Imprinting
42 Fazemos isso por amor
Notas iniciais
QUARTA — noite
LUKE
Eu nem pensava para onde ia. Corria, sempre entre as árvores, escondido dos humanos, na direção que meus instintos apontavam.
Não sei dizer quanto tempo passei correndo. Pareciam horas. Meu copo não estava saudável o suficiente para esse exercício. Fiz quatro pausas de um minuto para respirar e tentar controlar a disritmia do meu coração.
Cheguei em uma cidadezinha na divisa de Montana e da Dakota do Norte as nove da noite.
Transformei-me em humano e vesti as roupas que trouxe abocanhadas pelo caminho. Nevava, então vesti o meu moletom azul escuro para não causar uma impressão estranha.
Inspirei o ar e observei a cidade.
Não tinha muita gente nas ruas; ou o frio assustava as pessoas, ou aqui eles iam dormir mais cedo.
Ela estava por aqui, sabia.
Afundei meus pés na neve a medida que andava a procura de Madson.
***
QUARTA — noite
MADSON
—Ah, não! — resmunguei para mim mesma. Perdi a chave do quarto. Onde será que eu deixei ela cair?
Idiotamente tentei abrir a porta trancada do meu quarto do hotel. Não deu certo, claro. Procurei pela chave no carpete do corredor, mas não a encontrei. Droga.
Olhei ao redor. Não havia ninguém no corredor — era hora do jantar e estava tendo música ao vivo no restaurante.
Ajeitei Nathan em meus braços. Eu segurava-o em um braço e o bebê-conforto com minha bolsa dentro na outra mão. Era difícil manter o equilíbrio e não deixar que nada caísse.
—Droga. — murmurei em voz alta. Por que eu tive que perder a chave?
Eu poderia informar na secretaria do hotel, mas me fariam pagar por uma nova. Para não gastar desnecessariamente o dinheiro que tinha, refiz em minha mente o caminho que fiz para chegar aqui, então concluí que deixei no carro.
Desci pelo elevador e saí do hotel.
Tremi com a neve que caiu em meu rosto. Puxei Nathan para mais perto de mim e cobri seu nariz com a manta que o envolvia.
Abri o carro e encontrei a chave ali dentro. Ainda bem!
Tentei equilibrar as coisas em minhas mãos e fechei o carro, trancando-o. Nathan estava comigo, minha bolsa e o bebê-conforto também, e a chave do quarto... Ah, e a do carro também. Enfiei as duas chaves no bolso da bolsa.
Virei-me para voltar para o hotel, mas tive uma sensação estranha.
Estava sendo observada?
Olhei para a minha esquerda. Havia um poste de luz distante de mim, e sob ele, iluminado por seu foco luminoso, havia um vulto escuro.
Um vampiro.
Dei um passo para trás e bati no carro de Tyler.
Cogitei voltar ao hotel, mas percebi que ele seria mais rápido do que eu. Logo minha respiração já estava entre cortada, fazia fumaça quando eu respirava pela boca, e meu coração pulsava fora de ritmo.
Olhei ao redor rapidamente. Não havia ninguém ali.
A sensação era horrível.
Eu não devia ter qualquer chance de sobrevivência, mas eu já entendera essa hipótese. Ao fugir, eu sabia que corria risco de vida, mas eu não fugi por mim, e sim por Nathan. Agora, nessa situação, eu não vejo escapatória para nenhum de nós dois e isso me desespera.
Aperto meu filho em meus braços.
O terror de pensar em perder aquela coisinha era insuportável. Não podia morrer com esse peso: De que sou culpada pela morte de meu filho, de que não salvei-o.
Meus olhos ficaram lacrimejosos, mas eu não derrubei uma lágrima — Deveria ser forte.
Eu abri o carro de novo.
—Boa noite. — ouvi um voz grave dizer atrás de mim. Não precisava virar para saber quem era. Um arrepio percorreu minha espinha. — O que uma mocinha tão bonita está fazendo sozinha depois das dez da noite?
—Eu... hm. — engoli em seco. Precisava enrolá-lo, distraí-lo.
Abri a porta do carro o mínimo que pude e que precisava.
Encaixei Nathan em seu bebê-conforto no banco do motorista. Ele estava acordado, piscou seus olhinhos para mim. Meu coração apertou-se: Eu te amo, ok? Muito. Não podia arriscar dizer isso em voz alta. Esperava que ele soubesse disso.
Puxei minha bolsa e enlacei-a em meu ombro.
Ele não podia ficar muito tempo lá dentro, era perigoso, porém era a única esperança que eu tinha.
Fechei a porta. Tranquei o carro.
Arfei quando percebi que consegui.
Coragem, Madson, vai dar tudo certo. Disse a mim mesma.
Virei-me para o vampiro.
Ele era alto, loiro e pálido, como todo vampiro deve ser; mas não tão bonito. Seus olhos eram absurdamente pretos. Era assustador.
—Esqueci minha bolsa no carro. — disse, tentando soar o mais humanamente possível. — Eu estava indo com minhas amigas tomar um... ahn... chocolatequente! Quer vir também?
Eu dei uma piscadinha. Isso foi horrível. Quando será que foi a última vez que dei uma piscadinha para alguém? Deve ter parecido forçado.
Ele gargalhou.
—Você é engraçada. Com certeza, alguém vai sentir sua falta. — ele disse.
Prendi a respiração.
Então não pensei, virei para o lado e saí correndo, o mais rápido que eu conseguia. Fugir era o único poder que eu, humana, tinha. Logo escorreguei no gelo e cai no chão. Minha bolsa continuou deslizando, não vi onde ela foi parar. Pus as mãos em cima da cabeça, por reflexo, esperando o ataque, mas ele não veio.
Ouvi um rosnado baixo.
Abaixei os braços e ousei espiar.
Meu coração deve ter parado naquele segundo.
Lá estava Luke.
***
LUKE
Encontrei Madson espremida entre um vampiro e um carro. Um rosnado escapou de dentro de mim naquele momento. Eu tirei a minha roupa em dois segundos e já me transformara.
Foquei no vampiro. Avisei-o:
Não... Ah, não. Você não vai machucá-la.
Porém ele não me compreendia.
Seus olhos ficaram vermelhos quando me viu. Ele dobrou, numa postura de ataque. Ele estava louco por um joguinho.
Ataco o vampiro de surpresa. Meus dentes cravam-se em seu ombro esquerdo e consigo arrancar grande parte dele. Por pouco não acertei sua cabeça.
O vampiro gritou, irado.
Não esperei ele se recompor, corri em sua direção imediatamente. Entretanto, ele agiu rápido: Sua mão boa me deu um soco forte no maxilar.
Ele avançou em minha direção e eu na dele. Colidimos. Com as duas mãos ele me girou, e nessa manobra, aproveitei e abocanhei seu braço ruim; puxei-o. O braço saiu por completo. O vampiro gritou, dessa vez de dor, e me soltou no ar antes de concluir o golpe; então acabei girando no sentido contrario. Minha para esquerda dianteira sentiu o impacto. Uivei.
Levantei-me com rapidez, pronto para um possível ataque surpresa da parte dele, mas não veio.
Vi o frio correndo. Por um segundo fiquei sem compreender, mas quando vi em que direção ele ia — na direção de Madson — fui atrás dele. Ele provavelmente buscou por ela para se alimentar e ficar mas forte, porém isso não iria acontecer: Ele não tocaria nela.
***
MADSON
Fiquei observando Luke por um tempo, não acreditando que ele estava mesmo ali.
Eu me levantei com esforço. Meu flanco direito estava machucado. Gemi.
Então o vampiro estava a minha frente.
Levei um susto ao vê-lo ali. Se ele estava ali, onde estava Luke? Meu coração estava descompassado. Ergui meu rosto e olhei sobre o ombro do vampiro, procurando por Luke. Suspirei quando vi ele ali... vivo.
O vampiro estava sem um braço, o que o deixava ainda mais assustador. Ele deu três passos largos e decididos em minha direção... e caiu na neve. Um enorme sombra escura estava sobre ele. Luke.
Dei alguns passos para trás quando percebi que estava perto demais.
Observei com apreensão ele e o vampiro lutando. Um filete de sangue escorria pelo maxilar de Luke, e ele mancava em uma das patas. Ele estava fraco.
Fiquei com medo por ele. Não podia perdê-lo, não podia deixá-lo ir.
Corri até a minha bolsa jogada no chão, peguei a chave do quarto de dentro dela e virei-me para a briga novamente.
O vampiro chutou o abdômen de Luke.
Aperto a chave gelada do hotel com firmeza entre o polegar e o indicador. Parecia pontuda — bastava. Puxei a manga de minha blusa até o cotovelo. Inspirei fundo.
Salve Luke. Salve Nathan. Pedi para quem quer que estivesse ouvindo.
Pressionei a chave em meu antebraço e passei as cerrinhas por ele, sobre a cicatriz que tinha ali, até um filete de sangue aparecer.
O vampiro parou o que estava fazendo. Sua atenção voltou-se para mim, sedento. Seus olhos estavam vermelhos. Jogou Luke para o lado com um soco e avançou rapidamente em minha direção.
Salve Luke. Salve Nathan. Repeti em minha mente.
Apertei meus olhos.
*****
Esperei tempo demais, de olhos fechados, pela morte. Eu não senti ninguém me tocar. Continuava sentindo frio, meu coração batia e eu ouvia o silêncio.
Abri os olhos. Não percebera que estava chorando.
Aos meus pés estava o corpo do vampiro em pedaços.
Arfei.
Um pouco longe, Luke abotoava sua calça. Ele vestiu um moletom e veio em minha direção em silêncio.
Estranhamente tudo estava em silêncio, nenhum barulho, pela primeira vez.
Ele roçou nossos dedos primeiros e depois enlaçou sua mão na minha. Era quente. Como senti falta disso. Ele me puxou para longe do vampiro.
—Madson. — ele disse baixinho.
Ergui meu olhar para ele.
—Luke.
Então nossos corpos se colaram de repente. Ele me abraçou com força. Seus braços cobriram minhas costas, as mãos abertas me segurando como se nunca mais fosse me soltar. Eu senti todo o meu corpo tocar o dele. Abracei sua cintura e enterrei meu rosto em seu peito. Lágrimas escorriam pelo meu rosto.
Fechei os olhos.
Meu corpo inteiro relaxou, não apenas pela tensão dos últimos minutos, dos últimos dias, mas pela tensão que estivera ali desde sempre.
Amor é o maior sentimento que eu, humana, poderia ter... e tinha.
Estava tudo bem. Disse a mim mesma com um suspiro pesado.
—Desculpa. — eu sussurrei.
—Shh... — ele me interrompeu.
—Desculpa. — eu repeti.
—Você estava tentou proteger nosso filho. Fez a coisa certa. Eu não devia ter te deixado, devia ter continuado do seu lado...
—Desculpa por te amar e não perceber isso. — eu o interrompi. Afastei-me um pouco para olhá-lo. — Desculpa por nunca dizer que te amo, Luke. Eu te amo... Eu te amo, Luke.
Ele abriu um grande sorriso.
Ele beijou minha testa e me apertou em seus braços de novo:
—Minha garota.
Solucei e sorri também.
Tudo que havia de pesado dentro de mim amoleceu e desapareceu. Fui preenchida com uma sensação que nunca experimentei desse jeito antes: Paz; eu estava eu paz, nós estávamos.
Senti sua mão sob meu queixo, erguendo-o. Olhei para cima, para ele.
Luke aproximou seu rosto do meu. Meu nariz encostou no dele. Inspirei seu cheiro, inconfundível. Sua mão se prendeu em meus cabelos, e eu enrosquei a minha em sua nuca. Eu fechei meus olhos quando um arrepio percorreu meu corpo. Subi na ponta dos pés e deixei que os lábios dele encontrassem os meus. Nos beijamos com calma, com desejo, com amor...
Nos afastamos um pouco, nossas testas ainda grudadas, e sorrimos.
Luke limpou minhas lágrimas com seus polegares. Eu beijei seus lábios de novo e apertei o machucado em seu maxilar. Isso o lembrou do que eu havia feito. Ele segurou meus braços e observou o ferimento.
—Precisamos cuidar disso. — ele sussurrou.
Puxei meu braço e sequei minhas lágrimas com as costas das mãos.
Luke pegou minha bolsa no chão e a chave do carro de dentro dela.
Abriu o carro de Tyler e pegou Nathan no colo.
Era a minha família, eu observei. Não podia pedir nada melhor.
—E aí, rapaz? — ele o cumprimentou com um sorriso, enquanto ajeitava a manta sobre ele. — Cuidou bem de sua mãe por mim?
—Luke! — Eu ri e senti as lágrimas rolarem pelo meu rosto novamente. Por que eu ainda tentava limpá-las?
Ele olhou para mim sorrindo e depois de novo para Nathan.
Fechou o carro e esticou a mão para mim.
—Vem. — ele disse. — Vamos sair daqui.
Eu fui até eles e entrelacei nossas mãos.
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