Imperium

7 VII - Estrela da Alvorada


Notas iniciais
Oi, gente. Só para avisar que todas as cenas com a Jessamine aconteceram na noite anterior a chegada da Clarissa na Inglaterra.

Jessamine se olhou no espelho, tocando com as palmas das mãos em suas bochechas rosadas e piscando os grande olhos castanhos com preguiça. Seus cílios longos e loiros roçaram contra sua bochecha. Sua mãe costumava dizer que parecia uma boneca, os traços delicados como os de uma flor. Jessie sabia que não se parecia com a progenitora, ruiva e grosseira que era sua mãe, então imaginou que toda sua beleza era herdada de seu pai. Quem quer ele fosse.

Ela ergueu suas pernas, apoiando seus pés na almofada de sua poltrona e abraçou seus joelhos. Possuía seios volumosos e curvas moldadas pelos céus. Era linda, o objeto de desejo de inúmeros homens e, no entanto, o único cavaleiro que queria em sua cama era também o que a ignorava.

Jonathan não respondeu nenhuma das inúmeras cartas que mandou. Jessamine se desanimava a cada dia que o mensageiro real falhava em entrar nos terrenos da Casa de Buckingham. Eu te amo. Deixe-me voltar. Irei consertar qualquer coisa que tenha feito. Deixe-me arrumar os meus erros. Eu te amo, eu te amo, eu te amo.

Era difícil admitir que sentia a falta do Príncipe. Passaram quase um ano juntos, as horas se derretendo juntas enquanto aprendiam os segredos de seus corpos. Quando Nate lhe disse que deveria se tornar a amante do herdeiro ao trono, Jessamine se lembrava de ter franzido o cenho. A morte de William ainda era fresca e ninguém sabia a primeira coisa sobre Jonathan Christopher, apenas que tinha tido amante atrás de amante. Ele poderia ser violento na cama, ou ter um temperamento frio. Poderia ser tantas coisas, coisas que não era.

Por trás do semblante maduro e irritado, Jonathan ainda era um menino faminto por afeição. Ele ansiava por aprovação e, acima de tudo, amor incondicional. Alguns diriam que ele estava procurando por uma mãe e, talvez, estavam certos. Jessamine não se importava. Tudo o que sabia é que havia perdido o favor do Príncipe e, com a chegada da Arquiduquesa, poderia nunca ganhá-lo novamente.

A porta de seus aposentos se abriu e Nate entrou, balançando sua bengala pelo ar. Ele parou e a encarou, uma careta tomando seu rosto.

— Por que não está pronta? — perguntou. — A ópera começa em duas horas.

Ele analisou seu corpo desnudo com os olhos, uma chama de desejo queimando em suas pupilas. Jessamine sentiu uma vontade intensa de se esconder, de jogar um pedaço de pano por cima de seu corpo. A sensação era estrangeira e nem um pouco bem-vinda.

— Eu não vou — respondeu, voltando seu olhar para o espelho. Tentou reprimir a vontade de se encolher para que o homem não a encarasse, falhando.

— Como assim? — ele questionou. — Deixe de besteira, Jessie. Precisamos ir.

Jessamine olhou para a cama, um vestido de veludo vermelho jogado em cima das cobertas. Nathaniel havia lhe dito para usá-lo naquela noite, porém ela não encontrou as forças necessárias para vesti-lo.

— Vá sem mim — disse. Pensou em uma desculpa qualquer que o fizesse ir embora. — Estou enjoada.

— Se eu fosse mais tolo, pensaria que está grávida, — ele franziu o cenho, fazendo uma pausa e olhando para o teto. — Porém como pode estar grávida, se o Príncipe não visita sua cama há semanas?

Ela bufou, irritada.

— Não precisa me lembrar disso. — retrucou. — Ele está me ignorando.

Nate se aproximou, colocando a bengala de lado e tocando em seus ombros nus. Jessamine estremeceu e tencionou todos os músculos em seu corpo.

— Ora, Jessie, — ele disse, apertando as pontas de seus dedos em lugares estratégicos de suas omoplatas, pressionando exatamente onde saberia que iria doer. — Diga-me, querida, está se sentindo humilhada porque seu Príncipe perdeu o interesse? Você já foi melhor que isso.

Jessamine respirou fundo, tentando ignorar a dor.

— Sabe que não é assim — respondeu. — A Corte inteira estará na ópera hoje. Todos sabem que ele me deixou. Não irei aguentar a vergonha.

Nate sorriu, como se tivesse conseguido o que queria. Ele a soltou, afagando sua pele machucada e beijou a curva de seu pescoço. Esse toque gentil ela não conseguiu recusar.

— Exatamente por isso que devemos ir — disse. — Mostre para os nobres que não se importa com a rejeição do Príncipe. Que você irá reconquista-lo. Mostre que Clarissa não é uma ameaça.

Jessamine deveria saber que não iria conseguir resistir a vontade de Nate. Ele era esperto, sabia exatamente o que dizer para convencê-la a fazer seus desejos. Sempre foi assim entre eles. Desde a primeira vez que ele entrou no bordel da Madame Belcourt.

Ela suspirou e relaxou seu corpo.

— Tudo bem — murmurou. — Irei me arrumar.

Nathaniel bateu palmas e ajeitou seu casaco roxo. Jessamine achou que seria melhor não mencionar que apenas a realeza poderia usar roxo. Ele iria perceber seu erro quando chegassem na casa de ópera e todos começassem a fofocar entre suspiros.

Ela se virou para o antigo amante e ergueu suas sobrancelhas, como se quem dissesse para ele se apressar e ir embora, mas ele continuou parado, até mesmo se sentou em uma das poltronas para ficar mais confortável.

Jessie cresceu sem empregadas, forçada a aprender a se vestir sozinha, faltando os inúmeros mimos que Seraphina Clarissa Jocelyn ganhou desde o nascimento. A única filha mulher do homem mais rico em todo o mundo, ela certamente não poderia se alimentar sozinha sem ter alguém para levar a colher do prato até sua boca. A Arquiduquesa não precisou fazer nada para ganhar um lugar ao lado de Jonathan até sua morte. Precisou apenas sobreviver o suficiente para se casar e saber abrir as pernas para parir herdeiros e mais herdeiros.

Não era justo, pensou, que Clarissa seja uma princesa e eu esteja aqui.. com ele. Ela olhou para Nathaniel com o canto de seus olhos.

Jessamine percebeu o motivo de ele ainda estar ali quando precisou apertar os laços na parte de trás do vestido. Ela não conseguia segurá-los com um punho firme. Suspirando, ela desistiu e se virou para ele.

— Você pode me ajudar? — perguntou. — Por favor.

Nate sorriu de lado e se levantou, ajeitando a sua blusa e coçando o canto de seu nariz. Ele agarrou as pontas dos laços e os puxou, mais apertado do que o necessário. Seus dedos experientes os amarraram em poucos segundos.

Ele beijou o pescoço dela.

— Irei chamar o cocheiro. — Nate levantou os olhos e a olhou no espelho. — Deveria colocar algumas jóias. Você parece pálida.

Jessamine preferiu não responder. Ele saiu de seu quarto em silêncio e ela continuou parada, tocando em seu colo vazio e sentindo o lugar em que um colar deveria estar. A maioria das jóias que usava enquanto ainda morava na Corte eram propriedade da realeza, heranças de família que não possuíam donos após os casamentos das princesas e a morte da rainha Céline. Jonathan havia lhe dado permissão para usá-los e ela se orgulhava em exibir as pedras preciosas pelos corredores do Palácio de St James.

Quando suas malas foram levadas para fora da residência real, a governanta do Palácio insistiu que ela devolvesse todas as jóias para que Clarissa pudesse usá-las quando chegasse.

Ela ajeitou seu cabelo o melhor que pôde e saiu do quarto, descendo as longas escadas da Casa de Buckingham em direção às portas de entrada.

Nate a esperava, parado em frente a carruagem. Não era um veículo luxuoso como os dos nobres, apenas mais uma casa sobre rodas que não merecia destaque. O cocheiro, sentado sobre seu assento, parecia bêbado enquanto apertava seu punho nas rédeas dos cavalos.

Jessamine subiu em seu lugar com a ajuda de Nate e ajeitou suas saias, juntando suas mãos em cima de seu colo.

— O que iremos ver? — perguntou quando ele entrou.

Nate suspirou.

Tigrane, o vero L'egual impegno d'amore e di fede, — respondeu. — De Alessandro Scarlatti.

O nome não lhe era familiar, porém Jessamine nunca foi fã de óperas. Em seus breves meses como atriz, ela costumava representar papéis em peças inglesas e estrangeiras. Sua voz nunca foi muito boa para músicas.

Ela olhou pela pequena janela na lateral da carruagem, sentindo a brisa em seu rosto. Gostava de ver as ruas londrinas ao longo do caminho, observando os homens indo para seus empregos nas fábricas e as mulheres puxando os filhos para dentro das lojas. Era uma visão comum da paisagem de Londres, algo que Jessamine entendia com a palma de sua mão.

Porém, ao chegarem em uma praça no centro da cidade, algo lhe chamou a atenção. Homens, fortes e musculosos, vestindo uniformes militares que ele não conseguia reconhecer – apesar de já ter tido inúmeros amantes que pertenciam ao exército, – e entregando sacos e caixas para um grande grupo de pessoas vestindo trapos e com os rostos sujos de fuligem. Era possível ver que a multidão só aumentava, mas isso não seria um problema para os soldados, ela tinha certeza. Cada vez que parecia que suas doações estavam acabando, mais carroças lotadas chegavam.

Jessamine se virou para Nate.

— O que está acontecendo? — perguntou. — Quem são esses homens?

Nate estava olhando para seu relógio e levantou a visão levemente.

— São soldados austríacos. Consegue ver a estrela bordada na lapela de seus casacos? É o símbolo da família Morgenstern. — respondeu. — Chegaram ontem.

— O que soldados austríacos estão fazendo aqui? — Jessamine não conseguiu conter a raiva em sua voz. — O que eles pensam estarem fazendo com os pobres esfomeados?

— Originalmente, eles estão aqui para garantir a segurança de de membros da nobreza austríaca que vieram para o casamento, mas, imagino que a mando do Imperador, estão entregando comida e mantimentos para a classe menos afortunada em nome de Clarissa. Ouvi dizer que ela mesmo os mandou, não o pai.

Ele a encarou por um momento, como se a estivesse esperando dizer alguma coisa implícita na conversa. Jessamine voltou a olhar para os homens e em como sussurravam algo no ouvido de cada pessoa que ajudavam.

— Ela quer ganhar o amor deles. Ou o pai quer que ela ganhe — sussurrou. — O Rei está permitindo isso? Certamente isso é uma afronta. É como se dissessem que ele não toma conta de seu povo.

— Deve estar — disse Nate. — Ele entende o que é preciso para se manter no poder.

Jessie se virou para o antigo amante.

— Do que está falando?

— A Inglaterra não é como os outros países, minha querida. O monarca é um símbolo de poder, sem qualquer tipo de aperto no povo. Os membros da família real precisam ser amados se quiserem continuar com sua vida luxuosa. O medo já degolou um Rei inglês antes. — Nate correu seu dedo pelo acolchoado da carruagem. — Valentim Morgenstern entregou sua filha favorita para um país estranho. Ele quer garantir que ela e seus filhos sejam poupados no caso de uma possível revolta.

A raiva tomou o peito de Jessamine. Era intensa e caótica, corrompendo tudo em que tocava. A austríaca nem havia chegado em solo inglês e já mudava o estado das coisas? Impressionante. Deveria querer conquistar o país de seu marido, para que ele não pudesse rejeitá-la quando se tornasse rei, a não ser que Jonathan quisesse a inimizade do povo.

— E está funcionando? — perguntou, bufando de raiva.

— Deve estar. Ouvi senhoras acendendo velas em seu nome e rezando por sua saúde.

Francamente. Isso era uma afronta. Jessamine não tinha muito tempo para consertar isso. Clarissa podia muito bem já estar andando em terras inglesas, por tudo que sabia. Ela precisava reconquistar o coração do Príncipe.

Não seria difícil, imaginou. Já havia conseguido uma vez.

O Royal Opera House estava lotado naquela noite, as carruagens iam e vinham com velocidade enquanto membros da nobreza e aristocracia se amontoavam na entrada, rindo e conversando entre si. Jessie os observou com ânsia. Queria estar ali com eles. Era onde pertencia. Sabia disso.

Nate desceu primeiro e olhou ao redor arrogantemente, erguendo sua mão para ajudá-la a sair. Jessamine puxou sua saia e percebeu, com o canto da visão, que todos os encaravam, expressões escandalosas em seus rostos. Não havia dúvida de que o culpado para tal reação era a roupa roxa de Nathaniel.

Eles subiram os degraus do teatro em silêncio, ela apoiada no braço dele. O interior da casa de teatro era repleta de esplendor e riqueza, algo que gritava nobreza. Jonathan não gostava de óperas, as achava entediantes, então nunca tinham visto uma das apresentações juntos; ele ia apenas quando era obrigado pelo pai, e Stephen nunca iria permitir que ela os acompanhasse.

A apresentação ainda não havia começado e os membros do público permaneciam no salão de entrada, conversando e rindo enquanto bebiam champanhe. Porém, ao entrarem, parecia que todos os olhos se voltaram a eles e as conversas se cessaram. Uma agulha caindo poderia ser ouvida naquele silêncio ensurdecedor.

— Você não deveria ter escolhido essas vestes roxas — sussurrou ela, os lábios próximos ao ouvido de Nate. — Estão todos olhando para você.

Nate riu, seco.

— Não, minha querida, — ele respondeu. — Estão todos olhando para você.

Era verdade, Jessamine percebeu. Os olhares da sala estavam voltados para ela, as íris queimando de raiva, quase como se ela estivesse os ofendido pessoalmente. Foi tolo não ter notado antes. Sentiu suas bochechas queimarem, ouvindo os sussurros retornarem a sala, mas conseguia notar que eles não fofocavam sobre a ópera ou os rumores dentro da Corte. Não, eles estavam falando sobre ela.

— Veja, Isabelle, — disse uma mulher com longos cabelos negros e uma expressão severa no rosto. Ela falava alto o suficiente para todos o ouvirem. — A meretriz ousa dar as caras aqui mesmo com a rejeição do Príncipe.

— Mamãe! — repreendeu Isabelle. As duas mulheres lembravam Jessie de Alexander, o Duque de Norfolk. Deveriam ser parentes. Mãe e irmã, ela presumiu. Conseguia se lembrar de ter ouvido Norfolk chamar sua progenitora de Maryse.

Os outros pareciam concordar, sussurrando palavras chulas e maldições direcionadas à Jessamine. Era possível ouvir o nome de Clarissa e Jonathan entre os comentários, expressões decepcionados em rosto pálidos.

Uma das inúmeras portas do teatro se abriu e um homem entrou na sala, usando trajes caros, escutando os sussurros que uma criada murmurava ao pé de seu ouvido. Ele tinha uma expressão severa em seu rosto e andava com um certo peso. Certamente, era o dono do lugar, ou pelo menos o encarregado. Ele se aproximou de Jessamine e a encarou de cima para baixo, analisando-a com uma precisão matemática.

— A senhora não é bem-vinda aqui — disse, voltando seu olhar para Nathaniel. — Nem o senhor. Peço que se retirem.

As bochechas de Jessamine queimaram como nunca e uma chama de raiva se acendeu dentro de seu corpo. Ela olhou ao redor, esperando que fosse uma brincadeira que apenas ela não entendia, mas os senhores e damas presentes balançavam suas cabeças como se concordassem.

— Se retirar? Mas por quê? — perguntou Nate, um sorriso carismático estampado em seu rosto.

— A Royal Opera House é um lugar para pessoas de reputação impecável, senhor Gray — respondeu, olhando diretamente para Jessie.

Ela não conseguiu se segurar e precisou retornar a farpa:

— Reputação impecável? — repetiu. — Sabe com quem está falando?

— Com a meretriz do Príncipe Jonathan — disse o dono do teatro. — Ou, antiga meretriz, devo dizer. Todos sabem como ele a descartou.

Um sorriso sarcástico tomou os lábios de Jessamine e ela riu. Sua risada ecoou pelos salões, seca e falsa. Estava tremendo, percebeu, mas não sabia o porquê.

— Eu estou morando na Casa de Buckingham — exclamou. — Uma das residências reais. Isso soa algo que o Príncipe faria para uma amante rejeitada?

A voz de Maryse pôde ser ouvida ao seu lado, alta e aguda como uma gralha.

— A prostituta é tola. Ainda acredita que vai conseguir tudo o que quer — murmurou. — Ela não entende, minha querida, que príncipes deitam com plebeias, damas da Corte, mas, na hora de se casar, eles sempre escolhem as princesas.

Nate puxou seu braço, sussurrando que estava na hora de ir. Jessamine se permitiu ser levada, deixando seu corpo leve e permissível. A humilhação queimava em seu rosto e as palavras de Maryse ecoando por sua mente. Tolos. Um dia, ela tinha certeza, eles iriam ajoelhar aos seus pés.

Eles se apressaram em direção a carruagem e o cocheiro, conversando com outros criados. Ele ergueu seu rosto com sua chegada e correu para eles.

— Já estamos indo, meu senhor? — perguntou naquele sotaque carregado que todos da classe mais baixa tinham.

— Sim — disse Nathaniel, as bochechas vermelhas de raiva. — Leve-nos para a Casa de Buckingham.

— Não — interrompeu Jessamine. Os dois se viraram para ela, os rostos surpresos como se tivessem esquecido de sua presença ali. — Iremos para o Palácio de St James.

Alexander permaneceu parado entre as pedras, a maresia batendo em seu rosto enquanto observava uma canoa se aproximar da costa, deixando a enorme embarcação exibindo as bandeiras dos domínios Morgenstern. Seu coração se acelerou, um misto de nervosismo e felicidade brotando em seu estômago. Nos próximos minutos, tudo poderia dar certo ou tudo se arruinaria. Não era possível saber.

— Eu soube que ela tem uma perna menor que a outra — disse Charlotte ao seu lado, esticando seu pescoço para tentar ver melhor. — Pergunto-me qual seja. Você acha que é notável? Fiz uma aposta com a Marquesa de Winchester e gostaria de ganhá-la.

Alexander revirou os olhos, porém não disse nada. Conhecia a condessa a tempo suficiente para saber que as coisas que dizia não eram páreo aos seus pensamentos. Ele imaginou que dentro de seu peito havia mais receios perversos em relação à princesa. Ela não era muito receptiva com estrangeiros.

— Como você acha que devemos chamá-la? — questionou. — Vossa Alteza Imperial ou Vossa Alteza Real? — quando ele não respondeu, ela suspirou. — Deve ser difícil, sabe, ser rebaixada de tal maneira. Como você acha que ela se sente com tudo isso?

— Charlotte! — repreendeu Alexander sem força, um sorriso tomando seus lábios cheios. — Seja gentil.

Charlotte sorriu de volta, um brilho de malícia acendendo seus olhos.

— De qualquer jeito, com as novas posições que recebi de sua majestade, imagino que irei descobrir com rapidez — murmurou, juntando suas mãos na frente de suas saias amarelas. — Eu pensei que fosse ser divertido ser a chefe do séquito da princesa, as mulheres falam tão bem dos deveres e das honras. — ela revirou os olhos. — Entediante seria uma palavra mais apropriada. Extremamente entediante. Sabe o que eu precisei fazer nas últimas semanas? Escolher camareiras, assistentes de camareiras, criadas, mordomos e membros de uma guarda privada para Sua Alteza e eu nem consegui terminar!

— Mesmo? — questionou Alexander, não ouvindo realmente.

— Sim. Falando no assunto, irei precisar de Sophie no serviço da princesa.

Isso foi o suficiente para puxar Norfolk de seus devaneios. Ele se virou para sua amiga, choque e indignação tomando suas feições.

— Absolutamente não! — exclamou, chamando a atenção de outros membros do Cortejo. — Sophie é muito querida para mim. Preciso dela.

— Por favor, Alexander, sempre é possível encontrar uma criada tão boa quanto. Dê-me Sophie e eu irei fazer uma lista de candidatas perfeitas para servir sua família.

— Use uma de suas candidatas, então. — estava agindo como uma criança, mas possuía motivo para ser. Era apegado à Sophie. A criada era leal de uma maneira que ele nunca havia visto antes. Seria difícil encontrar outra que fechasse os olhos para seus gostos.

— Não posso. Sabe que não posso. — ela tocou em seu ombro, apertando sua carne em um gesto confortador. — É tradição. Toda a família de Sophie esteve no serviço das consortes. Sinto muito, porém não há outro jeito.

Ele não respondeu. A canoa havia atracado e um guarda ajudava os tripulantes a descerem, que tomavam cuidado para não permitir que a água salgada chegasse nos vestidos das mulheres. Alexander prendeu sua respiração e deu um passo à frente.

Clarissa foi a primeira a se aproximar, andando graciosamente pelas pedras. Um choque de realidade lhe bateu ao vê-la, absorvendo suas jóias e seu vestido de seda. A diferença entre a nobreza e a realeza estava clara agora. As princesas inglesas não costumam usar safiras com tanta confiança quanto a Arquiduquesa.

Um senso de felicidade tomou Alexander. Nenhuma vela inglesa poderia ofuscar a estrela da manhã austríaca. Jessamine encontrou sua rival, pensou.

No entanto, ele não se permitiu criar muitas esperanças. Clarissa era pequena, tão baixa quanto uma criança, e seu corpo parecia frágil. Ela era assustadoramente magra, quase como se uma corrente de vento levemente forte pudesse levá-la para longe. A palidez de sua pele lhe dava uma aparência enfermiça. Ele não imaginava que Jonathan iria apreciar a fisionomia de sua noiva.

Alexander se curvou, entretanto, ao se reerguer, percebeu que a Arquiduquesa havia se ajoelhado e retirado uma de suas luvas azuis. Ela estava segurando um punhado de pedregulhos da praia, alívio estampado em seu rosto infantil.

Endlich — sussurrou, apertando a mão contra o peito. Ela abriu as pálpebras lentamente, as íris verdes brilhando com as lágrimas que brotavam em seus olhos.

— Vossa Alteza, — disse Charlotte, curvando seu corpo. — Sou Charlotte Branwell, condessa de Pembroke. Serei a chefe do seu séquito pessoal. — Clarissa olhou para o homem ruivo atrás de si. — Devo dizer que essa posição é uma honra para mim e para, é claro, minha família.

Clarissa sorriu de maneira inocente. Alexander pôde ver que seus dentes eram retos e perfeitamente brancos, quase como se pérolas foram implantadas em sua boca. Considerando a fortuna de seu pai, ele não duvidava de que era possível.

— Muito prazer — ela respondeu, gentilmente, o sotaque arrastando suas palavras. Seus olhos se viraram para ele.

— Alexander, Vossa Alteza, Duque de Norfolk. — ele notou um brilho diferente em seus olhos, quase esperançoso. Talvez, ela leu sobre ele, enquanto pesquisava sobre a vida do Príncipe. — Irei acompanhá-la para o Palácio de St James, onde você irá se encontrar com o Rei e seu noivo, Jonathan Christopher.

Clarissa assentiu, respirando fundo. Ela olhou para trás, vendo suas damas, e deu um passo à frente. A Arquiduquesa deve ter visto algo no rosto de Charlotte, pois ela parou, hesitação tomando sua face.

— Por favor, senhora, dê adeus ao seu Cortejo — disse a condessa. — Vossa Alteza deverá deixar tudo da Áustria para trás.

— Mas… me disseram que eu poderia escolher minhas dienstmädchen — Clarissa respondeu, erguendo as sobrancelhas. — E não há um padre católico na Inglaterra com patente alta o suficiente para ouvir minhas confissões.

— O padre pode ficar — concedeu Charlotte. — Porém, Vossa Alteza, não pode achar que as criadas devam permanecer. Como a senhora pode ser uma princesa inglesa se suas serventes são austríacas? Não se preocupe. Iremos mandá-las de volta para o império com conforto.

Alexander conseguiu ver a realização atingir Clarissa. Ela mastigou seu lábio e se virou, sussurrando em alemão para suas damas cujas faces permaneciam tão profissionais como nunca. Norfolk imaginou que a princesa não queria começar sua vida na Inglaterra se recusando a performar alguns de seus costumes. Ela era esperta, ele percebeu. Seria interesse ver quanto tempo iria durar.

Na ja — murmurou, virando de volta. — Estou pronta. Podemos ir.

Clarissa falava como uma rainha. Alexander imaginou centenas de tutores a ensinando como se portar, o que dizer de certa maneira para que tudo que saísse de seus lábios rosados fosse uma ordem, algo que deveria ser obedecido imediatamente.

— Por aqui, Vossa Alteza, — ele disse, guiando o caminho com seu braço.

A princesa começou a andar, segurando a ponta de sua saia com a ponta dos dedos. Alexander tomou o cuidado de ficar ao seu lado; ele não podia andar na frente de membros da realeza e ele imaginou que seria importante estar perto da Arquiduquesa caso ela quisesse dizer algo. Eles chegaram no fim da praia em poucos segundos, os cascalhos mais frágeis se partindo embaixo de seus passos.

— Duque, — começou Clarissa, tímida e intimidada. Era difícil entender seu sotaque com clareza. — Estou certa em pensar que o senhor é o amigo mais próximo de meu marido?

Alexander sorriu. É claro que ela sabia disso

— Sim, minha senhora, — ele respondeu. — Tive a honra de me tornar próximo ao Príncipe.

Sehr gut — ela disse, sorrindo. — Então, imagino que o conhece bem.

Eles pararam de andar, chegando em um pedaço de terra fofa onde duas carruagens os aguardavam, guiadas por alguns cavalos que se alimentavam da grama abundante no chão. Os cocheiros correram para tomar seus lugares. Alexander se virou para a princesa, não deixando de notar como a diferença de altura o forçava a olhar para baixo para olhá-la nos olhos.

Talvez seja por isso que ela seja tão baixa.

— Sim, princesa. Eu conheço vosso marido muito bem.

Clarissa suspirou, aliviada.

— Vossa graça, não se importaria em me contar um pouco sobre ele, não? — ela piscou os olhos. — Quero ser uma boa esposa para Jonathan e, para fazer isso, preciso saber saber de seus gostos.

Alexander soltou a respiração, surpreso. Não esperava ouvir isso tão cedo, ou em qualquer momento de sua vida. Ele sabia que casamentos para a realeza eram acordos, alianças formadas pelo bem de dois países. A presença da Arquiduquesa só era possível depois de meses de negociação entre seu pai e representantes do trono inglês. Casamentos arranjados não costumam acabar bem, o Rei e sua falecida esposa sendo a prova disso, e ele imaginava que seria a mesma coisa com Jonathan e sua noiva. Duas pessoas tentando conviver juntas, sendo obrigadas a ter relações carnais pelo bem do reino.

Ele não imaginava que Clarissa estava ansiosa para isso.

Sua criação inteira foi direcionada àquele momento, ele se forçou a lembrar. A princesa cresceu ouvindo que seu pai ou irmão iriam cuidar do seu futuro cônjuge, que sua existência era baseada em ser uma boa esposa e mãe. Alexander era católico, um dos poucos que restavam na Inglaterra anglicana, e ele sabia que sua irmã deveria pensar que seu corpo pertencia ao seu marido. Era o que o padre Zachariah sempre lhe dizia. Isabelle lutou contra as constrições da sociedade, perdendo sua virtude para um comerciante espanhol, e ele foi tolo em pensar que Clarissa seria igual. Ou pelo menos parecida.

Alexander amava Jonathan com todo seu coração, era o irmão que Deus lhe deu, mas, naquele momento, ele pensou que o amigo não merecia a esposa que tinha recebido.

— Seria um prazer, minha princesa — disse, sorrindo. — Mas a jornada até o Palácio será longa e imagino que o caminho do continente até aqui não foi agradável. Recomendo que entre em sua carruagem para poder descansar.

Bitte, Duque, entre comigo — pediu Clarissa, apertando as mãos na frente de seu peito. — Fico muito entediada em viagens de carruagem. Estava planejando conversar com minhas dienstmädchen durante o caminho, mas, infelizmente, isso não será possível.

— Milady, penso que isso não seria prudente. — ele já conseguia ouvir as fofocas dos Cortesãos. O Duque de Norfolk andou na mesma carruagem que a princesa… o que o Príncipe acha disso?

— Eu insisto — ela disse, tocando gentilmente em seu braço.

Alexander olhou para trás. Charlotte estava conversando com o padre, o cenho franzido enquanto gesticulava com os braços. Os dois estavam se direcionando à segunda carruagem, uma que pertencia à família Branwell. As damas de Charlotte andavam atrás deles.

— Um pequeno Duque como eu não pode recusar um pedido real, pode, minha senhora? — ele questionou, retoricamente. Clarissa sorriu, feliz em sua pequena vitória.

Alexander a ajudou a subir na carruagem real, sentindo a maciez de sua luva de seda contra os próprios dedos grossos e cheios de calos. Ele esperou um segundo, virando-se para o cocheiro, um homem baixo e de sobrepeso que olhava a frente com determinação.

— Para o Palácio de St James — ordenou. Alexander não ouviu a resposta do servente, pois já havia entrado no veículo.

Ele se sentou no banco oposto ao da princesa, suas costas viradas para o caminho. Ela estava olhando pela janela, uma expressão esperançosa estampada em seu rosto. Seus traços eram delicados, porém precisos. Parecia uma pintura.

— A Inglaterra é diferente da Áustria — murmurou. — Quando papai me disse que eu iria me casar com um Príncipe inglês, eu pensei que minha casa nova não seria tão estranha. Aos meus olhos, a única diferença seria a língua e a religião. Estava enganada.

— Pelo pouco que sei sobre o império, penso que não chove tanto lá — Alexander comentou, observando as pequenas gotas de água que começavam a atingir as janelas. Se tivessem sorte, a chuva não seria forte o suficiente para transformar as estradas em lama.

Clarissa sorriu, memórias antigas passando por seus olhos.

Nein — disse. — Acredito que conseguirei gostar da Inglaterra e de minha vida aqui o suficiente para não sentir tantas saudades de casa.

— Espero que não, Vossa Alteza — respondeu Norfolk. — Tenho certeza que o Príncipe irá fazê-la se sentir bem-vinda aqui. Jonathan é muito encantador.

Ela olhou para ele, uma expressão ansiosa em seu rosto. Seus olhos verdes pareciam desesperados, quase obcecados.

— Como ele é, Duque? — perguntou. — Sei tão pouco. Só me disseram o que meu pai permitia, o que não era tanto.

Alexander hesitou. Era estranho ouvi-la falar tão intimamente de Valentim Morgenstern, um homem poderoso e temido por toda a Europa, mas ele se forçou a se lembrar que, apesar de todos os rumores sobre sua crueldade, o Imperador mostrou apenas o seu melhor lado para Clarissa nas poucas vezes que a via. Ela era a filha favorita, afinal.

Bitte, poupe nenhuma palavra.

— Jonathan é… curioso, madame. Ele tem seus momentos bons e ruins. — ele escolheu suas palavras com cuidado. Não queria ofender seu amigo, mas também não queria deixar a princesa despreparada. — A senhora irá precisar ser paciente com ele.

Clarissa apertou seus lábios, respirando fundo. Parecia pensativa, brincando com seus dedos enluvados. Ela suspirou e enfiou sua mão no bolso de seu vestido. Alexander a viu pegar um colar de diamantes, as pedras refletindo a luz solar que entrava pelas janelas.

— Eu sei sobre as amantes dele, Duque — disse, olhando para o colo com um olhar apaixonado. — Sobre a atriz.

— Quem te contou sobre a Jessamine? — era certo de que quem fez isso desobedeceu ordens diretas do Imperador. Ele não imaginava que Valentim permitiria tal coisa.

Clarissa riu, seca.

— Não importa agora. Eu já estou sabendo. — ela mordeu o interior de sua bochecha e acariciou o pingente em sua mão. — Esperei minha vida inteira por um Príncipe, um homem para chamar de meu. — ela olhou pela janela. Alexander percebeu que estavam chegando em um povoado e, apesar de todas as tentativas, não conseguia se lembrar o nome da vila. — Agora terei que dividi-lo com outra mulher.

— Tenho certeza que, quando conhecê-la, Jonathan irá ser influenciado por seus atributos e natureza calma. — ele não queria vê-la triste. De certa forma, tinha se afeiçoado pela princesa. — O que é isso, Vossa Alteza?

Ela ergueu o colar de maneira tímida. Era um retrato de Jonathan, posando com as cores do exercito inglês. Ele parecia imponente, como um rei.

— Pedi para meu pai colocar a pintura um de meus colares. — ela retornou o colar para seu colo. — Eu usava o tempo todo quando estava na Áustria, como uma demonstração de amor. Na Corte de Versalhes também.

— Por que não está usando agora?

Ela deu de ombros. Clarissa ergueu seu rosto. Naquele momento, Alexander percebeu o quão jovem era a princesa. Era mais nova que Isabelle, ainda uma criança, e estava sendo jogada em um mundo adulto. Assim que chegassem em St James, era esperado que ela se deitasse com Jonathan. Ele entendeu então o medo de seu amigo de parecer um criminoso.

— Eu queria, pensei que seria romântico, porém percebi o quão infantil iria parecer — murmurou. — Tanta dedicação para um homem que eu mal conheço. Achava que minhas safiras iriam me fazer parecer mais velha, ou mais rica. Diferente da atriz.

— Não vai parecer infantil — ele disse. — Não para Jonathan, pelo menos.

— E para as damas e os lordes da Corte?

— Não se importe com eles — respondeu Alexander. — Os Cortesãos são abutres. Eles não são importam com ninguém além de si mesmo.

Clarissa franziu o cenho, mas seus ombros visivelmente relaxaram. De alguma forma, era possível ver o que ela realmente queria, escondido em sua expressão régia.

— Eu posso te ajudar a colocar — exclamou, levantando de seu lugar e se sentando ao lado da princesa. Ele não deixou espaço para suas contestações.

Clarissa piscou várias vezes, mas expôs seu pescoço. Alexander lutou contra o fecho de seu colar de safiras. Não tinha muita experiência com jóias femininas. Nas poucas vezes em que tentavam consumar o relacionamento, Lydia nunca pedia sua ajuda para se despir.

Ele pensou em Magnus. O homem certamente adoraria usar um colar como o de Clarissa. A saudade em seu peito foi tanta que ele perdeu o fôlego.

A princesa entregou o pingente com o retrato de Jonathan. Colocar era mais fácil de tirar.

— Pronto — murmurou Alexander. — Perto de seu coração.

Danke, Duque. — ela deu um sorriso, seu primeiro realmente genuíno desde que chegou na costa.

Antes que ele pudesse responder, um som abafado atingiu seus ouvidos, aproximando-se lentamente com o andar da carruagem. Alexander voltou ao seu lugar e olhou pela janela. Uma multidão de plebeus se juntava nos limites das estradas, gritando várias coisas que ele não conseguia entender. Estavam batendo palmas e acenando para a carruagem.

Ele nunca viu algo assim antes.

— O que é isso? — perguntou Clarissa. Quando ela apareceu na janela, parecia que as pessoas estavam celebrando com mais fervor.

— Uma comemoração, imagino. — ele olhou para ela. — Para você.

— Para mim? — ela o olhou com choque. — Mas por quê?

Alexander deu de ombros.

— Importa? — perguntou. — Eles te adoram. Não é preciso explicação.

Clarissa riu. Ela olhou para a janela, acenando com uma graça que ele não poderia ter nem se estudasse por séculos. Algumas coisas não podiam ser simplesmente aprendidas.

— Os ingleses são animados, consigo ver — disse. — Diferente dos austríacos.

— Se pensa que os ingleses são animados, deveria conhecer os escoceses. Enorme diferença.

Ela riu novamente. Alexander olhou pela janela, vendo as pessoas aplaudindo a simples presença da princesa. Se lembrou de quando passeava com o rei, vendo sua frieza ao passar pelo povo. Os plebeus haviam esquecido o que era ter o amor de um monarca, ou como era amá-los. Estava claro que a presença de Clarissa era uma novidade muito aguardada e, se pelo o que ele via naquele momento significava alguma coisa, tinha certeza de que ela mudaria completamente o jogo.

Ela vai conseguir, pensou, irei ter certeza disso.

Jessamine não tinha escrúpulos. Era uma das pequenas vantagens de ser amante de inúmeros homens ao longo de seus poucos anos de vida. Ela aprendeu a não se importar no trajeto, apenas na chegada. Faria de tudo para conseguir o que queria. Não importava qual o preço. Estava sempre disposta a pagar.

Ela apressou seus passos, caminhando pelo corredor com a maior velocidade que poderia arrumar nos sapatos que usava. Não tinha medo de ser vista por um nobre curioso ou uma empregada fofoqueira. As passagens que usava eram secretas, criadas a mando de Henry VIII durante a primeira construção do Palácio em 1530. Poucos sabiam sobre elas. Nem mesmo o Príncipe ou o rei. Jessamine as descobriu por um acaso enquanto explorava o lugar em um dos poucos dias que Jonathan a deixou sozinha.

Conseguia ouvir as conversas dos senhores, fofocando entre si sobre assuntos variados que não importavam naquele momento. Continuou seu caminho em silêncio, virando nas curvas necessárias até o quarto do Príncipe.

Jessamine abriu a porta secreta com cuidado, ouvindo seus mecanismos antigos rangerem no silêncio ensurdecedor. O quarto estava escuro e quase fantasmagórico, com uma atmosfera etérea. Jonathan ainda não havia chegado.

Ela andou pelo cômodo. O conhecia como a palma de sua mão depois de passar inúmeras tardes naquele lugar, as horas se mesclando e passando. Conhecia as cortinas vermelhas, o dossel de mogno. A escrivaninha que ele usava para escrever cartas para as irmãs e os inúmeros livros que organizava de uma maneira que apenas ele conseguia entender.

Jessamine se olhou no espelho, absorvendo sua aparência apressada e suada. Suas bochechas estavam vermelhas. Ela respirou fundo, tentando se recompor. Ainda estava nervosa depois da humilhação que sofreu no teatro.

— Você irá mostrar para eles — disse para seu reflexo. — Mostre do que Jessamine Lovelace é capaz.

A Jessamine que a encarava de volta sorriu, maldosa.

Ela se afastou do espelho, movendo-se com cuidado no quarto escuro. Seus olhos encontraram o piano de cauda de Jonathan, escondido no canto da parede. Era uma bela peça de madeira, com teclas de mármore e estilo antigo. Em todos os meses que estavam juntos, Jessamine nunca o ouviu tocar. Sabia que ele o mantinha em boas condições, contratando trabalhadores para afiná-lo e trocar peças velhas, porém seu coração estava partido a tanto tempo que ele nunca se permitiu desfrutar da música do instrumento.

Jessie correu seus dedos pela tampa, sentindo a pequena inscrição na madeira. Céline de Montclaire. Era um defeito na peça, mas ninguém nunca o trocou. Ela suspeitava de que Jonathan tivesse algo a ver com isso.

Como se soubesse que algo acontecia com seu precioso objeto, as portas duplas do quarto se abriram e ele entrou, sendo seguido por seu pajem. Estavam conversando em tom baixo. Jonathan parou ao notar sua presença e suspirou, jogando a cabeça para trás.

— Pode ir, Brody — disse, desabotando seu casaco com os dedos longos e finos. Brody saiu em silêncio. — O que está fazendo aqui, Jessamine?

— Eu vim te ver, querido — respondeu, se aproximando. — Não posso?

Ele a olhou, irritado, e jogou o casaco em uma cadeira, ficando apenas com sua camisa interna.

— Pedi que ficasse em Buckingham. — seus olhos dourados brilhavam no quarto escuro. — Tenho coisas para aceitar antes de podermos voltar ao que era.

Ela colocou suas mãos em seu peito. Ele não a empurrou para longe, então Jessamine tomou isso como um encorajamento. Sentia tanta falta dele, de seu corpo, seus músculos, seu cheiro.

— Como o quê? — perguntou, alisando seu troco. — Diga-me e irei te explicar. Não irei mentir. Prometo.

— Você era uma prostituta. — ele respirou fundo. — Nathaniel Gray a contratou para entrar em minha cama. Para me usar.

— Isso é verdade, meu amor. — Jessamine escorregou suas mãos para dentro de sua camisa, sentindo sua pele quente contra seus dedos. — Minha mãe era uma mulher da noite. Sou fruto de algo imoral. Não é algo que me orgulho.

Ele ergueu uma sobrancelha loira. Deveria não ter se barbeado naquele dia, uma pequena camada de pelos dourados cobriam a parte inferior de seu rosto.

— E Nathaniel Gray? — perguntou Jonathan. — Qual sua história com ele?

— Pensei que ele iria se casar comigo — respondeu. Não era uma mentira. — Ele queria poder. Ainda quer, na verdade. Mas Nathaniel é plebeu e sabia que havia apenas uma maneira de ganhar controle rapidamente.

Ela não precisou falar mais nada. O Príncipe era esperto. Conseguiu entender.

— Entrando em minha cama.

Jessamine correu suas mãos por seu peito, levando sua camisa junto. Ele não lutou quando ela tentou remover a peça, estava tão distraído que apenas ergueu os braços e se permitiu ser despido.

O tronco de Jonathan deveria ter sido esculpido na forma de um anjo celestial, tinha certeza. Era perfeito. Ele não era desleixado, malhava de maneira obsessiva, sempre querendo estar com sua melhor aparência possível. As linhas quentes de seus músculos definidos, seu abdômen que ela queria lamber e o conjunto de pelos dourados que traçavam o caminho até a perdição.

Ela beijou seu ombro e suspirou.

— Eu sempre fui apaixonada por você. — era uma mentira. Jessamine nunca sonhou em estar com o Príncipe até ouvir a sugestão de Nate. — Nathaniel se aproveitou da minha inocência, da minha juventude. Ele usou meu amor para seus próprios meios.

— Por que continua com ele, então? — Jonathan colocou seus braços em sua cintura.

— Ele sabe de coisas. Coisas que poderiam arruinar-me. — não era mentira. Nate sabia demais. — Perdoe-me, Vossa Alteza. Perdoe a tola garota que eu era, sonhando acordada com um Príncipe dourado.

Jonathan gaguejou. Era a primeira vez que ela o via tão nervoso, sem palavras. Jessamine esperou que ele se recompusesse, encostando a bochecha em sua clavícula. Conseguia ouvir o coração dele, batendo contra seu rosto.

— Não há nada o que perdoar — disse Jonathan, por fim. — Eu te amo, Jessamine.

— E eu amo você. — ela ergueu o rosto. — Sempre. Incondicionalmente. — ela mordeu o lábio. Era agora ou nunca. — Eu ainda me importei com a austríaca, mas entendo porque você precisa dela. Clarissa serve apenas para exibir pela Corte, para as políticas. Ela e os frutos de seu ventre real.

A expressão de Jonathan mudou, se curvou e entristeceu. Jessamine ficou em silêncio, permitindo que isso o encorajasse a falar o que lhe afligia.

— Eu quero ser um bom marido para ela — disse, a voz embargada.

— Eu sei que quer, querido. E será. Um bom marido e pai. Para os filhos dela... — ela pegou a mão dele, arrastando-a até sua barriga. Jessamine tomou o cuidado para manter seus dedos em cima de seu umbigo. — E para os meus.

Isso foi o suficiente para selar seu destino. Os olhos de Jonathan se arregalaram, mas um sorriso tomou seus lábios. Ele a beijou, não deixando espaço para que ela resistisse. E ela não iria, não importava qual fosse a situação.

Jessamine permitiu que ele puxasse suas saias, rasgando o tecido com as próprias mãos. Ela não se opôs a brutalidade, apenas permitiu que ele fizesse com seu corpo. Queria que ele soubesse o que era realmente ter prazer, a diferença entre as noites com ela e a consumação desconfortável que certamente aconteceria com a princesa. Queria que ele colocasse um filho dentro dela, para que sua fala pudesse ter um fundo de verdade.

Quando terminaram, Jessamine se deitou ao lado de seu Príncipe. Ele sorriu, acariciando sua barriga reta e vazia. Ela sorriu de volta e sabia, naquele momento, que já havia dado o primeiro passo para sua vitória.

Notas finais
Tradução do alemão pro português. Bitte - por favor. Endlich - finalmente. Dienstmädchen - criadas. Na ja - bem, no sentindo de "Bem, está na hora de irmos". Sehr gut - ótimo ou muito bem, no sentido de "Muito bem, você conseguiu!" Se tiver algum que eu esqueci, por favor avisem que eu atualizo aqui. Irei responder os comentários mais tarde.