Imperium
6 VI - Safiras
Notas iniciais
Cara irmã,
Eu estou casado agora. Nosso pai conseguiu o que sempre queria: um sucessor ligado por matrimônio à princesa da Áustria, garantindo-nos paz e conexões. Era para ser William em meu lugar, mas o destino quis que eu carregasse o seu fardo. É o meu dever como herdeiro do trono. O único problema é que não sou nosso irmão. Nunca fui, nunca serei. Sei que irei falhar com minha esposa.
O Rei está extasiado, assim como seus bajuladores reais. O reino festeja nossa união e todos aguardam ansiosamente a chegada da princesa Clarissa, que receberá um banquete digno de sua nova posição quando desembarcar com sua coalizão no cais a qualquer dia. O reino prospera neste pequeno intervalo e todos estão felizes e esperançosos, finalmente, como nunca haviam estado antes. Exceto eu.
Creio que Jessamine também não está animada, entretanto isto não é relevante. Ela está alocada na Casa de Buckingham no momento, por falta de um lugar mais propício. Quero manter minha distância por agora, enquanto meu orgulho ferido se cura. Já imagino as palavras do sermão que você irá me dar e dói-me dizer que você estava certa.
Sinto muito por meu sobrinho, minha irmã, mas você é jovem. Terá outros filhos. Não fique triste. Sua dor é minha dor, como sempre foi desde que éramos apenas crianças com joelhos ralados e arranhões. Eu diria que o manterei em minhas orações, mas conhece-me bem demais para saber que não sou uma pessoa religiosa. Ao invés, direi apenas que farei o que estiver ao meu alcance para fazê-la feliz novamente, Cecily. Seu sorriso é a maior jóia inglesa já criada.
Com amor e pesar,
Príncipe Jonathan Cristopher Herondale, de Gales.
Após vários minutos, Jonathan permitiu-se abaixar sua pena, enquanto relia suas palavras pela milésima vez. Se pudesse, teria escrito ali mesmo para sua irmã que mataria Rei Gabriel por fazê-la sofrer neste momento tão delicado, porém isso seria considerado um ato de guerra, prejudicando a segurança de Cecily e potencialmente iniciando uma batalha que nenhum dos dois reinos estava preparado para travar. Sabia que as cartas enviadas entre eles eram lidas por agentes espanhóis. Seria tolo em acreditar que Gabriel não desconfiava de tudo ao seu redor. O Rei espanhol ganhou seu trono com sangue.
— Envie esta carta a minha irmã — disse, derrubando um pouco da cera dourada real no envelope e selando-o com o símbolo da dinastia Herondale.
— Sim, meu Príncipe — seu pajem recolheu a carta e desastradamente se curvou, dirigindo-se até a porta.
Jonathan suspirou, encostando sua testa em suas mãos. Por Deus, estava cansado. As últimas semanas foram mais estressantes do que todos os anos em Eton combinados. Ele fechou os olhos e, queimada em suas pálpebras, estava a imagem de Jessamine, lábios carnudos apertados em um bico enquanto levantava sua camisola escandalosamente para revelar uma perna pálida. Precisava admitir que sentia a falta dela, como se tivesse perdido um órgão ou um membro.
Ela não o fazia completo, mas, de todas as suas amantes, Jessamine era a que mais durou. Seria difícil viver com ela longe, porém ele precisava de distância para entender o que estava sentindo.
Ele pensou em Clarissa. Sua esposa. Ela havia viajado pela Europa inteira para conhecê-lo, deixando sua casa e sua família após ser vendida como uma égua reprodutora. Tinha dezesseis anos, quatro a menos que ele. Era uma criança.
Não importava. Jonathan faria seu dever. Precisava fazer. Para o bem da Inglaterra.
Por um momento, ele desejou que Alexander estivesse ao seu lado. Seu amigo certamente iria oferecer algumas palavras de consolo e conselhos extremamente necessários, porém, infelizmente, assim que Jonathan garantiu um lugar na Corte para o Duque de Norfolk, seu pai o convocou para liderar o grupo que iria receber a princesa de Gales. Às vezes o Príncipe achava que o Rei fazia aquilo de propósito, como se gostasse de vê-lo sofrer em sua própria solidão.
Ele esfregou seu rosto com as mãos, estava exausto. Sentia o peso de uma vida inteira sobre seus ombros. Todos os anos vivendo em juventude imprudente o deixaram despreparado para a vida adulta. Deveria ter prestado mais atenção em suas aulas de etiqueta, ouvido melhor sua governanta, mas, na época, ninguém se importa com seu comportamento. Prestavam atenção apenas nas conquistas e nas derrotas. Todos os olhares estavam voltados para William.
William. Ele pensou, sentindo uma fisgada em seu peito em saudade do irmão. William. Era ele que deveria estar em seu lugar, o futuro rei. Marido da Arquiduquesa austríaca. Estava destinado a grandezas, feitos incríveis que deixariam seu nome marcado na história. Jonathan apenas roubou o que era dele, algo que foi obrigado a fazer depois da morte do irmão.
Por anos, Jonathan viveu na sombra de William. Era algo com que havia se acostumado, algo que gostava. Isso permitiu que ele crescesse de maneira livre, sem as pressões colocadas ao redor do herdeiro do trono. Alguns diriam que isso o tornaria um ótimo rei, despreocupado, mas Jonathan achava que isso significaria apenas o contrário. Não estava preparado para governar. Seu pai nunca aceitou a morte do filho e, portanto, nunca tentou ajudá-lo em seus estudos.
Filho. A palavra pesou em sua mente. Um de seus deveres como o último homem da família Herondale em sua geração era ter filhos que pudessem carregar o nome de seus antepassados para frente, porém, desde seu encontro com Jonathan Wayland, um medo ansioso tomava conta de seu peito. Apesar das inúmeras amantes ao longo dos anos, o Príncipe herdeiro nunca gerou filhos sobreviventes com suas mulheres.
Houve uma, no entanto, uma criança que quase veio ao mundo. Uma menina com cabelos dourados e bochechas rosadas que seria a luz de seus olhos se não tivesse sido natimorta. Jonathan nunca contou à ninguém sobre ela, nem mesmo Alexander, e a mãe, em dor intensa, se juntou a um convento na sua terra natal.
Se tivesse um filho com Clarissa, Jonathan estava certo de que iria lhe dar o nome de William.
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O capitão do navio a avisou, logo que os primeiros raios solares cruzavam o céu, de que já era possível avistar a costa inglesa no outro lado do Canal da Mancha. Uma ansiedade intensa tomou conta de seu corpo, se prendendo em seu peito e enchendo seus pulmões. Clarissa quase saiu de seus aposentos apenas de camisola, tamanha era a vontade de ver sua nova casa, mas, felizmente, suas criadas foram rápidas em puxá-la de volta para que pudesse, ao menos, colocar um roupão e ficar decente.
O cheiro da maresia foi a primeira coisa que sentiu, junto com uma forte tontura pelos movimentos descontrolados do mar, no entanto Clarissa se esforçou para controlar o enjoo. Queria ver a terra sem a preocupação dos seus atendentes ao seu redor.
Para a segurança da princesa e para não prejudicaram o tráfego de navios comerciais indo e vindo do continente, eles não estavam navegando pelo Estreito de Dover. Rumores diziam que era possível ver os penhascos brancos de Dover em certas áreas de Calais em um dia aberto, porém, viajar pela parte mais larga do canal e com os ventos desfavoráveis, fez com que a costa inglesa se tornasse um sonho distante por muitas horas.
Mas sua espera havia terminado.
Clarissa prendeu sua respiração, sentindo seus olhos se encherem de água. Finalmente, ela chegou. Chegou na Inglaterra. Chegou em casa. As ondas cinzentas batendo contra as pedras lisas após centenas de anos sofrendo as pressões da natureza formavam uma imagem tão bela quanto a neve caindo nas árvores do Hofburg. Clarissa juntou suas mãos na frente de seu peito e agradeceu aos céus por terem lhe dado um país tão gracioso.
— Mein Gott! — exclamou. — Deslumbrante! Sonhei com isso por tanto tempo und é melhor do que eu poderia imaginar!
— Já mandamos um de nossos botes para a costa, Vossa Alteza, — disse Henry Branwell, um cavaleiro inglês que a encontrou na França para garantir sua segurança. — Iremos atracar em breve. Aconselho que volte para seus quartos para descansar. Tem um dia longo pela frente.
Clarissa se virou para Henry.
— Descansar? Estou animada demais para descansar! — respondeu, levantando as mãos. — Quero pular nesse oceano e nadar até lá eu mesma!
Suas atendentes estremeceram e Hannah levou sua mão até sua boca. Clarissa quis rir com o choque das mulheres austríacas.
— Mas, princesa, você não sabe nadar! — disse o padre Enoch, um clérigo que a estava acompanhando desde sua saída da Áustria.
— Ah, estou apenas brincando, meu padre, — murmurou, balançando uma mão. Clarissa voltou seu olhar para a costa e quis gritar de felicidade. — Eu pertenço à essa terra. Clarissa Jocelyn, princesa de Gales. Já vejo minha vida aqui. Meus filhos, os ingleses…
Como se estivesse esperando uma chamada, um grupo de nobres e guardas apareceram no horizonte, carregando bandeiras estampadas com o leão dourado, símbolo da Inglaterra, e as garças esbeltas dos Herondale. Clarissa mordeu seu lábio.
— Princesa, — disse Henry. — recomendo que volte para seu quarto para se aprontar.
Clarissa suprimiu a vontade de acenar para os homens a esperando na costa. Era a princesa de Gales agora, não mais uma criança. Precisa agir como tal. Jonathan não iria querer uma menininha como sua esposa. Se ela quisesse substituir o lugar da atriz em suas afeições, deveria mostrar o porquê de ela ser melhor.
Ela se virou para suas damas e assentiu, liderando o caminho de volta para seus aposentos. As mulheres a seguiram em silêncio, só poderiam falar quando a palavra fosse dirigida a elas. Clarissa sorriu para o guarda colocado em sua porta e ele sorriu de volta. Sua avó lhe disse que era importante tratar os menos afortunados com dignidade se quisesse ser amada e ela queria ser amada. Muito. Ela pensou nos homens a esperando na praia e balbuciou cumprimentos em inglês enquanto entrava. Precisava impressioná-los
— Eu quero a seda azul — disse, olhando-se no espelho de seu quarto. — E as safiras de minha avó.
— Ótima escolha, senhora, — respondeu Hannah enquanto Sofia retirava o roupão da princesa. — Gostaria de seu cabelo solto ou preso?
Clarissa torceu sua boca, imaginando-se andando pelos corredores do Palácio de St James, vendo todos os membros da Corte se curvando com sua chegada. Seu pai a avisou sobre a falta de extravagância entre os ingleses, que ela deveria tomar cuidado para não parecer fútil. Superficialidade não era a imagem que ela gostaria de passar, concordava com Valentim nisso, porém um desejo intenso se formava em seu peito. Ela não queria parecer fútil, no entanto, queria parecer rica.
— Preso — respondeu, erguendo os braços para que Sofia pudesse tirar sua camisola. — Quero que todos vejam minhas jóias.
O vento frio do quarto atingiu sua pele nua e ela estremeceu, sentindo todos os pelos de seu corpo se arrepiarem enquanto esperava Antonia pegar a primeira camada de sua roupa.
Hannah puxou um par novo de meias azuis por suas pernas e Sofia apertava o espartilho até que seu tronco tomasse uma forma cônica. O processo inteiro para vesti-la demorou algumas horas, com as criadas correndo ao seu redor para prepará-la, assumindo várias responsabilidades. Era algo tedioso, ser enfeitada como uma boneca sem qualquer coisa para distrair sua mente, mas já estava acostumada. Clarissa aproveitou esse tempo para repassar momentos importantes da história inglesa em sua mente.
Os Herondale chegaram ao poder em 1517 com o fim da Guerra das Rosas. Seu Rei mais famoso foi Rei William III, o Grande. A Boa Rainha Elizabeth I era conhecida por sua virgindade e por ter sido a primeira rainha inglesa a reinar em seu próprio direito.
Antonia apertou grampos em seu cabelo, puxando os cachos ruivos para cima em um penteado elaborado e complicado. Ela estava prestes a abrir a caixa de tiaras e coroas quando Clarissa levantou sua mão, indicando que parasse.
— Não devo exagerar no brilho — murmurou. — Quero parecer influente, mas não como se estivesse tentando compensar alguma coisa.
— Ótima escolha, Ihre Hoheit, — respondeu Antonia, arrumando um de seus próprios cabelos loiros. — Você é muito elegante.
— Muito — repetiu Hannah, assentindo. Ela estava aos pés da princesa, calçando um de seus sapatos. — O Príncipe Jonathan é um homem de sorte, Ihre Hoheit.
Clarissa sorriu com os elogios. Sabia que foram treinadas para bajulá-la, para fazê-la feliz, mas não conseguia esconder a satisfação pessoal que sentia com os comentários.
Ela se olhou no espelho, os olhos verdes analisando todo o seu rosto e beliscou suas bochechas, tentando tirar um pouco da palidez doentia que a cobria. Clarissa suspirou e rezou rapidamente por sabedoria e luminosidade nas próximas horas.
— Estou pronta — disse, passando suas mãos pela seda macia de suas roupas. Era seu vestido favorito, um presente de sua mãe no seu último aniversário. — Podemos ir.
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Isabelle agarrou a porta da carruagem, fechando os olhos com o solavanco que o veículo deu. Sentiu como se seu coração fosse pular por sua boca e fechou seus olhos, tentando acalmar as respirações rápidas.
— Deplorável! — reclamou sua mãe, abrindo seu leque vermelho e abanando o rosto suado. — Eu, a mãe de um Duque, viajar nessas condições. Ah, Alexander irá se ver comigo.
Isabelle suspirou. Estava viajando com Maryse por horas, ouvindo suas lamúrias e seus gemidos. Deveria já estar acostumada com isso, sem sensibilidade nos ouvidos e no cérebro, mas sempre achava que sua mãe iria mudar. Que iria aceitar as condições da vida.
— Choveu ontem à noite, mamãe — disse, incapaz de não cair no papel de mediadora da família. Desde que seu pai morreu e Alexander herdou o título da família, Isabelle estava acostumada a apartar as brigas entre os parentes. — Alec não tinha como saber.
— Não chame-o assim — chiou Maryse. — Apelidos são para os comuns.
— Príncipe Jonathan criou o apelido — respondeu, chateada. Ela ainda se lembrava do dia em que recebeu a carta de seu irmão quando ainda estudava em Eton, reclamando do Príncipe que insistia em se aproximar dele. Ele está me chamando de Alec. Alec! Consegue acreditar? Desde então, Isabelle não era capaz de chamar Alexander por outro nome.
— Sim, não me lembre dele. — Maryse olhou pela janela da carruagem, torcendo o nariz com o cheiro na atmosfera. As cidades do ducado de Buckingham não eram tão bem cuidadas quanto as de Norfolk. Todos sabiam que Jonathan Wayland só se importava com sua vida na Corte e o caminho que o levaria para o trono. Ele não tinha tempo para cuidar de seus súditos. — Você é uma garota esperta, Isabelle. Sei que não irá me decepcionar.
Isabelle passou suas mãos pela saia de seu vestido. O veludo rosa era macio contra seus dedos, roupas perfeitas para uma garota que iria ser dama de companhia da esposa do Príncipe herdeiro. Ela apertou seus dedos, querendo rasgar o tecido e tirá-lo de sua pessoa. A noção do que a cercava era sufocante e nauseante. Sua posição na Corte ditava que ela deveria se tornar amiga da princesa, sua confidente. Como ela poderia fazer isso quando sua mãe lhe dizia para seduzir o Príncipe?
Ela não era tola. Sabia de seus atributos. Muitos homens já haviam elogiado sua incrível beleza, alguns que ela conseguiu levar para sua cama, e não era o tipo de pessoa que ignorava palavras bonitas por uma falta de amor próprio inexplicável. Isabelle era linda e inteligente. Poderia muito bem seduzir o Príncipe, ganhar seu favor e mandar sua atriz para longe.
Mas ela também acreditava que mulheres deveriam ser amigas. Sem se jogar em intrigas na Corte ou tentar roubar o marido da outra. Queria ser amiga da Arquiduquesa Clarissa, queria ajudá-la a se adaptar ao país. Sabia que Helen Blackthorn e Theresa Starkweather foram convidadas também. Enquanto, Theresa recusou o convite, Helen o aceitou com graça. Isabelle conhecia Helen, quando um possível casamento entre ela e Mark Blackthorn começou a ser discutido. As negociações nunca resultaram em nada, mas um senso de amizade permaneceu entre as duas. Seria bom ver um rosto familiar na Corte. Certamente, tornaria o relacionamento das duas com a princesa mais fácil.
Helen não iria me perdoar se eu dormisse com o marido de uma amiga, entretanto, pensou, nervosa.
— Os rumores sobre a princesa dizem que ela não é muito bonita e que me parece uma criança — continuou Maryse, sem notar o dilema de sua filha. Isabelle passou seus dedos nas chamas costuradas na almofada de seu assento. O símbolo de sua família lhe trouxe conforto. — Com Jessamine Lovelace longe, não será difícil entrar na cama do Príncipe negligenciado.
Isabelle suspirou. Estava claro que seu destino já estava completamente escrito em sua frente. Seria tolice tentar fugir do que foi decidido por Maryse Lightwood.
— Sim, mamãe.
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