Imprevisto- Hiatus
2 Um
Notas iniciais
—Drª Haruno,fico feliz em vê-la por aqui—Diz Kurenay me recebendo em seu consultório que mais parecia uma sala de estar com jarros de flores distribuídos pelas estantes, alguns quadros que retratam pontos turísticos do mundo na parede, uma mesa de centro com alguns objetos(Um dado, um cubo mágico e bolinha de silicone) que ficava entre uma poltrona cinza aparentemente confortável e um divã de couro preto.
Se não fosse pelo divã parecia somente que vim visitar uma amiga.
—Fiquei surpresa em saber que mudou de ideia sobre as nossas sessões...—Comentou Kurenay enquanto misturava o café recém feito na sua xicara, se dirigindo pra poltrona—Aceita uma alguma coisa? Água? Café? Chá? —Ofereceu com um sorriso simpático no rosto. Neguei com a cabeça.
—É aqui onde me sento? —Perguntei indicando com a cabeça o divã. Kurenay assentiu, assoprando seu café enquanto eu colocava minha bolsa sobre a mesa de centro e me deitava.
Eu realmente não queria tá ali, não estava pronta. Mas é o tipo de situação que nunca se tá preparado.
—Fui notificada pelo hospital que você só vai ser liberada após a avaliação da equipe. Entenda Sakura, somos colegas de trabalho e eu diria até amigas, quero que você não me veja aqui somente como psicóloga. Pode se sentir à vontade, okay? Não vou lhe pressionar em nada.—Kurenay deve ter notado minha expressão desde de quando entrei no consultório—Está preparada?
Eu estava preparada?
Não, claro que não.
Mas é preciso.
Suspirei pesadamente, pensando em todas as lembranças, em todos os motivos e todas as razões que fizeram eu vim pra cá.
Precisava enfrentar.
—Estou.
—Certo. Pode me contar como tudo começou?
Pouco mais de dois anos antes
Respira.
—-Obrigada pela participação de todos no nosso Simpósio de Saúde Pediátrica. A presença de cada um de vocês é importante...] —Uma das organizadoras fala no microfone durante o intervalo de uma palestra e outra do simpósio, já a equipe de palestrantes está do outro lado do auditório enorme, em uma sala com janela com visão pro palco. [...Um agradecimento especial ao Doutor Akasuna que irá palestrar sobre Pediatria Cardiológica—Aplausos—Doutora Haruno sobre Os Cuidados Pediátricos No CTI...]—Aplausos e congelo.
Respira
Respira
—Parece nervosa Sakura—Pulo num susto com um cutucão do meu marido abaixo das minhas costelas. Ele rir com minha reação—Sério que a grande Sakura tá com medo de dá uma palestra—Cruza os braços na minha frente, brincalhão.
—Claro que não tô nervosa Sasori—Tento parecer séria, mas solto um riso que denuncia meu nervosismo—Tá, só um pouco—Ele me abraça e coloca um beijo no topo da minha cabeça.
—Não precisa de nervosismo, palestro antes de você, é só olhar pra cá que você vai ver o medico mais bonito de todo o hospital e isso te acalma na hora—Dou um leve aperto em seu braço, quase uma forma de agradecimento.
Sasori além de marido é meu melhor amigo. Nos conhecemos na universidade, viramos parceiros de estudo e com o tempo parceiros de vida.
—Doutor Akasuna—Me desvencilho do seu abraço, uma acadêmica loira envergonhada está na porta—Desculpa, eu bati..
—Tudo bem, agora sou eu? —Ela só assentiu enquanto ele faz um sinal de “Ok” na mão—Não esqueça do que eu disse. Até mais tarde. —Pega meu rosto entre as mãos e me dá um selinho de despedida, acompanhando a acadêmica.
Sento no sofá, ando pela sala, bebo um pouco de água, como balinhas de menta, mas não me acalmo. O barulho do meu próprio salto já dói na minha cabeça, mas não consigo parar.
Como eu vou falar em público?
Quando comecei a me sentir claustrofóbica, resolvo sair da saleta e respirar um ar puro.
Inicialmente eu caminhava pelos corredores da faculdade em busca da saída, mas quando comecei a me sentir sufocada começo a correr de leve, ignorando os chamados, só queria sair dali.
Após o que se parece ser horas, mas eu sei que não passou de um minuto ou dois, saio da faculdade.
Dou uma respirada funda, enchendo os pulmões e soltando o ar até sentir a sensação de sufoco ir embora. Resolvo andar pelas ruas, pra regularizar a taquicardia.
Eu realmente não ia conseguir dá essa palestra, não mesmo. Sasori que me perdoe, converso depois com a organizadora do simpósio, mas realmente não dá.
Talvez o motivo tenha sido por conta de um discurso horrível que eu fiz no final da residência, coisa de uns 2 anos atrás. Depois disso não existe a combinação Sakura, microfone, palco e pessoas. Sasori diz que não foi tão ruim, mas quando ele diz isso aparece uma leve covinha entre suas sobrancelhas, um sinal de mentira.
Depois de andar uns dois quarteirões encontro uma pracinha nunca vista por mim, levemente movimentada.
Crianças brincando de carrinho em um chafariz, casal de namorados na escadaria de um coreto, idosos jogando dama em uma mesa própria e famílias fazendo piquenique no jardim. Apesar de não gostar muito de calmaria, ela me tranquiliza e consigo regularizar minha respiração.
Quando se cresce numa fazenda onde o barulho de pássaros, moinho de água, galinha, algumas vacas e o chiado do bule de água é rotineiro, o avião, buzina, trânsito e pessoas se tornam uma calorosa mudança.
Claro, isso pra mim, principalmente quando vim pra cidade aos 17 anos.
O ar quente do verão me força a ir num carrinho de sorvete e fazer o pedido mais simples, sem cobertura. Sento em um dos bancos, e quando termino o sorvete fecho os olhos, aproveitando um pouco o sol do fim da tarde.
—Oh tia, cê’ tá vendendo pipoca? Quero um saquinho médio.
Que?
A visão do sol me atrapalha um pouco, mas viro a cabeça pra que o corpo do tal sujeito fique em frente a luz.
—Você tá falando comigo? —Pergunto obviamente confusa pro garoto a minha frente. Deve ter no máximo 20 anos.
—Claro, as únicas pessoas que podem usar jalecos na rua são pipoqueiros, tio do churros e vendedor de frango. Chutei pipoca, acertei? —Dá um sorriso debochado, cruzando os braços.
Talvez ele tenha 5 anos.
Não tinha me dado conta que ainda estava de jaleco. Tiro calmamente ignorando a presença dele, passo a mão pelo vestido tubinho preto, tentando desamassar.
—Eu acabei me esquecendo que estava de jaleco, é costume. —Levanto as mãos em sinal de rendição. Tô sem paciência, espero que ele vá embora, mas o sujeito senta ao meu lado.
—Eu tenho costume de tomar banho pelado, mas vai que eu esqueço e saio na rua do jeito que vim ao mundo—Da uma pequena pausa—Seria um estrago—E por fim rir da sua própria piada.
Já eu não sorrio, sinceramente, não achei graça.
Ele me observa, certamente esperava alguma reação animada minha.
—Me chamo Sasuke Uchiha—Estende a mão, esperando que eu aperte, mas o ignoro —Educação tia.
—Tá me chamando de velha pirralho? —Indago já irritada, só quero paz.
Ele coloca as mãos atrás do pescoço, se estirando no banco e sussurra baixo.
—Se a carapuça serviu...
Me irrito e levanto de uma vez, pegando com meu jaleco e pisando duro pra perto do coreto.O casal de namorados não tá mais por perto.
—Moça, oi, desculpa—O rapaz, tal de Sasuke vinha atrás de mim. Me viro bruscamente, chocando os nossos corpos de leve. Ignoro um pequeno tremor em meu corpo.
—O que você quer? —Cruzo os braços, obviamente com o jaleco nas mãos.
Eu sou relativamente pequena, e apesar do salto, fico mais ou menos na altura do queixo de Sasuke.
—Recebi uma noticia bem chata hoje, e quando isso acontece eu tento fazer uma amizade nova, e eu vi que você estava sem amigos, jogada num banco, usando jaleco. —Dá de ombros.
Me rendo
—Me chamo Sakura Haruno, prazer—Estendo a mão quase a contragosto, já ele aperta com um sorrisinho de vitória. Como uma pessoa consegue sorrir tanto numa segunda feira? —Então, que notícia chata foi essa?
—Opa opa opa, estamos indo rápido demais, não? —Ele questiona com tom de brincadeira, indo calmamente em direção da escada. Acompanho em silencio. Como ele notou que eu não ia continuar o assunto completou—Não consegui adotar um gatinho que achei na rua, ele sumiu.
Ah sério?
Imaginei notícia de morte, de assalto, que alguém faliu ou até mesmo uma nota baixa na faculdade ou sei lá, mas um felino?
—Qual sua idade mesmo? —Pergunto aceitando o braço que ele estendeu, subindo a escada do coreto.
—2 décadas de pura autenticidade—Dou um leve sorriso por conta das besteiras—Não vou perguntar sua idade já que tem gente que se ofende...
—28 anos—O interrompo, eu mesma não me ofendo com isso.
—De pura o que? —Novamente o tom brincalhão—Inteligência? Beleza?
—Posso dizer sucesso?
—Nossa—A gargalhada é alta. Fico um pouco envergonhada, mas não transpareço—Gostei de você.
Perto do fim da escada, ele acelera o passo, me puxando também. Meu corpo só vai no automático, não sei o que está acontecendo, mas também não reluto. Ele me leva até o meio do pequeno salão do coreto, divertido.
—Posso? —Pergunta, estendendo a mão, apontando pro jaleco. Entrego de bom grado, então ele o coloca no ombro, pega uma mão minha e a outra coloca na minha cintura. O calor que emana de suas mãos atravessa o tecido fino do vestido e acaricia minha pele.Sinto um pequeno arrepio na espinha.
Ele me roda maroto pelo salão, cantarolando uma valsa de forma desafinada, entre risos, tanto meu quanto dele.
O que tá acontecendo?
—Você tem o sorriso lindo, podia rir mais—Diz tranquilamente.
—Porque a gente tá fazendo isso? —O ignoro, saindo do ritmo, o que faz eu pisar em seu pé, que, felizmente, está protegido por um sapatênis—Desculpa.
—Tudo bem pirulito—Uma careta de dor.
Pirulito?
—Pipoqueira, pirulito...Tô muito sem moral.
—A cor do seu cabelo e o penteado. Ninguém te falou que ele parece um pirulito gigante?
Involuntariamente ponho a mão no meu coque apertado. Se parecesse que eu ando com um pirulito na cabeça Sasori diria.
Ai meu Deus.
Sasori.
—Droga—Digo me desvencilhando da tal dança e agarrando meu jaleco, verificando rapidamente meu celular e ignorando o frio, apesar de ser verão.
16 chamadas perdidas
Antes de retornar meu celular começa a tocar novamente, Sasori.
Atendo
—Sakura! Nossa que susto! —O ouço respirando de alivio—Falaram que você saiu não sei pra onde, fiquei preocupado.
—Desculpa meu bem—Olho pra Sasuke, que dá de ombros desinteressado—Eu fiquei em pânico e só sai pra respirar. Acabei perdendo o horário.
—E assim me deixou no pânico—Sua voz endurece de preocupação—Aqui já terminou, outra pessoa palestrou no seu lugar, onde você tá? Vou te buscar pra gente ir pra casa.
Digo minha localização e desligo o telefone.
—Então é isso, obrigada pela companhia—Me aproximo de Sasuke, que exibe um sorriso aberto.
—Eu que agradeço pirulito, mas acho que você tá precisando de umas aulinhas de dança. Segunda que vem aqui, no mesmo horário, que tal? —Cravo minha unha do indicador na palma da mão.
—Claro que não, eu trabalho, e eu sou casada—Digo rapidamente, antes que minha voz falhe.
—Te chamei pra dançar, e não pra um motel—Novamente o tom brincalhão, dessa vez eu coro.
—Tchau Sasuke—Saio rápido, acenando com as mãos e descendo as escadas.
—Te espero as 4—Ouço Sasuke gritar o pé da escada, olho pra trás a tempo de ver ele mandando um beijo. Ignoro, indo pro ponto de encontro que marquei com o Sasori.
E foi assim que tudo começou.
Fale com o autor