesse deixado uma parte de mim lá atrás. Eu me sentia incompleta, confusa, perdida... Argh!
As lembranças de minha briga com Luke voltaram instantaneamente a minha cabeça:
"-Ela foi sua amiga quando foi humana. Agora ela é um monstro, uma assassina. Ela não guarda amores por você. Se puder... Quando puder, irá matá-la. Não hesitará em fazer isso."
"-Você não pode buscar a proteção na sorte, Madson! Eu... Agora eu posso te proteger. Colabora comigo, pelo amor de Deus!"
—Você podia me proteger. — eu sussurro para mim mesma. — Eu sei que podia. Então por que você foi embora?! Por que eu deixei você ir embora?
A última lembrança que tive de nossa briga foi a mais dolorida:
"-O que foi? Eu não sou o tipo certo de monstro para você?
—Nesse momento? Não!"
Eu chorei de novo. Acho que nunca chorei tanto em minha vida.
Eu amo Luke. Eu o amo tanto...
—Eu te amo tanto, Luke. — sussurrei. As minhas próprias palavras ecoaram, ricochetearam na parede e chocaram-se em mim novamente, me lembrando que eu estava sozinha. — Desculpa por só perceber isso agora.
Eu me sentia afogada pelas lágrimas, era difícil ver alguma coisa através delas.
O meu coração se retorcia dentro de meu peito — Doía.
A nossa história aconteceu tão rapidamente. Quanto tempo havia se passado desde que nos vimos pela primeira vez? Um ano? Nem chega a isso... Acho que pulamos alguns sentimentos, e até mesmo a ordem cronológica das coisas. Quando foi que eu disse para ele, só uma vez, que eu o amava? Agora tudo parecia tão perto de acabar que me senti entorpecida, desesperada e acabada: Será que eu conseguiria dizer isso a ele, ou pedir desculpas, ou beijá-lo mais um vez? O fim parecia tão próximo...
Outra lembrança veio, essa sem que eu nem buscasse lembrá-la. Era bem mais antiga, parecia que ocorrera há anos atrás, mas também parecia que ocorrera ontem: Era a conversa que tivemos após o nosso primeiro beijo:
"-Desculpa. Desculpa mesmo.
—Está se desculpando por me beijar? — eu disse, recuperando o ar de meus pulmões. — Não se desculpe.
—Não. Desculpa por te colocar nessa."
Não se desculpe por isso, penso comigo.
***
QUARTA — manhã
LUKE
Eu podia ter cuidado dela. Eu fiz essa promessa, disse que cuidaria dela... e então eu a deixei.
Lembro-me de estar com raiva — não conseguia controlar o Lobo dentro de mim -. Raiva por ter tido um imprinting. Agora sei que a minha raiva não era por causa disso: Eu não pude escolher por ter um imprinting e nem por quem eu iria tê-lo, mas sim porque estive longe quando um vampiro esteve perto dela, porque não pude protegê-la naquele momento, porque fui egoísta ao fugir para a floresta quando deveria ter continuado ali com ela... porque fiz tudo errado.
Agora Madson estava no estado de Montana, chorando, enquanto eu estava na casa de minha mãe, como se eu ainda morasse aqui, como se nós nunca tivéssemos nos conhecidos.
E eu sabia de tudo isso, pois eu tive um imprinting por ela.
*****
QUARTA — tarde.
Minha mãe ergueu meu queixo para que meu rosto ficasse sob a luz. Ela estalou a língua e balançou a cabeça para os lados.
—Você está péssimo.
Eu tossi.
—Obrigado. Isso é muito encorajador.
Ela sorriu tristemente e passou a mão no meu rosto.
—Ah, meu filho, ela... ela é mãe. Você sabe porque ela fez isso.
—Eu sei. — respondi. — E a questão é essa: Eu sei que não posso ir atrás dela.
Ela beliscou minha bochecha.
—Vamos resolver isso.
Não parecia muito confiante.
Ninguém disse mais nada por um longo tempo. Minha mãe fez alguns lanches e distribuiu para Drake e Kluke que estavam sentados no balcão e para Faith, que era única pessoa da alcateia Knai que podia entrar na casa de minha mãe. Quando recusei ela me deu O Olhar, que dizia "Sério? Tem certeza?", então eu comi. O lanche não estava com gosto de nada para mim.
Faith andava de um lado para o outro, as vezes parecia querer dizer algo, mas logo desistia.
A maioria dos Lobos estava na floresta, com exceção de Kaio e os três (quatro comigo) que estavam aqui dentro. Eu queria saber o que estava acontecendo, se os vampiros haviam desaparecidos ou se estavam ali... E ao mesmo tempo eu não queria saber de nada disso.
Minha cabeça latejava constantemente.
Eu sou muito burro... Por que nós brigamos? Por que eu fui brigar com ela? Por que eu tive que surtar? Por que eu tive que deixá-la? Por que... Argh! Por que as vezes eu finjo que não tenho um imprinting quando eu sei que só vou me machucar se fizer isso? Eu já sei: Sou um idiota.
—Precisamos fazer alguma coisa. — Faith falou de repente.
Ergui minha cabeça para olhá-la.
—Como o que? — Drake perguntou. Ele tinha o olhar fixo num único ponto da parede.
—O Luke precisa ver a Madson!
De repente Kluke tossiu e todos olharam para ela. A princípio pensei que fosse ironia, mas depois ela se curvou sobre a bancada e tossiu de novo. Logo estava numa crise de tosse.
Os Lobos não ficavam doentes desse jeito, como os humanos, sempre tinha um motivo. O meu motivo era imprinting, porque Madson não estava bem... Então Tyler também não deveria estar.
Minha mãe pousou a mão no ombro dela.
—Kluke.
—Hm. — ela gemeu.
—O que aconteceu?
Então ela se ergueu, um tanto pálida, mas bem irritada. Disse:
—Aquele imbecil do Tyler acabou de se acidentar. — e tossiu de novo.
—Menos um. — Drake resmungou.
—O que aconteceu com Tyler, Kluke? — minha mãe perguntou carinhosa.
—Ele... — ela apertou a cabeça com as dedos indicadores. — Quebrou alguma coisa.
—É grave? — minha mãe perguntou de novo. Sua mão permanecia pousada no ombro de Kluke.
A garota mexeu a cabeça para os lados e tossiu:
—É só imbecil. Droga.
Faith balançou a cabeça, sem acreditar.
—Ok. — ela disse lentamente, e repetiu: — Luke precisa encontrar Madson e Kluke precisa encontrar Tyler.
Um ponto entre minhas sobrancelhas começou a doer.
—Não dá. — falei.
—Tem que "dá"! — ela disse, firme. — Ou vocês morrem.
Minha mãe se assustou com as palavras dela e pareceu pensar em repreendê-la, mas percebeu que era verdade. Ela fechou os olhos e os apertou com força, como se quisesse esquecer esse pensamento.
—Não dá, Faith. — repeti.
—Não podemos de dois Lobos a menos. E a ideia foi sua, Luke! — ela apontou para mim, mas não parecia brava, só estava me alertando. — Você foi até o Canadá chamar a minha alcateia para salvar a sua alcateia e a sua família e você decide morrer?
—Eu não decidi morrer. — digo. — Apenas...
—Eu não ia querer ser o alfa. — Drake me interrompeu. Olhou para mim e disse: — A responsabilidade é sua, mano.
—Drake, cale a boca, filho. — minha mãe disse gentilmente.
Eu ri baixinho. Acho que eles estavam tentando me animar.
Suspirei.
Não era tão fácil assim... Cara, como eu preciso de Madson!
—Está desistindo de ser o alfa? — Faith olhou para o meu irmão, surpresa. — Puxa, que humilde!
Ele respondeu com um sorriso:
—Acabaram de presenciar algo épico.
Quando ela não estava mais olhando para ele, ele sussurrou para mim "ponto para Drake".
—"Épico"? Uau! — Kluke tossiu. Continuou o que dizia como se fosse uma radialista: — Mais uma palavra chique para o pobre vocabulário de Drake Hunt. A América agradece à Faith.
Minha mãe riu e algumas lágrimas escorregaram por suas bochechas. Ver minha mãe chorar não era algo comum, mas eu entendia seus motivos.
—Vamos, heroína Faith, diga seu plano. — ela pediu.
Faith sorriu.
—OK. Pensem comigo: Madson fugiu com Nathan, porque ontem ela estava sozinha em casa com ele, com medo de que um vampiro aparecesse; e você, Luke estava na floresta. Ela não podia ir atrás de você na floresta com um bebê recém-nascido sabendo que havia vampiros ali. Então ela fez a única coisa que podia para proteger Nathan: Levá-lo para longe.
Esse assunto me dava dor de cabeça.
—Você disse que os vampiros sabem que Nathan é um Lobo, Luke? — ela me perguntou.
Confirmei.
Nathan... Nossa! Como eu estava com saudade daquela coisinha minúscula.
—Então eles estão atrás dele... Querem matá-lo também. — ela continuou dizendo sem saber como esse assunto me deixava com raiva. Pensar em alguém querendo fazer algum mal a meu filho era insuportável, eu já estava tremendo. Meu corpo doía.
—Por que eles fariam isso? — Drake perguntou.
—Estão fazendo disso um jogo? — minha mãe sugeriu, limpando as lágrimas.
—Nunca pensei que jogar pudesse ser tão chato. — meu irmão resmungou.
Kluke riu baixinho e isso fez ela tossir.
Faith se virou para mim e me questionou de novo:
—Estão indo atrás deles, não estão, Luke?
—Sim, Faith. Eles descobriram que nós temos forma humana por causa dele.
—O cheiro é tão forte assim? — ela pareceu confusa.
Confirmei de novo.
Meu corpo estava pesado.
—Bom, Nathan não pode mesmo ficar aqui. Ele corre risco de vida. Então... — ela franziu as sobrancelhas. — isso significa que você não pode ir atrás dela?
Eu já sabia de tudo que ela me contou, sobre o por quê de Madson ir embora, dos motivos dela não ter outra escolha... Tudo. Eu entendia por que ela fez isso, e achei a decisão mais sensata que podia ter tomado. Então, por que eu estava assim? Por que eu também sabia de algo que Faith só comprendeu agora: Não dá para ir atrás dela.
—Exatamente. — murmurei.
—De volta a estaca zero? — Kluke perguntou cansada.
Faith balançou a cabeça para os lados e gritou, frustrada com ela mesma:
—Tem que haver um jeito!
Minha mãe estava chorando de novo.
Então Faith apontou para mim. Ela continuava irritada com si mesma, mas parecia decidida a encontrar uma solução:
—Você vai atrás dela.
—Faith... — o meu irmão falou. — Nós acabamos de decidir que não dá para fazer isso. Coloca Nathan em perigo.
Ela continuou com sua decisão.
—Você não precisa voltar. Luke, você vai até onde Madson está e fica lá com ela e com o seu filho. Damos o nosso jeito por aqui.
Balancei a cabeça para o lado. Eu não podia ser tão egoísta assim.
—Não. Não posso deixar vocês lutarem com os vampiros sozinhos. Como você mesma disse, eu fui até o Canadá pedir a ajuda de vocês. Não posso cair fora.
—Escuta, Luke. — ela balançou o dedo na minha cara. — Você ficar aqui nesse estado é a mesma coisa que um saco de batatas: Não serve para nada! E você pode morrer. Você vai atrás de Madson e do seu filho e fica por lá até as coisas acalmarem por aqui. Entendeu?
—Eu... Eu não...
—Ah, Luke! — minha mãe exclamou frustrada. Ela secou as lágrimas com as costas das mãos. — Cala a boca e vai logo, menino!
*****
—Você sabe onde ela está? — minha mãe perguntou de novo.
—Em Montana, mãe, já disse.
—Você está bem mesmo? Pegou roupas?
—Não começa, Dona Sally. — brinquei, porque tinha um pingo a mais de esperança em mim, mas minha cabeça continuava pulsando e meu corpo estava pesado. Eu a puxei para um abraço. Ela era menor que eu, e quando a abracei lembrei de quando tinha entre catorze e dezesseis anos que fiquei maior que ela, e a abraçava para ela se sentir pequenininha. — Eu vou ficar bem, mãe.
—Beije Nathan por mim, está bem? E Madson, porque... Luke, como mãe, ela deve estar se sentindo péssima.
Eu sei.
—Está bem, mãe. — virei-me para meu irmão. — Drake, a alcateia Hunt está em suas mãos até eu voltar.
Ele fez uma careta e não disse nada. Parecia nervoso.
—Drake, eu confio em você. — disse com firmeza.
—É você está louco mesmo. — ele respondeu enquanto coçava o couro cabeludo. — Nem eu confio em mim mesmo.
Eu sorri.
—Para isso que temos a Faith. — disse. — Você cuida da alcateia e ela cuida de você.
Faith balançou a cabeça para os lados e riu.
—Você até já está parecendo melhor, Luke. — ela me abraçou, se despedindo.
Eu abracei Drake em seguida e, como não acontecia há muito tempo, ele não reclamou.
Sussurrei só para ele ouvir:
—Não deixa a Faith escapar, Drake. É a melhor cunhada que eu posso arranjar.
Ele riu alto.
Antes de partir, beijei a cabeça de Kluke, que estava enrolada em um cobertor grosso:
—Fica bem, pirralha.
Então me transformei e corri.
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