Imperium
4 IV - FitzWales
Meu amado irmão,
Obrigada por suas palavras gentis. Eu as aprecio muito em um momento difícil como esse. As damas espanholas haviam me avisado sobre as dificuldades do parto, mas saber e sentir são coisas muito diferentes. Nada no mundo poderia ter me preparado para a dor, o desespero e a tristeza quando meu menino morreu em meus braços. Agora eu entendo a Rainha Linette e a Rainha Céline. Elas perderam muito em pouco tempo e nós somos os frutos desse vazio.
Imagino que já saiba que a Duquesa de Cádiz se tornou a amante de meu marido durante minha gravidez. Seu sorriso arrogante me enfureceu cada dia dessas últimas semanas e Sua Majestade, o Rei Gabriel, me prometeu que iria baní-la da Corte quando acabasse meu confinamento e ele pudesse retornar para a minha cama. O pobre homem não quer que eu seja humilhada por tal mulher e eu conto os dias até sua partidade. É a minha única felicidade agora.
Meu marido me ofereceu palavras de calento e afeto, mas reis pouco sabem das dores das rainhas. Essa é uma jornada que eu devo travar sozinha. Algo que sua esposa deve sofrer em breve, se os rumores de seu quadril pequeno e histórico familiar decepcionante são verdadeiros. Tente não ser como nosso pai e lhe dê atenção em momentos assim. Prometo que tais gestos de caridade irá lhe poupar todo o tipo de problema no futuro. Não seja como nosso pai.
Aqueles que já conheceram sua esposa – não importando o motivo – me disseram que ela é uma moça extremamente religiosa, educada e inteligente. Não tiveram nada extraordinário a dizer sobre sua beleza, apenas que ela é aceitável para uma princesa. Imagino que isso não lhe agrade, tão enfiado em seus próprios gostos e prazeres, porém você deverá engolir seu orgulho e fazer seu dever. Pelo bem da Inglaterra e da aliança com a Áustria, seu herdeiro com Clarissa deverá ascender ao trono um dia. Você e ela serão os progenitores de uma nova dinastia Herondale. Não há espaço para desejos pessoais quando o destino de nosso país está em jogo.
Alexander me escreveu. Ele não está muito feliz com você ou com sua amante e eu concordo com seus argumentos. Jessamine Lovelace é uma doença, uma víbora morando na Corte. Ela será um buraco em nossos cofres, uma fonte de luxúria e pecados. Ela não te ama, meu irmão. Ela ama seu título.
Eu entendo que os desejos dos homens são mais tenros que os das mulheres, assim como incontroláveis, mas Jessamine não é uma maîtresse-en-titre. Ela não merece nada mais do que seu reconhecimento. Seu corpo não é digno para esquentar a cama de um Príncipe herdeiro. Você deveria ter escolhido a filha de um Duque ou a esposa de um Marquês, até mesmo uma menina da cozinha saberia seu lugar e não tentaria escalar a sociedade em busca de coisas que não merece. Você deve expulsá-la da Corte e escolher uma nova mulher como sua favorita, alguma mais sofisticada e que não irá quebrar as regras.
Com amor,
Reina Cecília de la España
Jonathan sentiu seus dedos tremerem com a carta da Rainha. Fazia dois anos desde a última vez que ele havia visto Cecily, durante sua festa de despedida antes de sua jornada à Espanha onde iria se casar com o Rei, e a perda de sua irmã favorita ainda pulsava dentro de seu peito. Possuíam mães diferentes, mas Cecily tinha apenas um ano quando Céline de Montclaire chegou da França e deu a luz à Jonathan. Ela via a bela rainha como sua verdadeira mãe e brincava com Jonathan como Ella brincava com William. Eles trocavam cartas com frequência, pelo menos uma vez por semana, e não era a primeira vez que ela escrevia seu descontentamento com Jessamine.
Cecily costumava ser a única pessoa que conseguia convencer Jonathan a seguir seus desejos, seja roubar bolos na cozinha ou aterrorizar as babás, ela sempre sabia o que dizer para que ele abaixasse suas defensas e seguisse seus desejo, porém com Jessamine, tudo era diferente. Ele queria mantê-la perto, queria ouvir suas palavras doces e sentir seu toque afetuoso. Ninguém mais o tocava assim ou dizia palavras tão amáveis, ninguém mais desde que sua mãe morreu.
Após sua morte, um grande quadro recebeu muitos elogios pela pura emoção retratada pela pintura. O artista havia retratado um menino com cachos loiros e vestes elegantes chorando sobre a cama de sua mãe, morta durante o parto, enquanto seu pai o observava perto da porta, sem fazer nenhum gesto para consolar o garoto. Rumores começaram e terminaram sobre as identidades daqueles nobres, mas ninguém nunca descobriu que o menino era o jovem Duque de York e que seu pai era o Rei. O pintor havia vivido na Corte nos meses após a morte da Rainha.
Jonathan havia amado sua mãe com todo o seu coração. Quando ela morreu, tentando dar um terceiro filho para o rei, a rachadura que ela havia deixado para trás nunca se cicatrizou. Ela era gentil, havia feito o possível para transformar o frio Palácio de St James em uma casa e havia feito seu dever em dar um herdeiro homem ao seu marido, mas Stephen queria mais.
Ele queria mais filhos, mais herdeiros e mais controle. Era um velho ditado Herondale de que para manter uma esposa na linha, você deveria colocar um filho em sua barriga e Stephen VII seguia esse ideal com uma devoção quase religiosa. Quando ele sentiu que Céline estava escorregando por seus dedos, ele ignorou as recomendações médicas e a engravidou mais uma vez. Não conseguia viver sem a devoção e dedicação extrema de todos ao seu redor, mesmo que falsa. Ele exibia suas amantes, lhe dava presentes enquanto humilhava sua esposa, só para que ela soubesse que não poderia fazer nada contra. Que o mundo era controlado por reis e maridos e ele era ambos.
Céline havia chorado inúmeras vezes em seus aposentos, ignorando suas fiéis damas que queriam apenas o seu bem. Ela era jovem quando chegou na Inglaterra, acreditava na ideia de um marido perfeito que iria amá-la para todo o sempre. A realidade, no entanto, era muito diferente.
Sua atenção foi divergida para a moça deitada ao seu lado, beijando seu pescoço e correndo suas mãos por seu peito até chegar em sua virilha.
— Meu Príncipe está distraído — sussurrou a prostituta, seu cabelo caindo sobre seu rosto pálido. — Ele nem quis o Tratamento Real.
— Estou lendo uma carta de minha irmã — explicou Jonathan, colocando o papel de lado.
— Mesmo? O que ela disse? — ele tinha quase certeza que o nome dela era Daisy, ou Dolly. Alguma coisa com D.
— Curiosa, não? — questionou, se ajeitando na cama macia. Sendo o Príncipe herdeiro, ele tinha o direito à melhor cama do bordel assim como a melhor mulher. — Ela desaprova do meu relacionamento com Jessamine Lovelace.
— Mesmo? — perguntou Dolly. — Imagino que poucos aprovam, pelo o que dizem as fofocas.
— Você não está errada — disse Jonathan.
Dolly riu, enrolando os pelos no peito do Príncipe entre seus dedos, uma memória antiga passando por trás de seus olhos.
— O Duque de Buckingham gosta dela — murmurou. — Ele acha que ela é engraçada.
Jonathan suprimiu a vontade de revirar os olhos. É claro que o Duque de Buckingham gostava de sua amante, ele gostava de tudo em Jonathan que o rei não gosta e que possa fazê-lo ser retirado da linha de sucessão. Wayland era um dos herdeiros do trono afinal, já que sua avó era uma princesa Herondale, e ele ansiava pela chance de ser rei. Por anos, Jonathan considerava seu primo como um amigo, mas agora ele sabia da verdade.
— Você sabe de muitas coisas — comentou.
— Homens falam quando estão felizes — explicou, sorrindo. — Madame Belcourt gosta de saber das novidades.
— Não posso dizer que isso me surpreende.
Jonathan colocou suas mãos na cintura de Dolly e a puxou para seu colo, sentindo seu calor em sua parte mais sensível. Ele engoliu em gemido e deslizou seus dedos até seus seios, os pesando em sus mãos e apertando seus mamilos. Ela suspirou, jogando a cabeça para trás e afastando seus cabelos de seu tronco.
— Eu não gosto da Jessamine, no entanto — disse ela, mexendo seu quadril de um jeito conhecedor. — Ela sempre foi malvada comigo, agindo como se fosse destinada a coisas grandes, apesar de nós duas termos nascido e crescido aqui.
— O quê? — ele usou seus dedos para parar seus movimentos. Precisava pensar com clareza. — Jessamine nasceu aqui?
— Nasceu — respondeu, piscando seus olhos. Ela parecia surpresa por sua pergunta, como pensasse que todos tivessem o mesmo conhecimento que ela. — Você não sabia?
— Não. Pensei que fosse uma atriz. Eu a conheci em uma apresentação de Hamlet.
— Ela se tornou uma atriz — explicou, dando um sorriso conhecedor. — Depois que conheceu Nathaniel Gray. Ele a patrocinou, tanto no palco quanto na cama.
A boca de Jonathan se secou e seu coração se acelerou. Sentia dificuldade para respirar e era como se o quarto inteiro estivesse girando, sem controle pelo universo.
— Nathaniel Gray? — repetiu, lembrando-se do homem alto, loiro e intimidante que Jessamine havia apresentando como um velho amigo. — Ela o conheceu aqui?
— Sim. Jessamine se apaixonou por ele, disse que iria se casar e sair daqui. Pensei que tinha conseguido o que queria quando ele veio e pagou todas as suas dívidas. — ela tentou mexer seu quadril novamente e se inclinou, deixando seus seios a centímetros do rosto de Jonathan. Prostitutas não ficavam confortáveis em situações em que não são pagas. — Até que, três anos depois, ela apareceu nas conversas dos senhores como sua nova amante.
— Não acredito que ela mentiria para mim — disse.
Agora ele via, as rachaduras nas falas de Jessamine. Ela dizia que sua mãe havia morrido no parto e que seu pai tinha se perdido no mar quando navegou para o Novo Mundo em busca de um emprego melhor para mandar dinheiro para sua única filha. Ela não queria que ele conhecesse sua mãe, uma prostituta, ou revelar que não sabia quem era seu verdadeiro pai.
— Relaxe, querido — murmurou Dolly. — Ela teria arrumado um jeito de te fisgar, com ou sem a ajuda de Gray. Você é o homem mais desejado da Inglaterra e Jessamine não vai descansar até se tornar sua esposa.
♛
As mãos de Maia estavam frias, trêmulas e suadas enquanto agarravam os dedos cobertos por luvas de Clarissa.
— Eu não vou poder ir com você — disse. — Nunca deixariam uma negra ser acompanhante da princesa.
— Eu sei — sussurrou a Arquiduquesa, sua voz embargada e seus olhos cobertos por lágrimas. — Vou sentir sua falta, todos os dias.
Os criados entraram no quarto, pegando os baús e caixas cheios de roupas, jóias e sapatos que seriam levados para a pequena ilha no oceano Atlântico onde Clarissa iria morar pelo resto de sua vida. Eles a ignoraram, deixando que se despedisse pelo tempo que demorasse para guardar as coisas nas carruagens.
— Queria saber escrever para poder te mandar cartas — murmurou Maia. — Para te perguntar sobre o Príncipe, os ingleses e, quando a hora chegar, seus filhos.
O lábio inferior de Clarissa se curvou em um bico e ela abraçou sua velha amiga, aquela que nunca mais veria em toda a sua vida. Ela sabia que quando se casasse teria que deixar toda a Áustria para trás, levando apenas suas roupas, mas até mesmo isso seria destruído quando as costureiras inglesas começassem a lhe fazer vestidos e sapatos.
Os ombros de Maia tremiam com seu choro e as lágrimas desciam pelo rosto da princesa sem vergonha. Elas apenas se separaram quando as portas se abriram e uma voz grossa anunciou a chegada do Imperador e da Imperatriz.
— Não chore, Phina — disse Jocelyn. — Seu rosto fica inchado quando chora.
Clarissa arrastou seus dedos pelas bochechas e limpou suas lágrimas. Ela fez a reverência correta e apertou suas mãos na frente de seu corpo. Maia estava longe dali, obviamente indo chorar em algum canto escuro que apenas os criados conheciam.
— Viemos aqui nos despedir — murmurou o Imperador. — Se tudo der certo, nunca mais iremos te ver.
Ela odiava quando ele falava assim calmo, como se nada importasse no mundo além de seus desejos. A fazia se sentir pequena, tão miúda quando uma gota de tinta. Ele falava como se estivesse feliz que ela estava indo embora, como se não fosse sentir sua falta.
— Venha até aqui, Seraphina — pediu seu pai e ela obedeceu. Ele tocou em seu ombro e depois em sua bochecha. — Te ensinamos tudo que podíamos, mein tochter. Agora você estará por conta própria.
— A Corte inglesa não é como Viena — avisou a Imperatriz. — Todos os olhos estarão em você.
— Eu sei, mamãe — disse Clarissa. — Estou pronta.
Jocelyn sorriu e tombou a cabeça para o lado, seus pensamentos nublados por sua expressão neutra. Talvez ela estivesse se perguntando quanto tempo demoraria até que ela mandasse uma carta implorando para retornar ou se dissesse que sua filha não iria durar um ano na Inglaterra.
— Os ingleses não são extravagantes — disse seu pai. — Tome cuidado ou irá parecer fútil.
— Eu irei. Prometo. — Clarissa tentou sorrir.
Valentim beijou seu rosto e apertou seu corpo em um forte abraço. Sussurrou em seu ouvido, prometendo escrever toda semana e beijou sua bochecha mais uma vez.
— Você serviu à Áustria muito bem, Seraphina Morgenstern — ele disse, tocando em seus ombros. — Agora, a Inglaterra precisa de você.
O abraço da Imperatriz foi menos carinhoso, mais duro. Ela nunca havia esquecido da decepção em dar à luz a uma menina, especialmente depois de ter perdido três de seus quatro filhos homens. Frias eram as rainhas com suas filhas.
— Engravide dentro de um ano e você será considerada uma vitoriosa — prometeu, ajeitando seus cachos e limpando seu vestido azul de sujeiras invisíveis.
— Sim, mamãe.
Clarissa não iria se despedir de seu irmão. Não havia nenhum amor entre os filhos do Imperador.
Ela andou atrás de seus pais até a entrada do Palácio de Schönbrunn, ignorando as damas e senhores austríacos que sussurravam sua partida. Durante toda a sua vida, ela vivia escondida sob a magnitude de seu pai e nunca havia sido alvo de fofocas, ninguém ousaria fazer isso com a filha do homem mais poderoso da Europa continental. Agora, ela se perguntava sobre o que eles diziam, será que confiavam em sua destreza ou imaginavam míticas criaturas inglesas a devorando viva no jantar?
Não importava. Clarissa iria ter sucesso. Ela iria ter filhos e filhas que se casariam em outras famílias reais e outros países do mundo, lhe dando muitos netos e bisnetos. Seu marido iria amá-la e ela se tornaria a Rainha da Inglaterra, sendo a mulher mais bonita e importante de todo o reino. Ela havia prometido ao seu pai que seria boa.
O tempo estava aberto e fresco quando desceu as escadas de um dos Palácios de sua família, solitária em sua ida até a carruagem elegante e azul. Ela iria ser levada até a França onde seu avô, o rei Granville II, havia prometido recebê-la e supervisionar sua jornada de barco até seu novo lar.
Um homem a ajudou a entrar na carruagem e ela olhou pela janela para os degraus, onde seus pais estavam. Suprimiu a vontade de lhe dar um último aceno e preferiu olhar para os jardins ao seu redor, tentando gravá-los na memória. Clarissa nunca havia renunciado seus direitos ao trono austríaco. Um de seus filhos ainda poderia reinar nessas terras.
Talvez fosse por isso que os ingleses a queriam.
Suspirando, ela pegou seu colar e abriu o pingente, vendo o lindo rosto de seu marido. Ele era elegante, sério e preparado para as batalhas de um rei. Seu coração doía apenas em ver seu retrato e imaginava que iria desmaiar quando o visse em pessoa, tão perto de si e o calor irradiando de seu corpo. Ela mordeu o lábio e traçou seu dedo por sua bochecha rosada, sentindo a tinta tocando em sua pele.
Estou indo, Jonathan. Estou indo, meu amor. Espero que goste de mim.
♛
— Ele vai me dispensar — murmurou Jessamine, olhando para fora da janela de seu quarto. — Eu sei que vai.
Nathaniel, jogado em seu sofá, levantou o rosto ao ouvir suas palavras. Ele estava relaxado, comendo brioches e quase caindo no sono nas almofadas caras.
— Mesmo? — perguntou. — Por que acha isso?
— Ele está distante desde que conversou com Norfolk — explicou. — Vai aos bordéis quando precisa do calor feminino e está falando mais sobre sua noiva.
— Ele é um homem — disse. — Homens são estranhos por algum tempo e depois voltam a ser o que eram. Dê lhe alguns dias, aprenda movimentos e posições novas. Atice sua curiosidade.
— Como? — ela andou até ele, sua saia se arrastando pelo chão. — Sabe o que dizem sobre ele. Em um minuto ele é quente, no outro ele é frio. Jonathan me tem agora, mas nada me promete que irá me manter.
— Porque você é burra — disse Nathaniel, se ajeitando no sofá. Seus olhos eram claros e lindos. — Eu lhe disse para te assegurar um título, uma mesada e uma posição na sociedade.
— Apenas o Rei pode dar um título e ele não é o Rei — respondeu ela, sabendo que todo o resto viria com um ranque de nobreza. — Aquele velho rabugento é.
— Jessie, Jessie, Jessie — sussurrou Nate, o tom de desapontamento estampado em sua voz. — Você é uma mulher habilidosa. Conseguiu o Príncipe, pode conseguir o rei. É só querer.
— Você queria que eu me tornasse a amante do Príncipe — acusou, apontando um dedo longo para o homem. — Eu só queria me casar e sair daquele lugar infernal.
Nathaniel bufou, jogando sua cabeça ainda mais para trás. Era em momentos assim que ele mais se parecia com o homem que ele era três anos antes, irritado e determinado a conseguir o que queria. Jessamine havia prometido seu corpo e alma para ele e, em troca, havia sido dada para o Príncipe em uma bandeja de ouro.
Tudo era um plano complicado de sua mente insana. Nascido em uma família americana e pobre, sempre havia ressentido o fato de não ser um nobre ou um membro da elite. Exilado de sua terra natal, ele trabalhou duro até conseguir o mínimo de dinheiro para ter uma vida decente, porém, como todos os homens, ele tinha necessidades e foi assim que ele conheceu Jessamine.
— Sua posição não é certa na Corte — disse ele, cruzando suas pernas. — Você não é a Arquiduquesa Clarissa, não é uma princesa de um grande reino que pode se casar com qualquer homem da Europa com uma família influente. Uma simples febre pode abater nosso amado Príncipe e você será expulsa do Palácio aos pontapés.
— Mas eu queria me casar com você — sussurrou Jessamine, desesperada. — Eu te amava.
— Eu nunca te disse para me amar, disse? Era apenas sexo. Ainda é.
Lágrimas chegaram aos olhos dela e seu peito ardeu por dores não sentidas. Sua mãe sempre havia lhe dito que lágrimas significam menos moedas para Madame Belacour e a havia ensinado a chorar para dentro, não mostrar dor mesmo com o mais violento dos clientes. Essa era a vida das prostitutas e amantes.
— O que sugere que eu faça? — perguntou, arrastando suas mãos por seu vestido. O tecido caro e elegante a fazia se lembrar de onde estava, de que estava segura. — Para assegurar minha posição na Corte.
— Faça o que as mulheres fazem de melhor: abra suas pernas e engravide do Príncipe — disse. — Jonathan é um homem honrado, apesar de tudo. Ele vai te dar uma casa boa para morar com a criança e, se for um menino, ainda melhor. Leis podem ser mudadas para que ele ascenda ao trono, caso o casamento com Clarissa não dê frutos.
— Não — murmurou Jessamine. — Ele só vai encontrar uma outra princesa para se casar e ter seus filhos, como seu pai.
— Não importa — cuspiu Nate. — Um filho bastardo pode lhe dar dinheiro e segurança pelo resto de sua vida.
As mãos de Jessamine tocaram em sua barriga, reta e vazia. Ela nunca quis filhos, não era um desejo que vivia na parte de trás de sua cabeça, sempre presente. Madame Belacour havia lhe ensinado como prevenir uma gravidez e ela sempre usava seus métodos com o Príncipe. Não seria difícil parar com esse hábito.
Ela imaginou um menino, loiro e sorridente com dedos gorduchos e sorriso fácil em seus lábios rosados, a seguindo pelo castelo e sussurrando mama, mama. Um FitzWales poderia salvar sua vida, assim como arruiná-la.
— Tudo bem — disse. — Eu irei engravidar do Príncipe.
— Ótimo — comentou Nathaniel. — Seja rápida dessa vez. A chegada de Clarissa pode acabar com a sua posição na Corte, especialmente se todos a amarem.
— Você não precisa me dizer isso. Eu já sei.
— Pelo menos, você é bonita — murmurou. — Todos os rumores sobre Clarissa dizem que ela é baixa, magra e com uma aparência infantil. Imagino que Jonathan irá se sentir um criminoso quando entrar em sua cama.
— Não fale assim — pediu, fechando seus punhos e seus olhos, tentando afastar a imagem de sua mente.
— Estou te chateando? Me perdoe. — o tom de Nathaniel era zombativo e havia um sorriso maldoso em seu rosto. — Ainda precisamos discutir o que fazer com o Rei.
— O Rei? — questionou ela, se virando para ele. — Como assim o que fazer com o Rei?
— Ah, você não espera que ele vai permitir que você continue exibindo seu relacionamento com Jonathan quando a esposa dele chegar, espera? Ofender Clarissa seria como ofender a Áustria inteira.
Jessamine não respondeu, seu queixo caído. Ela realmente esperava isso.
— O que está planejando?
Nathaniel se levantou e tocou em um dos cachos dela, enrolando a mecha loira em seus dedos.
— Amanhã, eu irei no boticário e irei comprar algo que, em altas doses, deixará o Rei doente e fará com que seu amante se torne o novo Rei.
O fôlego deixou o peito de Jessamine e ela sentiu-se vertiginosa, o quarto rodando e rodando. Não sabia o que dizer, como reagir com as palavras de Nathaniel.
Isso era um crime. Isso era traição. Ele poderia ser executado se descoberto e ela suspeitava que ele não se importava nenhum pouco.
— Vamos ver se você não ganha o título que merece agora — comentou.
Antes que ela pudesse responder, as portas de seu quarto se abriram e quatro criadas apareceram. Como não havia nenhum nobre na sala, elas não fizeram uma reverência e continuaram com seus afazeres. Seus dedos habilidosos começaram a pegar os vestidos de Jessamine de seu armário e os colocaram dentro de baús, tomando cuidado para não rasgar ou manchar nenhum.
— O que pensam que estão fazendo? — exigiu a favorita do Príncipe.
— Ordens de Sua Alteza Real — disse uma delas, sem olhar para cima. Os serventes só poderiam falar quando a palavra era dirigida à eles. — Devemos guardar suas coisas e carregar as carruagens.
— O quê? — perguntou, fazendo uma careta. — Por quê?
— Você está sendo realocada para a Casa de Buckingham em Londres — respondeu uma segunda criada, erguendo seu rosto sardento e pontudo. — Ordens do Príncipe Jonathan Christopher de Gales.
Fale com o autor