Impossível
1 Os segredos do vento deves escutar, escutar.
Notas iniciais
Ainda tens muito que andar, se quiseres chegar a algum lugar, lugar. Os segredos do vento deves escutar, escutar. És feita da pedra mais fria e gélida, gélida. Mas o coração deverás aquecer, aquecer. Quem sois afinal? Ouvindo o vento, tu o poderás ver, ver. Vem, vem e segue o caminho que ele te indicou, vem e mostra a eles que com você o vento falou.
A caligrafia trabalhada fora objeto de fascínio dela durante a semana inteira. Os caracteres miúdos ocuparam o seu pensamento em cada momento, de modo que não se concentrava em mais nada. Calava-se, e em seus momentos de divagação repassava as sete frases mentalmente, tentando, em vão, compreender o significado. Recebera-as em uma embalagem de papel, sem assinatura, sem endereço. No interior da embalagem, uma corrente cujo pingente era uma pedra. Não uma pedra preciosa, não um diamante ou uma esmeralda. Mas uma pedra comum, como uma pedra de cascalho. Havia algo misterioso e incomum a respeito daquelas palavras — que, ao seu ver, não tinham sentido algum — e daquela pedra. Pareceriam algo banal para qualquer outra pessoa. Mas afinal, ela não era qualquer outra pessoa. Era Carmen Frondosa, era a Carmen Frondosa. A Carmen cujos cachos castanhos e sorriso róseo encantavam a qualquer homem. A Carmen a quem foram endereçadas tantas flores. Carmen Frondosa desacreditava qualquer tipo de coisa que remetia ao sobrenatural. Quando o vira — o carteiro — imaginava que seria apenas mais uma das cartas de amor, que teria o mesmo destino que as outras: a lixeira. Mas não era um carteiro. E não era uma carta de amor. O jovem era atlético e altivo, a cabeleira ruiva e os olhos escuros. Depositara o embrulho nos braços finos e delicados de Carmen Frondosa e dissera apenas duas palavras antes de a deixar, sem explicações, sem comentários.
- Boa sorte.
E desde então, tudo quilo se tornara a sua única obsessão. Não dormia. Não tinha fome ou sede. Aquilo preocupava os que a cercavam, mas não realmente;pois não surgira um sequer que a amasse verdadeiramente e puramente, no sentido literal da palavra. Ninguém que a amasse como descreveu Paulo em sua primeira carta aos Coríntios:
"A caridade é paciente, a caridade é benigna; não é invejosa, não é altiva nem orgulhosa; não é inconveniente, não procura o próprio interesse; não se irrita, não guarda ressentimento; não se alegra com a injustiça, mas alegra-se com a verdade; tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta. O dom da profecia acabará, o dom das línguas há-de cessar, a ciência desaparecerá; mas a caridade não acaba nunca. De maneira imperfeita conhecemos, de maneira imperfeita profetizamos. Mas quando vier o que é perfeito, o que é imperfeito desaparecerá. Quando eu era criança, falava como criança, sentia como criança e pensava como criança. Mas quando me fiz homem, deixei o que era infantil. No presente, nós vemos como num espelho e de maneira confusa; então, veremos face a face. No presente, conheço de maneira imperfeita; então, conhecerei como sou conhecido. Agora permanecem estas três coisas: a fé, a esperança e a caridade; mas a maior de todas é a caridade."
-S. Paulo, 1 Cor 13, 4-13
E eis que aquilo era o início de algo muito maior. Muito maior.
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