Imperium

21 XXI - Nascimento Real


A Rainha Cecily estava sentada perto da janela, permitindo que a luz quente do sol espanhol esquentasse sua forma enquanto bordava. Uma de suas damas, a Marquesa de Cañete, a observava em silêncio, seu próprio trabalho de costura esquecido em seu colo. A barriga de Cecily estava maior do que nunca, um sinal do nascimento iminente, e todos ao seu redor estavam preparados para trazerem o novo príncipe ao mundo. O parto poderia começar a qualquer momento e não havia nada, além de especulações, para saber quando isso seria.

Cecily manteve suas atenções focadas em seu trabalho. Era um pequeno vestido branco e ela tentava bordar um padrão dourado na borda, sem realmente pensar no mundo ao seu redor. O bebê se mexia com preguiça dentro dela, como se estivesse se espreguiçando. Ela sentia cada movimento como uma vitória, o sinal de que seu filho ainda estava vivo, e aproveitava os momentos antes de ele sair para o mundo.

A roupa em seu colo poderia ser usada se fosse menino ou menina, não importando o gênero. Crianças da realeza usavam vestidos brancos até saírem da primeira infância, com cinco anos. Depois disso, costumavam usar miniaturas das roupas dos adultos ao seu redor.

Anna estava brincando no chão, cercada por seus blocos e uma de suas bonecas, feita para se parecer com ela. A infanta estava com o cabelo bem penteado, mas seu vestido estava sujo por correr nos jardins de manhã, como as babás reportaram à Cecily.

Em qualquer outro momento, ela teria chamado uma das babás para trocá-la. A herdeira do trono não poderia ser vista daquela maneira, mas, por algum motivo, Cecily decidiu não se importar. Talvez fosse o bebê crescendo em sua barriga, ou talvez fosse a maturidade se aproximando.

O confinamento significava que a Rainha não poderia sair de seus quartos, mas ele não precisava se aplicar a Anna. Deixe-a ser uma criança, Cecily pensou, vendo a filha sentar a boneca em um dos blocos, deixe-a ser uma criança por mais cinco ou dez anos. Deixe esse bebê ser um varão para tirar a pressão de seus ombros. Deixe-me conceber mais meninos.

Cecily não possuía o costume de rezar, mas, desde o começo dessa gravidez, ela se encontrava de joelhos mais e mais.

— Talvez um chá, Vossa Majestade? — a Marquesa de Cañete disse, a preocupação envolvendo sua voz. — Está bem quente hoje.

Cecily riu baixo. Suas damas eram preocupadas, algo com que ela não se importava realmente. Era uma forma de demonstrar seu amor e, quando era tão inofensivo quanto a oferta de chá, Cecily não se importava.

— Claro — ela respondeu. Cecily se virou para a criada parado no canto do quarto, a cabeça baixa enquanto ela esperava alguma ordem. — Isabel?

A moça se aproximou de Cecily, fazendo uma reverência.

— Sim, Vossa Majestade? — ela disse, os olhos baixos.

— Traga chá para nós. Verde, por favor, do Marrocos — Cecily comandou, usando sua voz de rainha.

— Sim, Vossa Majestade — Isabel respondeu e saiu do quarto com passos rápidos.

A Marquesa de Cañete sorriu, satisfeita consigo mesma, e pegou sua roda de bordado novamente. Cecily fez o mesmo, segurando o vestido branco em suas mãos. O material era macio e de alta qualidade, talvez seda? Não conseguia se lembrar exatamente. Ela planejava deixar o traje perfeito, ou da maneira em que podia, decidindo silenciosamente que seria usado para o batismo oficial de seu filho.

Anna havia usado um belo vestido de seda e cetim, com bordas de veludo verde, enquanto o pequeno Juan não teve tempo de vida para um batizado real, sendo molhado nas águas do rio Jordão da mesma maneira em que veio ao mundo. As coisas seriam diferentes para seu terceiro filho. Se fosse o desejo do Senhor, um menino; o herdeiro ao trono e seu salvador.

Enquanto ela tentava bordar uma flor de lótus na manga do vestido, gritos invadiram seu quarto. Cecily conseguiu reconhecer vozes masculinas, grossas e irritadas. Infelizmente, ela não era capaz de entender o que estava sendo dito exatamente. O som era abafado, devido a distância e as grossas paredes entre eles. Apesar desses impedimentos, Cecily conseguia notar que a discussão era calorosa, quase violenta. Ela e a Marquesa trocaram um olhar nervoso.

— Fique aqui — Cecily disse, erguendo-se com dificuldades. A barriga quis cair para frente e ela se apoiou nos descansos de braços de sua cadeira para poder levantar. — Eu irei ver o que está acontecendo.

Mi señora, — a Marquesa começou. — Não é seguro. Eu vou.

Cecily lhe deu um olhar cortante.

— Posso estar grávida, mas ainda sou a Rainha — disse. — Eu vou. Fique aqui.

A Marquesa abriu sua boca, como se fosse refutar, mas deve ter percebido com quem estava falando e assentiu. Cecily, ao perceber que ela não iria tentar segui-la, arrastou suas mãos pela saia de seu vestido rosa. Ela saiu de seu quarto com passos determinados, as mãos caídas ao lado de seu corpo. Cecily cruzou a antecâmara vazia e andou para fora dos aposentos pessoais da rainha, seguindo as vozes até um dos corredores perto de seu quarto.

— Incompetentes! — a voz de seu marido gritou, queimando com ódio. — Todos são incompetentes! Não conseguem fazer nada direito?

Ela encontrou Gabriel e Gideon, além de dois outros homens. Cecily reconheceu um como sendo Axel Mortmain, o capitão da guarda pessoal de seu marido, e o outro era Cameron Ashdown, um dos conselheiros de Gabriel e um general inglês que ganhou muitas batalhas durante a Guerra de Sucessão. Nenhum deles percebeu sua aproximação.

Cecily deu um passo para frente, pretendo se anunciar e perguntar o porquê estavam falando tão alto, quando Gabriel jogou suas mãos para cima e praguejou:

— Malditos! — a voz dele estava grossa e rouca, como se ele tivesse passado horas gritando. — Como uma mulher como aquela conseguiu entrar no palácio? Quem foi o idiota que a permitiu trabalhar para minha família?

— Senhor, — Cameron começou. — Estamos fazendo o necessário para encontrar respostas.

— Deve fazer mais do que isso! — Gabriel respondeu. Ele era mais alto do que Cameron, porém da mesma altura que Axel. — Eu quero uma resposta, quero uma explicação e quero minha vingança.

— E Vossa Majestade terá — Axel Mortmain respondeu, sua voz calma em frente ao nervosismo do marido de Cecily. — Encontraremos o mandante da ama e eu lhe entregarei sua cabeça em uma bandeja de prata, meu rei.

Ama? Cecily franziu o cenho, colocando uma mão sobre seu coração batente.

— E depois disso? — Gabriel questionou, suas costas viradas para ela. — Eu não quero apenas o mandante. Eu quero todos os responsáveis, presos em prisões para o resto de sua vida. Quero que sua linhagem masculina morra como pagamento por meu filho. Quero que seu nome seja esquecido. Eu quero...

— Um preço pequeno a se pagar por um príncipe da coroa — Axel disse. — Mas eu trabalharei dia e noite para trazer os assassinos de Juan Luis Fernando a justiça.

Não! ela quis gritar, mas não encontrou as forças dentro de si. Era como se a vida estivesse se esvaindo por seus dedos, como se ela tivesse tentado pegar um punhado de areia.

As palavras fugiram dos lábios de Cecily e seu coração se acelerou dentro de seu peito, ameaçando fugir por entre os espaços de suas costelas. Assassinos? Juan Luis Fernando era seu filho, seu amado menino, levado cedo demais. Como ele poderia ter sido assassinado?

Suas pernas tremeram e ela deu um passo fraco para frente, a sala inteira girando ao seu redor. Seu estômago se embrulhou e ela sentiu o gosto de bile em sua língua, como se seu almoço estivesse ameaçando um retorno. O seu coração caiu e o bebê chutou suas entranhas violentamente, sentindo seu estresse.

Cecily espalmou uma mão na parede ao seu lado, tentando buscar algum apoio. Seus joelhos pareciam não existir mais e seu corpo inteiro ameaçava cair, a dor e angústia correndo por suas veias como veneno.

— A Rainha — ela ouviu alguém sussurrar usando a voz de Gideon. Cecily sentiu olhos em si, mas sua visão não se focava.

Lágrimas enchiam seus olhos, ameaçando derramar por suas bochechas, e passos correram até ela. Dois pares de pés, ela percebeu, mas onde estavam os outros? Cecily não conseguia dizer.

— Cecily, vamos voltar para seu quarto — a voz de Gideon murmurou.

— Venha — disse Gabriel. — Você não deveria ouvir essas coisas.

Sua cabeça doía, seu quadril doía. Cecily sentiu mãos em seus antebraços e em seu cabelo. Mãos gentis. Mãos familiares. Mãos que a amavam.

— Diga-me — ela sussurrou, usando uma voz que não era inteiramente sua.

— Cecily… — Gabriel começou e ela o sentiu tentar puxá-la. — Venha.

— Não! — Cecily retrucou, olhando para seu marido. A expressão de Gabriel estava cheia de dor. Seus olhos pareciam lagoas verdes, molhados e trêmulos. — Diga-me a verdade! Para de mentir para mim! — ela conseguiu ouvir a agonia em sua voz, como suas palavras pareciam tremer enquanto desapareciam no ar. — Por favor.

Gabriel respirou fundo. Ele não olhou para Gideon, mantendo seus olhos focados nela. Cecily se lembrou das semanas após a morte de seu filho. A tradição antiga da corte ditava que crianças com menos de quatorze anos não precisavam de um período de luto após sua morte, mas Gabriel mudou aquilo por eles. A dor que eles sentiam era imensa, como se os próprios oceanos estivessem ao seu redor, comprimindo sua respiração. Os fogos do inferno não poderiam queimar mais como seu peito queimava quando o pequeno Juan parou de respirar em seus braços.

Gabriel nunca chorou. Ela se lembrou disso. Ele não se permitiu mostrar a dor que deveria ter sentido quando seu filho morreu. Cecily se perguntava o porquê, passou semanas tentando entender, porém, naquele momento tão difícil, ela compreendia.

Gabriel queria ser forte. Passar uma fachada para seus súditos e para ela, de que estava aguentando aquele baque como um rei deveria aguentar. De que ele seria a fundação permanente de uma família em pedaços.

Mas agora. Os olhos de seu marido expressavam todo o sofrimento de um ano inteiro sem um filho, um filho que não cresceu, e essa descoberta…

— A morte de John… — ele começou. Cecily percebeu como os braços de Gabriel tremiam e ela se perguntou quem estava procurando apoio entre eles, ela ou ele. — A morte de John não foi natural.

O coração de Cecily caiu, ou seu bebê se mexeu. Ela não conseguia dizer exatamente. Sua dor e os movimentos de seu filho pareciam iguais naquele momento.

— Como? — ela perguntou. Sua cabeça estava pesada e ela sentiu seu queixo pender para frente, seus olhos se voltando para os sapatos de Gabriel. Creme, com um fecho dourado.

— Cecily… — Gideon sussurrou. Ela havia esquecido de sua presença ali, seus braços segurando-a. Cecily estava certa de que se ele não estivesse presente, ela já teria caído ao chão.

— Diga-me — Cecily disse e as lágrimas deslizaram por suas bochechas, livres e sem timidez. — Diga-me a verdade sobre meu filho. Diga-me como você descobriu.

Gabriel trocou um olhar com Gideon.

— Eu queria saber como poderíamos impedir uma repetição de John com esse bebê — ele respondeu. — Eu procurei os médicos que cuidaram de você durante a gravidez. Queria lhe fazer perguntas, e aprender recomendações. Queria… Queria mantê-los seguros. — ele lambeu os lábios ressecados. — Eu não os encontrei. Desapareceram, como se nunca tivessem existido.

— Os médicos que cuidaram de Juan cuidaram de Anna também — Cecily sussurrou, incapaz de acreditar.

— Sim, por isso achei estranho — Gabriel disse. — Fiquei desconfiado, portanto, procurei a ama de leite. Quando John nasceu, ele logo foi entregue a ela para ser alimentado. Achei que talvez ela tivesse doente quando cuidou do bebê e essa doença tenha passado pelo leite. — ele ajeitou seu aperto nela, colocando a mão livre no outro braço de Cecily. — Ela veio de uma vila perto de Madrid, portanto mandei Axel procurá-la. Ele não a encontrou, mas os vizinhos disseram que ela saiu logo após a morte de nosso menino. Enquanto ele os questionava, descobriu que ela mesma nunca teve um filho.

— Como? — Cecily perguntou, sentindo o gosto salgado de suas lágrimas em sua boca. — Amas de leite precisam ter filhos pequenos, para poderem produzir leite!

Mas a resposta já havia se mostrado para Cecily, mesmo antes de Gabriel abrir sua boca e explicar.

— Ela não era uma ama de leite — ele disse. — Ela era uma assassina. Contratada para matar nosso filho.

— Não, não, não.

Ela não queria escutar mais. Ela queria voltar para seu quarto e se esconder embaixo dos lençóis, onde poderia fingir que nada iria lhe atingir. Ela queria ser uma menina novamente, brincando na Inglaterra sem nenhuma preocupação no mundo. Ela queria e queria, mas rainhas nunca conseguem o que querem.

Gabriel continuou falando, como se ele precisasse trazer vidas aquelas palavras, ou como se ele queria cutucar suas feridas. Cecily quis plantar suas mãos sobre seus ouvidos em uma tentativa de fútil de abafar a voz do seu marido, mas, não importava o quanto tentasse, suas mãos estavam fracas demais para se mexerem.

— Ela colocou veneno em seus mamilos e isso o matou.

O oceano queimou.

— Não! — ela gritou, soluçando. A dor era pior do que ela poderia ter imaginado, do que ela queria ter pensado. Algo se quebrou dentro dela e um líquido gelado escorreu por suas pernas, imitando as lágrimas descendo livremente por seu rosto. Cecily respirou fundo, tentando se acalmar, mas era incapaz.

Ela fechou seus olhos, mas tudo que conseguia ver era o rosto doce de Juan, queimado em sua mente e ouvir seu choro. O parto dele foi tão difícil. Horas se passaram antes de Cecily conseguir parar de sangrar e demorou semanas para seu corpo conseguir se curar fisicamente. Ela achou que iria morrer e, por um tempo, desejou ter morrido, se ao menos para ficar com ele novamente.

A memória não era boa. Cecily se recuperou, apenas para perguntar por seu filho e ouvir que ele não iria sobreviver. As parteiras e os nobres da corte lhe deram um tempo privado com sua família, apenas ela, Gabriel, Anna e o bebê. Os Lightwood, embalando o pequeno Juan para sua morte.

Demorou alguns minutos para Cecily perceber que o choro em seus ouvidos era o seu próprio, mas, naquele ponto, suas saias já estavam encharcadas.

— Gabriel… — Gideon sussurrou. — Olhe.

— Ah, Deus…

Cecily abriu seus olhos e se virou para baixo. Aos seus pés, uma poça de um líquido transparente se misturava com outro líquido vermelho. Algo quente escorreu por suas pernas e a poça vermelha aumentou, manchando o tecido rosa. Deveria ser suas águas, ela pensou, e o outro…

Ela ergueu o rosto novamente e percebeu como isso era difícil. Sua cabeça doía e o bebê havia parado de mexer, assustadoramente paralisado.

As pernas de Cecily ficaram bambas e, se não fosse por seu marido e cunhado, ela teria caído no chão. Estava fraca e a sala girava ao seu redor.

— Algo está errado — ela sussurrou e a voz saiu como um fiapo.

— Chame o médico — Gabriel ordenou. — Agora!

Ela sentiu as mãos de Gideon a soltarem. Seu cunhado garantia sua estadia e Cecily sentiu seu corpo pender para frente. Alguém colocou uma mão embaixo de seus joelhos e outro em suas costas, segurando-a como uma noiva.

Ela viu as paredes se mexerem, passando por ela em vultos e ordens sendo gritadas em espanhol.

¡Ayúdame! — a voz de Gabriel gritou. — ¡La Reina!

Seraphina Clarissa Jocelyn dormia pacificamente na cama de Jonathan, cercada em todos os lados por travesseiros designados para deixá-la mais confortável. Ela estava roncando baixo, segurando duas almofadas travesseiros com seus braços magros, o queixo caído levemente enquanto sua barriga inchada apontava para frente. Jonathan puxou um cobertor por seu corpo, cobrindo-a tão sutilmente quanto podia.

Ele olhou para seu corpo com um misto de emoções. Por um lado, estava animado pelo nascimento iminente. Por outro, estava nervoso. Christopher havia nascido sem problemas, mas Jessamine era mais forte do que Clarissa. Mais velha, mais gorda.

A esposa de Jonathan era tão magra que parecia que uma leve rajada de vento poderia levá-la para longe. A gravidez a havia dado um pouco de peso, sim, mas todos pareciam encará-la com tristeza e ansiedade para a hora. O campo de batalha de uma mulher era a cama de parto.

Jonathan não conseguia pensar muito na possibilidade de perder sua esposa. Estavam casados há menos de um ano, mas ele estava ficando dependente dela. Clarissa era uma pessoa calma, sem preocupações externas, e estava sempre disposta a ajudá-lo, seja com problemas de governo ou pessoais.

Ele ainda não a havia contado sobre Christopher e não o faria até ela dar à luz. Seria melhor assim, ele pensava. Clarissa estava em um período sensível e a notícia de seu filho bastardo poderia quebrar sua tranquilidade. Não era possível dizer o que iria lhe acontecer. Ela poderia ficar bem ou suas águas iriam quebrar mais cedo, colocando sua vida e a do bebê em risco. Jonathan não iria arriscar isso.

Era estranho pensar que ela carregava, possivelmente, o futuro rei. Se a criança fosse um menino, e todos esperavam que fosse, seria o herdeiro de um grande legado. A ponta de uma longa linhagem de Herondales, governando a Inglaterra e seus domínios como reis desde 1485. Quando chegasse a hora, ele teria um exército a seu comando, um império e o ouro de suas terras traria grandeza a sua corte. Jonathan iria lhe garantir um bom casamento, uma noiva que assegurasse o reinado da família por gerações. O futuro rei da Inglaterra, Escócia e Irlanda teria o sangue do governante do Império Sacro Romano Germânico, monarca de quase metade da Europa continental, e isso o tornaria imparável.

Depois da morte de William, o peso da linhagem Herondale caiu sobre os ombros de Jonathan. O último herdeiro Herondale. O único capaz de levar o nome de sua família para frente e impedir que os Wayland subissem ao trono, mas agora, com o filho de Clarissa prestes a nascer, as coisas iriam mudar. Tudo ficaria bem.

Ele se levantou, andando para longe da cama e através do quarto. Jonathan ficou quieto enquanto se sentava no assento em frente ao piano, retirando a tampa com a inscrição Céline de Montclaire cuidadosamente. Não tocava há anos, desde sua morte. Deveria estar enferrujado, ou com falta de prática. Certamente qualquer mestre do piano poderia se envergonhar em vê-lo tocar, mas ninguém iria. Não realmente.

Jonathan apertou uma tecla branca, Dó, e ouviu seu som agudo e extremamente familiar. Ele olhou para cama, a nota era mais alta do que lembrava, e viu Clarissa, ainda dormindo calmamente em seu colchão. Ela fungou um pouco e se virou, colocando uma mão sobre a barriga larga.

Jonathan fechou os olhos e se permitiu tocar um pouco, imaginando estar doze anos no passado. Se pensasse com força, seria como reviver aqueles dias, com ela. Ele conseguia vê-la ao seu lado, cabelos loiros e olhos dourados gentis. A falecida rainha lhe ensinou como tocar pessoalmente, sentando-se ao seu lado durante longos dias de verão. O rei não queria, achava indigno de um príncipe do sangue e feminino demais para seu segundo filho, mas Céline insistiu.

— Será nosso segredinho — ela dizia, erguendo o dedo mindinho em uma promessa silenciosa. Jonathan se lembrou de seu sotaque francês e dentes tortos. — Consegue guardar segredo, mon chérie?

Ele estendeu seus dedos, espreguiçando os velhos músculos e tentou outra nota. Fazia anos que ele não tocava e o som lhe era estrangeiro, como uma língua materna há muito tempo esquecida. Ele tentou tocar uma música antiga que sua mãe lhe ensinou, mas ele não se lembrava as notas direito. A música saía errada, apesar de ele não conseguir apontar onde, verdadeiramente.

Jonathan suspirou. Talvez devesse mandar chamar um professor de música, para poder lhe ensinar tudo novamente.

Ele tentou outra música, procurando encontrar as notas certas. Não soava exatamente como ele se lembrava, mas não eram assim as memórias da infância? Confiante, Jonathan continuou tentando. Doze anos sem prática não iriam desaparecer em um suspiro, mas ele poderia ao menos tentar.

Por eles. Por sua mãe, por Clarissa e pelo bebê.

— Jonathan? — uma voz doce lhe chamou.

Ele virou e viu Clarissa, sentada na cama. O cabelo estava bagunçado e seus olhos estavam inchados, arroxeados como se ela tivesse levado um soco nos dois olhos. Ela arrastou uma mão pelo rosto, antes de franzir o cenho e colocar ambas as mãos em sua cintura, apertando sua carne.

— Tudo bem? — ele perguntou. Jonathan se levantou e andou até ela, sentando-se ao seu lado na cama.

— Sim — ela disse, fazendo uma expressão dolorosa. — Estou apenas desconfortável.

— Sente dor? — ele questionou, colocando uma palma aberta em suas costas. Seus músculos estavam tensos.

— Ela vai e vem — Clarissa explicou, o rosto pálido. Um minuto depois, ele se encheu de cor novamente, como se o sangue voltasse a sua pele. — Estava tendo um sonho, quando a dor apareceu. Fez-me acordar.

Jonathan franziu o cenho. Isso era normal? Ele colocou uma mão sobre sua barriga e o bebê chutou sua palma, buscando seu calor.

— Você parece bem — ele murmurou. — Quer que eu chame o médico?

Ela balançou a cabeça. Jonathan pensou sobre o momento quando ela foi dormir, apenas algumas horas antes. Parecia bem se ao menos um pouco cansada; nada que uma boa noite de sono não poderia consertar.

Ele não se lembrava de muitas mulheres grávidas durante seu cotidiano. Sua mãe escondeu o máximo que podia dele, quando engravidou aquela última vez, enquanto Lydia, a esposa de Alexander, preferia se manter em Norfolk durante as duas gestações que ela teve.

Entretanto, desde a última semana, duas parteiras moravam no palácio e ficavam disponíveis durante o dia inteiro, caso Clarissa entrasse em trabalho de parto. Sua esposa gostava de vê-las algumas vezes o dia, sempre tendo perguntas e dúvidas que elas poderiam lhe responder.

Ele colocou a mão livre no colchão, querendo suportar seu peso no pulso, mas parou ao perceber que o cobertor estava úmido.

— Você precisa de um penico? — ele perguntou, levantando os lençóis. O colchão estava manchado, porém de maneira incolor; apenas molhado. — Vou chamar o médico.

Jonathan se levantou e correu até o canto de sua cama, onde seus sapatos estavam. Ele calçou os chinelos e vestiu seu roupão, amarrando em sua cintura. Clarissa o observou com olhos arregalados.

— Onde você vai? — ela chorou. — Não me deixe!

— Eu já volto — ele murmurou, saindo para a antecâmara e andando até o corredor.

Dois guardas estavam postos em sua porta e eles fizeram uma reverência quando ele se aproximou. Eram contratações de Alexei de Quincey, seu novo capitão da guarda, e usavam uma jaqueta de veludo vermelho com os leões dourados da Inglaterra bordados na lapela.

— Chame o médico da corte — ele ordenou.

— Sim, Vossa Majestade — um dos homens disse e andou para longe, se guiando até o quarto do médico presente.

Acordem todos, Jonathan quis dizer, A Rainha está em trabalho de parto.

As pessoas se moviam rápido ao seu redor, correndo com potes e toalhas. Alguém tirou seu vestido e as inúmeras camadas de roupa íntima, deixando-a apenas com sua camisa interna. Cecily não estava ciente das coisas que aconteciam ao seu redor, entrando e saindo de um estado de inconsciência.

As horas se passaram sem ela perceber. Todos andavam ao seu redor, enchendo potes de água fervente e trocando os lençóis embaixo dela. Pessoas entraram, testemunhas para o nascimento, ou servos que poderiam ser de ajuda. Não conseguia dizer exatamente quem.

Quando abria os olhos, ela via Gabriel e Gideon, parados um ao lado do outro como irmãos. Os dois estavam preocupados, ela conseguia ver, mesmo com as tentativas falhas de Gabriel em parecer indiferente. Suas semelhanças ficavam mais aparentes em momentos assim. Tinham o mesmo rosto angular e olhos sempre observantes. Os de Gabriel eram mais verdes, ela conseguiu ver, mas Gideon parecia mais sábio e maduro.

Um padre estava parado no canto do quarto, segurando a bíblia aberta em uma mão e um rosário em outra. Ele murmurava preces em latim, pedindo ao Senhor para protegê-la naquele momento precioso, para proteger seu filho. Se algo desse errado durante o parto, ele iria batizar o bebê e performar os últimos ritos para Cecily.

Ela conseguia ouvir os murmúrios dos ministros de Gabriel ao seu redor, as conversas e fofocas. O olhar de Marcos Rosales, o pai de Cristina, queimava e, em qualquer outro momento, Cecily teria gritado para ele ir embora, mas estava fraca demais para se importar.

Mãos afastaram os fios de cabelo suados de seu rosto e alguém empurrou um copo de água em seus lábios, segurando sua nuca para ajudá-la a beber. O líquido desceu por sua garganta queimando como veneno e ela quase cuspiu, o corpo inteiro tremendo, mas se encontrou incapaz de fazer nada além de beber.

— Eu não estou pronta — ela murmurou, os olhos virados para o teto. — Está cedo demais.

Alguém tocou em seu braço. Uma mão amiga e familiar.

— Vai ficar tudo bem, Vossa Majestade — disse a Marquesa de Cañete. — Você vai ficar bem.

Um pano molhado foi arrastado por sua testa e a água gelada refrescou sua pele fervente.

— Juana… — ela sussurrou e os olhos azuis da Marquesa entraram em sua visão. — Eu não quero que ele saia.

— Não é questão de querer, minha rainha — a Marquesa respondeu, a voz gentil. — Ele vai nascer hoje, sem discussões.

Cecily balançou sua cabeça, soluçando. Seu coração estava batendo rapidamente e seu corpo inteiro ardia, pulsando em um ritmo igual ao das batidas em seu peito. Mãos a ergueram gentilmente, suas outras damas?, e ela foi forçada a ficar em uma posição sentada. Alguém puxou seu cabelo, abanando seu rosto suado, e outros panos gelados se arrastaram por seu corpo.

— Ele está seguro aqui — disse Cecily, sem saber para quem.

Eles vão matá-lo, ela pensou, Vão matar meu filho.

O entendimento veio a ela em ondas. Eles mataram Juan, porque ele era um menino. Seria o Príncipe de Astúrias, o herdeiro aparente do trono e o futuro rei. Anna foi salva porque não possuía as partes necessárias para ser um rei. Se a infanta fosse um menino, ela também teria sido enterrada apenas algumas horas após seu nascimento.

— Vossa Majestade irá ficar bem — disse a Condessa de Toreno. — Logo, terá seu bebê em seus braços.

Terei mesmo?, ela quis perguntar, mas as palavras não deixaram seus lábios. Estava fraca demais.

A porta se abriu e fechou, os passos pesados do médico pessoal de Gabriel. Ele perguntou algo, recebendo respostas rápidas. Ela ouviu o som de instrumentos de metal sendo colocados em uma mesa e o desespero tomou seu corpo. Estava ciente do que aquilo significava.

— A senhora está apenas assustada — murmurou a Duquesa de Escalona. — Fiquei da mesma maneira no parto do meu quarto. Ficará tudo bem.

— Não — Cecily sussurrou, encontrando a força para falar. — Não irá.

Ela sabia que não estava bem. Não conseguia dizer o que doía mais: seu corpo ou seu coração. As parteiras corriam ao seu redor, tentando se preparar e o médico pessoal de Gabriel a analisava, apertando suas mãos contra a testa dela, checando a barriga e olhando entre as pernas da Rainha.

— Consigo ver a cabeça — ele murmurou para a sua assistente, sentando-se em frente à cama. — Está na hora.

Alguém se sentou atrás de Cecily, colocando uma perna de cada lado de seu corpo. Ela deixou seu corpo cair para trás, apoiando suas costas em um peito musculoso. Mãos familiares acariciaram seus braços e o cheiro conhecido de menta e vinho encheu suas narinas. Um peso invisível deixou seu peito e ela respirou fundo, a primeira lufada de ar livre que ela teve em muito tempo.

— Você vai ficar bem — uma voz disse. Lágrimas chegaram aos olhos de Cecily ao reconhecê-la. Gabriel. — Estou aqui.

Ela assentiu, balançando a cabeça, e respirou fundo mais uma vez. Já havia feito isso duas vezes, poderia fazer uma terceira.

Uma parteira se colocou ao lado de Cecily e disse:

— Empurre quando sentir uma contração, Vossa Majestade.

A dor chegou com o fim de suas palavras. Cecily cerrou seus dentes, respirando fundo e empurrou.

Clarissa deixou o seu corpo cair quando a contração terminou., suas costas batendo nos travesseiros jogados pela cama.

Seu quarto estava cheio de pessoas, muitos ainda usando suas roupas para dormir, com apenas roupões de seda para manter sua decência. Os ministros de Jonathan esticavam seus pescoços, como se quisessem ter uma visão melhor do parto, enquanto as damas fofocavam entre si. Clarissa conseguia ouvir seus comentários maldosos de sua cama, todas se perguntando se ela iria conseguir parir um menino.

Helen limpou o suor de sua testa com um pano molhado e Isabelle apertou a mão de Clarissa que ela segurava.

— Vossa Majestade está indo muito bem — murmurou Helen. — Só mais um pouco.

— O menino está quase saindo — uma parteira disse, sorrindo gentilmente. — Consigo ver o cabelo dele. Vermelho, como o seu.

Clarissa assentiu, mesmo as palavras não a assegurando como ela deveria ter pretendido. Ela respirou fundo, tentando descansar antes da chegada da próxima contração.

Sua cunhada estava certa. A dor era maior do que ela imaginava. Ciclos mensais, ossos quebrados. Nada poderia se comparar aquele momento. Todo o seu corpo estava tenso e seu ventre contraia em ondas. A pausa nunca era longa o suficiente para lhe prover alívio, apenas uma respirada rasa para alguém que se afogava.

— Sophie? — ela chamou, buscando sua amiga com os olhos. — Onde está Sophia?

— Ela está pegando mais lençóis e toalhas, Vossa Majestade — Isabelle respondeu. — Não se preocupe.

Clarissa assentiu no mesmo momento em que a nova contração a atingiu. A dor começou em sua lombar, cruzando seu corpo e atingindo seu quadril como uma facada. Ela fechou os olhos e cerrou os dentes, segurando a respiração enquanto empurrava.

— Um, dois, três, quatro — uma parteira contou, segurando os joelhos da Rainha. — Cinco, seis, sete, oito, nove. Respira.

Ela deixou sua cabeça cair para trás, o suor escorrendo por seu pescoço.

Antes daquele dia, ela imaginava que as mulheres gritavam durante o parto, mas aparentemente, não era verdade. Clarissa segurava a respiração enquanto empurrava, incapaz de pensar o suficiente para ser capaz de gritar. Todo o seu corpo estava focado em tirar aquele bebê, todas as suas fibras trabalhando para dar à luz.

A contração chegou mais rápido do que a última. Era normal. Alguém lhe disse isso, apesar de ela não conseguir se lembrar de quem, exatamente.

Empurrar era como ser cortada ao meio. Como se alguém arrumasse cada pé de Clarissa em dois cavalos diferentes, depois os mandasse ir em direções opostas, deixando que ela fosse rasgada na metade. O canal era pequeno demais e a cabeça, grande demais.

Por um momento, ela achou que não iria conseguir, mas alguém riu ao seu lado e outro suspirou.

— A cabeça já saiu — o médico da corte disse. — Só faltam os ombros.

Ótimo, Clarissa pensou, Eu estou indo bem.

Ela continuou empurrando, pelo o que pareciam horas. As mulheres murmuravam encorajamentos ao seu redor e os ministros faziam suas anotações.

Clarissa não percebeu quando o bebê realmente saiu, apenas sentiu o alívio tomar seu corpo. A dor parou quase imediatamente, deixando seu corpo com os fluídos gosmentos que seguiram o filho. A sala se encheu com o choro agudo de pulmões fortes e alguém gritou.

¡Um niño! — uma parteira gritou e lágrimas de alívio chegaram aos olhos de Cecily, juntando-se as lágrimas de tristeza e desespero.

A boy! — o médico anunciou e palmas educadas abafaram o choro de seu filho. Clarissa respirou fundo e viu quando o homem embalou o bebê em um pano branco, protegendo seu corpo do ar frio de março. — Um menino! Temos um Príncipe de Gales!

Notas finais
Espero que tenham gostado ♥ ♥ ♥ Eu tentei escrever dessa maneira para deixar claro que os dois bebês nasceram ao mesmo tempo, mas talvez não tenha dado certo e só ficou estranho. Normalmente, eu não faço isso, mas eu comecei uma nova fanfic de TMI e significaria muito se vocês a dessem uma chance como você deram uma chance pra essa bagunça: https://fanfiction.com.br/historia/790202/Lamina_Infernal/