Imperium

3 III - Duque de Norfolk


Seraphina fechou seus olhos, tentando ignorar os sons da festa na salão de baile. Parecia que todos os convidados estavam tentando exibir o fato de terem presenciado o casamento da Princesa, apesar de nem ter sido exatamente o casamento dela. Mesmo que a cerimônia já tenha acabado e ela ter sido mandada para a cama, os Duques e Duquesas da Corte Austríaca ainda festejavam a aliança com a Inglaterra, bebendo e comendo às custas de seu pai enquanto observavam seu irmão agir como anfitrião, encantando as mulheres e enfurecendo os homens. Com certeza, Sebastian já imaginava a esposa de qual homem iria levar para a cama naquela noite, respeitando ninguém além de si mesmo.

O Imperador havia dito, em voz baixa, é claro, que nem mesmo no casamento de sua irmã, o Arquiduque pensava nas outras pessoas.

O casamento por procuração havia sido um evento estranho. Seu noivo nem estava lá. Jonathan Christopher permanecia em seu país, preparando seu Palácio para sua chegada como mandava a tradição, e seu irmão havia assinado os papéis em seu lugar. Seraphina havia assinado para si mesma e, tão simples quanto respirar, ela era uma mulher casada. Princesa de Gales, Duquesa de Rothesay e tantos outros títulos que pertenciam ao seu pretendido. Mulher casada.

Ela era uma mulher desde o dia em que havia acordado em uma cama suja de sangue e sua governanta lhe explicou, tão bem quanto podia, o que havia acontecido. Seraphina tinha quatorze anos naquele dia e seu pai já começava a fazer planos para seu casamento, porém ele nunca havia mencionado um Príncipe inglês. Apenas o Grão-Duque Russo e o Rei da Prússia, todos homens educados, posicionados na alta sociedade e apenas alguns anos mais velhos que ela. Seraphina poderia se considerar sortuda naquele aspecto – sua própria prima havia se casado com um homem que tinha idade para ser seu pai.

Ser casada não era diferente, certamente ela se sentia como sempre havia se sentido, nem a ideia de que iria cruzar a Europa e um oceano com um título diferente e estrangeiro. Ela se sentia a mesma. Arquiduquesa Seraphina Clarissa Jocelyn, Princesa de Gales. Seu pai havia insistido que ela mantivesse seu título austríaco até a ascensão de seu marido ao trono. Ele não parecia notar que isso só a diferenciaria ainda mais das outras damas na Corte.

Seraphina, pensou, era um nome estrangeiro demais. O nome de sua tão querida mãe havia sido uma escolha de seu pai para sua única filha não natimorta, para homenagear a melhor Imperatriz que a Áustria que já viu, mas o nome carregava o sangue alemão de seus ancestrais e certamente não iria ser fácil para seu novo povo pronunciar. Ela até conseguia imaginar as risadas e as zombas dos mais fechados, errando propositalmente seu nome.

Clarissa, no entanto, seria perfeito.

Arquiduquesa Clarissa Jocelyn, Princesa de Gales. Rainha Clarissa. Clarissa, a Rainha. Rainha-mãe Clarissa. A mãe do Rei, Clarissa.

Ela se perguntava se comandava os pensamentos dele. Jonathan Christopher. Tão distante quanto estava, olhando para a janela na direção do mar que ela teria que enfrentar, imaginando seus cabelos ruivos e seus olhos verdes. Será que ele havia se encantado, tanto quanto ela, ao ver o retrato? Será que ele rezava todos os dias por sua segurança e para que ela o amasse? Será que ele já havia nomeado todos os seus filhos não nascidos?

Todas as suas perguntas permaneciam sem resposta porque os rumores sobre Jonathan Christopher pararam no mesmo dia em que seu noivado foi anunciado, obviamente uma medida do Imperador para impedir que qualquer fofoca tóxica chegasse em seus ouvidos. Clarissa havia passado muitos anos escondida atrás de seus pais para sequer pensar em ouvir as conversas das criadas, os sussurros das damas e as risadas dos senhores. Nunca ela havia se arrependido tanto disso quanto agora. Se ao menos soubesse seus gostos, suas práticas e suas alegrias, certamente conseguiria ganhar o coração de seu marido mais cedo.

Ela agarrou o pingente em seu peito. Havia pedido para seu pai colocar o retrato de Jonathan em um colar, algo que pudesse estar perto de seu coração e que ela usaria para sempre, uma prova de seu amor tão puro. Quando usava o colar, sentia como se ele estivesse ali ao seu lado, tocando em seu cabelo e sussurrando palavras de afeto em seu ouvido. Meu anjo, minha amada, minha esposa, minha princesa.

Em um momento de bravura, ela se levantou, tomando cuidado para não acordar a criada adormecida na cadeira – era imprescindível que ela ficasse ali, caso a Princesa precisasse de algo durante a noite – e andou até a mesa de escrever. A vela ali ainda estava acesa, sua chama resistindo as noites austríacas com coragem, e iluminava apenas o suficiente para que Clarissa pegasse sua pena e começasse a escrever uma carta.

Meu queridíssimo Jonathan,

Perdoe-me por não ter escrito antes. Agora, o arrependimento agarra meu coração em sua mão fria. Era o medo, meu amor. Medo de papai estar mentindo, medo de uma princesa mais bonita e mais digna aparecer, medo de esse noivado não dar frutos, mas agora tudo está finalizado. Somos casados aos olhos de Deus e dos homens.

Deixarei a Áustria em uma semana, abandonando minha família e tudo que conheço para ficar com você, para sempre. Sinto como se ainda estivesse uma vida inteira distante, tantos reinos, ducados e principados longe de sua casa. Cada dia se arrasta com lentidão e a ansiedade agarra meus ossos.

Rezo por sua saúde e bem-estar todos os dias. Meus joelhos ardem depois de tantas horas dentro da igreja, mas esse é o preço a pagar pelo amor que sinto por você. Sua imagem preenche minha alma e seu nome é como mel em meus lábios. Jonathan, Jonathan, Jonathan.

Não se preocupe em me responder. Teremos muito o que falar quando eu chegar.

Com amor,

Arquiduquesa Clarissa Jocelyn, Princesa de Gales

— “Sua imagem preenche minha alma e seu nome é como mel em meus lábios”? — repetiu Jessamine, lendo a carta sobre o ombro de Jonathan. Seu tom era de zomba e as mãos que havia colocado no peitoral de seu amante eram possessivas. — Pobrezinha… está apaixonada.

— Ela tem todo o direito de estar — murmurou Jonathan, frustrado. — Somos casados agora.

— Nem me lembre — bufou Jessamine, deslizando suas mãos para dentro da camisa interna de Jonathan. Suas unhas compridas arranhavam levemente a pele dele. — A austríaca pensa que pode roubar meu homem.

Jonathan não respondeu. Havia aprendido ao longo dos meses de seu romance com Jessamine a não dizer nada que pudesse enfurece-la. Era melhor ela pensar que concordava com suas palavras do que dizer algo que poderia acabar com semanas de planejamento.

— Você vai respondê-la? — perguntou a atriz, beijando o lado de seu rosto.

— Não — disse. — Ela está certa. Minha esposa já estaria aqui quando a carta chegasse na Áustria.

Jessamine fez um som de concordância no fundo de sua garganta e abraçou o Príncipe por trás, seu perfume o envolvendo em uma névoa aromática e o algodão de suas roupas fazia cócegas em sua pele. Ela estava usando uma dos vestidos mais caros da Corte, exibindo sua posição como amante do Príncipe para todos que ousaram subestimar sua ambição.

Clarissa — murmurou Jessamine, provando o nome em sua boca como se fosse veneno. — Eu jurava que o nome dela era Seraphina.

— Seraphina Clarissa Jocelyn — corrigiu Jonathan, lembrando das palavras de seu pai, que adorava lhe lembrar sobre o acordo que havia feito com Valentim III. Sua noiva, a Arquiduquesa Seraphina Clarissa Jocelyn… — Ela deve ter tirado o Seraphina.

— Bem feito para ela. — Jessamine o abraçou mais forte, seus cachos loiros caindo no colo de Jonathan enquanto ela curvava seu corpo em uma tentativa de vê-lo melhor. — Você não vai amá-la mais do que ama a mim, não é? Prometa-me que irá rejeitá-la, que não fará nada mais do que tratá-la com frieza.

— Jessamine… — sussurrou ele. A atriz era ciumenta, algo que ele já estava acostumado desde que havia lhe trazido para a Corte. Todas as outras damas que ele já havia levado para cama ou que desejavam tal atenção pareciam atingir todos os nervos da favorita do Príncipe. Ele não imaginava que essa raiva cega também iria se direcionar a sua esposa. — Eu não posso ser frio com ela. Seu pai é governante de um dos maiores reinos da Europa e tem ligações sanguíneas com os outros. Por tudo que sei, ela pode escrever uma longa carta para ele detalhando meu tratamento e um espião austríaco irá enfiar uma adaga entre minhas costelas em favor de qualquer filho que teremos.

— Filho? — repetiu ela, ignorando tudo que ele havia dito antes. Jessamine contornou a cadeira dele e se sentou em seu colo, deixando o decote escandaloso que usava perto de seu rosto. — Não me diga que você está planejando dormir com ela.

— Eu preciso — explicou, se arrependendo de suas palavras assim que deixaram seus lábios. Por Deus, ele soava como um idiota. — Preciso fazer meu dever para a Inglaterra.

Jessamine pegou a mão dele, segurando seus dedos entre os próprios e a levou até seu seio direito, coberto por algodão e inúmeras camadas de roupa. Ela apertou seus lábios e seus olhos castanhos tomaram um brilho de luxúria que ele via toda noite antes de puxá-la para mais perto.

— Então faça seu dever comigo.

Jonathan soltou sua mão e a colocou em seu colo novamente.

— Você não é minha esposa — disse. — Qualquer filho meu gerado por você seria considerado ilegítimo e excluído da linha de sucessão.

— Vamos fugir — sussurrou, desesperada. — Não vou dividir você com uma austríacazinha qualquer. Vamos fugir e deixar seu primo herdar o trono, talvez até mesmo ser o esposo de Clarissa. Todo mundo sabe que um casamento só é válido depois da consumação.

Antes que ele pudesse responder, a porta de seu quarto se abriu e seu pajem entrou, um menino de apenas quatorze anos com olhos arregalados e mãos trêmulas. Algumas vezes, Jonathan se sentia mal por tudo que ele precisava ouvir.

— O Duque de Norfolk está aqui e deseja vê-lo, Vossa Alteza — anunciou depois de sua reverência.

— Deixe-o entrar.

O pajem lhe fez uma reverência novamente e saiu do quarto com rapidez. Jessamine se levantou do colo de Jonathan, percebendo que a presença do Duque seria mais importante para seu amante do que suas palavras, e o Príncipe saiu de sua cadeira, preparado para cumprimentar seu melhor amigo depois de dois sem vê-lo.

O Duque de Norfolk entrou com toda a pompa que merecia por sua posição. Ele estava usando terno e chapéu feito sob medida. Seus olhos azuis vasculharam o quarto até encontrarem o casal e ele sorriu ao ver o Príncipe, fazendo uma semi-reverência e levantando sua bengala azul real em cumprimento. Quando ele percebeu a presença da mulher ao seu lado, no entanto, todo o brilho deixou o seu rosto.

— Ah, — disse Alexander, sua voz monótona e sua expressão entediada — Você ainda está aqui.

— Eu nunca fui embora — respondeu Jessamine, um sorriso maldoso tomando seus lábios. Não importava quantas vezes Jonathan tentava, os dois nunca iriam gostar um do outro.

Alexander deu de ombros.

— Eu tinha esperanças de que com o casamento, você perceberia que esse não é seu lugar.

Alexander — murmurou Jonathan, sua voz grave em uma forma de aviso. O Duque de Norfolk olhou para ele de lado antes de se sentar em uma das cadeiras do quarto, revirando seus olhos. — O que está fazendo aqui? Pensei que fosse ficar na Ásia por mais dois meses.

— Mamãe me chamou de volta — explicou, retirando uma sujeira invisível de sua lapela. — Eu estava longe demais para ela me controlar e isso a deixou ansiosa, então fingiu ter tido um ataque.

— Isso soa como algo que a Maryse faria — disse Jonathan, sentando-se ao lado de seu amigo. — Estou feliz que você está de volta, no entanto.

Alexander sorriu de lado.

— Claro que você está. — ele jogou seu braço ao redor dos ombros de Jonathan e o abraçou, o ângulo errado e desconfortável, mas com afeição fluindo entre eles. — Você me ama.

— Eu te aguento.

Alexander bufou e empurrou seu amigo, se ajeitando melhor na cadeira estofada. Seu rosto estava corado e havia um sorriso sempre presente em seus lábios. Parecia que a viagem à Ásia havia sido melhor do que o esperado e Jonathan imaginava que tinha algo a ver com algum asiático que ele havia encontrado em seu caminho.

O Duque de Norfolk não gostava de falar sobre isso, pelo menos não quando entendeu a afeição de seu amigo de maneira errada e tentou beijá-lo no último ano de sua estadia em Eton, mas era bem óbvio que suas afeições românticas estavam destinadas aos membros do sexo masculino.

— Você é casado agora — comentou Alexander, chamando a atenção de Jonathan. — Se sente diferente?

— Não muito. — ele deu de ombros. — As coisas só irão mudar com a chegada dela.

— Você é um bastardo sortudo — continuou o Duque, sem perceber que a amante do Príncipe estava fulminando. — As mulheres Morgenstern são um exemplo de inteligência, elegância e educação há séculos. Não há uma esposa melhor em toda a Europa para você.

— Veremos — disse Jessamine, aproveitando esse momento para se sentar no colo de Jonathan.

— Sim, sim, veremos — disse Alexander, sem se afetar. — Eu espero que ela seja feliz aqui ou que encontre alegria nos filhos que terá. — ele olhou para a atriz com irritação estampada no rosto. — Certamente, ela não encontrará consolo nos braços da mulher mais próxima do Príncipe.

Os olhos de Jessamine se estreitaram e ela abriu a boca, preparada para espalhar seu veneno pela sala.

— Eu pretendo ser um bom marido para ela — disse Jonathan, imaginando que isso iria amenizar os humores de Alexander.

— Qualquer homem pode manter uma esposa feliz se ele lhe prestar atenção e manter suas outras mulheres fora de vista. Até mesmo você. — a intimidade entre o Príncipe de Gales e o Duque de Norfolk era o que permitia que sua língua fosse mais solta perto da família real. — Eu lhe disse antes, quando você a trouxe aqui pela primeira vez, e vou te dizer de novo: há uma casa de proporções elegantes em Londres que ficaria muito feliz em te emprestar para…

Alexander — sussurrou Jonathan em aviso. Ele não teria seu melhor amigo falando de Jessamine daquela maneira.

— Clarissa seria muito mais feliz aqui se não tivesse que vê-la todo dia...

— Alexander. — o tom do Príncipe aumentou.

— Aposto que planeja torná-la uma Marquesa ou até mesmo dama de companhia da Princesa.

— Alexander! — gritou, parecendo muito mais com seu pai do que já tinha sido em toda a sua vida. — Já chega.

Os olhos azuis de Alexander queimaram e ela se levantou, pegando suas coisas. Jonathan suspirou e apoiou sua testa em suas mãos. Não conseguia acreditar que havia brigado com Alexander no primeiro encontro dos dois. Parecia que, enquanto Jessamine morasse na Corte, o chefe da família Lightwood estaria contra seu amado amigo.

— Não venha me pedir ajuda quando sua esposa te odiar e envenenar seus filhos contra você — murmurou o Duque, sua voz irritada e ácida. Ele balançou sua cabeça e estalou sua língua, surpreso com a imagem em sua frente. — Sua mãe ficaria muito desapontada com você.

De alguma forma, ouvir aquilo foi pior do que levar mil facadas entre suas costelas. A porta se abriu e se fechou com um estrondo quando seu amigo se partiu e Jessamine acariciou seus ombros, em uma tentativa de consolá-lo.

Notas finais
Casamentos por procuração eram muito comuns na Europa quando casamentos arranjados ainda eram a maioria entre a realeza. Isso permitia que as noivas viajassem pelo continente com os títulos de seus novos maridos e recebessem a precedência necessária em qualquer corte. Quando elas chegassem em sua nova casa, normalmente haveria uma outra cerimônia de casamento, com ambos presentes, e ocorreria a consumação. Imperatriz Leopoldina e Imperador Pedro I, por exemplo, foram casados por procuração.