Impossível
2 Kurt Schneider
Notas iniciais
O inverno era rigoroso. Era o período em que o máximo de movimento que ela fazia era ir da copa até a biblioteca para trocar o livro escolhido, ou até a cozinha para repor o chocolate quente da caneca avermelhada. Naquela tarde haviam sido dispensados desde Tolstói até Verne. Nenhum dos tramas, por mais complicados que estes pudessem ser, lhe atraiam a menor atenção. Re-escrevera as linhas da embalagem de papel em um caderno. Já as sublinhara, fizera notas, consultara dicionários de sinônimos e de figuras de linguagem. Era tudo em vão. Negando-se a acreditar que a pessoa — a que lhe destinara aquelas estranhas linhas — realmente cria que um ser humano, como os outros, podia "falar com e ouvir o vento", restava-lhe procurar desesperadamente por uma solução lógica para tudo aquilo. Até agora as suas pesquisas haviam sido vãs, e isso a afligia profundamente. Estava ávida por mais conhecimento, por uma explicação. Recusara todos os convites para sair e caminhar, tomar um chocolate quente a dois, e estivera há bastante tempo sentada na mesma posição, encarando a caderneta como se a qualquer momento uma "luz" fosse descer sobre a sua cabeça e fazê-la descobrir o significado daquilo tudo. Nem mesmo os passos rígidos e velozes do sujeito desconhecido a fizeram erguer o olhar; nem mesmo quando ele parou a um metro dela e pôs-se a observa-la. Abanando as mãos num gesto de descontentamento, suspirou e deixou que a cabeça pendesse para trás. Com isso, pôde ver de relance os traços delicados do rapaz que a observava curiosamente. Tinha uma coroa de cabelos louros — quase que brancos — adornando-lhe a cabeça, olhos azuis e gélidos, apesar de gentis, e vestia-se a rigor. Julgou-o como mais um dos apaixonados — e desgostados por ela -, e virou a cabeça num gesto de desdém. Este pigarreou, na tentativa de chamar a sua atenção, e ela abanou a mão, como que dispensando-o.
– Senhorita? — este disse, pronunciando o "R" de uma maneira que destacava o fato de ser um estrangeiro — fato que captou o interesse de nossa Carmen. Voltou-se, mais afável, e exibiu um sorriso levemente contido, convidando-o a dizer o que tinha a dizer. — Sou Kurt Schneider. Deveria ter vindo na última semana, mas não cheguei no país a tempo.
– E o que o traz aqui? — ela perguntou, tentando se lembrar onde ouvira aquele nome. Kurt Schneider. Ele riu, e ela tentou entender o que havia sido engraçado na sua fala.
– Fiz uma grande doação para o auditório há três meses, senhorita. Convidou-me a tomar um chá com você para agradecer. Não se lembra?
Ela sorriu e corou levemente. Levantou-se, alisando a saia do vestido. Então enfiou a caderneta debaixo do braço e o guiou até a sala de chá, convidando-o a sentar. Mandou que a criada preparasse os aperitivos e juntou-se a ele, depositando a caderneta na mesa. Coincidentemente — ou não — o vento acabou por abrir o bloco de papel na página em que ela havia copiado as frases. Ele ergueu uma sobrancelha.
– A senhorita escreve? — perguntou. Ela balançou a cabeça negativamente e olhou para a caderneta. Suspirou e comprimiu os lábios, então a fechou. — Parece intrigada. Há algo de errado naquelas frases?
Considerou contar a ele. Era, afinal, um estrangeiro. Quem sabe aquilo fizesse sentido em alguma outra língua. Forçou-se a descartar a ideia, sem sucesso. Antes que pudesse mudar de ideia, despejou o que sabia.
– Vieram em uma embalagem, não sei quem ou por que me enviou. Estou tentando entende-las há dias.
– Posso ve-las? — ele pediu, e ela estendeu a caderneta e observou em silêncio enquanto ele lia. Ele passava o indicador nas suíças e no bigode louro enquanto lia, e depois depositou o caderno na mesa. Nesse momento a criada depositou a bandeja com a bebida fumegante na mesa e se afastou rapidamente. Ela o olhou, cheia de expectativa, mas ele apenas meneou a cabeça.
– Não faço ideia do que pode ser — admitiu, entre dois goles de chá — Mas me parece realmente interessante. Não tem nenhuma pista de quem a enviou? Ou pelo menos de onde?
Ela suspirou e meneou a cabeça.
– Não foi o carteiro que entregou. Mas bem... Pode ser que o sujeito que me entregou seja uma pista.
Ele assentiu, encorajando-a a descreve-lo.
– Tinha o cabelo alaranjado, sem suíças. Olhos escuros, e parecia se exercitar com frequência. Seu semblante não dizia absolutamente nada, e a única comunicação que estabeleceu comigo ao me dar o embrulho foi um sorriso e as palavras "Boa Sorte". — ela contou. Kurt pensou por um instante.
– E o que havia no embrulho?
Ela puxou a corrente debaixo do vestido e a tirou do pescoço, estendendo-a. Ela a examinou curiosamente.
– É engraçado. A pedra não é comum para uma corrente. Tudo isso é realmente a coisa mais interessante que me aconteceu este ano. — sorriu. — Acho que devo agradece-la por isso.
Ela corou e abanou a mão.
– Imagine. É a minha retribuição pela grande doação que o senhor fez... Foi realmente muito grande, e não sei o que teríamos feito sem ela. Muitíssimo obrigada. — sorriu.
– Não há de quê. Sempre acreditei no investimento em arte. — retribuiu o sorriso, e ela pensou ver uma piscadela.
E nesse exato momento, a segunda embalagem chegou.
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