Imperium
17 XVII - Kaiserin
Notas iniciais
Seraphina,
Estou casado agora. A Infanta Tatiana da Espanha se tornou minha esposa, como combinado entre nosso pai e o Rei espanhol. A moça é bonita, com largos quadris, pronta para gerar filhos, ou pelo menos foi isso que mamãe me disse. Eu pouco me importo com os quadris da mulher e sua habilidade para me dar herdeiros. Ela não é minha primeira escolha, ou a última, mas papai quer paz em nossos domínios e, se isso significa me tornar parente do homem que roubou o trono espanhol de nossa família, então assim seja.
Tudo não está perdido, entretanto. A sua cunhada é esposa de Gabriel Lightwood, porém está se provando incapaz de gerar um herdeiro varão. Quando o Usurpador morrer, todos perceberam que a Infanta Ana María Benedita Estefania não é digna de ascender ao trono por sua tenra idade e descendência dos malditos protestantes ingleses.
Mas minha esposa é.
Nosso pai é saudável, apesar da idade, porém eu também não tenho vontade de esperar para poder governar. Quando minha esposa me dar o desejado Arquiduque, os camponeses espanhóis irão ver como nosso Senhor sorri para nós.
Seu irmão,
Erzherzog Sebastian von Österreich
♛
— Isabelle, sente-se aqui do meu lado! — disse a Rainha.
Isabelle desviou os olhos do livro em suas mãos e olhou para Clarissa. A Rainha da Inglaterra estava sentada sob uma sombra, bebericando uma xícara de chá. As duas damas, mais um exército de criadas, passavam um tempo juntas nos jardins de Clarissa. Helen não estava ali. A madrasta, ou mãe, como ela costuma chorar, estava muito doente, talvez em seu leito de morte, e Helen queria estar nas terras de sua família para cuidar dos irmãos mais novos. Isabelle não sabia quando ela iria retornar, ou se iria.
A dama se ergueu e andou até o lado de sua Rainha, sentando-se em uma cadeira vaga. Clarissa olhou para ela de lado e terminou a sua bebida. Ela se virou e entregou a xícara para uma criada, sorrindo docemente à mulher. As bochechas da serva se encheram de cor e ela saiu com passos rápidos, correndo para contar às mulheres da cozinha sobre a atenção da Rainha.
Clarissa colocou as mãos em sua barriga. A gravidez a deleitava. Era a segurança necessária para a Rainha, caso ela quisesse ser respeitada pela corte. Clarissa poderia ser amada pelo povo, mas precisava dar um herdeiro ao Rei para ganhar esse amor entre os nobres. Apesar dos muitos anos os separando, todos se lembravam de Henry VIII e suas seis esposas.
Mesmo se fosse uma menina, a Rainha teria provado a sua fertilidade e não haveria uma impossibilidade para gerar o desejado herdeiro varão.
— Como posso servir a Sua Majestade? — Isabelle perguntou, colocando as mãos sobre o seu colo. Estava usando um vestido verde escuro, com largas anáguas para enfatizar seus quadris, e seu cabelo estava para cima, coberto por um chapéu branco.
Clarissa sorriu. O sorriso dela era tão bonito. Os lábios vermelhos abrindo-se de uma maneira tímida, revelando os dentes extremamente brancos embaixo. Ela não era tão bela, mas seu sorriso compensa por isso.
— Fique ao meu lado — Clarissa pediu e Isabelle obedeceu.
A dama olhou para a barriga da Rainha, a curva tímida se acentuando pelo espartilho em forma cônica. Naquela manhã, um mês depois da morte do Rei Stephen ter sido anunciada, o Lorde Camareiro revelou a gravidez da consorte real para os nobres da Corte. Isabelle estava presente e ouviu duas senhoras fofocando, alto o suficiente para qualquer um ouvir.
— Ela está grávida mesmo? — perguntou a Marquesa de Winchester com um risinho. — Ou apenas gorda?
— Madame Silverhood, você não deveria insultar a honra da Rainha com tais palavras — Isabelle se lembra de ter dito, antes mesmo da outra puder responder.
A Marquesa ficou quieta e sua amiga a puxou para longe, encarando Isabelle com um olhar cortante.
— Vossa Majestade — disse uma voz masculina e as duas se viraram, vendo um homem atravessar os jardins. Isabelle se ajeitou, pronta para gritar com quem quer que fosse o intruso de sua conversa quando percebeu que era apenas um criado do Palácio.
O mordomo se aproximou de Clarissa, carregando uma bandeja de prata com uma carta selada em cima. Os dedos finos da Rainha pegaram a mensagem com delicadeza. Não demorou muito para Isabelle notar que Clarissa fazia tudo com delicadeza.
— Obrigada, Anthony — ela disse e Anthony se afastou, sem mostrar as costas para ela.
Isabelle se virou para Clarissa.
— Vossa Majestade sabe os nomes de todos os criados? — perguntou e as bochechas da moça se encheram de cor. Até isso ela fazia de maneira bela.
— Mas é claro. — Clarissa abriu a carta e seus olhos a vasculharam de um lado ao outro com velocidade. — Um cientista pede para visitar a Corte. Diz que foi convidado pelo Rei Stephen, mas decidiu esperar o período de luto para não parecer desrespeitoso.
— Qual o nome, minha Rainha?
Clarissa franziu o cenho.
— Simon Lewis. — ela olhou para Isabelle. — Conhece?
Ela balançou a cabeça, dizendo que não. Clarissa apertou os lábios, fazendo um biquinho. Ela analisou a carta com cuidado, virando-a de frente e para trás.
— Talvez ele dê meu nome para um planeta — disse e um risinho tomou seus lábios. Clarissa colocou a mão sobre os lábios para esconder o riso e, ao se acalmar, ela se virou para isabelle, com um olhar conhecedor em seu rosto. Estava escondendo alguma. — Sabe de alguma coisa?
— O que, Vossa Majestade? — Isabelle perguntou.
— Agora que sou Rainha, vou precisar de um Secretário Privado. Estou recebendo tantas cartas que é difícil acompanhar e ler todas sozinha. — ela sorriu. — Eu gostaria que esse cargo fosse para você, Lady Isabelle.
— Vossa Majestade me honra… — começou, querendo recusar, mas sabendo como seria impossível. Ser Secretária Privada da Rainha seria ótimo, uma posição de valor e ótima para pedir favores.
— Então aceita? — Clarissa piscou os olhos e ela era tão inocente e boa.
— Sim, Majestade — disse Isabelle. — Aceito a sua oferta.
♛
Querido Jonathan,
Sinto muito por não ter respondido a sua carta, mas as coisas estão bem difíceis aqui nas Cortes e meus problemas pessoais acabaram me cegando para deveres familiares. Serei breve. O Rei e eu estamos separados. Ele me traiu da forma mais baixa e suja, coisa que irá demorar para conseguir perdoar, e, por isso, pedi um ano em uma de suas residências, o Palácio Real de Aranjuez. Se me perguntarem, direi que foi para ter um tempo de reflexão e orações, onde poderia pedir à Deus pela força para conseguir superar, mas você é meu irmão, portanto serei honesta.
Estou machucada. Ofendida, magoada. Não consigo olhar para o rosto de meu marido sem me lembrar do ocorrido e não consigo caminhar pelo cotidiano na Corte sem me sentir humilhada, perguntando-me se todos sabem. Agora que a raiva passou, só me resta a tristeza e a ofensa.
Em minha última carta, falei sobre a Duquesa de Cádiz, a amante de Gabriel durante a minha gravidez com o Infante Juan. Eu lhe disse que ela iria ser banida em breve, quando acabasse meu resguardo, afinal era uma promessa vinda de meu esposo, o Rei, porém as coisas mudaram. Cristina Rosales está grávida. Em seu ventre, cresce um filho de Gabriel Lightwood, um bastardo real. Achei não haver dor pior do que a de aguentar a mulher, a de ser traída, mas achei errado. Isso é muito pior.
Se o bebê for um menino, pode acabar contestando o reino de meus próprios filhos. Eu vim à Espanha para gerar herdeiros, continuar a linhagem de sucessão, evitar uma nova guerra e validar a Casa Lightwood aos olhos de todos os monarcas europeus, porém como posso garantir isso se há uma possível ameaça crescendo no berçário real? Anna tem menos de dois anos. Se Gabriel morrer amanhã, eu não conseguirei protegê-la do poder da família Rosales e suas ambições. Eles colocaram Cristina na cama de meu marido, poderiam também colocar um dos seus no trono espanhol.
Tudo não está perdido, entretanto. Estou grávida de novo. Apesar de Ele nunca ter me escutado antes, rezo todos os dias à Deus para ser um menino. Um Príncipe das Astúrias iria me salvar, salvar a minha filha, porém sempre fui uma pessoa pragmática e, caso eu esteja carregando uma outra menina, peço para que me ajude a encontrar bons e poderosos maridos para elas. Os Fairchild sempre foram os inimigos de nossa família, mas o Duque de Bretanha tem apenas cinco anos e será o Rei da França um dia, após seu bisavô, avô e pai. Anna seria uma ótima Rainha Consorte, tenho certeza.
Vossa esposa é a neta de Granville II, le Roi Soleil. Talvez a Princesa consiga sugerir esse arranjo para o pai de sua mãe, caso você peça.
Mas, de qualquer jeito, estou aberta para sugestões. Espero que me responda logo.
Com amor,
Sua irmã, Cecily.
Jonathan releu a carta, mas não encontrou nada de diferente na letra, qualquer coisa que pudesse lhe indicar que não foi a sua irmã a escrever essas palavras, mas falhou. A letra realmente era de Cecily. Ninguém conseguiria imitar o enrolar de seus Gs, ou o puxado de seus Ss.
Então era mesmo a sua irmã a esposa desolada que lhe escrevia de coração partido. Era difícil pensar em Cecily, a garota com pernas tortas e um dente faltando que lhe daria um soco em resposta às provocações como sendo essa mulher. Jonathan não gostava nem um pouco dessa situação. Deixava-lhe desconfortável e sem saída, pensando na irmã vivendo na Europa Continental, temendo o futuro da filha.
O nome da amante de seu cunhado lhe veio à cabeça. Cristina Rosales. Sabia pouco sobre ela. Era a Duquesa de Cádiz, casada com um membro da família Mendoza, apesar de Jonathan não lembrar o nome do marido. Não deveria ser importante, no entanto. Se ela estava esquentando a cama do Rei, o homem deveria ter se afastando em silêncio da Corte. Sem um marido e amante do monarca, não havia limites para o que ela poderia fazer.
E Cristina estava grávida… Se tivesse um varão, poderia colocar em risco a sucessão de Anna e qualquer Infanta que Cecily poderia parir nos próximos anos. Anna era sua sobrinha, filha de sua irmã favorita, estaria disposto a ir a guerra para colocá-la no trono espanhol?
Sim, Jonathan decidiu, Tudo por Cecily.
Mas não havia necessidade de esquentar seu sangue agora. Cecily Herondale era jovem, menos de vinte e cinco anos. Havia tempo para ela ter um filho homem. E ela estava grávida. Talvez esse seria um menino, um menino que viveria, e tudo ficaria bem.
Com essa separação, no entanto, seria difícil. Gabriel poderia acusar Cecily de traição, de tentar colocar seu bastardo no trono, e sem testemunhas no nascimento, seria fácil dizer que o verdadeiro filho da Rainha havia morrido e ela apresentou uma outra criança à Corte.
Jonathan já sabia o que devia fazer.
— Anson! — ele chamou, a voz elevada e a porta não se demorou a abrir, permitindo a entrada de Anson Pangborn.
A ascensão de um novo rei era complicada, principalmente depois do seu pai, que havia reinado por quase cinquenta anos. Jonathan decidiu permitir que Anson permanecesse em seu posto como secretário privado do monarca, se ao menos pelas primeiras semanas, enquanto se acostumava com a ideia de reinar.
Ele era leal ao meu pai, Jonathan pensou, vendo o homem fazer uma reverência, preciso de alguém leal a mim.
Não poderia ser Alec. As pessoas achariam que ele favorece o amigo, algo não tão errado assim. Talvez James Carstairs. Teria de pensar no caso por um tempo.
— Sim, Vossa Majestade? — perguntou o secretário. — Como posso ser útil?
— Preciso que você chame Gideon Lightwood. Gostaria de vê-lo ainda hoje — murmurou Jonathan, olhando para a carta de sua irmã.
— Gideon Lightwood, senhor? — repetiu Anson, chocado. — O irmão do Rei da Espanha?
— Sim — disse. — Ele voltou à Inglaterra logo depois do casamento de minha irmã, a Rainha-Mãe Ella, não é verdade?
— Sim, senhor — murmurou Pangborn. — Mas Lorde Lightwood mora nas terras de sua família, em Norfolk.
Era uma recusa. Discreta, mas uma recusa ainda assim, se já existiu alguma desse tipo.
— Então você deve mandar o seu cavaleiro mais rápido — Jonathan retrucou, irritado pela demora em ser obedecido. Isso nunca teria acontecido com o seu pai, ou William.
O rosto de Anson fez uma careta. Certamente, não gostava de servir a esse novo rei, jovem e inexperiente. Anson era apaixonado por Stephen, todos sabiam, e dividia os sentimentos tóxicos do falecido monarca para com o seu segundo filho.
— Muito bem, senhor — ele respondeu e se virou para sair.
Jonathan, pensando, foi rápido em dizer:
— E chame o Lorde Camareiro também — disse. — Ele está na Corte, então não deve ser difícil para você encontrá-lo.
Anson inclinou a cabeça.
— Serei rápido, meu rei — ele murmurou e saiu do cômodo.
Jonathan o observou ir embora com uma mistura de sensações. Estava feliz por tê-lo fora de sua vista, mas também sentia como se ainda quisesse pedir algo.
Ele balançou a cabeça, sem se importar com tudo isso, e pegou um de seus papéis em branco para escrever uma carta. Molhou a pena em um pote de tinta azul escura e começou.
Querido primo,
Soava presunçoso, mas era como os monarcas europeus se referiam um a outro. As famílias reais se casavam tanto entre si que todos eram parentes de uma maneira ou outra.
O seu mau tratamento de minha irmã me entristece. Ela me escreve sobre suas amantes e a mulher grávida com o seu bastardo. Está desapontada, assim como eu.
Jonathan pensou em Jessamine. Ela também carregava o seu bastardo, e era perigosa como Cristinas, mas algo havia mudado entre ele e a mulher. Não conseguia mais ver ela. Sua presença o sufocava, deixava preso em seu próprio corpo e seus abraços, ao contrário dos momentos com Clarissa. A sua Rainha conseguia deixá-lo vulnerável, mas à vontade. Não hesitava em beijá-lo e demonstrar seu amor. A criança no ventre de Jessamine não era uma ameaça para a criança no ventre de Clarissa, principalmente com o poder do império atrás da antiga Arquiduquesa. Quem iria lutar pela reivindicação do filho ilegítimo de uma mulher sem família?
Está desapontada, assim como eu. Gostaria de vê-la recebendo o tratamento que merece como Rainha e sua legítima esposa, a mãe de sua única filha. Cristina Rosales é uma paixão passageira. Tenho certeza que quer o melhor para o filho em seu ventre, mas você não pode deixá-lo se tornar uma ameaça. Ninguém quer uma nova Guerra de Sucessão.
Gabriel era dezessete anos mais velho que ele e Rei por quase metade da vida. Poderia se sentir envergonhada por receber broncas de um menino com idade para ser seu filho, mas a irmã de Jonathan era sua esposa e deveria se acostumar com um novo Rei da Inglaterra.
Volte para Cecily, querido primo. Desiste de suas amantes e coloque Cristina em seu verdadeiro lugar. Essa separação só irá lhe trazer problemas.
Sinceramente,
Seu primo,
Jonathan Christopher I, Rei da Inglaterra, Escócia, França e Irlanda.
Jonathan releu a carta, tentando encontrar algo que queria mudar, e suspirou, deixando-a de lado para a tinta secar. Com dedos ágeis, escreveu uma outra carta em um papel novo para a sua irmã.
Ma chérie,
A situação será resolvida. Te prometo. Cristina Rosales não irá ter mais seu lugar esquentando a cama do Rei e o bastardo em sua barriga não será uma ameaça para a Infanta e qualquer futuro filho que você possa ter. Enquanto isso, deve se ocupar em gerar meu sobrinho e cuidar de minha sobrinha. Quando estiver recuperada, peço para vir me visitar e conhecer minha esposa, assim como meu filho que está para nascer. Farei de tudo para essa visita for possível.
Com amor,
Seu irmão amado.
Ele se levantou e andou pelo escritório. Pertencia ao seu pai, assim como todas as outras coisas naquele palácio. As paredes verdes possuem detalhes em folhas ouro com o monograma de Stephen e as coisas estavam organizadas de uma maneira que ele não conseguia entender. As mãos de Jonathan se coçavam para ele arrumar tudo aquilo de seu próprio jeito.
Ao invés disso, ele parou em frente à janela, virada para a entrada do palácio. Carruagens e mais carruagens chegavam, formando uma fila, e os criados lutavam para ajudar todos os nobres. Com a ascensão de um novo rei, todos flocavam para o monarca, desejando favores e riquezas. Sua idade tenra deveria ser um fator ainda mais importante para aqueles que não o conheciam e achavam-se capazes de manipulá-lo.
Vou mostrar para eles, Jonathan pensou, irritado.
A porta se abriu e o Lorde Camareiro entrou, fazendo uma reverência ao vê-lo.
— Ragnor — disse Jonathan, com um sorriso afetuoso em seu rosto. Ragnor Fell poderia ser o único membro do governo de seu pai de quem ele realmente gostava.
— Meu Rei — Lorde Ragnor respondeu, se erguendo, e deu um sorriso amável. — Vossa Majestade me chamou e aqui estou, seu mais leal servo.
Jonathan não se sentou, preferindo continuar perto da janela. Ragnor não demonstrou nenhuma reação ou emoção. Era uma de suas habilidades. Ninguém conseguia saber o que ele estava pensando. O cabelo do homem era um loiro claro, quase branco, e dois cachos se enrolavam para cima como se fossem chifres. A pele era tão pálida que suas veias se destacavam, dando um tom esverdeado que lhe fazia parecer estar sempre enjoado.
— Eu tenho uma tarefa para você, Ragnor — Jonathan continuou, colocando as mãos no parapeito da janela e apertando suas costas contra o vidro.
— Diga-me, senhor, e ela estará feita antes do pôr do Sol. — os olhos negros de Fell brilharam. Ele não possuía nenhum título, apenas o sangue nobre, e foi sagaz o suficiente para subir na corte até uma posição de respeito e importância.
Jonathan sorriu. Ragnor Fell era leal ao trono e a mais ninguém.
— A Corte irá se mudar. — Jonathan se virou para a janela e viu mais e mais nobres entrando, analisando o palácio de seu pai com olhos apertados e expressões cheias de julgamentos. — Não tenho amor por St James, nunca tive.
— Perfeitamente compreensível, meu senhor. — Ragnor assentiu. — Para onde, Vossa Majestade? Se me lembro perfeitamente, o Castelo de Windsor é lindo…
Jonathan o interrompeu:
— Iremos nos mudar para o Palácio de Hampton Court.
Os olhos de Ragnor se esbugalharam e seu queixo caiu levemente. Era a maior expressão de emoção que Jonathan já viu no homem.
— A residência de Henry VIII, Vossa Majestade? — ele perguntou.
— Exatamente — respondeu Jonathan. — Meus avós moravam lá, não é mesmo?
Ragnor assentiu com a cabeça.
— Os reis, Marcus e Imogen, passaram sua vida inteira lá, meu senhor.
— Exato — disse o Rei, andando até a sua mesa. Além da carta de Cecily e sua resposta para ela e o marido, estavam papéis, rascunhos e plantas do castelo. Ele os analisava havia horas. — Quero continuar as reformas iniciadas por eles e Sir Christopher Wren, por favor contrate um arquiteto imediatamente. — ele entregou as plantas originais de Sir Christopher para o Lorde, que as pegou sem demora. — Minha esposa nos lhe entregou um dote de novecentos mil guldens, não é mesmo? Creio que essa quantia seja mais do que suficiente para arcar com os custos.
— Todas as reformas, meu senhor? — perguntou Ragnor, analisando os papéis com um olhar crítico.
Jonathan pensou por um segundo.
— Sim, mas gostaria de adicionar algo. — ele olhou para o Lorde Camareiro com tanta intensidade e intimidação que Ragnor deu um passo para trás, ciente da famosa Raiva Herondale. — Iremos reformar o Grande Salão também. Aquela monstruosidade gótica não irá continuar em minhas propriedades. — ele acenou para a porta com a cabeça. — Está dispensado.
Ragnor assentiu e fez mais uma reverência antes de sair do escritório.
Quando estava sozinho novamente, Jonathan sentiu um peso deixar seus ombros e a habilidade de respirar havia retornado. Não conseguia aguentar mais um minuto preso naquele lugar. O Palácio de St James representava tudo que ele odiava em sua vida como Príncipe: o pai. Morar em Hampton Court lhe daria a oportunidade para iniciar um momento bom em sua vida.
Ele não sabia quanto tempo demorou até Gideon Lightwood chegar. Apenas que, ao bater em sua porta, pedindo para ser atendido, o sol ainda brilhava no céu e os membros de Jonathan doíam por ficar tanto tempo na mesma posição.
— Deixe-o entrar — ele disse, ajeitando seu pescoço, ouvindo um estalo perto de seu ouvido e a porta se abriu.
Gideon Lightwood tinha quase trinta anos, mas ainda era muito atraente. Dizia ser parecido com o seu irmão mais velho. Ele era musculoso e alto; possuía cabelos cor de areia e olhos verdes-acinzentados. Gideon vivia recluso nas terras de sua família em Norfolk, sem falar com ninguém, e apesar de ser terceiro na linha de sucessão ao trono espanhol, ainda não havia se casado. Jonathan ouviu um rumor ou dois de que ele possuía uma amante a quem adorava, mas poderia ser apenas fofoca da Corte.
Gideon fez uma reverência curta ao vê-lo. Era um Infante espanhol, portanto não precisava mostrar tanto respeito ao Rei da Inglaterra como qualquer outro nobre.
— Vossa Majestade, — ele disse em uma voz monótona. — Fui convocado?
— Sim — Jonathan respondeu. Não fez movimento para se sentar ou para deixar Gideon puxar uma cadeira. O Infante parecia não se importar. — Tenho uma posição para você.
Gideon assentiu, porém não falou nada. Jonathan estava começando a se irritar com essa indiferença.
— Será meu embaixador na Espanha — disse, sucinto.
O rosto do homem vacilou por um segundo, seus olhos se arregalando levemente, mas logo voltou a relaxar. Parecia cansado.
— Senhor? — disse. — Sou um Infante. Como posso ser um embaixador?
— Quem melhor para garantir meus desejos? — perguntou Jonathan. — Não há ninguém mais próximo de um rei do que seu próprio irmão, posso lhe garantir. — ele sorriu, cheio de escárnio. — E você foi um súdito inglês antes de um Infante espanhol.
Gideon piscou os olhos, surpreso. Jonathan se lembrou de repente sobre como seu nome era Gedeón na corte de seu irmão. Esse é o motivo para ele continuar aqui?
— E qual é seu desejo, meu rei? — perguntou.
O sorriso de Jonathan sumiu de seus lábios.
— Minha irmã — ele murmurou e os olhos de Gideon se arregalaram, surpreso. — Quero Cecily feliz. Quero seu filho no trono espanhol. Quero a amante de seu irmão mandada de volta para onde ela pertence. — Jonathan inclinou sua cabeça levemente. — Entendeu o que estou lhe dizendo, milorde?
Gideon assentiu.
— Quer que meu irmão e sua irmã sejam reconciliados — disse. — E acha que sou o homem perfeito para fazê-lo acontecer.
— Exatamente.
— Meu rei deve ter esquecido. — Gideon estreitou os olhos até eles serem duas fendas verdes em seu rosto. — Eu não vejo meu irmão há dez anos.
Jonathan voltou a sorrir.
— Então terá sua própria mensagem a levar para ele, além da minha — disse e se virou, pronto para selar as cartas destinadas à Espanha quando foi interrompido pela sua porta se abrindo e Anson Pangborn entrando, o rosto corado. Estava sem fôlego. — Agora não, Pangborn.
— Meu senhor. — ele se curvou. — A sua irmã, Ella, chegou à Corte.
♛
Madame Dorothea era experiente em acessar as partes mais misteriosas de seus poderes.
Ela tinha um dom, todos diziam. Sua mãe percebeu as habilidades da menina e a ensinou como usá-las durante a primeira infância. Lhe ensinou como convocá-lo, o Príncipe do Inferno, e como conduzir seu poder por seu corpo, não deixando-o consumi-la. Quando o Príncipe estava feliz, lhe dava poderes. Quando não estava… bom, Dorothea não gostaria de saber o que poderia lhe acontecer ao desagradar seu Príncipe. Mas ele deveria gostar dela. Não havia limite para o que ela poderia fazer quando focava sua mente.
E era o que Dorothea tentava fazer naquele exato momento. Os olhos estavam fechados, a boca cerrada e as mãos estendidas em sua frente. Gotas de sangue gosmento pingavam de seus dedos e o coelho usado para o sacrifício apodrecia no canto do quarto, erguido em cima de sua lareira para ser seu jantar em poucas horas.
— Ele é Rei agora, como o senhor previu — murmurou e sua voz ressoou no ar, quase como se estivesse dentro de uma larga caverna escura e não entre quatro paredes.
Sim, respondeu Asmodeus, sussurrando em seu ouvido. Jonathan é Rei.
— Seu pai está morto. Assassinado. — Dorothea torceu o rosto. Sentia calor, apesar da época do ano, e estava suando. — Quem o matou?
Quem você acha?
Asmodeus podia ler sua mente. Era um de seus poderes. Ele não precisava perguntar para saber quem ela suspeitava ter assassinado o rei.
— Seu pai irá morrer em breve, envenenado pelo ódio e ganância — ela havia dito há tanto tempo, ou eram apenas quatro meses? Era difícil de perceber a passagem do tempo quando se servia um Príncipe imortal.
— Jessamine — Dorothea sussurrou. — Foi ela?
Errado. Asmodeus riu em seu ouvido e uma visão brilhou em seus olhos. Era um homem, martelando em uma forja, o calor e a graxa pingando em seu rosto. Usava um colete de couro, com uma ferradura bordada, e ao se virar, Dorothea viu seus olhos verdes e o cabelo castanho curto. O homem sorriu de maneira maldosa, dois dentes faltando, e ergueu seu trabalho. Uma coroa tão brilhante e dourada que Dorothea apertou seus olhos, como se isso pudesse ajudá-la.
— Foi ele, meu Senhor? Devo entregá-lo à justiça?
Não, o Príncipe retrucou. Deixe-o plantar o caos na Corte.
Dorothea apertou os lábios. Conseguia sentir o suor descer por sua testa e o calor aumentar dentro do quarto a cada segundo, lambendo a sua pele com uma língua áspera e fervente.
— Seraphina espera um filho — disse, desejando de mudar de assunto. — O Senhor me mostrou que ela iria ter dois varões, Rex e Caesar. A quem devo esperar?
Rex. O Protetor. Asmodeus vivia em um reino diferente do dos humanos. Poderia ver o passado, o presente e o futuro, tudo ao mesmo tempo, sem nenhuma dificuldades. Quando estava feliz, mostrava visões do passado e do futuro para seus seguidores, guiando-os nesse plano mortal.
— E Caesar? — Dorothea mordeu o interior de sua bochecha. Estava ansiosa. Ela não abriu os olhos, nem mesmo quando o ar da sala ficou abafado e ela quis tossir. Nem mesmo saiu de sua posição, apesar de ter baixado os braços com a chegada de seu Rei. — Quando ele chegará?
Longe. Caesar nascerá durante uma guerra, entre brigas e desejos. Ele será o Governante.
— Em minhas visões, o Senhor me mostrou duas filhas.
Não, a resposta ríspida de Asmodeus foi como um chicote no ouvido de Dorothea e ela sentiu o peso de sua mão em sua bochecha esquerda, estapeando seu rosto. Mulher tola!
— Perdoe-me, miLorde — murmurou Dorothea, lágrimas de arrependimento chegando ao seus olhos. — Mostre-me a verdade e eu irei lhe recompensar.
Quatro filhas! ele gritou e sua voz ardia como fogo, Mostrei quatro filhas. Mulher tola! Não sabe ler minhas visões!
— Perdoe-me — pediu novamente. — Perdoe-me. Perdoe-me. Perdoe-me.
Tarde demais, disse Asmodeus e seu riso cortou como uma faca o ar pesado, Estou aqui para lhe reivindicar.
Dorothea abriu os olhos e percebeu, em desespero, que seu quarto estava pegando fogo, as chamas atingindo o teto. Tudo brilhava e era impossível perceber a origem do incêndio, mas, ao tentar, se levantar da cadeira para fugir e salvar sua própria vida, percebeu estar colada em seu assento, as mãos ficando presas como se estivessem amarradas.
Esqueceu de me fazer uma pergunta, Dot, murmurou Asmodeus e seu rosto brilhou entre as chamas, Quem é Seraphina Clarissa Jocelyn? Por que ela é tão importante?
Uma carta voou pelo ar e parou em frente à Dorothea, levitando. Nela estava representada uma mulher, sentada em um longo divã. Usava um vestido branco e uma coroa de estrelas, segurando um cetro em sua mão. Estava cercada por plantas e riqueza natural. Abaixo, estava escrito algo em uma língua que Dorothea não entendia.
Kaiserin, ela leu e sua mente clicou ao se lembrar da carta. A Imperatriz.
Mas já era tarde demais. Assim que percebeu o significado, o quarto explodiu em chamas e os gritos de Dorothea não foram o suficiente para salvá-la.
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