Imperium
20 XX - Bastardo Real
Jessamine Lovelace andou de um lado para o outro, o coração acelerado dentro de seu peito, arrastando um dos polegares pela palma da outra mão em uma tentativa de se acalmar. O sol estava se pondo e duas criadas leais haviam acabado de sair após acender suas velas, mas tudo em que conseguia pensar, era em como sua “entrega” estava atrasada. O homem deveria ter chegado há horas, logo depois do chá da tarde, quando ela havia feito suas rondas pela corte. Era costume para uma mulher grávida entrar em reclusão durante as últimas semanas de seu estado, afinal a escuridão e o silêncio eram essenciais para gerar um bebê saudável, principalmente aqueles com sangue real, mas Jessamine não estava realmente grávida e Jonathan não se importava o suficiente com a criança para exigir um confinamento de sua amante.
Ela deveria ficar chateada com sua falta de interesse, principalmente quando se pensava na gravidez de Clarissa. Por Deus, a estrangeira andava pelos corredores com um sorriso enorme no rosto, as duas mãos postas sobre sua larga barriga, sabiamente ciente de que a criança em seu ventre era sua garantia do posto de rainha. Jessamine mantinha-se longe do olhar da jovem, afinal esposas conseguiam farejar as amantes, mas sempre a observava. A austríaca era uma mulher pequena, mal chegava ao metro e sessenta de altura, com quadris estreitos e seios pequenos, mas a gravidez a havia dado aquele peso tão desejado. Seu queixo estava mais macio, com uma leve papada, e as bochechas possuíam a sombra de uma cor rosada adorável. Clarissa era religiosa demais para usar maquiagem com frequência, mas agora parecia estar com uma leve camada de rouge permanente em seu rosto.
E Jonathan era o rei. Por algum motivo inexplicável, o velho Stephen morreu sem ela fazer uso de sua cicuta. Uma autópsia foi feita, todos na corte não conseguiam parar de falar sobre isso, e o médico encontrou líquido em seus pulmões, além de uma mancha escura perto do coração. Todos os sinais apontavam para câncer, de todas as coisas. Com a morte de seu pai, Jonathan Herondale havia ascendido ao trono como Jonathan Christopher I e seus dias eram cheios. Reis eram pessoas ocupadas. Três reinos dependiam de suas decisões.
Era o que Jessamine dizia a si mesma quando sentia dúvidas sobre o relacionamento entre eles. Se ele não a amasse mais, teria a jogado para fora. Ele não visitava mais sua cama, realmente, mas tudo poderia ser atribuído a gravidez. Ele era bom demais para isso. Jonathan não iria arriscar a saúde de seu filho, de seu primogênito.
Nada era certo sobre o bebê de Clarissa. Poderia ser natimorto, ou fraco. Poderia ser uma menina. A austríaca era a esposa do rei, mas para ter poder verdadeiro, era necessário ser a mãe de sua majestade e essa posição iria pertencer à Jessamine.
Ela olhava para a porta do quarto cada segundo. O cômodo ficava no primeiro andar do Palácio de Hampton Court, a nova residência real de seu Jonathan. No canto, havia uma larga cama de parto, os lençóis sujos de sangue de porco para tentar imitar um trabalho autêntico. Jessamine usava uma larga camisola, o cabelo loiro caindo sobre os ombros. Ao seu lado, o médico e as parteiras estavam juntos em um pequeno círculo, contando as moedas pagas por ela em suas mãos magras e sujas. Eles iriam manter o silêncio, se soubessem o que era bom para eles.
Jessamine olhou para a porta novamente e, como se seu olhar tivesse poder, duas batidas soaram contra a velha madeira, depois mais uma, finalizando com três seguidos. Era o sinal combinado entre os dois. Ela correu para abrir e viu o homem alto parado ali, com cabelo escuro e olhos azuis, o rosto sujo. Em suas mãos, ele carregava uma trouxa gentilmente.
— Alguém te viu? — Jessamine perguntou, assustada. Se alguém tivesse o visto, se alguém contasse... Todo o plano estaria acabado.
— Não — o homem disse em seu sotaque escocês. — Fiz como pediu. A prostituta foi bem receptiva quando lhe expliquei a situação.
— Qual era a cor do cabelo dela? — Jessamine não olhava mais para o homem, mas sim para o pacote em suas mãos. Um nó de tecido, ela conseguia ver, suas mãos enormes apoiando a cabeça macia com todo o cuidado possível. O bebê estava dormindo, as mãos e pernas fracas demais para qualquer movimento. Ele havia nascido na noite anterior, no bordel da Madame Belcourt, como tantas outras crianças antes, mas, ao contrário das outras, esse menino possuía sangue real.
— Loiro. — Jessamine assentiu. Isso era bom. Isso era muito bom. — Ela disse ter recebido uma visita do príncipe meses atrás, como você havia dito. Ele estava recebendo uma carta da irmã, ela disse. Princesa Cecil? Não importa, imagino.
— Não importa mesmo. Você deu-lhe o dinheiro? — ela olhou para o homem novamente.
— Sim — ele respondeu e Jessamine gostou de ouvir aquilo. A mãe de seu filho precisava ser bem recompensada, afinal, para manter a boca fechada. — Onde está o meu?
Ela balançou a cabeça, voltando a realidade. Aquele era o trato entre os dois. Ele lhe arrumava o bebê de Dolly e ela lhe pagava em dobro. Seiscentas libras, a vista. Jessamine pegou a bolsa de dinheiro em uma cômoda perto da porta e ele se ajeitou, preparando para lhe entregar a criança.
A diferença de peso foi a primeira coisa a que notou. O bebê era mais pesado, porém muito mais macio. Os panos ao seu redor se mexeram enquanto ela o ajeitava em seus braços, caindo para baixo e revelando uma cabeça cheia de cabelos dourados, bochechas gorduchas e olhos ainda inchados do nascimento. Parecia-se com um bebê, não muito diferente dos outros vistos por Jessamine, mas aquilo não importava. Ela puxou o tecido ainda mais, apenas para exibir seu peito rosado, e, como um selo de aprovação, ali estava.
A marca de nascença Herondale estava no meio de seu peito, em cima do seu coração. Uma pequena marca branca, pálida como leite, na forma de uma estrela. Era quase como uma cicatriz, mas não marcava a pele como sinal de uma batalha passada, mas sinalizava aquele menino como um Herondale. Apenas os homens daquela família poderiam ter esse sinal, e apenas eles poderiam passar para frente. Jonathan possuía uma igual, porém em seu ombro esquerdo.
Jessamine encarou aquela marca enquanto o homem saía do quarto, voltando para o buraco de onde saiu, as parteiras gentilmente a levando para a cama. Jessamine mal percebeu quando se deitou contra os travesseiros macios, uma das mulheres jogando um cobertor por cima de suas pernas desnudas. O bebê abriu seus olhos, as írises azuis focando nela com uma indiferença notável. Ele não chorou ao vê-la, talvez nem percebia a falta do calor materno do qual desfrutou por nove meses, apenas a encarou por longos períodos de silêncio, antes de voltar a dormir lentamente.
Ela se virou para uma das parteiras.
— Chame Vossa Majestade — disse, a ordem laceada em sua voz. — Diga que dei à luz a um menino. Caso ele pergunte, fale que o parto progrediu tão rápido que foi impossível poder ir chamá-lo.
A mulher fez uma cortesia.
— Sim, minha senhora.
Jessamine não a viu sair. Seus olhos se voltaram para o menino em seus braços, tão pequeno e tão precioso. Ele soltou o suspiro mais adorável e mais gentil de todos os tempos, estalando os lábios. Ela se perguntou quando ele se alimentou pela última vez, talvez logo quando o homem o pegou no bordel? Hampton Court não era muito longe de Londres, mas bebês recém-nascidos precisavam comer com frequência.
Ela olhou para o médico e as outras duas mulheres. Suas mãos estavam sujas de sangue animal. Jessamine insistiu naquilo. Era uma atriz, sabia como deixar uma cena realista. Jonathan precisava acreditar em sua mentira. Para todos os efeitos, Jessamine havia acabado de dar à luz.
Seus seios não estavam produzindo leite desde seu aborto espontâneo meses antes, portanto não iria conseguir alimentar o menino sozinha, mas muitas mulheres não conseguiam. Seu estado poderia ser explicado facilmente. Se tivesse que adivinhar, Clarissa também não iria poder amamentar o filho crescendo em suas entranhas. A maioria das mulheres nobres não podia, preferindo fazer o uso de amas de leite pelo bem de produzir novos filhos, principalmente aquelas casadas com reis cuja prole chegaria a governar.
Caso ela pedisse para eles encontrarem uma ama de leite naquele momento, será que eles obedeceriam? Deveriam, se soubesse o quão importante aquele menino chegaria a ser. O filho de Jessamine precisava receber o melhor leite da melhor ama.
Mas Jessamine não precisou pensar muito sobre isso, pois a porta do quarto abriu de supetão e Jonathan entrou, as bochechas coradas como sinal de que ele havia corrido até ali. Seu coração se aqueceu com a intensa necessidade dele de vê-la, de ver seu filho, e qualquer dúvida que ela poderia ter sobre seu amor desapareceu naquele momento.
— Jonathan — ela suspirou, a voz gentil.
— Jessie — ele suspirou de volta. Jonathan balançou a cabeça e olhou para o médico e as parteiras, pagas por Jessamine para estarem ali, as costas curvadas em uma reverência. — Está tudo bem?
A voz dele estava desesperada, ansiosa, e ela se lembrou de sua mãe. Céline de Montclaire morreu na cama de parto quando Jonathan era apenas um garoto de oito anos e a dor de sua perda era algo que ele ainda sentia, e talvez sempre iria sentir.
— Sim, Vossa Majestade — o médico disse. — Nenhum sinal da febre do puerpério.
— Isso é bom — Jonathan murmurou. Ele lambeu os lábios e andou até ela, os passos nervosos e tímidos de um jeito nunca visto antes por ela.
O Rei da Inglaterra se sentou na cama ao lado de Jessamine, estendendo os braços em sua direção. Ela entendeu seus desejos imediatamente e colocou o menino em seu colo de maneira gentil. Jonathan suspirou. Ele segurava o bebê com uma maestria que ela não esperava dele. Até onde sabia, esse era o primeiro filho de seu amante, mas ela se lembrou dos filhos de Alexander Lightwood, Maxwell e Eugenia, e como Jonathan era o padrinho do menino. Ele deveria tê-los segurado inúmeras vezes desde seu nascimento.
Ele olhou para o rosto do menino e um sorriso tímido tomou seus lábios rosados. Os olhos dourados dele brilharam, como se estivessem cheios de lágrimas, e ele tocou na bochecha macia do bebê com seu polegar, impossivelmente grande quando comparada aos dedos frágeis do pequeno. Jessamine segurou a respiração, maravilhada com aquela imagem, e desejou intensamente que a porta se abrisse novamente e Clarissa entrasse. Se a Rainha visse aquilo, desejaria estar de volta no buraco austríaco de onde havia saído.
Com lábios trêmulos, Jonathan plantou um beijo macio na testa do bebê.
— Vamos dá-lo seu nome — Jessamine sussurrou. Ela não queria quebrar a preciosidade daquele momento, mas era necessário. Se ele desse o próprio nome para aquele filho, não poderia fazer o mesmo para qualquer criança nascida por meio de Clarissa.
Jonathan ergueu o rosto e olhou para as pessoas ainda presentes. O médico e suas parteiras, plebeus desesperados por dinheiro o suficiente para mentir por ela para o rei daquelas ilhas britânicas.
— Deixem-nos sozinhos — ele murmurou, usando a sua voz de rei. Os outros fizeram uma reverência, saindo rapidamente do quarto, as costas viradas para a porta. Quando estavam finalmente sozinhos, Jonathan se virou para Jessamine com um olhar que ela não reconhecia. — Precisamos conversar.
— Sim. — Ela assentiu. — Mas é claro.
Jonathan suspirou. Jessamine estendeu os braços, desejando que ele devolvesse o bebê para seu colo, mas o Rei não se moveu. Ele mal falou e o coração de Jessamine se acelerou dentro de seu peito. Algo iria acontecer, ela conseguia ver. Algo importante. Algo que iria mudar tudo.
— Eu irei chamá-lo de Christopher — Jonathan disse e ela ficou quieta. Christopher era um bom nome, mas não era comum na família real. Jonathan era o primeiro a usá-lo, mesmo se fosse um nome conjunto. — Cuidarei bem dele. Lhe darei comida, roupas e educação. Ele será tratado como um príncipe do sangue e irá ser criado com amor. Ele será leal aos irmãos legítimos e nunca se tornará uma ameaça a eles.
Não, Jessamine pensou, desesperada e as palavras se prenderam em sua garganta, desejando ser ditas, Você está arruinando tudo!
— Por que diz isso? — ela murmurou. — Nós iremos criá-lo juntos, não é mesmo? Seremos uma família.
Jonathan se levantou, ainda com o pequeno Christopher em seus braços e andou para longe. Jessamine desejou se erguer e andar até ele, arrancar o menino de suas mãos. Ela queria exigir seus direitos como sua mãe, mas suas pernas estavam presas ao colchão e ela não conseguia se mexer.
— Por toda a minha vida, eu procurei algo — Jonathan começou a dizer. — Quando minha mãe e meu irmão morreram, eu perdi duas pessoas importantes para mim. Duas pessoas que me amavam. Quando minhas irmãs foram embora, eu perdi duas pessoas que eu amava. Eu procurei algo em mulheres como você, mulheres sem culpa de qualquer coisa. Eu procurei amor e devoção sem qualquer condição em pessoas que não precisavam dar isso para mim. — Ele olhou para o bebê, dormindo em seus braços como um anjo. — As coisas mudaram.
— Do que você está falando? — Jessamine perguntou, sem acreditar nas coisas sendo ditas. — Está me deixando?
Ele não respondeu sua pergunta diretamente:
— Sou um rei agora. Preciso dar amor e devoção ao meu reino. Meus súditos precisam de mim, como Christopher precisa de mim. — Jonathan sorriu, ainda olhando para Christopher. — Sinto muito, Jessamine. — Agora ele estava olhando para ela e seu rosto não refletia o tom de suas palavras. Ele não sentia muito. Ele não sentia nada. Os dois anos entre eles poderiam ter sido nada pelo desinteresse em sua expressão. — Eu lhe darei dinheiro, o suficiente para você sobreviver esses primeiros meses, e falarei com a companhia de teatro. Eles irão te aceitar de volta, posso garantir.
— Está mentindo — ela disse, a voz trêmula com raiva e tristeza. — Eu te conheço, Jonathan. Você não iria me deixar em favor do reino. Você não me deixaria por seu pai, então não faria o mesmo pelo reino!
O bebê choramingou, mas Jonathan o balançou com cuidado e ele logo voltou a dormir. Ele sussurrou algo em francês, algo como uma música. Jessamine não conseguiu entender nada além de frére Jacques, frére Jacques.
— Jonathan — ela disse, a voz forte. Quando ele se virou para ela, Jessamine estendeu seus braços novamente. — Dê-me meu filho.
— Eu não posso — ele respondeu e sua voz estava dura, quase gélida. — Você tem razão, Jessie. Eu menti. Estou te deixando porque eu encontrei esse amor e devoção. Eu encontrei alguém que me ama sem nenhum motivo, sem nenhuma condição. Eu preciso devolver esse amor. Ela me dá tudo de si e eu devo responder com minha lealdade. É o mínimo que eu posso fazer.
Jessamine hesitou. Ela olhou para seu colo, deixando seus braços caírem e viu como suas mãos estavam tremendo. Se era por medo ou raiva, ela não era capaz de dizer. Quando ergueu seu rosto novamente, lágrimas quentes deslizaram por suas bochechas. Mesmo já sabendo de quem ele falava, ela ainda precisava ouvir de sua voz.
— Quem? — Jessamine perguntou.
— Minha esposa — ele respondeu. Sua expressão deve ter mudado, porque ele inclinou a cabeça levemente, apertando seus lábios em um bico. Em nenhum outro momento, ele a lembrou tanto de Nate. — Não fique triste, Jessie. Você nunca me amou. Não mesmo. Você amava meu título e eu quis acreditar em uma mentira.
Isso a fez se levantar, os joelhos prensando o colchão. Seu corpo estava tremendo, a temperatura subindo e suor se acumulando. Se ela pudesse atingir Jonathan com apenas seu olhar, ela o faria. Ela criaria uma ferida em seu coração para ele sangrar suas lágrimas, como uma cena de uma tragédia grega.
— Se você acha que eu irei desistir, está enganado — ela disse, a voz se erguendo e ficando cada vez mais alta. — Se você acha que eu deixarei você me esquecer como um objeto a ser descartado, está errado! Eu sou Jessamine Lovelace! Eu serei rainha e minha família irá governar!
O olhar que ele dirigiu a ela era algo como pena, como uma mãe olharia para seu filho, ou um médico para seu paciente. Como alguém triste e pequeno, necessitando de ajuda ou assistência.
Jonathan desviou seu olhar para Christopher, o sorriso voltando aos seus lábios.
— O que você achou que iria acontecer? — perguntou Jonathan, quase sussurrando. — Quando nos conhecemos, eu era um príncipe e você, uma atriz. Você não tem ranque o suficiente para se casar com alguém de sangue real. Príncipes se deitam com plebeias, damas da Corte, mas, na hora de se casar, eles sempre devem escolher uma princesa. É o jeito das coisas. — ele balançou sua cabeça e Christopher suspirou, espreguiçando nos braços de seu pai. — Estávamos apenas adiando o inevitável. Se chegasse o momento em que eu precisasse escolher entre você e Clarissa, seria ela. Sempre seria ela.
Ele olhou para ela mais uma vez e seus olhos refletiram o turbilhão de emoções que ele devia se sentir como um mar de dourado, ondas quebrando umas sobre as outras. Jessamine quis se levantar e estapear seu rosto. Arranhar sua pele. Socar seu nariz, fazê-lo sangrar. Mas a imagem do pequeno Christopher nos braços de seu pai a fez parar. Ela não poderia colocar o menino em risco. Ele seria sua salvação.
— Teremos um batizado em duas semanas — ele sussurrou, mas ela conseguiu ouvi-lo muito bem. Bem até demais. — Quero você fora do palácio antes disso.
Então, ele saiu, deixando Jessamine sozinha no quarto. Ela estava presa entre lençóis manchados de sangue de porco e paredes bordadas com a garça dos Herondale. Sentia como se tudo estava se apertando ao seu redor, comprimindo suas costelas e expelindo o ar de seus pulmões.
Se você acha que eu irei desistir agora, quando eu cheguei até aqui, ela pensou, tremendo, está muito enganado.
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Clarissa juntou suas mãos em seu colo, nervosamente olhando para o lado. Sua cabeça estava inclinada de maneira sutil, um movimento tão gentil que seria difícil imitar em qualquer outro momento. Os irmãos Lightwood estavam parados ao seu lado, altos e escuros. Isabelle segurava um punhado de papéis, virados para si como se ela estivesse lendo. O cabelo de Isabelle havia sido preso para cima e ela usava um vestido amarelo, um tom quase mostarda, com joias adornadas com madrepérolas. Ela estava linda.
Apesar de não se orgulhar por admitir isso, Clarissa sentia inveja da moça. Seus olhos negros eram maravilhosos, como pedras de ônix presas em um rosto de porcelana. Ela era perfeita. Ninguém possuía dúvidas sobre sua educação e etiqueta. Omitindo sua tenra idade, a irmã mais nova do Duque de Norfolk foi a escolha perfeita para ser a secretária privada da rainha.
E Clarissa teve seus momentos de egoísmo na escolha também. Jonathan possuía amantes; aquela atriz que todos comentavam, mas ninguém achava certo lhe dizer qual era seu nome. E deveria desejar Isabelle. Ela era linda. Quem não a desejaria? Tê-la dado o posto de secretária privada foi uma tentativa de tentar dissuadi-la da possibilidade de esquentar a cama de Jonathan. Se pudesse impedir seu marido de dormir com uma de suas damas, ela o faria.
Alexander estava parado ao lado da irmã, com um casaco longo e verde. Seu cabelo negro caía em ondas sobre suas costas, comprido o suficiente para atingir seus cotovelos. Ele parecia sério, ou pensativo, mas estava quieto. Desde sua entrada naquela sala, ele não havia falado uma palavra, além dos comprimentos usuais.
Helen Blackthorn havia acabado de voltar de sua visita aos domínios de seu pai. A morte de sua madrasta forçou a dama a ficar no solar de sua família, cuidando dos irmãos mais novos por algumas semanas enquanto todos que dividiam seu sangue ficavam de luto pela falecida Marquesa. A jovem loira estava sentada perto de Clarissa, anotando as coisas que a rainha havia acabado de lhe dizer, porém não o suficiente para ser um incômodo ao pintor.
O homem, magrelo e alto, estava parada em frente ao cavalete de madeira. Ele segurava um pincel com mãos certeiras e precisas. Os olhos castanhos viajavam da tela a Clarissa. A Rainha estava sentada em uma cadeira, perto da janela aberta para que o sol deixasse seu cabelo brilhante e sua pele mais saudável. Ela usava um vestido branco, as mangas apertadas em seu braço, com um colar de safiras que havia pertencido a sua avó, la Reine Adele.
Ela olhou para sua barriga, inchada e projetando-se para frente. Com o passar das semanas, ela ficava cada vez mais pesada, caindo como as velhas criadas diziam que iria fazer quando chegasse o momento para ela parir. O bebê se movia embaixo das saias, chutando as entranhas de sua mãe. Clarissa saboreava aqueles chutes, apesar do incômodo. Com o bebê se mexendo, ela poderia ter certeza de sua sobrevivência. Não havia nenhum desejo dentro de si em dar à luz a um bebê morto.
Mas olhar para seu filho em crescimento enquanto se sentava para um retrato, ela não sentia nenhuma felicidade com o parto iminente.
A pintura havia sido uma insistência de Charlotte Branwell. Era uma tradição, ela disse. Muitas mulheres morriam no puerpério, o suficiente para ser uma coisa comum, portanto, damas nobres nas semanas finais de sua gravidez deveriam ter um retrato feito para que a criança, caso ele ou ela sobreviva, possa conhecer o rosto de sua mãe.
— Todo mundo faz isso, Vossa Majestade — a Condessa de Pembroke murmurou. — Não se preocupe, minha rainha. Estou certa de que tudo irá dar certo. Vossa Majestade é uma mulher jovem e saudável.
Ela mesmo recomendou o artista. Disse que ele a fez parecer uma deusa, sem qualquer crítica ao nosso Senhor, madame, quando ela estava carregando seu filho, Charles Branwell. Ela recomendou o artista e Clarissa estava inebriada demais para recusar a possibilidade.
Não era seu primeiro retrato. Sua mãe era uma patrona das artes, mantendo uma corte pessoal de pintores, músicos e autores ao seu redor, portanto insistia em ter retratos anuais de sua família, incluindo pinturas pessoas de cada membro da casa imperial. Mas a situação era completamente diferente do que um dia de sua infância na Áustria. As pinturas feitas durante sua vida na corte de Schönbrunn serviam para apresentá-la aos súditos de seu pai, para mostrar a perpetuação e força da família imperial, mas essa era uma corte diferente, um país diferente e um motivo diferente.
Se ela morresse no parto, seu filho iria crescer com aquela pintura como sendo uma das únicas representações de seu rosto. Se ela morresse...
— Senhora, — o pintor disse com seu sotaque italiano, chamando sua atenção de volta para o mundo real. Quando Clarissa olhou para os outros presentes, viu que todos a encaravam. — Está tudo bem? Podemos fazer uma pausa, se quiser.
Sophie Collins, parada perto da janela, correu até Clarissa, ajoelhando-se ao seu lado.
— Você gostaria de um lanche, senhora? Alguma bebida? — perguntou. — Está muito quente, Vossa Majestade.
Clarissa balançou sua cabeça.
— Não será necessário, monsignor — ela murmurou, olhando para Sophie. A sua amiga deu um sorriso gentil. — Isabelle, por favor, continue.
A dama assentiu e andou para frente, ainda segurando o punhado de papéis. Ela parou ao lado de Helen, que estava com uma pena em sua mão, esperando por novas decisões necessitando de registro.
— Como eu estava dizendo, Vossa Majestade, acreditamos que a Casa de Buckingham será perfeita para os seus desejos — disse. — Sua localização em Londres é ótima e muitos comuns da periferia poderão encontrar o caminho facilmente. A quantidade de quartos também nos permitirá cuidar de vários habitantes ao mesmo tempo. A cozinha possui um tamanho considerável, portanto os seus desejos poderão ser realizados.
Clarissa assentiu. Ela olhou para Alexander, ainda parado em seu lugar original.
— Você acha que o Rei irá permitir nosso uso de uma das casas de sua família?
O Duque inclinou a cabeça.
— Acredito que sim, Vossa Majestade — ele disse. — O Rei não possuí nenhum afeto pela Casa de Buckingham, assim como a maioria das propriedades reais.
Clarissa ergueu uma sobrancelha e o pintor estalou sua língua, desaprovando.
Apesar de nunca ousar dizer isso em voz alta, ele era muito irritante. Insistia em pintar todo o retrato naquele mesmo dia, pois um feixe de luz bateu em Clarissa do jeito certo e ele estava extremamente inspirado, como se o Sol não fosse bater nos aposentos reais no dia seguinte, ou na semana seguinte, do jeito que fazia todos os dias desde o fim do inverno e início da primavera.
Ela mesma havia tentado uma vida de artista, durante sua infância, mas o Imperador impediu qualquer desenvolvimento dessa habilidade quando ela completou dez anos. Uma princesa não poderia ser uma pintora, ele disse.
Mas, mesmo se tivesse sido uma pessoa com habilidades artísticas, ela nunca seria como ele. Nunca.
— Nenhuma propriedade? — Clarissa perguntou, não acreditando.
Alexander inclinou sua cabeça novamente, como um sino antigo e pesado.
— Talvez York, Vossa Majestade — ele murmurou. — Eu sei que o Rei passou seus anos mais felizes em seu ducado de nascença.
Clarissa assentiu. Jonathan era um filho mais novo, como ela teria sido se tivesse nascido no gênero oposto, e seus estudos juvenis não haviam sido focados em governar e história, mas a morte de seu irmão mais velho mudou tudo.
Ela se perguntava o que teria acontecido se William tivesse sobrevivido. Seu pai provavelmente a teria casado com ele, pois era o herdeiro ao trono inglês. Sua vida poderia ter sido muito diferente. Clarissa não conseguia se imaginar se apaixonando pelo irmão de seu marido como ela havia se apaixonado por Jonathan, não era seu jeito.
E William também era muito bonito. Todos os Herondale pareciam ser.
Um dia, durante uma de suas rondas na corte, quando o pai de Jonathan ainda estava vivo e ela não sabia sobre o bebê crescendo em seu ventre, Clarissa encontrou um retrato apoiado em uma parede. A pintura era grande, talvez de seu tamanho, e pendia sobre ela como um largo rosto. O homem retratado era jovem e muito belo. Seus traços eram elegantes, como um rei deveria ser. Suas maçãs do rosto eram altas, seus cílios, longos e espessos. Ele possuía lábios cheios e amáveis, algo tirado de uma das pinturas dos velhos mestres. Um querubim caído dos céus, ou uma representação de Hades, pronto para raptar Perséfone. Ele era a idade barroca trazida a vida: luz e escuridão, unidos juntos como um furacão tomando conta da Terra.
— Quem é esse senhor? — Clarissa perguntou, virando-se para dois cortesões perto dela.
Os dois homens correram para se colocar ao seu lado, caindo em reverências.
— Esse, Vossa Alteza, é Sua Alteza Real, o Príncipe William — o primeiro disse, mais gordo e suado.
— O irmão mais velho de vosso marido, minha princesa — o segundo correu para dizer. — Nosso amado príncipe faleceu devido ao mal da tuberculose em 1718.
— Oh — Clarissa sussurrou, olhando para o quadro com novos olhos. — Como ele era?
— Ah, Vossa Alteza, o Príncipe William era um homem maravilhoso — o segundo homem disse. — Muito inteligente. Ele era um bom conversador, poderíamos discutir os clássicos com ele por horas sem perceber o passar do tempo!
Clarissa assentiu. Sabia que se perguntasse para qualquer outra pessoa, eles cairiam em elogios sobre sua personalidade e caráter, mas não era isso o que ela queria ouvir. Todos falariam bem de um homem morto, esquecendo suas falhas e problemas. Ela sabia mais sobre seu falecido cunhado com pequenos comentários sobre a família real em todo. O clérigo correu para falar sobre como ela era a primeira pessoa a doar aos pobres desde a morte de Céline de Montclaire, sobre como o último rei a sair do território inglês fora James II, bisavô do marido de Clarissa, apesar de ele ser Rei da Inglaterra, Escócia e Irlanda, sem contar o principado de Gales.
William era um homem maravilhoso, mas ele não fazia caridade. William seria um ótimo rei, mas ele nunca visitou a terra natal de sua mãe.
Ela queria a verdade sobre William, não as mentiras brancas criadas para salvar a imagem de um homem morto.
Ela queria demais.
Clarissa olhou para os dois homens e deu seu sorriso mais doce.
— Muito obrigada.
— Mas é claro, minha senhora. É um prazer lhe ajudar — o primeiro homem disse. — Sabe, princesa, eu gostaria de te perguntar sobre uma possível nomeação ao conselho privado do rei...
Ela não ouviu o resto, preferindo voltar seus olhos ao quadro em sua frente. O irmão falecido de Jonathan não era parecido com ele. Para ser honesta, eles eram opostos completos. Se Jonathan era o sol, William era a lua e as estrelas. Jonathan era ouro e William era a prata. Eram meio-irmãos e isso ficava óbvio em suas aparências.
Clarissa olhou para Alexander. Ele estava parado, ainda esperando sua resposta.
— Se meu amado marido ama tanto York, nós deveríamos visitá-lo com mais frequência.
— Suponho que sim, Vossa Majestade. — Alexander deu de ombros.
Clarissa assentiu, sem saber exatamente o porquê. Ela desviou seu rosto para Isabelle, ainda parada perto de Helen, que estava anotando a discussão entre as duas.
— Continue, Isabelle — ela pediu, a voz gentil. — Perdoe-me por tantas interrupções.
A moça sorriu, seus olhos brilhando.
— Não se preocupe, Vossa Majestade — respondeu. Ela olhou para seu papel novamente. — Estou procurando membros da universidade de Oxford dispostos a fazerem os cálculos de lençóis, camas e travesseiros. Sophie Se a rainha desejar, podemos começar a contratar as cozinheiras na próxima semana e teremos os primeiros inquilinos em poucos meses.
Clarissa assentiu
— Deve garantir de que eles não saibam que esses cálculos serão para mim — ela murmurou. — Ninguém fora dessa sala pode saber sobre isso. — seus olhos se voltarão ao pintor, pincelando sua tela como se não tivesse acabado de ouvir tudo isso. — Monsignor Garau?
Ele ergueu seu rosto.
— Sim, Vossa Majestade?
— Posso contar com seu silêncio?
Alexander deu um passo para frente e o pintor engoliu em seco visivelmente. Ele olhou para frente, para Clarissa, e assentiu.
— Mas é claro, minha rainha — ele disse. Ele colocou uma mão pálida e longa sobre o peito. — Seu segredo está seguro comigo.
Clarissa sorriu e se virou para Isabelle, ainda parada perto de Helen Blackthorn.
— Por favor — ela disse. — Continue.
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Meu amado irmão,
Gabriel e eu nos reconciliamos. Há uma semana, ele cavalgou até mim no começo da noite e me prometeu acabar com suas amantes. Acabar com tudo que estivesse entre nós. Há uma semana, estamos mais unidos do que nunca e eu acho que devo te agradecer por isso. O Rei nunca falou nada, mas eu tenho quase certeza de ter visto a sombra de seu dedo em suas ações. Você lhe mandou uma carta? Como você é bom. Será um rei melhor do que papai, tenho certeza. Quando Ella lhe contava sobre os problemas de seu casamento com Frederick William, ele simplesmente a ignorava.
Não que meus problemas sejam parecidos com os de Ella, longe disso.
A Infanta Anna estranhou Gabriel no começo, mas ela pareceu se lembrar de seu amado pai no segundo dia. Fiquei culpada com esse retrocesso, o relacionamento deles sempre foi muito especial para mim, mas todos cometemos erros nos últimos cinco meses. Nós estamos dispostos a recomeçar e nos apaixonar novamente, de uma maneira adulta e entre iguais.
Cecily afastou a pena do pedaço de papel, se perguntando sobre o quanto iria contar ao irmão. Ela estava tão ansiosa para poder sentar e escrever uma carta a Jonathan, mas, como se fosse mágica, ao se sentar, todas as palavras desapareceram de sua mente. Ela torceu seus lábios, inclinando a cabeça levemente.
Suas damas estavam sentadas ao seu redor. A Marquesa de Cañete bordava os contornos de uma manta branca, criando um perímetro de chamas Lightwood; A Duquesa de Escalona lia uma cópia antiga de Os Lusíadas e a Condessa de Toreno parecia perdida dentro daquela sala, segurando uma roda de bordados sem realmente fazer nada.
Elas estavam com ela desde seu primeiro dia em território espanhol. Gabriel as selecionou pessoalmente e as moças eram de sua idade, com gostos comuns e uma lealdade impressionável. Não iriam traí-la para Gabriel, algo já provado nos últimos meses quando, a pedido de Cecily, elas não contaram ao rei sobre sua gravidez.
Eram suas amigas e Cecily as amava.
Ela sorriu e voltou a sua carta. Estava sentada em uma mesa em frente a janela, as costas viradas para o interior de quarto, e o Sol batia em seu rosto. Cecily molhou a ponta de sua pena em seu pote de tinta preta e continuou a escrever.
Continuamos em Aranjuez e a intimidade do palácio me lembram do porquê eu amo tanto essa residência. Apenas convidados especiais do governo quebram essa perfeição, conselheiros do qual Gabriel precisa para continuar seu reinado e que devem testemunhar o nascimento — como você já deve saber, ministros do governo e lordes camareiros, além de algumas damas. Um total de setenta pessoas estará comigo quando eu der à luz, mas a ideia de ser apenas setenta, e não duzentos como foi com Anna e Juan, me dá calma e certeza.
Esse filho irá sobreviver. Mesmo se fosse uma menina, minha posição estaria mais certa. E eu não me acho capaz de sobreviver a perda de mais uma criança do meu sangue. A dor que eu sinto por meu amado Juan é indescritível. O vazio em meu coração sempre ameaça me engolir por completo. Você me entende como qualquer outra pessoa, mas você não irá conseguir compreender essa dor. Não agora, pelo menos. Para entender, é preciso viver. Eu nunca desejaria isso para você, Jonathan, mas preciso ser honesta. Vivemos em uma época em que crianças morrem. Bebês nascem mortos. A continuação de uma família nunca está garantida.
Estou muito feliz por meu sobrinho iminente e sinto em dizer que não serei capaz de atender sua coroação. Meu lugar é ao lado de meu marido. Mesmo se não tivesse que me recuperar desse parto, eu deveria ficar aqui na Espanha. Gabriel deverá mandar um embaixador para ficar em seu lugar, e ele irá representar a nós dois. Sei que isso nunca será o suficiente, mas você deve entender. Quando o imperador morrer, você não espera que Clarissa saia da Inglaterra para atender a coroação de seu irmão, não é mesmo?
Espero sua resposta ansiosamente.
Com amor,
Cecily Herondale.
Ela colocou sua carta de lado, esperando a tinta secar para poder selar a carta e enviá-la. O bebê chutou suas entranhas, um pé cutucando suas costelas, e ela suspirou, apoiando as mãos em cima de sua barriga em uma tentativa de aliviar seu desconforto.
Cecily não gostava de estar grávida. Ela não se sentia bela, ou a vontade dentro de seu próprio corpo, mas era um mal necessário, além do que, um estado temporário. Se ela quisesse quietar os rumores sobre seu lugar na corte espanhola, precisava gerar um filho homem. Apenas um menino e tudo ficaria bem.
Gabriel não iria se deitar com ela enquanto ela estava grávida, mas Cecily não achava que estaria disposta a fazê-lo, pelo menos não nesse estágio. Uma noite perfeita para a Rainha da Espanha era uma noite bem dormida.
Balançando a cabeça para se esquecer daquele assunto, Cecily olhou para a pilha de cartas fechadas em sua frente. O correio havia sido entregue naquela manhã. Suspirando, ela pegou a primeira carta e quebrou o selo portando o brasão de armas da Rainha da Inglaterra, Escócia e Irlanda.
Querida Cecily,
Soube de sua gravidez e estou animada pela ideia de estarmos passando por isso ao mesmo tempo. Nossos filhos serão primos da mesma idade, talvez os futuros reis? Tenho certeza de que os criaremos da melhor forma possível para serem príncipes ou princesas.
Como alguém que já deu à luz em sua vida, gostaria de saber sobre possíveis dicas que você poderia me dar. Confio em você para ser honesta.
Perdoe-me por essa carta ser tão curta.
Sinceramente,
Sua cunhada, Rainha Clarissa.
Cecily não conseguiu impedir o sorriso que tomou seus lábios. Clarissa era uma boa alma, talvez um pouco ingênua demais, mas boa.
Ela pegou uma de suas páginas vazias, colocadas em uma pilha no canto da mesa para ela poder escrever suas cartas. Cecily molhou a ponta de sua pena e começou a escrever.
Cara Clarissa,
Não se preocupe com o tamanho de suas cartas. Se você consegue dizer tudo que precisa em poucas palavras, é melhor ainda. Todos devemos praticar modéstia com nossas falas.
Obrigada por sua confiança em mim. Apesar de nunca termos nos vistos pessoalmente, essas cartas que trocamos há meses significam muito para mim. Vejo em você uma amiga, além de uma irmã.
Serei honesta, como pedido. O parto não é uma coisa fácil. A dor que você sentirá será imensa, muito além de seus cursos mensais. O trabalho poderá durar horas, até mesmo dias, e você deverá esperar antes de ser capaz de empurrar o bebê. Se empurrar antes da hora, poderá se machucar. Já vi muitas mulheres morrerem por terem sido pressionadas a empurrar antes que seu corpo estivesse pronto.
A dor virá em ondas. São chamadas de contrações e existem em espaços de tempo. No começo, poderá haver horas entre uma contração e outra, mas, quanto mais se aproximar da hora, menos tempo você terá entre elas. Quando o bebê estiver saindo, você terá apenas segundos de descanso.
Mas tudo acaba quando o bebê e a placenta saem. A dor some de maneira quase instantânea. Você se sentirá muito melhor quando tudo acabar. Poderá ter algumas dores restantes, pois seu corpo ainda está se curando de um evento tão traumático, mas não deve se preocupar. Elas passam em um mês, no máximo, e você não terá mais nada para se preocupar. Seu bebê será entregue à uma ama de leite, para ser alimentado, e você poderá descansar o quanto for necessário.
Quando esse primeiro mês passar, é costume que você seja purificada das turbulências do parto. É uma cerimônia comum dentro de uma igreja. Sua mãe, ou uma de suas governantas, deve ter lhe explicado. Com o fim dessa cerimônia, você será permitida a voltar para a sociedade e para a corte. Devo lhe admitir que adiei minha purificação para poder descansar mais. Converse com o Rei e seu padre para ter os detalhes certo, além de pressionar sua vontade neles.
Espero que isso tenha lhe ajudado.
Respeitosamente,
La Reina, Cecily.
Cecily colocou o papel de lado. Ela pegou sua primeira carta, a que iria enviar para Jonathan, e viu como a tinta já havia secado. Com dedos ágeis, ela dobrou o papel até formar um retângulo médio. Havia um pote de cera vermelha em uma das gavetas de sua mesa e Cecily pegou sua colher, erguendo-a sobre sua vela para derreter. Quando a carta já estava selada, a Rainha a colocou em uma nova pilha. Quando terminasse, pediria para serem levadas ao correio.
Havia outras três cartas esperando para serem lidas. Cecily pegou a nova, selada com o brasão de armas da família Herondale. Uma garça de asas abertas, voando pela cera azul.
Amada irmã,
Como você está? Jonathan me disse que estava tendo problemas com seu marido. Espero que tudo já tenha se resolvido. Uma das filhas de Stephen Herondale já teve problemas maritais o suficiente para uma geração inteira.
Minha vida em Hampton Court está sendo diferente. Não sei como explicar. Por dez anos, eu fui a inglesa nos palácios de Frederick William. A estrangeira, a diferente. A Rainha sem uma coroa, por assim dizer. Eu ansiava para voltar à Inglaterra, com minha família, mas agora estou aqui e não é como eu imaginava.
Minha família mudou. William morreu, assim como papai. Jonathan não confia em ninguém e sua esposa...
Clarissa Morgenstern é uma menina doce e inteligente, mas não é uma rainha. Ela tenta, eu sei, mas é muito nova para isso. Seu pai deveria ter esperado para casá-la. Dezessete anos é jovem demais para ser uma esposa e mãe. Eu olho para ela, inchada com o filho de Jonathan, com meu sobrinho, e não sinto nada, além de pena.
Fiz algumas perguntas mascaradas para ela. Perguntei como Jonathan a tratava, se ele era gentil. Você deveria ter visto como ela fala dele. Seus olhos brilham e cor toma suas bochechas. Não acho que ela perceberia se Jonathan lhe maltratasse. Temo que, caso ele erga a mão para ela, Clarissa simplesmente aceite seu castigo e tente melhorar para ganhar seu amor de volta.
Ela está faminta por amor, por afeição e eu me pergunto se um de seus pais já a abraçou, se alguém já lhe disse que a amava.
Olhar para ela é como olhar para um pássaro machucado. Algo injustiçado. Quero ajudá-la, mas é difícil fazer qualquer coisa sem sentir pena. Não sei como ser uma irmã para ela, ou como ser sua amiga. Durante minha juventude na corte de nosso pai, meu único amigo era William e você, minha única irmã, nunca foi como ela é.
Você tem alguma sugestão? Espero ansiosamente por sua resposta.
Com amor,
Ella.
Cecily torceu sua boca, pensando. Ela pegou um papel em branco e tentou escrever uma resposta digna para sua irmã.
Querida Ella,
Tente não se culpar.
Clarissa realmente é diferente de nós. Não por ser austríaca, ou católica, mas por ser, bem, ela mesma. Seus pais podem não ter amado seu gênero, mas eles cuidaram bem dela. Podem não ter lhe dado afeição, mas eles lhe deram comida e segurança. Ela sabia quem era e sabia seu lugar no mundo. Ela foi criada para amar seu futuro marido, para ser submissa a ele e obedecer a todos seus desejos.
Em seu coração, ela pode amar Jonathan verdadeiramente. Realmente, nosso irmão era um pretendente melhor do que muitos. Ele e Clarissa tem idades próximas. É inteligente e culto. Era o herdeiro de um reino, descendente de uma linhagem real que existe há um milênio. Clarissa deve ter visto seu retrato, de um príncipe cristão bonito apenas um pouco mais velho do que ela e ouviu relatos sobre sua personalidade, e se apaixonou imediatamente, porque ele era uma boa opção.
Mas Clarissa é uma pessoa ingênua. Jonathan é um homem e homens têm seus defeitos. Ela aprenderá isso em breve, seja mais cedo ou mais tarde, e, quando isso acontecer, você deve estar lá por ela, pois não se nossa cunhada irá aguentar essa decepção. Tente deixa-la mais forte. Sei como as memórias de seu falecido marido doem, mas, às vezes, falar sobre a dor dos outros pode lhe dar um pouco de perspectiva.
Imagino que essa carta não deve ter sido de muita ajuda, mas espero sua resposta.
Sua irmã que te ama, Cecily.
A segunda carta estava selada com um círculo azul, prensado com a forma de um par de asas abertas. Cecily hesitou. Os Fairchild e os Herondale eram inimigos havia séculos, desde a Guerra dos Cem Anos, quando Edward Plantagenet reivindicou a França como sua e iniciou gerações de desavenças entre as casas reais da Inglaterra e da França.
Poderia ter se casado com um Lightwood, mas Cecily era uma Herondale. Ela sempre seria uma Herondale. E o que um membro da família Fairchild poderia querer com ela?
Com dedos trêmulos, ela quebrou o selo e abriu a carta. O choque de ver as palavras em inglês foi tanta que ela precisou de um segundo para continuar a ler.
Minha querida Cecily,
Escrevo-te como uma rainha, como uma mãe, como uma avó e uma bisavó. Há duas semanas, meu marido escreveu para o seu propondo a união de nossas famílias. Meu amado Granville, o pequeno Duque da Bretanha, seria prometido à sua filha, para se casarem quando estivessem na idade certa e governarem o Império francês como um casal de monarcas preparados para a tarefa. Ele sugeriu trazer sua menina aqui, onde nós a criaríamos e cuidaríamos dela como se fosse nossa e, no entanto, ainda não recebemos uma resposta.
Esse era seu desejo. Minha amada neta me escreveu de sua própria mão, sugerindo a união e falou sobre como você estava animada por ter sua filha como a Rainha da França. Sua mãe era minha querida sobrinha, portanto não tive dúvidas sobre como esse casamento iria me animar e logo mencionei a ideia para meu marido. Estive errada em fazer isso?
Temo ter colocado muita esperança em você. Seu marido é quem terá a palavra final no assunto, realmente, mas todos falam sobre como ele é apaixonado por você, sobre como faria tudo por sua amada esposa e eu, tola, achei que você seria capaz de manipulá-lo. Céline me escrevia com frequência sobre como você era esperta demais para seu próprio bem. Talvez ela tivesse se enganado.
Por favor, nos mande uma resposta logo sobre o casamento. Se minha Seraphina estiver errada, e você não desejar essa união, será muito mais fácil colocar tudo isso para trás. Nossos reinos poderão seguir em frente. Encontraremos uma outra esposa para Granville. Os Monteverde possuem uma filha de seis anos que é adorável, segundo todos os relatos. Ela será uma boa Rainha, tenho certeza.
Estou esperando sua carta.
La Reine Adele.
Cecily encarou o papel em choque. Sentia como se alguém tivesse virado um balde de água fria sobre si. Estava tão assustada que nem parou para responder. Apenas pegou a última carta com dedos trêmulos, quebrando o selo de cera verde marcado com uma estrela.
Para a minha cunhada,
Nunca fomos próximas, eu sei disso, mas escrevo-te esta carta em busca de orientação. Moro na corte imperial há três meses, como a esposa do arquiduque, e não sei como sobreviver mais outros três.
Deve ter ouvido relatos sobre a personalidade de meu marido, Sebastian Morgenstern. Há uma escuridão dentro dele, devo admitir. Apesar de ele nunca ter me machucado com suas mãos, ele não se cansa de usar suas palavras para me atingir.
Meu único aliado na corte é o Imperador. O pai de meu marido é tudo que ele não é. Valentim Morgenstern é como o pai que nunca tive, se você consegue me entender. Encontramos um interesse comum em jogos de xadrez. Podemos passar dias inteiros jogando. Eu estou tentando ganhar dele por mérito próprio, mas ainda não consegui. Meu sogro tem o costume de me deixar ganhar, algo que me enfurece, mas imagino que ele sinta falta da filha. Ou está tentando criar uma boa relação comigo, como se para me puxá-lo para seu lado da história.
A Imperatriz é uma boa pessoa, porém ela se mantém afastada de todos. Trocamos apenas uma dúzia de palavras, e sempre foi em eventos oficiais, como bailes e missas, quando seria mal visto se nós não nos falássemos.
As coisas na corte imperial estão tensas. O Arquiduque e seu pai não são próximos, pelo contrário na verdade. Meu marido fala sobre como o pai está velho, ultrapassado. Ele diz querer levar a Áustria para o futuro, mas eu sei a verdade. Ele quer governar, apenas isso. Ele quer ter poder e apenas isso. Temo que estamos na beira de uma guerra civil.
Estou grávida. Ainda não contei para ninguém, mas quando essa carta chegar a você, todos já saberão. Estou com medo por meu bebê.
Por favor, me ajude.
Tatiana Lightwood.
♛
As pernas de Isabelle estavam bambas.
A sensação de estar nervosa não era algo que lhe agradava. Isabelle estava parada em frente ao Palácio de Hampton Court enquanto o coração batia com força dentro de seu peito, como um tambor, ameaçando fugir por entre suas costelas.
Tinha medo. Sua posição como secretária pessoal de Sua Majestade era boa e estável, muito mais estável do que ser amante do Rei, e a Rainha confiava nela, e, no entanto, Isabelle ainda temia falhar. Talvez fosse por toda a confiança posta em seus ombros. Clarissa Morgenstern tinha fé em Isabelle, como ninguém nunca teve antes.
A reação de sua mãe, as palavras escritas com raiva no pedaço de papel, não ajudou a aliviar seus medos. Maryse era de sua própria geração, provinda de um tempo onde as mulheres aspiravam entrar na cama de um rei, e a ideia de sua única filha se tornar aliada da Rainha não era algo que fazia sentido para ela. Isabelle tentava não culpar sua mãe por suas ideias, mas sempre falhava miseravelmente com isso.
Porém não havia tempo para se sentir nervosa. Enquanto Isabelle pensava em seus próprios problemas, uma carruagem marrom e simples se dirigiu para dentro do pátio. Um homem magro e alto saltou para fora, ajeitando seu casaco e chapéu com um grunhido nada educado. Ele se virou, entregando um punhado de moedas para o cocheiro, que as aceitou de bom grado. Isabelle não prestou atenção enquanto o cocheiro arriava seus cavalos, saindo de dentro dos terrenos do palácio. Seus olhos estavam dirigidos para o recém chegado, o homem a quem deveria encontrar e levar até Sua Majestade.
O cientista estava carregando uma pilha de papéis em suas mãos, parecendo estar com dificuldades para administrar seu tamanho o peso. Muitas vezes, o vento subia e levava seus papéis, obrigando-o a dar meia-volta para pegá-los novamente.
Isabelle o observou em silêncio, parada em seu lugar na porta de entrada de Hampton Court. Pela sua experiência, homens poderiam ficar ofendidos se uma mulher lhes oferecesse ajuda e não queriam começar esse dia com um faux pas acidental. Ela aproveitava esse momento de pausa para observá-lo dos pés à cabeça, sem perder nenhum detalhe.
Era bonito, porém não tanto quanto Jonathan, ou seu irmão. Sua beleza era diferente, mais tímida, como algo escondido por trás de suas roupas simples e seu cabelo bagunçado. Ele a lembrava de pinturas filosóficas, onde era necessário parar e estuda-la com cautela para entender completamente o seu poder. Ela conseguia ver que seus olhos eram castanhos como o cabelo, escondido por trás de um par de óculos com uma armação de madeira simples. Ele parecia magro demais e desengonçado, de certa maneira. Alguém que nunca se acostumou com o tamanho de seu corpo adulto. Isabelle o via como ela veria um pássaro bebê tentando voar, com um misto de pena e curiosidade.
Ele usava um casaco marrom e calças simples. Suas roupas estavam cobertas por uma fina camada de terra, mascarada pela cor do tecido. Isabelle tentou não se importar com aquilo. O homem era das colônias, um lugar tão desconhecido para ela quanto a Rússia, e talvez tão selvagem quanto.
Ele sorriu ao seu aproximar de Isabelle, curvando-se como alguém faria em uma peça de comédia. Ela entortou levemente os lábios. Clarissa, uma mulher fiel ao decorum, poderia não gostar disso.
Lembrando de seus modos, Isabelle suavizou o seu rosto. Ela tentou deixar sua expressão neutra e madura. Por algum motivo, a imagem de Alexander veio a sua mente.
— Bom dia, Mestre Lewis — ela disse. Ela manteve suas costas retas e as mãos juntas por cima de seu estômago. Isabelle não fez uma curva, ou reverência. Não havia a necessidade. Simon Lewis não era nobre. Sua pessoa era completamente irrelevante.
O sorriso dele cresceu ainda mais, como se fosse possível, e Isabelle engoliu a vontade de bufar.
— Bom dia — ele disse. — Senhorita…?
Isabelle deu seu sorriso mais amável.
— Meu nome é Isabelle Lightwood. Sou a secretária pessoal da Rainha. Acompanhe-me.
Ela se virou e entrou no Palácio. Isabelle não parou para olhar por suas costas para ver se Simon Lewis a seguia. Julgando pelos passos animados, entretanto, ele deveria estar.
Isabelle olhava duas vezes para os corredores vazios. A maioria das pessoas estava jogando cartas nos salões naquela manhã. Eles não deveriam nem se preocupar com a entrada e saída de plebeus mal vestidos como Simon Lewis. Não era algo possível para eles.
— Esse lugar é enorme — murmurou o homem, impressionado. Isabelle o olhou e o viu maravilhado, a cabeça tombada para trás. Sua boca estava aberta e ele parecia preso no começo de um riso. Ela suprimiu a vontade de revirar os olhos. Hampton Court era impressionante, sim, e ficaria ainda mais quando as reformas estiverem prontas, mas não era para tanto. Segundo os rumores, o Palácio de Versailles trazia lágrimas aos olhos das damas. — Iremos encontrar o Rei?
Isabelle revirou os olhos.
— Sua Majestade está muito ocupado com assuntos do governo — disse. Ela parou e se virou, olhando bem para ele. Simon estava com os olhos arregalados e as bochechas coradas, como uma criança pega no meio de uma traquinagem. Ele sorriu, nervoso. — Devo te preparar. — Ela manteve seu rosto sério e a expressão culpada de Simon passou para uma de medo. — Quando encontrar a Rainha, deve primeiro fazer uma reverência. Isso significa dobrar seu corpo na linha do quadril. Seus joelhos deveram se dobrar levemente. O encontro é algo informal, portanto, não deve se jogar no chão, ou qualquer coisa do tipo. Enquanto fizer a reverência, deverá manter seus olhos virados para o chão. Depois de alguns segundos, pode se endireitar e deve dizer, Minha Rainha. Se ela oferecer a mão, deve beijar os nós dos dedos dela. Não beije as costas da mão dela. Nunca.
Simon franziu o cenho.
— Por que não? — ele questionou.
Isabelle suspirou.
— Porque beijar as costas da mão de uma dama é como dizer que ela é uma mulher imoral. Uma meretriz. Sua Majestade, a Rainha, não é uma mulher imoral.
— Oh — ele disse, assentindo firmemente. — Certo. Não beijarei as costas da mão da Rainha.
Isabelle sorriu. Finalmente, ele estava entendendo. Talvez esse encontro não seria tão difícil. Ela continuou falando:
— Quando falar com ela pela primeira vez, deve dizer Vossa Majestade. Nunca use a palavra você para ela. Nunca use o nome dela. Apenas Vossa Majestade, Minha Rainha ou Senhora. Ela aceita Madame também, pois sua mãe é francesa. Também não deve lhe mostrar as costas. Se precisar pegar algo atrás de você, ande com o rosto virado para ela.
Simon arregalou os olhos ainda mais e seu queixo caiu em choque.
— Deve dizer que ela pode me chamar de Simon, apenas?
Isabelle hesitou. Por Deus, quanto tempo esse homem havia durado sem uma educação formal?
— É comum não falar com a realeza sem que eles lhe dirijam a palavra primeiro — murmurou.
Simon se moveu levemente, uma mexida de quadril sutil, a mudança leve de peso entre as pernas para ficar mais confortável, porém foi o suficiente para ela conseguir ver. Um colar de prata com um pingente brilhante, talvez a coisa mais preciosa que ele teve. Uma estrela de seis pontas, formada por dois triângulos se sobrepondo. Uma estrela de Davi. Sem hesitar, ela apontou para o objeto.
— Esconda isso.
Simon olhou para seu colar e depois para Isabelle, chocado.
— Por quê?
— Sua Majestade é uma católica religiosa — murmurou e sentiu sua voz tomar um tom mais gentil. Não era pena, mas entendimento, de certa forma. — Austríaca, ainda por cima. Descendente dos criadores da Inquisição Espanhola e bisneta do Imperador Leopoldo IV, responsável pela expulsão dos judeus de Viena. — Isabelle suspirou. — É por sua segurança, Simon.
Ele assentiu e retirou o colar, colocando-o gentilmente dentro de seu bolso. Isabelle o observou com um pesar.
— Eu nunca a ouvi dizer nada contra os judeus — disse. — Mas é melhor prevenir.
— Sim, eu entendo — ele respondeu. — Todos temos que tomar cuidado. Tive de mentir sobre minha religião para poder entrar na Inglaterra. — ele riu, alto e seco. — Obrigado, Isabelle.
De repente, ela se sentiu mal por colocar tanta pressão nele. Por exigir tanto dele. Por esperar que seguisse o decorum, mas, antes que ela pudesse dizer qualquer coisa remotamente parecida com um pedido de desculpas, Simon continuou andando.
Isabelle correu para segui-lo, colocando-se à frente dele em uma tentativa de tomar as rédeas daquela situação. Eles subiram as escadas levando aos aposentos da rainha, encontrando alguns membros da corte pelo caminho. Três homens, e uma mulher. Estavam conversando sozinhos, mas pararam ao vê-la se aproximando com Simon. Um dos homens, o Duque de Suffolk, correu para encontrá-los.
— Lady Isabelle — ele disse, andando ao seu lado. — A Senhora é uma moça tão honrável e eu estava pensando como você é tão próxima do Rei e da Rainha. Eu adoraria ter um encontro com Suas Majestades, algo privado. Apenas uma conversa, se você me entende. Caso consiga, eu e minha família estaríamos eternamente em seu favor.
Isabelle o olhou pelo canto do olho. Ela tentou encontrar palavras curtas, mas educadas. Quando conseguiu, disse:
— Meu senhor, como pode ver, estou muito ocupada agora. Quando terminar, eu vejo o que posso fazer. — ela não iria fazer nada, mas era bom deixa-lo acreditar nessa noção. Ele lhe daria menos dor de cabeça.
Ela apertou seu passo e Simon fez o mesmo, deixando o Duque para trás. Quando estava longe o suficiente para ele não os ouvir, Simon se virou para ela.
— Por que ele fez isso? — perguntou.
— Ele quer alguma coisa — Isabelle explicou. — Dinheiro, posições, poder. O Rei é o homem mais poderoso dos reinos. Se alguém estiver nas graças do Rei... — ela deu de ombros. — Terá poder absoluto.
— E a Rainha? — ele perguntou.
— A Rainha está grávida — disse Isabelle. — Se o bebê for um menino, será o futuro rei. Existe uma mulher que um homem mais do que sua própria mãe?
Simon sorriu.
— Não — ele disse.
Os dois terminaram sua caminhada em silêncio, chegando em frente as portas duplas dos aposentos de Clarissa. Com um olhar cortante, os guardas austríacos os deixaram entrar, voltando seus olhos frios para o corredor vazio.
Simon estremeceu enquanto passava por eles e ela entendeu o porquê. Os homens eram largos como armários, com expressões neutras e armas letais em seus braços. Eles faziam parte da guarda pessoal da Rainha, homens escolhidos a dedo pelo próprio Imperador. Morreriam por Clarissa, matariam por ela. Enquanto a guarda existia, a Rainha estava segura de qualquer ameaça no mundo.
Eles entraram na antecâmara, as paredes altas ao seu redor. Havia uma garota pequena, sentada em uma cadeira com apoios para braços, a barriga inchada. Ela usava um vestido simples e cinza, com um colar de diamantes pendendo de seu pescoço.
Isabelle fez uma reverência e viu, com o canto de seus olhos, Simon fazer o mesmo.
— Mestre Lewis — Clarissa disse, se erguendo. — Estou muito animada para esse encontro.
— Vossa Majestade, — Simon sussurrou, endireitando suas costas. — É uma honra estar aqui.
Clarissa sorriu sem mostrar os dentes, andando até ele. Ela estendeu um braço, exibindo as costas da mão e Isabelle viu Simon engolir em seco. Ele soltou uma respiração discretamente e apertou seus lábios molhados contra os nós dos dedos da Rainha. Isabelle sentiu um peso soltar de seus ombros.
O sorriso de Clarissa aumentou. Ela se virou e se sentou novamente, colocando suas mãos nos apoios de braço.
— Sua carta me disse que você é um cientista — ela murmurou, a voz doce. — E que precisava de fundos para seus experimentos.
— Sim, senhora — ele respondeu, parecendo perdido. Ela percebeu que ele não sabia o que fazer com todos os seus papéis. Isabelle olhou para uma das criadas, paradas no canto do quarto, e acenou com sua cabeça. A moça correu, pegando uma pequena mesa e colocou na frente de Simon. Ele deu um olhar de agradecimento para ela. — Eu tenho planos para fazer a construção de um telescópio, Vossa Majestade. — ele puxou um dos papéis e Clarissa estendeu sua mão. Isabelle viu rascunhos de um instrumento longo e cilíndrico, palavras rabiscadas, enquanto ele entregava o papel a ela.
— Qual é o objetivo desse... — ela hesitou, franzindo o cenho. Inglês não era sua primeira língua, então era compreensível que ela teria dificuldades. — Telescópio?
Simon sorriu. Estava claro que esse assunto era algo confortável para ele.
— Eu pretendo virá-lo para cima, minha Rainha — ele explicou, uma expressão aliviada tomando seu rosto. — Olhar para as estrelas.
Clarissa franziu o cenho, entregando o papel de volta para Simon.
— Por quê? — ela perguntou, confusa.
Simon hesitou, certamente não esperando aquela resposta. Isabelle se perguntou o que ele queria ao chegar no palácio.
— Quero estudá-las, Vossa Majestade — ele explicou, entregando outro papel a Clarissa. — Galileu usou seu telescópio para estudar os céus. Ele aprendeu tantas coisas e eu quero fazer o mesmo. — sua voz estava ansiosa e cheia de desejo. — Gostaria de aprender mais. Entender onde estamos. Quero... Quero encontrar novos planetas.
Clarissa ergueu o rosto, chocada. Seus olhos verdes estavam arregalados e seu queixo caiu.
— Quantos planetas existem? — ela questionou.
Simon piscou.
— Até onde sabemos, existem seis planetas e suas respectivas luas, incluindo a Terra, Vossa Majestade — ele respondeu. — Meu plano é encontrar mais, caso existam.
Clarissa não disse nada. Ela apenas voltou a encarar os papéis em sua mão, lendo em silêncio. Isabelle se perguntou se ela conseguia entendê-los. A Rainha era inteligente, mas princesas não recebiam uma educação tão dedicada como os príncipes.
— Esses cálculos... — ela sussurrou. — O senhor é bom com matemática, Mestre Lewis?
Simon assentiu e Isabelle se perguntou aonde ela estava querendo chegar com aquilo.
— Creio ser sim, Vossa Majestade — ele respondeu.
— Bom, — disse Clarissa. Ela entregou os papéis de volta a Simon. — Eu tenho uma proposta a lhe fazer. — ela ergueu uma sobrancelha, como em desafio. — Está disposto a ouvi-la?
— Mas é claro, Vossa Majestade.
Clarissa sorriu, colocando as duas mãos sobre o topo de sua barriga. Seus movimentos eram singelos e suaves, quase tímidos, mas Isabelle a conhecia o suficiente para saber que ela era tudo, menos tímida.
— Como você pode ver, eu irei dar à luz em breve — murmurou. — Quando meu filho nascer, haverá um anúncio em sua homenagem. Uma celebração, por assim dizer. Qualquer pessoa da cidade de Londres poderá entrar em uma das propriedades da família de meu marido, onde encontrarão comida, roupas quentes e abrigo. Teremos camas e banheiros modernos, além de médicos de prontidão. Recebi relatórios terríveis das condições do povo durante o inverno e estou determinada a mudar isso.
— Sua causa é honrável, minha rainha — Simon replicou. — Mas o que eu tenho a ver com isso?
— Em nossos esforços para manter esse projeto em segredo, fomos incapazes de encontrar matemáticos dispostos a nos ajudar — Clarissa disse. — Se você fizer as contas necessárias para mim, e eu estiver satisfeita, darei todo o dinheiro que você precisar.
Simon olhou para Isabelle, hesitação clara em seu rosto, e ela tomou o cuidado para manter sua expressão neutra. Castanho encontrou castanho e ele se voltou a Clarissa.
— Mas é claro, Vossa Majestade — ele respondeu, sorrindo.
♛
A água de seu banho estava quente, relaxando seus músculos doloridos, e Cecily deixou sua cabeça cair para trás. Seu corpo estava cansado. Exausto, praticamente. Os dias se passavam e ela se aproximava ainda mais da data do parto, o bebê se virando dentro dela para atravessar o canal com a cabeça primeiro.
Ele se mexia menos nos últimos dias. Como se estivesse dormindo, porém sempre voltando a chutar quando ela ficava assustada com sua parada de movimentos.
Cecily não conseguia determinar se estava feliz ou assustada com o nascimento iminente. Por um lado, ela teria seu bebê em seus braços. Por outro, ela poderia morrer, seu filho poderia nascer morto ou pior, acontecer o mesmo que aconteceu com seu amado Juan.
Ele era tão belo. Parecia-se com Anna. Cabelo preto e olhos verdes. Seria um bom príncipe e um melhor rei. Ela iria criá-lo para ser bom e justo, nada menos.
Cecily limpou as lágrimas ameaçando descer por seu rosto. Não melhoraria nada ela chorar. Poderia até menos piorar. Ela já havia se permitido ficar triste por Juan. Por Deus, ela havia pranteado por ele. Chorado, gritado, xingado. Se ela se entregasse a dor novamente, nunca mais iria retornar à luz.
Antes que ela pudesse pensar qualquer outra coisa, Cecily ouviu a porta de seus aposentos se abrindo. Seus olhos se abriram e ela viu Gabriel, circulando sua banheira como um animal prestes a pular em cima de sua presa. Ele não disse nada enquanto retirava seu casaco, ficando apenas com a camisa interna, e ajoelhava ao seu lado.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!— Boa noite — Cecily sussurrou.
Os olhos verdes de Gabriel brilharam como adagas sob a luz do luar.
— Boa noite — ele respondeu. Gabriel pegou a esponja ao lado de Cecily, jogada dentro da água, e, tão silencioso quanto antes, ele a esfregou gentilmente na nuca. O objeto era áspero, mesmo com a espuma macia de seu sabão, mas o toque de seu marido lhe trazia tanto conforto. Ele limpou seu pescoço com extremo cuidado, eriçando todos os pelos em seu corpo e Cecily soltou um suspiro.
Ela fechou seus olhos, relaxando seu corpo inteiro, e Gabriel molhou a esponja, arrastando-a por seu braço. Cecily estava usando uma camisa interna de linho, o tecido molhado prendendo em sua pele e ela conseguia sentir o olhar quente de seu marido sobre si.
— Como você está? — ele perguntou, a voz neutra. Cecily sentiu sua mão livre sobre a barriga, os dedos de Gabriel quentes contra a sua pele. O bebê chutou no lugar onde estava a palma, estendendo seus dedos abaixo do umbigo de sua mãe.
— Bem — ela respondeu, abrindo os olhos levemente. — Cansada.
Cecily viu Gabriel assentir, mantendo os olhos fixos em sua barriga.
Suspirando, ele acariciou a pele de seu braço, subindo a esponja até seu pescoço. Ela sentiu o toque áspero do objeto descer escandalosamente para seu colo, acariciando o topo de seus seios. Gabriel tomou cuidado para não tocar em seus mamilos, extremamente sensíveis nesse estágio da gravidez, e continuou seus toques para baixo.
Ele limpou sua barriga gentilmente, descendo a esponja para o espaço quente entre suas pernas. Se havia qualquer desejo em suas ações, ele escondia muito bem, limpando seu corpo de maneira diligente. Gabriel puxou sua perna para cima, esfregando embaixo de seu joelho e na parte interna de sua coxa. Cecily soltou uma risadinha quando ele se moveu para seus pés, incapaz de não sentir cócegas.
Antes que ela pudesse lhe agradecer por um bom trabalho, Gabriel se levantou. Ele não disse nada enquanto andava até sua penteadeira. Ela ouviu o som de coisas se mexendo, um som muito comum para ela ser capaz de terminar a causa exatamente. Quando Gabriel voltou, ele segurava uma escova em sua mão esquerda.
Ele puxou uma cadeira do canto e se sentou atrás dela.
— Erga seu pescoço — ele disse, lábios contra sua orelha. Cecily sentiu sua respiração quente contra sua pele e todos os pelos em seu corpo se eriçaram. Ela correu para obedecer, permitindo que ele puxasse seu cabelo molhado para fora da banheira.
Gabriel arrastou a escova por seus fios negros, colocando-os em ordem. Ele tomou cuidado para não a machucar quando desembaraçava os maiores nós, segurando mechas perto de seu couro cabeludo. Cecily sentiu como se ele retirava um peso de sua cabeça, permitindo que o cabelo descansasse depois de um dia inteiro preso para cima.
— Onde você aprendeu a pentear cabelo tão bem? — ela perguntou, um tom de brincadeira em sua voz.
— Não sou tão inútil assim — Gabriel respondeu.
Cecily riu. Ela não achava isso, é claro.
Gabriel terminou suas “tarefas” em poucos minutos, deixando seus cabelos caírem perfeitamente escovadas em suas costas. Ele retornou a escova ao seu lugar original e se ajoelhou ao lado de Cecily mais uma vez.
— Qual será minha recompensa por um bom trabalho? — ele perguntou, arqueando uma sobrancelha em expectativa.
Cecily deixou seu corpo cair para trás, as pálpebras pesadas e apertou os lábios em um bico. Gabriel, entendendo tudo, inclinou o corpo para frente e apertou sua boca contra a dela.
— Eu tenho um pedido a lhe fazer — ele sussurrou, encostando suas testas.
— Um pedido ou um comando real? — disse Cecily.
Ele sorriu um sorriso tão breve que ela se perguntou se havia acontecido mesmo ou se era apenas sua imaginação.
— Um pedido — ele disse, mas estava usando sua voz de rei. Era um comando, então. — Eu quero que você inicie seu confinamento antes.
Cecily abriu seus olhos completamente, sentando direito dentro da banheira e pequenas ondas se formaram ao seu redor, derramando água no chão.
— O quê? — ela perguntou, sem acreditar em seus ouvidos. — Por quê?
Gabriel simplesmente a encarou, as mãos ainda dentro da banheira. Cecily pensou tê-lo ouvido suspirar, como se ela fosse uma criança mimada, mas nada mudou em seu rosto. Sua expressão estava completamente neutra e talvez fosse isso o que a mais irritada.
Não podemos ter um mês de paz, ela pensou, irritada.
— Não há necessidade para se chatear — Gabriel disse. — Será apenas duas semanas antes do previsto.
— Mas por quê? — Cecily perguntou e se surpreendeu com a tristeza de sua própria voz. — Eu estou bem. Essa gravidez está indo melhor do que as outras.
— Eu sei — Gabriel murmurou. — Mas é melhor prevenir. Será para sua própria segurança. — ele abriu e fechou a boca, como se tentando decidir se iria continuar falando ou não. — Você mesma disse que se sente cansada. No confinamento, poderá descansar o quanto for necessário.
— Eu só irei descansar realmente quando der à luz — Cecily replicou. Logo após ter falado aquilo, entretanto, ela percebeu como não queria brigar. Estava tão cansada e a ideia de não precisar passar os próximos dias na frente da corte, não importando o quão privado, fosse, realmente a atraia. Ela suspirou. — Tudo bem.
Gabriel arqueou uma sobrancelha. Não acreditava nela, ou talvez achasse que tudo aquilo seria apenas um truque e no dia seguinte, ele a veria andando pelos corredores.
— Tudo bem? — ele perguntou.
— Tudo bem — ela repetiu. — Irei entrar em confinamento.
Gabriel sorriu, satisfeito com o resultado das coisas, e Cecily desejou jogar água em seu rosto. Seria infantil, realmente, mas também, extremamente satisfeito. Decidiu não agir sobre esses desejos. Ela era uma Rainha, afinal. Precisava ser melhor do que todos.
— Venha aqui — Gabriel murmurou, estendendo seus braços. — Vamos te secar.
Cecily permitiu ser retirada da banheira, um braço de seu marido segurando suas costas e o outro na parte interna de seus joelhos. Ele não pareceu se importar com ela estar molhando sua blusa, ou com seu peso. Gabriel a levou até a cama, colocando-a gentilmente no chão.
Ele a ajudou a retirar a camisa interna e pegou uma toalha de tecido, passando o pano longo por seu corpo nu. Cecily logo entendeu o porquê de tudo aquilo. Gabriel a ajudar a se banhar, se secar era como se ele estivesse colocando aos seus pés, a sua mercê. Ele ainda se punia por sua separação, mas por quê? Ela o havia perdoado por tudo aquilo e eles iriam deixar Cristina Rosales e seu filho para trás. Havia algo a mais sobre tudo aquilo.
Enquanto ele colocava uma camisola nova em Cecily, ela pensou que iria descobrir o que era, não importando os custos.
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